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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Insônia no facebook - Carlos Emilio Faraco

Poesia 
A minha insônia terrível
Me levou a passear
Por parte do facebook. 
É o que relato abaixo
Sem camuflagem, sem truque. 

Logo de cara encontrei
Mocinha de estranho look:
Uma loira bem morena
Reclamando da vizinha
Que ouvia o ido Lou Reed
E dançava com um cabide.

Depois, aqui e ali,
A série tão costumeira
De choros e mimimis,
Supondo um ouvido gigante
De um deus tão delinquente
Quanto as vozes reclamamtes.

Entre uma graça e outra,
O brado sempre sincero,
Porém eivado de açoite,
Dos meninos do PT,
E as micagens geladas
Dos boys do PSDB.

Pulando uns posts curtinhos,
qChegava a vez dos fofinhos,
A hora mais que completa:
De gatinhos,
Cachorrinhos,
Lagartinhos,
Cavalinhos,
Tantos -inhos sem guarida,
Às vezes cheios de mofo
Mas, via de regra, uns fofos.

Ao encalhar em Maluf,
Maduro e José Sarney,
Tomei 2 bons comprimidos
Da caixa de rivotril
Mandando as nobres figuras
Para a puta que pariu.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Meu retrato aos 67 - Carlos Emilio Faraco

Poesia
MEU RETRATO AOS 67


Cada linha
Da minha mão
É um fio de contradição:
Traz um sim,
Traz um não,
Um parto,
Uma negação.

O sim do que fiz,
O não do que contive,
O sim do que quis,
O não do que detive.

Uma só admite
Um tímido talvez:
Aquela que limita,
No começo e ao cabo,
O nascimento de Deus,
O batizado do Diabo.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Hipocampo - Carlos Emilio

HIPOCAMPO

Carlos Emílio Faraco

Deixei o olhar navegar
À solta dentro do aquário.
Era um olhar único,
(Não era vário)
Forjado naquele silêncio
Que arde num fim de tarde.

Brilhou em toda escama
De cada peixe azulado
E se plasmou no olhar
Do único peixe dourado.

Mas avesso a ser só ouro
Cravado no fim do caminho,
Pulou pra crina confusa
De um louro cavalo marinho.

Entre brilhar
E ficar,
Meu olhar,
Nascido cigano,
Escolheu galopar.


                                                            ***

O caso é que
O amor alheio
Pode ser bonito,
Pode ser feio,
Pode ser fraco,
Pode ser forte,
Pode ser singelo,
Pode ser altivo.

O amor da gente
É só substantivo.


Fonte

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Moça de Segunda-Feira - Carlos Emilio Faraco

MOÇA DE SEGUNDA-FEIRA

Com as māos 
em prece,
olhos inteiros, 
a moça borralheira 
agradece
a segunda-feira.

Sabe-se tristinha,
sabe-se humilde,
sabe-se calada.
Por hoje,
sabe que está salva
pois que achou escape
na segunda-feira.

É uma moça
de segunda-feira.

Hoje é o dia
em que lhe admiram o tailleur,
a maquiagem discreta,
a voz de quem pede deculpa,
por perdurar na semana.

Hoje é o dia
em que todos invejarāo
(Uns com flagrante horror)
seu decantado vigor,
sua gaveta arrumada,
seus suspiros adequados,
sua voz assombreada
com tom de segunda-feira.

Hoje é o dia dela:
até as janelas
aguardam a visita
dos seus cotovelos,
quando a moça,
com desvelo,
for consultar o tempo,
debruçando-se pra rua.

Meio corpo a vacilar,
no balé tāo esperado,
antes do fundo suspiro
e do real constatado:
que só os muito tristes
(quase sempre esperançosos)
mapeiam a segunda-feira.

Fonte

domingo, 8 de setembro de 2013

Cidadezinha qualquer - Carlos Drummond de Andrade

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.

Êta vida besta, meu Deus.

(Alguma poesia in Reunião, 1982)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Casa das Rosas lembra Haroldo de Campos

folha de são paulo
POESIA
Casa das Rosas lembra Haroldo de Campos
Para homenagear o poeta, morto há dez anos, a casa realiza o evento "10 - 100 H", que até domingo promoverá lançamentos de livros e CDs, cursos e palestras relacionados à obra do escritor, sempre com entrada franca. A programação de hoje começa às 19h30, com o Coral da Casa das Rosas. A instituição fica na av. Paulista, 37; tel. (0/xx/11) 3285-6986.

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa, amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 10 de agosto de 2013

Fora de catálogo, Ana C. Cesar voltará às livrarias - Raquel Cozer

folha de são paulo
Companhia das Letras adquiriu prosa e poemas da poeta carioca e planeja volume no estilo do 'Toda Poesia', de Paulo Leminski
Nome maior da poesia dos anos 1970 ganha reedição no fim do ano, quando se completam 30 anos de sua morte
RAQUEL COZERENVIADA ESPECIAL AO RIOO bigodão de Paulo Leminski, que há sete meses ocupa lugar de destaque nas livrarias, ganhará em breve a companhia de uns óculos escuros redondinhos tão simbólicos da poesia brasileira dos anos 1970 quanto ele.
Há anos fora de catálogo, a obra híbrida de prosa e poesia da carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983) foi adquirida, nos últimos dias, pela Companhia das Letras.
A casa planeja para novembro um volume alentado, no estilo do "Toda Poesia" de Leminski, que saiu em fevereiro com 5.000 exemplares e já vendeu dez vezes isso.
A partir de 2014, novas edições devem sair do acervo mantido desde 1999 no Instituto Moreira Salles, no Rio. A curadoria é de Armando Freitas Filho, amigo a quem a poeta delegou a responsabilidade de cuidar de sua obra.
Dona de uma poesia tão sedutora quanto ela própria, Ana C., como gostava de ser chamada, repercutia em seus escritos as influências pop, incluindo música e cinema, que marcaram sua geração.
Mas agregava a isso sua origem erudita --filha de sociólogo com professora de literatura, com mestrados pela UFRJ e pela Universidade de Essex, na Inglaterra, tem trabalho elogiado na área de crítica literária e tradução.
"Além do lado cult, que gera estudos na universidade, ela tem um viés pop que combina com as redes, um potencial que buscamos ressaltar na obra do Leminski", diz a editora Sofia Mariutti.
RETORNO
Ana C. teve apenas um livro publicado por editora em vida, "A Teus Pés" (1982), justo pela Brasiliense da qual poucos anos depois o editor Luiz Schwarcz sairia para criar a Companhia das Letras.
A obra trazia poemas inéditos junto ao conteúdo das edições independentes "Cenas de Abril" (1979), "Correspondência Completa" (1979) e "Luvas de Pelica" (1980).
Antes de morrer, um ano após a publicação de "A Teus Pés", ela teve o raro prazer para um poeta de ver sair uma segunda tiragem de seu livro. Com a última edição pela Ática datada de 2002, "A Teus Pés" hoje é oferecido em sebos on-line por preços que variam de R$ 70 a R$ 190.
A edição da Companhia das Letras deve ter cerca de 500 páginas, com os independentes, "A Teus Pés", o póstumo "Inéditos e Dispersos" (1985) e alguns textos de "Antigos e Soltos" (IMS, 2008). A meta é que custe menos de R$ 50.
    Acervo tem material para edições inéditas
    Arquivo que está no IMS desde 1999 tem mais de 600 itens e inclui a produção de Ana Cristina Cesar desde a infância
    Aos 9, ela fazia jornais caseiros, onde já transparecia o interesse político que viria à tona no fim dos anos 1970
    DA ENVIADA ESPECIAL AO RIOEmbora tenha vivido apenas 31 anos até o fatídico 29 de outubro de 1983, quando se jogou do oitavo andar do edifício em que seus pais moravam, em Copacabana, Ana Cristina Cesar deixou uma produção que nas últimas três décadas rendeu cinco inéditos, nas áreas de poesia, ensaios e correspondência.
    Ninguém que tenha tido acesso ao seu acervo --instalado a partir de 1999 no Instituto Moreira Salles, na Gávea, sob cuidados de Manoela Daudt, e hoje aberto a pesquisadores--pode duvidar de que exista material ali para tantas outras novas edições.
    É um acervo com mais de 600 itens, entre livros, periódicos e trabalhos produzidos desde a infância. Ela editava em casa, aos nove anos, o jornalzinho "O Mundo", do tamanho de uma caixa de fósforo, no qual ela prometeu por edições a fio, uma crônica nunca enviada por seu pai, Waldo Cezar.
    A criação precoce permite reconhecer traços que se destacariam na produção adulta de Ana C., como a atenção ao trabalho de edição, o humor feroz (após muito esperar a crônica do pai, ela deixa duas páginas de "O Mundo" vazias, com um aviso ao final: "Um momento, ele já acorda!") e o interesse político.
    Em outra edição caseira, a criança anota: "A política externa está prejudicando o Brasil, pois está comentando demais a sua situação". Já se percebiam ali sinais da jovem que, aos 20 e poucos anos, se engajaria na produção do jornal alternativo "O Beijo".
    "O Beijo' era uma crítica de dentro da esquerda a uma esquerda mais ortodoxa, abordagem à qual ela era passionalmente ligada, com interesse em questões comportamentais e de gênero", diz o crítico e poeta Ítalo Moriconi, que pertencia àquela turma.
    ENSAIOS
    A produção ensaística de Ana C., que inclui "Escritos na Inglaterra" (1988), sobre tradução, e "Escritos no Rio" (1993), com artigos de jornais, e ainda cartas (em "Correspondência Incompleta", de 1999), estão nos planos da Companhia das Letras.
    Todo o material foi organizado por Armando Freitas Filho. "Ana e ele eram muito amigos. Quando ela morreu, meus pais acharam que ninguém melhor para saber o que Ana gostaria de publicar", diz o jornalista Flávio Lenz, 58, um dos irmãos da poeta, ao lado de Felipe, 52.
    A única edição na qual Armando não esteve envolvido foi "Antigos e Soltos" (2008), organizado por Viviana Bosi. Esta saiu da "pasta rosa", que ficou alguns anos esquecida no armário da poeta.
    Armando foi a última pessoa a falar com Ana C., por telefone, em 29 de outubro de 1983. Ela estava deprimida, mas ele, gripado, não pôde ir encontrá-la."Ela teve uma sobrevida maior que a vida em matéria de reconhecimento", ele avalia. Acha bobagem tentativas de buscar na obra dela as razões do suicídio.
    É um repúdio que a própria poeta já deixava claro, no texto "Três Cartas a Navarro", publicado em "Antigos e Soltos": "Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico."
      Falso tom confessional influenciou gerações
      DA ENVIADA ESPECIAL AO RIOAna Cristina Cesar era "a mulher mais discreta do mundo: esta que não tem nenhum segredo". Assim ela se definia, mas estudiosos não demoraram a perceber que a poeta era muito menos confessional do que dizia ser.
      Quem logo atentou para isso foi Maria Lucia de Barros Camargo, na tese de doutorado "Atrás dos Olhos Pardos: uma Leitura da Poesia de Ana Cristina Cesar", defendida em 1990 na USP e publicada em 2003 pela editora Argos.
      Na leitura dela, e também na da crítica literária Flora Süssekind, Ana C. se apropriava de versos alheios, de gente como Manuel Bandeira e Mário de Andrade, para fazer uma colagem que soava extremamente pessoal.
      Esse estilo inspirou mais de uma geração de poetas. Um dos nomes mais reconhecidos no gênero hoje, a gaúcha Angélica Freitas, 40, credita à leitura de Ana C. seu interesse por escrever poesia.
      "Eu a li aos 15 anos. Até então, tinha escrito uns versinhos. Os poemas me causaram grande estranhamento. Muita coisa ali era um mistério. Mas um mistério que mostrou que poesia também pode ser investigação", ela diz.
      Era diferente de tudo o que Angélica tinha lido até então, segundo ela argumenta.
      Não só ela sentiu esse impacto. "A influência da Ana para mim é total. Se puder escolher uma pessoa que me fez escrever poesia, foi ela", diz a carioca Alice Sant'Anna, 25. "O que me atraiu foi ser muito coloquial o tempo todo e fazer o tempo todo esse jogo da falsa intimidade. Não há nenhum segredo, na verdade: ela está no domínio total do que conta", argumenta.
      A definição de Ana C.como "poeta marginal" é algo sempre visto com ressalvas --ela é um dos nomes destacados na exposição "Poesia Marginal: Palavra e Livro", em cartaz no IMS do Rio.
      "É difícil encontrar um poeta que marque todos os xis' para entrar na categoria marginal, mas ela também não se desvinculou totalmente. Talvez a riqueza da geração seja a heterogeneidade", diz Alice.
      OS LIVROS FORA DE CATÁLOGO DE ANA C.
      "Cenas de Abril"
      1979, poesia (independente)
      "Correspondência Completa"
      1979, carta fictícia (independente)
      "Luvas de Pelica"
      1980, poemas em prosa (independente)
      "Literatura Não É Documento"
      1980, dissertação de mestrado pela UFRJ, sobre literatura e cinema (MEC/Funarte)
      "A Teus Pés"
      1982, prosa/poesia, incluindo os anteriores; último título em vida pela autora (Brasiliense, reeditado em 1998 pela Ática)
      "Inéditos e Dispersos"
      1985, poesia/prosa (Brasiliense, reeditado em 1998 pela Ática)
      "Escritos na Inglaterra"
      1988, ensaios sobre literatura, inclui dissertação de mestrado pela Universidade de Essex, na Inglaterra: tradução anotada do conto "Bliss", de Katherine Mansfield (Brasiliense)
      "Escritos no Rio"
      1993, textos publicados na imprensa (Brasiliense/UFRJ)
      "Correspondência Incompleta"
      1999, cartas (Aeroplano)
      "Antigos e Soltos"
      2008, prosa/poesia (IMS)

        segunda-feira, 5 de agosto de 2013

        Parir ouro - Carlos Emilio Faraco

        Nāo tenho ouro,
        Nem prata,
        Nem mérito
        Ou cartāo de crédito.

        Tenho meu silêncio,
        Que transformo em palavras baratas,
        Quando quero.

        Ás vezes, elas
        Desencasulam-se aladas
        E viram borboletas.

        Às vezes,
        Escorrem boca abaixo,
        Qual massa ígnea.

        Por vezes, duras,
        Brotam como comandos.
        Outras, de latāo,
        Se moldam em insígnias.

        Em todos os casos,
        Sāo inúteis:

        As borboletas,
        Porque a natureza já as produz
        Aos milhares
        E massas ígneas
        Nāo passam de vômito
        De vulcōes
        Mal-humorados.

        Melhor será, pois,
        Manter-me em silêncio,
        Ruminando
        Minhas perplexidades,
        Ou, pelo menos,
        Parir ouro,
        Como certas galinhas
        De cacarejar bilingue.

        sexta-feira, 5 de julho de 2013

        Etimologia - Carlos Emilio Faraco

        Poesia
        ETIMOLOGIA

        Com o tempo,
        ás águas pluviais
        correm,
        esquecidas de sua origem.

        Encontram-se
        com as águas fluviais
        (também desgrudadas
        do seu nascimento)
        e conversam
        sobre os refolhos dos homens,
        sobre a memória dos homens,
        sobre a boca dos homens.

        A noite
        da língua portuguesa
        é cheia de murmúrios...


        https://www.facebook.com/cefaraco

        quarta-feira, 26 de junho de 2013

        minhas 7 quedas - paulo leminski

        minhas 7 quedas

        minha primeira queda
        não abriu o pára-quedas

        daí passei feito uma pedra
        pra minha segunda queda

        da segunda à terceira queda
        foi um pulo que é uma seda

        nisso uma quinta queda
        pega a quarta e arremeda

        na sexta continuei caindo
        agora com licença
        mais um abismo vem vindo

        Paulo Leminski 

        domingo, 16 de junho de 2013

        Dois Poemas - Age de Carvalho

        folha de são paulo
        IMAGINAÇÃO
        PROSA, POESIA E TRADUÇÃO
        AGE DE CARVALHO

        "E depois disto nosso exílio"
        a Mirek Konopka, in memoriam

        "Veio Cristo, o tigre"
        logo cedo pela manhã
        no lombo do verso encourado,
        quando de ti
        chegava a notícia
        da ida adiada para antes-do-Ontem,
        tua partida e exílio
        para depois-de-todo-amanhã,
        na névoa.
        Pensava:
        Ele está em ti,
        dele carneiro e servo, sedado de verdade.
        Ele está em ti,
        todo espalhado no pâncreas cintilante-minado.
        Ele está em ti,
        assim como, queremos crer,
        naquele ramo de sânscrito
        transcrito na pétala
        rósea-declinada,
        de significado chão,
        ao pé da cerejeira jovem
        em floração.

        Blacknight
        a Jorge Reynaldo da Silva Age, in memoriam

        Quem beijou
        a margem de terra,
        quem beijou
        na testa a imagem
        nublada que era ou terá sido
        desde o início: viagem,
        viagem de ti
        agora,
        desse estar-aí
        que é ser
        entre sono e vigília
        sobre o capim sussurrante,
        descalço, sob estrelas.
        .................................
        Eram 3 da tarde,
        dez da manhã aí,
        quando, um facho, cruzamos
        na estrada:
        um lampejo, visão, uma jura
        latejando no vero instante
        em que vi o Mustang 67,
        teu carro, passar num raio --
        anunciava que àquela Hora,
        longe,
        em Desbelém,
        soltas as rédeas dentro da noite escura,
        podias agora enfim
        voltar à terra.

          domingo, 9 de junho de 2013

          Nascer e outros três poemas

          folha de são paulo
          ARMANDO FREITAS FILHO
          ESPECIAL PARA A FOLHA

          SOBRE OS POEMAS Os textos aqui publicados integram o livro com o qual Armando Freitas Filho comemora 50 anos de poesia. "Dever", que reúne poemas escritos entre 2007 e 2012, tem lançamento previsto para julho, pela Companhia das Letras.

          NASCER
          Casta, casa, criança.
          A primeira se esmerava
          em palavras castiças, a segunda
          se erguia a partir dessas
          legendas, a terceira saía
          para o jardim domesticado
          à tesoura e vento medido.
          A revelação rompeu contra
          os santarrões, e o limpo voo
          da cegonha caiu abatido pelas pedras
          do palavreado de carregação:
          "Não. Se nasce nas coxas
          entre as pernas e o sangue
          da mãe, partida para parir".
          No mastro do quarador
          com canivete em punho
          o ano da revelação foi gravado --
          trêmulo-- e o jardim
          se encrespou de encontro
          à casa, a casta perdeu
          o lustro, a criança morreu.
          Atravessou a tarde ao tempo
          fora da casa, da casta, expulso
          sem querer voltar, misturando
          nojo, ódio, a carne de todos
          na máquina de moer/doer
          pingando no chão sujo e úmido
          da cozinha, do banheiro, do quarto.
          Largado no cimento, de macacão
          recendendo a sabonete Gessy
          o negro criado sorria vitorioso
          no calor: pés descalços, calos
          viril, de peito aberto, e mãos
          e boca de hálito diferente:
          Ubirajara Alberto Gonçalves, dixit.

          AR DE FAMÍLIA
          Só sei ser íntimo ou não sei ser.
          O que escrevo me ameaça de tão perto.
          Amassa mãe, pai, filhos, mulheres
          os de sangue símil, os de romance
          os de tinta de impressão, de árvore
          venosa de folhas variáveis no vento
          das estações, no ferido almofariz
          com o mesmo pilão de pedra
          sem lavar, e entre uma socada e outra
          o silêncio do punho fechado.

          MARCAS DA MÃE
          O primeiro prato-feito
          não admitia dúvida:
          tinha divisões, onde
          cada porção se punha
          certa e definitiva.
          O punhado de arroz
          a colher e meia de feijão
          a cor de legume medido
          a carne cortada em cubos
          contados. Depois, no prato
          raso do mesmo jogo
          a fatia certeira de queijo
          e de doce acabando juntos.
          Mais tarde, na louça adulta
          e anônima, a mesma mão
          destinada, dispunha
          sem engano, a comida.
          Nem mais, nem menos
          mas com um tempero oculto
          um veneno de mentira:
          o que era antes interdito
          à criança se permitia
          ao menino que não crescia.
          Agora, sem sua certeza
          me sirvo hesitante:
          o que corto, o que ponho
          ora sobra, ora falta
          e não sei, exatamente
          o que me alimenta ou me mata.

          TRANSITIVO
          Só o pai gosta de você.
          Amor automático igual
          ao sangue que corre
          para não escorrer, só
          o pai sente quando
          você sai sem abrigo.
          Só o pai sente o frio
          só o pai, o homem, não.

          segunda-feira, 27 de maio de 2013

          1968 - Carlos Emilio Faraco

          1968

          Eles moeram vidro
          e enfiaram o pó
          em nossas goelas,
          muitas ainda donzelas.

          Alguns, com estômago elástico,
          pariram diamantes plásticos
          e com eles se encantaram.

          Os que nāo cooptaram
          Ainda sangram.

          domingo, 19 de maio de 2013

          Dois sonetos - Garcilaso de La Vega,tradução Nelson Ascher

          folha de são paulo

          IMAGINAÇÃO
          prosa, poesia e tradução
          Dois sonetos
          E outros versos de amor e humor
          GARCILASO DE LA VEGATRADUÇÃO *NELSON ASCHER*

          Estou sem pausa em lágrimas banhado,
          Rompendo sempre com suspiros o ar,
          E o pior é que não ouso vos contar
          Que é por vós que me encontro nesse estado;

          (Estrofe inicial do soneto n. 38)

          Canção, eu disse mais do que mandaram
          E menos que pensei;
          Não me perguntem mais, porque eu direi.

          (Trecho da canção n. 2)

          "Que acusações são estas
          Que vós lhe quereis lançar?
          Tudo o que fez foi dançar."
          Tem-se isto por grande culpa?
          Mas não o foi, a meu ver,
          Porque tem como desculpa
          Ter sido obra da mulher.
          Esta o levou a cair
          Muito mais do que o saltar
          Que realizou ao dançar.

          (Trecho de "villancico" escrito para dom Luis de la Cueva)

          Ninguém pode ser, senhora,
          Nem feliz nem desgraçado
          A não ser que te haja olhado.
          Pois o júbilo de ver-te
          Some se se chega ao ponto
          De se julgar merecer-te,
          Portanto, sem conhecer-te,
          Ninguém pode ser, senhora,
          Nem feliz nem desgraçado
          A não ser que te haja olhado.

          (Copla n. 8)

          As pessoas estão todas
          Pasmas, que a falar puseste
          De um milagre que fizeste
          Justamente numas bodas;
          Hás ainda, a meu juízo,
          Caso sigas tal caminho,
          De transformar água em vinho
          Como antes a dança em riso.

          (Copla n. 7)

          Destino causador de minhas dores,
          Como eu senti o rigor de tuas leis
          Pela terra espalhando fruta e flores,
          Cortaste a árvore com mão cruéis.
          Em pouco espaço jazem meus amores
          Bem como as esperanças minhas. - Eis
          Que em cinzas que desdenham meus clamores
          E aos meus ais surdas, tudo se desfez.
          O pranto, pois, que nesta sepultura
          Já se chorou e ainda hoje se chora,
          Recebe, embora ali te chegue em vão,
          Até que feche, a eterna noite escura,
          Meus olhos que te viram viva outrora
          E outros olhos me dê, que te verão.

          (Soneto n. 25)

          Vosso semblante levo na alma inscrito
          E tudo o que escrever de vós anseio,
          Vós sozinha o escrevestes -- eu o leio
          Tão só, vos respeitando mesmo nisto.
          Mas algo em que hoje e no porvir persisto,
          Embora em mim não caiba quanto exposto
          Já vi de vós, com fé por pressuposto,
          No bem que não entendo eu acredito.
          Nasci só para amar-vos com empenho;
          Minh'alma vos talhou à sua medida;
          Minh'alma que, habituada, vos adora;
          Confesso vos dever tudo o que tenho;
          Por vós nasci, por vós eu tenho vida,
          Por vós eu morreria e morro agora.

          (Soneto n. 5)

            sábado, 18 de maio de 2013

            Poemeto de amor ao próximo - Elisa Lucinda


            O poema agradece por tantos aplausos no meio dos versos.

            Poemeto de amor ao próximo

            Me deixa em paz. 
            Deixe o meu, o dele, o dos outros em paz!
            Qualé rapaz, o que é que você tem com isso?
            Por que lhe incomoda o tamanho da minha saia?
            Se eu sou índia, se sou negra ou branca, 
            se eu como com a mão ou com a colher,
            se cadeirante, nordestino, dissonante, 
            se eu gosto de homem ou de mulher, 
            se eu não sou como você quer?
            Não sei por que lhe aborrece
            a liberdade amorosa dos seres ao seu redor.
            Não sei por que lhe ofende mais 
            uma pessoa amada do que uma pessoa armada!?
            Por que lhe insulta mais
            quem de verdade ama do que quem lhe engana?
            Dizem que vemos o que somos, por isso é bom que se investigue: 
            o que é que há por trás do seu espanto, 
            do seu escândalo, do seu incômodo
            em ver o romance ardente como o de todo mundo, 
            nada demais, só que entre seres iguais?
            Cada um sabe o que faz 
            com seus membros,
            proeminências,
            seus orifícios,
            seus desejos, 
            seus interstícios.
            Cada um sabe o que faz,
            me deixe em paz.
            Plante a paz. 
            Esta guerra que não se denomina
            mas que mata tantos humanos, estes inteligentes animais,
            é um verdadeiro terror urbano e ninguém aguenta mais.
            “Conhece-te a ti mesmo”
            este continua sendo o segredo que não nos trai.
            Então, ouça o meu conselho
            deixe que o sexo alheio seja assunto de cada eu,
            e, pelo amor de deus, 
            vá cuidar do seu.

            Elisa Lucinda, quinze de maioutono lindo

            sábado, 11 de maio de 2013

            Epopeia de Aimé Césaire expõe condição oprimida dos negros

            folha de são paulo

            CRÍTICA - POESIA
            Epopeia de Aimé Césaire expõe condição oprimida dos negros
            O surrealismo permitiu ao poeta combinar rigor e delírio, criação e destruição, o que parecia descrever com maior força a realidade do seu povo e o impulso de mudar
            FELIPE FORTUNAESPECIAL PARA A FOLHAPoeta negro, militante da descolonização, Aimé Césaire (1913- 2008) buscou no seu engajamento um sentido mais puro às palavras da raça.
            Revolucionário, o poeta, nascido na Martinica, encontrou no surrealismo o discurso --que Jean-Paul Sartre denominou de método-- para projetar uma transfiguração irrefreável, em várias dimensões: a língua francesa, imposta, seria agora convertida em instrumento de contestação.
            A representação do negro antilhano, antes idealizada, agora exibe aspectos de violência, de ressentimento, de reivindicação e de poder.
            O anticolonialismo de Césaire se revelou uma novidade potente na política e na literatura, a clamar por engajamento e por independência.
            "Diário de um Retorno ao País Natal", obra escrita e reescrita ao longo de quase duas décadas, é o depoimento em forma de epopeia, ao mesmo tempo biográfico e profético, de quem expõe uma condição oprimida.
            Criou-se com esse poema-prosa, lançado inicialmente em 1939, a primeira manifestação da negritude --palavra inventada e conduzida por Césaire.
            A revolta do poeta é evidente: ao vislumbrar cidades como Liverpool e Nova York, por exemplo, ele afirma: "Não há nem um pedaço desse mundo que não tenha minha impressão digital".
            Mais do que a marca na superfície, contudo, o "Diário" revela um processo de infiltração gradativa, pelo qual o negro denuncia a passividade do seu povo --deformado na alma e aculturado-- e as formas de opressão trazidas pelo colonizador.
            A negritude, potência libertadora, impede que os antilhanos permaneçam vítimas; impede também que a palavra civilização tenha apenas o sentido de desenvolvimento e progresso.
            O retorno do poeta ao seu país é um episódio biográfico que resulta numa queda no inferno.
            "Mas quem muda minha voz? Quem esfola minha voz? Enfiando-me na garganta mil estacas de bambu. Mil espinhos de ouriço. (...) És tu peso do insulto e cem anos de chicote. És tu cem anos da minha paciência, cem anos dos meus esforços só para não morrer."
            MONUMENTO LÍRICO
            Mas o projeto político de Césaire --robusto e inconfundível-- é igualmente transmitido por meio de metáforas desconcertantes, que tanto atraíram o francês André Breton (1896-1966), o autor de "Os Campos Magnéticos" (1920), que declarou ser o "Diário" "o maior monumento lírico deste tempo".
            O surrealismo permitiu ao poeta da negritude combinar rigor e delírio, criação e destruição, o que parecia descrever com maior força a realidade do seu povo e o impulso de mudar.
            "Olha, prefiro confessar que generosamente delirei, meu coração no cérebro como um joelho bêbado. (...) E sobre esse sonho antigo minhas crueldades canibais: (...) (As balas na boca saliva espessa nosso coração de quotidiana baixeza explode)", escreveu.
            A edição bilíngue de Lilian Pestre de Almeida, tradutora que assina um ensaio rico de interpretações e informações, tem numerosos méritos.
            O principal deles, o de finalmente fazer circular em português um texto de muito interesse para as obrigatórias reflexões sobre o Brasil que foi longamente escravocrata.
            Pode-se discordar de trechos da tradução por serem eventualmente literais e sem total atenção à expressão poética.
            Mas em nenhum momento se deixa de transmitir a novidade, as reivindicações e as aflições do poeta-narrador, que oscilam entre o pessoal e o cósmico.
            O leitor poderá lembrar que Cruz e Sousa (1861-1898) escreveu "Emparedado", texto doloroso no qual denuncia o racismo e "a ciência ditadora" que reduziu o seu destino do poeta.
            Ali ocorreu o protesto, mas não a libertação do negro. Com Césaire, tudo parece quebrar-se e erguer-se, a partir das imagens críticas que rumam à libertação.

              terça-feira, 30 de abril de 2013

              Poesia


              Me salva, por favor
              Das mesmices do dia
              Do comezinho das gentes
              Das mãos que não tocam
              Da carta de amor que não chega
              Me salva, por favor
              Da matemática precisa das faltas e excessos
              Das águas revoltas com o que fizemos
              Das trovoadas em noite de breu
              Me salva, por favor
              Descortinando os véus
              Me mostrando as estrelas
              Que dos seus olhos felizes
              Pularão pros meus

              segunda-feira, 29 de abril de 2013

              Leia poema infantil de Paulo Leminski publicado pela 'Folhinha'


              Folha DE SÃO PAULO

              Folhinha 50 AnosO escritor Paulo Leminski é famoso entre adultos, mas ele também escrevia para crianças.
              Em 1985, Leminski escreveu o poema "A Lua no Cinema", sobre uma estrela que não tinha namorado. O texto foi publicado pela 'Folhinha'.
              Leia a íntegra, publicada em 3 de novembro de 1985, abaixo.
              *
              A Lua no Cinema
              A lua foi ao cinema,
              passava um filme engraçado.
              Era a história de uma estrela
              que não tinha namorado.
              Não tinha porque era apenas
              uma estrela bem pequena,
              dessas que, quando apagam,
              ninguém vai dizer, que pena!
              Era uma estrela sozinha,
              ninguém olhava pra ela,
              e toda a luz que ela tinha
              cabia numa janela.
              A lua ficou tão triste
              com aquela história de amor,
              que até hoje a lua insiste:
              - Amanheça, por favor!
              PAULO LEMINSKI, é poeta
              Ovidio Vieira/Folhapress
              Paulo Leminski nas ruas de São Paulo em foto de 1983
              Paulo Leminski nas ruas de São Paulo em foto de 1983