Estado de Minas - 22/06/2013
O antropólogo Luiz Eduardo Soares parece a pessoa
certa para explicar os movimentos que tomam as ruas do Brasil, dado seu
conhecimento e experiência com a análise política, o comportamento
social e as políticas de segurança pública. No entanto, faz questão de
deixar claro que não sabe de muita coisa: “É necessário afirmar com
humildade nossa ignorância ante um processo cuja natureza nos desafia,
intelectualmente”. Em entrevista a Ângela Faria, ele fala da tendência
em tentar entender o novo com os olhos do passado, dos desafios postos à
segurança pública e às famílias que convivem, a partir das últimas
semanas, com uma nova inclinação dos jovens em direção às ruas e à
política. “O tempo é de imprevisibilidade e sustos, riscos e ameaças,
mas também de beleza: o novo insinuando-se pelas frestas de nossa
democracia, que sofre de esclerose
precoce”, provoca.
Que lições a juventude está dando ao país?
A
primeira lição que os jovens nas ruas nos dão é a seguinte: as coisas
podem mudar, porque somos nós que fazemos a história, combinando
liberdade e limites, circunstâncias e oportunidades, imaginação e
ousadia, disposição solidária para empreendimentos coletivos em torno do
interesse público, evocando valores fundamentais – tais como equidade e
justiça – e repudiando o autoritarismo tecnocrático dos governos, que
desprezam a participação e só dialogam com os lobistas dos grandes
interesses privados. As coisas podem mudar se acreditarmos nisso e a
alma não for pequena. Mas mudar como e em que direção, com quais
consequências, a que preço? Não sei. Não se sabe em que vai dar o
movimento, não se pode saber, nem há garantias. E aí está o primeiro
ponto sem cujo reconhecimento não produziremos as condições
indispensáveis à futura compreensão do que o movimento significa. Neste
momento, é necessário afirmar com humildade nossa ignorância ante um
processo cuja natureza nos desafia, intelectualmente. Explico: diante de
um fenômeno que rompe a rotina e surpreende a expectativa de
estabilidade, as reações individuais são as mais variadas. Entretanto,
de um modo geral, nosso primeiro impulso é defensivo. Qualquer mudança
nos ameaça, porque traz consigo a fantasia de que nosso mundo pessoal,
tão precário e incerto, está em risco e pode ruir a qualquer momento.
Essa fantasia provém da radical insegurança que nos é constitutiva,
seres mortais que somos. Não apenas a vida humana é frágil, como aquilo
que chamamos “realidade” é débil e movediço. Nossa tendência, portanto, é
projetar nossas categorias e nosso modo de pensar sobre os fatos novos
para descrevê-los exorcizando o que neles é novo e inscreve uma
diferença em nossos esquemas cognitivos e em nosso sistema de práticas.
Projetar o velho sobre o potencialmente novo apenas confirma nossas
crenças, apazigua a angústia suscitada pelo desconhecido e presta um
serviço a nosso aparato de autodefesa, domesticando a diferença e
anulando sua força questionadora. Em outras palavras: explicações que
funcionam como consagrações do que já se sabe – ou se supõe saber – não
produzem conhecimento. Se o propósito é conhecer, devemos desnaturalizar
as imagens já formadas, inclusive porque, nesse campo, toda
interpretação é também intervenção, é também ação social.
Que desafios o novo quadro traz para o sistema de segurança pública?
Como
diziam alguns cartazes, no Rio de Janeiro: “Desculpem o transtorno:
estamos mudando o país”. Ou: “Não é Turquia, não é a Grécia, é o Brasil
despertando da inércia”. Em outras palavras, não se muda sem
turbulências. Perdão, pedestres, a cidade está em obras para servi-los.
Como sabemos, reformar faz barulho. Tumultua. Não tem jeito. É claro que
a participação massiva traz problemas para a segurança pública, mas não
pode ser definida como um problema de segurança. Trata-se de um dilema
que está longe de ser simples, pois é preciso respeitar a liberdade de
manifestação, preservar o patrimônio público e garantir os direitos
violados por eventuais agressões violentas, as quais têm ocorrido, mas, é
necessário sublinhar, apenas por iniciativa de minorias e contra a
vontade manifesta da massa. Não há solução perfeita, nem receitas, mas
princípios gerais, que, observados, pelo menos reduzem os danos: a
polícia não pode estar armada; e atenção: não há armas não letais – as
assim chamadas são menos letais, porém também matam e ferem gravemente. A
presença policial deve restringir-se a locais estratégicos, visando a
defesa de posições-chave. Todos devem compreender que os policiais não
são inimigos dos manifestantes e vice-versa. Mas essa compreensão
depende de atitudes claras por parte dos policiais. Deve-se difundir a
ideia de que cabe a todos evitar a violência de todo tipo em benefício
da coletividade e do próprio movimento. Mesmo não havendo lideranças
formais ou consensuais, está patente o intuito pacífico da imensa
maioria dos que se envolvem – e disso dou testemunho como participante.
Quem pratica violência agride o próprio movimento, segundo a percepção
da maioria. A tendência é que o próprio movimento iniba a ação dos que
traem seu espírito. Se a polícia usa recursos que realimentam o círculo
vicioso, contribui, paradoxalmente, para recompor a unidade do grupo,
quando seria mais saudável que autogestionariamente as dinâmicas
coletivas múltiplas inventassem meios não violentos de reduzir a
violência, diferenciando-se internamente e pactuando suas condições de
convívio ou de existência política.
A violência policial agravou a situação?
Não
há dúvida de que a brutalidade criminosa de segmentos policiais, em
algumas cidades, ofereceu o combustível que faltava para que o movimento
mudasse de escala, ampliando-se extraordinariamente as adesões. Os
custos materiais (e pessoais) de algumas ações violentas e condenáveis
cometidas por manifestantes foram infinitamente menores do que os
prejuízos que advieram das tentativas policiais, mesmo as
bem-intencionadas, de evitá-los. É momento de confiar mais na
responsabilidade coletiva dos cidadãos que se manifestam, porque o fazem
justamente em torno de temas republicanos e democráticos, por mais que
sejam variadas as motivações. Este não é momento de polícia. A segurança
tem de ser a da massa que se manifesta. A praça é do povo. Ou a
coletividade em movimento respeitará limites ou terá de arcar com o
desafio de ver-se traindo, na prática —em função de divisões internas
que são inteiramente naturais e incontroláveis —, alguns de seus
valores, em se considerando aqueles que têm sido evocados, nas
manifestações. Isso envolve riscos, claro, mas não há alternativas
melhores. Digo isso porque é irrealista supor que alguma polícia do
mundo possa controlar multidões nas ruas, sem consequências trágicas em
grandes proporções, sem aumentar o mal que, supostamente, deseja evitar,
e sem fortalecer o segmento sectário e violento da massa de
manifestantes — segmento que, no Brasil, é residual. A questão é
perigosa para a segurança pública, por óbvio, mas não há nada que as
instituições da segurança possam fazer, além de reduzir danos e
envolver-se o mínimo. Este é o tempo da sociedade e dos políticos, de
negociação e abertura ao diálogo, de criatividade e flexibilidade, de
autocrítica profunda, de repactuação em torno do próprio sistema
político. Tempo de imprevisibilidade e sustos, riscos e ameaças, mas
também de beleza: o novo insinuando-se pelas frestas de nossa
democracia, que sofre de esclerose precoce.
A Polícia Militar está preparada para a democracia?
No
âmbito da inadiável repactuação nacional, inclui-se a reforma da
arquitetura institucional da segurança pública, o que envolveria a
refundação do modelo policial, particularmente a desmilitarização das
polícias ostensivas. Não se trata de viés ideológico. As PMs são
incompatíveis com a democracia, malgrado esforços de tantos de seus
profissionais, porque estão organizadas à semelhança do Exército, cuja
finalidade é defender o território nacional e preservar a soberania do
país, fazendo a guerra, no limite. Precisa funcionar com a metodologia
do pronto emprego, para cumprir seus objetivos constitucionais.
Necessita de centralização e vertebração hierárquica rigorosa. A missão
constitucional de uma polícia ostensiva e preventiva, uniformizada, é
garantir a vida, a incolumidade física e os direitos dos cidadãos,
fazendo com que as leis sejam observadas. Como se vê, os fins são
inteiramente distintos. Por que a organização deveria ser a mesma?
Sabemos que a melhor forma de uma organização é aquela que melhor serve
ao cumprimento das finalidades da instituição. Portanto: fins distintos,
formatos organizacionais diferentes. As PMs envolvem-se em confrontos
armados, é verdade. Mas esses enfrentamentos correspondem a 1% de suas
atividades diárias. Para fazer face a esse tipo de desafio, há espaço
para a formação de unidades especializadas. É absurdo comprimir 99% no
molde ortopédico que, quando muito, equivaleria à necessidade de 1%.
sábado, 22 de junho de 2013
Cobertura de episódios como as manifestações políticas no Brasil mostra conflito entre os meios tradicionais e a mídia colaborativa
Cobertura de episódios como as
manifestações políticas no Brasil mostra conflito entre os meios
tradicionais e a mídia colaborativa
Carolina Braga
Estado de Minas: 22/06/2013
De um lado, o carro de transmissão em chamas. Repórteres camuflados em serviço, enquanto colegas sentem na pele o poder de fogo – seja de balas de borracha da polícia, seja da hostilidade dos manifestantes. Do outro lado está o fluxo contínuo de informações, movimento aparentemente desordenado de fatos e opiniões que surgem em ritmo vertiginoso – e sem filtros – nas redes sociais. Não importa se o emissor está nas ruas ou em casa, o volume e a velocidade de publicação são sempre incessantes, oriundos de fontes diversas.
A princípio, parecem modelos distintos ou até antagônicos de comunicação. A repetição da velha (e já cansativa) dicotomia entre mídia tradicional versus mídia colaborativa, cada uma no seu quadrado. Será mesmo? Os acontecimentos recentes no Brasil nos instigam a pensar sobre algo que há tempos bate à porta: as mídias tradicionais dão conta da fome comunicativa do mundo contemporâneo?
Parece que não.
Está claro que as manifestações que se espalham pelo país tiveram R$ 0,20 como pólvora para a explosão da insatisfação generalizada em relação às condições de vida. Como lembra o sociólogo espanhol Manuel Castells, também foi assim no Panelaço da Islândia (2008), na Revolução do Jasmim, na Tunísia (2010), com os indignados da Espanha (2011), com o Ocuppy Wall Street, nos Estados Unidos (2011), e nos recentes episódios na Turquia. Cada povo sabe o que quer.
Temas que pouco a pouco transformaram o dia a dia em algo insuportável eclodiram em protestos com reivindicações difusas, organizados inicialmente pela internet. No caso brasileiro, há o nítido não ao colapso da infraestrutura do país, aos desmandos dos governantes, à ausência de políticas eficientes em áreas fundamentais como educação, saúde, transporte, segurança etc. No mesmo pacote, de modo nem tão explícito assim, há o recado “ao mecanismo tradicional da mídia”, como ressaltou a presidente Dilma Rousseff. A “fábrica” de notícias precisa de reformas.
Tornou-se nítido o quanto a mídia tradicional é desacreditada nas redes. Por sua vez, rádios, TVs, jornais e revistas ressaltam o caráter ruidoso daquilo que circula on-line. Há uma briguinha velada. Talvez como consequência disso, veem-se também tentativas de ambos os lados de procurar explicações para o que já está nas ruas. Há quem tente deslegitimar o movimento ao apontar a inexistência de líderes ou bandeiras claras. “Essa é a percepção típica. Estão tentando enxergar por uma lente antiga”, afirma Carlos d’Andrea, professor de comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Isso também vale para a velha mídia.
Carlos d’Andrea acredita que tanto a crítica voltada para a mídia tradicional quanto iniciativas diferentes de comunicação na rede que emergem junto com o despertar do “gigante” revelam potencialidades de ruptura com o modelo de comunicação em vigor. Basicamente, há nítida mudança de lógica que poderia ser incorporada de maneira menos traumática à prática comunicativa contemporânea.
A lógica é a maneira como a informação flui de modo generalizado. Cada lógica é composta por uma ou várias configurações que ilustram como se dá o fluxo da comunicação. Dentro disso, rádio, televisão, jornais, revistas etc. se caracterizam historicamente como centros irradiadores. Quando pensamos nos meios de comunicação de massa dentro da dinâmica de rede, o primeiro conflito se dá no fato de a lógica transmissiva não priorizar as possibilidades de intercâmbio entre fluxos informacionais que compõem a rede e são próprios da lógica colaborativa vigente no Facebook, no Twitter, Istagram e suas variantes. As desqualificações, muitas vezes jocosas voltadas à rede, rolavam soltas. Resumindo: um enfrentamento besta.
A base da rede são as conexões. Então, além da transmissão também presente na web, outras lógicas se misturam e podem conviver harmoniosamente. É sadio que seja assim. “Um caminho ideal é o esforço de complementação de ambas as partes. Há coisas que só a mídia massiva tem condições de fazer, tais como imagens aéreas, contato direto com hospitais, com a polícia para confirmar as informações. Nesse sentido, o jornalismo profissional é fundamental para checagem de informações”, analisa Carlos d’Andrea.
Por outro lado, o cidadão conectado – e no olho do furacão – tem condições de alimentar a mídia massiva com uma série de pequenos relatos muito mais preciosos e reveladores do que uma tentativa de explicação ou síntese. A insistência na “guerrinha” transmissão versus colaboração pode encobrir a questão central: como saciar a fome comunicativa de uma geração que cresce em meio à abundância informativa? Não é apedrejando repórter nem ignorando o fluxo da web.
Hibridismo “Ao mesmo tempo em que havia uma desconfiança, existia uma euforia. Agora, a gente tem certeza de que não se pode ignorar o papel das redes sociais”, diz Gustavo Magalhães, estudante do 6º período de jornalismo. Junto com 30 colegas ele criou no domingo passado, dentro da Faculdade de Comunicação da UFMG, a hastgag #bhnasruas, página no Facebook dedicada à cobertura das manifestações. Em três dias de atividades, já reunia quase 65 mil seguidores.
A maneira como os estudantes trabalham incorpora uma dinâmica híbrida. Ao mesmo tempo em que parte da equipe vai para as ruas, o restante se dedica a apurar a veracidade das informações circulantes – nesse caso, tudo o que pipoca nas redes do Facebook e do Twitter também é checado nas emissoras de televisão, sites dos principais jornais, revistas e portais. Não é aquele padrão repórter vai para a rua, conversa com a polícia, verifica os números, entrevista alguns manifestantes – e pronto, acabou. No caso do #bhnasruas, o ritmo de apuração é contínuo em texto, imagem e vídeos.
“Parece-me mais rico fazer uma leitura da diversidade de tuítes e publicações no Face do que ir para a rua, fazer dois ou três depoimentos e dizer, de alguma maneira, o que é aquilo. É um esforço de síntese, um reducionismo”, critica D’Andrea. Segundo Gustavo, antes da formalização da comunidade, os estudantes perceberam que as informações recebidas em tempo real por meio das redes sociais eram demasiadamente dispersas e repetidas. “Vimos a dificuldade das pessoas de se informarem por ali, até por causa da difusão de informações. Como não havia fonte de informação mais concisa e confiável no Face, nos mobilizamos”, conta.
Outro exemplo desse tipo é o caso da pós-TV. Durante a manifestação de segunda-feira passada, em São Paulo, enquanto no estúdio da Globo News professores e pensadores buscavam explicações para os fatos, um dos manifestantes transmitia ao vivo a própria experiência, por meio do celular, no calor da hora. “É um modelo de emissão impressionante”, elogia Carlos d’Andrea.
É claro que não falamos aqui de quadros estáticos e muito menos de mudanças já em curso. São, basicamente, tentativas de interpretar sinais iluminados por fatos recentes. Sendo assim, estamos longe de sugerir o caminho das pedras. O que podemos, sim, é refletir sobre possibilidades. A articulação dos modelos de comunicação parece uma alternativa.
“Não tenho nem visto os jornais impressos. Não teria nada ali de relevante. Folheei capas e fotos, mas nem parei para ler. Realmente, os jornais ficam em situação complicadíssima: quando são publicados, os manifestos já recomeçam. Então eles, mais do que nunca, já chegarão às ruas velhos. Fecha a edição antes de acabar a confusão”, comenta o professor. Ou seja: é quase urgente que veículos tradicionais repensem seus papéis nessa nova ciranda.
O que um jornal impresso tem a acrescentar – e se diferenciar – em um cenário como esse? E as televisões, como poderiam complementar os fatos relevantes em circulação na rede? As emissoras de rádio têm como se diferenciar ainda mais? E as coberturas colaborativas, o que podem agregar aos meios tradicionais? No calor do momento histórico, ainda sobram perguntas.
Carolina Braga
Estado de Minas: 22/06/2013
De um lado, o carro de transmissão em chamas. Repórteres camuflados em serviço, enquanto colegas sentem na pele o poder de fogo – seja de balas de borracha da polícia, seja da hostilidade dos manifestantes. Do outro lado está o fluxo contínuo de informações, movimento aparentemente desordenado de fatos e opiniões que surgem em ritmo vertiginoso – e sem filtros – nas redes sociais. Não importa se o emissor está nas ruas ou em casa, o volume e a velocidade de publicação são sempre incessantes, oriundos de fontes diversas.
A princípio, parecem modelos distintos ou até antagônicos de comunicação. A repetição da velha (e já cansativa) dicotomia entre mídia tradicional versus mídia colaborativa, cada uma no seu quadrado. Será mesmo? Os acontecimentos recentes no Brasil nos instigam a pensar sobre algo que há tempos bate à porta: as mídias tradicionais dão conta da fome comunicativa do mundo contemporâneo?
Parece que não.
Está claro que as manifestações que se espalham pelo país tiveram R$ 0,20 como pólvora para a explosão da insatisfação generalizada em relação às condições de vida. Como lembra o sociólogo espanhol Manuel Castells, também foi assim no Panelaço da Islândia (2008), na Revolução do Jasmim, na Tunísia (2010), com os indignados da Espanha (2011), com o Ocuppy Wall Street, nos Estados Unidos (2011), e nos recentes episódios na Turquia. Cada povo sabe o que quer.
Temas que pouco a pouco transformaram o dia a dia em algo insuportável eclodiram em protestos com reivindicações difusas, organizados inicialmente pela internet. No caso brasileiro, há o nítido não ao colapso da infraestrutura do país, aos desmandos dos governantes, à ausência de políticas eficientes em áreas fundamentais como educação, saúde, transporte, segurança etc. No mesmo pacote, de modo nem tão explícito assim, há o recado “ao mecanismo tradicional da mídia”, como ressaltou a presidente Dilma Rousseff. A “fábrica” de notícias precisa de reformas.
Tornou-se nítido o quanto a mídia tradicional é desacreditada nas redes. Por sua vez, rádios, TVs, jornais e revistas ressaltam o caráter ruidoso daquilo que circula on-line. Há uma briguinha velada. Talvez como consequência disso, veem-se também tentativas de ambos os lados de procurar explicações para o que já está nas ruas. Há quem tente deslegitimar o movimento ao apontar a inexistência de líderes ou bandeiras claras. “Essa é a percepção típica. Estão tentando enxergar por uma lente antiga”, afirma Carlos d’Andrea, professor de comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Isso também vale para a velha mídia.
Carlos d’Andrea acredita que tanto a crítica voltada para a mídia tradicional quanto iniciativas diferentes de comunicação na rede que emergem junto com o despertar do “gigante” revelam potencialidades de ruptura com o modelo de comunicação em vigor. Basicamente, há nítida mudança de lógica que poderia ser incorporada de maneira menos traumática à prática comunicativa contemporânea.
A lógica é a maneira como a informação flui de modo generalizado. Cada lógica é composta por uma ou várias configurações que ilustram como se dá o fluxo da comunicação. Dentro disso, rádio, televisão, jornais, revistas etc. se caracterizam historicamente como centros irradiadores. Quando pensamos nos meios de comunicação de massa dentro da dinâmica de rede, o primeiro conflito se dá no fato de a lógica transmissiva não priorizar as possibilidades de intercâmbio entre fluxos informacionais que compõem a rede e são próprios da lógica colaborativa vigente no Facebook, no Twitter, Istagram e suas variantes. As desqualificações, muitas vezes jocosas voltadas à rede, rolavam soltas. Resumindo: um enfrentamento besta.
A base da rede são as conexões. Então, além da transmissão também presente na web, outras lógicas se misturam e podem conviver harmoniosamente. É sadio que seja assim. “Um caminho ideal é o esforço de complementação de ambas as partes. Há coisas que só a mídia massiva tem condições de fazer, tais como imagens aéreas, contato direto com hospitais, com a polícia para confirmar as informações. Nesse sentido, o jornalismo profissional é fundamental para checagem de informações”, analisa Carlos d’Andrea.
Por outro lado, o cidadão conectado – e no olho do furacão – tem condições de alimentar a mídia massiva com uma série de pequenos relatos muito mais preciosos e reveladores do que uma tentativa de explicação ou síntese. A insistência na “guerrinha” transmissão versus colaboração pode encobrir a questão central: como saciar a fome comunicativa de uma geração que cresce em meio à abundância informativa? Não é apedrejando repórter nem ignorando o fluxo da web.
Hibridismo “Ao mesmo tempo em que havia uma desconfiança, existia uma euforia. Agora, a gente tem certeza de que não se pode ignorar o papel das redes sociais”, diz Gustavo Magalhães, estudante do 6º período de jornalismo. Junto com 30 colegas ele criou no domingo passado, dentro da Faculdade de Comunicação da UFMG, a hastgag #bhnasruas, página no Facebook dedicada à cobertura das manifestações. Em três dias de atividades, já reunia quase 65 mil seguidores.
A maneira como os estudantes trabalham incorpora uma dinâmica híbrida. Ao mesmo tempo em que parte da equipe vai para as ruas, o restante se dedica a apurar a veracidade das informações circulantes – nesse caso, tudo o que pipoca nas redes do Facebook e do Twitter também é checado nas emissoras de televisão, sites dos principais jornais, revistas e portais. Não é aquele padrão repórter vai para a rua, conversa com a polícia, verifica os números, entrevista alguns manifestantes – e pronto, acabou. No caso do #bhnasruas, o ritmo de apuração é contínuo em texto, imagem e vídeos.
“Parece-me mais rico fazer uma leitura da diversidade de tuítes e publicações no Face do que ir para a rua, fazer dois ou três depoimentos e dizer, de alguma maneira, o que é aquilo. É um esforço de síntese, um reducionismo”, critica D’Andrea. Segundo Gustavo, antes da formalização da comunidade, os estudantes perceberam que as informações recebidas em tempo real por meio das redes sociais eram demasiadamente dispersas e repetidas. “Vimos a dificuldade das pessoas de se informarem por ali, até por causa da difusão de informações. Como não havia fonte de informação mais concisa e confiável no Face, nos mobilizamos”, conta.
Outro exemplo desse tipo é o caso da pós-TV. Durante a manifestação de segunda-feira passada, em São Paulo, enquanto no estúdio da Globo News professores e pensadores buscavam explicações para os fatos, um dos manifestantes transmitia ao vivo a própria experiência, por meio do celular, no calor da hora. “É um modelo de emissão impressionante”, elogia Carlos d’Andrea.
É claro que não falamos aqui de quadros estáticos e muito menos de mudanças já em curso. São, basicamente, tentativas de interpretar sinais iluminados por fatos recentes. Sendo assim, estamos longe de sugerir o caminho das pedras. O que podemos, sim, é refletir sobre possibilidades. A articulação dos modelos de comunicação parece uma alternativa.
“Não tenho nem visto os jornais impressos. Não teria nada ali de relevante. Folheei capas e fotos, mas nem parei para ler. Realmente, os jornais ficam em situação complicadíssima: quando são publicados, os manifestos já recomeçam. Então eles, mais do que nunca, já chegarão às ruas velhos. Fecha a edição antes de acabar a confusão”, comenta o professor. Ou seja: é quase urgente que veículos tradicionais repensem seus papéis nessa nova ciranda.
O que um jornal impresso tem a acrescentar – e se diferenciar – em um cenário como esse? E as televisões, como poderiam complementar os fatos relevantes em circulação na rede? As emissoras de rádio têm como se diferenciar ainda mais? E as coberturas colaborativas, o que podem agregar aos meios tradicionais? No calor do momento histórico, ainda sobram perguntas.
Músicos, atores e cineastas engrossam a onda de protestos que toma conta das ruas-Sérgio Rodrigo Reis
Afasta de mim esse cale-se
Músicos, atores e cineastas engrossam a onda de protestos que toma conta das ruas. Banda Jota Quest suspende participação em evento ligado à Copa das Confederações
Sérgio Rodrigo Reis
Estado de Minas: 22/06/2013
O Brasil explodiu. Milhares de pessoas ocuparam as ruas de São Paulo para protestar contra o aumento das passagens de ônibus. A violenta repressão policial, no último dia 13, teve como consequência a gigantesca onda de manifestações por todo o país. Oficialmente, previa-se que a Copa das Confederações se transformaria em festa, levando o povo às ruas para celebrar o futebol. Deu errado. O país virou palco da indignação com o excesso de gastos com a Copa, o sucateamento dos serviços públicos, a ingerência da Fifa na vida do cidadão e a corrupção, entre outras insatisfações. Os artistas, como sempre, não fugiram à luta.
O sentimento do brasileiro é sintetizado pelo cantor, compositor e instrumentista mineiro Gabriel Guedes: “O país acordou pelo excesso de coisas erradas, que nos levaram a dar um basta. Esses 20 centavos foram a gota d’água. Serão os centavos mais caros da história deste país”, afirma ele, referindo-se ao aumento das passagens de ônibus em São Paulo, estopim da revolta. Diante da repressão a manifestantes na capital paulista, o músico decidiu agir, militando nas redes sociais. “A indignação é geral e isso me levou às ruas. Há o despreparo das polícias, o excesso do lucro das concessionárias de transporte, impostos que não vão para onde deveriam e o despreparo dos políticos. Ninguém está dando mais conta”, reclama.
Gabriel pôs sua criatividade a serviço da indignação. Filho do cantor e compositor Beto Guedes, ele também se dedica à música, mas decidiu protestar com uma espécie de instalação visual na Praça Tom Jobim, palco inicial do movimento Fica Fícus, contrário à remoção de árvores atacadas pela mosca-branca. “Doei um piano branco, amarrei-o com corrente no poste e convidei crianças para desenhar em cima. Quero que as pessoas toquem e assim protestem”, diz.
Ator da Zona de Arte da Periferia (Zap18), Gustavo Falabella apresenta na sede do grupo, no Bairro Serrano, o espetáculo 1961-2013, ano V, dirigido por Cida Falabella. A peça propõe a releitura da história política do país nas últimas décadas pelo olhar dos jovens. Sob o impacto das manifestações realizadas em todo o Brasil, a trupe atualizou a montagem. “As pessoas ligadas ao teatro estão insatisfeitas com a administração da capital. Há a ideia pouco inclusiva de que a cidade é só de passagem, não de convivência. Trata-se a capital como empreendimento privado. A Praça da Estação, por exemplo, virou playground da Coca-Cola. Isso tem, realmente, apelo popular? Essa administração afasta as pessoas. Coisas assim me levaram à praça”, conta Gustavo, de 30 anos.
Artistas já detectam efeitos positivos dos protestos. “O grande ganho da revolução que está em curso, com essa mobilização, são a revolução da consciência e a quebra da inércia. Com isso, caminhamos com maior firmeza para mudanças estruturais”, avalia Luiz Gabriel, cantor e compositor do grupo Graveola e o Lixo Polifônico. O artista lembra que a mobilização tem história, citando a criação do Comitê dos Atingidos pela Copa. A pauta dos protestos, reforça, inclui a crítica ao modelo de transporte coletivo, “que segue os interesses de uma máfia”. Luiz condena a repressão policial ao movimento e critica a realização da Copa do Mundo no Brasil.
O cantor e compositor Pablo Castro também vê mudanças no cenário. “O cálculo de todos os níveis do governo e empresários é sempre de que o povo não se manifestará. A centelha foi a repressão brutal em São Paulo e isso ateou fogo no Brasil inteiro. Em pouco tempo, já houve conquistas para além dos anseios”, diz ele. O ator Gustavo Falabella reforça: “Artistas, como os do teatro, da dança e os mais performáticos, têm no encontro uma característica de seu trabalho. Nossa arte, de alguma forma, é uma praça pública de encontros”. E é justamente esse espaço urbano que a Zap 18 quer reconquistar.
Quando as manifestações tomaram as ruas, o cantor e compositor César Lacerda estava doente. “Fiquei em casa fazendo ativismo de sofá, pelas redes sociais”, conta. Na quinta-feira, ele conseguiu sair. E gostou do que viu: “Era bonito o que estava ocorrendo. Quem apoiava o protesto sinalizava piscando a luz. A sensação desse levante já é o seu significado”. Inicialmente, a indignação com o preço das passagens de ônibus o levou para as ruas. “Depois da redução de tarifas e diante do cenário de maravilha e horror, não é mais necessário voltar para casa”, propõe.
Gerações O cantor e compositor mineiro Sérgio Santos, de 56 anos, vê o atual momento histórico como extremamente peculiar. “Isto é inédito: um movimento horizontal, que tomou conta do país inteiro. O diferente é a forma de articulação, vinda da internet e resultado da insatisfação generalizada”, diz. Para ele, o poder público está divorciado da opinião pública. “Esse movimento surgiu para discutir o rumo em que o país está indo”, salienta Sérgio. A novidade, pondera o músico, traz também perigos: de oportunismos às reações da polícia. “Estão permitindo o vandalismo, é estratégia. Isso pode fazer com que algo que surgiu como energia transformadora maravilhosa se desgaste pouco a pouco”, adverte.
Gente de todas as idades é vista nas ruas. O cantor e compositor Lô Borges, de 61 anos, engajou-se para acompanhar o filho Luca, de 15. “Vou hoje. Só estou esperando o meu filho chegar”, revelou ele, na quarta-feira. “O povo está se indignando com tanta coisa errada em termos de saúde, educação, corrupção, segurança. As bandeiras são múltiplas, quero participar”, avisa.
O cineasta Helvécio Ratton, de 64 anos, exilou-se no Chile durante a ditadura civil-militar. Ele conhece bem a força da manifestação popular. Atualiza-se sobre o que ocorre nas ruas por meio da filha Clara, de 17, participante ativa dos protestos em BH. Por enquanto, Helvécio não foi conferi-los de perto. “Estou coçando para ir, mas quero enxergar o quadro com mais clareza. Acho legítimo”, diz. A sensação que o discurso do governo passava era de que o país já havia superado todos os problemas, lembra o diretor de Batismo de sangue. “Tudo estava maravilhoso na visão deles. Até agora, os jovens estavam passivos. Mas quando o protesto começou, partiu de algo concreto”, conclui.
Sempre à frente
A mobilização dos artistas pela democracia tem história. Durante a ditadura civil-militar (1964-985), houve várias manifestações de rua, culminando com a grande passeata dos 100 mil, no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1968. A linha de frente reunia Leila Diniz, Chico Buarque, Clarice Lispector, Edu Lobo, Odete Lara, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Torquato Neto e Tônia Carrero, entre centenas de colegas. A classe se manifestava por meio de criações engajadas no teatro, no cinema e na MPB, alvos da repressão à liberdade de expressão. Das metáforas para driblar a censura ao enfrentamento direto, artistas e intelectuais deixaram sua assinatura na reconquista da liberdade e da democracia.
Três perguntas para...
Márcio Buzellin
Tecladista do Jota Quest
O que levou você a escrever a nota cancelando o show de hoje, na Praça da Estação, no evento comemorativo da Copa das Confederações?
No momento de manifestação popular com essa magnitude, não caberia fazer um show. O que nos levou ao cancelamento foi o respeito ao momento e o apoio à manifestação pacífica. A esperança de mudança para acabar com os absurdos que vemos por aí. Nada além disso.
Você foi para as ruas?
Fui. E vou hoje de novo, pacificamente. Falo como cidadão, pois este momento é maior do que a banda. Sou filho de uma professora que saía de casa às cinco da manhã e voltava às 11 da noite. Meu pai era funcionário público. Resolvi trabalhar com música e estou conseguindo sobreviver de arte. A gente apoia o movimento de mudança para melhor. Não apoiamos a violência oportunista.
Você ficou surpreso com a proporção das manifestações?
Isso surpreendeu não só a mim, como todos. Não há quem não esteja surpreso diante disso tudo. Hoje, estamos todos de igual para igual.
Eduardo Almeida Reis-Alpinismo
Graças aos avanços nos equipamentos de
montanhismo e aos cada vez mais bem pagos guias nepaleses, centenas de
alpinistas estão alcançando e poluindo o Everest
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 22/06/2013
Vejo nos jornais que conseguiram entupir de gente o Everest. Em maio de 1953, Edmund Hillary e Tenzing Norgay atingiram sozinhos os 8.848 metros do pico mais alto do mundo. Hoje, graças aos avanços nos equipamentos de montanhismo e aos cada vez mais bem pagos guias nepaleses, centenas de alpinistas estão alcançando e poluindo o Everest. Em 1990, 18% das tentativas eram bem-sucedidas, índice que pulou para 56% em 2012. Num único dia, ano passado, 234 alpinistas atingiram o cume.
Entre guias nascidos no Nepal e autorizações oficiais, um ocidental gasta até US$ 100 mil para escalar a montanha. Lixo e falta de saneamento se espalham por dezenas de quilômetros. Diante da notícia e da foto colorida de uma fila de escaladores, lembrei-me de uma ruminança do saudoso Joel Silveira no livro Guerrilha noturna.
É duro procurar frases do livro do Joel: cada página é uma delícia. Exemplos: “Há o português falado em Portugal, o português falado no Brasil e o português dos locutores esportivos brasileiros”; “Velório: encontro de hipócritas, maus piadistas e parentes que se detestam”; “Ninguém pode proclamar-se livre se não tem o direito de dormir pelo menos uma hora depois do almoço”; “As boas coisas da vida só chegam ao Terceiro Mundo depois de passarem pelo intestino grosso do Primeiro”; “Não merece confiança quem precisa de barba e de bigode para ter uma cara”.
Para adiantar as coisas, fui ao Google, cliquei “alpinista Joel Silveira” e copiei parte de sua conversa com Geneton Moraes Neto, que perguntou: “Você também escreveu: Pode haver algo mais idiota do que um alpinista?”.
Joel respondeu: “Não pode! Precisa ser um débil mental. Para que subir aquela montanha, se de avião você vê tudo aquilo? Por que não vai de helicóptero? O que o alpinista quer provar com aquilo?”. E disse mais: “O alpinista se mata para chegar ao cume do Everest, mas vai encontrar o quê? Chegou lá, o que é que tinha? ‘Ah, tinha o cume do Everest’. Para ver, basta passar de avião, qualquer Boeing de carreira passa por cima, tranquilamente. Aliás, os esportes – de certo modo – têm o seu lado ridículo: querer disputar, jogar uma flecha mais longe, dar um pulo maior do que o outro. Isso é coisa de bicho de floresta. É coisa de macaco”. Macaco que torra 100 mil dólares em guias e autorizações para correr o risco de perder a vida, diz aqui o philosopho.
Com o seguinte risco: Karina Oliani, 31, linda médica brasileira, quando alcançava o cume do Everest teve o olho esquerdo congelado. O guia Pemba Sherpa tirou sua mascara e passou três minutos lambendo o olho da doutora. Já pensaram?
De gustibus
Se não existisse, a mulher deveria ser inventada. Quando realmente feminina, não há nada que se lhe compare. Ressalvo o fato de nunca ter experimentado injeção de heroína, carreirinha de cocaína e outras drogas que têm muitos admiradores. Contaram-me que a sensação proporcionada pela heroína é semelhante à que se deve ter ao entrar no paraíso, mas a mulher pode levar-nos ao paraíso terrestre.
Até o champanhe perde para a mulher, se bem que o ideal seja combinar os dois. “Buscai a mulher” escreveu Dumas Pai. “Tirando a mulher, o resto é paisagem” emendou Dante Milano. E o imenso Wagner, festejado outro dia pelos 200 anos do seu nascimento, constatou: “A música é mulher”.
Os livros de citações têm páginas e mais páginas dizendo mal da mulher, porque escritas por veados e/ou despeitados. Demóstenes (384-322 a.C.), antecipando-se ao doutor Dado Dolabella, teria dito: “A violência é agradável às mulheres”.
Difícil, mesmo, é entender o gosto das mulheres, daí o título deste belo suelto. Não todas, é verdade, mas milhões delas. Veja-se o entusiasmo pelo jogador Neymar. No futebol é um craque, um artista, um profissional que vai longe. Mas como tipo masculino? Tenham a santa paciência...
Dir-se-á que ganha bem e está ficando rico. E daí? Há milhões de outros muito mais ricos e bem-apessoados. Isso não obstante, as mocinhas gritam pelo craque e se hospedam no mesmo hotel, ou ficam nas calçadas suspirando pelo artista da bola. Que coisa, hein?
O mundo é uma bola
22 de junho de 1633: em Roma, a Congregação para a Doutrina da Fé, Congregatio pro Doctrina Fidei (CDF), obriga Galileu a renegar sua ideia de que o Sol e não a Terra era o centro do universo. Nos colégios brasileiros, CDF é aluno muito estudioso, que não desliga o traseiro da cadeira. Pelo visto, em 1633 o pessoal da mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, um dos órgãos da Santa Sé, não era estudioso.
Em 1874, inauguração do telégrafo submarino ligando o Brasil à Europa. Onde se lê Brasil leia-se Rio da Janeiro. Em 1934, fundação do município de Trabiju, em São Paulo, que ninguém conhece, mas o Google ensina que em 2010 tinha 1.544 trabijuenses e demorava, como continua demorando, 260 quilômetros da capital daquele estado. Hoje é o Dia do Orquidófilo e o Dia do Aeroviário.
Eduardo Almeida Reis
Estado de Minas: 22/06/2013
Vejo nos jornais que conseguiram entupir de gente o Everest. Em maio de 1953, Edmund Hillary e Tenzing Norgay atingiram sozinhos os 8.848 metros do pico mais alto do mundo. Hoje, graças aos avanços nos equipamentos de montanhismo e aos cada vez mais bem pagos guias nepaleses, centenas de alpinistas estão alcançando e poluindo o Everest. Em 1990, 18% das tentativas eram bem-sucedidas, índice que pulou para 56% em 2012. Num único dia, ano passado, 234 alpinistas atingiram o cume.
Entre guias nascidos no Nepal e autorizações oficiais, um ocidental gasta até US$ 100 mil para escalar a montanha. Lixo e falta de saneamento se espalham por dezenas de quilômetros. Diante da notícia e da foto colorida de uma fila de escaladores, lembrei-me de uma ruminança do saudoso Joel Silveira no livro Guerrilha noturna.
É duro procurar frases do livro do Joel: cada página é uma delícia. Exemplos: “Há o português falado em Portugal, o português falado no Brasil e o português dos locutores esportivos brasileiros”; “Velório: encontro de hipócritas, maus piadistas e parentes que se detestam”; “Ninguém pode proclamar-se livre se não tem o direito de dormir pelo menos uma hora depois do almoço”; “As boas coisas da vida só chegam ao Terceiro Mundo depois de passarem pelo intestino grosso do Primeiro”; “Não merece confiança quem precisa de barba e de bigode para ter uma cara”.
Para adiantar as coisas, fui ao Google, cliquei “alpinista Joel Silveira” e copiei parte de sua conversa com Geneton Moraes Neto, que perguntou: “Você também escreveu: Pode haver algo mais idiota do que um alpinista?”.
Joel respondeu: “Não pode! Precisa ser um débil mental. Para que subir aquela montanha, se de avião você vê tudo aquilo? Por que não vai de helicóptero? O que o alpinista quer provar com aquilo?”. E disse mais: “O alpinista se mata para chegar ao cume do Everest, mas vai encontrar o quê? Chegou lá, o que é que tinha? ‘Ah, tinha o cume do Everest’. Para ver, basta passar de avião, qualquer Boeing de carreira passa por cima, tranquilamente. Aliás, os esportes – de certo modo – têm o seu lado ridículo: querer disputar, jogar uma flecha mais longe, dar um pulo maior do que o outro. Isso é coisa de bicho de floresta. É coisa de macaco”. Macaco que torra 100 mil dólares em guias e autorizações para correr o risco de perder a vida, diz aqui o philosopho.
Com o seguinte risco: Karina Oliani, 31, linda médica brasileira, quando alcançava o cume do Everest teve o olho esquerdo congelado. O guia Pemba Sherpa tirou sua mascara e passou três minutos lambendo o olho da doutora. Já pensaram?
De gustibus
Se não existisse, a mulher deveria ser inventada. Quando realmente feminina, não há nada que se lhe compare. Ressalvo o fato de nunca ter experimentado injeção de heroína, carreirinha de cocaína e outras drogas que têm muitos admiradores. Contaram-me que a sensação proporcionada pela heroína é semelhante à que se deve ter ao entrar no paraíso, mas a mulher pode levar-nos ao paraíso terrestre.
Até o champanhe perde para a mulher, se bem que o ideal seja combinar os dois. “Buscai a mulher” escreveu Dumas Pai. “Tirando a mulher, o resto é paisagem” emendou Dante Milano. E o imenso Wagner, festejado outro dia pelos 200 anos do seu nascimento, constatou: “A música é mulher”.
Os livros de citações têm páginas e mais páginas dizendo mal da mulher, porque escritas por veados e/ou despeitados. Demóstenes (384-322 a.C.), antecipando-se ao doutor Dado Dolabella, teria dito: “A violência é agradável às mulheres”.
Difícil, mesmo, é entender o gosto das mulheres, daí o título deste belo suelto. Não todas, é verdade, mas milhões delas. Veja-se o entusiasmo pelo jogador Neymar. No futebol é um craque, um artista, um profissional que vai longe. Mas como tipo masculino? Tenham a santa paciência...
Dir-se-á que ganha bem e está ficando rico. E daí? Há milhões de outros muito mais ricos e bem-apessoados. Isso não obstante, as mocinhas gritam pelo craque e se hospedam no mesmo hotel, ou ficam nas calçadas suspirando pelo artista da bola. Que coisa, hein?
O mundo é uma bola
22 de junho de 1633: em Roma, a Congregação para a Doutrina da Fé, Congregatio pro Doctrina Fidei (CDF), obriga Galileu a renegar sua ideia de que o Sol e não a Terra era o centro do universo. Nos colégios brasileiros, CDF é aluno muito estudioso, que não desliga o traseiro da cadeira. Pelo visto, em 1633 o pessoal da mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, um dos órgãos da Santa Sé, não era estudioso.
Em 1874, inauguração do telégrafo submarino ligando o Brasil à Europa. Onde se lê Brasil leia-se Rio da Janeiro. Em 1934, fundação do município de Trabiju, em São Paulo, que ninguém conhece, mas o Google ensina que em 2010 tinha 1.544 trabijuenses e demorava, como continua demorando, 260 quilômetros da capital daquele estado. Hoje é o Dia do Orquidófilo e o Dia do Aeroviário.
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