Poesia
A minha insônia terrível
Me levou a passear
Por parte do facebook.
É o que relato abaixo
Sem camuflagem, sem truque.
Logo de cara encontrei
Mocinha de estranho look:
Uma loira bem morena
Reclamando da vizinha
Que ouvia o ido Lou Reed
E dançava com um cabide.
Depois, aqui e ali,
A série tão costumeira
De choros e mimimis,
Supondo um ouvido gigante
De um deus tão delinquente
Quanto as vozes reclamamtes.
Entre uma graça e outra,
O brado sempre sincero,
Porém eivado de açoite,
Dos meninos do PT,
E as micagens geladas
Dos boys do PSDB.
Pulando uns posts curtinhos,
qChegava a vez dos fofinhos,
A hora mais que completa:
De gatinhos,
Cachorrinhos,
Lagartinhos,
Cavalinhos,
Tantos -inhos sem guarida,
Às vezes cheios de mofo
Mas, via de regra, uns fofos.
Ao encalhar em Maluf,
Maduro e José Sarney,
Tomei 2 bons comprimidos
Da caixa de rivotril
Mandando as nobres figuras
Para a puta que pariu.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
MARIO CORSO - O dia em que adotei minha avó
Zero Hora - 07/11/2013
Quando meus amigos vinham com a choradeira por ter pais separados, eu tinha uma resposta. Eles punham na mesa seus três reis e eu sacava quatro ases dizendo: meus avós, de ambos os lados, são separados. Provocava um efeito de solidariedade garantida, comunicava que sabia bem o que era uma família partida, mal-entendidos e ressentimentos. Hoje, as separações são corriqueiras e, embora doídas, são assimiláveis. Na minha infância, elas eram escassas, malvistas e deixavam um rastro de destruição. Na geração dos meus avós, eram uma raridade aberrante. Não foi fácil para meus pais.
Mas a minha ligação com os avós pairava acima de tudo. Passava as férias em suas casas e cheguei a morar com eles. Essa proximidade me fez gostar da velhice. Não me importava com sua lentidão, com as repetições e manias. Os velhos têm a sabedoria de quem já apanhou bastante da vida e eu percebia isso. Cresci olhando para trás, talvez daí venha meu gosto por tempos que desapareceram.
Viver com os avós nos dá outra dimensão do mundo, saímos do eterno presente e apreciamos o peso do passado. Além disso, eles têm as provas de que nossos pais já foram pequenos, frágeis, logo, crescer é possível. Há nisso também uma cumplicidade em reduzir o papel e a força dos nossos pais. Se crescer é sair de casa, a casa dos avós é um bom estágio.
Mas até numa família dividida há um lado bom: as pessoas normais têm duas avós, eu tinha três. Um grande capital, mas trazia alguns problemas. Por exemplo, como você chama a esposa do avô, a avó que não é sua avó, sem abalar a relação com a outra avó, a que se considerava legítima? Precavido contra o risco de desempenhar mal meu cargo de neto, eu a chamava pelo nome: dona Avlisa.
A casa dos meus avós era um paraíso para almas telúricas como a minha. Tinha jardim, horta e pomar. Aprendi com meus avós a paciência necessária para plantar. Numa dessas lidas, segurava um ramo de maracujá para guiar, e disse: – Vó, me passa o barbante. Simplesmente saiu. Fiquei desconcertado, ficamos ambos. Ela me olhou de volta com um sorriso que nunca esqueci. Não foi preciso dizer mais nada. Ganhei uma avó e ela ganhou um neto.
Sem dramas posteriores, cada uma das três foi minha avó a seu modo. Durante anos, segui assim milionário, com mais avós, primos e tios que os outros amigos. Mas o tempo é cruel, numa década conheci a miséria. Reequilibrei-me financeiramente só com a chegada das minhas filhas. Nossos velhos são guardiões da história. Quando eles se vão, suas memórias mudam de mão. Quando cuido do meu jardim, nunca sei se cultivo as plantas, ou elas sustentam as lembranças de quem me ensinou sua magia.
Quando meus amigos vinham com a choradeira por ter pais separados, eu tinha uma resposta. Eles punham na mesa seus três reis e eu sacava quatro ases dizendo: meus avós, de ambos os lados, são separados. Provocava um efeito de solidariedade garantida, comunicava que sabia bem o que era uma família partida, mal-entendidos e ressentimentos. Hoje, as separações são corriqueiras e, embora doídas, são assimiláveis. Na minha infância, elas eram escassas, malvistas e deixavam um rastro de destruição. Na geração dos meus avós, eram uma raridade aberrante. Não foi fácil para meus pais.
Mas a minha ligação com os avós pairava acima de tudo. Passava as férias em suas casas e cheguei a morar com eles. Essa proximidade me fez gostar da velhice. Não me importava com sua lentidão, com as repetições e manias. Os velhos têm a sabedoria de quem já apanhou bastante da vida e eu percebia isso. Cresci olhando para trás, talvez daí venha meu gosto por tempos que desapareceram.
Viver com os avós nos dá outra dimensão do mundo, saímos do eterno presente e apreciamos o peso do passado. Além disso, eles têm as provas de que nossos pais já foram pequenos, frágeis, logo, crescer é possível. Há nisso também uma cumplicidade em reduzir o papel e a força dos nossos pais. Se crescer é sair de casa, a casa dos avós é um bom estágio.
Mas até numa família dividida há um lado bom: as pessoas normais têm duas avós, eu tinha três. Um grande capital, mas trazia alguns problemas. Por exemplo, como você chama a esposa do avô, a avó que não é sua avó, sem abalar a relação com a outra avó, a que se considerava legítima? Precavido contra o risco de desempenhar mal meu cargo de neto, eu a chamava pelo nome: dona Avlisa.
A casa dos meus avós era um paraíso para almas telúricas como a minha. Tinha jardim, horta e pomar. Aprendi com meus avós a paciência necessária para plantar. Numa dessas lidas, segurava um ramo de maracujá para guiar, e disse: – Vó, me passa o barbante. Simplesmente saiu. Fiquei desconcertado, ficamos ambos. Ela me olhou de volta com um sorriso que nunca esqueci. Não foi preciso dizer mais nada. Ganhei uma avó e ela ganhou um neto.
Sem dramas posteriores, cada uma das três foi minha avó a seu modo. Durante anos, segui assim milionário, com mais avós, primos e tios que os outros amigos. Mas o tempo é cruel, numa década conheci a miséria. Reequilibrei-me financeiramente só com a chegada das minhas filhas. Nossos velhos são guardiões da história. Quando eles se vão, suas memórias mudam de mão. Quando cuido do meu jardim, nunca sei se cultivo as plantas, ou elas sustentam as lembranças de quem me ensinou sua magia.
Marina Colasanti - Um castelo e duas verdades
Marina Colasanti - marinacolasanti.s@gmail.com
Estado de Minas: 07/11/2013
Acabou a terceira temporada de Downton Abbey e a quarta só está passando na Inglaterra, mas continuo frequentando aquele requintado universo inglês. Da tela da televisão passei para as páginas de um livro.
Lady Almina e a verdadeira Downton Abbey é assinado pela condessa de Carnarvon – assim mesmo, só o título de nobreza, sem nome pessoal –, atual proprietária de Highclere, o castelo que foi utilizado no seriado. Relato histórico, que inclui propriedade e família, permite-nos traçar um paralelo curioso entre ficção e realidade, ou entre realidade e como gostaríamos que ela fosse, ou, ainda, entre realidade e a falsa realidade que público e mercado solicitam.
Almina é o equivalente verdadeiro da Cora criada pelos roteiristas. Casada ainda jovem com o dono do castelo, George Edward Stanhope Molyneaux Herbert, quinto conde de Carnarvon, de alta linhagem e baixa conta bancária, chega ao altar abarrotada de dinheiro. Mas a vida real é muito mais novelesca que a ficção, pois Almina não é herdeira americana, mas filha “bastarda” de Alfred de Rothschild com uma francesa não aceita em sociedade, Marie Wombwell. Embora sem reconhecê-la, o pai sempre abrirá os cofres para ela.
Se Cora é quase insignificante, Almina é o motor do castelo. Faz reformas, instala água encanada e luz elétrica, gasta fortunas em decoração e festas. Quem se satisfez com os elegantes, porém modestos, jantares do seriado pode transferir seu imaginário para fins de semana nababescos, o castelo cheio de personalidades e estrelas sociais que se distraíam com caçadas, torneios de tênis, passeios a cavalo, festivais. Os donos do castelo raramente estavam sozinhos, rodeados constantemente por amigos e empregados.
Os empregados merecem um capítulo. Havia 23 criados para atender família e hóspedes, o que devia render intrigas bem mais emaranhadas que as do seriado. E não ficavam confinados àquela severa sala de jantar de que nos tornamos íntimos. Tinham uma sala de estar grande, com poltronas, onde tomavam chocolate quente no fim do dia e inclusive dançavam.
Muitos capítulos dramáticos são dedicados à participação inglesa na guerra de 1914/1918 e à chacina de que a ficção nos poupou. Cresce então a estatura de Almina, que transforma o castelo em hospital e, ao contrário de Cora, comanda tudo pessoalmente.
Uma parte fundamental da história, porém, ficou fora do roteiro. Enquanto lord Grantham parece não ter nenhum interesse pessoal e quando muito nos foi mostrado lendo jornal na biblioteca desperdiçada, o conde de Carnarvon era um homem requintado, amante dos livros, colecionador de antiguidades e entusiasta das novas tecnologias. Sobretudo, era um egiptólogo apaixonado. Durante 14 anos, sem esmorecer, dedicou seu entusiasmo e boa parte da sua fortuna, incluindo a da mulher, a escavações mal-sucedidas – gastou nisso o equivalente a 10 milhões de libras atuais, e precisou vender três das propriedades que havia herdado.
Passar temporadas anuais no Egito havia se tornado uma consuetude para ele e lady Almina. Até que afinal, em 1922, a equipe do americano Howard Carter, por ele financiada, descobriu a joia maior do Vale dos Reis, o túmulo intacto de Tutancâmon. Bastaria isso para dar origem a outro seriado – mesmo sem falar na maldição.
Estado de Minas: 07/11/2013
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Acabou a terceira temporada de Downton Abbey e a quarta só está passando na Inglaterra, mas continuo frequentando aquele requintado universo inglês. Da tela da televisão passei para as páginas de um livro.
Lady Almina e a verdadeira Downton Abbey é assinado pela condessa de Carnarvon – assim mesmo, só o título de nobreza, sem nome pessoal –, atual proprietária de Highclere, o castelo que foi utilizado no seriado. Relato histórico, que inclui propriedade e família, permite-nos traçar um paralelo curioso entre ficção e realidade, ou entre realidade e como gostaríamos que ela fosse, ou, ainda, entre realidade e a falsa realidade que público e mercado solicitam.
Almina é o equivalente verdadeiro da Cora criada pelos roteiristas. Casada ainda jovem com o dono do castelo, George Edward Stanhope Molyneaux Herbert, quinto conde de Carnarvon, de alta linhagem e baixa conta bancária, chega ao altar abarrotada de dinheiro. Mas a vida real é muito mais novelesca que a ficção, pois Almina não é herdeira americana, mas filha “bastarda” de Alfred de Rothschild com uma francesa não aceita em sociedade, Marie Wombwell. Embora sem reconhecê-la, o pai sempre abrirá os cofres para ela.
Se Cora é quase insignificante, Almina é o motor do castelo. Faz reformas, instala água encanada e luz elétrica, gasta fortunas em decoração e festas. Quem se satisfez com os elegantes, porém modestos, jantares do seriado pode transferir seu imaginário para fins de semana nababescos, o castelo cheio de personalidades e estrelas sociais que se distraíam com caçadas, torneios de tênis, passeios a cavalo, festivais. Os donos do castelo raramente estavam sozinhos, rodeados constantemente por amigos e empregados.
Os empregados merecem um capítulo. Havia 23 criados para atender família e hóspedes, o que devia render intrigas bem mais emaranhadas que as do seriado. E não ficavam confinados àquela severa sala de jantar de que nos tornamos íntimos. Tinham uma sala de estar grande, com poltronas, onde tomavam chocolate quente no fim do dia e inclusive dançavam.
Muitos capítulos dramáticos são dedicados à participação inglesa na guerra de 1914/1918 e à chacina de que a ficção nos poupou. Cresce então a estatura de Almina, que transforma o castelo em hospital e, ao contrário de Cora, comanda tudo pessoalmente.
Uma parte fundamental da história, porém, ficou fora do roteiro. Enquanto lord Grantham parece não ter nenhum interesse pessoal e quando muito nos foi mostrado lendo jornal na biblioteca desperdiçada, o conde de Carnarvon era um homem requintado, amante dos livros, colecionador de antiguidades e entusiasta das novas tecnologias. Sobretudo, era um egiptólogo apaixonado. Durante 14 anos, sem esmorecer, dedicou seu entusiasmo e boa parte da sua fortuna, incluindo a da mulher, a escavações mal-sucedidas – gastou nisso o equivalente a 10 milhões de libras atuais, e precisou vender três das propriedades que havia herdado.
Passar temporadas anuais no Egito havia se tornado uma consuetude para ele e lady Almina. Até que afinal, em 1922, a equipe do americano Howard Carter, por ele financiada, descobriu a joia maior do Vale dos Reis, o túmulo intacto de Tutancâmon. Bastaria isso para dar origem a outro seriado – mesmo sem falar na maldição.
Tereza Cruvinel - Códigos da vida em rede
A expansão da internet passou a exigir um
código de uso. Na proposta em debate no Congresso, é fundamental a
garantia da liberdade de expressão, da privacidade e da neutralidade da
rede
Estado de Minas: 07/11/2013
Estado de Minas: 07/11/2013
Códigos da vida em rede
Há milênios, num lampejo ainda misterioso, o homem começou a se comunicar com os semelhantes. Foi a revolução da linguagem, que separou para sempre os dois reinos, da cultura e o da natureza. Há cinco mil anos, outro salto, o da escrita, separando a história da pré-história. Civilização e barbárie. Para boa parte dos antropólogos culturais, o surgimento da internet representa, para a sociedade contemporânea, revolução comparável a essas duas. Nunca antes tantas pessoas puderam se comunicar tão maximamente, e não mais apenas como receptores (como na TV), mas também como emissores.
O impacto social da rede ainda está em curso, e, por isso, é tão importante que o Brasil discuta o tema, como na audiência pública de ontem na Câmara, e tenha uma norma legal sobre seu uso, coerente com o nosso projeto de nação. Três garantias são importantes no projeto que será votado na próxima semana: a da liberdade de expressão, da privacidade e da neutralidade de rede.
A presença de tantas entidades na audiência pública de ontem explicitou o interesse e o envolvimento da sociedade civil com o tema. Repetiu-se muito no debate: embora tenha sido apresentado pelo governo há mais de um ano, depois de recolher sugestões de usuários e especialistas por meio da consulta pública aberta na internet pelo Ministério da Justiça, esse projeto não pode ser reduzido a matéria de interesse do governo, de um partido ou outro. Trata-se de uma política de Estado para a sociedade. O deputado Alessandro Molon (PT-RJ) foi um relator aplicado e diligente, estudou a matéria, dialogou com diferentes forças e atores, colheu muito reconhecimento ontem. Mas foi o primeiro a dizer que sua proposta consolida aspirações e proposições que a sociedade vem amadurecendo. Embora tenha ganhado ressonância depois das revelações sobre a espionagem americana, devia estar sendo votada independentemente disso. A pedido da presidente Dilma, Molon incluiu o artigo que determina a guarda de dados de brasileiros em data centers situados no país, mas esse não é o ponto mais relevante. Importantes mesmo são os três acima destacados.
Nunca tantos foram tão livres para se manifestar como no vasto território da internet. Mas, sempre que se falou em regulamentar outros aspectos de seu uso, os apocalípticos e paranoicos de plantão anunciavam riscos para a liberdade de expressão. Radicalizando a liberdade hoje existente, que permite a retirada de conteúdos ofensivos por provedores e gestores de espaços na rede, a pedido dos ofendidos, o projeto assegura que os provedores de conexão e aplicação não serão responsabilizados por tais conteúdos, e que eles só serão excluídos por ordem judicial. Talvez haja excesso nisso, pois tal ordem virá no ritmo lento da Justiça, à qual nem todos têm acesso. Mas a liberdade tem seus preços, e, se não pagarmos esse, não avançaremos nos outros dois aspectos.
Em relação à privacidade, o Marco Civil estabelece que o sigilo das comunicações pela rede não pode ser violado, ficando os provedores obrigados a guardar, pelo prazo de um ano, o registro da navegação de cada internauta, em ambiente controlado, não podendo delegar essa tarefa a terceiros. As grandes corporações, como redes sociais, por exemplo, serão obrigadas a apagar todos os dados de um perfil, se o usuário assim pedir, evitando que sejam utilizados por empresas, hackers, vendedores e espiões de toda espécie. A captura e armazenagem dos dados pessoais só poderão ocorrer com prévia autorização. Hoje, quem navega não tem controle sobre os dados, sobretudo o que revela em suas conexões, sejam comerciais ou meramente interativas. Há quem seja contra, argumentando que quem entra na chuva é para se molhar. É uma posição, mas a privacidade é um direito constitucional, que entre nós vem sendo negligenciado, mas não foi ainda revogado. Em todo o mundo, em contraponto à hiperexposição, ela vem sendo redescoberta e valorizada.
Por fim, o ponto mais polêmico, a chamada neutralidade de rede, objeto de forte oposição das empresas de telecomunicações, que planejam diversificar seu “modelo de negócio”, vendendo pacotes de acesso a conteúdos diferenciados. O mais barato daria acesso apenas a navegações banais e uso de e-mails, outro a sites de áudio e vídeos, outro ainda às redes sociais e assim por diante. Pode ser bom para elas, mas isso atenta contra a democracia. Os mais pobres, que mais têm a ganhar com o acesso à rede, teriam uma internet de terceira categoria. A proposta assegura às teles o direito de vender pacotes de diferentes velocidades: dois megas, 10 megas etc., com preços diferenciados. Mas com acesso ilimitado em cada um. Ainda que a conexão fique lenta. Quem melhor resumiu a neutralidade de rede, com sua linguagem de repentista, foi o deputado Paulo Rubem Santiago (PDT-PE), ao dizer que “o feirante não pode determinar o que cada um fará com a farinha que comprou na feira”.
Pacífica a votação não será. Alguns dirão que o Brasil inventa mais uma jabuticaba, que a internet não precisa de marco algum. Não precisou até aqui, mas outros países também já adotaram ou estão discutindo códigos de uso. A bancada das teles entrará em campo. O líder do PMDB, Eduardo Cunha, pedirá que seja votado o projeto original do governo, não o substitutivo de Molon. Bom de briga, seu alvo ontem foi o representante do grupo Intervozes, Pedro Ekman, que fez um discurso ameaçador, a ele, ao PMDB e aos congressistas que ousarem votar contra. Cunha passou-lhe um sabão e dezenas de deputados o seguiram, repelindo o discurso desqualificador do Legislativo dentro do próprio plenário. Os brios estão voltando.
Há milênios, num lampejo ainda misterioso, o homem começou a se comunicar com os semelhantes. Foi a revolução da linguagem, que separou para sempre os dois reinos, da cultura e o da natureza. Há cinco mil anos, outro salto, o da escrita, separando a história da pré-história. Civilização e barbárie. Para boa parte dos antropólogos culturais, o surgimento da internet representa, para a sociedade contemporânea, revolução comparável a essas duas. Nunca antes tantas pessoas puderam se comunicar tão maximamente, e não mais apenas como receptores (como na TV), mas também como emissores.
O impacto social da rede ainda está em curso, e, por isso, é tão importante que o Brasil discuta o tema, como na audiência pública de ontem na Câmara, e tenha uma norma legal sobre seu uso, coerente com o nosso projeto de nação. Três garantias são importantes no projeto que será votado na próxima semana: a da liberdade de expressão, da privacidade e da neutralidade de rede.
A presença de tantas entidades na audiência pública de ontem explicitou o interesse e o envolvimento da sociedade civil com o tema. Repetiu-se muito no debate: embora tenha sido apresentado pelo governo há mais de um ano, depois de recolher sugestões de usuários e especialistas por meio da consulta pública aberta na internet pelo Ministério da Justiça, esse projeto não pode ser reduzido a matéria de interesse do governo, de um partido ou outro. Trata-se de uma política de Estado para a sociedade. O deputado Alessandro Molon (PT-RJ) foi um relator aplicado e diligente, estudou a matéria, dialogou com diferentes forças e atores, colheu muito reconhecimento ontem. Mas foi o primeiro a dizer que sua proposta consolida aspirações e proposições que a sociedade vem amadurecendo. Embora tenha ganhado ressonância depois das revelações sobre a espionagem americana, devia estar sendo votada independentemente disso. A pedido da presidente Dilma, Molon incluiu o artigo que determina a guarda de dados de brasileiros em data centers situados no país, mas esse não é o ponto mais relevante. Importantes mesmo são os três acima destacados.
Nunca tantos foram tão livres para se manifestar como no vasto território da internet. Mas, sempre que se falou em regulamentar outros aspectos de seu uso, os apocalípticos e paranoicos de plantão anunciavam riscos para a liberdade de expressão. Radicalizando a liberdade hoje existente, que permite a retirada de conteúdos ofensivos por provedores e gestores de espaços na rede, a pedido dos ofendidos, o projeto assegura que os provedores de conexão e aplicação não serão responsabilizados por tais conteúdos, e que eles só serão excluídos por ordem judicial. Talvez haja excesso nisso, pois tal ordem virá no ritmo lento da Justiça, à qual nem todos têm acesso. Mas a liberdade tem seus preços, e, se não pagarmos esse, não avançaremos nos outros dois aspectos.
Em relação à privacidade, o Marco Civil estabelece que o sigilo das comunicações pela rede não pode ser violado, ficando os provedores obrigados a guardar, pelo prazo de um ano, o registro da navegação de cada internauta, em ambiente controlado, não podendo delegar essa tarefa a terceiros. As grandes corporações, como redes sociais, por exemplo, serão obrigadas a apagar todos os dados de um perfil, se o usuário assim pedir, evitando que sejam utilizados por empresas, hackers, vendedores e espiões de toda espécie. A captura e armazenagem dos dados pessoais só poderão ocorrer com prévia autorização. Hoje, quem navega não tem controle sobre os dados, sobretudo o que revela em suas conexões, sejam comerciais ou meramente interativas. Há quem seja contra, argumentando que quem entra na chuva é para se molhar. É uma posição, mas a privacidade é um direito constitucional, que entre nós vem sendo negligenciado, mas não foi ainda revogado. Em todo o mundo, em contraponto à hiperexposição, ela vem sendo redescoberta e valorizada.
Por fim, o ponto mais polêmico, a chamada neutralidade de rede, objeto de forte oposição das empresas de telecomunicações, que planejam diversificar seu “modelo de negócio”, vendendo pacotes de acesso a conteúdos diferenciados. O mais barato daria acesso apenas a navegações banais e uso de e-mails, outro a sites de áudio e vídeos, outro ainda às redes sociais e assim por diante. Pode ser bom para elas, mas isso atenta contra a democracia. Os mais pobres, que mais têm a ganhar com o acesso à rede, teriam uma internet de terceira categoria. A proposta assegura às teles o direito de vender pacotes de diferentes velocidades: dois megas, 10 megas etc., com preços diferenciados. Mas com acesso ilimitado em cada um. Ainda que a conexão fique lenta. Quem melhor resumiu a neutralidade de rede, com sua linguagem de repentista, foi o deputado Paulo Rubem Santiago (PDT-PE), ao dizer que “o feirante não pode determinar o que cada um fará com a farinha que comprou na feira”.
Pacífica a votação não será. Alguns dirão que o Brasil inventa mais uma jabuticaba, que a internet não precisa de marco algum. Não precisou até aqui, mas outros países também já adotaram ou estão discutindo códigos de uso. A bancada das teles entrará em campo. O líder do PMDB, Eduardo Cunha, pedirá que seja votado o projeto original do governo, não o substitutivo de Molon. Bom de briga, seu alvo ontem foi o representante do grupo Intervozes, Pedro Ekman, que fez um discurso ameaçador, a ele, ao PMDB e aos congressistas que ousarem votar contra. Cunha passou-lhe um sabão e dezenas de deputados o seguiram, repelindo o discurso desqualificador do Legislativo dentro do próprio plenário. Os brios estão voltando.
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