quarta-feira, 3 de julho de 2013

Delfim Netto

folha de são paulo
Aço chinês
Acaba de ser publicado um livro extraordinário, que faz uma exploração cirúrgica no corpo da economia chinesa. Expõe os subsídios que ela tem inteligentemente manipulado sob a miopia da OMC (Organização Mundial do Comércio), para a presidência da qual foi eleito agora um bri- lhante e competente diplomata brasileiro, o embaixador Roberto Azevedo.
Trata-se do "Subsidies to Chinese Industry", de U.C.V. Haley e G.T. Haley (Oxford University Press). Sua tradução mereceria um estímulo da Confederação Nacional da Indústria, para que todos os brasileiros pudessem conhecer como funcionam os "mercados" inseridos numa estrutura de capitalismo de Estado.
O livro é o trabalho de uma dupla de detetives que vão juntando as peças de um quebra-cabeça e autopsiando um corpo vivo e vibrante como é a estrutura produtiva chinesa.
Analisa quatro setores: a indústria do aço, do vidro, do papel e de autopeças. Traz à luz do dia os imensos subsídios escondidos (alguns de características insuspeitadas) que promoveram a expan- são industrial chinesa no comércio exterior.
Neste "suelto", tentamos apenas abrir o apetite dos leitores interessados em saber por que a nossa indústria siderúrgica patina e sucumbe, amassada pela produção chinesa. E como ela foi amputada das condições isonômicas de competição pela lamentável política econômica executada depois do necessário e bem-sucedido processo de privatização do setor.
O avanço da produção chinesa de aço foi avassalador: em 1999, antes de sua entrada na OMC, ela representava menos do que 16% da produção mundial; em 2006, menos de 35% e em 2012, quase 50%! Hoje, ela é superior a 700 milhões de toneladas, enquanto a nossa não passou de 35 milhões de toneladas em 2012. O volume dos subsídios (sem falar no câmbio) é gigantesco. Desde aumentos de capital para cobrir prejuízos; empréstimos a taxas de juros muito baixas e que não precisam ser "performados", feitos pelo Banco de Desenvolvimento da China; interferência do governo no custo do trabalho, até no custo da energia.
Entre 2000 e 2008, eles foram da ordem de 3 bilhões de dólares por ano. É claro que, mesmo sem esses benefícios, a indústria de aço chinesa teria se desenvolvido, mas a uma taxa menor, principalmente se tivesse de submeter-se às condições da OMC.
É ainda mais claro, entretanto, que ela foi produto de uma decisão política do governo. A China não se tornou o que é, o maior produtor e exportador de aço, por acidente ou porque usou o mercado para aproveitar suas "vantagens comparativas". Foi produto de subsídios, vontade férrea e ação inteligente do governo.

    Ruy Castro

    folha de são paulo
    Nem tão suíça
    RIO DE JANEIRO - Pouco antes de Brasil x Espanha, a TV deu em close um torcedor que já nos habituáramos a ver nos jogos do Flamengo: um negro plástico e desdentado, famoso na antiga geral do Maracanã pela alegria com que contagiava o pessoal à sua volta. Seu próprio deficit dentário era uma marca --simbolizava o Brasil profundo. Só que, neste domingo, ele não estava no Maracanã. Estava a alguns quilômetros, no Terreirão do Samba, assistindo ao jogo pelo telão.
    Torcedores como ele não tiveram vez na Copa das Confederações. Foi assim em todas as sedes, e houve jogos em que os únicos negros na "arena" eram os que estavam em campo. Ao cobrar ingressos de ópera para o futebol, a Fifa tentou transformar em suíça --nacionalidade de seu presidente Joseph Blatter-- a torcida brasileira. Era como se todo mundo ali fosse leitor de Hermann Hesse e Friedrich Dürrenmatt, conterrâneos de Blatter.
    Por sorte, a realidade se encarregou de corrigir a azeda ordem unida da Fifa. Ficou provado, por exemplo, que não haverá necessidade de demolir os ginásios no entorno do Maracanã para construir estacionamentos, já que os torcedores foram desestimulados a ir de carro ao estádio e o transporte público funcionou bem.
    O povo, por sua vez, não se conformou com o Hino Nacional em compota, reduzido a 90 segundos, e cantou a primeira parte completa, a capela --inclusive os jogadores. Os torcedores não puderam levar seus tambores e trompetes para o estádio (com o que não tivemos a Charanga do Flamengo para puxar o "Touradas em Madri", como em 1950), mas os próprios jogadores se encarregaram de produzir a batucada, dentro do campo, ao fim do jogo.
    E, obrigado pela Fifa a atravessar um corredor polonês para pegar sua medalha, Felipão recebeu o carinho da torcida --nada suíça-- na forma de beijos e tapas na careca.

      Fernando Rodrigues

      folha de são paulo

      Dilma e o padrão Felipão
      BRASÍLIA - Quando a popularidade de Fernando Collor despencou, em 1990, havia um fato concreto por trás da percepção popular. O confisco da poupança falava por si só.
      O mesmo se deu com Luiz Inácio Lula da Silva em 2005. O mensalão foi uma cacetada na imagem de vestal cultivada pelo PT.
      Com Dilma Rousseff o fenômeno é de natureza diversa. A inquietação dos brasileiros não é só contra ela, mas sim direcionada de maneira horizontal, para usar o termo da moda, em relação a todo o establishment político. Não é à toa que os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do Rio, Sérgio Cabral, também enfrentam solavancos.
      Mas esse fenômeno difuso contra Dilma é melhor ou pior do que os experimentados por Collor e Lula? Não há como prever, embora seja sempre muito mais fácil lutar contra um problema conhecido do que derrotar algo ainda indecifrável e intangível.
      Se Collor tivesse reagido da maneira correta, certamente teria encontrado formas de melhorar a economia e responder às acusações de corrupção que pesavam contra ele.
      Lula, em 2005, reagiu dizendo que não sabia de nada sobre o mensalão. Concentrou-se na economia, que deslanchou em 2006. O petista foi reeleito para mais quatro anos.
      Dilma trabalha com a hipótese de que a onda de protestos vai passar neste momento pós-Copa das Confederações. Nesse cenário dilmista edulcorado, a economia crescerá e a inflação não vai disparar.
      A presidente até fez uma "boutade" e disse adotar um "padrão Felipão" em seu governo. É uma brincadeira curiosa com o técnico de futebol do Brasil. À frente da seleção, ele venceu a Copa das Confederações. Ao dirigir o Palmeiras, a equipe desceu à segunda divisão. Ou seja, às vezes não basta alguém estar no comando. É preciso ter um bom time. Dilma tem 39 ministros e muitos parecem jogar mais ao estilo do Palmeiras do que no esquema da seleção.

      Claudia Collucci

      folha de são paulo
      Barreira da língua
      SÃO PAULO - Cenário: um posto de saúde no interior do Maranhão.
      --Buenos dias, señor, o que siente?-- pergunta o médico.
      --Tô com dor no bucho, comi uma tapioca reimosa, me deu um empachamento danado. Minha cabeça ficou pinicando, deu até um farnizim no juízo.
      --Butcho? Tapiôka? Empatchamiento? Pinicón? Far new zeen???
      O trecho acima é de uma piada que circula no Hospital das Clínicas de São Paulo sobre as dificuldades de comunicação que os médicos estrangeiros deverão enfrentar nos rincões do Brasil.
      A barreira da língua e dos regionalismos parece um mero detalhe em meio a tantas outras questões mais sérias já levantadas, como a falta de remédios, de equipes e de infra- estrutura, mas não é.
      Como é possível estabelecer uma relação médico-paciente, um diagnóstico correto, se o médico não compreende o paciente e vice-versa?
      Sim, essa dificuldade já existe no Brasil mesmo com médicos e pacientes falando português, mas ela só tende a piorar com o "portunhol" que se vislumbra pela frente.
      O ministro Padilha já disse que isso não será problema, que é mais fácil treinar um médico em português do que ficar esperando sete ou oito anos até um médico brasi- leiro ser formado.
      Experiências internacionais, porém, mostram que não é tão fácil assim. Na Alemanha, mesmo com a exigência da proficiência na língua, um estudo constatou atraso de diagnósticos pelo fato de o médico estrangeiro não conseguir entender direito os sintomas de pacientes.
      Além disso, há queixa dos profissionais alemães, que se sentem sobrecarregados por terem de atuar como intérpretes dos colegas de fora.
      Nada contra a vinda dos estrangeiros, desde que estejam aptos para o trabalho. Tenho dúvidas, porém, se três semanas de treinamento, como aventou Padilha, é tempo su- ficiente para isso.