sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Entidades criticam decisões da CDHM, presidida Feliciano

Colegiado presidido por deputado do PSC aprovou projetos que prejudicam gays

RIO — Após a aprovação de dois projetos que contrariam os interesses dos homossexuais pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), grupos e entidades gays do país criticaram as decisões tomadas pelo colegiado presidido pelo deputado Marco Feliciano (PSC-SP).

Um dos projetos estabelece a convocação de um plebiscito sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo, direito adquirido pelos homossexuais em maio deste ano, após aprovação de resolução assinada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Comissão Nacional de Justiça (CNJ) Joaquim Barbosa. De acordo com o texto, as uniões estáveis homoafetivas registradas previamente deveriam ser convertidas em casamento.


Para o secretário de educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, essa conquista de direitos não deve ser tema de uma consulta pública:


— O casamento civil homoafetivo já é um direito conquistado e, ainda assim, não é uma questão a ser levada a plebiscito. A decisão já aprovada pelo presidente da CNJ tem de ser respeitada.


A consulta seria realizada no primeiro turno das eleições de 2014, mas, antes precisaria ser aprovada por outras duas comissões da Câmara, além do plenário da Casa, para então seguir para o Senado.


— Essa proposta não deve ser aceita em todas as comissões. Mas, se for, teremos o veto da presidente Dilma Rousseff, que garantiu que, em seu governo, não haverá retrocesso — disse o secretário.


Projetos devem ser barrados


Nas redes sociais, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) também criticou as decisões da comissão presidida por Feliciano e reiterou que todos os projetos deverão ser barrados nas comissões onde deverá ser analisada. “A aprovação de projetos na CDHM não significa que eles já entrarão em vigor. Os tais projetos irão para outras duas comissões antes de ir a plenário. Jamais serão aprovados nessas outras duas comissões”, comentou o deputado em sua conta no Twitter.


Já a proposta que daria a companheiros gays o direito a receber pensão pelo INSS foi rejeitada pela comissão. Caso fosse aprovada, companheiros de funcionários públicos da União ou de segurados do INSS poderiam receber pensão.


— Torço para que essa proposta seja aceita. Ela é uma garantia para casais gays que, muitas vezes, não têm o apoio de suas famílias. O que acontece é que, depois de terem construído uma vida juntos e perderem o ente, as pessoas se veem sem o direito de recorrer a bens financeiros porque estes são reclamados pelos parentes que não reconheciam a união — afirmou o presidente do Grupo Gay da Bahia, Luís Mott.

"Klaxon" ou uma volta ao arrojo da Semana de 22 - Gabriela Longman

Valor Econômico - 22/11/2013


"Klaxon cogita principalmente de arte. Mas quer representar a época de 1920 em diante. Por isso é polymorpho, omnipresente, inquieto, cômico, irritante, contraditório, invejado, insultado feliz." Com essas palavras e algumas outras, uma carta assinada pela redação apresentava o periódico que viria movimentar a cena paulistana do modernismo entre 1922 e 1923.

Lançada três meses depois da Semana de Arte Moderna, a publicação mensal durou só nove números, mas foi suficiente para abrigar poemas, manifestos, polêmicas e ilustrações do grupo mais célebre de intelectuais do período: Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Graça Aranha, Oswald e Mário de Andrade, Sérgio Milliet, entre outros.

Passados 90 anos, um projeto do Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo) com a Cosac Naify vai reeditar as revistas. Uma caixa com fac-símiles das nove edições chega às livrarias na quarta-feira (R$ 90), tornando acessível sua experimentação linguística e gráfica, o conteúdo vanguardista e seus princípios combativos. Entre suas pérolas figuram críticas de cinema de Mário de Andrade, ilustrações de Tarsila do Amaral, partituras de Heitor Villa-Lobos e publicidade com estética futurista.

"A Semana foi um evento espontâneo e imprevisto. Não tinham uma proposta clara para levar, só sabiam bem o que não queriam", lembra a pesquisadora Marcia Camargos, autora de "Semana de 22". "Passada a Semana, precisavam sedimentar aquelas ideias e a revista surge muito nesse sentido."

Até agora, o periódico existia apenas no acervo de pouquíssimas bibliotecas e numa reedição dos anos 70 esgotada. Criada a partir dos originais mantidos na Biblioteca Brasiliana José e Guita Mindlin, da USP, a nova edição levou quase um ano para sair do forno. "A comemoração dos 90 anos da Semana funcionou como ponto de partida", diz Daniel Rangel, diretor-artístico do ICCo e mentor do projeto. "Existe uma dificuldade de encontrar a 'Klaxon'. Para vê-la na Brasiliana é preciso agendar, estar acompanhado pela bibliotecária. É um material que está protegido, mas era praticamente inacessível ao público."
O processo envolveu escolhas editoriais. A principal foi a de manter as manchas e marcas que o tempo imprimiu nos originais. Outra foi a de grampear à mão cada exemplar, como se fazia na época. Além dos nove números, a caixa contém encarte de textos e um número extra - edição fictícia concebida pelos artistas Marilá Dardot e Fabio Morais a partir da fusão e sobreposição dos volumes da "Klaxon" original produzindo emaranhado gráfico e síntese visual.

Instituto privado, o ICCo é presidido por Regina Pinho de Almeida, descendente distante dos modernistas Guilherme e Tácito de Almeida. A relação familiar foi outro elemento que motivou a reedição, que tem patrocínio do banco suíço UBS. "Nem a Casa Guilherme de Almeida tinha os originais", conta Rangel. Das 2 mil caixas, mil serão vendidas e mil distribuídas pelo UBS.

É a Casa Guilherme de Almeida, em Perdizes, que sediará o evento de lançamento na quarta. Aberto ao público, um sarau ao estilo modernista mistura leitura de poemas e canções, com participação de convidados ilustres como Augusto de Campos. Entre as canções previstas, está o "Hino dos Grupo do Gambá", entoado nos festivos encontros dos modernistas na casa de Olívia Penteado.

"Klaxon" era feita com as despesas divididas entre os colaboradores, precária venda avulsa - Sérgio Buarque de Holanda era o representante de vendas no Rio - e praticamente nenhuma assinatura. Sem um corpo de redação fixo, pretendia-se um coletivo, embora coubesse a Rubens Borba de Moraes o posto de homem-chave, cuidando desde a parte burocrática até a articulação, e a Mário de Andrade a direção da turma que se reunia no escritório de Tácito de Almeida e Antônio de Carlos Couto de Barros.

"Entre os periódicos modernistas, 'Klaxon' foi a primeira e uma das mais importantes. Surge num momento mais agressivo da vanguarda, numa espécie de continuidade dos combates da Semana", diz Ivan Marques, autor de "Modernismo em Revista", lançado neste ano. "Com exceção da 'Revista de Antropofagia', de 1928, os periódicos que vieram depois se concentram mais no debate do que no combate."
Sobre o fim da revista, Marcia lembra das dificuldades financeiras somadas a desentendimentos no grupo: "As discordâncias foram aparecendo, com alguns dos integrantes do grupo caindo à direita, outros à esquerda, já anunciando o rompimento que se daria mais adiante. A revista era difícil economicamente. Seria preciso um grupo muito coeso para que tivesse se mantido".

"A imaginação publicitária da revista, que fez história por seu arrojo, fracassou em seu intuito primordial: os anunciantes não gostaram das novidades e deixaram de contribuir", escreve Marcos Augusto Gonçalves, autor de "1922: A Semana Que Não Terminou", no encarte de textos críticos da caixa.
O ICCo deve manter a parceria com a Brasiliana e reeditar um novo título, a ser definido. "O plano é reintroduzir à circulação documentos importantes da arte moderna e contemporânea brasileiras", afirma Márion Strecker, diretora de comunicação do instituto, lembrando que a existência curta é uma espécie de sina das revistas de arte no Brasil. "Até hoje, foram pouquíssimas as que conseguiram passar do primeiro ano", comenta Márion, que nos anos 80 coeditou a revista "Arte em São Paulo", com Lisette Lagnado e Luiz Paulo Baravelli.



O mineiro genial - Walter Sebastião


Estado de Minas: 22/11/2013 

Obra de Lorenzato ganha destaque em projeto do especialista Laymert Garcia dos Santos, que organiza individual do artista em São Paulo. Pintor belo-horizontino é comparado a Guignard


Walter Sebastião



O Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar um pintor desse porte - Laymert Garcia dos Santos, curador (Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
O Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar um pintor desse porte - Laymert Garcia dos Santos, curador


 “Lorenzato é um pintor da estatura de Guignard e Volpi. Não é artista regional e não pode ficar restrito a nome conhecido em Minas Gerais. Ele tem categoria internacional. O Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar um pintor desse porte”, defende Laymert Garcia dos Santos, sociólogo com vários livros publicados. Ele tem escrito sobre artistas brasileiros e de outros países para instituições importantes ligadas às artes visuais, como a Fundação Cartier e a Tate Modern.

Curador da segunda mostra individual de Lorenzato em São Paulo, que ficará em cartaz em março na Galeria Estação, Laymert esteve em Belo Horizonte para conferir obras do pintor mineiro. “Precisava de uma visão ampla da produção, pois ele trabalhou durante meio século”, explica. Até então, Laymert conhecia três dezenas de trabalhos, alguns desenhos e aquarelas, além de livros sobre Lorenzato e a entrevista inédita concedida por ele às artistas Germana Monte Mor e Solange Pessoa.

Laymert voltou para São Paulo satisfeito, depois de conferir cerca de 200 trabalhos. “Foi o início de uma paixão. A grandeza de Lorenzato aparece no que é um paradoxo: a simplicidade complexa da composição. Aparentemente, é pintura proveniente de olhar modesto e despretensioso, mas se trata de uma visão direta do mundo. Ele pinta o que vê, não o que imagina, transformando esse encontro em acontecimento pictórico”, elogia. “É um artista inimitável”, resume.

O pesquisador compara Lorenzato a Paul Cezanne, pois ele também estuda os motivos que pinta por meio de desenhos e aquarelas, buscando captar atmosferas com estruturação e presença concreta. Para Laymert, o mineiro, com fartura pictórica e cor, “traduz para o espectador, com precisão de percepção, o encantamento com o mundo que é dele”.

A peculiaridade dessa visualidade remete à lida de Lorenzato com materiais da pintura enquanto trabalhava na construção civil. Uma viagem à Itália, porém, permitiu-lhe conviver com obras de Michelangelo, Masaccio, Leonardo da Vinci e Cimabue, especialmente. Dessa experiência veio o contato com os princípios do afresco – técnica retrabalhada de modo pessoal pelo mineiro.

CONTEMPORÂNEO “Lorenzato é arte contemporânea que escapa a rótulos”, garante Laymert. A expressão sinaliza o cuidado em não aprisionar o pintor em categorias. Ele chama a atenção tanto para a singularidade do mineiro quanto para preconceitos e equívocos inerentes a rótulos. Atualmente, reforça o curador, busca-se outra caracterização para a arte contemporânea. “Vêm sendo revistas as fronteiras entre o erudito e o popular, entre o periférico e o mainstream, entre o que é ou não étnico. Acabou a hegemonia das definições de arte a partir de critérios ocidentais”, avisa.

De acordo com ele, são consideradas arte contemporânea tanto obras vindas da tradição ocidental quanto aquelas ligadas ao universo da etnologia e de instituições etnográficas. “A contemporaneidade é composta de várias temporalidades distintas, vindas de lugares e culturas diferentes”, enfatiza. Para o sociólogo, reações como incompreensão, preconceito, desconhecimento e a falta de estudos sobre várias manifestações artísticas se devem ao fato de essa produção não caber no sistema da arte com referências tradicionais. “Para mudar essa mentalidade é preciso levar criações a sério, profundamente, com olhar sem preconceito e analisando a consistência da obra”, conclui.

Ex-diretor da Fundação Bienal de São Paulo e coordenador do Laboratório de Cultura e Tecnologia em Rede do Instituto Século 21, Laymert Garcia integra a rede mundial de especialistas do Humboldt Forum. A instituição desenvolve projeto ambicioso: um centro de culturas não europeias que será instalado na praça central em Berlim, na Alemanha.

O pintor belo-horizontino Amadeo Luciano Lorenzato com os pais (Acervo Paulo Laborne)
O pintor belo-horizontino Amadeo Luciano Lorenzato com os pais

SAIBA MAIS

DE BH À ITÁLIA

Filho de imigrantes italianos radicados em Minas Gerais, Amadeo Luciano Lorenzato (1900-1995) trabalhou na construção civil em BH, onde nasceu. Ele pintava temas decorativos em residências. Na década de 1920, voltou para a Itália e frequentou a Real Academia de Arte de Vicenza. Na Europa, conviveu com os artistas plásticos Cornelius Keesman e Gino Severini, além de frequentar cafés onde Picasso e Matisse eram habituês. Lorenzato voltou definitivamente ao Brasil durante a 2ª Guerra Mundial. Morou em Petrópolis e em BH, onde se dedicou à pintura artística.
EM CARTAZ
Pequena mostra de desenhos e aquarelas de Lorenzato será aberta amanhã, às 10h, na Manoel Macedo Galeria de Arte (Rua Lima Duarte, 158, Carlos Prates). O conjunto traz trabalhos da primeira metade dos anos 1970. Publicados em livro, esses registros das andanças do artista por BH nunca ficaram expostos. A mostra pode ser conferida até 20 de janeiro. O espaço funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h, e aos sábados, das 10h às 14h. Informações: (31) 3411-1012.

Lorenzato (1900 - 1995)

Carlos Herculano Lopes-Água de bispo‏

Água de bispo  - Carlos Herculano Lopes

carlosherculanolopes.mg@diariosassociados.com.br

Estado de Minas: 22/11/2013


Os mais velhos, donos de boa prosa, contavam que nos primeiros anos do século passado, para cumprir missão evangelizadora, chegou a Coluna, vindo da diocese de Diamantina, depois de sete dias de cansativa viagem a cavalo tomando sol e muita poeira, um bispo ainda jovem, cujo nome se perdeu no tempo. Naquela cidade, que na época não passava de um pequeno arraial encravado entre as montanhas, o raro acontecimento foi celebrado com pompas e circunstâncias: teve comitiva de cavaleiros, que seguiu para se encontrar com o religioso quando este se aproximava, soltaram-se centenas de foguetes de vara encomendados especialmente para a ocasião, contratou-se banda de música do Rio Vermelho, as crianças se vestiram de anjo. Enfim, fizeram uma grande festa.

Contava-se também que, entre as atribuições do bispo, que de Coluna deveria seguir viagem para outros lugares até o retorno a Diamantina, uns dois meses depois, estava a de realizar dezenas de casamentos, devido ao mau costume do gentio de viver amasiado, além de fazer batizados, ministrar crisma, confessar o povo, rezar contra a cachaça e benzer casas para livrá-las de uma praga: os cupins. Eles existiam em tamanha quantidade que as más línguas chegaram a apelidar a vila de Santo Antônio do Cupim. Eram tão infernais que, anos antes, até uma igreja conseguiram jogar no chão. Nem é preciso dizer: fazer alusão ao fato perto de um colunense era correr o risco de levar uma surra.

Mas nada disso, como diziam os mais velhos, iria se comparar aos próximos acontecimentos, quando o bispo, depois de chegar morto de cansado, queixando-se de forte dor de cabeça devido à inclemência do sol, foi tomar um banho. De bacia, mas com água quente. Pois donde já se viu um homem de tamanha envergadura física e moral ir se lavar no rio como os outros?

Especulou-se ainda que, como era muito gordo, o pobre coitado deve ter tido o maior trabalho para se acomodar dentro da tal bacia. À noite, depois que fosse celebrada a missa solene e realizada a cerimônia de beijação do anel, seria servido banquete em sua homenagem com a presença dos principais do lugar. Quantas leitoas e frangos foram mortos, além da variedade de doces, é impossível saber.

Mas nada disso, como também relatavam os mais velhos, se compararia ao pós-banho: as mulheres da casa onde Sua Eminência ficara hospedado, em vez de jogar a água fora tiveram a ideia de engarrafá-la, pois água de bispo, mesmo um pouco suja devido à viagem, devia de ser sagrada.

Falava-se ainda que durante vários meses, até que todo o conteúdo das garrafas se findou, com gente vindo de longe buscar um pouquinho, aquela água era passada em feridas, ajudava a fechar buracos de bala ou faca e abreviava partos quando o bebê estava encroado. Ou até mesmo no caso de muita lombriga e úlcera supurada, quase sempre com ótimos resultados, para se tomar um golinho.