Frequência
Sobrevivi e aprendi a lição: é perigoso
dançar com 120 quilos nos ombros, sobretudo e principalmente se a dança
envolve ritual de acasalamento
Estado de Minas: 24/11/2013
Enganam-se os que
pensam que um ambiente, pelo fato de ser de luxo, recebe gente melhor de
mor qualidade. Comida boa, restaurante dos mais caros, o Gero de
Ipanema é um perigo.
A convite, lá estive faz algum tempo e dei
notícia neste jornal. Casa cheia, adentra (!) o recinto o senador Lobão
com a sua cabeleira cor de cenoura, hoje escurecida na condição de
ministro de Minas e Energia para ficar nos conformes da escuridão nos
apagões que se repetem.
Na quinta-feira de lua cheia 18 de
outubro de 2013, foi pior. Havia sentadas à entrada do restaurante duas
moças com caras e roupas de não sei quê. Depois, chegaram dois senhores
de gravata, também com cara de não sei quê. Por fim, os frequentadores
do Gero descobriram que os quatro faziam parte do entourage de uma alta
autoridade da Justiça brasileira, cidadão que conspurca, denigre,
empesta um Maracanã inteiro, continua solto e tem mandato por muitos e
muitos anos. Triste país.
Sorocaba
Com a
vitória do piloto Átila Abreu na etapa curitibana da Stock Car, fiquei
sabendo que o rapaz tem 1m92, mesmo assim porque tomou remédio para
deixar de crescer. A altura prejudicou sua carreira nos monopostos
europeus. Aprendi também que nasceu em Sorocaba (SP) município que me
lembra morfina, um dos mais importantes alcaloides (C17H19NO3) do ópio,
usado especialmente como analgésico e narcótico.
Explico. Na flor
dos meus 18 aninhos, metido a forte, lá estive hospedado numa fazenda
sorocabana onde havia bela senhora, casada, de olho no então jovem
philosopho. Visando a impressionar a morena, fiz a besteira de escolher
dois sacos de 60kg e pedir a um empregado que os botasse sobre os meus
ombros, um de cada lado.
Até aí, tudo bem: um idiota com 120kg
sobre os ombros. Não contente com isso, lembrei-me de que inúmeras
espécies animais incluem movimentos dançantes nos rituais de
acasalamento. Por isso, resolvi dançar para mostrar que tirava de letra
aquele peso, quando senti que alguma coisa saiu dos eixos na minha
coluna. Resultado: fiquei sem a morena casada e embarquei para o Rio num
automóvel com chofer. Sorocaba demora 84 quilômetros de São Paulo,
capital, e ainda havia o trecho São Paulo-Rio pela Via Dutra.
Urrando
de dor, resolvi parar no aeroporto de Congonhas, onde já saí do carro
assistido pelo serviço médico aeroportuário, de maca, doutores que me
embarcaram no primeiro avião da ponte aérea depois de me aplicar uma
injeção de morfina.
Do Santos Dumont até ao apartamento em
Copacabana tive táxi e motorista para carregar minha mala. Sexta-feira
de carnaval: não havia ninguém em casa. Deitei-me na cama e passei dias
inteiros vendo o carnaval pela televisão. Um médico amigo passou lá em
casa para reforçar os analgésicos, sem outra injeção de morfina. O
estoque de queijos e presuntos da geladeira deu para sobreviver durante o
tríduo momesco. No calorão carioca, devo ter passado dias sem tomar
banho e consegui que o serviço médico do trabalho me desse duas semanas
de licença. Sobrevivi e aprendi a lição: é perigoso dançar com 120
quilos nos ombros, sobretudo e principalmente se a dança envolve ritual
de acasalamento.
Futebol
Muitos canais de tevê passam horas
transmitindo partidas de futebol ao vivo ou gravadas, sinal de que há
telespectadores assistindo e anunciantes pagando pela exibição. Cada
transmissão faz chegar à casa do telespectador as vozes do narrador e de
pelo menos um comentarista.
Considerando que a opinião do
telespectador nem sempre coincide com a do comentarista, sugiro que a
tecnologia televisiva separe as coisas, permitindo que o telespectador
assista ao prélio sem ouvir o que diz o comentarista.
Se eles
próprios, comentaristas, não se entendem sobre o que está acontecendo em
campo, é justo poupar o telespectador da enxurrada de asneiras que
arrotam durante as partidas.
O mundo é uma bola
24
de novembro de 1631: os holandeses incendeiam a cidade de Olinda, PE.
Em 1642, o explorador holandês Abel Tasman avista a ilha que mais tarde
seria batizada com o seu nome: Tasmânia.
Em 1831, o físico
experimental inglês Michael Faraday anuncia a descoberta da Lei do
Eletromagnetismo, que leva o seu nome, também conhecida como Lei da
Indução. Em 1848, disfarçado, o papa Pio IX fugiu para Gaeta, fortaleza
localizada no Reino das Duas Sicílias. Outro que está ameaçado de fugir
disfarçado é o papa Francisco, se continuar implicando com os bispos que
constroem residências um pouquinho mais caprichadas, como fez com o
bispo de Limburgo, o piedoso Franz-Peter Tebartz van Elst.
Em
1859, publicação do livro A origem das espécies, de Charles Darwin, o
que não impediu que até hoje idiotas acreditem no criacionismo.
Em
1632 nasceu, em Amsterdam, de família judaica portuguesa, o filósofo
holandês Baruch de Espinoza, fundador do criticismo bíblico moderno. Em
1864 nasceu o pintor francês Toulouse-Lautrec. Em 1897, foi a vez do
gângster americano Lucky Luciano. Em 1963, Lee Harvey Oswald, indiciado
como assassino do presidente Kennedy, foi morto por Jack Ruby.
domingo, 24 de novembro de 2013
Genoma mínimo - Bruna Sensêve
Genoma mínimo
Não é preciso um cromossomo Y inteiro para gerar filhote macho. Bastam dois genes da estrutura
Bruna Sensêve
Estado de Minas: 24/11/2013
O viril cromossomo Y pode não ser mais tão essencial para gerar descendentes masculinos. Pelo menos, não por inteiro. Pesquisadores da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, conseguiram fazer com que camundongos machos nascessem da união de óvulos (que contêm um cromossomo X) e células sexuais masculinas que tinham apenas dois genes do Y, e não ele completo. Surpreendentemente, os embriões, gerados por uma técnica de reprodução assistida, se desenvolveram normalmente depois de implantados em fêmeas, e nasceram férteis.
“Isso significa que o cromossomo Y, ou a maior parte dele, não é mais necessário? Sim, dados os nossos atuais avanços em tecnologias de reprodução assistida”, afirma Monika Ward, professora do Instituto de Pesquisa em Biogênese da Faculdade de Medicina John A. Burns e principal autora do trabalho. Ela pondera, no entanto, que, para a fertilização normal, sem assistência, o cromossomo Y mantém sua importância. E ressalta que transpor o mesmo feito para humanos está longe de ser alcançado.
Os experimentos usaram camundongos machos produzidos em laboratório. Modificados geneticamente, os animais não tinham o cromossomo Y completo, mas apenas dois de seus inúmeros genes: o Sry e o Eif2s3y. Segundo a chefe do Serviço de Ginecologia da PUC-RS, Mariangela Badaloti, o primeiro gene é um velho conhecido dos cientistas, responsável pela diferenciação masculina. “Eles criaram ratos transgênicos usando essa porção conhecida e fragmentando o restante do cromossomo, separando genes e tentando produzir camundongos com novas associações”, explica a especialista em reprodução humana.
A intenção dos cientistas era descobrir que outras informações genéticas são essenciais para a reprodução. E acabaram chegando ao Eif2s3y. A função dos dois genes é complementar. O Sry diferencia a genitália, forma os testículos e produz a célula mãe que vai se diferenciar para produzir espermatozoide: a espermatogônia. “Ele vai até aí. O outro faz com que a espermatogônia começe a se dividir até quase se tornar um espermatozoide”, explica Mariangela. Os machos produzidos em laboratório, portanto, são considerados inférteis, por não produzirem espermatozoides, mas apenas espermátides – célula precursora do gameta sexual masculino. A principal diferença é que ela não tem a cauda, que confere mobilidade.
Mães de alguel A dúvida era se, com a ajuda das técnicas de reprodução assistida, esses “espermatozoides imaturos” seriam suficientes para gerar um ser. Nesse estágio do estudo, o pós-doutorando Yasuhiro Yamauchi os injetou em óvulos usandouma injeção intracitoplasmática espermátide redonda (Rosi, na sigla em inglês). Os embriões desenvolvidos nesse processo foram transferidos para cobaias fêmeas, que funcionaram como mães de aluguel.
Da gestação, nasceram camundongos vivos e férteis. “A maioria dos genes do cromossomo Y do camundongo são necessários para a fertilização normal”, reforça Monika Ward. “Quando se trata de reprodução assistida, nosso estudo mostra que a contribuição do cromossomo Y pode ser levado a um mínimo. Pode ser possível eliminar o cromossomo Y do camundongo se as substituições apropriadas forem feitas para os dois genes.”
Para a professora do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Maria Catira Bortolini, o feito mais impressionante do trabalho é mostrar o que ela chama de genoma mínimo. “Eles chegaram a dois genes que parecem ser os de maior efeito para obter um gameta viável para a reprodução.”
Ainda que a pesquisa tenha sido feita em camundongos, um impacto clínico pode ser esperado. Os avanços científicos dos últimos 30 anos em reprodução assistida permitiram que graves problemas masculinos de reprodução fossem driblados, especialmente com a micromanipulação, que consiste em colher o espermatozoide e injetá-lo no óvulo, reduzindo a necessidade do uso de um banco de sêmen. Artur Dzik, diretor científico da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana diz que a esperança de usar a técnica na clínica médica é o principal ponto do estudo para a reprodução humana.
Domesticados na Europa - Roberta Machado
Domesticados na Europa
Comparação do DNA de fósseis de cães e lobos com o de animais vivos conclui que processo de mudança dos animais selvagens em bichos de estimação ocorreu entre 18 mil e 32 mil anos atrás
Roberta Machado
Estado de Minas: 24/11/2013
Pastor belga, spitz alemão, bulldog francês, cocker spaniel inglês, pequeno cão holandês. Se os nomes internacionais já eram uma pista da grande influência europeia na árvore genealógica dos cachorros, pesquisadores apresentam agora a prova científica de que o melhor amigo do homem tem uma pata no Velho Continente. Foi ali, de acordo com a comparação genética de centenas de animais, que os primeiros lobos cinzentos passaram a acompanhar os humanos e a tomar uma forma mais amigável. A conclusão, publicada na revista Science desta semana, questiona a teoria aceita até então, de que foi a agricultura que atraiu esses animais para o convívio com pessoas. De acordo com o novo estudo, os cachorros teriam surgido entre 18 mil e 32,1 mil anos, muito antes das primeiras sociedades agrárias.
Para descobrir a história da domesticação dos lobos, os cientistas extraíram o DNA mitocondrial dos fósseis de oito cães e 10 lobos de até 36 mil anos e os compararam ao código genético de 77 cachorros, 49 lobos e quatro coiotes de hoje em dia. Assim, criaram uma árvore filogenética que mapeia a distância entre o DNA de fósseis e o de animais vivos.
Em comparação com todas as outras amostras, foram os cães da Europa que mais demonstraram similaridade genética com parentes de outros países e também com os lobos antigos. Isso indica, de acordo com os pesquisadores, que a domesticação dos bichos ocorreu no continente. “Há, essencialmente, quatro grandes grupos de cães domésticos de diversidade de DNA mitocondrial. E cada um desses grupos tinha um cão antigo ou um lobo antigo europeu que era ancestral direto de cães modernos”, explicou à Science Robert Wayne, biólogo evolutivo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.
A descoberta contesta outras hipóteses sobre a origem dos cães domésticos. A primeira teoria afirma que a transformação de lobos em animais de estimação ocorreu no Oriente Médio. “Estudos anteriores sobre variações genéticas do genoma mitocondrial usaram amostras limitadas ou de pequenas regiões”, defende Olaf Thalmann, pesquisador da Univesidade de Turku, na Finlândia, e principal autor do estudo. “Aqui, nós combinamos dados derivados de genomas mitocondriais completos e parciais. Dessa forma, nós conseguimos determinar a variação genética que ocorreu no passado”, salienta.
As outras linhas de pesquisa sustentavam a ideia de que os canídeos haviam se aproximado dos humanos atraídos pela atividade agrária, onde encontravam alimento em troca da companhia que ofereciam aos amigos de duas pernas. A nova data estimada pela equipe de Thalmann torna essa explicação impossível, já que a agricultura só teria sido desenvolvida aproximadamente 6 mil anos depois da domesticação dos animais.
O pesquisador ainda acredita em uma relação de benefício mútuo entre pessoas e cães, mas acrescenta que a história teria sido um pouco diferente do que se contava até hoje. Os lobos poderiam ter se alimentado das carcaças deixadas pelos homens, que se aproveitariam do instinto dos mamíferos para caçar presas de grande porte, como cavalos ou mamutes. “Essa proximidade pode ter se desenvolvido em uma interação mais intensa com o amansamento desses animais selvagens e a incorporação dele em residências”, especula Olaf.
Impasse Especialistas de todo o mundo têm enfrentado três grandes problemas na busca de uma solução para o mistério sobre o surgimento dos cães: o primeiro é a similaridade entre os lobos e os primeiros cães, que não mostravam muitas distinções físicas. Levaria alguns milhares de anos para que as duas espécies se separassem completamente. “Na evolução das espécies, os indivíduos vão se adaptando às mudanças do ambiente onde vivem. No caso dos cães, deixaram de ser caçadores e se adaptaram à vida ao lado do homem. Durante esse processo, podem ocorrer mutações no DNA, como uma resposta ao processo de adaptação”, ensina Denise Andrade, professora de veterinária e pesquisadora do Laboratório de Genética da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A segunda questão é o cruzamento de lobos com cachorros, que adicionou novos genes à mistura de DNA. No entanto, comparações atuais entre as duas espécies não têm serventia, já que os lobos cinzentos que deram origem aos cães modernos estão praticamente extintos. De acordo com a nova pesquisa, o parente lobo mais próximo dos cachorros atuais é um espécime de 14,5 mil anos, encontrado em uma caverna na Suíça.
A última questão seria a migração dos cachorros, que foram para outros continentes e acabaram constituindo novas raças. Essa mudança geográfica pode apresentar provas falsas no quesito diversidade genética, um risco do estudo que aponta a origem europeia. “Os autores mencionam que não foi possível estudar o DNA mitocondrial de cães ancestrais da China, outro possível local de origem desses animais”, ressalta Denise Andrade.
O impasse deve perdurar até que seja esclarecido por um exame mais minucioso do DNA canino. A prova cabal estaria no raríssimo DNA nuclear das amostras fossilizadas, geralmente danificadas demais para fornecer material de qualidade. Foram esses genes originados nos núcleos das células, lembra Robert Wayne, que deram pistas fundamentais para a própria evolução humana. “Como com os neandertais, acho que isso vai acertar a maior parte da história. Em termos de concluir o debate, tem muito mais a ser feito. Claro, é o jeito da ciência”, conclui o pesquisador.
Comparação do DNA de fósseis de cães e lobos com o de animais vivos conclui que processo de mudança dos animais selvagens em bichos de estimação ocorreu entre 18 mil e 32 mil anos atrás
Roberta Machado
Estado de Minas: 24/11/2013
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| Animal ajuda a procurar explosivos na Inglaterra: origem dos cães domésticos ocorreu antes do advento da agricultura, indica a nova análise |
Pastor belga, spitz alemão, bulldog francês, cocker spaniel inglês, pequeno cão holandês. Se os nomes internacionais já eram uma pista da grande influência europeia na árvore genealógica dos cachorros, pesquisadores apresentam agora a prova científica de que o melhor amigo do homem tem uma pata no Velho Continente. Foi ali, de acordo com a comparação genética de centenas de animais, que os primeiros lobos cinzentos passaram a acompanhar os humanos e a tomar uma forma mais amigável. A conclusão, publicada na revista Science desta semana, questiona a teoria aceita até então, de que foi a agricultura que atraiu esses animais para o convívio com pessoas. De acordo com o novo estudo, os cachorros teriam surgido entre 18 mil e 32,1 mil anos, muito antes das primeiras sociedades agrárias.
Para descobrir a história da domesticação dos lobos, os cientistas extraíram o DNA mitocondrial dos fósseis de oito cães e 10 lobos de até 36 mil anos e os compararam ao código genético de 77 cachorros, 49 lobos e quatro coiotes de hoje em dia. Assim, criaram uma árvore filogenética que mapeia a distância entre o DNA de fósseis e o de animais vivos.
Em comparação com todas as outras amostras, foram os cães da Europa que mais demonstraram similaridade genética com parentes de outros países e também com os lobos antigos. Isso indica, de acordo com os pesquisadores, que a domesticação dos bichos ocorreu no continente. “Há, essencialmente, quatro grandes grupos de cães domésticos de diversidade de DNA mitocondrial. E cada um desses grupos tinha um cão antigo ou um lobo antigo europeu que era ancestral direto de cães modernos”, explicou à Science Robert Wayne, biólogo evolutivo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.
A descoberta contesta outras hipóteses sobre a origem dos cães domésticos. A primeira teoria afirma que a transformação de lobos em animais de estimação ocorreu no Oriente Médio. “Estudos anteriores sobre variações genéticas do genoma mitocondrial usaram amostras limitadas ou de pequenas regiões”, defende Olaf Thalmann, pesquisador da Univesidade de Turku, na Finlândia, e principal autor do estudo. “Aqui, nós combinamos dados derivados de genomas mitocondriais completos e parciais. Dessa forma, nós conseguimos determinar a variação genética que ocorreu no passado”, salienta.
As outras linhas de pesquisa sustentavam a ideia de que os canídeos haviam se aproximado dos humanos atraídos pela atividade agrária, onde encontravam alimento em troca da companhia que ofereciam aos amigos de duas pernas. A nova data estimada pela equipe de Thalmann torna essa explicação impossível, já que a agricultura só teria sido desenvolvida aproximadamente 6 mil anos depois da domesticação dos animais.
O pesquisador ainda acredita em uma relação de benefício mútuo entre pessoas e cães, mas acrescenta que a história teria sido um pouco diferente do que se contava até hoje. Os lobos poderiam ter se alimentado das carcaças deixadas pelos homens, que se aproveitariam do instinto dos mamíferos para caçar presas de grande porte, como cavalos ou mamutes. “Essa proximidade pode ter se desenvolvido em uma interação mais intensa com o amansamento desses animais selvagens e a incorporação dele em residências”, especula Olaf.
Impasse Especialistas de todo o mundo têm enfrentado três grandes problemas na busca de uma solução para o mistério sobre o surgimento dos cães: o primeiro é a similaridade entre os lobos e os primeiros cães, que não mostravam muitas distinções físicas. Levaria alguns milhares de anos para que as duas espécies se separassem completamente. “Na evolução das espécies, os indivíduos vão se adaptando às mudanças do ambiente onde vivem. No caso dos cães, deixaram de ser caçadores e se adaptaram à vida ao lado do homem. Durante esse processo, podem ocorrer mutações no DNA, como uma resposta ao processo de adaptação”, ensina Denise Andrade, professora de veterinária e pesquisadora do Laboratório de Genética da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A segunda questão é o cruzamento de lobos com cachorros, que adicionou novos genes à mistura de DNA. No entanto, comparações atuais entre as duas espécies não têm serventia, já que os lobos cinzentos que deram origem aos cães modernos estão praticamente extintos. De acordo com a nova pesquisa, o parente lobo mais próximo dos cachorros atuais é um espécime de 14,5 mil anos, encontrado em uma caverna na Suíça.
A última questão seria a migração dos cachorros, que foram para outros continentes e acabaram constituindo novas raças. Essa mudança geográfica pode apresentar provas falsas no quesito diversidade genética, um risco do estudo que aponta a origem europeia. “Os autores mencionam que não foi possível estudar o DNA mitocondrial de cães ancestrais da China, outro possível local de origem desses animais”, ressalta Denise Andrade.
O impasse deve perdurar até que seja esclarecido por um exame mais minucioso do DNA canino. A prova cabal estaria no raríssimo DNA nuclear das amostras fossilizadas, geralmente danificadas demais para fornecer material de qualidade. Foram esses genes originados nos núcleos das células, lembra Robert Wayne, que deram pistas fundamentais para a própria evolução humana. “Como com os neandertais, acho que isso vai acertar a maior parte da história. Em termos de concluir o debate, tem muito mais a ser feito. Claro, é o jeito da ciência”, conclui o pesquisador.
Nova estratégia de exploração ilegal
Madeireiros desmatam áreas menores, invisíveis aos
radares, cientes de que são monitorados por satélites
Étore Medeiros
Estado de Minas: 24/11/2013
Brasília – Apesar do retorno de grandes áreas de desmatamento na Amazônia, superiores a mil hectares, um perfil de derrubada de floresta tem se consolidado na região nos últimos anos. São os polígonos menores de 25 hectares, invisíveis ao Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real, o Deter, do governo federal, que não tem resolução suficiente para percebê-los. Cientes de que estão sendo vistos do espaço, os madeireiros ilegais também têm atuado mais durante o inverno amazônico, entre dezembro e abril, quando a cobertura de nuvens é intensa — condição que prejudica a detecção pelos satélites. Sinalizações do governo de redução de unidades de conservação seriam outro fator de risco à floresta.
O governo só toma conhecimento de boa parte das derrubadas quando o estrago já está feito, por meio do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes). No último balanço anual, divulgado há duas semanas, constatou-se um aumento de 28% das áreas de floresta perdidas. Entre agosto de 2012 e julho de 2013, foram desmatados 5.843km², área equivalente a todo o Distrito Federal. Desde 2005 à frente na lista, o Pará contribuiu com 2.379km², ou 40,7% do total, seguido por Mato Grosso (1.149km²) e Rondônia (933km²). Juntas, as áreas dos três estados formam o chamado Arco do Desmatamento.
Francisco Oliveira, diretor do Departamento de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, acredita que o aumento é um ponto fora da curva. “Não vai continuar subindo. Entre agosto e outubro deste ano, temos um indicativo de queda de 24%. Devemos voltar aos 4.500km² de 2012”, explica. Com a volta dos grandes polígonos, os desmatamentos abaixo de 25 hectares perderam importância, passando de 60% para 50% do total, mas continuam predominantes, tanto que o governo federal já prepara uma ofensiva para detectá-los.
Aviões do Sistema de Proteção da Amazônia, equipados com radar — que conseguem “ver” por meio das nuvens — devem começar a monitorar áreas prioritárias ainda este mês. Parcerias com a China e a Índia para a utilização de satélites também permitirão a identificação de áreas a partir de cinco hectares.
“A região mais quente do desmatamento está na BR-163”, aponta Oliveira. “Foram 107 polígonos acima de 100 hectares na região, sendo oito acima de mil hectares. Destes, 75 já foram embargados pelo Ibama”, explica. Em 2013, foi criado o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente, formado por 14 órgãos públicos, desde ministérios até a Força Nacional de Segurança Pública. O grupo encampou as operações Onda Verde e Hileia Pátria, que, juntas, aplicaram R$1,9 bilhão em multas, apreenderam 68,6 mil toras e embargaram 210 mil hectares de terras.
CORRIDA O secretário de Meio Ambiente do Pará, José Colares, também cita a BR-163 como foco de desmatamento, e aponta uma possível causa para a situação. “Na BR-163, o problema são as unidades de conservação, que a gente sabia que existia a possibilidade de revisão dessas áreas, principalmente de uma flona (floresta nacional) lá, e havia interesse de fazendeiros e madeireiros em ocupar aquela área, consolidar a ocupação para legitimar a retificação da unidade.” Daniel Azeredo, procurador da República no Pará, concorda com a análise. “O pico do desmatamento foi em agosto do ano passado, na região de Castelo dos Sonhos, dentro da Flona do Jamanxim, na região da BR-163, e coincide com uma declaração do governo federal de que a redução da flona estaria próxima – um simples comunicado, mas a mensagem que chega ao campo é de que quem chegar primeiro e abrir (a floresta) vai ser beneficiado. É como uma corrida pelo ouro.”
Étore Medeiros
Estado de Minas: 24/11/2013
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| Derrubadas ocorrem geralmente em meses com maior cobertura de nuvens, prejudicando a fiscalização |
Brasília – Apesar do retorno de grandes áreas de desmatamento na Amazônia, superiores a mil hectares, um perfil de derrubada de floresta tem se consolidado na região nos últimos anos. São os polígonos menores de 25 hectares, invisíveis ao Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real, o Deter, do governo federal, que não tem resolução suficiente para percebê-los. Cientes de que estão sendo vistos do espaço, os madeireiros ilegais também têm atuado mais durante o inverno amazônico, entre dezembro e abril, quando a cobertura de nuvens é intensa — condição que prejudica a detecção pelos satélites. Sinalizações do governo de redução de unidades de conservação seriam outro fator de risco à floresta.
O governo só toma conhecimento de boa parte das derrubadas quando o estrago já está feito, por meio do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes). No último balanço anual, divulgado há duas semanas, constatou-se um aumento de 28% das áreas de floresta perdidas. Entre agosto de 2012 e julho de 2013, foram desmatados 5.843km², área equivalente a todo o Distrito Federal. Desde 2005 à frente na lista, o Pará contribuiu com 2.379km², ou 40,7% do total, seguido por Mato Grosso (1.149km²) e Rondônia (933km²). Juntas, as áreas dos três estados formam o chamado Arco do Desmatamento.
Francisco Oliveira, diretor do Departamento de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, acredita que o aumento é um ponto fora da curva. “Não vai continuar subindo. Entre agosto e outubro deste ano, temos um indicativo de queda de 24%. Devemos voltar aos 4.500km² de 2012”, explica. Com a volta dos grandes polígonos, os desmatamentos abaixo de 25 hectares perderam importância, passando de 60% para 50% do total, mas continuam predominantes, tanto que o governo federal já prepara uma ofensiva para detectá-los.
Aviões do Sistema de Proteção da Amazônia, equipados com radar — que conseguem “ver” por meio das nuvens — devem começar a monitorar áreas prioritárias ainda este mês. Parcerias com a China e a Índia para a utilização de satélites também permitirão a identificação de áreas a partir de cinco hectares.
“A região mais quente do desmatamento está na BR-163”, aponta Oliveira. “Foram 107 polígonos acima de 100 hectares na região, sendo oito acima de mil hectares. Destes, 75 já foram embargados pelo Ibama”, explica. Em 2013, foi criado o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente, formado por 14 órgãos públicos, desde ministérios até a Força Nacional de Segurança Pública. O grupo encampou as operações Onda Verde e Hileia Pátria, que, juntas, aplicaram R$1,9 bilhão em multas, apreenderam 68,6 mil toras e embargaram 210 mil hectares de terras.
CORRIDA O secretário de Meio Ambiente do Pará, José Colares, também cita a BR-163 como foco de desmatamento, e aponta uma possível causa para a situação. “Na BR-163, o problema são as unidades de conservação, que a gente sabia que existia a possibilidade de revisão dessas áreas, principalmente de uma flona (floresta nacional) lá, e havia interesse de fazendeiros e madeireiros em ocupar aquela área, consolidar a ocupação para legitimar a retificação da unidade.” Daniel Azeredo, procurador da República no Pará, concorda com a análise. “O pico do desmatamento foi em agosto do ano passado, na região de Castelo dos Sonhos, dentro da Flona do Jamanxim, na região da BR-163, e coincide com uma declaração do governo federal de que a redução da flona estaria próxima – um simples comunicado, mas a mensagem que chega ao campo é de que quem chegar primeiro e abrir (a floresta) vai ser beneficiado. É como uma corrida pelo ouro.”
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