quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Estudo revela semelhanças entre homens e mulheres que agridem parceiros


Segundo estudos americanos, são parecidos os índices de garotos e garotas que assumem ter cometido agressão física ou sexual contra os parceiros. Especialistas dizem que o problema se repete em outros países e temem a eclosão de uma epidemia

Bruna Sensêve

Estado de Minas: 04/08/2013 








As meninas cometem alguma forma de violência contra os namorados quase tão frequentemente quanto os meninos. No caso de abusos físicos, até se destacam negativamente. Segundo estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, 43% das adolescentes reconhecem ter cometido algum ato de violência física em encontros amorosos, frente a 28% dos garotos. Quando a questão é a violência sexual, a diferença entre os sexos torna-se pouco expressiva: 23% dos entrevistados assumiram a autoria de pelo menos uma ação nesse sentido, contra 18% das participantes. Os resultados surpreendem especialmente pelo alto índice de violência entre casais jovens americanos. E, de acordo com especialistas, representam uma realidade não muito diferente da brasileira. 

O estudo, apresentado durante a 121ª Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia, que terminou domingo, analisou comportamentos como xingar, espalhar boatos, agredir física e sexualmente praticados por 625 estudantes dos ensinos fundamental e médio acompanhados durante quatro anos. Por “namoro”, os pesquisadores entenderam passar um tempo com alguém com quem o adolescente esteja saindo, como passear no shopping e ir a uma festa. Não se trata, portanto, de um parceiro formal. 


De acordo com os pesquisadores, um percentual alto de adolescentes assumiu ter feito algo para deixar o parceiro com raiva (31%) ou usado um tom hostil (26%), sendo que 68% dos que assumiram pelo menos um ato de violência verbal eram mulheres, e 52% homens. O dado mais alarmante, no entanto, trata da violência física. Dez por cento dos entrevistados disseram ter batido ou dado um tapa no parceiro e 11% morderam o companheiro, sendo 43% dos agressores do sexo feminino e 28% do masculino. Forçar um beijo também foi relatado por 6% deles, sendo 23% dos meninos e 18% da meninas.


Segundo Rachel de Faria Brino, professora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência (Laprev) do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (SP), o resultado geral é alarmante, mas não chega a surpreender. “Pesquisas internacionais e nacionais já vêm apontando há tempos o escalonamento da violência no círculo familiar e entre pessoas conhecidas, o que chamamos de violência intrafamiliar.” Ela lembra que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece esse tipo de agressão como um dos problemas de saúde pública mais expressivos dos últimos anos e que vem atingindo índices de epidemia.



A professora de psicologia educacional Dorothy Espelage, responsável pelo estudo americano, vê uma relação do problema com o ambiente escolar, que tem se tornado cada vez mais hostil. “Meninos e meninas que se envolveram em altas taxas de bullying com outros alunos no início do estudo tiveram uma probabilidade sete vezes maior de relatar serem fisicamente violentos nas relações de namoro quatro anos depois”, disse. “Esses resultados indicam que a prevenção ao bullying precisa começar cedo, a fim de prevenir a transmissão de violência nas relações de namoro.” 


Para Rachel Brino, a experiência de violência em casa, quando criança, tem estreita relação com prática de bullying – cometido tanto pela vítima quanto pelo autor ou pela testemunha da agressão futura. “Todo esse modelo de agressividades – aprender que a violência pode ser uma forma de se relacionar, resolver conflitos, enfim, uma prática comum nas relações familiares e amorosas – pode levar os jovens a se envolverem em relações violentas.” Assim como demonstrado por Dorothy, Rachel cita uma cadeia de agressividade que é transmitida do meio familiar ao escolar e, consequentemente, aos relacionamentos com outras pessoas.

Rotineira 
Outra pesquisa, liderada por Michele Ybarra, do Centro de Pesquisa em Saúde Pública Inovadora, com sede em San Clemente, na Califórnia, reforça o resultado encontrado pela equipe de Dorothy Espelage. Dos jovens entrevistados com idade entre 14 e 20 anos, um em cada três disse ter sido vítima de violência no namoro e praticamente o mesmo percentual reconheceu que cometeu algum tipo de agressão durante um encontro. “Essas taxas de violência entre os adolescentes são alarmantes e sugerem que a violência no namoro é simplesmente muito comum entre os nossos jovens”, alertou Michele. Os pesquisadores analisaram informações coletadas em 2011 e 2012 de 1.058 jovens que participaram de uma pesquisa on-line.


No estudo de Michele, os resultados são semelhantes aos de Dorothy. Meninas tiveram quase a mesma probabilidade de ser autoras e vítimas de violência: 41% relataram vitimização e 35% relataram perpetração em algum momento da vida. Entre os meninos, as taxas foram de 37% e 29%, respectivamente. A experiência de violência psicológica no namoro era mais ou menos igual para meninos e meninas.


“A sobreposição significativa de vitimização, perpetração e os diferentes tipos de violência no namoro adolescente tornam importante a concepção de programas de prevenção para não assumir que as vítimas e os agressores são diferentes”, defende Michele. Ela conta que é preciso pensar sobre a dinâmica de relações que podem resultar em alguém capaz tanto de perpetrar quanto de se tornar vítima de um parceiro, bem como avaliar de que forma os abusos em um namoro podem ser repetidos em relações futuras. 





Educação pela pedra - Paula Cesarino Costa

folha de são paulo
Educação pela pedra
RIO DE JANEIRO - Sob os pés de muitos ou nas mãos de alguns, as pedras portuguesas são parte da história da cidade. Na gestão do prefeito que mudou o Rio, Pereira Passos (1902-1906), os mosaicos alvinegros tomaram o cenário urbano carioca.
Admiradas pela beleza com que compõem obras de arte aos pés dos passantes, as pedras portuguesas são odiadas por quem tropeça em alguma delas mal colocada ou enfia o salto do sapato em um dos recorrentes buracos entre elas.
Agora, 1,2 km² de calçadas em pedra portuguesa voltaram a ser polêmica, com a divulgação da foto de Beatriz Segall, 87, com hematoma no olho após tropeçar numa calçada do Baixo Gávea. O prefeito ligou para a atriz, os proprietários foram notificados, a calçada arrumada. Os buracos estão, na verdade, em todo tipo de calçada malconservada por todos.
Ou nas manifestações de junho, quando pedras soltas eram reunidas e guardadas para servir de munição.
Além da beleza, esses mosaicos --se bem-feitos-- adequam-se ao terreno de forma firme, são permeáveis à água, podem ser retirados e recolocados e têm alta durabilidade. É preciso técnica para colocar e conservar, ensinadas por mestres calceteiros vindos de Lisboa.
O desenho da calçada de Copacabana está pelo mundo como logotipo extraoficial do Rio. Apesar de não ser propriamente original. Foi inspirado no piso do largo do Rossio, em Lisboa, e foi instalado antes em uma praça em Manaus, como conta o arquiteto José W. Tabacow. Aqui, as ondas do chão, inicialmente perpendiculares à praia, passaram nos anos 1930 a se alinhar paralelas à areia, em continuidade às ondas do mar. Que os arqueólogos do futuro tenham como encontrar os belos mosaicos de pedra de Burle Marx.
Pobres pedras portuguesas, tornadas vilãs de maneira tão injusta. Como no poema de João Cabral, "para aprender da pedra, frequentá-la".

    Eliane Cantanhêde

    folha de são paulo
    Até o ET de Varginha
    BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff deve mesmo engolir a sua ojeriza a negociações políticas e a conversas com líderes partidários e assim evitar projetos que desagradem ao governo e garantir os que lhe sejam favoráveis. Mas ela não precisa exagerar.
    Dilma tem se reunido com deputados e senadores do PMDB, do PR, do PP e de toda a extensa base aliada. Se tiver um tempinho, vai até chamar os do PT ao Planalto (a reunião de ontem dos senadores petistas com a presidente foi cancelada).
    Ela está, portanto, seguindo os conselhos e o exemplo do padrinho, o "Lulinha paz e amor", e fazendo um esforço danado para amenizar a própria personalidade e se aproximar o máximo possível da "Dilminha paz e amor". Quem sabe, com um pouquinho mais de esforço, consiga até deixar de chamar as pessoas de "querida" e "querido" quando, por exemplo, não gosta de alguma pergunta de jornalista.
    Bem, mas depois de virar muito amiga do vice Michel Temer, dois anos e meio após a posse, e de encarar Renan Calheiros e Henrique Alves, Dilma agora elogia qualquer um (desde que não seja o líder do PMDB, Eduardo Cunha).
    Ontem, em entrevista a uma rádio no interior de Minas, ela tascou que tem "muito respeito pelo ET de Varginha". O que vem a ser isso? Um suposto extraterrestre que teria sido visto por três meninas da cidade uns 15 anos atrás, para alegria dos ufólogos e descrença das autoridades locais e nacionais.
    Se tem sido tão simpática com gregos, troianos, peemedebistas e marcianos, Dilma continua dura com os críticos, esses "pessimistas", e contra as cobranças, puro "estardalhaço". E, agora, ela ganha novo ânimo com duas boas notícias para ela e a reeleição. A onda está mudando?
    A inflação finalmente dá sossego e os tucanos entram no alvo --com o que já surgiu e, principalmente, com o que pode surgir das investigações do chamado escândalo Siemens.

      Os trilhardários - Ivan Finotti

      folha de são paulo
      Os trilhardários
      SÃO PAULO - As obras de revitalização do largo da Batata revelaram nesta semana um artefato arqueológico incomum aos paulistanos do século 21: trilhos de bonde.
      Os tais estavam embaixo do asfalto da rua Teodoro Sampaio e, após limpos e estudados, serão expostos na praça em construção no local.
      Em texto para o site da revista "sãopaulo", a repórter Letícia Mori notou "a perplexidade dos operários e a excitação dos pedestres --diversos pararam para tirar fotos" (veja imagens em folha.com/no1322674).
      Perplexidade justa. Os trilhos da Teodoro Sampaio remetem à saudosa época em que os bondes da Tramway Light, ou da Companhia Carris, singravam a cidade com homens de chapéu e moças de vestido.
      Até a extinção, nos anos 1960, a cidade chegou a ter 350 km de trilhos. Nos bondes, anúncios de Magnésia Bisurada disputavam atenção com os do Biotônico Fontoura, do Guaraná Champagne, do Licor de Cacau Xavier e do colírio Lavolho.
      Um deles rimava. "Veja, ilustre passageiro/ O belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado/ E no entanto, acredite, quase morreu de bronquite/ Salvou-o o Rhum Creosotado!"
      A linha desenterrada pelos arqueólogos ligava, em 1909, o centro à zona oeste e chegava até o rio Pinheiros (onde, aliás, se nadava).
      Nem tudo era bacana: em 1958, o aumento das passagens em 50 centavos (de cruzeiro) irritou estudantes. A intervenção policial resultou em quatro mortes, três delas à bala.
      A qualidade dos vagões paulistanos já era objeto de desentendimento desde os anos 1920. Em 1933, a "Folha da Noite" publicou charge que criticava a lotação dos bondes, com gente saindo pelas janelas.
      Coincidentemente, as relíquias do largo da Batata são desenterradas ao mesmo tempo em que o governo estadual se vê às voltas com um novo escândalo envolvendo trilhos.
      Para melhor entendimento de nós, passageiros, talvez possamos chamá-lo de cartel trilhardário.