quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Rogerio gentile

FOLHA DE SÃO PAULO

Os românticos do crack
SÃO PAULO - Após muita expectativa, revelou-se um tanto quanto tímido o tal programa de internações à força na cracolândia promovido por Alckmin. Temendo ser tachado de "higienista", o governo paulista tem se restringido aos casos em que familiares pedem providências. Os que não têm essa sorte, de modo geral, continuam largados na rua.
A cracolândia é, há anos, um dos lugares mais angustiantes de São Paulo. Uma espécie de quadrilátero do suicídio, onde a cidade concorda que centenas de pessoas, incluindo mulheres grávidas e crianças, vão se matando aos poucos, dia após dia.
ONGs e afins alegam que os usuários do crack têm o direito de recusar atendimento. Dizem que só devem ser internados aqueles que assim desejarem. Mas será mesmo que os 'noias' que perambulam pela cracolândia como 'zumbis' têm condição de cuidar da própria vida? A dependência à droga não se tornou mais forte do que o medo de morrer?
Outro argumento muito comum contra a internação à força é o da baixa eficiência terapêutica. Pode até ser verdade. Mas ainda assim é melhor tentar salvar os dependentes, internando-os com indicação médica, do que simplesmente deixá-los perecer na rua, como ocorre hoje.
O enfrentamento do problema perdeu força em 2012, quando Alckmin e Kassab iniciaram uma ação atabalhoada na cracolândia. A PM foi acionada para prender traficantes, mas acabou jogando bombas de efeito moral em dependentes; assistentes sociais foram mandados para a região, mas nem mesmo o centro de tratamento da prefeitura estava pronto para receber os doentes. O resultado foi o fracasso da operação.
Naquela ocasião, sobrou atitude, mas faltou planejamento para as autoridades, mais preocupadas com o calendário eleitoral. Agora, o problema parece ser o inverso. Com cerca de 700 leitos de retaguarda, o que parece faltar é determinação para enfrentar o discurso politicamente correto dos "românticos do crack".

    Editoriais Folha de São Paulo

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Pax paulista
    Medidas anunciadas em conjunto por Alckmin (PSDB) e Haddad (PT) beneficiam população de São Paulo, mas miram as eleições de 2014
    O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o prefeito da capital, Fernando Haddad (PT), anunciaram uma série de parcerias entre as duas administrações, no que parece ser um passo rumo a uma coexistência pragmática.
    O pacote envolve a construção de moradias sociais, creches, corredor de ônibus e piscinão, além de outras ações conjuntas nas áreas de segurança pública, iluminação e combate a enchentes.
    Circunscrita ao plano das políticas públicas, a aproximação é decerto elogiável, especialmente por São Paulo ser palco de uma disputa histórica e acirrada entre as legendas do governador e do prefeito.
    Mas o encontro também ajuda a compor o figurino eleitoral de ambos para 2014.
    Ninguém desconhece o significado que uma inédita conquista do Bandeirantes teria para o ex-presidente Lula e seu partido -e o êxito de Haddad na prefeitura é estratégico tendo em vista esse objetivo.
    Garimpar recursos estaduais, assim, é um movimento crucial para o sucesso de uma cidade endividada e com restrições orçamentárias para fazer novos investimentos.
    Alckmin, por sua vez, reedita a bem-vista parceria com a presidente Dilma Rousseff e cria uma agenda positiva para seu governo. Obviamente não interessa ao tucano ser visto como um político que, em nome de interesses partidários ou ambições pessoais, boicota a prefeitura da capital.
    Não é demais lembrar que, na campanha eleitoral do ano passado, petistas e tucanos se viram ameaçados por um discurso que apregoava o fim da hostilidade entre os partidos -Celso Russomanno (PRB) e Gabriel Chalita (PMDB) apostaram nessa via e alcançaram considerável sucesso nas urnas.
    Se Alckmin e Haddad colaboram um com o outro, a tendência é que também evitem desgastes desnecessários em contendas vindouras -pelo menos no horizonte próximo. Já no encontro de anteontem, ambos tomaram o cuidado de silenciar sobre assuntos que opõem as duas administrações.
    Silenciaram, por exemplo, quanto à revisão da inspeção veicular -bandeira de Haddad- e à internação compulsória de dependentes químicos -implantada por Alckmin na cracolândia, na região central da cidade.
    Não que esses temas sejam de menor importância. Ao contrário, sensibilizam boa parte da população. Para Alckmin e Haddad, porém, não são convenientes.
    Nenhum acordo, por certo, eliminará a rivalidade e evitará o confronto acerbo entre petistas e tucanos nas próximas eleições. Mas, ainda que impelida pelo calendário político, a parceria resulta proveitosa para a cidade.



    EDITORIAIS
    editoriais@uol.com.br
    Os malabaristas
    Enquanto a presidente Dilma Rousseff organiza encontros com empresários nacionais, a fim de reconquistar a confiança na política econômica, assessores do Planalto atuam no sentido contrário.
    As manobras e os malabarismos oficiais, que têm disseminado descrédito entre os agentes econômicos, ameaçam mais uma vez o chamado superavit primário.
    Em 2012, essa conta da poupança pública -que computa tudo o que é arrecadado e gasto, exceto as despesas com juros- só foi fechada à base de maquiagem. Decretaram-se receitas fictícias, frustrando, assim, o objetivo original do mecanismo, que é inibir a escalada da dívida do governo.
    Cogita-se agora livrar Estados e municípios da obrigação, até hoje partilhada com a União, de gastarem menos do que arrecadam.
    Em caso de descumprimento da meta estadual e municipal de economia, as regras atuais mandam o governo federal completar a poupança, a fim de que se atinja o resultado global -no ano passado, fixado em 3,1% do PIB.
    A ideia em gestação em Brasília é acabar com a obrigação de ressarcimento. Na falta da compensação, a medida vai reduzir, na prática, o superavit do país como um todo -a Estados e municípios tem cabido 30% da meta de poupança.
    Deplora-se, mais uma vez, a escolha de um método tortuoso para escamotear fracassos. Se o governo Dilma julga excessiva a meta de superavit primário, deveria expressá-lo de forma transparente.
    A melhor atitude, porém, seria deixar os subterfúgios de lado e pôr-se a cumprir à risca a poupança de 3,1% do PIB, no mínimo. O perigo de um galope da dívida pública, que compeliu à adoção do superavit primário a partir do final dos anos 1990, já está afastado.
    Mas o que hoje justifica a necessidade de manter -e até de incrementar- os freios nos gastos e na arrecadação dos governos é algo ainda mais importante. Pode-se dizer, sem risco de exagerar, que a continuidade do desenvolvimento econômico brasileiro depende de que as despesas dos governos subam mais devagar que o PIB.
    Esse é o único meio de desafogar o setor privado de um volume de tributos oceânico, que inibe o investimento e o crescimento mais acelerado da economia -e ajuda a tornar o Brasil caro e pouco competitivo no cenário global.
    O surto de inventividade contábil na administração Rousseff não fará o capital brotar de cartolas. Mas está fazendo desaparecer a confiança na política econômica, combustível imaterial, mas poderoso, do crescimento.

    James Franco se rende ao sexo em Festival Sundance

    FOLHA DE SÃO PAULO

    FERNANDA EZABELLA
    ENVIADA A PARK CITY (EUA)

    James Franco não quer falar de sexo. Ele quer mostrá-lo explicitamente. E, de preferência, com muito couro. O ator, diretor e poeta de 34 anos está no Festival Sundance com três filmes que abordam pornografia, dois deles sobre fetiche e cultura gay.
    "Acho bonito e atrativo", afirma Franco sobre as cenas de sexo explícito num clube gay em "Interior. Leather Bar", um filme com pegada de documentário que ele dirige em parceria com Travis Mathews, um diretor de "pornô-arte gay".
    Em "Interior. Leather Bar", Franco e Mathews tentam recriar os 40 minutos cortados de "Parceiros da Noite" (1980), sobre um policial vivido por Al Pacino que se infiltra nos clubes gays de fetichismo para pegar um assassino.
    Divulgação
    Cena do documentário "Kink", sobre sadomasoquismo, produzido por James Franco
    Cena do documentário "Kink", sobre sadomasoquismo, produzido por James Franco
    Na época, o diretor William Friedkin foi obrigado a cortar as cenas por serem fortes demais e negativas à comunidade gay.
    Franco chamou um amigo de infância, Val Lauren, para viver o personagem de Al Pacino, enquanto atores amadores se preparam para as filmagens (há sexo oral e lambeção de botas).
    Uma câmera segue Lauren a todo momento, que teve muitas dúvidas sobre o projeto, mas confiou na "missão" de Franco.
    O resultado oscila entre experimental e pseudointelectual, com muitas discussões sobre sexualidade. "Queria revisitar 'Parceiros da Noite' e ver como as coisas mudaram, ou não. Val está numa jornada como o personagem de Al Pacino, descobrindo um mundo novo", diz Franco.
    Além de "Interior. Leather Bar", o ator aparece nos créditos como produtor-executivo do documentário "Kink".
    O filme é sobre a maior produtora do mundo de vídeos on-line de BDSM (sigla para bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo), num galpão em San Francisco, com cem funcionários.
    Há cenas de filmagens da produtora, com máquinas de sexo que parecem instrumentos de tortura, e entrevistas com diretores dos vídeos.
    Victoria Will/Assossiated Press
    James Franco posa para foto no Festival Sundance, ao qual comparece com três filmes
    James Franco posa para foto no Festival Sundance, ao qual comparece com três filmes
    Atores e atrizes também dão depoimentos, quando não estão amarrados de ponta-cabeça ou sendo sufocados em banheiras.
    O terceiro projeto de Franco é um filme bem mais tradicional, "Lovelace", sobre os bastidores do pornô mais lucrativo da história, "Garganta Profunda" (1972).
    Ele vive Hugh Hefner, fundador da "Playboy". O longa tem menos sexo e mais violência doméstica entre Linda Lovelace (Amanda Seyfried) e seu marido e produtor Chuck Taynor (Peter Sarsgaard).
    Outro pornógrafo nas telas de Sundance é o inglês Paul Raymond (1925-2008), fundador do primeiro clube de striptease da Grã-Bretanha, nos anos 1950, e editor de revistas adultas.
    O longa "The Look of Love" é protagonizado por Steve Coogan e tem direção de Michael Winterbottom, que centralizou a história nas três pessoas mais importantes da vida de Raymond: sua mulher, sua amante e sua filha.

    Arquitetura da reconstrução

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Após fracasso, Bienal de Arquitetura muda gestão e celebra 40 anos com projeto de se espalhar por SP


    SILAS MARTÍ
    DE SÃO PAULO
    Em 1969, Lina Bo Bardi usou os destroços da demolição do Bexiga, bairro paulistano então rasgado por causa da construção do Minhocão, para montar o cenário da peça "Na Selva das Cidades", no Teatro Oficina.
    Toda noite, os atores destruíam um ringue de boxe feito de escombros --e reconstruíam tudo para repetir a cena de fúria no dia seguinte.
    Da mesma forma que a arquiteta já se apoderava da cidade para montar um espetáculo, a décima Bienal de Arquitetura de São Paulo --que neste ano acontece em outubro e celebra os 40 anos da mostra-- deixa o parque Ibirapuera, que foi sua sede até hoje, para tomar toda a cidade, incluindo o Teatro Oficina, desenhado por Bardi.
    Divulgação
    Praça das Artes, no centro de São Paulo, tem projeto exposto na Bienal
    Praça das Artes, no centro de São Paulo, tem projeto exposto na Bienal
    Em vez de uma mostra concentrada num único ponto, com projetos arquitetônicos isolados, serão vários recortes, quase todos dedicados a projetos de urbanismo, ocupando uma rede de espaços perto de estações do metrô.
    "É a retomada da cidade e sua geografia", diz José Armênio de Brito Cruz, diretor do braço paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), que organiza a Bienal.
    "Não será uma exposição de objetos bonitinhos, e sim uma mostra de caráter político, uma pauta que o Brasil deve enfrentar neste momento. Queremos reconstruir a face pública da arquitetura."
    Reconstrução também resume o momento do IAB e de sua Bienal. Depois do fracasso da última edição, que foi alvo de críticas e protestos de arquitetos e que teve um dos menores públicos de sua história, o IAB trocou seu corpo diretivo e estabeleceu parcerias com as grandes instituições culturais paulistanas.
    Esses endereços, entre eles o Centro Cultural São Paulo, o Masp, o Museu da Casa Brasileira e até uma plataforma desativada do metrô construída sob a estação Pedro 2º, deverão abrigar a Bienal.
    Editoria de Arte/Folhapress
    Ficou de fora, no entanto, seu endereço histórico, o pavilhão da Bienal no parque Ibirapuera, que na época da mostra de arquitetura estará ocupado por outra exposição.
    Brito Cruz garante que o racha entre IAB e Fundação Bienal, motivado por dívidas dos arquitetos com a instituição de arte, já acabou. Mas a Folhaapurou que a dívida de R$ 164 mil não foi saldada.
    MATURIDADE E AMBIÇÃO
    Apesar desta pendência, os planos para a Bienal de Arquitetura seguem a todo vapor. E o orçamento acompanha essa ambição --os R$ 18,8 milhões, que ainda devem ser captados via leis de incentivo, são quase dez vezes o custo da última edição.
    "Há a necessidade de fazer uma exposição que dialogue com um público mais amplo", diz Guilherme Wisnik, curador da mostra. "Nesta décima edição, a Bienal já tem maturidade para atingir a escala de toda a metrópole."
    Dentro dessa lógica, a ideia de que o público possa entrar e sair da mostra o tempo todo, usando o transporte público, "força uma visão da cidade com outros olhos", nas palavras da cocuradora Ana Luiza Nobre. "Isso dá a experiência da cidade agressiva, violenta e, ao mesmo tempo, fascinante que é São Paulo."
    Essa experiência deve ser destrinchada em exemplos notáveis de urbanismo pelo mundo, que estarão reunidos na mostra reservada ao Centro Cultural São Paulo.
    Entre eles, a Praça das Artes, projeto do escritório Brasil Arquitetura, estará em destaque como exemplo de obra que "costura vários lotes no coração da cidade".
    No Masp, a escala doméstica de projetos residenciais de Vilanova Artigas e Mendes da Rocha fará contraponto ao espaço público problemático das grandes cidades brasileiras. Esses projetos serão comparados a obras de artistas que articularam a ideia de circulação, como Hélio Oiticica e Cildo Meireles.
    "São exemplos fundamentais da Bienal", diz Wisnik. "Há a aceitação de que o modelo de cidade americana ou europeia não é mais hegemônico, e São Paulo passou a ser fonte de algumas lições para arquitetos e urbanistas, o que é uma surpresa para nós."