segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Escapadas - Ruy Castro

folha de são paulo
Escapadas
RIO DE JANEIRO - A presidente Dilma surpreendeu ao revelar que, outro dia, escapou do Planalto sem ser notada e saiu de moto por Brasília. Ótimo. Significa que não somos apenas nós que já não toleramos as carantonhas dos que a cercam no comando do país. O fato de a presidente não ter carteira de habilitação, não saber dirigir motos e de ser impossível que ela saia sozinha não tem a menor importância.
Importante é saber que nenhum presidente se contenta com passar o dia assinando documentos sem ler, gritando com ministros ou dando tapas na mesa. Foi citado o caso do presidente João Baptista Figueiredo (1979-1985), que também saía de moto pelas madrugadas de Brasília --talvez para se ver longe, por algumas horas, dos colegas que queriam impedi-lo de devolver o país. Na verdade, a agenda dos presidentes devia prever um horário livre, para que eles pudessem escapar e fazer o que quisessem.
No passado, isso era possível. Dizem que Getúlio Vargas, em seu período constitucional (1951-1954), saía à noite do Catete e caminhava pela Praia do Flamengo até a rua Paissandu, e voltava. Numa dessas, teria cruzado com Graciliano Ramos, seu ex-preso político, e os dois se cumprimentado. Se aconteceu, foi um belo momento da democracia brasileira.
Juscelino Kubitschek (1956-1961) também escapava, mas para visitar sua namorada Maria Lucia Pedroso. Jânio Quadros (1961) só não escapava porque não achava a saída do Alvorada, e ficava zanzando às tontas pelo palácio. Já João Goulart (1961-1964) vinha ao Rio de surpresa e fechava a boate Michel, em Copacabana, para ele e seus amigos. E até Castello Branco (1964-1967) ousava aparecer de repente num teatro. Enfim, presidentes e escapadas são quase sinônimos.
Sem falar nos que, nos últimos 28 anos, escaparam da Lei da Ficha Limpa --porque ela ainda não existia.

Gregorio Duvivier

folha de são paulo
Werner
Quem está em segundo plano nunca discorda. O pessoal desfocado passa a vida concordando
Quando nasceu, no mesmo quarto acontecia um parto espetacular. Era o primeiro parto de sétuplos do mundo e a mãe dos bebês havia convidado todas as emissoras do país a televisionarem o recorde. No mesmo momento em que todas as câmeras focavam na grávida recordista, nascia, ao fundo do quarto, todo desfocadinho, um bebê chamado Werner, o primeiro bebê-figurante da história.
Quando pequeno, na escola, Werner estava sempre no meio da massa de alunos, sem jamais se fazer notar. Ninguém se lembrava do seu nome, apesar de tão particular. Conheciam-no ora como menino ora como ei, psiu ou você. Quando tentava dizer algo, era reprimido e mandado para o fundo da sala. Logo descobriu que estaria condenado a sentar no fundo. Mesmo quando não estivesse sentado lá. Quando, por acaso, se sentava na primeira fila, era no fundo que as coisas aconteciam. Quando passava pro fundo, o fundo voltava a ser só o fundo.
Um dia, resolveu fazer uma loucura: saiu de casa vestido com o maiô da mãe. Descobriu que não era o único. Talvez fosse o mais discreto. A rua estava tomada de homens vestidos com as roupas da mãe e mulheres vestidas de roupa nenhuma. Era Carnaval.
Ao contrário do que poderia se pensar, sua vida não era um tédio. Muito pelo contrário. Ao seu lado sempre aconteciam as coisas mais fantásticas. Bastava ele sair de casa para que prédios pegassem fogo, super-heróis dessem um rasante para salvar alguma menina indefesa e um homem-bomba se partisse em mil pedaços. Ele só observava perplexo e conversava com as pessoas ao seu lado (sem fazer muito barulho).
Aprendeu a falar baixo, para não atrapalhar a ação principal. Aprendeu a concordar com o que estavam dizendo. Aprendeu a gesticular como quem concorda. Quem está em segundo plano nunca discorda. O pessoal desfocado passa a vida concordando. A não ser em fase de protestos. Lá estava ele, na Paulista, discordando. Educadamente. Como quem concorda.
Descobriu os prazeres de não ser notado. Nunca foi julgado. Nunca disseram dele: esse aceno de cabeça foi meio torto. Esse abraço desfocado não está muito crível. Ele só passava, sorrindo. E passou a ser bom nisso. Quando passava, as pessoas se sentiam melhor. Passava tão sem intenção, tão sem objetivo, tão somente por passar, que parecia que estava tudo em ordem.
Até que um dia Werner morreu. Ou melhor, foi demitido. Olhou para a câmera.

    Mônica Bergamo

    folha de são paulo

    O apelo dramático de Rosie Marie Muraro
    "Sou Rose Marie Muraro, chegando aos 83 anos, e como vocês sabem fui nomeada pelo governo federal, em 2005, a Patrona do Feminismo Brasileiro, e também cidadã honorária de Brasília e de São Paulo, além de ter sido duas vezes escolhida uma das mulheres do século."
    É dessa forma que a celebrada escritora e intelectual começa a carta dramática enviada a seus amigos há alguns dias. "Semicega", como diz, e "semiparalítica", desabafa: está também passando por grave dificuldade financeira. E pede socorro.
    "Depois de mais de cinquenta anos de dedicação à sociedade brasileira, encontro-me hoje numa situação financeira muito delicada porque não tenho mais condições físicas para ler nem escrever, pois minha miopia aumentou enormemente (42º), e uma pneumonia dupla me levou a força das pernas. Não posso mais trabalhar nem viajar como antes. Continuo trabalhando em casa dando assessoria para um senador e transformando algumas de minhas obras em e-book."
    As despesas se multiplicaram nos últimos anos, relata. Os filhos ajudam. "Entretanto, meus custos com remédios, acompanhantes e outras despesas excedem em muito a minha receita. Preciso de mais recursos para continuar trabalhando."
    Rose perdeu o pai quando era jovem, e rompeu com a família, "que era muito rica", para se engajar em movimentos sociais. "Se você tem hoje a sua liberdade, é porque eu fiquei pobre", disse ela à coluna. Nos anos 40, juntou-se à equipe de dom Helder Câmara. Trabalhou com Leonardo Boff na editora Vozes. E quer agora preservar o acervo do instituto que leva o nome dela, "para que os estudos de gênero continuem gratuitamente à disposição de toda a sociedade brasileira".
    A entidade, explica na carta, foi criada em 2009 também "para ser uma forma de contribuição nesta difícil etapa final de minha vida". Ainda não obteve recursos públicos. "Mas continuamos trabalhando arduamente e participando dos editais acreditando que em breve seremos contemplados." O instituto sobrevive com recursos próprios, ajuda de "poucos amigos" e o dinheiro arrecadado em sua cantina.
    Rose quer produzir documentários e e-books de diálogos com lideranças de movimentos sociais. "Pelo curto tempo que tenho", escreve, "preciso com muita urgência de uma secretária que possa ler para mim e redigir meu trabalho semanalmente". Segue a carta: "É contando com vocês, amigas e amigos, e com meu coração esperançoso que lanço esta campanha de contribuição financeira como forma de reconhecimento pelos meus longos anos de trabalho em prol da mulher brasileira, que mudou o pensamento de uma geração inteira, abrindo caminho para a transformação das novas gerações. (...) Serei eternamente grata. Isto me permitirá continuar vivendo e produzindo com as forças que me restam."
    A ministra Eleonora Menicucci (Mulheres) telefonou para dizer que fará de tudo para ajudá-la. Cem pessoas já depositaram algum dinheiro de forma anônima em sua conta. "Eu não conheço ninguém e agradeço a todo mundo. Valeu a pena", diz Rose. "Mas escreve aí: não estou pedindo esmola. Estou pedindo uma contribuição." E afirma: "Mesmo que ninguém me desse nada, eu faria tudo na minha vida outra vez."
    -
    EU SOU DA PAZ
    João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, se reuniu com o ex-presidente Lula há alguns dias em São Paulo.
    PAZ 2
    O Instituto Lula confirma a informação. A Globo também. E diz, por meio da assessoria, que a conversa ocorreu "a pedido do ex-presidente Lula". Os dois se encontraram como já teria ocorrido "outras vezes".
    PAZ 3
    Depois do encontro circulou a informação de que, num momento de descontração, Marinho perguntou ao ex-presidente por que o PT detesta tanto a Globo. Com bom humor, Lula teria respondido que talvez fosse pelos mesmos motivos que a Globo detesta o PT. Os dois negam o diálogo.
    PAZ 4
    Os filhos de Roberto Civita -Giancarlo, Roberto e Victor- e a viúva, Maria Antonia, optaram por um único escritório de advocacia para cuidar da sucessão patrimonial depois da morte do presidente do Grupo Abril. Além da empresa, a lista de bens tem imóveis, fundos de investimento, uma pinacoteca particular, um helicóptero e concessões. Civita deixou como testamenteiro o advogado de família Luiz Kignel.
    LUPA
    A próxima sessão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) deve analisar a correição realizada no Tribunal de Justiça do Paraná. Há suspeita de irregularidades nas varas de falência, inclusive com a participação de magistrados. Caso sejam comprovadas, alguns deles podem até ser afastados do cargo.
    TERCEIRA VIA
    O presidente do TST (Tribunal Superior do Trabalho), Carlos Alberto Reis de Paula, vê com preocupação o projeto de lei que libera a terceirização em toda a cadeia de produção, em tramitação na Câmara dos Deputados. "Quem ganha? Parece-me que são os empresários, que terão desoneração de suas obrigações", diz. Para ele, "os trabalhadores vão perder [com a aprovação], sobretudo pelo esvaziamento da representação sindical".
    NOVA VIA
    Sobre o Mais Médicos, Paula diz que cabe ao STF (Supremo Tribunal Federal) avaliar a constitucionalidade do projeto do governo federal. "Está se estabelecendo um novo sistema, que cria uma situação anômala em relação à legislação trabalhista, com um médico brasileiro ao lado de um cubano em situações diferentes. Como é que ficam os dispositivos constitucionais? Não sei se há um risco."
    QUEM DÁ MAIS
    Funcionários públicos no Brasil têm mais estudo e ganham mais, em média, do que os do setor privado. As conclusões são da pesquisa As Melhores Empresas para se Trabalhar, da revista "Você S/A". Há mais pós-graduados (37,8%) no Estado do que em empresas particulares (33,9%). Na comparação salarial, as privadas têm média de R$ 2.995, ante R$ 5.500 das organizações públicas.
    DE PERTO
    Javier Mariscal, um dos mais celebrados designers da Espanha, chega a SP amanhã. Vai direto para o Instituto Tomie Ohtake, onde pintará paisagens em uma parede preta. As imagens farão parte da mostra "Todas as Cores de Mariscal".
    PRESENTE
    Livros autografados por Eliane Brum, Audálio Dantas, Leonardo Sakamoto e Julian Assange serão distribuídos pela Pública, a partir de hoje, a pessoas que contribuírem com a vaquinha que a agência de jornalismo lançou no site Catarse. A iniciativa, para financiar reportagens independentes, já arrecadou R$ 12 mil. A meta é chegar a R$ 47.500.
    CEGONHA
    Michael Klein, 61, presidente da holding que abriga Casas Bahia e Pontofrio, vai ser pai novamente. Sua mulher, Maria Alice, 44, dona do Oscar Café e Bistrô, está grávida de gêmeos, que devem nascer em setembro. Ele tem outros dois filhos do primeiro casamento, a empresária de moda Natalie e o administrador Raphael.
    CAUSA BRILHANTE
    O lançamento da Swarovski Foundation no Brasil, na quinta, reuniu o designer André Bastos, a colecionadora Eiko Moraes e os médicos Rafael Lopes e Fernanda Costacurta. A diretora-geral da marca no país, Carla Assumpção, apresentou o evento, que teve leilão de uma estatueta de panda feita com cristais. Os R$ 34 mil arrecadados foram destinados à ONG Teto, representada por Miguel Maldonado e Pedro Oliveira.
    CURTO-CIRCUITO
    Laurentino Gomes lança hoje o livro "1889", às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.
    O Consulado de Portugal em SP oferece hoje jantar ao secretário de Cultura do país, José Barreto Xavier.
    Começa hoje a pré-Restaurant Week, só para quem tem os cartões MasterCard Platinum e Black.
    O Hospital das Clínicas da USP terá palestras grátis sobre saúde mental, quinta, no Instituto de Psiquiatria.

      Augusto Nunes retorna ao 'Roda Viva' e propõe mudar sua fórmula

      folha de são paulo
      Apresentador fala em explorar as contradições de entrevistados
      SILVANA ARANTESDE SÃO PAULOO jornalista Augusto Nunes, 63, volta hoje ao comando do "Roda Viva", programa de entrevistas que ele apresentou entre 1987 e 1989 e cuja fórmula agora quer mudar.
      "Acho que a gente tem que mostrar em vídeo as contradições do entrevistado. Se o cara começa a dizer o contrário do que já disse antes, você tem o dever de dizer: Um minutinho, tem uma declaração do sr. que não bate'. Mostra o vídeo e deixa o cara se explicar."
      Para Nunes, "o Roda Viva' se consolidou como programa respeitado porque surgiu em 1986, na infância da democracia, e mostrou como é uma entrevista coletiva bem-feita. Viu-se ali o convívio dos contrários. Mas essa fórmula agora não basta".
      Falta acrescentar contundência para "fazer as perguntas que devem ser feitas e que hoje são feitas em programas humorísticos", diz ele.
      "Não ouvi nenhuma menção aos passeios de helicóptero do cachorro Juquinha em entrevistas com [o governador do Rio de Janeiro] Sérgio Cabral [PMDB]. Ninguém pergunta. Você entrevista o Cabral e trata daquelas manifestações em frente à casa dele como se fosse uma combustão espontânea", afirma.
      O tema do programa de hoje será o mensalão, tendo o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. como entrevistado.
      "Sem demérito ao Reale Jr., claro que eu preferiria começar com Lula. Mas ele não respondeu", afirma Nunes.
      Hoje os entrevistadores são "[o historiador] Marco Antonio Villa, que escreveu enfaticamente contra os réus do mensalão, Paulo Moreira Leite ["IstoÉ"], que foi mais brando, e Merval Pereira ["O Globo"], que vai pelo caminho do meio. E representantes dos dois grandes jornais, Vera Magalhães [Folha] e Sonia Racy ["O Estado de S.Paulo"]", cita.