domingo, 30 de dezembro de 2012

O segredo dos altares - Gustavo Werneck‏

Briga de irmandades religiosas, medidas de economia e sociedades secretas deixaram marcas em igrejas barrocas de minas que ainda intrigam especialistas 

Gustavo Werneck
Estado de Minas: 30/12/2012 
Catas Altas e Nova Era – A mão do anjo parece atingir o céu. Com o braço erguido, ele se projeta no espaço, a quase 10 metros de altura, e impressiona quem visita o interior da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Catas Altas, na Região Central, a 120 quilômetros de Belo Horizonte. A figura alada que ultrapassa a cimalha e toca o forro de madeira é parte do altar de São Miguel e Almas, o maior da igreja, e também de uma história passada em meados do século 18 que fascina e desperta, até hoje, o interesse de estudiosos, fiéis e turistas. Devido às dimensões do retábulo, duas irmandades religiosas – Santíssimo Sacramento e São Miguel e Almas – brigaram na época e o caso foi parar na Câmara de Vila Rica, atual Ouro Preto.

“Até o pai de Aleijadinho, o mestre de obras Manuel Francisco Lisboa, que era um ‘louvado’, ou perito, foi chamado para opinar e acalmar os ânimos. A polêmica alimentou a primeira grande discussão sobre estética no Brasil colonial e está registrada no livro Arquitetura religiosa barroca do Brasil, do francês Germain Bazin (1901–1990)”, diz o restaurador Adriano Ramos, pesquisador do tema. “Também participou da discussão o mestre Francisco Branco de Barros, representante da Irmanade do Santíssimo Sacramento. O problema maior foi que o retábulo ultrapassava o arco da capela lateral, destoando dos restantes”, acrescenta a arquiteta Selma Melo Miranda, professora da PUC Minas e especialista em arte colonial mineira. Construídos para receber os santos de devoção, os altares guardam segredos, mistérios e símbolos que realçam a grandeza do patrimônio de Minas e atiçam a curiosidade de quem os contempla.

Diante do altar de São Miguel e Almas, o titular da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, padre Armando Godinho, destaca a luminosidade do retábulo que contém a imagem do santo forte contra as artimanhas do demônio; as virtudes, entre elas a justiça; duas colunas laterais; crianças sobre quartelões (pilastras ornamentadas); Cristo crucificado e Nossa Senhora das Dores com seu manto roxo. “É como se São Miguel ajudasse a alma a se purificar levando-a para o céu”, diz padre Godinho, estudante de pós-graduação em história da arte. Mas por que esse altar é tão gigantesco?

Tudo começou no começo do arraial, no princípio do século 18, quando havia uma capelinha no lugar da atual matriz. Os integrantes da Irmandade de São Miguel e Almas teriam sido os primeiros a chegar à região, antes mesmo dos da Santíssimo Sacramento, considerada mais importante, e se encarregavam das celebrações religiosas e enterros, por exemplo. “Com a construção da igreja, começou a contenda sobre o altar”, explica o padre, lembrando que, na sequência, vieram outros grupos de devoção responsáveis pelos altares dedicados a Nosso Senhor dos Passos, Nossa Senhora da Boa Morte, Santo Antônio, Santana e São Gonçalo do Amarante. 

“O altar de Nosso Senhor do Passos, a cargo da Irmandade do Santíssimo Sacramento, fica em frente ao de São Miguel e Almas e ambos foram sendo construídos ao mesmo tempo” conta o padre. “O problema é que o de São Miguel ultrapassou o padrão arquitetônico, sob protestos da outra associação religiosa. Não houve entendimento e o jeito foi reclamar em Vila Rica, pedindo que a obra fosse desmanchada”, completa. Mas, diante da beleza, as autoridades resolveram deixar como estava. 

Num giro pelo interior da matriz, padre Godinho mostra o forro da nave com a madeira nua, “que deveria ter um céu pintado, com a mão do anjo o tocando”, e os altares sem policromia, num contraste com os demais. “Tudo indica que a escassez do ouro na região impediu o término do serviço. O altar-mor foi pintado rapidamente para abrir logo a igreja aos fiéis. Mais tarde, depois da confusão entre as irmandades, a de São Miguel e Almas teria ido embora e os cuidados com o altar ficado a cargo da do Santíssimo Sacramento”, revela. 

Da janela de sua casa bicentenária, a viúva Gercina Emília de Souza, de 89 anos, contempla a matriz. “O altar de São Miguel e Almas é muito bonito, sempre cuidamos dele e do Santíssimo Sacramento”, diz Gercina. O templo, de onde se vê a Serra do Caraça, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 1939.

Em Nova Era, também na Região Central, a 130 quilômetros de BH, outro altar encanta e intriga. Na Igreja de São José da Lagoa, de 1743, há um retábulo com dois camarins (lugar onde ficam os santos): o primeiro, na parte superior, para Santana Mestra, e o de baixo ocupado pela imagem de São Francisco das Chagas. Segundo os especialistas, é o único desse tipo no país. “Foi construído assim por medida de economia, uma solução criativa do escultor”, diz o professor de educação patrimonial Elvécio Eustáquio da Silva, ressaltando que “só há um assim numa capela no Norte de Portugal”. Ele conta que a divisão chama a atenção de visitantes. “Mas essa característica continua um desafio, faltam estudos para dar uma explicação.” 

Olhando o altar da igreja, tombada desde 1953, Elvécio pergunta: “Por que a imagem de Santana Mestra está sobre a de São Francisco?” A dúvida decorre da maioria de elementos referentes ao santo, entre eles as insígnias, como a cruz, a mão de Cristo e as chagas em dourado. Já no altar de Nossa Senhora do Rosário há elementos não explicados. “Aqui estão imagens de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito, que não correspondem à Paixão de Cristo. O curioso é que há dois cravos e a cruz gravados no retábulo”, afirma. “Ainda há muito para se estudar. Os altares mostram a riqueza do fazer artístico”, avalia Selma Miranda. Ela lembra que a falta de documentação deixa lacunas. “Há fatos, relativos à arte, que foram bem estudados pelo Iphan nas décadas de 1940 e 1950 e são as referências que se tem até hoje, demandando novas pesquisas”, afirma.

Vestígios da maçonaria 
Especialistas defendem estudos para confirmar se compasso e esquadro encontrados no Santuário de Santa Luzia, na Grande BH, têm relação com a iconografia maçônica 
Gustavo Werneck

Santa Luzia e Mariana – No Santuário de Santa Luzia, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o enigma está no altar de São José. Em 1989, durante restauração do templo, tombado pelo município e pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha/MG), foram encontrados, na parte de trás do retábulo, um compasso e um esquadro esculpidos na madeira e em policromia dourada, que estariam relacionados à maçonaria. “Já está passando da hora de se fazer uma pesquisa profunda para esclarecer essa história”, defende a arquiteta e professora Selma Melo Miranda, lembrando que o assunto despertou o interesse da Promotoria de Defesa do Patrimônio Histórico e Turístico de Minas. 

É possível ver com nitidez a talha com o esquadro que, para os maçons, representa retidão e integridade de caráter, e o compasso, símbolo de equilíbrio, justiça e vida correta, já que foi deixada uma passagem sob a mesa do altar. Marco Aurélio Fonseca, diretor do Museu Histórico Aurélio Dolabella e responsável pelo inventário da igreja, informa que não há pesquisas conclusivas, principalmente sobre a época em que eles teriam sido esculpidos.

Segundo a tradição oral, diz Marco Aurélio, a madeira com o esquadro e o compasso pertenceriam ao forro do interior do camarim, depois ocultado em razão da ligação com a iconografia maçônica. “Como os entalhes do trono de São José são semelhantes ao altar-mor de Santa Luzia, é possível que ele estivesse à mostra no século 18”, afirma. No século seguinte, a exposição numa igreja católica criaria problemas para os padres, já que a bula Syllabus, editada em 1864 pelo papa Pio IX (1792-1878), proibia as relações da Igreja com a maçonaria. “Os símbolos poderiam também estar relacionados ao ofício de São José, que era carpinteiro, mas tudo vai demandar muita investigação”, acredita o diretor do museu.

Especificamente sobre o altar de São José, Marco Aurélio conta que as características estilísticas e as referências relacionadas à construção da igreja permitem dizer que ele foi feito entre 1750 e 1770. “A isso se soma a informação do professor e poeta Tibúrcio de Oliveira, já falecido, e provavelmente baseada em antigos livros da igreja, de que entre 1760 e 1776 o sargento-mor português Joaquim Pacheco Ribeiro, um dos promotores da construção da matriz, teria contratado ‘os serviços de moldura e de entalhe’ dos artistas Felipe Vieira e Francisco de Lima Cerqueira”, afirma.

Corpo e alma Em Mariana, primeira vila, cidade e diocese de Minas, há uma curiosidade que vale a visita. A Igreja de São Francisco, do século 18, pertencente à Ordem Terceira de São Francisco, apresenta uma bela surpresa, que aguça os sentidos. Do lado direito do templo, localizado na Praça Minas Gerais, estão os altares com os santos que curam “as dores do corpo” – São Luís de França, São Lázaro, São Sebastião, São Manoel e São Roque – e, do esquerdo, aqueles que curam as “da alma” – Santa Clara, São Vicente Ferrer, Santo Antônio, Santa Rita, Santa Rosa de Viterbo e Santa Isabel de Portugal. Atualmente, a igreja está fechada devido ao estado de deterioração. Só quando houver segurança e obras concluídas é que moradores e visitantes poderão apreciar mais essa faceta do patrimônio de Minas.

NAVIO OU TEATRO? 
Basta viajar para encontrar – e tentar desvendar – outros mistérios e particularidades dos altares das igrejas de Minas. De acordo com informações do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha/MG), a Matriz de Santo Antônio, do século 18, de Itacambira, no Norte de Minas, tem um altar-mor sui generis, inspirado na proa de um navio ou palco de teatro (foto). “Todo mundo que vem aqui fica impressionado”, diz o titular da paróquia, padre Gilmar Soares Martins. Na Igreja de Penha de França, em Itamarandiba, no Vale do Jequitinhonha, o altar também parece palco. Já na Igreja de Santa Efigênia, no Bairro Alto da Cruz, em Ouro Preto, na Região Central, construída pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e de Santa Efigênia, há anjos mulatos, símbolos africanos e um papa mulato.


Novas missões a Marte

FOLHA DE SÃO PAULO

Em vez de provas de um passado com vida, novos jipes farão busca direta de organismos na superfície do planeta
SALVADOR NOGUEIRACOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Em dez anos, se há alguma forma de vida facilmente acessível nos primeiros centímetros do solo marciano, é bem provável que já tenhamos ouvido falar dela.
Essa é a tônica da próxima fase da exploração não tripulada do planeta vermelho, promovida conjuntamente pela Nasa, agência espacial americana, e a ESA, sua contraparte europeia.
Até 2020, haverá três missões que confrontarão a pergunta em torno da qual todos têm dançado nos últimos anos: há vida em Marte?
Além dessas, duas outras -as primeiras a serem lançadas- tratarão de questões diferentes, mas também intrigantes: a estrutura interna do planeta vermelho e a dinâmica de sua alta atmosfera.
A NASA E O VÁCUO
Até recentemente, havia um grande vazio na agenda da agência americana no que diz respeito a Marte. Duas possíveis sondas estavam em estudo para lançamento até 2016. Dali em diante, era uma folha em branco. Em meio à difícil situação econômica mundial, parecia até que os americanos estavam tirando o pé do acelerador.
Diante disso, os ianques se sentiram na obrigação de mostrar que ainda tinham gana de explorar o planeta vermelho e acabam de anunciar sua intenção de enviar, em 2020, um novo jipe, nos moldes do modelo mais recente levado a Marte.
Desta vez, a missão será procurar vida para valer e não os simples pré-requisitos para sua existência, como o Curiosity está fazendo agora.
Contudo, antes que o novo veículo americano faça isso, uma missão europeia pode roubar a descoberta.
COMPETIÇÃO
O ambicioso projeto ExoMars está separado em duas etapas. Na primeira, em 2016, os europeus lançarão um satélite para mapear a presença de metano na atmosfera de Marte -o que pode ser um indicador de vida- e um veículo de pouso controlado.
Na segunda etapa, em 2018, um jipe de seis rodas buscará vida diretamente na superfície. Os russos prometeram ajudar, com grana e conhecimento, e os americanos aceitaram colaborar.
Procurar vida marciana não é exatamente uma novidade. Em 1976, as sondas americanas Viking 1 e 2 pousaram no planeta vermelho com um experimento projetado para detectar bactérias.
O dispositivo recolhia uma amostra de solo e colocava-a numa câmara, onde era banhada por uma solução de nutrientes. Se houvesse reação, estaria comprovada a presença de organismos vivos metabolizando alimento.
Ou não, pois o experimento foi conduzido e houve reação. Mas a análise das curvas de consumo dos nutrientes mostrava que eles eram rapidamente devorados e o processo parava de uma vez.
O padrão sugeria mais uma reação não biológica do que a atividade de bactérias.
O teste mostrou como é complicado buscar criaturas alienígenas sem saber o que procurar e, desde então, a Nasa adotou uma nova estratégia: cobrir de forma sistemática os enigmas do planeta vermelho, respondendo a questões como "Há água em Marte?" e "O planeta já reuniu condições para a vida?"
Foi nesses temas que as últimas missões avançaram.
Os jipes Spirit e Opportunity, lançados em 2003, demonstraram que Marte já teve água em abundância no passado; a sonda Phoenix, enviada em 2007, provou que ainda há gelo no subsolo e o Curiosity está fazendo análises sem precedentes em busca de compostos orgânicos.
Tudo parece apontar -na pior das hipóteses- para um passado favorável à vida. Se ela de fato floresceu e ainda resiste em algum lugar, ninguém sabe.
É onde entrará o novo jipe da Nasa, em 2020. "Ele será uma base científica móvel num local selecionado por sua habilidade de preservar evidências de vida", afirma James Green, diretor da divisão de ciência planetária da agência americana.
A agência ianque trata o esforço como a última etapa para a realização de uma futura missão de retorno de amostras, na década de 2020, a ser seguida pelo envio de astronautas, nos anos 2030.

Holandeses planejam 'colônia reality show' no planeta
Divulgação Mars One/AFP
Desenho da Mars-One mostra módulos que formariam colônia no planeta
Desenho da Mars-One mostra módulos que formariam colônia no planeta
COLABORAÇÃO PARA A FOLHAEnquanto a Nasa fala em enviar humanos a Marte depois de 2030, tem uma história que parece piada de português. Mas é de holandês.
A organização sem fins lucrativos Mars-One, fundada na Holanda, pretende estabelecer um posto avançado em Marte. Em vez de enviar astronautas para uma missão de ida e volta, eles pretendem despachar gente para colonizar o planeta.
A proposta dos holandeses é lançar módulos interconectáveis que permitiriam habitação permanente em Marte, com cultivo de vegetais e um sistema fechado de suporte de vida. E a primeira missão seria em 2023.
Certo, mas de onde virá a grana? Eles pretendem transformar Mars-One num reality show, que seria transmitido no mundo inteiro para financiar o projeto.
A equipe da Mars-One tem alguns membros especializados em missões espaciais, como Arno Wilders, que trabalhou em projetos como a Bepi-Colombo, sonda a ser lançada em 2015 destinada ao planeta Mercúrio.
Mas há uma grande diferença entre fazer um instrumento para uma sonda e criar uma colônia humana num mundo inóspito.
Curiosamente, a iniciativa de tentar domar um planeta desértico parte de um país que existe abaixo do nível do mar. Será que dá pé? (SN)

    Pressão em todas as idades - Rebeca Ramos‏

    Jovens, elas escutam da mãe que não podem engravidar e das amigas que precisam perder a virgindade. Adultas, precisam ser liberais mesmo sem conhecer o corpo 

    Rebeca Ramos
    Estado de Minas: 30/12/2012 

    A sentença vem ainda na infância. “Espera-se das mulheres que elas sejam heterossexuais e, quando atinjam a puberdade, se transformem em alvos sexuais”, relata a enfermeira Silvéria Maria dos Santos, coordenadora do Grupo de Promoção da Saúde Sexual e Reprodutiva do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Constatada a primeira menstruação, as meninas são informadas que viraram “mocinhas” e que, a partir daquele momento, podem engravidar. Logo, terão de ser mais cuidadosas com os homens. Dificilmente o adulto, a mãe na maioria dos casos, diz à adolescente que ela poderá escolher o papel sexual que vai desempenhar ou fala sobre como vivenciar essas escolhas. 


    “A cobrança que a sociedade faz das mulheres é muito díspar”, crítica Silvéria. De acordo com ela, ao longo da vida, a sexualidade feminina se transforma em um conjunto de experiências carregadas de dúvidas e de pressões sociais. O problema, diz Silvéria, é que muitas guardam para si que os sentimentos não combinam com as atitudes cobradas. E sofrem com isso. A enfermeira atende, por exemplo, grávidas que nem sabem como alcançar o orgasmo e mulheres que só transam para satisfazer o parceiro. 


    A estudante Cláudia*, de 22 anos, sucumbiu às pressões. Há menos de um mês, ela se “guardava” para a primeira relação sexual, quando o sentimento e o cuidado mútuo teriam que ser recíprocos. A escolha causava surpresa aos conhecidos da garota. Eles avisavam que ela esperava uma história restrita aos filmes de romance. “Tive a primeira relação sexual e tô (sic) namorando. Se não rolasse… Além disso, podia acabar o mundo”, justifica, fazendo referência à não cumprida profecia maia sobre a semana passada. 


    Silvéria avalia que o que aconteceu com Cláudia é comum entre as adolescentes. À medida que uma amiga transa, as outras são inclinadas a resolver essa “pendência”. A especialista alerta que as meninas precisam ser questionadas sobre como, quando e por que querem viver a sexualidade. “Ouço queixas de meninas que se arrependeram de ter tido a relação sexual quando eram muito novas por motivos banais. Elas acreditam que, se tivessem amadurecido, talvez hoje teriam uma outra relação com o sexo”, conta.

    Orgasmocracia Na fase adulta, o equilíbrio da sexualidade é comprometido pela orgasmocracia, que prega que toda mulher precisa atingir o clímax em todas as relações sexuais. Filmes, livros e revistas reproduzem manuais, mas esquecem de destacar que o orgasmo depende das vivências, da fisiologia e dos valores de cada mulher, por exemplo. “Só se fala disso e a mulher que não tem tanta facilidade (de atingir o orgasmo) se acha problemática. O prazer não é um livro de receita”, afirma Mariana Casanova, fisioterapeuta especializada em disfunções pélvicas, urológicas, mastologia e obstétricas. 


    Para se satisfazer sexualmente, explica Mariana, a mulher deve estar bem com o corpo e com a mente. “Mas ela é cobrada de forma irresponsável, vai para a cama se cobrando um orgasmo. Isso, obviamente, não pode fazer bem”, ressalta. A especialista explica que o clitóris precisa ser estimulado, mas “se não houver uma relação por inteiro, plena e relaxada”, nada surtirá efeito. 


    Silvéria ressalta que existem zonas erógenas desconhecidas pelas mulheres e que podem proporcionar muito mais prazer. “As mulheres reclamam tanto da sociedade ser machista, mas elas mesmas se contradizem quando se permitem acreditar que só podem se satisfazer sexualmente com a penetração”, diz. Ela ressalta que é importante avaliar se a iniciação e a prática sexual têm relação com a vontade própria ou se é por interesse da família, da sociedade ou da religião.
    A especialista propõe que as pessoas invistam mais no autoconhecimento e no fortalecimento da sexualidade. Segundo ela, o sexo envolve questões delicadas, como a troca de valores e de energias. “É a junção de duas pessoas, duas intenções, dois tipos de carência e de consciência. Espero que os jovens entendam isso e passem a viver o sexo no momento esperado por eles, não naquele que foi imposto”, reflete. 


    Já os adultos, tanto homens quanto  mulheres, precisam deixar de lado a ansiedade e entender que a relação sexual depende do parceiro, das experiências vividas, do momento, do local, uma série de fatores que não são matemáticos. “Ejacular não é orgasmo, mas nos habituamos a parar a relação depois da ejaculação, sem esgotar o prazer. Prova disso é pouco tempo depois a pessoa querer mais, ainda não estar satisfeita”, ilustra. 


    Desejo durante toda a vida

    A educação recebida e a religiosidade estão entre os fatores que levam idosas à abstinência sexual, segundo estudo desenvolvido na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Embora o desejo acompanhe a mulher durante a vida toda, a maioria não deixa de fazer sexo ou diminui a frequência por causa da idade. Elas fazem isso por causa de uma série de fatores. Os anos não interferem na sexualidade”, avalia Mário Roberto Agostinho da Silva, autor do estudo e coordenador do Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI) da UFPE.


    A ausência de preliminares, o câncer de próstata, o alcoolismo, o relacionamento extraconjugal e a violência física ou psicológica também estão entre as situações apontadas pelas participantes do estudo como causadoras da falta de sexo. Foram ouvidas 276 idosas de 15 grupos de convivência da Região Metropolitana do Recife, com idade entre 60 e 91 anos. Sessenta e nove por cento das entrevistadas declararam que sentiam desejo sexual. Mas a vontade não significa que elas ainda estão transando. Apenas 33% das ouvidas afirmaram ter tido relações sexuais nos últimos seis meses anteriores à pesquisa. Das 27 entrevistadas que relataram se masturbar, três disseram que se sentiam culpadas por estar “pecando”.


    Da quantidade à qualidade

    Um problema a ser resolvido. Foi assim que Patrícia*, aos 16 anos, encarou a perda da virgindade. Por isso, acredita ela, a primeira relação foi tão “sem graça”, com uma pessoa de quem ela não gostava. “Conheci meu primeiro namorado sério, o segundo homem com quem transei e que me ensinou a buscar meu prazer. Ele me estimulava”, lembra 


    Fetiches pouco tradicionais, brincadeiras eróticas e “inovações” passaram a fazer parte da rotina sexual de Patrícia. “Nada muito trash”, diz. “O que ele fez foi fazer eu me sentir segura.” Tanta confiança levou Patrícia a relações pouco proveitosas. “Transava com todo mundo sem pensar. Era como se fosse uma coisa natural: saiu, ficou, beijou e transou. Tive muitas relações boas, algumas ruins e poucos arrependimentos”, conta. Hoje, aos 32 anos, ela acha que passou por um período de autoafirmação, como se quisesse mostrar a todos que, como é dona de seu corpo, poderia transar com quem quisesse.


     Com o tempo, a quantidade deixou de ser importante e deu lugar à qualidade. “Descobri que a inteligência está intimamente ligada ao sexo bom. Inteligência no sentido de sagacidade, perspicácia, agilidade de pensamento. Entrei na fase dos jogos sexuais. Passei a dar importância para o conhecimento, a conversar e a sedução”, ressalta. “Quando descobrimos quais são os limites pessoais e entendemos que o sexo e o sentimento podem até ser bons juntos, mas conseguem andar sozinhos, tudo fica mais simples. O prazer, nesse caso, é consequência”, destaca.


    * Nomes fictícios

    Marcelo Gleiser

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Celebrando nosso pião celeste
    Como o eixo de rotação está mudando lentamente, giram também os céus, e as estrelas mudam de posição
    Enquanto o Brasil passa pelos dias mais longos do ano, próximos ao solstício de verão, aqui no norte dos EUA passamos pelo exato oposto, os dias mais curtos, com noites que duram 15 horas, muita neve e frio. A Terra é um planeta de extremos, e nós, que nos espalhamos por ela, experimentamos isso tudo.
    Hoje, em torno da minha casa, está tudo nevado, com as árvores nuas, lenha queimando na lareira, o famoso Natal branco que, inexplicavelmente, tentamos copiar no Brasil. Em vez de renas, o trenó do Papai Noel brasileiro tinha de ser puxado por tucanos e araras.
    Essa diversidade climática vem essencialmente da inclinação do eixo de rotação da Terra em 23,5º. A Terra é um pião celeste, girando em torno de si mesmo, meio que caindo, descrevendo uma leve elipse em torno do Sol.
    Se enxergássemos o Sistema Solar de longe, ele pareceria um disco plano, com o Sol no centro (ou quase) e os planetas a circundá-lo. A inclinação da Terra é em relação a esse plano, chamado de plano da eclíptica. A maioria absoluta das pessoas acha que o calor do verão e o frio do inverno vêm da distância entre a Terra e o Sol: inverno, mais frio, Terra mais distante; verão, o oposto. Poucos sabem que as estações são consequência da inclinação da Terra.
    Dizemos que a Terra tem um movimento de precessão, o mesmo de um pião caindo. No caso da Terra, isso se deve a ela não ser uma esfera perfeita, sendo um pouco achatada nos polos e estufada no Equador. A força gravitacional combinada da Lua e do Sol age sobre o Equador, criando um torque que tenta alinhar o eixo de rotação da Terra com o plano da eclíptica, tentando fazer a Terra "cair".
    Mas não se preocupem, a Terra não vai cair. (Se bem que Urano gira quase deitado, provavelmente devido a uma enorme colisão durante o período de formação do Sistema Solar, 4,6 bilhões de anos atrás.)
    Esse movimento, a precessão dos equinócios, tem um período de aproximadamente 26 mil anos, ou um grau a cada 72 anos (para completar o círculo de 360º).
    Como o eixo de rotação da Terra está mudando lentamente de posição, giram também os céus. Mais precisamente, as estrelas vão aos poucos mudando de posição. Por exemplo, agora o eixo de rotação terrestre está a um grau da estrela Polaris, no norte. Isso significa que uma foto de exposição longa mostrará o céu girando em torno de um ponto ao norte, pertinho dessa estrela. Em 13 mil anos, Polaris vai estar do lado oposto do eixo.
    Foi neste ano que a sonda espacial Voyager 1, cuja missão começou em setembro de 1977, passou dos limites do Sistema Solar, a primeira nave humana a conseguir tal feito.
    Viajando a 61 mil km/h, ela se destina ao espaço interestelar, o deserto escuro entre as estrelas. A uma distância atual do Sol 121 vezes maior do que a Terra, nosso planeta já é quase invisível para as suas câmeras, um pálido ponto azul, como disse Carl Sagan, onde tudo o que criamos, toda a nossa história, encontra-se em meio ao nada.
    Entre os festejos de mais uma mudança de calendário, por que não parar durante dez segundos e festejar nossa casa celeste, este pálido pião azul, exuberante e vivo em meio a tanta escuridão e frio?
    MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI