Longe de estúdios e próximos de sua realidade, mestres e grupos de várias manifestações
da cultura popular brasileira têm as suas músicas gravadas em disco pela primeira vez
Mariana Peixoto
Estado de Minas: 04/08/2013
Betão
Aguiar nasceu em São Paulo, há 35 anos. Com menos de 1 ano, mudou-se
com a família para o Rio de Janeiro. De lá, ainda na primeira infância,
foi para a Bahia. Não havia como fugir da música, já que é filho de
Paulinho Boca de Cantor, um dos fundadores dos Novos Baianos. Mais
velho, o contrabaixista começou a tocar com Carlinhos Brown e Moraes
Moreira. Nas viagens, conheceu muito do interior do país. O despertar de
Betão para a cultura popular veio de toda essa vivência e da
experiência singular de dois Mários que vieram muito antes dele.
Seu
bisavô Mário Aguiar, um juiz de São Luiz do Paraitinga, interior de São
Paulo, que tinha como hobby registrar na escrita manifestações da
cultura popular da região. Era contemporâneo de Mário de Andrade, com
quem chegou a trocar cartas. Oitenta anos depois da incursão que o
modernista fez pelo Norte e Nordeste – série de viagens que resultaram
no livro O turista aprendiz, escrito nos anos 1940 e lançado em 1976 –,
Betão criou o projeto Mestres navegantes, que registra manifestações da
cultura popular.
O resultado da primeira etapa saiu em 2010, com
mestres e grupos de São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba. A
segunda etapa, que abrange a região do Cariri cearense, está sendo
lançada agora, ambas pelo programa Natura Musical. São 10 CDs com
registros em áudio de 53 grupos – e também solos e duplas – de reisado,
coco, repente, embolada, cordel etc. (veja box). Essa é uma parte do
material, já finalizada.
Betão trabalha agora para o lançamento
de 10 minidocumentários, cinco programas de rádio, mais fotos e textos
que serão disponibilizados, nos próximos meses, no portal Natura Musical
(www.naturamusical.com.br). Os CDs não serão vendidos (as faixas
poderão ser baixadas gratuitamente). Eles foram distribuídos para os
grupos participantes (cada um recebe cota de 300 discos), escolas
públicas, ONGs e centros de pesquisa de cultura popular.
“Já
houve outros projetos que fizeram registros. Mas, de maneira geral, as
pessoas gravavam os artistas e depois iam embora, não devolviam o
resultado para eles. Pensei em fazer uma coisa que fosse legal também
para os mestres. Noventa e cinco por cento deles nunca tinham registrado
suas obras. Muitos nunca tinham se ouvido cantar”, comenta Betão, que
está envolvido com cultura popular desde 2007.
Os registros
foram feitos in loco, entre 2010 e 2012 – os primeiros, ainda sem
patrocínio, foram bancados pelo próprio Betão. “Mário de Andrade levou
um gravador de rolo para fazer os registros. Hoje em dia, temos
tecnologia de alto padrão”, continua ele, que buscou interferir o mínimo
possível no ambiente original. “Há projetos que levam os grupos para um
estúdio. Mas eles não são músicos do mercado profissional. São muito
intuitivos, fazem música por outras razões. Se você os coloca numa sala
fechada, a manifestação pode ‘esfriar’.”
Para participar do
projeto, Betão selecionou grupos que estão em atividade. “Fazia reunião
com mais de 100 pessoas, para saber se realmente queriam participam.
Houve ainda um processo educativo, explicamos que eles são autores de
uma obra, que existe lei de direito autoral, que a música deles
realmente tem valor. Muitos não sabiam nem ler, e como a cultura popular
sempre teve um paternalismo forte, na figura de um secretário de
cultura ou um produtor cultural, os mestres acabaram se acomodando um
pouco”, acrescenta ele, que não pretende parar por aí.
Tem
procurado parcerias para desenvolver uma série de TV. Pensa ainda numa
exposição. “Ao mesmo tempo, quero que esse material vá se transformando.
Curumin, Felipe Cordeiro e Gui Amabis estão fazendo remixes. Meu sonho é
ter um banco de dados para que o jovem de periferia, em vez de usar um
som de Miami, um drum’n’bass, use um surdo de congado ou um pandeiro
para criar sua própria música.” Afora isso, Betão desenha ainda uma
edição do Mestres navegantes na Ilha de Marajó. “É um projeto de vida”,
conclui.
Diversidade
Betão Aguiar tem aprendido na prática
como fazer tanta coisa com o tempo que tem. O projeto Mestres navegantes
é realizado concomitantemente com o trabalho de músico e produtor. Ele
atualmente integra as bandas de Arnaldo Antunes, Baby do Brasil e Felipe
Cordeiro. Produz ainda o novo disco de Arnaldo, que já lançou duas
faixas on-line (a terceira será disponibilizada amanhã no site
www.arnaldoantunes.com.br). Com o estúdio Navegantes, que mantém em São
Paulo, Betão já gravou discos das cantoras Luê,
Céu e Anelis
Assumpção, entre outras. Produziu ainda as trilhas dos filmes Ó Paí, Ó,
de Monique Gardenberg, e As melhores coisas do mundo, de Laís Bodanzky.
Raízes
»
Reisado – Presente em dois CDs, que trazem o registro de 13
manifestações. De origem portuguesa, mistura música, teatro e dança para
festejar a renovação. Antes apresentado entre o fim de dezembro e o
início de janeiro (até o
Dia de Reis), hoje é festejado em qualquer época. “No Cariri, era encenado para comemorar o aniversário de alguém.
O grupo chegava de surpresa às 5h da manhã à casa da pessoa e ficava
o dia inteiro na comemoração”, conta Betão Aguiar.
»
Cabaçal – Também rendeu dois CDs, que trazem o registro de nove
manifestações. “É muito antigo no Cariri. O nome vem dos instrumentos,
que eram feitos de cabaças. A instrumentação é como a de uma banda de
pife, mas pode variar”, conta Aguiar. De maneira geral, as formações são
de dois pifes, uma zabumba, uma caixa e pratos
(somente este último não é produzido pelos integrantes).
»
Coco – Cinco grupos de coco renderam um CD no projeto. A maioria das
formações é feminina. “Usam a música como canto de trabalho, amassar o
barro para construção das casas”, conta Aguiar.
» Maneiro Pau –
Também com um CD, que traz quatro grupos. “A coreografia é em roda, com
bastões (um integrante “bate” no bastão de outro, daí o nome Maneiro
Pau). Um mestre puxa o canto, improvisando, e o coro responde.”
» Guerreiro – O CD registra três manifestações, que são como uma versão feminina do reisado. Um dos três
registros
é o do Guerreiro da Mestra Margarida. “Ela está com quase 90 anos e
ficou tão feliz em receber os discos”, relembra Aguiar.
»
Repente, embolada e cordel – Manifestações mais conhecidas da região,
ganharam um único CD, que abrange 10 artistas (solo ou dupla).
»
Penitentes e incelenças – Manifestações de forte cunho religioso. “Os
penitentes se autoflagelam. Fizemos o registro mais voltado para o lado
musical”, conta Betão Aguiar. Já as incelenças (foi registrada somente a
do Sítio Cabeceiras) são grupos de mulheres que cantam quando morre uma
criança. “É bem triste, mas superbonito. Elas se reúnem para consolar a
família e acompanham o cortejo até a sepultura”, afirma Aguiar.
»
Terreiro Cariri – O CD reúne manifestações diversas, que não podiam
entrar nos discos anteriores. Há o grupo Bacamarteiros da Paz – “os
bacamartes vêm da Guerra do Paraguai, quando os soldados voltavam
felizes para as esposas e comemoravam com comilança e dando tiros para o
alto; Lampião brincava muito disso” –; Mestre Custódio do Berimbau –
“que toca o berimbau elétrico, um pedaço de madeira no corpo de uma
guitarra” –, dois grupos de lapinha – “crianças que fazem encenações de
presépio” –, Maria do Horto – “ela apresenta poemas que musica, achei
que tinha que registrar” – e Banda de Pife Carcará – “as bandas cabaças
têm dois pifes; essa tem um só”.
domingo, 4 de agosto de 2013
O cérebro farsante - Helio Schwartsman
folha de são paulo
SÃO PAULO - Deu no "New York Times" que, depois que a Austrália implementou uma nova legislação que tornou os maços de cigarros mais repulsivos, com fotos explícitas das moléstias provocadas pelo tabagismo, fumantes começaram a queixar-se de que o sabor de seus cilindros tóxicos mudara para pior.
Como nada foi alterado no processo de fabricação dos cigarros, a resposta para a sensação dos fumantes só pode estar na psicologia.
Nosso cérebro, apesar da aparência de seriedade, é um grande farsante. Sobretudo nas faixas que operam abaixo do radar da consciência, que correspondem a algo como 98% dos processos, ele preenche os espaços para os quais não há informação com invencionices. Isso vale para tudo. Um caso emblemático é a visão. As "imagens" que chegam da retina não passam de um borrão desfocado com um grande buraco no meio. As áreas corticais destinadas à visão, valendo-se principalmente de nossa experiência passada, é que vão pacientemente reconstruindo tudo de modo a criar uma interpretação coerente para o que vemos.
As coisas não são diferentes com o gosto. Ao contrário até, por ser um sentido relativamente pobre, está sujeito a todo tipo de interferência olfativa, tátil e se deixa facilmente levar pelo contexto. Uma boa apresentação e um serviço eficiente melhoram o gosto da comida servida no restaurante. Psicólogos já provaram que um vinho ordinário de R$ 20 fica bem mais saboroso quando etiquetado como uma garrafa de R$ 90.
Talvez pudéssemos explorar melhor essa faceta de nossas mentes. É possível que, associando desde cedo drogas a valores negativos, consigamos reduzir os casos de dependência sem necessidade de criar custosas e ineficazes máquinas repressivas. Minha impressão é a de que algo assim já está acontecendo com o fumo, que vem perdendo adeptos desde que o "Zeitgeist" lhe atribuiu uma carga moral negativa.
Como nada foi alterado no processo de fabricação dos cigarros, a resposta para a sensação dos fumantes só pode estar na psicologia.
Nosso cérebro, apesar da aparência de seriedade, é um grande farsante. Sobretudo nas faixas que operam abaixo do radar da consciência, que correspondem a algo como 98% dos processos, ele preenche os espaços para os quais não há informação com invencionices. Isso vale para tudo. Um caso emblemático é a visão. As "imagens" que chegam da retina não passam de um borrão desfocado com um grande buraco no meio. As áreas corticais destinadas à visão, valendo-se principalmente de nossa experiência passada, é que vão pacientemente reconstruindo tudo de modo a criar uma interpretação coerente para o que vemos.
As coisas não são diferentes com o gosto. Ao contrário até, por ser um sentido relativamente pobre, está sujeito a todo tipo de interferência olfativa, tátil e se deixa facilmente levar pelo contexto. Uma boa apresentação e um serviço eficiente melhoram o gosto da comida servida no restaurante. Psicólogos já provaram que um vinho ordinário de R$ 20 fica bem mais saboroso quando etiquetado como uma garrafa de R$ 90.
Talvez pudéssemos explorar melhor essa faceta de nossas mentes. É possível que, associando desde cedo drogas a valores negativos, consigamos reduzir os casos de dependência sem necessidade de criar custosas e ineficazes máquinas repressivas. Minha impressão é a de que algo assim já está acontecendo com o fumo, que vem perdendo adeptos desde que o "Zeitgeist" lhe atribuiu uma carga moral negativa.
Eduardo Almeida Reis - Padrão Fifa
Eduardo Almeida Reis - eduardo.reis@uai.com.br
Estado de Minas: 04/08/2013
Agora que o padrão
Fifa entrou na moda, me dei conta de que, nos anos todos em que fui
obrigado a escrever sobre esportes, com ênfase para o futebol, inventei a
brincadeira de Cronista-Fifa para fugir do indecoroso pronome sujeito
“eu”, em que chafurda a esmagadora maioria dos cronistas deste país
grande e bobo. Antes, quando escrevi durante 15 anos pequenos textos
diários de até 500 palavras, fui Texticulista, sempre fugindo do pronome
sujeito, muitas vezes dispensável em português, como ensinou Celso
Cunha, tio de Andrea e Aécio Neves da Cunha. Há coisa de sete anos
adotei a figura do Philosopho.
Por falar em padrão Fifa, ouço dizerem que o gramado do Estádio Mané Garrincha já está uma porcaria e que muitas “arenas” construídas ou reformadas por bilhões de reais não têm espaços reservados para as câmeras de televisão, instaladas sobre andaimes.
Sem tevê o negócio vai ficar meio difícil. Noite dessas, zapeando o televisor, passei pelo jogo do Cruzeiro com o Atlético-GO, quando a Raposa ainda vencia por 1 x 0. Não se via vivalma nas arquibancadas centrais; só uns poucos torcedores atrás de um dos gols. Manhã seguinte, recebi os jornais, mas de edições que fecharam às 21h, sem notícia do jogo e do público pagante.
As providências para receber o papa Francisco disseram bem do país em que vivemos. Caças, helicópteros, tanques, milhares de PMs, policiais civis, não sei quantos homens do Exército e da Força Nacional, radares, baterias antiaéreas – um país em guerra não movimenta tropas em tamanha quantidade. E isso para receber a figura máxima do catolicismo.
Será que alguém, aqui ou alhures, teria interesse em atirar no papa, sequestrar o papa, molestar o papa? Não creio. Contudo, se um maluco quiser matá-lo, não há de ser um caça da FAB avoando lá em cima que o impedirá.
Internet
Atribuído ao baiano João Ubaldo, circula na internet um texto muito bem escrito, com dois errinhos de digitação, musicado, em que todos os males do Brasil são atribuídos aos eleitores brasileiros, que não sabemos escolher nossos parlamentares e nossos administradores.
Dá para perceber que o texto não é de Ubaldo, porque chama de “ladrão” ilustre ex-presidente da República, e o escritor baiano, homem educado e informado, seria incapaz de calúnia desse jaez, mesmo porque não ignora a honestidade de todos os nossos ex-presidentes.
Se alguns enriqueceram e ficaram bilionários foi porque souberam economizar ao longo de suas vidas. Admitamos que, em termos atuais, um presidente receba limpos R$ 30 mil. Economizando R$ 29.990, ao fim de um ano terá R$ 359.880, cerca de R$ 1.430.000 em quatro anos de mandato. Reeleito, sempre economizando, poderá comprar apartamento médio no Bairro de Lourdes, Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, onde um apartamento realmente bom está custando quatro vezes as economias de oito anos de mandatos presidenciais.
Quanto à nossa culpa nas urnas, desconsideremos a justa suspeição sobre os mecanismos das urnas eletrônicas: se um hacker invade o sistema do Pentágono, um menino de 6 anos invade o sistema do nosso Tribunal Superior Eleitoral. Com ou sem manipulação, não há dúvida de que votamos mal. Extinta a República Velha, odioso período em que havia parlamentares alfabetizados, as eleições modernas são isto que se vê nos parlamentos e nos palácios.
Na República Velha, os coronéis do interior conheciam os rapazes mais estudiosos e brilhantes das regiões sobre as quais tinham controle, cuidando de enviá-los como seus representantes às assembleias, às câmaras, ao Senado. Que, por falar nele, obrou muito mal ao proibir a eleição de suplentes aparentados com os senadores eleitos. Em que outro país, dos mais de 190 reconhecidos pela ONU, existe a sorte, a boa estrela, a felicidade de contar no respectivo Senado com a figura admirável de um suplente como Edison Lobão Filho? Que outra pessoa, entre as mais de 7,5 bilhões que povoam a Terra, teria a competência senatorial de Lobão Filho, enquanto seu ilustre pai exerce as funções de ministro de Minas e Energia, ele que é justamente considerado a maior autoridade mundial nas áreas em que ministra?
O mundo é uma bola
4 de agosto de 1578: na Batalha de Alcácer-Quibir, o rei de Marrocos derrota o Exército português e o rei dom Sebastião, de Portugal, desaparece do mapa. Coroa herdada por seu tio-avô, o cardeal-rei dom Henrique, abrindo caminho para a crise dinástica em que Portugal seria governado pelos reis espanhóis de 1580 a 1640.
Dom Sebastião, retratado pelo historiador português Oliveira Martins, era rapaz complicado, desengonçado, com um lado maior que o outro, não muito amigo de mulheres, tanto assim que importaram da França um médico precursor da terapia recomendada pelo pastor Feliciano, deputado federal (PSC-SP). Curado ou não, sumiu em Alcácer-Quibir ensejando o sebastianismo, crença mística, propagada em Portugal logo após seu desaparecimento, segundo a qual Sebastião, como um novo messias, retornaria para levar o país a outros apogeus de glórias e conquistas.
Ruminanças
“Os otimistas escrevem mal” (Paul Valéry, 1871-1945).
Por falar em padrão Fifa, ouço dizerem que o gramado do Estádio Mané Garrincha já está uma porcaria e que muitas “arenas” construídas ou reformadas por bilhões de reais não têm espaços reservados para as câmeras de televisão, instaladas sobre andaimes.
Sem tevê o negócio vai ficar meio difícil. Noite dessas, zapeando o televisor, passei pelo jogo do Cruzeiro com o Atlético-GO, quando a Raposa ainda vencia por 1 x 0. Não se via vivalma nas arquibancadas centrais; só uns poucos torcedores atrás de um dos gols. Manhã seguinte, recebi os jornais, mas de edições que fecharam às 21h, sem notícia do jogo e do público pagante.
As providências para receber o papa Francisco disseram bem do país em que vivemos. Caças, helicópteros, tanques, milhares de PMs, policiais civis, não sei quantos homens do Exército e da Força Nacional, radares, baterias antiaéreas – um país em guerra não movimenta tropas em tamanha quantidade. E isso para receber a figura máxima do catolicismo.
Será que alguém, aqui ou alhures, teria interesse em atirar no papa, sequestrar o papa, molestar o papa? Não creio. Contudo, se um maluco quiser matá-lo, não há de ser um caça da FAB avoando lá em cima que o impedirá.
Internet
Atribuído ao baiano João Ubaldo, circula na internet um texto muito bem escrito, com dois errinhos de digitação, musicado, em que todos os males do Brasil são atribuídos aos eleitores brasileiros, que não sabemos escolher nossos parlamentares e nossos administradores.
Dá para perceber que o texto não é de Ubaldo, porque chama de “ladrão” ilustre ex-presidente da República, e o escritor baiano, homem educado e informado, seria incapaz de calúnia desse jaez, mesmo porque não ignora a honestidade de todos os nossos ex-presidentes.
Se alguns enriqueceram e ficaram bilionários foi porque souberam economizar ao longo de suas vidas. Admitamos que, em termos atuais, um presidente receba limpos R$ 30 mil. Economizando R$ 29.990, ao fim de um ano terá R$ 359.880, cerca de R$ 1.430.000 em quatro anos de mandato. Reeleito, sempre economizando, poderá comprar apartamento médio no Bairro de Lourdes, Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, onde um apartamento realmente bom está custando quatro vezes as economias de oito anos de mandatos presidenciais.
Quanto à nossa culpa nas urnas, desconsideremos a justa suspeição sobre os mecanismos das urnas eletrônicas: se um hacker invade o sistema do Pentágono, um menino de 6 anos invade o sistema do nosso Tribunal Superior Eleitoral. Com ou sem manipulação, não há dúvida de que votamos mal. Extinta a República Velha, odioso período em que havia parlamentares alfabetizados, as eleições modernas são isto que se vê nos parlamentos e nos palácios.
Na República Velha, os coronéis do interior conheciam os rapazes mais estudiosos e brilhantes das regiões sobre as quais tinham controle, cuidando de enviá-los como seus representantes às assembleias, às câmaras, ao Senado. Que, por falar nele, obrou muito mal ao proibir a eleição de suplentes aparentados com os senadores eleitos. Em que outro país, dos mais de 190 reconhecidos pela ONU, existe a sorte, a boa estrela, a felicidade de contar no respectivo Senado com a figura admirável de um suplente como Edison Lobão Filho? Que outra pessoa, entre as mais de 7,5 bilhões que povoam a Terra, teria a competência senatorial de Lobão Filho, enquanto seu ilustre pai exerce as funções de ministro de Minas e Energia, ele que é justamente considerado a maior autoridade mundial nas áreas em que ministra?
O mundo é uma bola
4 de agosto de 1578: na Batalha de Alcácer-Quibir, o rei de Marrocos derrota o Exército português e o rei dom Sebastião, de Portugal, desaparece do mapa. Coroa herdada por seu tio-avô, o cardeal-rei dom Henrique, abrindo caminho para a crise dinástica em que Portugal seria governado pelos reis espanhóis de 1580 a 1640.
Dom Sebastião, retratado pelo historiador português Oliveira Martins, era rapaz complicado, desengonçado, com um lado maior que o outro, não muito amigo de mulheres, tanto assim que importaram da França um médico precursor da terapia recomendada pelo pastor Feliciano, deputado federal (PSC-SP). Curado ou não, sumiu em Alcácer-Quibir ensejando o sebastianismo, crença mística, propagada em Portugal logo após seu desaparecimento, segundo a qual Sebastião, como um novo messias, retornaria para levar o país a outros apogeus de glórias e conquistas.
Ruminanças
“Os otimistas escrevem mal” (Paul Valéry, 1871-1945).
Editoriais FolhaSP - Charge
folha de são paulo
No último trimestre do ano, pode dissipar-se parte da névoa pessimista que turva perspectivas de empresários e consumidores. Espera-se que, a partir de setembro, ocorram bem-sucedidas licitações de obras e concessões de rodovias, aeroportos, portos, rodovias e campos de petróleo.
O bom resultado financeiro dessas operações preencheria vazios no caixa federal. Vencedores com qualificação técnica inspirariam confiança na realização e na boa gestão dos projetos. O início das obras estimularia a economia. Tais sucessos, enfim, restaurariam parte da confiança no país.
Mas há empecilhos sérios ao deslanche dos leilões. A começar porque o governo se atrasa, por teimosia em admitir a privatização, e se atrapalha na elaboração de normas sobre a disputa e a regulação dos serviços privados.
A inoperância oficial fica evidente em vexames como o dos parques eólicos prontos e sem linhas de transmissão, ou no fiasco da essencial ferrovia entre o Centro-Oeste e o litoral da Bahia.
Outros impedimentos são o momento difícil da economia e a falta de credibilidade do governo. Juros em alta elevam as demandas de retorno das empresas. Protestos de rua e as subsequentes reações demagógicas de governos e parlamentares criam incerteza sobre o cumprimento de contratos.
Tudo isso e o fato de o governo depender demais do sucesso das licitações aumenta o poder de barganha das empresas.
Tais problemas poderiam ser minorados caso houvesse disposição para entender o risco dos empreendimentos privados, em vez de aceitar a privatização como remédio amargo a ser adoçado com a redução do retorno das empresas a níveis inviáveis e com a presença de sócios estatais.
O governo ficou obcecado com a "modicidade tarifária", mas descura da qualidade técnica dos vencedores, dos projetos e da qualidade do próprio serviço.
Faria bem se deixasse de lado projetos inviáveis, como o do trem-bala, a fim de se concentrar no desembaraço das encrencadas licitações de ferrovias úteis.
Nesse caso, as normas estão indefinidas. Ademais, a regulação do setor prevê a participação de uma estatal, a Valec, que vive entre escândalos e inoperância. No caso dos portos, os planos iniciais do governo suscitam ameaças de uma guerra jurídica.
O governo deveria parar de perder tempo com remendos e malabarismos. Reunir os escassos meios das agências reguladoras para colocar de pé bons leilões é opção melhor. Pode ser a última oportunidade de deixar legado útil na área econômica.
Retomada americana
Cada vez mais analistas apostam na aceleração substancial da economia americana já em 2014. Nem foi tão imponente o crescimento do primeiro semestre, mas já se constatam requisitos necessários para um desempenho melhor no próximo ano.
A dúvida, agora, diz respeito à velocidade da retomada e ao comportamento do Fed, o banco central dos Estados Unidos.
A crise financeira parece superada. Depois de longo período, os preços dos imóveis voltam a subir, e a inadimplência retorna aos baixos níveis históricos. Os bancos, que têm boa parte de seus empréstimos garantida por hipotecas, voltaram a ter lucros polpudos. O crédito deverá se expandir.
Além disso, como houve grande salto de produtividade, os custos para empresas americanas são muito baixos na comparação com competidores globais. Adicione-se o preço reduzido de energia, por causa da revolução tecnológica do gás de xisto, e tem-se um cenário novamente atrativo para indústrias que haviam deixado o país.
Não fosse o aperto das contas públicas, que deve subtrair 1,5 ponto percentual do crescimento, este teria sido ainda maior. Estima-se que, no ano que vem, o efeito desse aperto caia pela metade.
Com a economia nesse ritmo, tudo o mais sugere que o Fed, em breve, poderá mesmo diminuir os estímulos ao crescimento. Em outras palavras, o banco central dos EUA deve, num primeiro momento, reduzir a injeção de dinheiro na praça --hoje são US$ 85 bilhões por mês. Depois, em algum momento de 2014, esse tipo de intervenção deve ser interrompida.
Trata-se, a partir daí, de saber quando os juros, atualmente perto de zero, começarão a subir.
O principal empecilho parece ser o desemprego de 7,4%, ainda alto para os padrões norte-americanos. Faltam 2 milhões de postos de trabalho para o país retomar o nível pré-crise. Além disso, a inflação anual, em torno de 1% (a meta é de 2%), não constitui ameaça. Ao contrário do que ocorre no Brasil, não há, nos Estados Unidos, conflito entre crescimento econômico e alta de preços.
Por essa razão, as taxas de juros dificilmente serão modificadas antes de 2015. Quando se trata da maior economia do planeta, contudo, esse horizonte é perto o suficiente para que investidores comecem a redirecionar recursos aos Estados Unidos.
Já estão aí os efeitos desse cenário, como a valorização do dólar e a redução da entrada de capitais em países emergentes. Esse processo, vale lembrar, será duradouro
eDITORIAIS
editoriais@uol.com.br
Leilão de resultados
Licitações de obras de infraestrutura podem deixar importante legado para o país, mas governo se perde com remendos na economia
O bom resultado financeiro dessas operações preencheria vazios no caixa federal. Vencedores com qualificação técnica inspirariam confiança na realização e na boa gestão dos projetos. O início das obras estimularia a economia. Tais sucessos, enfim, restaurariam parte da confiança no país.
Mas há empecilhos sérios ao deslanche dos leilões. A começar porque o governo se atrasa, por teimosia em admitir a privatização, e se atrapalha na elaboração de normas sobre a disputa e a regulação dos serviços privados.
A inoperância oficial fica evidente em vexames como o dos parques eólicos prontos e sem linhas de transmissão, ou no fiasco da essencial ferrovia entre o Centro-Oeste e o litoral da Bahia.
Outros impedimentos são o momento difícil da economia e a falta de credibilidade do governo. Juros em alta elevam as demandas de retorno das empresas. Protestos de rua e as subsequentes reações demagógicas de governos e parlamentares criam incerteza sobre o cumprimento de contratos.
Tudo isso e o fato de o governo depender demais do sucesso das licitações aumenta o poder de barganha das empresas.
Tais problemas poderiam ser minorados caso houvesse disposição para entender o risco dos empreendimentos privados, em vez de aceitar a privatização como remédio amargo a ser adoçado com a redução do retorno das empresas a níveis inviáveis e com a presença de sócios estatais.
O governo ficou obcecado com a "modicidade tarifária", mas descura da qualidade técnica dos vencedores, dos projetos e da qualidade do próprio serviço.
Faria bem se deixasse de lado projetos inviáveis, como o do trem-bala, a fim de se concentrar no desembaraço das encrencadas licitações de ferrovias úteis.
Nesse caso, as normas estão indefinidas. Ademais, a regulação do setor prevê a participação de uma estatal, a Valec, que vive entre escândalos e inoperância. No caso dos portos, os planos iniciais do governo suscitam ameaças de uma guerra jurídica.
O governo deveria parar de perder tempo com remendos e malabarismos. Reunir os escassos meios das agências reguladoras para colocar de pé bons leilões é opção melhor. Pode ser a última oportunidade de deixar legado útil na área econômica.
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