domingo, 20 de abril de 2014

E o tempo passava - Giselle Zamboni

Da lavra de Giselle Zamboni
E o tempo passava
e a Moça sofria
agora mãe
não mais filha
daquela de quem saiu
que no dia que a pariu
só não quis pensar no dia
em que se sol, noite lhe parecia
e via mãe, avó, tia, que já tinham viajado
num dia raso, fora do combinado
só não queria saber da data
em que não mais presente
aquela filha sozinha
não teria mais a quem
ralhar e servir o leite
e a vida continuava
um dia a mais, um dia a menos
e o relógio implacável
como no dia inaugural
da natureza bonita
em sua crueza
em que o silêncio se faria
último, sepulcral
e neste mesmo instante
nasceria feito semente
na memória daquela vivente
nascendo a cada instante
a mãe, a filha, a irmã
e a certeza de que um dia
vivente em outra esfera
estariam as duas juntas
novamente presentes
nem mais novas, nem mais velhas
na retina o amor de sempre
para o abraço da mais pura verdade
somos, sim, cada um, o eternamente.
para minha tia, cuja lucidez anda fugindo para brincar noutros quintais
para minha prima, hoje mãe, não mais filha, cuja alegria anda fugindo dos seus carnavais
que a eternidade brinque dentro de ambas, sempre.

Tio-propaganda >> FELIPÃO DESBANCA NEYMAR

Às vésperas do Mundial, técnico supera o craque em quantidade de anúncios na TV e é um dos que mais faturam com a Copa

CAROL KNOPLOCH
carolk@sp.oglobo.com.br
Tio-propaganda
-SÃO PAULOGUSTAVO


O Globo 20/04/2014

O técnico Luiz Felipe Scolari só perde
para Neymar em aparições na TV
aberta às vésperas da Copa do Mundo.
Mas, segundo o Controle da Concorrência,
consultoria que faz levantamentos
sobre a inserção de comerciais
na televisão, o treinador é o garoto-
propaganda, ou o “tio-propaganda”,
mais valorizado da seleção. Vencendo,
inclusive, seu melhor jogador.

Isso porque Felipão tem mais filmes publicitários no
ar que Neymar. Ele representa seis marcas, sendo
que quatro delas são parceiras da CBF. Outros dois
anunciantes do treinador, porém, uma montadora
de automóveis e uma rede de supermercados, concorrem
com patrocinadores da entidade do futebol.

— Felipão vale mais de R$ 1 milhão — afirma Luiz
Lara, sócio da agência Lew'Lara/TBWA, quando
questionado sobre o possível cachê do técnico, por
produto, segundo comentários no meio publicitário.
— Acho (o valor) baixo. Imaginei que fosse mais.
O Felipão é uma pessoa íntegra, que passa ao público
credibilidade, confiança e essa coisa da família.

Ele é um cara simples até. Algo que o brasileiro ainda
não viu nessa Copa do Mundo. Até o momento,
só se fala em problemas de estrutura, obras atrasadas,
desvio de dinheiro e criticas à Fifa. Felipão é um
respiro, é o garoto-propaganda da seleção brasileira
mais adequado do momento.

A menos de dois meses do início do Mundial,
Felipão vem subindo no ranking das celebridades
na TV aberta. Atualmente, está em 15º, com 704
inserções (de 1º de janeiro a 15 de abril). Neymar é
o vice-líder, com 1.650, e deve ultrapassar em breve
a modelo Gisele Bundchen (1.665) na liderança
do ranking, elaborado pelo Controle da Concorrência.
O número de Felipão é significativo porque,
no mesmo período em 2013, ele sequer constava
do ranking das celebridades.

Todos os seis contratos de Felipão foram assinados
depois que ele assumiu a seleção brasileira. A
maioria, do meio do ano passado para cá.

— Definimos um limite de seis ou sete empresas
para o Scolari. Assim, ele conseguiria trabalhar
bem para todas as marcas, respeitando sua agenda,
e também não ficaria com a imagem saturada
— explica Juan Brito, dono da Dodici Sports, empresa
que gerenciou todos os contratos do técnico.

Segundo Brito, a pedido de Felipão, as marcas
parceiras da CBF foram procuradas primeiro. Os valores
são confidenciais. Mas é sabido que o treinador
engorda sua receita com propagandas porque
ganharia na CBF menos do que recebia no Palmeiras
(pelo menos, em relação aos valores acertados
antes do título da Copa das Confederações).

— Por respeito a elas e não por uma obrigação
imposta pela CBF. Ele teve aval para se associar a
qualquer marca — diz Brito, que já trabalhou com
Felipão como diretor de marketing do Palmeiras.

‘ATOR’ EXPERIENTE

Além dos comerciais, dois deles dirigidos por Fernando
Meirelles, Felipão tem compromissos em
eventos. Na semana que passou, estreou a “barbearia
oficial” de um patrocinador no recém-reformado
centro de treinamento da seleção, na Granja
Comary, em Teresópolis. O treinador fez a barba
na frente de repórteres, mas manteve o bigode.

Quando anunciou a parceria com a marca, em
novembro de 2013, ele deixou claro que não rasparia
o bigode, uma de suas marcas registradas. A
mesma empresa também tem Oscar, Lucas, Paulinho
e Pelé como seus “embaixadores” no futebol:
— Uso (a marca) há 40 anos, mesmo tempo em
que estou casado. Se eu tiro o bigode, minha mulher
me larga — brincou Felipão no evento.

A marca, que sempre monta espaço para suas
estrelas fazerem a barba, informa que não pediu
que Felipão tirasse o bigode. Há quem diga que a
empresa temia ter fama de “pé frio”, caso Felipão
ficasse de cara limpa e o Brasil perdesse a Copa.

Acostumado a gravar comerciais há mais de uma
década, Felipão já virou agricultor, plantando cevada
na Granja Comary. Em outra peça, como ele mesmo,
mostra-se irritado com jornalistas quando tenta explicar
uma promoção de uma marca de refrigerantes. Na
campanha da rede de supermercados, a mulher do
treinador, Olga Scolari, também foi convocada. Entre
as mais engraçadas está a propaganda em que, ao perceber
que Felipão está prestes a se sentar na poltrona
13, o outro garoto-propaganda se oferece para trocar
de lugar. Em seguida, o técnico aparece sentado entre
dois homens, e ele, entre duas beldades, e comenta:
“Azar no amor, sorte no jogo.”

MARTHA MEDEIROS - Casa comigo

Zero Hora - 20/04/2014

Os dois namorados estavam dentro do carro, à noite, estacionados em frente ao prédio da excelentíssima, discutindo a relação. Discutindo mesmo, aos berros, brigando. Em meio a algum pra mim chega!, surgiram dois meliantes armados e interromperam aquele bate-boca. Transferiram os namorados para o banco de trás e saíram em disparada com eles: sequestro relâmpago. Rodaram a cidade durante 50 minutos, fizeram saques em caixas eletrônicos, até que os levaram para um lugar ermo, no meio do mato.

Duas coronhadas, uma em cada um, rostos sangrando, mas era pouco: despiram os dois, deixando-os apenas com a roupa de baixo, e os amarraram em troncos de árvores. Não houve agressão sexual, mas não se pode dizer que foi um passeio no bosque. Em plena madrugada, abandonaram o casal imobilizado e seguiram com o carro do rapaz rumo à impunidade garantida.

Restou o silêncio. Assustados, os dois tentaram, tentaram de novo, e conseguiram, finalmente, se desamarrar. Livres, sozinhos, sem saber onde estavam, olharam um para o outro e tiveram um ataque de riso. Ele a abraçou fortemente e só conseguiu dizer duas palavras: “Casa comigo”.

Aconteceu mesmo. Quem me contou, olho no olho, foi a protagonista feminina da história. Eu não conseguiria imaginar pedido de casamento mais romântico. Sem vinho, sem luz de velas e sem anel de brilhantes – um pedido movido simplesmente pela emergência da vida, pela busca de uma felicidade genuína, pela supressão da razão em detrimento da emoção verdadeira.

Estavam para morrer, os dois. Foram unidos pelo mesmo pensamento desde que foram surpreendidos por dois estranhos armados: acabou. Não tem mais por que discutir a relação. Não tem mais relação. Não tem mais manhã seguinte. Não tem mais futuro. Acabou. Que perda de tempo. Para que brigar? Para que se estressar com ciúmes, com queixas, com mágoas? Acabou.

E então descobrem que não acabou. Desamarram-se, estão nus por fora e por dentro, despidos de qualquer racionalidade, apenas aliviados com o desfecho da aventura e absolutamente tomados pela potência do que é essencial na vida. O amor.

Casa comigo.

Estão casados há 10 anos. Não sei se plenamente felizes. É provável que os motivos dos ciúmes e das queixas e de tudo aquilo que explodiu naquela discussão dentro do carro antes do sequestro tenha se repetido outras vezes. A realidade impõe os seus caprichos. Obriga a gente a pensar e manter a sanidade. Maldita sanidade.

Mas houve um momento em que eles não pensaram. Só sentiram. Sentiram tudo. Sentiram sem amarras. Sentiram soltos. Sentiram livres. Pura emoção. E a emoção se impôs: casa comigo. Tiveram os piores padrinhos do mundo: a violência e o medo. Mas que beijo deve ter sido dado ali no meio do nada.

Confissões em público

Confissões em público Socióloga investiga o que motiva as pessoas a contarem seus problemas íntimos em programas de rádio e televisão. A vontade de ouvir a opinião de um especialista e o desejo de receber atenção ou de sentir-se aprovado estão entre as razões


Vilhena Soares
Estado de Minas: 20/04/2014




Brasília – Ao zapear pelos canais de televisão, não é raro o espectador se deparar com homens e mulheres comuns discutindo, sem constrangimento, questões íntimas diante da plateia e das câmeras. O que as leva a se expor dessa maneira? Essa pergunta, que passa pela cabeça de muitos, foi feita também pela socióloga da Universidade de São Paulo (USP) Maíra Muhringer Volpe, que decidiu investigar a motivação dessas pessoas durante seu doutorado. Durante o estudo, ela percebeu que a recompensa financeira que algumas dessas atrações oferecem não é a única – nem mesmo a principal – causa da participação. A vontade de ouvir a opinião de um especialista, sentir-se aprovado por terceiros ou mesmo ter visibilidade aparecem como razões mais mencionadas pelos entrevistados.

Maíra explica que a ideia para a pesquisa surgiu na época do mestrado, quando ela estudou a literatura de autoajuda. “Nessa pesquisa anterior, analisei como os especialistas ensinavam os pais a lidarem com os filhos por meio de colunas de jornais e revistas, livros, palestras e programas de televisão. Dessa forma, vi como a simplificação do discurso científico – veiculado ao grande público – ganhava força”, lembra. “No meu doutorado, fui buscar outros discursos”, explica.

Durante três anos, ela visitou os estúdios onde duas atrações televisivas desse tipo eram gravadas e o teatro que servia à produção de um programa de rádio semelhante. Maíra concluiu que, muito além da motivação financeira, os participantes buscavam ouvir opiniões sobre seus problemas pessoais. “O que eles recebiam para participar (na tevê) era uma quantia pequena. Percebi, com as entrevistas, que motivações mais fortes existiam. Muitas pessoas, por exemplo, queriam mostrar  para terceiros como estavam bem em determinada situação, que nem estavam envolvidos no problema a ser discutido no palco. Também encontrei casos de participantes que aspiravam a uma carreira artística e achavam que aquela participação enriqueceria seu currículo”, conta.

Além dessas motivações, a pesquisadora relata que muitas pessoas tinham a necessidade de expor seus problemas aos psicólogos que fazem parte dos programas, pois acreditavam na legitimidade de seus comentários para ratificar posturas ou decisões tomadas. “Vi casos em que o convidado buscava ter seu comportamento aprovado não somente pelo psicólogo, mas também pela apresentadora. Por serem ícones, essas figuras têm grande legitimidade para quem busca orientação”, explica.

Diferenças Os programas de auditório que usam como mote principal problemas íntimos de pessoas comuns existem há algumas décadas e fazem sucesso também em outros países. No entanto, a socióloga encontrou traços particulares nas produções brasileiras. “Não exploro a fundo em minha pesquisa esses diferenciais. Contudo, pude notar que, em programas franceses do começo dos anos 1990, apesar de os temas serem semelhantes, o tratamento era mais psicologizado, a conversa tinha mais espaço, e a participação do psicólogo era mais longa. No Brasil, a criação de intrigas pesa mais”, destaca.

A autora do estudo vê também diferenças entre os programas de televisão e o de rádio que analisou. “Os convidados na tevê são mostrados como ‘barraqueiros’, pessoas que não sabem conversar, ‘estouradas’, ‘folgadas’. No programa de rádio, existe uma maior legitimação social para as pessoas falarem de si e de seus problemas”, analisa.

Para Adriana Wagner, psicóloga e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a pesquisa de Maíra Volpe aborda um tema rico, que leva a reflexões importantes sobre o comportamento humano. “O trabalho é muito interessante, pois revela aspectos da vida íntima das pessoas que a mídia explora e manipula, sob uma ética muito questionável, pois, segundo a pesquisa, muitas pessoas estão ali por necessidades econômicas e de reconhecimento social”, destaca.

Adriana acrescenta que o trabalho traz dados importantes sobre os bastidores desses programas. “As causas (que levam alguém a participar) não são aquilo que aparece, mas, principalmente, aquilo que não aparece na televisão. O trabalho revela facetas do comportamento humano, mas, sobretudo, denuncia o que se tem feito com o sofrimento das pessoas na dita ‘era moderna’. Há uma mercantilização e banalização da intimidade e do sofrimento”, completa.

A psicóloga Maraci Santana observa que existe hoje uma vontade maior de debater problemas com especialistas. “Durante muitos anos, as pessoas achavam que seus problemas só poderiam ser resolvidos em casa. Nessas situações, a pessoa que comandava, por poder aquisitivo ou por hierarquia, sempre vencia. Agora, isso já muda. Elas querem a opinião de um especialista, de um mediador. Essa motivação podemos enxergar também nesses programas”, avalia. Ela acredita que essas atrações na tevê e no rádio possam também servir como uma alavanca e um apoio para quem não tem coragem de se expressar. “Muitas vezes, há barreiras dentro de casa, como no caso da homossexualidade. Assim, o apoio de um público e a visão de fora pode ser de grande importância.”