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sábado, 3 de novembro de 2012

A morte por saudade - Julio Abramczyk


PLANTÃO MÉDICO
JULIO ABRAMCZYK - julio@uol.com

A morte por saudade

TEM SIDO observado em casais de idosos que, pouco tempo após a morte de um dos companheiros, o sobrevivente também morre, independentemente do país ou da cultura.
Os médicos ainda não descobriram a causa disso, mas o escritor italiano Antonio Tabucchi, em um de seus contos, sinaliza que a morte por saudade é uma forma sutil de suicídio.
No último número do "American Journal of Epidemiology", o médico Sunil Shah observa, após análise estatística de fichas médicas de 171.720 casais da Grã-Bretanha com no mínimo 60 anos de idade, que o aumento da mortalidade entre viúvos ou viúvas não tem relação com a situação econômica ou o estado de saúde deles.
Shah destaca que a morte de um dos membros do casal idoso é a causa da morte do sobrevivente, mas não se sabe quais os mecanismos ou fatores que o levam ao óbito.
E, paradoxalmente, bom estado de saúde e elevado nível social podem aumentar o risco de mortalidade após a perda do seu companheiro.
Em outro estudo, J. Robin Mood, da Universidade Harvard, observa que a viuvez leva a um aumento de risco de mortalidade prematura, independentemente da idade ou do gênero.
Esse aumento, segundo Mood, tem sido descrito no primeiro ano após a perda do companheiro, sendo de 41% a estimativa de aumento na mortalidade nos primeiros seis meses. É o que Mood denomina de "efeito viuvez".

    sexta-feira, 2 de novembro de 2012

    Claudia Collucci


    Saúde e envelhecimento


    Estreio hoje este espaço com o tema envelhecimento, totalmente oposto ao que me dediquei durante mais de uma década no meu blog no UOL (fertilidade, reprodução, nascimentos).
    É proposital. O Brasil está envelhecendo numa velocidade jamais vista na história das sociedades mais desenvolvidas. A França, por exemplo, demorou mais de um século para ver sua população idosa saltar de 7% para 14%.
    Aqui, essa mesma variação demográfica ocorrerá já nas próximas duas décadas (2011-2031). Em números absolutos, a população idosa vai mais do que triplicar, passando dos atuais 20 e poucos milhões para 65 milhões em 2050.
    O curioso é que entra governo e sai governo e não se vê nenhuma política pública consistente no sentido de preparar o país para a mudança drástica na estrutura etária, que resultará em maiores pressões e desafios fiscais sobre o sistema público de saúde (e a Previdência, é claro).
    Os idosos vão viver mais, terão múltiplas doenças crônicas, que vão demandar uma maior utilização dos serviços de saúde, cujos custos são insustentáveis.
    Analistas do setor, como o professor Renato Veras (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), dizem que o tamanho desse aumento dos gastos com a população idosa dependerá essencialmente da qualidade desse processo de envelhecimento. Seremos idosos saudáveis ou enfermos dependentes?
    Se a meta for a primeira opção, será necessário reajustar a organização dos sistemas de saúde (público e privado) para esse novo cenário, levando em conta (e a sério) a promoção da saúde e a manutenção da capacidade funcional dos idosos pelo maior tempo possível.
    O conceito atual de envelhecimento saudável não é uma vida livre de doenças (dificilmente estaremos livres delas), mas sim a capacidade de manter as habilidades físicas e mentais necessárias para uma vida independente. Sabe aquela avozinha que aos 90 e poucos anos anda, toma banho e se alimenta sozinha? Esse é o objetivo.
    ENVELHECIMENTO ATIVO
    Um primeiro passo (ainda tímido, mas bem vindo) foi dado pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) no ano passado, com uma resolução que incentiva a participação de usuários de planos de saúde em programas de envelhecimento ativo, com a possibilidade de descontos nas mensalidades.
    A ideia é que as operadoras se pautem mais pela prevenção em vez do foco exclusivo no tratamento das doenças.
    Vários países vêm adotando programas de saúde focados na prevenção, visando um envelhecimento mais saudável. Um do mais conceituados é o da seguradora PruHealth, no Reino Unido. Lá, os segurados recebem benefícios financeiros para deixarem seus carros parados e caminharem, usando o pedômetro com monitor cardíaco.
    Os segurados também conseguem descontos na compra de frutas e legumes em uma rede de supermercados e recebem incentivo financeiro para a prática de exercícios físicos em academias. Por fim, adotando um estilo de vida mais saudável, podem ainda ter desconto no valor da apólice do seguro.
    Apesar dos questionamentos sobre a real eficácia dos estímulos financeiros para cuidar da saúde (os resultados serão duradouros?), algo precisa ser feito no Brasil. E logo.
    A começar pela forma com que alguns planos de saúde ainda tratam os idosos, dificultando a adesão deles em suas carteiras, impondo preços exorbitantes ou vetando procedimentos e tratamentos.
    *
    E por falar em envelhecimento ativo, está em cartaz o filme francês "E se Vivêssemos Todos Juntos?", de Stéphane Robelin, que trata sobre o tema com muita delicadeza e propriedade. Eu e minha mãe, dona Regina, 76, uma idosa pra lá de ativa, recomendamos!
    Avener Prado/Folhapress
    Cláudia Collucci é repórter especial da Folha, especializada na área da saúde. Mestre em história da ciência pela PUC-SP e pós graduanda em gestão de saúde pela FGV-SP, foi bolsista da University of Michigan (2010) e da Georgetown University (2011), onde pesquisou sobre conflitos de interesse e o impacto das novas tecnologias em saúde. É autora dos livros "Quero ser mãe" e "Por que a gravidez não vem?" e coautora de "Experimentos e Experimentações". Escreve às quartas, no site.

    Preço de drogas para rinite varia 230%


    Tratamento mensal com remédio contra alergia vai de R$ 40 a R$ 130, segundo levantamento feito pela Anvisa

    Gasto deve ser levado em conta ao escolher o medicamento, diz a Vigilância Sanitária, já que eficácia é similar
    JOHANNA NUBLAT
    DE BRASÍLIA
    Um remédio para contornar os sintomas da rinite alérgica pode custar mais de três vezes o preço do concorrente, segundo um estudo feito pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
    Assim, o custo do tratamento mensal da rinite pode variar de R$ 40 a R$ 130.
    Entre medicamentos com o mesmo princípio ativo, as diferenças chegam a 140%.
    O boletim "Saúde & Economia" compara os preços de 13 anti-histamínicos orais para adultos e nove infantis -genéricos, similares e medicamentos de referência.
    Foram considerados os preços máximos autorizados no mercado para os produtos de segunda geração, os mais modernos contra a doença.
    Apesar da disparidade, aponta a Anvisa, não há evidências científicas que indiquem uma superioridade terapêutica entre os produtos.
    "A principal conclusão é que, para rinite alérgica, há várias opções terapêuticas, princípios ativos e preços diferenciados. E, como não há evidência de superioridade, é relevante levar o custo em consideração", diz Gabrielle Troncoso, gerente de avaliação econômica de novas tecnologias da Anvisa.
    A rinite é uma inflamação da mucosa nasal, que se estende até os seios da face. Tem como sintomas comuns o entupimento nasal, a secreção, os espirros e a coceira.
    A forma alérgica da doença é desencadeada pela reação exagerada da pessoa a uma substância, diz a médica Fátima Fernandes, presidente da regional São Paulo da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia.
    Os anti-histamínicos estudados pela Anvisa, explica a médica, minimizam os sintomas da rinite alérgica -mas não atuam na origem dela.
    DIFERENÇAS
    Segundo Fernandes, os remédios listados pela Anvisa apresentam eficácia semelhante quando se analisam grupos de pacientes. "Qualquer um deles está perfeitamente indicado para o tratamento inicial de uma rinite."
    Individualmente, porém, continua a médica, as respostas dos pacientes podem variar com cada substância.
    Assim, médicos acabam indicando produtos ou marcas nas quais mais confiam e trocam a medicação se o paciente não se deu bem com ela.
    Um efeito a ser considerado, por exemplo, é a potencial sonolência provocada pelo uso desse tipo de produto.
    Evitar problemas como sonolência e interação com outros medicamentos é, justamente, um dos pontos promovidos pela empresa que lançou no país, neste ano, a substância mais nova entre as analisadas -a bilastina.
    OUTRO LADO
    A MSD, responsável pelo Desalex (remédio de referência na categoria, listado como mais caro para adultos), afirma ter um programa de descontos para alguns remédios por meio de cadastro no site -o anti-histamínico citado tem desconto de 35%.
    A Sanofi, que comercializa o medicamento de referência Allegra (54% mais caro que a sua versão genérica para adultos), afirmou que o preço do remédio segue as regras do setor. A empresa informou não ser possível fazer comparações com genéricos, que por lei devem ser pelo menos 35% mais baratos.

      terça-feira, 23 de outubro de 2012

      Prefeito do Rio anuncia que internará à força adulto dependente de crack


      Prefeito do Rio anuncia que internará à força adulto dependente de crack

      Eduardo Paes não prevê data para início da medida, mas afirma que a decisão já está tomada
      Método é indicado para alguns casos, diz médica; para OAB-RJ, medida pode ser questionada na Justiça



      DENISE MENCHEN
      MARCO ANTÔNIO MARTINS
      DO RIO

      A Prefeitura do Rio irá internar compulsoriamente adultos dependentes de crack. A decisão foi anunciada pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB) após reunião com líderes comunitários da favela do Jacarezinho, na zona norte.
      Até o início do mês, a favela abrigava a maior cracolândia do Rio. Com a ocupação para a instalação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), no dia 14, usuários da droga se espalharam por outros pontos.
      "Não vou ficar de camarote assistindo às pessoas se drogarem nas ruas. Tem gente quase se jogando debaixo dos carros na avenida Brasil. Não vou ficar no debate ideológico. Nossa obrigação é salvar vidas", disse Paes.
      O prefeito afirmou que a medida não começa agora, mas não previu data. Também não informou se será preciso ter autorização da Justiça para a internação. Disse ter pedido que os secretários de Assistência Social e de Saúde apresentem até 5 de novembro um plano.
      "Prefiro não me aprofundar porque a decisão política, que é o que me cabe, está tomada. Sei que é polêmico e nem quero comparar com detenção. Estamos lidando com doentes, e doentes a gente auxilia."
      Segundo o prefeito, o primeiro passo será criar de 600 a 700 vagas para atender os dependentes. Depois, será verificada a necessidade de contratação de pessoal.
      A prefeitura já faz o abrigamento compulsório de crianças e adolescentes com alto grau de dependência. A medida, em vigor desde maio de 2011, é amparada por decisão judicial. Desde então, 170 jovens já passaram por abrigos e 120 continuam internados.
      Já os adultos são levados para centros de acolhimento, onde podem ser encaminhados para tratamento nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), de atendimento ambulatorial, sem internação.
      Quem não tem para onde ir pode ficar em abrigos municipais, mas o trânsito é livre. Muitos acabam de volta às ruas.
      "Sei que isso é polêmico, mas acho que a gente tem respaldo para tomar essa decisão no caso do crack. Não se confunde internação compulsória com hospitalização de pessoas com problemas mentais. Para a gente está muito claro que os dependentes de crack não conseguem tomar decisões.
      A chefe do setor de dependência química da Santa Casa, Analice Gigliotti, diz que a medida é indicada para alguns casos, mas o risco é que se torne "higienista". "É preciso ter critérios claros. Nem todo mundo precisa de internação."
      Para o presidente da comissão de política sobre drogas da OAB-RJ, Wanderley Rebello Filho, a medida corre o risco de ser questionada judicialmente. "É uma violação de direitos humanos fundamentais, como o direito de ir e vir."


      ENTREVISTA
      'Louvável', mas exige cuidados, diz psiquiatra
      DO RIO
      Para o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antonio Geraldo da Silva, a decisão do prefeito do Rio de abrir vagas para o tratamento compulsório de usuários de crack é "louvável", mas a internação só deve ser feita com a indicação de um psiquiatra, sob risco de virar "eugenia".
      A decisão é adequada?
      É louvável que um grande município resolva fazer alguma coisa, porque por enquanto estamos cometendo omissão de socorro e suicídio assistido. O prefeito está certo em querer ajudar. O que não pode haver é internação compulsória sem indicação médica. Não podemos banalizar, senão vira eugenia social.
      É uma medida efetiva?
      Sim, tem bastante efetividade, quase no mesmo nível da internação voluntária. Mas para isso tem que ser em um serviço que tenha qualidade e respeite as necessidades específicas de cada paciente. Não se pode confundir internação com isolamento social ou prisão.
      Quais características que o local de internação deve ter?
      Deve contar com equipe multidisciplinar, psiquiatras e outros profissionais. Tem que ser um local especializado, sob pena de se fazer de forma incorreta.


      ENTREVISTA
      Decisão de Paes é 'higienista', afirma psicóloga
      DO RIO
      Para a presidente do Conselho Regional de Psicologia no Rio, Vivian Fraga, a decisão de internar compulsoriamente usuários de crack tem caráter "higienista".
      A decisão é adequada?
      É uma decisão política, não técnica. Há mais de um ano que estão internando crianças e adolescentes e a secretaria de Assistência Social não tem dados sobre a efetividade disso. Muitos saem dos abrigos e continuam usando drogas.
      Por quê? Quais os problemas da política atual?
      Desde 2011 temos feito fiscalizações nos abrigos e o que vimos é que não atendem o que a política pública preconiza. Eles têm uma lógica higienista. Pegam a pessoa em Manguinhos [zona norte] e colocam lá em Santa Cruz [zona oeste].
      Isso afasta o convívio da família, que é importante. E é uma lógica medicamentosa. Não é feito nenhum trabalho para mudar a relação da pessoa com a droga.
      Como tratar, então?
      A gente propõe que a porta de entrada sejam os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), e que, nos momentos de crise, a pessoa seja internada num hospital até se estabilizar. A ideia é que seja tratado por um profissional no seu território.


      SAIBA MAIS

      No país, 90% aprovam a internação

      Pesquisa Datafolha realizada em janeiro apontou que 90% dos brasileiros aprovavam a internação involuntária de dependentes de crack. O percentual cai entre os moradores do Sul (86%), os que têm ensino superior (84%) ou renda acima de dez mínimos (79%).
      Foram ouvidas 2.575 pessoas em 159 cidades.


      Ação na cracolândia de São Paulo teve 1.176 internações voluntárias
      DE SÃO PAULO

      Balanço do governo de SP aponta que, na operação da cracolândia, no centro da capital, realizada no início do ano, houve 1.176 internações, mas todas foram voluntárias.
      Segundo o coordenador estadual de políticas sobre drogas, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, só há internação sem a concordância do usuário de drogas quando há laudo médico (internação involuntária) ou decisão judicial (internação compulsória).
      Ou seja, não cabe à prefeitura ou ao Estado decidir, diretamente, se o usuário deverá ser internado, conforme prevê lei federal de 2001.
      "Além disso, todos os indivíduos toparam a internação, ou seja, foi voluntária", afirmou o coordenador estadual.
      A operação na cracolândia envolve Estado e prefeitura, em ações policiais e de saúde.
      Oliveira afirma que já houve internações voluntárias ou compulsórias no Estado, fora da operação da cracolândia.

      CRÍTICAS

      No início da operação no centro de São Paulo, quando se levantou a possibilidade de haver internações compulsórias, o candidato à prefeitura pelo PT, Fernando Haddad, criticou a ação -agora adotada pela gestão Eduardo Paes, no Rio, alinhada ao PT.
      No final da tarde de ontem, Haddad foi procurado pela Folhapara comentar a decisão do aliado Eduardo Paes, mas não foi localizado.
      O Ministério da Saúde afirmou ontem que não iria se pronunciar sobre o assunto.


      ANÁLISE
      Abrigar, isolar ou tratar os dependentes de drogas?

      IVONE STEFANIA PONCZEK

      ESPECIAL PARA A FOLHA

      As notícias sobre a disseminação do uso do crack têm sido alarmantes desde sua entrada no Rio de Janeiro há cerca de seis anos.
      No Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas da Universidade do Rio de Janeiro (Nepad-Uerj), 70% dos pacientes que chegam são usuários de crack.
      Várias iniciativas polêmicas têm sido tomadas visando esvaziar as cracolândias, levando suas populações para abrigos e encaminhando menores para internação compulsória.
      Na área da saúde mental, tal medida ficou identificada com prisão, isolamento, tortura e maus-tratos, que realmente aconteciam antes da reforma psiquiátrica.
      O uso de drogas foi recentemente descriminalizado e a identificação vinculando internação a punição ficou muito forte. Urge desmontar esta associação que impede que os usuários procurem e aceitem ajuda.
      Fala-se da internação compulsória, mas onde seria esta internação, mesmo que não fosse compulsória? Quais equipes iriam cuidar destes pacientes? Abrigar não é tratar!
      Não há quase locais para internação de adolescentes no Rio, nem equipes capacitadas para acolhê-los e efetivamente tratá-los.
      Se houvesse, poderia transformar a internação compulsória no direito de tratamento que a Constituição garante: "saúde é um direito de todos e um dever do Estado". Tal mudança de enfoque é fundamental e faz toda a diferença.
      O tratamento para dependentes de droga requer uma equipe interdisciplinar de saúde capacitada para as especificidades desse atendimento.
      A internação deve ser pautada em rigorosos critérios de elegibilidade, tais como risco de vida ou de terceiros, descontrole no uso de drogas ou pedido espontâneo de ajuda, etc. Não há "pacotes de tratamento" que ignorem a singularidade do sujeito.

      'MÃES-MENININHAS'

      Outrossim, a triste visão das cracolândias, que lembram as cenas do Holocausto -onde o ser humano é reduzido à sua mais degradante condição-, é mesmo chocante, não pode ficar invisível. As intervenções públicas não devem incidir apenas nas consequências, mas também nas profundas causas sociais e psicológicas.
      Por que as pessoas, sobretudo as mais desamparadas, estão se drogando tanto?
      O governo tem que intervir em saúde, educação, prevenção e numa distribuição de renda mais justa.
      Esta vulnerável população é constituída predominantemente de jovens e crianças relegados à sua própria sorte.
      Elas não brincaram de "bandido e mocinho", estes fazem parte do seu dia a dia. E as bonecas não são de brinquedo, são filhos de gestantes precoces que já vêm predestinados a repetir o triste destino de suas "mães-menininhas".
      IVONE SFETANIA PONCZEK é psicanalista e diretora do Nepad (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro






      segunda-feira, 22 de outubro de 2012

      Cresce registro de sífilis em bebês no país



      De acordo com Ministério da Saúde, aumento de 53% em dois anos se deve ao maior esforço de diagnóstico precoce
      Médico afirma, no entanto, que elevação dos números também ocorre por uma maior incidência da doença

      JOHANNA NUBLAT

      DE BRASÍLIA

      O registro de casos de bebês que nasceram com sífilis subiu 53% no intervalo de dois anos, passando de 6,1 mil casos em 2009 para 9,4 mil em 2011.
      Em comparação, nos cinco anos anteriores, a alta desses casos não chegou a 9%.
      Para o Ministério da Saúde, a aceleração é positiva porque reflete o esforço de identificação precoce da doença e de redução da taxa de casos que não eram notificados -estimada no passado em cerca de 60%.
      "Até 2005, a gente tinha poucos casos notificados, o que aparentemente era bom. Mas, em 2004, por estimativas indiretas e juntando os óbitos, chegamos à conclusão de que tínhamos 12 mil casos por ano", diz Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde da pasta.
      A sífilis pode ser transmitida ao feto pela mãe. A depender da gravidade e da forma de manifestação, a doença pode causar alterações ósseas, comprometimento do sistema nervoso central e até a morte da criança.
      A doença é evitável no bebê caso a gestante receba o diagnóstico e seja tratada. A meta é baixar a incidência, hoje em 3,3 casos por mil bebês nascidos vivos, para menos de um em mil até 2015.
      Para chegar a isso, a estratégia é ampliar a oferta de testes rápidos contra a sífilis no pré-natal do SUS, que garantem a entrega do resultado à grávida antes do parto.
      "Em casos de gestantes com dificuldade de se deslocar ao pré-natal, o exame tradicional era feito, mas se perdia a oportunidade de tratar a mulher, e o bebê nascia com a doença", diz o secretário.
      A expectativa é que, até o fim de 2014, todas as gestantes atendidas na rede pública façam esse teste rápido.
      Heloisa Helena Marques, do departamento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria, concorda com a explicação de que o aumento se deve à maior identificação e não ao crescimento de casos.
      "Ter 5.000 casos e ter um aumento é um indicador de que a gente está testando mais", afirma ela.
      O esforço de melhorar o diagnóstico da gestante é antigo, segundo a médica. Quando isso não é possível, diz, um teste imediato da criança permite o tratamento precoce, além do acompanhamento da família.
      Já para Sérgio Peixoto, professor de ginecologia e obstetrícia da Faculdade de Medicina da USP, os dados devem servir de alerta para o crescimento das doenças sexualmente transmissíveis.
      "Concordo que tínhamos o problema da subnotificação. Na sífilis, estamos vendo um aumento nos dois lados: tanto na incidência da doença quanto nas notificações."
      Helena Shimizu, coordenadora do programa de pós-graduação em saúde coletiva da UnB, destaca a necessidade de melhorar a estrutura de diagnóstico e tratamento.
      "A abordagem clínica é simples, mas falta estrutura. Já a abordagem social do problema não é muito simples."