sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Pesquisadora questiona ações contra black blocs‏

Pesquisadora questiona ações contra black blocs Proposta do governo de juizado especial e diálogo é vista com desconfiança

Étore Medeiros

Estado de Minas: 08/11/2013


Brasília – As propostas apresentadas ontem pelo Ministério da Justiça como resposta à violência de grupos mascarados nas manifestações de rua foram questionadas por Esther Gallego, pesquisadora que estuda o comportamento dos black blocs, principais responsáveis pelo vandalismo durante os protestos. O governo anunciou a criação de Fóruns de Diálogos Sociais para debater as manifestações e quer implementar o Pronto Atendimento Judicial, que funcionará como os juizados criminais especiais presentes em estádios de futebol, com a presença de juízes e de representantes do Ministério Público.

A ideia do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, é que os Fóruns de Diálogos Sociais sejam espaços para que os cidadãos denunciem “arbítrios e violência oriundas do mundo privado ou do público”. “Como vai ser levado a cabo o fórum de debates se os black blocs não admitem ter liderança, se eles não têm representantes?”, questiona Esther, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que acompanha e pesquisa, desde junho, as manifestações nas ruas paulistanas. Nos últimos meses, ela entrevistou dezenas de jovens mascarados.

Esther também não sabe se a presença de juizados especiais nas manifestações será eficaz. Segundo ela, boa parte dos black blocs com quem conversou disse que a indignação com a violência policial foi o que os levou para a rua. “Precisamos do debate da reforma policial e de como o governo é incapaz de resolver o problema da violência sistêmica.”

Comitê O fórum de debates e os juizados foram anunciados por Cardozo após reunião com os secretários estaduais de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, e de São Paulo, Fernando Grella, e representantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Na próxima segunda-feira, um comitê executivo, composto por seis representantes desses órgãos, será instaurado.

O grupo terá até o próximo dia 29 para apresentar projetos consolidados, sejam de mudança nas leis, de unificação de protocolos de atuação policial, sejam de tentativa de diálogo com os manifestantes. Segundo o ministro, somente depois dessa data será possível ver os resultados do comitê nas ruas e poderão ser apresentadas ao Congresso Nacional propostas de mudança na legislação. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Insônia no facebook - Carlos Emilio Faraco

Poesia 
A minha insônia terrível
Me levou a passear
Por parte do facebook. 
É o que relato abaixo
Sem camuflagem, sem truque. 

Logo de cara encontrei
Mocinha de estranho look:
Uma loira bem morena
Reclamando da vizinha
Que ouvia o ido Lou Reed
E dançava com um cabide.

Depois, aqui e ali,
A série tão costumeira
De choros e mimimis,
Supondo um ouvido gigante
De um deus tão delinquente
Quanto as vozes reclamamtes.

Entre uma graça e outra,
O brado sempre sincero,
Porém eivado de açoite,
Dos meninos do PT,
E as micagens geladas
Dos boys do PSDB.

Pulando uns posts curtinhos,
qChegava a vez dos fofinhos,
A hora mais que completa:
De gatinhos,
Cachorrinhos,
Lagartinhos,
Cavalinhos,
Tantos -inhos sem guarida,
Às vezes cheios de mofo
Mas, via de regra, uns fofos.

Ao encalhar em Maluf,
Maduro e José Sarney,
Tomei 2 bons comprimidos
Da caixa de rivotril
Mandando as nobres figuras
Para a puta que pariu.

MARIO CORSO - O dia em que adotei minha avó

Zero Hora - 07/11/2013

Quando meus amigos vinham com a choradeira por ter pais separados, eu tinha uma resposta. Eles punham na mesa seus três reis e eu sacava quatro ases dizendo: meus avós, de ambos os lados, são separados. Provocava um efeito de solidariedade garantida, comunicava que sabia bem o que era uma família partida, mal-entendidos e ressentimentos. Hoje, as separações são corriqueiras e, embora doídas, são assimiláveis. Na minha infância, elas eram escassas, malvistas e deixavam um rastro de destruição. Na geração dos meus avós, eram uma raridade aberrante. Não foi fácil para meus pais.

Mas a minha ligação com os avós pairava acima de tudo. Passava as férias em suas casas e cheguei a morar com eles. Essa proximidade me fez gostar da velhice. Não me importava com sua lentidão, com as repetições e manias. Os velhos têm a sabedoria de quem já apanhou bastante da vida e eu percebia isso. Cresci olhando para trás, talvez daí venha meu gosto por tempos que desapareceram.

Viver com os avós nos dá outra dimensão do mundo, saímos do eterno presente e apreciamos o peso do passado. Além disso, eles têm as provas de que nossos pais já foram pequenos, frágeis, logo, crescer é possível. Há nisso também uma cumplicidade em reduzir o papel e a força dos nossos pais. Se crescer é sair de casa, a casa dos avós é um bom estágio.

Mas até numa família dividida há um lado bom: as pessoas normais têm duas avós, eu tinha três. Um grande capital, mas trazia alguns problemas. Por exemplo, como você chama a esposa do avô, a avó que não é sua avó, sem abalar a relação com a outra avó, a que se considerava legítima? Precavido contra o risco de desempenhar mal meu cargo de neto, eu a chamava pelo nome: dona Avlisa.

A casa dos meus avós era um paraíso para almas telúricas como a minha. Tinha jardim, horta e pomar. Aprendi com meus avós a paciência necessária para plantar. Numa dessas lidas, segurava um ramo de maracujá para guiar, e disse: – Vó, me passa o barbante. Simplesmente saiu. Fiquei desconcertado, ficamos ambos. Ela me olhou de volta com um sorriso que nunca esqueci. Não foi preciso dizer mais nada. Ganhei uma avó e ela ganhou um neto.

Sem dramas posteriores, cada uma das três foi minha avó a seu modo. Durante anos, segui assim milionário, com mais avós, primos e tios que os outros amigos. Mas o tempo é cruel, numa década conheci a miséria. Reequilibrei-me financeiramente só com a chegada das minhas filhas. Nossos velhos são guardiões da história. Quando eles se vão, suas memórias mudam de mão. Quando cuido do meu jardim, nunca sei se cultivo as plantas, ou elas sustentam as lembranças de quem me ensinou sua magia.

Marina Colasanti - Um castelo e duas verdades‏

Marina Colasanti - marinacolasanti.s@gmail.com


Estado de Minas: 07/11/2013



 (SON SALVADOR)

Acabou a terceira temporada de Downton Abbey e a quarta só está passando na Inglaterra, mas continuo frequentando aquele requintado universo inglês. Da tela da televisão passei para as páginas de um livro.

Lady Almina e a verdadeira Downton Abbey é assinado pela condessa de Carnarvon – assim mesmo, só o título de nobreza, sem nome pessoal –, atual proprietária de Highclere, o castelo que foi utilizado no seriado. Relato histórico, que inclui propriedade e família, permite-nos traçar um paralelo curioso entre ficção e realidade, ou entre realidade e como gostaríamos que ela fosse, ou, ainda, entre realidade e a falsa realidade que público e mercado solicitam.

Almina é o equivalente verdadeiro da Cora criada pelos roteiristas. Casada ainda jovem com o dono do castelo, George Edward Stanhope Molyneaux Herbert, quinto conde de Carnarvon, de alta linhagem e baixa conta bancária, chega ao altar abarrotada de dinheiro. Mas a vida real é muito mais novelesca que a ficção, pois Almina não é herdeira americana, mas filha “bastarda” de Alfred de Rothschild com uma francesa não aceita em sociedade, Marie Wombwell. Embora sem reconhecê-la, o pai sempre abrirá os cofres para ela.

Se Cora é quase insignificante, Almina é o motor do castelo. Faz reformas, instala água encanada e luz elétrica, gasta fortunas em decoração e festas. Quem se satisfez com os elegantes, porém modestos, jantares do seriado pode transferir seu imaginário para fins de semana nababescos, o castelo cheio de personalidades e estrelas sociais que se distraíam com caçadas, torneios de tênis, passeios a cavalo, festivais. Os donos do castelo raramente estavam sozinhos, rodeados constantemente por amigos e empregados.

Os empregados merecem um capítulo. Havia 23 criados para atender família e hóspedes, o que devia render intrigas bem mais emaranhadas que as do seriado. E não ficavam confinados àquela severa sala de jantar de que nos tornamos íntimos. Tinham uma sala de estar grande, com poltronas, onde tomavam chocolate quente no fim do dia e inclusive dançavam.

Muitos capítulos dramáticos são dedicados à participação inglesa na guerra de 1914/1918 e à chacina de que a ficção nos poupou. Cresce então a estatura de Almina, que transforma o castelo em hospital e, ao contrário de Cora, comanda tudo pessoalmente.

Uma parte fundamental da história, porém, ficou fora do roteiro. Enquanto lord Grantham parece não ter nenhum interesse pessoal e quando muito nos foi mostrado lendo jornal na biblioteca desperdiçada, o conde de Carnarvon era um homem requintado, amante dos livros, colecionador de antiguidades e entusiasta das novas tecnologias. Sobretudo, era um egiptólogo apaixonado. Durante 14 anos, sem esmorecer, dedicou seu entusiasmo e boa parte da sua fortuna, incluindo a da mulher, a escavações mal-sucedidas – gastou nisso o equivalente a 10 milhões de libras atuais, e precisou vender três das propriedades que havia herdado.

Passar temporadas anuais no Egito havia se tornado uma consuetude para ele e lady Almina. Até que afinal, em 1922, a equipe do americano Howard Carter, por ele financiada, descobriu a joia maior do Vale dos Reis, o túmulo intacto de Tutancâmon. Bastaria isso para dar origem a outro seriado – mesmo sem falar na maldição.