sábado, 12 de outubro de 2013

ARNALDO VIANA » Vai um dinheirinho aí?‏

Estado de Minas: 12/10/2013 





Sabe por onde andam seu CPF, número do celular, do telefone fixo e da carteira de identidade? Os endereços residencial e comercial? O número do seu ramal? O nome do pai, da mãe, da mulher, do filho? Se sabe, parabéns, porque a maioria desconhece. Sua ficha está nos arquivos do sindicato, do clube, no cadastro das lojas de departamentos, da imobiliária, do plano de saúde, do hospital, da operadora de telefonia. E, claro, nos computadores da Previdência, do banco, da Receita Federal, do Tribunal Regional Eleitoral, da companhia aérea. Essas listas são repassadas e até negociadas com empresas e todo tipo de gente. Sua vida está, definitivamente, devassada.

Não é raro a caixa de mensagens do celular apitar. E está lá o anúncio de uma pechincha em Venda Nova, de um conforto inalcançável no Belvedere ou a viagem dos sonhos a preços módicos e suaves prestações. Isso quando o aparelho não o acorda de madrugada ou o interrompe naquele momento único para aquela voz anunciar: “Temos uma oferta imperdível para você. Se quiser ouvir, aperte 1…”. Pior é quando o reclame é ao vivo: “Falo com o senhor fulano? O senhor poderia estar nos ouvindo por alguns minutos?”. Há coisas piores: mensagens recheadas de prêmios, enviadas de presídios. Ou o telefonema do bandido dizendo que seu filho, filha ou irmão foi sequestrado.

Esse lero-lero, essa lenga-lenga toda para falarmos da surpresa do Paulo, simplesmente Paulo. Funcionário de uma grande empresa, preparou-se para a aposentadoria. Esperou pacientemente o dia de correr ao posto do INSS e pedir a pensão. A idade não está mais apropriada a reuniões, relatórios, folhas de ponto, broncas da chefia. Juntou a papelada e foi procurar os direitos depois de trinta e tantos anos de labuta. Entregou tudo e foi para casa esperar a confirmação do pedido. Mas o que chegou primeiro foi a carta de terceiros cumprimentando-o pela aposentadoria e colocando-se à disposição para lhe repassar informações importantes. Bastaria ligar para o número indicado na carta.

E ele ligou, com a cautela de mineiro desconfiado do Vale do Jequitinhonha. Do outro lado da linha, informaram-no de que havia à disposição um crédito de financiamento consignado, garantido, de determinado valor. A partir de então, acabou o sossego. Pipocaram mensagens no celular, de bancos diferentes, parabenizando-o e oferecendo empréstimos. E a aposentadoria nem havia sido concedida. Paulo pegou o telefone e ligou para a ouvidoria do INSS. Resposta: “Procure uma agência da Previdência e diga que não tem interesse em financiamentos”. Simples assim, como disse um amigo de Paulo. É, o tal benefício é uma concessão casada?
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Em tempo: Seis vergalhões de aço especial, pesando toneladas, coisa de R$ 7 milhões a R$ 8 milhões, propriedade da prefeitura e do povo, somem de um galpão no Rio de Janeiro. Assim, num passe de mágica, sem alvará ou licença da prefeitura. Em outro canto, 11 mil enormes cisternas, avaliadas em mais de R$ 700 milhões, enferrujam no depósito de um sindicato rural, enquanto milhares de pequenos produtores nordestinos veem animais e plantações morrendo, sem água. Quem, mas quem mesmo, está tomando conta deste país?

Tudo pelo rock - Daniel Camargos

Tudo pelo rock 

Mutantes voltam aos palcos para tocar o repertório do mítico LP Tudo foi feito pelo Sol. A idade pesa, mas não é problema para Sérgio Dias, Antônio Pedro, Túlio Mourão e Rui Mota 

Daniel Camargos

Estado de Minas: 12/10/2013


Rui Mota confessa:
Rui Mota confessa: "Foi o melhor período da minha vida"


Os quatro se abraçam para a foto e posam com os rostos colados. O fotógrafo agacha buscando o melhor ângulo. O tecladista brinca: “The mamas and papadas”. O guitarrista reclama da dor nas costas enquanto conecta os fios da pedaleira e pede que as letras sejam impressas em corpo grande, para facilitar a visualização. O baterista ainda sente os efeitos da recente cirurgia no ombro. Reunidos no estúdio do Bairro Serra, esses quatro senhores, porém, contrariam totalmente os sinais da idade quando os instrumentos são ligados. É rock and roll com letra maiúscula – e por extenso –, como reza a cartilha do progressivo. O repertório vem de um dos melhores discos do gênero gravado no país: Tudo foi feito pelo Sol (1974).

Desde quarta-feira, o quarteto ensaia o sétimo disco dos Mutantes, o primeiro da banda sem Arnaldo Baptista e o segundo sem Rita Lee. Se não há a irreverência dela e a melancolia dele, ali estão a máxima potência e a virtuosidade da guitarra de Sérgio Dias, reforçadas por um time lendário do rock nacional: Túlio Mourão (teclados, sintetizadores e moog), Antônio Pedro (baixo) e Rui Mota (bateria) – formação original do LP e da turnê.

“Foi o melhor período da minha vida”, revela Rui. “Não poderia imaginar que nos reuniríamos novamente”, vibra. Depois dos Mutantes, o baterista tocou com Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Marina, Sá & Guarabira, Zé Ramalho, Ednardo, Amelinha e Erasmo Carlos. Hoje, Rui comanda uma escola de bateria no Rio de Janeiro.

Antônio Pedro foi o baixista da cozinha das lendas Tim Maia e Raul Seixas – “iscas de polícia”, nas palavras dele. Participou da fundação da Blitz com Lobão e Evandro Mesquita, foi parceiro de Lulu Santos. Depois de deixar o palco para cuidar da família, o baixista está exultante com a volta da formação dos Mutantes. “O som do disco soa bem até hoje. Tem peso”, resume.
Para o baixista Antônio Pedro o álbum mantém sua força (Beto Magalhães/EM/D.A Press)
Para o baixista Antônio Pedro o álbum mantém sua força


Psicodália

No fim do ano passado, a banda se reuniu pela primeira vez para apresentar o repertório de Tudo foi feito pelo Sol a convite do festival Psicodália, em Santa Catarina. O show desta noite é o segundo, mas há possibilidade de outros. “Em todos os lugares aonde vou, alguém se diz fã desse disco. Semanas atrás, fiz uma apresentação de piano e me pediram Pitágoras”, conta Túlio Mourão, o mutante mineiro. Ele já gravou com Milton Nascimento, tem shows marcados com Maria Bethânia e participou do palco e de discos de figurões como Chico Buarque e Caetano Veloso, além de estrelas internacionais do naipe de Mercedes Sosa, Pat Metheny e Jon Anderson, da banda Yes.

“É um disco com começo, meio e fim. Muito sério, mas com letras positivas”, define Sérgio Dias, fundador dos Mutantes ao lado do irmão, Arnaldo Baptista, e de Rita Lee. Sérgio segue com outra formação do grupo, tocando o repertório clássico. Com CD recém-gravado, tem 13 shows marcados para o mês que vem nos Estados Unidos. O grupo, porém, é diferente do que se reúne hoje na capital mineira. Considerado um dos melhores guitarristas da história do rock, Sérgio mora em Las Vegas. E é sincero ao comentar detalhes da turnê de Tudo foi feito pelo Sol: “Não me lembro de tudo. Estava com tanto ácido na cabeça...”


Piração


Aliás, os psicotrópicos foram decisivos para aquele som, assim como as influências de Yes, Genesis, Emerson, Lake & Palmer e da italiana Premiata Forneria Marconi. Os ensaios e a piração tinham como base um sítio na Serra da Cantareira, em São Paulo, e depois em Itaipava, no Rio de Janeiro. Para divulgar Tudo foi feito pelo Sol, a banda saiu em turnê pelo Brasil. A temporada mais longa dos Mutantes durou dois anos e meio. Túlio conta que não existiam empresas que sonorizassem espaços para multidões. A solução era carregar o equipamento em dois caminhões.

Coube a outro filho da família Dias Baptista, o primogênito Cláudio César – mistura de Professor Pardal, luthier e engenheiro de som –, criar o equipamento. Cláudio projetou caixas para comportar alto-falantes de 18 polegadas. Um monstro de 3m de altura, 1,20m de largura e 1m de profundidade. Cada caixa pesava mais de 200kg. Quando a turnê estreou num teatro paulista, a cena foi surreal: “Um fã entrou dentro da caixa. Sei lá, talvez para sentir melhor o som. Quando dei uma dedada no grave do moog, a caixa cuspiu ele lá de dentro”, revela Túlio Mourão.


Cazuza


Um fã do disco era Cazuza. Aliás, mais que fã. O filho de João Araújo, diretor da Som Livre, foi decisivo para a história desse LP. Em 1974, o futuro astro tinha 15 anos e passava grande parte do dia na gravadora. “Ninguém queria gravar rock progressivo. Sem a Rita e o Arnaldo, os Mutantes perderam parte de seu apelo, mas quando o Cazuza ouviu, ajudou a convencer o pai”, recorda Túlio.

O disco foi feito em um único take, sem retoques, com músicos tocando juntos. “Não havia gravadora, nem imprensa, ou emissora de rádio que nos desse espaço. O rock era marginal. É difícil explicar isso para a geração de hoje”, destaca Túlio.

Resumindo: um LP clássico será executado pela formação original 39 anos depois de ser lançado. “Criou-se uma mítica em torno desse disco”, resume Túlio. O frisson vem, principalmente, da parte técnica. Fãs ouvem as faixas fazendo air guitar involuntário nos solos de Sérgio Dias ou dão dedadas no moog imaginário para acompanhar Túlio Mourão. “A garotada de hoje tem acesso instantâneo e abrangente a tudo. Essa turma compara, conhece muito e encontra conteúdo, sinceridade e alta performance instrumental naquele disco”, avalia Túlio.

Depois do entusiasmo com a reação da garotada, o segundo passo dos músicos foi questionar se ainda faria sentido tocar juntos. “Conversamos e sacamos que todos estavam a fim”, garante o tecladista. E a reação do público? “Quando acabou o show no festival Psicodália, autografamos mais discos do que na década de 1970”, informa Túlio Mourão. Os “senhores” do rock passaram mais de duas horas atendendo a multidão, para surpresa o filho do tecladista, de 27 anos. Ele não fazia ideia de que o pai era um rock star tão aclamado.
No túnel do tempo, direto de 1974: Rui Mota, Antônio Pedro, Túlio Mourão e Sérgio Dias  (Som Livre/Reprodução)
No túnel do tempo, direto de 1974: Rui Mota, Antônio Pedro, Túlio Mourão e Sérgio Dias


TUDO FOI FEITO PELO SOL
Com Sérgio Dias, Túlio Mourão, Antônio Pedro e Rui Mota – formação de 1974 da banda Os Mutantes. Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3214-5360. Hoje, às 21h. Inteira: R$ 80 (setor 1), R$ 70 (setor 2) e R$ 50 (setor 3). Meia-entrada válida para estudantes e idosos com mais de 60 anos, mediante apresentação de documento comprobatório.


Serviço completo

O repertório desta noite traz Tudo foi feito pelo Sol de A a Z. Ou melhor: da faixa Deixe entrar um pouco de água no seu quintal a Tudo foi feito pelo Sol, passando por Pitágoras, Desanuviar, Eu só penso em te ajudar, Cidadão da terra e O contrário de nada é nada. A banda vai tocar também sucessos de compactos gravados nos anos 1970, como Balada do amigo e Tudo bem.


Time de clássicos

Vale comparar. Ouvir a formação dos Mutantes de 1974 tocar Tudo foi feito pelo Sol 39 anos depois de seu lançament, seria como se Caetano Veloso reunisse a banda original de Transa (1972); os Novos Baianos repetissem a formação de Acabou chorare (1972); Ney Matogrosso, João Ricardo e Gerson Conrad executassem ao vivo o clássico Secos & Molhados (1973); e Jorge Ben (ainda sem o Jor) convocasse a turma de A tábua de esmeralda (1974) para um show.

Interferências na paisagem - Sérgio Rodrigo Reis

Interferências na paisagem

Mostra BH Ásia traz à cidade, até dezembro, instalações de porte em espaços abertos 

Sérgio Rodrigo Reis

Estado de Minas: 12/10/2013


Jennifer Wen Ma criou uma ilha com plantas pintadas com nanquim na Barragem Santa Lúcia   (Leandro Couri/EM/D. A Press)
Jennifer Wen Ma criou uma ilha com plantas pintadas com nanquim na Barragem Santa Lúcia

Quem passar pela Praça do Papa, aos pés da Serra do Curral, em Belo Horizonte, verá a transformação da paisagem: em meio às montanhas, uma enorme embarcação metaforicamente traz o mar para onde ele não existe. Em vez de o barco navegar em águas revoltas, como ocorre na realidade, na criação do artista indiano Subodh Gupta o mar está dentro do barco. A grande instalação, que deverá intrigar os que circularem pelo local até 8 de dezembro, é uma das atrações da exposição de arte pública BH Ásia. A mostra será aberta hoje em espaços que são cartões-postais da capital mineira.

A exposição traz a locais conhecidos grandes peças feitas especialmente para a ocasião por artistas asiáticos, ainda desconhecidos por aqui, como os chineses Zhang Huan e Jennifer Wen Ma, o japonês Tatzu Nishi e o próprio Subodh Gupta. A intenção é que as obras mudem a paisagem urbana. “Os pontos de vista deles são, necessariamente, invertidos em relação aos nossos. Esse projeto é, de certa forma, oportunidade de se ver o mundo ao contrário”, avalia o curador Marcello Dantas. A inspiração para a reflexão veio de um paralelo à formação do povo brasileiro, que, desde as origens, teve no contato com o estrangeiro uma forma de moldar sua própria identidade. “Nosso apetite pede diversidade. É hora de experimentarmos outros pratos, que nos façam entender melhor quem somos.”

RUÍDO Há anos o curador vê a arte pública como meio de ampliação da compreensão da arte contemporânea. “É a maneira mais fácil para atingir o povo pela arte.” Mas como é possível realizar algo que chame a atenção e, ao mesmo tempo, provoque o olhar? “Não interessa fazer mais do mesmo. Colocar esculturas de Amilcar de Castro na Praça da Liberdade não vai provocar o ruído que queremos. O mesmo não ocorre quando trazemos outras poéticas criadas por quem nunca expôs aqui. Elas causam a percepção do novo.” O ineditismo é um ponto a favor. “As obras estão sendo construídas aqui no país por técnicos de várias regiões.” O caráter efêmero é outro atrativo. As instalações serão montadas e depois deixarão de existir. “A gente intervém e depois desaparece. É o conceito,” explica.

A proposta é que, ao se deparar com uma ilha artificial, uma enorme urna mortuária, uma casa em cima de uma chaminé e/ou um barco gigante cheio de água saindo da montanha, o espectador tenha seu olhar modificado. “Ninguém consegue passar estático diante de obras como essas”, salienta o curador. Para ele, elas serão amadas ou odiadas, mas todo mundo acabará tendo uma opinião. “É ótimo, assim se constrói a reflexão. O Brasil tem grande desafio que é a necessidade de educar o olhar. Por aqui temos o vício de repetir. O que realmente modifica não é isso: é a troca com o novo. Veja, por exemplo, os efeitos que provocaram Inhotim”, cita.


O que ver 

>> Ilha de encantamento – Jennifer Wen Ma criou uma ilha artificial de vegetação, madeira, terra e tinta nanquim preta numa área de 200 metros quadrados no meio da Barragem Santa Lúcia (Av. Arthur Bernardes, s/nº, São Bento). As plantas, pintadas a mão com cerca de 650 litros de tinta nanquim preta, de base natural, serão inicialmente impossibilitadas de fazer fotossíntese por conta do pigmento. A visitação poderá ser feita às margens da lagoa ou de pedalinho, das 10h às 18h. Nascida em 1973, em Beijing, China, Jennifer mudou-se para os EUA em 1986, e recebeu diploma de mestre em belas-artes pelo Pratt Institute, Nova York, em 1999. Atualmente, vive entre Nova York e Pequim.
A embarcação do indiano Subodh Gupta foi instalada na Praça do Papa   (Leandro Couri/EM/D. A Press)
A embarcação do indiano Subodh Gupta foi instalada na Praça do Papa


>> Desde corpo para outro – Subodh Gupta inverte o conceito tradicional do barco, oferecendo a BH, cidade sem mar, enorme embarcação repleta d’água – cerca de 80 mil litros – que “penetrará” na cidade pela montanha da Praça do Papa (Av. Agulhas Negras, s/nº, Mangabeiras). Natural do vilarejo de Khagual, Bihar, onde nasceu em 1964, o artista vive e trabalha em Nova Délhi. Utiliza utensílios de aço inoxidável em obras feitas com objetos cotidianos despidos de sua normalidade pela massa e volume, em proporções totalmente exageradas.

>> A correnteza de modernização – Tatzu Nishi quis propor o mais inusitado lugar possível que uma pessoa poderia habitar. Surgiu daí a casa em cima de uma chaminé metálica, revestida de tijolos, que produz fumaça. A estrutura, de 24m de altura, está na Rodoviária (Praça Rio Branco, 100, Centro). Tatzu Nishi é de Nagoya, no Japão. Nasceu em 1960 e, atualmente, vive e trabalha em Tóquio e Berlim. Nishi é conhecido pelos projetos em grande escala em espaços públicos, que transformam a experiência e percepção de monumentos, estátuas ou elementos arquitetônicos da cidade.

>> O dragão azul-celeste, tigre branco, pássaro vermelho e tartaruga negra vivem em minério de ferro – O chinês Zhang Huan é conhecido pela forma surreal de se expressar. Inspirou-se na tradição milenar chinesa de criar em vida urnas onde serão depositados os bens afetivos de uma pessoa quando ela morrer. Fez versão enorme para a Praça da Liberdade. Esses bens são enterrados junto com o corpo, para que o acompanhem na última viagem de quem os guardou com tanto carinho. O público poderá ingressar na urna, diariamente, das 8h às 22h. Ela é feita por 185 placas de minério de ferro e um piso de placas de vidro iluminadas. Zhang nasceu em Anyang, na província de Henan, em 1965. Mora em Xangai, onde fundou o Zhang Huan Studio para ampliar o escopo de seu trabalho artístico.

De braços dados com a tecnologia - Alfredo Durães

De braços dados com a tecnologia 

Sequenciamento genético vem sendo usado para mapear, da qualidade sanitária de peixes, doenças parasitárias, a tendências de o ser humano desenvolver cânceres. Custo ainda é alto, mas resultados têm se mostrado interessantes 

Alfredo Durães


Estado de Minas: 12/10/2013
 
Mesmo que a população em geral não perceba, a biotecnologia – considerada a ciência do século 21 – está presente em vários aspectos da vida cotidiana. Um dos exemplos é o sequenciamento genético de peixes, feito pelo Aquacen, o Laboratório Nacional de Referencia para Doenças de Animais Aquáticos, do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), sediado na Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. Por meio desse laboratório, o MPA monitora a condição sanitária, bem como a ocorrência de doenças em fazendas que cultivam peixes, como a tilápia, o tambaqui e o pintado (surubim), nos cultivos de camarão e também nas fazendas de ostras.

Coordenador do Aquacen, o professor Henrique César Pereira Figueiredo, que tem doutorado em medicina veterinária, explica que o sequenciamento genômico vem sendo usado para o estudo de bactérias patogênicas que causam doenças em peixes, como a bactéria Streptococcus agalactiae, que causa um doença quase sempre fatal em tilápias. “Por meio do sequenciamento genômico conseguimos monitorar se a bactéria S. agalactiae que ocorre em uma fazenda é igual (um clone) ou diferente da que ocorre em outra propriedade distante. Assim, comparamos, por exemplo, linhagens dessa mesma bactéria isoladas em fazendas em Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Goiás, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Tocantins, entre outros estados”, explica Henrique.


Outra pergunta importante analisada com a ajuda do sequenciamento genômico é se essa bactéria dos peixes pode ser transmitida para os seres humanos, por meio do consumo do pescado. “Isso porque essa mesma espécie de bactéria (S. agalactiae) é também uma causadora de doenças em humanos”, comenta o professor, acrescentando que o Aquacen já sequenciou cerca de 20 genomas completos de bactérias, como o S. agalactiae, S. dysgalactiae, Francisella noatunensis subsp. orientalis, todas essas importantes causadoras de doenças nos peixes. Ele diz que até dezembro um total de 50 genomas serão sequenciados, em parceria com o Laboratório de Genética Celular de Microorganismos (LGCM), do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.


Henrique César explica que os resultados obtidos nessa pesquisa ajudam a manter uma boa condição sanitária nas fazendas de cultivo de peixes, camarões e ostras, além de certificar a qualidade da carne de peixe que chega ao consumidor. “E essa garantia se aplica tanto aos consumidores no Brasil quanto a carne que é exportada para outros países”, garante.

 
DOENÇAS PARASITÁRIAS Um outro estudo, que usa o sequenciamento genômico para entender doenças endêmicas brasileiras, é desenvolvido no Centro de Pesquisas Rene Rachou – Fiocruz/Minas e desenha o perfil epidemiológico das doenças parasitárias, ajudando na prevenção e detecção de doenças endêmicas, como leishmaniose, doença de chagas, febre amarela, meningite e esquistossomose. O cientista do Rene Rachou Roney Coimbra coordena os estudos sobre meningite, em três pilares básicos: prevenção, diagnóstico e tratamento. Graduado em ciências biológicas pela UFMG em 1989, fez mestrado em microbiologia, doutorado e pós-doutorados no Instituto Pasteur, na Universidade René Descartes (ambas em Paris) e no Instituto de Doenças Infecciosas da Universidade de Berna, Suíça. Ele considera que “é um grande avanço desvendar os mecanismos de plasticidade genômica”. E se mostra otimista como as novas técnicas e equipamentos: “Estamos no começo de um novo ciclo industrial na medicina. Temos massa crítica, investimentos e apoio para tanto”, afirmou.
 
 População beneficiada
 
O sequenciador genético adotado nessas pesquisas é um dos equipamentos mais usados em laboratórios, hospitais e centros científicos do mundo. No Brasil, o Ion Proton – que sequencia genomas menores – chegou há um ano. Farmacêutica bioquímica pela Universidade do Estadual Paulista (Unesp) e PhD em doenças infecciosas pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a cientista Patrícia Munerato, da Life Technologies (empresa fabricante do equipamento), explica que a tecnologia faz parte da rotina de vários laboratórios e institutos de pesquisa. 

“Toda essa tecnologia, aliada aos estudos desenvolvidos não apenas no Brasil, tem gerado resultados na pesquisa contra o câncer, por exemplo, como os testes com os marcadores BRCA 1 e 2, o mesmo feito pela atriz Angelina Jolie (ver Memória) para detectar a possibilidade de desenvolver o câncer de mama. Esse exame custa entre R$ 500 e R$ 1,8 mil”, diz ela, acrescentando que o Hospital do Câncer de Barretos (SP) faz o exame gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, contando com o apoio de várias doações para poder oferecer o benefício para a população.


“O Ion Proton é capaz de sequenciar o genoma humano em um dia ao custo de US$ 1 mil e está sendo usado apenas para pesquisas em grandes hospitais e institutos de pesquisa. Em breve, acreditamos que ele estará disponível a um número maior de pessoas”, informou. O Ion PGM é um dos sequenciadores mais usados no mundo, com mais de 1 mil unidades espalhadas, e o primeiro a usar a tecnologia de semicondutores. Uma das vantagens é ser usado na medicina personalizada, já que o sequenciamento pode indicar tratamentos mais eficazes de acordo com cada pessoa. O Hospital AC Camargo (mais conhecido pela população como Hospital do Câncer), em São Paulo, utiliza a tecnologia da Life para continuar na ponta das pesquisas contra o câncer. Já a Fiocruz do Paraná, por exemplo, comprou a máquina com o intuito principal de ajudar a construção de uma nova política pública de saúde ao construir um perfil genético da população brasileira.


Exame mostrou 87% de risco de câncer em Jolie

 (KHALIL MAZRAAWI - 11/9/12)

No caso da atriz norte-americana Angelina Jolie, de 37 anos, que em maio anunciou que havia se submetido a uma mastectomia dupla, foi feito o sequenciamento genético e descoberto que ela tem “defeito” no gene chamado BRCA1. Isso indicava que Jolie tinha 87% de chance de desenvolver um câncer de mama e 50% de ter a mesma doença no ovário. Diante do fato, ela optou pela retirada dos seios e a colocação de próteses. No começo do texto publicado no jornal norte-americano, a artista disse: “Minha mãe lutou contra o câncer por quase uma década e morreu aos 56 anos. 

Ela viveu o suficiente para conhecer seus primeiros netos e segurá-los nos braços. Mas minhas outras crianças nunca terão a chance de conhecê-la e sentir quão amável e graciosa ela era”. A atitude da atriz foi comentada no mundo inteiro. Muitos especialistas são categóricos em afirmar que cada caso é um caso, e qualquer decisão – desde a detecção de um nódulo na mama, até a confirmação de que é um tumor benigno, ou mesmo as altas probabilidades de uma mulher desenvolver o câncer na mama e como se dará o tratamento – deve ser amplamente discutida entre médicos e paciente.