sexta-feira, 26 de julho de 2013

Tony Ramos vive Getúlio Vargas no thriller político 'Os Últimos Dias de Getúlio' - RODRIGO SALEM

folha de são paulo
No campo de pouso abandonado do museu Aeroespacial do Rio, Tony Ramos desce de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Mas não é uma missão com uso de dinheiro público para assistir ao jogo do Flamengo, que acontecerá dali a horas.
Estamos nas filmagens de "Os Últimos Dias de Getúlio", uma produção de R$ 6 milhões recontando o final da vida do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), que se matou no fim do seu segundo mandato (o primeiro por voto popular), em 1954, em meio a acusações de corrupção.
Tony desce por uma pequena escada de metal do avião, uma peça do museu.
Divulgação
O diretor João Jardim capta Tony Ramos como Getúlio Vargas
O diretor João Jardim capta Tony Ramos como Getúlio Vargas
O ator está irreconhecível no papel de Getúlio. Usa uma roupa com enchimento que o deixa 30 quilos mais gordo, uma dentadura para imitar as feições do presidente e uma maquiagem que o presenteia com uma careca.
"Esse segundo corpo é pesado e passo um calor horrendo, mas eu sabia que seria assim", conta.
O ator foi perseguido pelo diretor João Jardim, que estreia na ficção após uma carreira feita de documentários ["Janela da Alma" e "Lixo Extraordinário"].
"Eu me assustei com o convite, não apenas porque me achava diferente fisicamente de Getúlio, mas pela ambiguidade dele. Mas, depois de algumas conversas, vi que o filme era sobre a alma daquele personagem."
A alma, neste caso, é analisada nos 19 dias entre o atentado ao jornalista e político Carlos Lacerda (1917-1977), em 5 de agosto de 1954, e o suicídio de Vargas.
"O desejo não era fazer uma biografia clássica, aquela do feto ao túmulo", brinca o roteirista George Moura ("Linha de Passe"), que se inspirou em dezenas de livros para criar o texto original.
INFLUÊNCIAS
"Tive a ideia de focar os 19 dias lendo 'Quem Matou Vargas', de Carlos Heitor Cony. Pensei como aquilo daria um bom thriller político e eu precisava de um recorte, porque Getúlio é uma figura ambígua e polêmica demais", conta o diretor, citando "Domingo Sangrento" (2002), de Paul Greengrass, "A Queda - As Últimas Horas de Hitler" (2004), de Oliver Hirschbiegel, e "O Sol" (2005), de Aleksandr Sokurov, como inspiração.
A sequência que a reportagem da Folha acompanha recria o momento em que Vargas, num dos poucos momentos em que deixa a residência oficial no Palácio do Catete nesses dias de crise, recebe a notícia da boca de Tancredo Neves (Michel Bercovitch) de que pessoas ligadas ao governo estariam por trás do atentado a Lacerda.
Tony Ramos diz que o "seu" presidente, tão explorado em filmes e minisséries, segue um caminho próprio. "A primeira coisa que falei para João foi que não me comprometeria a imitar Getúlio. Sempre me lembro de Frank Langella em 'Frost/Nixon', que não tem nada a ver com Nixon, mas que capturou como ninguém o personagem'", exemplifica, sem se desviar do fato de estar vivendo um ex-ditador em "Os Últimos Dias de Getúlio", previsto para estrear em 2014.
"O filme não é sobre o Getúlio ditador. Não estamos contando essa história, mas outros roteiros são bem-vindos. A polêmica está aberta."
'A voz do povo é soberana', diz Tony Ramos
Ator que encarna presidente da República em 'Os Últimos Dias de Getúlio' filmou a metros das manifestações no Rio
Ele diz que longa busca "encontrar a alma" de Getúlio e que não se pode esquecer faceta ditatorial do gaúcho
DO ENVIADO ESPECIAL AO RIONuma pausa das filmagens de "Os Últimos Dias de Getúlio", no campo de pouso abandonado do Museu Aeroespacial, no Rio, Tony Ramos, 64, expressa sentimentos ambíguos em relação ao presidente controverso que ele encarna no longa-metragem de João Jardim.
O ator se lembra do dia em que sua mãe chorou a morte do político e diz que o filme "busca encontrar sua alma", mas enfatiza a necessidade de cultivar distanciamento crítico em relação ao Getúlio ditador e repressor do Estado Novo (1937-1945).
A produção teve cenas rodadas no Palácio do Catete (antiga sede do Executivo federal, onde o presidente cometeu suicídio em 1954), a metros de onde aconteciam os protestos populares semanas atrás. "A voz do povo nas manifestações é sublime, soberana e decisiva. Desde que não venha acompanhada de uma balbúrdia descontrolada, porque aí aproveitadores de plantão poderão se utilizar disso", afirma Tony.
Um dos protagonistas da franquia cômica "Se Eu Fosse Você", grande sucesso de bilheteria nacional, ele acha que investidores e produtores devem buscar mais do que o riso. "Não podemos querer tudo muito mastigado, em forma de clipe [...] Vão com calma ao cinema e pensem que estão indo por uma boa ideia."
Leia os principais trechos da entrevista.
(RODRIGO SALEM)
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Folha - Você tem alguma lembrança de Getúlio?
Tony Ramos - Para mim, é muito fácil lembrar da morte dele. Meu aniversário é em 25 de agosto, e ele morreu no dia 24. Recordo que minha avó estava preparando um bolo para comemorar meus seis anos em nossa casa no interior de São Paulo [Ourinhos], quando ela colocou a tigela abruptamente no forno a lenha: "Minha Nossa Senhora, morreu doutor Getúlio". Perguntei quem era. Ela me falou que era o presidente do Brasil. Depois, minha mãe veio do quarto, chorando. É uma memória marcante. Quando mamãe soube que eu ia fazer o filme, perguntou se eu lembrava daquele dia. Getúlio era um homem com uma popularidade enorme.
Mas há o lado dele ditador, repressor...
Sim, isso não anula o que ele fez como ditador. O distanciamento crítico eu sei tê-lo, e muito bem. Mas não estamos contando essa história. Vamos contar como esse homem, eleito pelo povo anos depois [de ter comandado um regime ditatorial], tem a oportunidade de rasgar a Constituição pela terceira vez e se recusa a fazê-lo. Queremos encontrar a alma dele.
E como foi filmar como Getúlio no Palácio do Catete, enquanto o Rio se via às voltas com as manifestações populares a poucos metros dali?
Emocionante. Foi uma das coincidências mais enlouquecidas da minha carreira. É sempre bem-vindo ter histórias políticas em países que passaram por grandes momentos de fragilidade democrática. Sou da época em que fazíamos teatro político... Quantas perseguições e medos nos atormentaram. A democracia fica frágil quando querem se intrometer na imprensa e na liberdade das palavras. Por isso, acredito nas manifestações populares para demonstrar as insatisfações mais generalizadas. Agora, quando vira uma grande bagunça no fim, é algo que precisa ser estudado. Onde é a provocação? São provocadores profissionais? A voz do povo nas manifestações é sublime, soberana e decisiva. Desde que não venha acompanhada de uma balbúrdia descontrolada, porque aí aproveitadores de plantão poderão se utilizar disso. A liberdade de expressão é a mais preciosa arma que o indivíduo possui.
É difícil ver um filme grande no Brasil com tons políticos.
Eu faço "Se Eu Fosse Você" como faço "Tempos de Paz". O cinema e os investidores não podem se preocupar apenas com a pergunta "É pra rir?". Nosso filme é para rir, chorar e ficar com o bumbum grudado na poltrona, porque virou um grande thriller. Adoraria saber que os patrocinadores falaram que gostaram da ideia de um cinema político e sociológico. Não podemos querer tudo muito mastigado, em forma de clipe. Hoje em dia, uma cena com mais de dois minutos é um problema. Vão com calma ao cinema e pensem que estão indo por uma boa ideia. Adoro Super-homem, sou um cinéfilo, mas outro dia estava revendo "Amarcord", que é o filme da minha vida, e fiquei extasiado. Há momentos de pura emoção, mas a família toda sorri com ele.
Haverá um terceiro "Se Eu Fosse Você"?
Não deve acontecer. Passou o tempo. A gente acha que precisa ser uma grande história, no momento certo. Há uma ideia de fazer um musical no teatro, mas não sei se poderei fazer.

    José Simão

    folha de são paulo

    Ueba! Vaaaaai, Francisco!


    Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Esse papa é muito simpático, muy guapo, mas eu vou botar uma vassoura atrás da porta!
    Brasileiro pega intimidade com uma rapidez, não é mais nem papa e nem pontífice, agora é Francisco.
    "Tudo pronto para a chegada de Francisco". "Francisco se aproxima do povo". Mais uma semana e o povo vai começar a gritar: "Vaaaaai, Francisco". "Dá-lhe, CHICO!".
    E como disse o tuiteiro João Junior: "Mais uma semana e o papa vai aprender a dançar o 'Show das Poderosas' e a fazer quadradinho de oito". Rarará!
    Papa Francisco! O argentino virou brasileiro!
    E mais um mês que ele fique no Brasil, e o carioca vai começar a falar: "Ih, lá vem aquele chato do papa". É verdade! É assim!
    E vão ter que arrumar cinco brasileiros pra se confessar com o papa? Acho difícil um brasileiro se confessar com um argentino, assim espontaneamente.
    Uma amiga vai se confessar assim: "Papa, eu pequei. Dei prum argentino!".
    Dar pra argentino não é pecado, é crime ambiental: maus-tratos à perereca! Rarará.
    "Papa, eu pequei. Torci pro Boca!". E o papa já fez seu primeiro milagre no Brasil: Atlético campeão da Libertadores! Diz que em BH tinha um galo em cada encruzilhada. Vivo!
    E como disse o chargista Zedassilva: "O Galo canta e o OlimPIA!". E o presidente do Galo: "A taça é mais gostosa que mulher". Traição ao queijo! Só o queijo é mais gostoso que mulher. Rarará!
    E o Ronaldinho Gaúcho brilhou e se deu bem em Minas. Trocou o gargalo pelo galo! Rarará!
    Pior um amigo meu, que foi até Aparecida levar uma camiseta do São Paulo pra benzer e não conseguiu entrar na basílica. Que fase! Mas eu avisei que ele era papa. E não Deus! Rarará!
    É mole? É mole, mas sobe!
    País da Piada Pronta! Deu na Mônica Bergamo: o livro mais lido nas penitenciárias federais do Brasil: "A Menina que Roubava Livros". E o único roubo que não é considerado roubo é roubo de Viagra. Furto famélico: roubar pra comer!
    E chega de frio. Não aguento mais usar o "look" vândalo: moletom com capuz! E cara tapada! Rarará!
    Nóis sofre, mas nóis goza!
    Que eu vou pingar o meu colirio alucinógeno!
    José Simão
    José Simão começou a cursar direito na USP em 1969, mas logo desistiu. Foi para Londres, onde fez alguns bicos para a BBC. Entrou na Folha em 1987 e mantém uma coluna que considera um telejornal humorístico.

    Monica Bergamo

    folha de são paulo

    Taxa de ocupação dos hotéis do Rio durante Jornada Mundial da Juventude fica em 62%


    A taxa de ocupação dos hotéis do Rio durante a Jornada Mundial da Juventude ficou em apenas 62%. Já em 13 municípios vizinhos, a média chegou a 85%, segundo dados da Associação da Indústria de Hotéis do Estado do Rio.
    HÓSPEDES A MAIS
    Na serra fluminense, Petrópolis, Teresópolis e Penedo registram 100% de ocupação neste período. Vassouras e Conservatória, no vale do Café, também têm todos os quartos reservados. No litoral, Paraty e Macaé estão com lotação completa.
    HÓSPEDES A MAIS 2
    Em Nova Friburgo e Itatiaia, a taxa é de 95%. Já cidades litorâneas têm ocupação menor: Arraial do Cabo (75%), Angra dos Reis e Cabo Frio (70%) e Armação de Búzios e Rio das Ostras (50%).
    CHECK-IN
    A Pesquisa de Preços da Hotelaria, da Embratur, mostra que a média de preços dos hotéis cariocas na JMJ (R$ 500,24) é maior do que na Copa das Confederações (R$ 455,48). Valores para reservas feitas em maio.
    A IRMÃ MAIS NOVA DA BEYONCÉ
    Divulgação
    A cantora americana Solange Knowles vai apresentar no festival paulistano Popload Gig, no dia 21 de novembro, seu repertório de R&B e hip hop.
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    Elogiada pela crítica e com participação em vários eventos de música nos EUA e Europa, ela é irmã de outra cantora famosa: Beyoncé, 31. As duas têm uma grife de roupas, a House of Deréon.
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    Aos 27 anos, Solange é também atriz, modelo, dançarina, DJ e empresária. Por causa de seu estilo, foi contratada por Giorgio Armani para ser embaixadora da linha jovem da marca.
    MILHAGEM
    David Neeleman, presidente da Azul Linhas Aéreas, separou-se da mulher, Vicki, com quem tem nove filhos, mas mantém a rotina de morar nos Estados Unidos e passar quatro dias na sede da empresa em Barueri (SP), a cada duas semanas.
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    Filho de missionários mórmons, o executivo americano mora em New Canaan, em Connecticut. A assessoria da Azul diz que "não vai comentar o assunto".
    COM AFETO
    Uma das melhores amigas de Diana, a embaixatriz Lúcia Flecha de Lima acompanha com emoção especial a chegada do neto da princesa morta em 1997. "Ela ficaria muito feliz, ainda mais por ser um menino." O filho de William e Kate é terceiro na linha de sucessão ao trono britânico. Lúcia vai mandar os cumprimentos ao casal e um presentinho para o bebê.
    PORTA-RETRATOS
    Os fotógrafos Mauricio Simonetti e Soraya Montanheiro convidaram colegas renomados para selecionar imagens autorais do seus acervos para serem emolduradas e vendidas como quadros. Fazem parte do projeto Mirafoto obras de Juan Esteves e Alex Soletto e duas do próprio Simonetti que integram o acervo do Masp. As coleções estarão à venda na Paralela Gift 2013, em agosto.
    EM TRÂNSITO
    O secretário municipal de Cultura de São Paulo, Juca Ferreira, foi à abertura da exposição "Transit_SP" com o filho Rafael. Também estiveram no pavilhão da Oca, no Ibirapuera, o músico e dançarino Antonio Nóbrega e as artistas plásticas Sandra Penha dos Santos e Fatima Esponda.

    Juca Ferreira levou o filho para a abertura da "Transit_SP"

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    Greg Salibian/Folhapress
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    O secretário municipal de Cultura de São Paulo, Juca Ferreira, levou Rafael, o filho caçula, à abertura da exposição "Transit_SP", no sábado (20), no pavilhão da Oca, no Ibirapuera
    SEM TOPETE
    Neymar deve seguir à risca a recomendação do seu novo clube, o Barcelona, de deixar a cabeleira mais discreta. Cosme Salles, responsável pelos visuais originais do jogador há anos, passou o bastão do famoso topete. "Eu disse pra ele se virar. Na Espanha tem muito brasileiro que sabe cortar o básico, que é fácil", relata o cabeleireiro, que atende em Santos.
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    Ex-mocaino e louro, o craque agora está com uma discreta franja.
    GRAN FINALE
    O musical "O Rei Leão" foi interrompido anteontem por três minutos na cena do confronto entre Scar e Simba, em que há um voo programado do alto de uma pedra até o chão. As luzes do teatro Renault foram acesas na hora do duelo final.
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    O espetáculo é automatizado. Como um dos computadores detectou um possível problema técnico no voo de Scar, que acabou não acontecendo.
    BATE E VOLTA
    Marcos Mion está na ponte área São Paulo/Miami neste mês. Como sua mulher Suzana Gullo e os três filhos passam férias na casa que a família mantém por lá, ele vem toda semana gravar "Legendários", da Record, e volta para os EUA em seguida.
    CURTO-CIRCUITO
    Vitor Ramil canta nesta sexta e sábado (26 e 27), às 21h, no auditório Ibirapuera. Livre.
    Marco Leone, vice-cônsul da Itália em SP, irá para a embaixada da Sérvia.
    O espetáculo "Cabarezinho" é atração nesta sexta-feira (26), às 22h30, no CIT Ecum, na Consolação. 18 anos.
    A Banda Mais Bonita da Cidade se apresenta nesta sexta-feira (26), às 23h, no Mundo Pensante, na Bela Vista. 18 anos.
    Iates de até R$ 20 milhões estão à venda no Boutique Boat Show, no Guarujá.
    Com ELIANE TRINDADE (interina), JOELMIR TAVARES e ANA KREPP
    Mônica Bergamo
    Mônica Bergamo, jornalista, assina coluna diária publicada na página 2 da versão impressa de "Ilustrada". Traz informações sobre diversas áreas, entre elas, política, moda e coluna social. Está na Folha desde abril de 1999.

    Barbara Gancia

    folha de são paulo

    O nada


    Não sei distinguir uma begônia de uma hortênsia. Mas pude experimentar, na Patagônia argentina, onde passei alguns dias nesta semana, a mesmíssima sensação que Charles Darwin descreve em "A Viagem do Beagle", sobre ficar para sempre enlevado pela imensidão daquele fim de mundo, de ter tido a mente tomada por uma calma primitiva que compele a um encontro forçado consigo mesmo.
    Já tinha estado antes na Patagônia e me deixado arrebatar. Pelo quê? Não há nada ali. Ninguém, nem mísero arbusto, nadica. Só vento e horizonte.
    Percebi que o nada é uma experiência mais bem encarada pelo que nele não se encontra. Visto por esse ângulo, as vantagens abundam. Para começar, no nada não há "nobres selvagens", do tipo que inspirou Voltaire e que, originalmente, foi exportado dali, da tribo dos nobres araucanas, invejados pela robustez, valentia e qualidade moral. Foram todos dizimados.
    Do Panamá à Terra do Fogo foram 16 milhões de indígenas mortos pelos colonizadores; seria o caso de pedir o Nadal, o Barcelona e o Real Madrid como indenização, só pra começar. Nos raros povoados, incrementados pelo turismo que veio com o aeroporto construído pelo então governador Kirchner (o ex-presidente era natural da província de Santa Cruz, que domina a Patagônia), também há quase nada.
    Claro, sempre se dá de cara com um café, uma livraria, um banco e um cassino. Um trago é praxe e o argentino gosta de ler livros que expliquem seu fracasso e a complicadíssima iconografia do peronismo. A prevalência de instituições monetárias, a julgar pelos recentes escândalos envolvendo homens próximos aos Kirchner, serve para lavar dinheiro. E só.
    Algo não faz sentido para mim nessa equação do Darwin. Essa história de paz de Deus não me convence. Desconfio que minha serenidade não tenha nada a ver com a contemplação da natureza ou com a placidez.
    Assim que regressei, fissurada pela falta de notícias, fui correndo ler os números atrasados da Folha guardados na minha ausência e dei de cara com uma série de monstruosidades na forma de souvenirs oferecidas ao papa durante sua visita. O prefeito de Aparecida presenteou o santo padre com a obra de um "artista local". O líder do PT na Câmara deu a ele um "kit Padim Ciço", com terço e escultura; Dilma ofereceu uma escultura que retrata um frade lendo. Só falta o pintor Roberto Camasmie perpetrar uma obra do pontífice deitado em um divã em pose vamp.
    E as quinquilharias? Um dos piores efeitos colaterais do turismo e dos eventos celebratórios como visitas papais ou nascimentos reais são a produção em massa de souvenirs. Entendo que produzir inutilidades seja um meio de empregar quem não consegue amarrar os sapatos. Mas não seria mais útil colocá-los para ajudar em clínicas de castração de cães e gatos? Ou será que só eu percebo que o problema da saúde pública está saindo de controle?
    Não seria mais producente contratá-los para desintupir esgotos, trabalhar na distribuição de remédios... Qualquer coisa menos produzir esse monte de lixo na forma de souvenir que só infesta o mundo de lixo e apequena o espírito?
    Em Aparecida há 500 lojas de "artigos religiosos", provavelmente confeccionados na China por budistas. Será esse comércio de chaveirinho com santo casamenteiro religião ou superstição? E estátuas sem qualquer valor estético ou artístico, como a de são Francisco, em Canindé (CE), ou a de Frei Galvão, que está sendo erguida em Aparecida? Ou os milhares de Cristos Redentores espalhados pelas cidadezinhas tapuias? Um mais desproporcionado e capenga que o outro, será que não fazem Michelangelo e Botticelli revirar no túmulo?
    Me leva para a Patagônia!
    Barbara Gancia
    Barbara Gancia, mito vivo do jornalismo tapuia e torcedora do Santos FC, detesta se envolver em polêmica. E já chegou na idade de ter de recusar alimentos contendo gordura animal. É colunista do caderno "Cotidiano" e da revista "sãopaulo".