domingo, 6 de outubro de 2013

A classe média vai ao SUS em busca do paraíso‏

A classe média vai ao SUS em busca do paraíso Para realizar o sonho da maternidade, casais de maior poder aquisitivo têm cada vez mais procurado serviços de reprodução assistida como o do HC/UFMG. Na rede privada, tentativas custam até R$ 20 mil 

Valquiria Lopes

Estado de Minas: 06/10/2013


A unidade pública tem qualidade reconhecida, mas pacientes ainda arcam com custo de medicamentos (Jair Amaral/EM/D.A.Press )
A unidade pública tem qualidade reconhecida, mas pacientes ainda arcam com custo de medicamentos

Três anos de espera e uma tentativa sem sucesso estão sendo substituídos pela expectativa de que a cegonha chegue em breve à casa da médica Fernanda Gomes dos Reis, de 36 anos. Por lá, o clima é de torcida pelo sucesso da próxima fertilização in vitro, marcada para este mês no Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte. O preparo do quarto do bebê também é aguardado pela fisioterapeuta K.N.F.M, de 35. Ela acabou de ser chamada pelo HC para dar início ao processo de reprodução assistida, após três anos e meio na fila. Unidas a essas mulheres pelo sonho da maternidade, a consultora hospitalar Lisete Beatriz Nunes Bárbara, de 35, e a analista de recursos humanos Poliana Nara Moreira Castro, de 33, passarão por nova tentativa de engravidar. Em comum, Fernanda, K., Lisete e Poliana têm mais do que a vontade de ser mães. As quatro, com dificuldade para engravidar naturalmente, fazem parte de um grupo da classe média que trocou os tratamentos particulares de alto custo pela busca do sonho da maternidade na rede pública. Com os maridos, estão em uma fila de mais de 1,2 mil casais que aguardam o procedimento na única unidade do estado a oferecer a reprodução assistida gratuita. Para lidar com a espera, se apoiam no exemplo de quem percorreu todo o caminho com sucesso, como a assistente administrativa Fernanda Lemos, de 24, que comemora o sétimo mês de gravidez.

A inspiração é importante, principalmente porque as pacientes sabem que o tempo é o maior inimigo no processo, já que as chances de engravidar diminuem com a idade. Mas outro motivo que as encoraja é não se disporem mais a pagar os valores cobrados na rede particular. Nas poucas clínicas em Belo Horizonte que trabalham com reprodução humana assistida, o atendimento é imediato, mas os valores variam de R$ 15 mil a R$ 20 mil por tentativa de fertilização in vitro (veja características das técnicas na página 22), independentemente do sucesso.

O preço inclui gastos com medicação, cerca de 25% do total do tratamento. Mesmo na rede pública, os pacientes precisam arcar com o valor dos remédios, que custam de R$ 3 mil a  R$ 5 mil. “Estamos tentando engravidar há 10 anos. Nesse período, passamos por duas inseminações na rede particular e duas fertilizações in vitro e já investimos cerca de R$ 13 mil”, conta Lisete. A consultora reconhece a comodidade da rapidez nas clínicas privadas, mas diz que continuar o tratamento pago implicaria a venda de bens da família. “Teríamos que abrir mão de algumas conquistas e, por isso, preferimos aguardar na rede pública”, diz Lisete, que tem o aval do marido na decisão.

Antes de buscar o Hospital das Clínicas,  Poliana Castro também já tinha sentido nas finanças da família o custo do tratamento, gastando pelo menos R$ 15 mil na primeira tentativa de fertilização in vitro na rede particular. “Precisamos vender o carro, mas ter um filho é um sonho e, para isso, vale a pena”, diz Poliana. Além do fator financeiro, o marido dela, Rodney Passagli, de 37, lembra o desafio psicológico do processo. “O impacto emocional é muito grande, principalmente para a mulher. Parece que a vida da gente para por um tempo”, diz.

Como eles, há cerca de 2,5 mil casais inscritos para fecundação in vitro no Laboratório de Reprodução Humana Aroldo Fernando Camargos, do HC/UMFG. Destes, 1,3 mil já foram chamados. O restante espera uma vaga. Nesse universo, antes quase todo formado por casais de baixa renda, torna-se cada vez mais frequente a presença de pessoas com maior poder aquisitivo, como informa o subcoordenador da unidade, Francisco de Assis Nunes Pereira. “Há pacientes que relatam terem passado pela iniciativa privada e, diante da impossibilidade de continuar a pagar, se inscrevem na fila da rede pública”, explica. Na lista dessas novas pacientes, segundo ele, há advogadas, médicas, arquitetas, engenheiras, entre outras profissionais.

Uma delas é a fisioterapeuta K., de Itaúna, na Região Central de Minas. Com o marido, o empresário A., de 36 anos, ela já investiu cerca de R$ 10,5 mil na esperança de ouvir o chorinho de bebê em casa. Unidos há sete anos, desde 2008 eles tentam engravidar. Em uma clínica particular da capital, arcaram com os custos de dois procedimentos para reversão de vasectomia e uma inseminação artificial, mas não obtiveram sucesso. Depois de três anos na fila do HC, foram chamados na terça-feira para a primeira reunião sobre a técnica da fertilização in vitro.

O casal pretende fazer apenas uma tentativa no HC, por dois motivos: o estresse do processo e o custo da medicação. Pelo menos terão uma chance, já que não teriam condições de pagar pela fertilização na rede particular. “Se não tivéssemos a rede pública, já teríamos desistido. O tratamento é muito caro”, afirma K. Durante a conversa nos corredores do HC, o marido lembra que a irmã dele já gastou mais de R$ 50 mil com tentativas de engravidar. “Não temos condição de fazer o mesmo.”

No caso da médica Fernanda Gomes dos Reis, de 36, foi a certeza da qualidade do serviço na rede pública que pesou na decisão de entrar na fila do HC. Durante os três anos de espera, ela e o marido tentaram sem sucesso a gravidez natural. A médica já passou por uma fertilização in vitro no HC, que não foi bem-sucedida. Agora, prepara-se para implantar embriões que foram congelados na época da primeira intervenção. “Se não der certo, ainda tenho mais duas tentativas. Trabalho na saúde pública e conhecia um pouco do serviço e da qualidade. O fator financeiro também pesou na hora de fazer a escolha pelo HC, pois os valores cobrados nas clínicas particulares são muito elevados”, afirma a médica.
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Onde pousa a cegonha

Confira o passo a passo para ter acesso aos serviços de fertilização

NA REDE PÚBLICA DE BH

>> O casal que tem dificuldade para engravidar deve procurar o serviço público de saúde para se consultar. O primeiro passo é se dirigir ao posto de saúde de sua região
>> Constatada a infertilidade, é feito encaminhamento ao PAM Sagrada Família, onde o casal passa por exames e avaliação
>> No Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas (HC) os candidatos fazem novos exames e dão início aos tratamentos
>> O protocolo de atendimento exige que seja cumpridas todas essas etapas. Não é possível recorrer diretamente ao HC
>> Apesar de o tratamento ser gratuito, os pacientes precisam bancar o custo da medicação, em torno de R$ 5 mil, por tentativa
>> A espera no HC dura até três anos

NA REDE PARTICULAR
>> A marcação é feita diretamente nas clínicas. O atendimento é pago e imediato

REPRODUÇÃO ASSISTIDA GRATUITA NO BRASIL

>> Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte
>> Hospital das Clínicas de São Paulo
>> Hospital Pérola Byington, em São Paulo
>> Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP)
>> Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre
>> Hospital das Clínicas de Porto Alegre
>> Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira, em Recife
>> Maternidade Escola Januário Cicco, em Natal
>> Hospital Regional da Asa Sul (HRAS), em Brasília


O sonho não está na tabela 
Médico explica que filas enfrentadas no setor público pelos casais que querem engravidar se devem à falta de remuneração pelo SUS para procedimentos de reprodução assistidas

Valquiria Lopes




Reserva de recursos garante o trabalho da equipe do Laboratório do Hospital das Clínicas, mas escassez limita o atendimento (Jair Amaral/EM/D.A.Press )
Reserva de recursos garante o trabalho da equipe do Laboratório do Hospital das Clínicas, mas escassez limita o atendimento

É grande o abismo que separa o número de atendimentos de reprodução assistida nas redes pública e particular. Mesmo com cobrança de valores elevados, as cerca de 3 mil fertilizações in vitro pagas anualmente nas clínicas privadas superam em até 1.400% os 200 procedimentos feitos em média no serviço público a cada ano. A dificuldade de ampliar o atendimento gratuito ou de oferecer a medicação às pacientes vem da falta de recursos específicos para o programa, como explica o subcoordenador do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas, Francisco de Assis. Segundo ele, o Sistema Único de Saúde (SUS) não tem em sua tabela a previsão de verbas para reprodução assistida. Todos o trabalho feito em nove hospitais universitários e maternidades no Brasil é custeado por uma reserva de recursos globais que são destinados às unidades pelo Ministério da Saúde.

“Se houvesse um código de pagamento para reprodução humana, assim como há para cirurgias, consultas e outros procedimentos, seria possível ampliar a oferta. Como o SUS não tem essa destinação específica, o serviço fica limitado”, explica o subcoordenador. Em 2011, a direção do HC encaminhou um projeto ao Ministério da Saúde pedindo a inclusão do tratamento na remuneração do setor púbico, mas ainda aguarda atendimento.

INVESTIMENTO Mesmo com a oferta do procedimento no serviço público, quem se submete ao período de dois a três anos de espera no HC precisa ter dinheiro em caixa. Para custear as injeções de hormônios que estimulam a ovulação e outros medicamentos, os casais precisam reservar entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. “O valor é alto e afasta do tratamento quem não tem esse recurso”, diz a analista de recursos humanos Poliana Nara Moreira Castro, de 33 anos, que deixou a rede particular para tentar engravidar com o tratamento na rede pública.

O procedimento ainda mais caro no setor privado também afastou a assistente administrativa Fernanda Lemos das unidades particulares. Ela e o marido aguardaram por dois anos na fila do HC e hoje se preparam para receber o fruto da espera e do esforço. “Foram seis meses de tratamento e graças a Deus conseguimos na primeira tentativa”, diz o marido de Fernanda, Cláudio Lemos, de 48. Ela celebra a gravidez e diz que a filha é um presente muito esperado. Sobre a fertilização no HC, o casal só tem elogios. “Fomos muito bem tratados e toda a equipe é muito profissional”, atestam.

CUSTOS Apesar de serem considerados caros pela população, os preços da reprodução assistida na rede particular não são abusivos, de acordo com o médico Francisco de Assis, do HC. Ele explica que a rede pública é uma saída para quem não tem condições para arcar com todo o tratamento, mas que os valores nas clínicas privadas são justos.

A ginecologista Érica Becker, da clínica Pró-Criar Medicina Reprodutiva, explica as razões do custo elevado. “A reprodução assistida requer tecnologia de ponta, insumos e materiais caros e quase sempre importados, além de mão de obra especializada”, diz. Segundo ela, embora a formação de profissionais em reprodução humana esteja crescendo, a oferta de funcionários, incluindo médicos, biólogos e enfermeiros, entre outros, ainda é pequena.

Da experiência do dia a dia, a médica diz observar dois fluxos no atendimento. Um deles é o de casais que se cansam de esperar na fila do serviço público e, pela ansiedade em engravidar, pagam pelo tratamento particular. “Mas há também quem esgota as fontes de recurso e parte para o tratamento no serviço público.”

Uma alternativa encontrada pela clínica para ampliar o acesso ao tratamento foi a criação de um programa de descontos que leva em consideração a renda do casal. De acordo com o rendimento, eles podem ter até 50% de desconto no serviço de fertilização in vitro, que chega a custar R$ 15 mil. “O casal passa por uma avaliação socioeconômica detalhada e pode fazer o tratamento em até três meses”, afirma a médica. Atualmente, cerca de 13% dos atendimentos realizados pela clínica são feitos pelo programa, que teve início em 2007. Segundo ela, as taxas de sucesso de gravidez nos procedimentos chegam a 60% na faixa etária em torno dos 35 anos.

SEM PREVISÃO O Ministério da Saúde informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que em alguns serviços da Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida, o tratamento é totalmente oferecido pelo SUS, via financiamento das secretarias estaduais e municipais de Saúde, recursos de pesquisas e emendas parlamentares. O financiamento também pode vir do próprio recurso repassado aos hospitais.

Em outros serviços, somente parte do tratamento é oferecido pelo SUS. O ministério informou também que tem feito estudos sobre técnicas, insumos e medicamentos que devem ser incorporados ao sistema público, a fim de atender casos de infertilidade ou de doenças infectocontagiosas e genéticas. Mas ainda não há previsão de implantação.


HISTÓRIA DA REPRODUÇÃO ASSISTIDA

25 de Julho – 1978 - Nasce em Manchester, na Inglaterra, Louise Brown, o primeiro bebê de proveta do mundo
1983 - Nasce o primeiro bebê de proveta no Brasil. Foi o primeiro nascimento usando óvulos doados
1984 - Nasce, na Austrália, o primeiro bebê após descongelamento de embrião
1987- Primeiro nascimento após o uso de óvulo congelado
1989 - Nasce o primeiro bebê de proveta de Minas Gerais
1993 - Primeira fertilização pela técnica de  injeção intracitoplasmática de espermatozóides
2003 - Nasce o primeiro bebê pela técnica de útero de substituição (popularmente conhecida como barriga de aluguel) em Minas Gerais
2004/Maio - Avó dá à luz pela técnica de útero de substituição em Minas Gerais
2008/Maio - Primeiro nascimento (gêmeos) com óvulos congelados em Minas Gerais
Fonte: Clínica Pró-Criare Reprodução Assistida

TIRA-DÚVIDAS
O que é infertilidade?
>> Incapacidade de engravidar após pelo menos um ano de tentativas, sem o uso de métodos contraceptivos e com atividade sexual regular (pelo menos duas relações sexuais por semana com intervalo de 2 a 3 dias). Há casais que não têm dificuldades em engravidar, mas apresentam perdas recorrentes do bebê.

Qual é a taxa de infertilidade entre a população brasileira?
>> Normalmente, 85% dos casais alcançam uma gravidez após um ano e meio de tentativa (12 a 18 meses) sem uso de métodos contraceptivos. Após esse período, 15% dos casais precisam de assistência médica especializada.

Qual é a parcela dos fatores masculino e feminino para infertilidade?
>> A mulher contribui com 40% das causas e o homem é responsável por outros 40%. Os 20% restantes têm origens mistas. 

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » Amadurecendo com as pedras‏

Estado de MInas: 06/10/2013 



Do lado de fora da casa, umas pedras. Muitas pedras. E de muitos tamanhos. Estamos chegando à casa-ateliê de um escultor. Há também flores. Pedras e flores. E o amor-perfeito, que floresce bem no inverno aqui em Bento Gonçalves. Entramos nessa casa (fora da cidade) e damos de cara com um estúdio onde estão expostas obras de Bez Batti. Os amigos o chamam de João, seu primeiro nome.

Cabelos brancos, simples. Dizem que foi carteiro. Conheciam-no apenas como o carteiro João. Mas era um condenado à arte. As pedras o olhavam. Ele olhava as pedras. Havia uma tensão amorosa entre eles. Um dia se encontrariam como a pedra e a água que se moldam na correnteza do rio.

Ontem ele esteve ao meu lado, calado, assistindo à abertura do Festival Internacional de Poesia (em que homenagearam Marina Colasanti). As coisas sucediam no palco, poetas, atores e mímicos se apresentavam e ele estava ali ao meu lado, mas eu não conhecia suas obras. Erro meu. Tenho errado muito com meus desconhecimentos.

Agora em sua casa/ateliê, constato: é um escultor visceral. E modesto. Trabalha no duro, sobre o dificílimo, nesta pedra chamada basalto de cor escura, na verdade quase intrabalhável. Ele diz que os egípcios esculpiam essa pedra enquanto os gregos preferiam o mármore. Mas o mármore é frágil, as esculturas gregas têm marcas dessa destruição temporal.

Andando por seu ateliê vendo a transformação que opera sobre a matéria bruta, falamos sobre arte. Surpreendo-me: vejo sobre a mesa o exemplar do O enigma vazio, que furtivamente autografo para ele. Guimarães Rosa dizia aquela frase (que o Israel Vargas colocou em sua tese sobre física nuclear: “Quem mói no aspr’o não fantaseia”). A frase tem sabedoria, mas, tirada do contexto, pode ser contestada: o escultor que trabalha no “aspr’ o” também “ fantaseia” que nem o poeta.

E Bez Batti, desanimado diante do que apresentam como arte nas galerias e bienais, me pergunta:

– Você acha que ainda pode haver um novo Renascimento?

Questão prenhe de dilacerações. Como seria bom que as artes conhecessem novo florescimento! Como seria bom que saíssemos desse “nonada” em que as artes se meteram no século 20 e redescobríssemos o passado, como fizeram os mestres do Renascimento!

Bez Batti ama Matisse. Também acha que Picasso pilhava obras alheias. Lembrei-me daquela frase de Picasso: “Não procuro, acho”. Claro, ele via o que Matisse, Juan Griz e Cézanne estavam fazendo e fazia sua “releitura”. Com talento, claro.

O que um poeta pode aprender com um escultor? Quais as lições da pedra?

Um dia, junto com Rubem Braga, visitei o ateliê do escultor gaúcho Francisco Stockinger. E esse disse uma coisa que gravei: as pedras amadurecem. Há pedras verdes e maduras. O problema é que temos pouco tempo de vida para ver as transformações milenares da pedra. Uma vez, no Deserto do Atacama, no Chile, contemplei abismado as pedras que ali estavam amadurecendo há milhões de anos. Quando eu desaparecer, elas continuarão sua intemporal trajetória.

Bez Batti nos mostra algo assombroso. Uma pedra de milhões de anos que tem dentro de si uma poça d’água. Exatamente. Por sortilégios vários a água filtrou-se pedra adentro e ficou ali retida. Assombroso: uma pedra com água dentro. A água se move atrás da superfície polida da pedra. Há milhões e milhões de anos. O líquido e o sólido num só corpo.

Olho aquilo. Tomo a pedra com água dentro em minhas mãos. É metáfora viva, a convivência dos opostos e dos elementos complementares. A pedra tem lições a dar mesmo nos desertos. A água nos dá sempre lições de vida, com seus ventos e tormentos. E prossegue nos esculpindo.

Novos brasilianistas‏ - Ana Clara Brant

Muda o perfil dos especialistas no exterior. Em lugar dos típicos gringos, surgem brasileiros que se dedicam a temas variados, de Machado de Assis ao tropicalismo, passando pelo MST



Ana Clara Brant


Estado de Minas: 06/10/2013 



João Cezar de Castro Rocha fez mapeamento inédito dos brasilianistas brasileiros que estudam a literatura nacional (Rogério B. Huss/FLIP)
João Cezar de Castro Rocha fez mapeamento inédito dos brasilianistas brasileiros que estudam a literatura nacional


O termo brasilianista costumava se referir ao estrangeiro que estuda o Brasil ou é especializado no país. De uns anos para cá, o perfil desse profissional mudou, o que torna necessário rever a expressão. “Foi-se o tempo em que o estudioso/historiador era aquele típico gringo, a grande maioria norte-americanos, sem domínio total da nossa língua. Nos anos 1970 e 1980, a proporção de estrangeiros que estudavam nosso país era de 95%. Justamente por isso, implicava um olhar até exótico sobre o Brasil. Hoje, há uma novidade: o crescimento considerável de brasileiros radicados no exterior que se interessam pela terra de origem”, avisa o professor associado de literatura comparada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) João Cezar de Castro Rocha.

Ele realizou diagnóstico atual da pesquisa em literatura brasileira produzida em universidades no exterior e conseguiu um mapeamento inédito dos chamados brasilianistas brasileiros que estudam nossa literatura.

Boa parte desses pesquisadores se constitui naqueles que foram fazer mestrado ou doutorado fora e por lá ficaram, sobretudo nos Estados Unidos, país com extenso número de universidades, bibliotecas e melhores condições financeiras. “Os laços entre instituições norte-americanas e a academia brasileira se estreitaram muito nos últimos anos. Há uma noção melhor no estrangeiro sobre a qualidade do pensamento e da pesquisa no Brasil. Por um lado, isso é reflexo da maior circulação de brasileiros no exterior. Por outro, cria-se círculo virtuoso: mais conhecimento sobre o Brasil produz mais curiosidade e interesse também”, opina o carioca Bruno Carvalho, professor assistente no Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Princeton. Ele está escrevendo livro que relaciona as Minas Gerais de Cláudio Manuel da Costa e a Virginia de Thomas Jefferson.

Autocentrado

Há anos em território norte-americano, onde é professora de literatura brasileira na Universidade de Stanford, na Califórnia, a paulista Marilia Librandi Rocha nota que há sim um crescimento da presença brasileira no câmpus onde trabalha, seja de colegas professores visitantes, de alunos de pós-graduação ou da graduação. No entanto, segundo ela, a maioria fica curto período de tempo. “E o Brasil pode ser tema de seus estudos ou não. Só o fato de sair do Brasil e desenvolver sua pesquisa (sobre qualquer tema, nacional ou não) faz muito bem para a internacionalização do país, em geral muito autocentrado”, diz. Marilia, que no momento prepara o livro Escritas de ouvido, sobre a prosa de ficção moderna brasileira, de Machado de Assis a Hilda Hilst, revela que não se vê necessariamente como brasilianista.

“Fora do Brasil, é útil ser reconhecida assim, pois na função de professores nativos somos chamados a representar o país, um pouco como embaixadores culturais. Ao mesmo tempo, somos levados também a vincular os estudos sobre o Brasil ao mundo exterior, sobretudo a América hispânica, aos países lusófonos e também, claro, aos Estados Unidos, Europa e outros continentes”, acrescenta.

Esforço enriquecedor

Mineiro de Belo Horizonte, Gustavo Furtado é professor de estudos luso-brasileiros na Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA). Foi para lá como imigrante, em 1994, e só depois de legalizado formou-se e conseguiu bolsas de estudo. Gustavo, que se interessa bastante pela produção audiovisual brasileira, admite que, a princípio, o termo brasilianista o incomodou. Mas de qualquer forma, segundo o professor, na prática, o termo designa um papel pedagógico na universidade americana.

 “O fato é que, como pesquisadores, temos áreas de conhecimento e interesse bem específicas, assim como os professores universitários no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Mas como professores temos que fazer uma performance mais ampla e complexa – até porque, se não o fizéssemos, não teríamos alunos. Um especialista na narrativa contemporânea acaba tendo que ensinar cursos sobre Machado de Assis ou sobre o cinema novo, por exemplo. Isso reflete o fato de que muitos departamentos de romance languages and literatures ou romance studies (que combinam estudos de literatura e cultura nas línguas latinas) têm só um ou dois brasilianistas, que naturalmente têm que oferecer ampla grade de cursos”, analisa. Gustavo acrescenta que isso acaba implicando grande esforço, especialmente no começo da carreira acadêmica, mas é também experiência enriquecedora. “Enfim, ainda que eu veja o termo com certa distância irônica, o brasilianismo é a realidade da distribuição de trabalho na universidade norte-americana”, conclui.

Outro brasileiro radicado nos EUA é o carioca Pedro Rabelo Erber. Professor assistente de estudos brasileiros na Universidade de Cornell, em Ithaca, Nova York, ele também vê um aumento de compatriotas lecionando temas relacionados ao Brasil em universidades norte-americanas. Com relação ao termo brasilianista, acredita que, no contexto institucional em que está inserido, desempenha sim este papel, o que, de acordo com o professor, inclui não só o ensino de literatura, história, arte e política brasileiras, como a administração do currículo universitário relacionado ao Brasil no nível interdepartamental.

Armadilha

Curioso é que o escopo de interesses desses pesquisadores é bem diversificado. Passa por Machado de Assis, literatura indígena, cinema marginal, arte contemporânea, MST, tropicalismo, cinema novo e até poesia concreta. “Acho que o traço comum mais forte entre nós é termos um pé em cada hemisfério do continente intelectual americano, participarmos ao mesmo tempo do debate acadêmico no Brasil e nos Estados Unidos”, acrescenta Pedro Erber. Para ele, há vantagens e desvantagens em ser brasilianista brasileiro e elas se equilibram. Se por um lado a facilidade com o português ajuda, em contrapartida o pesquisador brasileiro tem que chegar a um nível de proficiência na língua estrangeira em que trabalha que também requer muito esforço.

“Um dos desafios é não sucumbir à tentação de se colocar no papel de informante nativo, de ‘explicar o Brasil’ aos estrangeiros. É uma expectativa recorrente na universidade americana, que é preciso frustrar. Pois é também uma armadilha. É importante se posicionar em relação a temas brasileiros como pesquisador e não como brasileiro. Nesse sentido, o próprio aspecto contraditório da ideia do brasilianista brasileiro torna-se produtivo, pois recorda essa tensão entre o sujeito e o objeto da pesquisa”, explica.

Dimensão plural


A maioria dos especialistas está nos Estados Unidos, mas a Europa também concentra parte significativa deles, principalmente França, Alemanha e Inglaterra. Professor de literatura brasileira no Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade Paris-Sorbonne, o paulistano Leonardo Tonus revela que não há uma semana em que não se fale do Brasil na França, e que, além do boom econômico dos últimos anos, os grandes eventos culturais, esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, e o trabalho que a Embaixada Brasileira vem promovendo no país contribuíram para toda essa visibilidade e interesse.

Leonardo lembra também que a facilidade de intercâmbios e o encurtamento das distâncias ampliaram o fluxo de pesquisadores tupiniquins na Europa. Mas, ao contrário dos Estados Unidos, a coisa por lá é mais complexa. “A chegada de um brasileiro a uma universidade europeia não é simples. Ele precisa dominar perfeitamente o idioma, tem que se integrar na comunidade; há vários crivos. As exigências são maiores. Em todo caso, acho muito interessante ser esse brasileiro com olhar externo. Acho que o deslocamento geográfico ajuda a ter outra percepção. Talvez seja até o nosso diferencial”, frisa Leonardo, responsável também pelo blog de estudos lusófonos etudeslusophonesparis4.blogspot.com.br.

Vivendo na Dinamarca há cinco anos, onde a comunidade brasileira não é grande mas significativa, o professor associado de estudos brasileiros na Universidade de Aarhus, o carioca (de família de mineira) Vinicius de Carvalho considera desafiador e ao mesmo tempo motivador ser brasilianista naquele país. “O que acho interessante é que, de uma perspectiva das ciências sociais, vamos alargando os horizontes de estudar o Brasil para outras áreas das ciências humanas. Com isso, a definição do termo brasilianista também vem se alargando e dando dimensão muito plural a esse grupo de estudiosos”, pontua Vinicius, que é diretor e coordenador do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Aarhus, que foca na formação de profissionais que sejam mediadores entre o Brasil e a Dinamarca.

Palavra de especialista

Joâo Cezar de castro Rocha
Professor associado de literatura comparada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)

Evasão de cérebros

“Pela primeira vez, foi feito levantamento de estudos da literatura brasileira no exterior e conseguimos mapear quem são esses estudiosos. Chamou a atenção que a maioria deles nasceu no Brasil. Além da formação e da perspectiva brasileira, por circunstâncias de vida, eles foram morar no exterior. Boa parte também está frequentemente no Brasil e tem controle absoluto do nosso cotidiano. Até porque hoje há facilidade maior nesse sentido. Não há mais essa imensa distância, essa nostalgia. Essa evasão de cérebros sempre existiu. Muitos dos principais intelectuais europeus foram para os Estados Unidos. Mas, no passado, eram os grandes nomes, aqueles com carreira já feita, como Adorno, Hannah Arendt e Horkheimer. Nos últimos 20 anos, surgiu uma possibilidade nova e aumentou significativamente o número de pesquisadores que começam a carreira justamente no exterior.

E isso não ocorre só com os brasileiros; é um fenômeno global. Hoje, temos completa solidez das instituições acadêmicas, a facilidade para viagens, pessoas que transitam com grande fluência em vários idiomas. E isso implica um outro tipo de relacionamento. Mais do que um olhar exótico, esses estudiosos permitem reatar um elo inesperado de continuidade com a lírica do exílio. Boa parte da cultura brasileira foi pensada no exterior, seja com Gonçalves Dias, seja com Gilberto Freyre, seja com Sérgio Buarque de Hollanda, que estavam todos fora. Há uma longa tradição de se pensar o Brasil à distância. E esses novos ‘brasilianistas’ são uma força importante de renovação do nosso pensamento sobre a literatura. Não estão presos a grupos, panelinhas e, justamente por conta da distância, têm maior independência e autonomia.”

Crise alérgica domada - Bruna Sensêve

Técnica aperfeiçoada em hospital da USP cura 90% dos casos de alergia alimentar com doses graduais dos produtos que provocam o sistema imunológico. Isso é feito até que se crie resistência total a eles


Bruna Sensêve

Estado de Minas: 06/10/2013 



A analista Andrea Fernanda não optou por fazer tratamento. Ela preferiu tirar o camarão de sua dieta (Geyzon Lenin/Esp. CB/D.A Press    )
A analista Andrea Fernanda não optou por fazer tratamento. Ela preferiu tirar o camarão de sua dieta


No início dos anos 2000, Márcia* era o caso que mais intrigava a alergologista Ariana Campos Yang, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Quase que semanalmente, a paciente sofria um choque anafilático que a levava para a unidade de tratamento intensivo (UTI). Bastava o cheiro do agente causador da alergia: o ovo. Márcia não saía de casa. E onde morava ninguém podia ingerir o alimento tão comum nas receitas brasileiras. Ariana Yang pesquisou bibliografia especializada e encontrou um trabalho italiano que poderia ajudar sua paciente. “Na época, ela tinha 25 anos. Hoje, perto dos 40, come tudo, inclusive ovos”, comemora. O sucesso da dessensibilização alimentar levou a terapia a outros cantos do país e rende uma lista de espera de cerca de um ano e meio.

A primeira tentativa de “curar” pessoas com alergias alimentares severas se deu há cerca de 100 anos e seguia o princípio das vacinas: aplicar doses menores e intravenosas do agente causador do problema. A reação no organismo dos voluntários foi dramática e a ideia, abandonada pela comunidade médica por um longo período. A questão virou quase um tabu. Ninguém mais falava em fazer vacina para rinite ou asma e nem sequer era cogitada a busca por terapias para a alergia alimentar. “Até que surgiu esse novo trabalho em 1984 de um grupo de pesquisadores italianos com uma eficácia de 73% nos pacientes tratados”, conta Ariana.

A alergologista pondera que a metodologia não era a mais confiável pelo fato de não usar um grupo controle, isto é, um número de pacientes não submetidos ao tratamento para que resultados fossem comparados. “Cientificamente, ainda era preciso comprovar que o resultado animador não era aleatório.” A técnica evoluiu. A principal mudança é que o paciente não precisa de internação e pode seguir a vida normalmente depois das sessões terapêuticas. “Temos outras alterações com relação à sequência e o número de doses. Hoje, são vários grupos que fazem o procedimento, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em Bauru (SP). A técnica ainda não está disseminada, mas está sendo difundida pelo Brasil”, comemora a médica. 

O tratamento consiste em 12 a 15 sessões de imunoterapia oral, quando são ministradas doses crescentes de um extrato do agente causador da alergia. Inicialmente, é pesquisado um histórico clínico com exames que possam garantir que o paciente permanece alérgico. “Alguns alérgicos estão sob restrição há tanto tempo, às vezes desde bebê, que a alergia até sarou e a pessoa não percebeu”, explica Ariana. Com a confirmação, um teste alérgico cutâneo busca a concentração tolerada do alimento. A partir desse limiar, é produzido o extrato diluído do alérgeno e a concentração dele vai aumentando a cada sessão até que o paciente aceite a quantidade total.

“A maioria tem reação durante o tratamento mesmo quando, de tão diluído o alérgeno, a pessoa está quase tomando água. Por isso é muito importante não fazer esse processo sem o acompanhamento médico”, alerta a alergologista, ressaltando que o tratamento somente é indicado para pacientes com mais de 5 anos de idade e que tiveram o diagnóstico da alergia persistente, chamada de IgE. Esse tipo mais grave refere-se a reações danosas, algumas vezes fatais, causadas pelo sistema imunológico. O critério é extremamente importante porque alergias a alimentos comuns tendem a ser predominantes no primeiros meses de vida. Com o passar dos meses, no máximo anos, o próprio corpo desenvolve a tolerância necessária.

Esse foi o caso da filha da servidora pública Vanessa de Almeida, 29 anos. A pequena Júlia, hoje com 2 anos e 9 meses, teve severas reações gastrointestinais a partir do quarto dia de vida. A busca foi grande em torno do agente causador do sangramento nas fezes da recém-nascida, mas a descoberta da alergia à proteína do leite de vaca (APLV) se deu aos 4 meses de idade. O gastropediatra indicou um leite específico e suspendeu todos os alimentos que tivessem qualquer traço de leite tanto para a mãe quanto para o bebê.

“Toda vez que ela era exposta, passava mal. Até o arroz com qualquer ingrediente que fosse passado na manteiga. No caso da Júlia, ela associou o ato de mamar com a dor e, como a alimentação dela era basicamente de leite materno, quis parar de comer”, relata Vanessa. As restrições foram mantidas até 1 ano e meio, quando o alimento voltou à dieta da criança. “Percebemos que ela continuou com a sensibilidade de uma forma mais leve. Hoje, ela está ótima e come de tudo.”
De adulto Diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia – seção Distrito Federal, Fernanda Marcelino afirma que esse tipo de sensibilidade não é comum em adultos. Normalmente, as alergias nos mais velhos estão ligadas a alimentos fáceis de serem evitados, como o camarão, amendoim, castanhas e frutos do mar. “A pessoa que tem alergia alimentar recebe orientação de exclusão do produto da dieta. Fazemos uma orientação e um plano de ação para o paciente no caso de uma exposição acidental”, detalha. 

Essa é a rotina da analista de relações internacionais Andrea Fernanda Britto, de 25 anos. Desde que teve a primeira crise alérgica ao camarão, aos 8 anos, ela quer distância do crustáceo. “Minha voz começou a sumir, a garganta fechou e meus pais se desesperaram. Não deu tempo nem de ir ao hospital. Fomos à farmácia mais próxima onde tomei um antialérgico”, conta. Outra ingestão acidental foi aos 10 anos e nunca mais. Andrea preferiu excluir o camarão do cardápio. “Não tentei fazer tratamento, aprendi a conviver bem com isso, mas lembro que o gosto era muito bom.”

Os alérgenos passíveis à terapia de dessensibilização precisam estar presentes no dia a dia do paciente. No caso do brasileiro, são basicamente o leite, os ovos, o trigo e a soja. Isso porque é preciso que o organismo mantenha uma memória imunológica. O sistema imune é regulado pela presença do antígeno, da molécula causadora da alergia no corpo. Se o paciente não tem contato com ela, é como se perdesse o aprendizado de tolerância ao antígeno, o que pode fazer com que a alergia volte.


* Nome fictício a pedido da médica