sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Gustavo Patu


Biruta de aeroporto
FOLHA DE SÃO PAULO
BRASÍLIA - De Paris, a presidente deu o recado de que voltará a privatizar a administração de aeroportos. Dilma Rousseff cultiva a imagem de pragmática, capaz de abandonar, se preciso, a ideologia estatista vendida na campanha eleitoral.
Mas é também errática: leiloou a exploração em Brasília, Guarulhos e Campinas, não gostou do resultado, cogitou impor o controle estatal nas próximas parcerias com o setor privado, não gostaram da ideia, agora volta-se ao ponto de partida.
Fortalecido no cargo por ter tido a cabeça pedida por uma publicação estrangeira, Guido Mantega, também na capital francesa, negou sua saída. "Nunca vi ninguém ser demitido por otimismo", defendeu suas previsões sucessivamente desmentidas pelos resultados.
Lá se vão mais de 20 anos desde a última vez em que um presidente eleito substituiu um ministro em razão do desempenho da política econômica. Em 1991, a Fazenda se chamava Economia, a trocada foi Zélia Cardoso de Mello, que havia confiscado dinheiro das cadernetas de poupança, e o presidente, Fernando Collor, não concluiria o mandato.
Desde que, há exatas duas semanas, foram divulgados os números decepcionantes do PIB, duas teses estão em disputa. A primeira, pessimista, acusa o intervencionismo, a improvisação, as idas e vindas dos pacotes oficiais de inibirem investidores; a segunda, otimista, sustenta que a recuperação já está em curso e apenas não foi ainda devidamente captada pelas estatísticas.
Nesse curto período, foram anunciadas novas regras para os portos, redução de impostos para a construção civil, queda dos juros do BNDES, mais financiamentos. E Mantega antecipou que vai baixar o preço do gás "de alguma maneira".
Seria prematuro, como quase sempre em economia, um juízo definitivo sobre as duas leituras para a tibieza do PIB. O governo, pelo visto, não crê em nenhuma delas.

    Helio Schwartsman


    Comércio de facilidades
    Folha de SÃO PAULO - Uma das mais notáveis capacidades do ser humano é a de imaginar o futuro e tomar decisões com o intuito de modificá-lo. É daí que surge a flexibilidade, característica em que superamos com folga nossos primos primatas bem como todos os outros animais.
    É também a ferramenta de que nos valemos para escrever leis, que nada mais são do que a tentativa de regular o futuro. É claro que só faz sentido impor normas quando os comportamentos individuais não convergem de modo natural para a solução socialmente mais conveniente.
    Imaginemos uma lei que proíba as pessoas de comer cocô de cachorro. Mesmo reconhecendo o valor sanitário da medida, ela é totalmente ociosa, já que a esmagadora maioria dos humanos não tem nenhum pendor em deliciar-se com dejetos caninos. Ao contrário, o impulso natural é nos afastar deles, daí a necessidade de norma que obrigue a recolhê-los quando nossos animais de estimação os depositam nas vias públicas.
    Embora esse mecanismo seja até meio óbvio, nossos legisladores insistem em ignorá-lo. Um caso recente é a nova regra para a construção de garagens aprovada pela Câmara paulistana. O diploma reserva percentuais de vagas para bicicletas e motos em estacionamentos de condomínios e estabelecimentos comerciais.
    Aparentemente, os vereadores se esqueceram de que condôminos e comerciantes têm interesse em resolver seus problemas. E eles, mais do que os parlamentares, conhecem as necessidades de seu público. Assim, uma loja de equipamentos para motos fará bem se reservar mais que os 10% fixados em lei para esses veículos. Algo parecido se aplica ao edifício onde ninguém tenha moto e falte espaço para carros. Em suma, vale a pena apostar na flexibilidade.
    Minha suspeita é que só aprovam essas regras essencialmente inúteis para criar as dificuldades que gerarão o comércio de facilidades que infesta a administração pública.

      Dilma e Lula [Editorial FSP]


      Dilma e Lula
      Presidente dá passo arriscado ao comandar defesa enfática do mentor, pois acusações de Marcos Valério ainda carecem de investigação
      Diariamente o público brasileiro é bombardeado com novos escândalos, denúncias e ramificações de esquemas de corrupção. Por simples fadiga, muitos talvez não se tenham dado conta de que a crise política em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou impulso e mudou de patamar.
      Ela alcançou, agora, o Palácio do Planalto. E quem avocou o assunto para o centro do poder foi a própria presidente Dilma Rousseff.
      Ungida por Lula como sucessora, ela parece ter concluído que chegou a hora de sair em defesa enfática do mentor, ora enredado no mensalão. Coisa que Dilma se abstivera de fazer, até aqui, mantendo a imprescindível equidistância de primeira mandatária com relação ao julgamento, por outro Poder da República, do caso de desvio de recursos públicos para comprar apoio do Congresso ao primeiro governo Lula.
      "É sabida a minha admiração, o meu respeito e a minha amizade pelo presidente Lula", afirmou Dilma em Paris, em rara declaração sobre política doméstica dada em solo estrangeiro. E arrematou: "Eu repudio todas as tentativas -e esta não será a primeira vez- de tentar destituí-lo da imensa carga de respeito que o povo brasileiro lhe tem".
      O que parece ter motivado a presidente a dar o passo temerário foi a conjugação, em manchetes sucessivas, de duas revelações particularmente danosas para a reputação de seu antecessor.
      Primeiro, a divulgação da Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, que expôs as negociatas de pessoa íntima de Lula -Rosemary Noronha- no governo federal. Depois, a confirmação do conteúdo do depoimento do operador do mensalão, Marcos Valério, dado ao Ministério Público Federal em setembro (depois de condenado pelo STF, mas antes de ser apenado com mais de 40 anos de prisão).
      Valério arrastou Lula para o fulcro do mensalão. Ainda que a credibilidade do empresário seja duvidosa, tantas são as contradições e reviravoltas em seus testemunhos, só uma investigação séria das alegações poderá dissipar suspeitas que pairam sobre a participação de Lula no esquema.
      Dilma disse ao diário francês "Le Monde" que ela e seu governo não toleram corrupção, mas que não se devem confundir investigações com caça às bruxas. Assim como seus ministros, que saíram em defesa concertada do prócer petista, dá indicação de que tem Lula na conta de cidadão especial, fora do alcance da lei e da Justiça.
      Não há lugar para isso na República. Ao avalizar a conduta de seu correligionário e padrinho, antes de qualquer investigação, a presidente se apequena aos olhos de quem lhe atribuía a disposição de romper com a corrupção política.

        Lei seca e dura
        Um dos principais defeitos da chamada lei seca está prestes a ser corrigido pelo Congresso Nacional.
        Foi aprovado anteontem na Comissão de Constituição e Justiça do Senado um projeto de lei que autoriza a utilização de qualquer meio de prova para atestar a embriaguez do motorista ao volante, como testemunhos de policiais e exames clínicos -que, hoje, não são aceitos pela Justiça.
        Com a mudança, desaparece a necessidade de comprovar "concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a seis decigramas". A ultrapassagem desse limiar, decidiu o Superior Tribunal de Justiça em março, só pode ser aferida com o teste do bafômetro ou um exame de sangue.
        Ocorre que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Hoje, se um motorista se recusa a soprar o bafômetro ou a ceder sangue, não há como comprovar que ele transpôs o limite tolerado.
        É necessário, pois, retirar a lei seca desse impasse, a fim de restaurar seu louvável propósito: combater a trágica combinação de bebida com volante. Motoristas embriagados respondem por parte considerável das cerca de 40 mil mortes anuais no trânsito no país.
        Segundo um estudo da Faculdade de Medicina da USP, com base em dados de 2005 do IML de São Paulo, 44% dos 3.042 condutores mortos no Estado haviam ingerido álcool antes de dirigir. Especialistas estimam cifras até maiores.
        Os legisladores agiram com a intenção correta, portanto, quando aprovaram a lei seca em 2008. No ímpeto punitivo, porém, deixaram abertas brechas que, como se previa há quatro anos, terminaram por dificultar a aplicação da lei.
        Agora que se dispõem a corrigir aquele equívoco, os parlamentares poderiam aproveitar para retirar da norma seu caráter draconiano. Prescrever detenção de seis meses a três anos para o motorista que simplesmente dirigir embriagado é um exagero. Punições desse tipo deveriam incidir somente em casos de acidentes com vítimas.
        O endurecimento administrativo que os legisladores também propõem, por outro lado, parece um caminho adequado -a multa passa de R$ 957,70 para R$ 1.915,40.
        Embora nem todas as correções desejáveis tenham sido feitas, os parlamentares ao menos facilitaram a aplicação da lei. O projeto, se aprovado no plenário do Senado, irá à sanção presidencial. Não parece haver obstáculos para que isso ocorra na semana que vem, a tempo de a nova norma regular o trânsito já nas festas de fim de ano.

          "Bilbo é o Michael Corleone da Terra-Média", brinca ator


          Desventuras em série
          Estreia de primeiro capítulo da trilogia "O Hobbit" encerra atropelos de uma produção que durou sete anos e custou US$ 1 bilhão
          folha de são pauloRODRIGO SALEMENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK
          "O Hobbit" (1937) foi escrito por J.R.R. Tolkien (1892-1973) como contos de ninar para os seus filhos, mas a adaptação do livro para o cinema tirou o sono de muita gente desde que os direitos foram vendidos, em 1969, para o extinto estúdio americano United Artists.
          Era o início de uma sequência de incidentes que pode ter chegado ao fim hoje, com a estreia de "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada", primeiro filme da trilogia que termina em 2014 e custou US$ 1 bilhão.
          A confusão tomou forma em 1976, quando o produtor Saul Zaentz adquiriu parte dos direitos da obra. O grupo seria comprado cinco anos depois pelo estúdio MGM.
          Após o sucesso de "O Senhor dos Anéis", adaptação de outra obra de Tolkien, que rendeu quase US$ 3 bilhões, a Warner decidiu, em 2005, produzir o "O Hobbit" -cuja história se passa 60 anos antes. Mas o estúdio só podia filmar a história. Os direitos de distribuição ainda eram da MGM.
          Em 2006, quando as duas empresas entraram em acordo, Peter Jackson, diretor de "O Senhor dos Anéis", processou a New Line, selo da Warner, requerendo fatia maior dos lucros dos filmes.
          Jackson foi demitido da New Line. A MGM, preocupada com a reação dos fãs, pressionou e recontratou o cineasta, mas como produtor.
          Guillermo del Toro ("Hellboy") foi anunciado como diretor de "O Hobbit" em 2007. Três anos depois, o filme ainda não havia recebido o sinal verde, pois a MGM não tinha dinheiro para bancá-lo.
          Del Toro decidiu sair e Jackson reassumiu a direção. "Senti que o filme não aconteceria", diz ele à Folha. "Eu me preparei emocionalmente para não fazer o filme."
          Dois meses antes de rodar na Nova Zelândia, Jackson enfrentou uma greve de atores, liderada por um sindicato australiano que reclamava de infrações aos direitos dos envolvidos na produção. A situação só foi resolvida com a intervenção do governo local, temendo perder uma de suas maiores atrações turísticas.
          -
          GANDALF (SIR IAN MCKELLEN)
          O mago não é tão poderoso quanto na trilogia anterior, mas entra em mais cenas de ação
          GOLLUM (ANDY SERKIS)
          Vivendo no interior das Montanhas Sombrias, a criatura perde o Um Anel que o deixa invisível e um certo hobbit encontra a jóia
          BILBO BOLSEIRO (MARTIN FREEMAN)
          Apesar de o conhecermos mais velho em "O Senhor dos Anéis" e com a cara de Ian Holm, Bilbo é um jovem e acomodado hobbit que parte em uma aventura para ajudar 13 anões a recuperar seu reino perdido para o dragão Smaug


          EPOPEIA HOBBITIANA
          1969
          Tolkien vende os direitos de "O Hobbit" e "O Senhor dos Anéis" para o estúdio United Artists, comprado depois pela MGM
          1976
          O produtor Saul Zaentz adquire os direitos de produzir um filme baseado nas duas obras
          2006
          Após "O Senhor dos Anéis", a New Line/Warner, dona dos direitos de filmagem de "O Hobbit", entra em acordo com a MGM, que possui os direitos de distribuição. Por causa de um processo, Peter Jackson é demitido
          2007
          As três partes entram em acordo e Jackson assume como produtor, deixando Guillermo del Toro na direção
          2010
          Por causa dos atrasos, Del Toro deixa o projeto. Jackson reassume.
          A Federação Internacional de Atores aconselha aos atores sindicalizados da Nova Zelândia a não trabalhar em "O Hobbit"
          2011
          As filmagens de "O Hobbit" (em duas partes) começam na Nova Zelândia
          2012
          Os produtores anunciam que agora será uma trilogia O PETA acusa a produção de maus tratos de animais a um mês da estreia

            "Bilbo é o Michael Corleone da Terra-Média", brinca ator
            Inglês Martin Freeman, da série "Sherlock", quase não conseguiu fazer "O Hobbit" por causa dos adiamentos
            Inicialmente planejado para ser feito em duas partes, "O Hobbit" virou uma trilogia no meio das filmagens
            Divulgação
            A comitiva de anões em cena de "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada", de Peter Jackson
            A comitiva de anões em cena de "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada", de Peter Jackson
            DO ENVIADO A NOVA YORKA maldição de "O Hobbit" não ficou apenas no aspecto financeiro.
            Após o primeiro-ministro neozelandês, John Key, avalizar lei que desobriga produções cinematográficas de terem atores sindicalizados, garantindo o filme no país, o diretor Peter Jackson foi internado com uma úlcera.
            Em março de 2011, com o cineasta recuperado, "O Hobbit" entrou em produção.
            No meio de toda a confusão, o elenco não sabia qual seria seu futuro.
            "Eu pensei que não faria mais o filme, porque havia um conflito de agenda", revela Martin Freeman, dono do papel de Bilbo.
            "Peter mudou as filmagens por minha causa e fiquei muito feliz em obter o papel."
            Sir Ian McKellen, que retorna no papel do mago Gandalf, sentiu o mesmo. "Eu já estava listando as coisas negativas para me acostumar com a ideia", brinca o ator.
            "O Hobbit" não só foi feito, como os produtores resolveram transformar dois filmes (o plano inicial) em três -ao contrário de "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" só é um livro de 300 páginas.
            "Não foi por ganância", afirma Philippa Boyes, roteirista e produtora do filme.
            Freeman conta que não se sentiu enganado por, de repente, protagonizar três filmes. "Quem faz dois, faz três. Eu preciso confiar em Peter", conta o inglês.
            "Bilbo é o Michal Corleone da Terra-Média. Ele termina completamente diferente de como começa", diz Freeman, em referência as mudanças sofridas pelo protagonista da trilogia "O Poderoso Chefão".
            MAUS TRATOS
            Contudo, antes de pensar nas sequências "A Desolação de Smaug" (2013) e "Lá e De Volta Outra Vez" (2014), Peter Jackson ainda lidou com acusações de maus tratos com animais.
            "É um absurdo. Nenhum animal foi machucado", rebate o diretor.
            "Isso parece orquestrado. Mas não vamos chorar como bebês. Não vão nos derrubar", exagera Philipa.
            Nem mesmo se explorarem as referências a fumo de ervas e consumo de cogumelos que aparecem no longa?
            "É minha culpa", diverte-se o diretor Peter Jackson. "Tenho um senso de humor sacana."

              Segundo filme revelará dragão e novas criaturas
              DO ENVIADO A NOVA YORK
              Como o título "A Desolação de Smaug" entrega, o segundo capítulo da trilogia "O Hobbit" mostrará o encontro da comitiva de anões e Bilbo com o dragão Smaug no interior da Montanha Solitária.
              "Podemos dizer com certeza que teremos um pouco de ação com dragão no próximo filme", brinca a roteirista e produtora Philippa Boyens.
              O mago Gandalf terá sua história paralela amplificada em relação ao livro. "Ele some três vezes no texto, mas só sabemos o que aconteceu em relatos. Mostraremos os eventos em tempo real", diz Philippa.
              O segundo filme terá novos personagens, como Beorn (Mikael Persbrandt), um humano que se transforma em urso; Dáin (Billy Connoly), primo de Thórin e rei anão das Colinas de Ferro; a elfa Tauriel (Evangeline Lilly); e o guerreiro Bard (Luke Evans), além do retorno de Legolas (Orlando Bloom) à série.

              NOVAS CARAS
              Conheça os personagens que estreiam na Terra-Média
              THÓRIN (RICHARD ARMITAGE)
              O rei anão lidera a comitiva rumo à Montanha Solitária, onde encontra-se o reino perdido de Erebor, tesouros e um dragão em seus escombros
              RADAGAST (SYLVESTER MCCOY)
              Um dos cinco magos da Terra-Média. Sua área de atuação é a natureza, que passa a ser ameaçada pela volta de um antigo mal
              AZOG (MANU BENNETT)
              O orc que decapita o avô de Thórin em uma batalha em Moria, volta para perseguir o anão
              GRÃO ORC (BARRY HUMPHRIES)
              O monarca fanfarrão que comanda os goblins e orcs nas profundezas das Montanhas Sombrias

                CRÍTICA FANTASIA
                Trilogia começa repetindo o que já foi testado e aprovado
                CÁSSIO STARLING CARLOSCRÍTICO DA FOLHAHá filmes como religiões. Pô-los em questão equivale a cometer heresias. "O Hobbit" faz parte da espécie de "O Senhor dos Anéis" ou "Batman" -funciona à base de adesão. Seus admiradores não são apenas fãs, são fanáticos.
                Por isso, tanto faz se o primeiro título da nova trilogia de Peter Jackson se resume a oferecer mais do mesmo. Seus devotos já decidiram que o filme é o maior espetáculo da Terra e ponto final.
                Quem não faz parte dessa legião, mas não resiste a um blockbuster, vai pagar caro para ver. Corre, porém, o risco de ficar com a impressão de "já vi este filme".
                Apesar do subtítulo, "Uma Jornada Inesperada" é uma produção muitíssimo esperada pelo público que, na década passada, engordou os senhores de Wall Street com quase US$ 3 bilhões para "O Senhor dos Anéis".
                Para não pôr em risco a fidelidade desses espectadores, a nova parte da saga começa como uma repetição do que já foi testado e aprovado.
                A evocação do "era uma vez", a aventura do aprendizado, a apresentação cômica, e depois trágica, dos novos companheiros, misturada à reaparição de personagens como Gandalf, servem para fortalecer o vínculo, forjar o sentimento de pertencer a uma ordem de iniciados.
                É fundamental também conquistar os recém-chegados ao mercado, um espectador que não chegou a ver a primeira trilogia no cinema. Para esse público, sobretudo, é preciso recomeçar, usar o recurso da "prequel" (história que conta a origem do filme anterior) para agregar elementos guardados e, desse modo, fortalecer o mito.
                O problema desse tipo de estratégia é definir um limite entre repetição e saturação. Para escapar da redundância, "O Hobbit" aposta em efeitos visuais ainda mais espetaculares por meio da tecnologia HFR, cujo maior volume de imagens pretende amplificar o encantamento.
                Não vão faltar aqueles capazes de ver cada partícula em meio ao turbilhão de ações. Nós outros, servidos com simples olhos humanos, muitos já gastos ou defeituosos, teremos de enfrentar longuíssimas 2h46 para chegar à conclusão de que o resultado ficou aquém da imaginação.