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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Depredação livre - Rogerio Gentile

folha de são paulo
Depredação livre
SÃO PAULO - A redução no preço da tarifa não pode encobrir o fato de que o centro de São Paulo virou terra sem lei na noite de anteontem, tomada por vândalos travestidos de manifestantes e abandonada pela polícia. Houve ataques a prédios públicos, saques a lojas e depredações.
A escalada da insensatez começou na quinta-feira passada, quando a polícia "arrepiou" um protesto pacífico. Todo o mundo apanhou: manifestantes bem-intencionados, manifestantes mal-intencionados e até mesmo não manifestantes.
Até então, embora a maioria da população simpatizasse com a causa original dos protestos (a redução das tarifas), havia uma ampla crítica às cenas de vandalismo protagonizadas dias antes por mal-intencionados, que, destruindo ônibus, metrô e pichando muros, imaginam estar promovendo a "revolução".
Pois Alckmin conseguiu perder a opinião pública. A pancadaria da polícia acabou por criar um sentimento generalizado de indignação, destampou insatisfações, ampliou muito a adesão ao movimento e o exportou para várias cidades.
E isso nitidamente acuou autoridades, que, desde segunda-feira, permitiram, não apenas em São Paulo, que os protestos avançassem para além do que pode se considerar aceitável numa democracia. A Assembleia do Rio foi depredada, o diretor-geral da Câmara dos Deputados foi agredido, agências bancárias foram quebradas em Porto Alegre e a Prefeitura de Belo Horizonte foi atacada.
Apesar de toda a poetização em torno do Movimento Passe Livre, e da efetiva redução na tarifa, é necessário registrar que seus líderes não condenaram enfaticamente os atos de vandalismo. Muito pelo contrário, os justificaram com o argumento de que eram fruto da "revolta popular" ou resultado da "intransigência" do poder público. Resta saber se o recuo de Alckmin e Haddad, um dia após a vandalização do centro, não servirá de estímulo para esse tipo de "método" de negociação.

    quinta-feira, 6 de junho de 2013

    Estilo Dilma - Rogerio Gentile

    folha de são paulo
    Estilo Dilma
    SÃO PAULO - Dois anos e meio depois da sua posse, Dilma Rousseff ainda governa o Brasil como se fosse ministra da Casa Civil. Gasta mais tempo com os detalhes da administração do que com os rumos do país. Privilegia a tecnocracia em detrimento da articulação política. E, em vez de estimular a criatividade, usa broncas como método de trabalho.
    Dilma não é uma presidente formuladora, como foi FHC. Tampouco tem a intuição e a sensibilidade de Lula ou mesmo a sua capacidade de enfrentar situações difíceis, inclusive na economia, na base do gogó.
    A presidente também tem grande dificuldade para escolher auxiliares. FHC tinha Malan, Serra, Armínio Fraga e Pedro Parente. Lula tinha Dirceu, Palocci, Thomaz Bastos, Henrique Meirelles e a própria Dilma.
    Pode-se gostar ou não de cada um deles, mas é inegável que compunham núcleos consistentes e capacitados de governo. Não é à toa que FHC e Lula tornaram-se dois dos mais importantes presidentes da história do Brasil. Dilma trabalha praticamente sozinha.
    Reportagem publicada pela Folha na semana passada é simbólica sobre o jeito Dilma de governar. Por não tolerar turbulências em seus deslocamentos aéreos, a presidente verifica pessoalmente o plano de voo do avião presidencial, aprendeu a ler os dados do painel da cabine do piloto e até modifica as rotas oficiais.
    A presidente-gerente, como seus aliados costumam dizer, de fato toca o governo como quem supervisiona o embarque de um avião. Auxilia os passageiros, agiliza as filas, arruma a gola do piloto, reclama do penteado das aeromoças, observa se as malas estão devidamente etiquetadas e manda limpar de novo o banheiro dos aviões.
    Se o país estivesse voando em céu de brigadeiro, seu estilo centralizador, detalhista e reclamão seria apenas folclórico. Em tempos de crescimento econômico baixo e de inflação batendo novamente à porta, é motivo para preocupação.

      quinta-feira, 16 de maio de 2013

      Rogerio Gentile


      Folha de são paulo
      Verdades e esculachos
      SÃO PAULO - A Comissão da Verdade, instalada há um ano com a finalidade de investigar e esclarecer graves violações de direitos humanos na ditadura militar, dá a impressão de que resolveu afastar-se dos seus propósitos.
      Qual outra explicação haverá para o fato de ter decidido ouvir militares como o coronel Ustra, chefe do DOI-Codi de São Paulo de 1970 a 1974, período mais violento da repressão, em sessões abertas ao público?
      Afinal, ninguém da comissão é ingênuo a ponto de imaginar que uma pessoa com o histórico e a importância de Ustra na ditadura estaria disposta a se imolar publicamente, revelando, diante de uma plateia lotada e de câmeras de televisão, a sua participação e a de colegas em assassinatos e torturas.
      Se a intenção "é resgatar a nossa história para que isso nunca mais volte a acontecer no país", como disse a presidente Dilma Rousseff após a aprovação do comitê de investigação, conversas reservadas tendem a ser mais eficazes. Para que servem, então, as tais audiências abertas da Comissão da Verdade?
      A mudança de estratégia de funcionamento do grupo, que até então havia interrogado 11 agentes da repressão em eventos fechados, ocorreu após muita pressão nos bastidores. E atende a dois desejos inconfessos de pessoas importantes do governo federal.
      O primeiro objetivo seria tentar criar no país um clima que, de algum modo, pressionasse o Supremo Tribunal Federal a mudar o entendimento da Lei da Anistia (1979), permitindo a punição de militares e policiais que cometeram atos de violência contra opositores políticos.
      O outro desejo por trás desse novo modo de atuação da Comissão da Verdade é bem mais fácil de alcançar: promover grandes sessões de esculachos para, de certa forma, vingar publicamente as vítimas da ditadura --a exemplo das manifestações feitas nos últimos meses na porta da casa de torturadores.

      quinta-feira, 25 de abril de 2013

      Esse cara sou eu - Rogerio Gentile

      folha de são paulo

      SÃO PAULO - Os escritores e leitores brasileiros ganharam um grande aliado, ainda que involuntário, na campanha pela aprovação do projeto que impede a censura de biografias: o rei Roberto Carlos.
      No início do mês, os advogados do cantor enviaram uma notificação extrajudicial em que pediam a interrupção da venda do livro "Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude", de Maíra Zimmermann, lançado pela Estação das Letras e Cores.
      O pedido foi feito simplesmente porque o cantor ficou incomodado com a caricatura por meio da qual foi retratado na capa do livro. Segundo um dos seus advogados, como não foi autorizado, o desenho viola o direito de imagem de Roberto Carlos.
      O motivo é tão mesquinho e despropositado (ainda mais para alguém que cultiva a própria imagem com declarações profundas, como a de que não vive "sem beijo e sem sorvete") que acaba por expor de um modo categórico o tamanho do absurdo da legislação atual, um enorme atentado à liberdade de expressão e à memória do país.
      Segundo a lei em vigor, de 2002, biografias só podem ser publicadas com autorização do biografado ou, se ele já estiver morto, de seus herdeiros. Ou seja, apenas os textos que agradam integralmente ao biografado, na maioria das vezes laudatórios, conseguem ser publicados.
      O impacto disso é brutal no estudo da história do Brasil, onde vários livros já foram cassados e tantos outros deixaram de ser produzidos ou editados. Imagine, por exemplo, alguém ter de pedir autorização para Fernando Collor para escrever sobre sua vida ou ter de convencer dona Marisa para conseguir mostrar a influência de Rose Noronha, ex-secretária de Lula, na política brasileira.
      Em nome da inviolabilidade da intimidade e da vida privada, a atual legislação submete a história do Brasil a uma lata de verniz. Ainda bem que Roberto Carlos, com sua majestosa falta de noção, resolveu contribuir para expor o problema.

      quinta-feira, 18 de abril de 2013

      Rogerio Gentile

      folha de sao paulo

      Irmão siamês
      SÃO PAULO - A melhor definição sobre José Maria Marin, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol, foi dada muitos anos atrás pelo insuspeito Paulo Maluf. Segundo o ex-prefeito de São Paulo, Marin é seu "irmão siamês".
      Ao longo de sua vida pública, na qual ocupou diversos cargos (vereador, deputado, vice-governador e governador de SP), o dirigente envolveu-se, assim como sua alma gêmea, em diversas histórias polêmicas.
      Dirce Tutu Quadros, filha de Jânio, declarou em 1989, por exemplo, que Marin era uma inspiração para o capitalismo vigente no Brasil. "Nasceu pobre, mas tornou-se uma das maiores fortunas de São Paulo." Tutu o acusava, então, de ter desviado dinheiro da campanha do seu pai a prefeito quatro anos antes. "Ele é um batedor de carteiras", afirmou Tutu em uma entrevista, sem apresentar provas.
      Em outra ocasião, Marin chegou a ser condenado pelo Tribunal de Contas de São Paulo por despesas irregulares com festas durante sua passagem de dez meses pelo governo paulista. Nas vésperas da Copa do Mundo de 1982, em apenas sete dias, Marin teria realizado 13 eventos, entre coquetéis, almoços e jantares para ao menos 1.380 pessoas.
      A última polêmica foi revelada terça-feira em reportagem da Folha segundo a qual Marin pagou R$ 70 milhões por uma nova sede para a CBF, no Rio de Janeiro, que poderia ter custado R$ 39 milhões.
      O dirigente anunciou o negócio no dia 27 de junho de 2012, mas só formalizou a compra do prédio em 31 de agosto, depois que intermediários inexplicavelmente foram incluídos na transação.
      Pois esse político das antigas, irmão siamês de Maluf, que chora teatralmente para se defender e já foi flagrado pela televisão colocando no próprio bolso uma medalha destinada a um atleta, será o principal anfitrião da Copa do Mundo do Brasil, no ano que vem. Alguém duvida de que ele vai conseguir atingir seus objetivos na empreitada?

        quinta-feira, 4 de abril de 2013

        Rogerio Gentile

        folha de são paulo

        Viaduto do Chá tucano
        SÃO PAULO - Os vereadores de São Paulo resolveram contribuir para tornar a cidade um pouco mais confusa. Num lampejo de criatividade, 45 dos 55 parlamentares decidiram subscrever um projeto de lei por meio do qual alteram, após 120 anos, o nome do viaduto do Chá. Querem que passe a se chamar "Viaduto do Chá Prefeito Mário Covas".
        Nada contra o político, morto em 2001, já homenageado em uma praça na região da avenida Paulista e no rodoanel metropolitano. Mas o que realmente São Paulo ganharia com isso, além das despesas necessárias para a adequação das placas?
        Inaugurado em novembro de 1892, o viaduto do Chá foi assim chamado por ter sido erguido perto de uma chácara, no vale do Anhangabaú, onde o barão de Itapetininga plantava chá. Tinha, então, 240 m de comprimento por 14 m de largura (com o crescimento da cidade, foi reconstruído e ficou com 110 m por 25 m).
        Na história do viaduto, não há nada que o ligue particularmente a Covas, o que poderia justificar a junção dos nomes, ressalvando, talvez, o alegado apreço que os adversários diziam que o tucano tinha pelos pedágios -no início, para atravessar o Chá, era necessário pagar três vinténs... Mas essa não parece ser a motivação da Câmara, ainda que oito representantes do PT, velho rival de Covas, tenham assinado a proposta.
        A intenção dos vereadores é a de sempre. Fazer agrados e distribuir homenagens, pouco importando se têm sentido histórico ou se dificultam a vida do cidadão. A frequência com que se muda o nome de logradouros importantes da cidade é impressionante. O túnel Nove de Julho virou Daher Elias Cutait; a ponte do Limão passou a ser chamada de Adhemar Ferreira da Silva; a da Vila Maria, de ponte Jânio Quadros; a avenida Robert Kennedy mudou para Atlântica. E assim por diante.
        Se São Paulo não tomar cuidado, corremos o risco de, algum dia, ver o Ibirapuera virar parque FHC, e a avenida Paulista, avenida Lula da Silva.

          quinta-feira, 28 de março de 2013

          Perder é o de menos[PSDB] - Rogério Gentile

          folha de são paulo

          SÃO PAULO - O PSDB corre muitos riscos em 2014. Perder a eleição presidencial é o de menos, dado o largo favoritismo de Dilma. O perigo maior é o de definhar, tornar-se um partido anoréxico, de baixa relevância. Algo como um novo DEM.
          Três fatores empurram o partido criado em 1988 por Montoro, Covas e tantos outros por essa trilha. O primeiro é a falta de discurso. Desde que Serra escondeu o governo FHC na campanha de 2002, temendo perder para Lula (e perdeu mesmo assim), nunca mais o PSDB soube muito bem o que dizer para o eleitorado. Espalha críticas, mas pouco propõe.
          A tal ponto que o próprio FHC, em evento dos tucanos na última segunda-feira, reconheceu que o PSDB precisa tomar um "banho de povo" se quiser ter chance em 2014. Banho de povo 25 anos depois? Em que gaveta foi parar aquele manifesto de fundação no qual o PSDB prometeu ficar "longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas"?
          O segundo problema do partido é a incrível falta de sintonia dos seus principais nomes, que vivem às turras como garotinhos que disputam para ver quem olhará primeiro o Palácio do Planalto pelo binóculo. Serra briga com Aécio, que desconfia de Alckmin, que reclama de FHC.
          Enquanto Dilma já foi lançada à reeleição pelo PT, o mineiro tem dificuldade até para ser escolhido como novo presidente da legenda. Imagine o que ele ainda vai ter de passar para conseguir colocar seu nome na urna eletrônica de 2014.
          Para completar, há uma grande diferença em relação às disputas passadas. Pela primeira vez existe alguém tentando ocupar o espaço do PSDB no jogo político, ainda que isso não seja uma tarefa simples. Trata-se de Eduardo Campos (PSB), que, além de despertar simpatia na elite econômica, tem avançado nas conversas com partidos que tradicionalmente se alinham com os tucanos. Se sua candidatura prosperar, o PSDB corre o risco de ficar longe do segundo turno e minguar no Congresso.

            quinta-feira, 14 de março de 2013

            Rogerio Gentile

            folha de são paulo

            A prisão dos corintianos
            SÃO PAULO - O caso dos corintianos presos na Bolívia após a morte de um garoto em uma partida de futebol merece mais atenção do governo brasileiro. A história é esquisita: como é possível que 12 pessoas sejam responsabilizadas pelo disparo de um só sinalizador?
            As imagens da TV permitem observar que uma pessoa manipula o artefato, ou seja, no mínimo 11 dos 12 torcedores não são os autores do crime, se é que algum deles é o verdadeiro responsável.
            Segundo a polícia boliviana, dois deles foram indiciados como responsáveis pelo crime por estarem com sinalizadores similares. Se isso é verdade, ainda que eventualmente tenham descumprido as leis do país e mereçam ser processados, não são culpados pela morte. Os demais são chamados de cúmplices, sabe-se lá por quais razões.
            A impressão que fica é a de que a polícia boliviana, querendo dar uma resposta rápida à opinião pública, prendeu os que estavam por perto e não tem provas para incriminá-los. A declaração dada pela chefe da investigação à Folha reforça a suspeita: "Não dá para ter certeza plena se realmente foi um dos que estão presos. Só vamos saber quando as investigações acabarem, em seis meses".
            Apesar disso, os 12 torcedores estão desde o dia 20 de fevereiro em uma prisão, amontoados em celas apertadas. Na ala dos corintianos, há 40 pessoas e só um banheiro, com um chuveiro e um buraco no chão.
            No Brasil, o caso dos corintianos não desperta compaixão, dado o histórico das torcidas organizadas. Ano após ano, os episódios de violência se acumulam. As facções, muitas das quais envolvidas no tráfico de drogas, contribuem para a decadência do futebol brasileiro. Qual pai tem coragem de levar seu filho para assistir a um Palmeiras e Corinthians?
            Ainda assim, por mais que a sociedade deseje o fim da violência e até a extinção das torcidas organizadas, é terrível pensar que aqueles sujeitos possam estar presos injustamente.

              quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

              Rogério Gentile, Eliane Cantanhêde, Paula Cesarino Costa

              folha de são paulo


              ROGÉRIO GENTILE
              Números torturados
              SÃO PAULO - O governo de São Paulo brinca com os números da violência da mesma forma que um garoto que não sabe perder. Jamais erra um chute. Os outros é que não enxergam a bola entrar no gol.
              A Secretaria da Segurança Pública divulgou uma série de dados na sua página na internet segundo os quais a violência arrefeceu no mês de janeiro: "Homicídios caem 21% em janeiro", "Capital tem redução de 37,17% nos homicídios dolosos" e assim vai, sempre de modo a enaltecer o sucesso obtido pela administração.
              Tais dados foram replicados em dezenas de sites, rádios e em jornais do interior, o que contribui positivamente para a imagem do governador Alckmin, candidato à reeleição. Mas a história não é bem essa.
              Ao contrário do que disse o governo, o número de assassinatos aumentou em janeiro, seguindo uma tendência de alta que se observa desde agosto. Houve 416 casos de homicídio no Estado, com 455 vítimas, contra 356 casos em janeiro de 2012, com 386 mortos. O mesmo ocorreu com outros 13 tipos de crime.
              O problema é que, para obter os números favoráveis, a secretaria rasgou seu próprio manual de estatística. Em vez de comparar os dados de janeiro com os do mesmo mês de 2012, optou por cotejá-los com os de dezembro, o que é bem capcioso.
              Nas páginas 5 e 6 de seu "Manual de Interpretação" de estatísticas, a secretaria diz que os índices criminais estão sujeitos à sazonalidade. "Existem diversas situações e fatores ligados ao calendário anual que explicam por que a criminalidade sobe ou desce, sistematicamente, em certos momentos", diz o texto, citando exemplos como férias escolares, estações do ano etc. A recomendação é que a comparação seja feita com base "em períodos equivalentes de tempo": 1º semestre com 1º semestre, janeiro com janeiro etc.
              Não será com a calculadora na mão, torturando números, que o governo vai conseguir atenuar a violência em São Paulo.



                ELIANE CANTANHÊDE
                No grito
                BRASÍLIA - Os articuladores e manifestantes do movimento "Fora, Renan!", com milhares de assinaturas na internet, miraram no que viram e acertam no que não viram.
                A intenção era, primeiro, impedir a posse de Renan Calheiros na presidência do Senado, criando constrangimento para a de Henrique Alves na da Câmara. Depois, minar as "condições de governabilidade" sobretudo de Renan, mais conhecido da plateia e mais emblemático.
                Não deu certo, mas obriga os presidentes do Senado e da Câmara a se esfalfarem para dar respostas à pressão e mostrar que são melhores do que parecem. Há nisso, obviamente, um forte lado marqueteiro. Mas há também efeitos práticos.
                Renan promete reduzir cargos comissionados e transformar o serviço médico do Senado em posto de emergência, despachando os médicos para o SUS. Se vai ter força para fazer, não se sabe. Mas a promessa é boa.
                E Henrique reuniu os líderes, num dia, e colocou para votar, no outro, o fim do 14º e do 15º salários de Suas Excelências. Em vez de dois salários a mais em todos os quatro (ou oito anos) de mandato, vão passar a ter direito a um a mais só em dois anos, o de chegada e o de saída (mesmo os que, reeleitos, saem sem sair).
                A excrescência significava cerca de R$ 54 mil a mais para cada parlamentar e de R$ 30 milhões a menos para os cofres públicos por ano. Como foi criada em 1946 -há quase 70 anos, portanto-, não era nada simples acabar com ela. Só mesmo por forte pressão da sociedade.
                Como, aliás, ocorreu com o descalabro do Tribunal de Contas do DF, que tenta aumentar de 43,53% a 65% os salários de seus funcionários. A medida, vetada pelo governo do DF e aprovada pela Câmara Distrital, acaba de ser suspensa por liminar do Tribunal de Justiça. Depois, claro, de parar na imprensa.
                Moral da história: resistir, pressionar e gritar é preciso, sempre e cada vez mais. A luta continua!


                PAULA CESARINO COSTA
                448 anos para preservar
                RIO DE JANEIRO - Se a natureza deu ao Rio uma beleza rara e incomparável, foram os homens que criaram, em momentos de loucura ou de genialidade, algumas das principais riquezas desta cidade maravilhosa. O Jardim Botânico, a floresta da Tijuca, o aterro do Flamengo, os traçados de grandes avenidas e as favelas encarapitadas nos morros. Entre pistas e palmeiras, o parque do aterro é um espaço único de onde se vê a baía de Guanabara, a silhueta de Niterói, o Pão de Açúcar, o Outeiro da Glória, o Cristo.
                Em seus 448 anos, que se completam amanhã, o Rio se transformou: morros colocados abaixo, áreas imensas aterradas, obras arquitetônicas erguidas e demolidas, árvores destruídas, pessoas removidas.
                É difícil imaginar, hoje, que o morro de Santo Antonio virasse -por questões sanitárias, urbanísticas ou só por especulação- uma área plana e sua terra fosse usada para levar para longe o mar sem resistência.
                Idealizado por Lota de Macedo Soares, que convenceu o governador Carlos Lacerda e reuniu o arquiteto Affonso Eduardo Reidy e o paisagista Roberto Burle Marx, o parque foi tombado pelo Iphan em 1965, antes mesmo de ser inaugurado -a pedido de Lota, que temia a "ganância" e a "leviandade dos poderes públicos".
                Eike Batista tem plano para "revitalizar" a Marina da Glória. O Iphan aprovou seu anteprojeto, que prevê edificação de 15 m de altura. Diz que constava no projeto do parque, feito por Reidy, para abrigar um aquário.
                O aterro é um precioso exemplo de harmonia, já quebrada pela construção de um teatro ao lado do MAM, um dos mais belos exemplares da arquitetura modernista. Usou-se o mesmo argumento de que existia no projeto original. Ao ser construído, o teatro distorceu volumes a um nível absurdo e provou como o original pode ser modernamente deturpado.Que o Rio receba, de presente de aniversário, a contenção da leviandade.


                quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

                Rogério Gentile

                folha de são paulo

                Chave de braço
                SÃO PAULO - Fernando Haddad mal assumiu a Prefeitura de São Paulo e já enfrenta um delicado problema na Câmara Municipal que pode tumultuar o início do seu mandato. O problema tem mais de 100 kg, é forte como um touro e não gosta de perder. Seu nome é Aurélio Fernandez Miguel.
                Aurélio Miguel tornou-se conhecido em 1988, quando ganhou a única medalha de ouro do Brasil na Olimpíada de Seul. Com os braços erguidos, joelhos no tatame e sorriso contagiante, o judoca virou herói nacional. Retornou ao país um dia antes de Ulysses Guimarães promulgar a Constituição e fez questão de relacionar as coisas, quem sabe já pensando no futuro. Discurso ensaiado, afirmou que a medalha de ouro era a sua "contribuição à soberania do povo brasileiro".
                Nos anos seguintes, acusou um dirigente de surrupiar dólares de atletas, reclamou da seriedade dos políticos e correu ao lado de Collor no famoso dia do verde e amarelo, quando o então presidente convocou a população a apoiá-lo nas ruas vestindo as cores da bandeira, mas os manifestantes pelo país preferiram o preto do impeachment.
                O judoca acabou na política, elegendo-se vereador em São Paulo pelas mãos de Valdemar Costa Neto, aquele mesmo condenado no julgamento do mensalão.
                Em seu terceiro mandato na Câmara, Miguel teve seu sigilo bancário quebrado pela Justiça. É suspeito de ter recebido mais de R$ 1,1 milhão para não revelar irregularidades encontradas em shoppings por uma CPI que ele presidiu. O vereador nega.
                Miguel pode tumultuar a vida do prefeito na Câmara justamente porque quer a sua ajuda para evitar a abertura de um processo de cassação contra ele. Seu argumento, em tom de ameaça, é um só: diz que não comandou sozinho a CPI. O relator da investigação foi o vereador Antonio Donato (PT), hoje secretário de Governo de Haddad. O prefeito vai sucumbir à chave de braço do judoca?

                quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

                Rogério Gentile

                folha de são paulo

                Voto envergonhado
                SÃO PAULO - A Folha procurou todos os senadores no início da semana a fim de lhes perguntar como cada um votou na eleição para a sucessão de José Sarney na presidência do Senado. O resultado é que Renan Calheiros teve menos apoio na enquete pública do que na votação oficial secreta...
                O debate sobre o voto secreto existe no Congresso Nacional há mais tempo que o próprio Sarney, que estreou na Câmara dos Deputados em 1955. Três anos antes, por exemplo, o deputado Nestor Duarte dizia que o sigilo do voto era uma garantia para afastar pressões. "Oportunidades há em que a condição da livre decisão está na publicidade do voto. Ocasiões existem em que essa condição só se efetiva sob o amparo do segredo."
                O Brasil tinha deixado havia apenas sete anos o Estado Novo, e o sigilo do voto fazia sentido num país ainda traumatizado pela ditadura Vargas, num Congresso que estava tentando se fortalecer. O mesmo pode-se dizer por ocasião da Constituição de 1988, pós-ditadura militar, que também estabeleceu a garantia do sigilo em algumas circunstâncias.
                Mas, passados tantos anos da redemocratização, o voto secreto ainda faz sentido? Um parlamentar tem o direito de esconder suas opiniões do seu eleitor? Será que o voto secreto, em situações como a da eleição para o comando do Legislativo ou mesmo em processos de cassação de mandato, não virou apenas instrumento para facilitar o funcionamento de grandes balcões de negócios?
                Anos atrás, muito antes de imaginar que poderia um dia contar com o voto secreto, o próprio Calheiros escreveu artigo na Folha no qual defendia o instituto do sigilo. No texto, o senador dizia que o voto secreto surgiu com o exclusivo propósito de proteger a independência no exercício do mandato. "É a forma de preservar os parlamentares de pressões externas." Pois a questão é essa mesma. É justo preservar um político da pressão do seu próprio eleitor? O que temem os envergonhados?

                quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

                Rogerio Gentile - O poder que recicla

                Folha de São Paulo

                O poder que recicla
                SÃO PAULO - Os senadores preparam-se para jogar um balde de água fria naqueles que acreditam que o julgamento do mensalão produzirá um efeito moralizador sobre a política brasileira. Amanhã, ao que tudo indica, Renan Calheiros (PMDB) será eleito novamente presidente do Senado por larga vantagem.
                Político habilidoso, Calheiros integrou a base de apoio de todos os presidentes eleitos após a ditadura militar. Adversário de Fernando Collor em Alagoas, onde costumava chamá-lo de "príncipe herdeiro da corrupção", virou líder do seu governo na Câmara dos Deputados, em 1990.
                Depois disso, ele apoiou o processo de impeachment, dirigiu uma estatal na administração Itamar Franco, foi ministro da Justiça no governo Fernando Henrique e presidente do Senado com Lula.
                O auge da notoriedade de Calheiros, no entanto, ocorreu justamente na sua queda da presidência do Senado, em 2007, após ter sido acusado de bancar as despesas de sua então amante, Mônica Veloso, com dinheiro oferecido por um lobista amigo.
                O escândalo acabou rendendo um famoso ensaio para a revista "Playboy" e um livro, "O Poder que Seduz", no qual Mônica revelou intimidades do casal e alguns momentos de alegria incontida do senador: "O celular tocou. Era ele [Calheiros], radiante como uma criança por ter tomado café com o presidente (...)".
                Calheiros passou, então, alguns anos longe dos holofotes, tendo de saborear mais discretamente
                seus cafés com os presidentes, mas ainda com bastante influência nos meandros de Brasília. Tanto assim que recebeu, entre os colegas parlamentares, o apelido de "o despachante do Senado".
                Agora, para inspiração dos mensaleiros, o peemedebista retoma sua trajetória de sucesso, favoritíssimo na disputa pelo comando do Senado. Afinal, na política brasileira não existe fim da linha, não existe aterro sanitário. Qualquer um pode voltar. O tempo recicla tudo.

                  quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

                  Rogerio gentile

                  FOLHA DE SÃO PAULO

                  Os românticos do crack
                  SÃO PAULO - Após muita expectativa, revelou-se um tanto quanto tímido o tal programa de internações à força na cracolândia promovido por Alckmin. Temendo ser tachado de "higienista", o governo paulista tem se restringido aos casos em que familiares pedem providências. Os que não têm essa sorte, de modo geral, continuam largados na rua.
                  A cracolândia é, há anos, um dos lugares mais angustiantes de São Paulo. Uma espécie de quadrilátero do suicídio, onde a cidade concorda que centenas de pessoas, incluindo mulheres grávidas e crianças, vão se matando aos poucos, dia após dia.
                  ONGs e afins alegam que os usuários do crack têm o direito de recusar atendimento. Dizem que só devem ser internados aqueles que assim desejarem. Mas será mesmo que os 'noias' que perambulam pela cracolândia como 'zumbis' têm condição de cuidar da própria vida? A dependência à droga não se tornou mais forte do que o medo de morrer?
                  Outro argumento muito comum contra a internação à força é o da baixa eficiência terapêutica. Pode até ser verdade. Mas ainda assim é melhor tentar salvar os dependentes, internando-os com indicação médica, do que simplesmente deixá-los perecer na rua, como ocorre hoje.
                  O enfrentamento do problema perdeu força em 2012, quando Alckmin e Kassab iniciaram uma ação atabalhoada na cracolândia. A PM foi acionada para prender traficantes, mas acabou jogando bombas de efeito moral em dependentes; assistentes sociais foram mandados para a região, mas nem mesmo o centro de tratamento da prefeitura estava pronto para receber os doentes. O resultado foi o fracasso da operação.
                  Naquela ocasião, sobrou atitude, mas faltou planejamento para as autoridades, mais preocupadas com o calendário eleitoral. Agora, o problema parece ser o inverso. Com cerca de 700 leitos de retaguarda, o que parece faltar é determinação para enfrentar o discurso politicamente correto dos "românticos do crack".

                    quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

                    Rogerio Gentile

                    FOLHA DE SÃO PAULO

                    Plano B
                    SÃO PAULO - A economia "mais ou menos" dos anos Dilma tem estimulado a imaginação de muitos políticos, que já enxergam seus nomes na urna eletrônica de 2014. Aécio Neves, Eduardo Campos, Marina Silva e até mesmo José Serra deram seus primeiros passos no longo percurso da sucessão presidencial.
                    Aécio tomou conta do PSDB e, ainda que timidamente, quando consegue se desprender dos encantos do Rio de Janeiro, se contrapõe ao governo federal, com críticas, sobretudo, ao baixo crescimento do PIB.
                    Diz que os últimos dois anos foram "perdidos" para a economia e bate na tecla de que o país está na lanterna dos emergentes. É o candidato "natural" da oposição.
                    Campos dá sinais calculadamente contraditórios, alternando críticas e elogios ao governo. Ora diz que falta rumo estratégico na condução da economia, ora afirma que a presidente enfrenta a situação com coragem -como se estivesse ensaiando o discurso do "Lula fez, mas Dilma não conseguiu dar continuidade". Seria o candidato da "dissidência".
                    Marina anda sumida desde a eleição de 2010, mas seu nome ainda tem muito apelo em alguns setores da sociedade. Movimenta-se para criar um novo partido, o que não é uma tarefa fácil. Kassab, com a máquina da prefeitura na mão, demorou um ano para conseguir. Marina é o nome da chamada "terceira via".
                    Serra terminou o ano muito desgastado após a derrota em São Paulo, mas, mesmo assim, dá sinais de que não desistiu do Planalto. Insatisfeito com o domínio de Aécio no PSDB, espalha que pode deixar o partido. Acha que, se a economia estiver mal em 2014, ressurgirá das cinzas. Seria o nome da oposição "visceral".
                    A eleição está ainda muito longe, e alguns dos citados acima provavelmente não vão chegar às urnas. Aliás, a nova caravana da cidadania de Lula é um indicativo de que nem mesmo Dilma está garantida. Na dúvida sobre a economia, o PT quer deixar engatilhado o seu "plano B".

                      quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

                      Rogerio Gentile

                      FOLHA DE SÃO PAULO

                      A bancada da corrupção
                      SÃO PAULO - É normal ocorrer no Congresso a formação de bancadas suprapartidárias por parlamentares que, a despeito de suas legendas, se unem para defender causas comuns. A bancada "ruralista" representa o agronegócio. A "da bola", os clubes de futebol. Já a bancada "da bala" quer leis mais duras para a segurança pública.
                      Ao retornar das férias, em fevereiro, a Câmara terá pela primeira vez, de forma pública, uma "bancada da corrupção", a ser integrada pelos deputados condenados no julgamento do mensalão: José Genoino (PT), João Paulo (PT), Valdemar Costa Neto (PR) e Pedro Henry (PP).
                      Seu objetivo é claro: defender a tese de que o STF não tem o direito de cassar os seus mandatos. Na visão dessa turma, só o próprio Legislativo pode tomar tal decisão. Ao STF caberia apenas a tarefa de pedir à Câmara a análise dessa possibilidade.
                      O grupo ainda não explicou como um deputado condenado à prisão poderia, na prática, exercer suas prerrogativas. Voto à distância? Discurso por meio de conferência eletrônica? Não se sabe. Mas, mesmo assim, já obteve apoios. O atual presidente da Câmara, Marco Maia (PT), que chegou a bater boca com ministros do STF, declarou cogitar a hipótese de dar abrigo aos parlamentares para impedir suas prisões.
                      O seu provável sucessor, Henrique Alves (PMDB), também é simpatizante da causa dos condenados. Há 42 anos na Câmara, tem afinidades políticas com o grupo, integrando a base de Dilma. Na época em que era aliado de FHC, vale lembrar, chegou a ser indicado como vice-presidente na chapa de Serra (PSDB), mas desistiu após a notícia de que sua ex-mulher afirmara à Justiça que ele tinha US$ 15 milhões em paraísos fiscais.
                      A fim de divulgar sua causa, a "bancada da corrupção" poderia emprestar, ou melhor, se apropriar de um grito de guerra difundido na redemocratização. Com uma pequena alteração, evidentemente: "Mensaleiro unido jamais será vencido".

                        quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

                        Rogerio Gentile


                        Grampolândia
                        FOLHA de SÃO PAULO - O governador Alckmin deveria prestar mais atenção ao que diz o orador Alckmin. Como é comum na política, o comportamento do primeiro não está em exata sintonia com a pregação do segundo.
                        Na semana passada, ao receber um prêmio, o tucano fez uma defesa enfática da transparência no serviço público. "A sociedade tem o direito de saber o que é feito, como é feito, quando é feito", afirmou.
                        Três dias depois, no entanto, foi possível perceber que a prática não é bem essa em sua administração. Sem grandes explicações, o governo paulista começou a desmontar uma central de escutas instalada, desde 2006, num prédio da Polícia Militar no interior de São Paulo com o objetivo original de investigar o crime organizado.
                        O problema é que pairam muitas desconfianças sobre a tal central de escutas. Suspeita-se que, além de criminosos, delegados, políticos e até mesmo jornalistas foram espionados pelo órgão sem a devida autorização legal. Em 2012, ao menos 81,8 mil grampos foram feitos no Estado.
                        Tempos atrás, o deputado estadual Campos Machado (PTB), aliado do governador, externou o assunto na Assembleia, criticando o então secretário da Segurança Pública, Ferreira Pinto: "Todos ficaram receosos, senhor secretário, receosos do seu poder. Ou alguém tem alguma dúvida sobre o grampeamento que existe em todo o Estado?".
                        Questionado sobre o desmonte da central de escutas e as suspeitas de espionagem, o governo Alckmin limitou-se a lavar as mãos, dizendo que o órgão é de responsabilidade do Ministério Público, que, por sua vez, nega ter relação com o assunto.
                        Ou seja, além de não investigar eventuais crimes cometidos ali, o governo simplesmente afirma não ter nada a ver com a central, que operava num prédio da PM, era formada por policiais e coordenada por um coronel da reserva. Como diria o orador Alckmin: "A sociedade tem o direito de saber o que é feito, como é feito, quando é feito".

                          quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

                          Rogério Gentile


                          Quem era o chefe?
                          SÃO PAULO - O PT começou a entregar seus anéis a fim de preservar Lula. Após passar anos dizendo que o caso do mensalão era uma farsa, um simples episódio de recursos de campanha não contabilizados, um ato de golpismo, o partido finalmente admitiu que houve um crime.
                          Ao saber que Marcos Valério abriu o bico e acusou Lula de ser o verdadeiro chefe da quadrilha, o partido passou a dizer, de forma orquestrada, que o publicitário é um criminoso, e que, por isso, suas declarações não deveriam ser levadas em conta.
                          "Não vou falar sobre um delinquente", afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Dilma. Líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto usou o mesmo termo e acrescentou que Valério deveria, na verdade, estar preocupado com as condições das prisões. Marco Maia, presidente da Câmara, foi além, dizendo que o caso "não merece ser investigado", uma vez que "dar ouvido a esse cidadão é dar ouvido a um criminoso".
                          Pois é, não há criminoso sem crime. Valério participou de um esquema que desviou dinheiro público para comprar apoio político no Congresso. Assim como Delúbio, Genoino e Dirceu. Todos eles são delinquentes, conclusão que, pelo jeito, por paralelismo, os próprios petistas alcançaram. Afinal, Valério não poderia nem teria motivos para praticar esses crimes sozinho, certo?
                          A questão então, agora, é outra. Lula era o chefe da quadrilha? Sabia do mensalão? Realmente, é estranho que Valério tenha resolvido falar somente após ter sido condenado à cadeia. Estamos diante de uma mentira inventada por alguém que busca minimizar sua pena? Pode ser que sim, pode ser que não.
                          Diante da importância do acusado, um dos presidentes mais importantes da história, é necessário que se faça o quanto antes uma apuração rigorosa. O país não pode ficar na dúvida. O próprio benefício da delação premiada deve ser oferecido. Mas, para isso, o operador do mensalão tem de provar o que diz.

                            quinta-feira, 29 de novembro de 2012

                            O poder de Rosemary - Rogerio Gentile


                            SÃO PAULO - Não é da tradição do jornalismo brasileiro tratar da vida privada dos políticos. Diferentemente do que ocorre nos EUA e em outros países, opção sexual, amantes, bebedeiras e uso de drogas não são normalmente considerados como assuntos para reportagens.
                            O entendimento muda se o sujeito mistura sua vida particular com a profissional. Um prefeito, por exemplo, que nomeie a sobrinha para um cargo público pode acabar virando notícia. O mesmo ocorre com um secretário de Segurança que frequente a casa de um chefe de quadrilha.
                            Na sexta passada, a PF indiciou, por suspeita de corrupção e tráfico de influência, a assessora Rosemary Noronha. Ex-secretária do PT, foi nomeada no governo Lula para o cargo de chefe de gabinete do escritório da Presidência em SP e rodou o mundo a serviço do Planalto, viajando com o então presidente para 23 países.
                            Acumulou tanto poder que conseguiu, inclusive, emplacar diretores em agências reguladoras mesmo quando havia resistência no Congresso. Em situação incomum, o Senado aprovou um nome indicado por Rose que vetara quatro meses antes.
                            Há anos especula-se nos corredores do governo sobre a origem do seu poder, zum-zum-zum que cresceu agora com a ação da PF. Em editorial, o jornal "O Estado de S. Paulo" disse que sua influência "derivava diretamente de sua intimidade com Lula".
                            Diante da gravidade das acusações da PF, Lula deveria dar explicações sobre sua antiga assessora. Ela tem qualificações para o cargo que ocupava? Quais eram suas atribuições nas viagens e por que ganhou passaporte diplomático? E como conseguiu dobrar o Senado?
                            Dilma, que a deixou no cargo até sábado, também deveria prestar esclarecimentos. Se a função de Rose era tão importante, por qual razão a presidente simplesmente extinguiu o seu cargo após as revelações da PF?
                            Sem explicações convincentes, resta uma questão: Lula misturou sua vida privada com a pública?

                              quinta-feira, 15 de novembro de 2012

                              Sequência de erros - Rogério Gentile


                              ROGÉRIO GENTILE
                              Sequência de erros
                              SÃO PAULO - A crise na segurança pública de São Paulo já é comparável à de 2006 (quando a facção criminosa PCC promoveu três ondas de ataques no Estado), mas, mesmo assim, o governo Geraldo Alckmin continua a cometer um erro atrás de outro na condução do problema.
                              O primeiro foi subestimar a quadrilha, inebriado pelo sucesso obtido na redução dos casos de homicídios dos últimos anos. "O que eles têm são 30, 40 pessoas que controlam o tráfico em larga escala", disse mais de uma vez o secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto. Pois esse "grupelho" promoveu uma verdadeira matança de policiais militares neste ano. Desde janeiro, 94 PMs foram assassinados, quase o dobro de 2011 (51) e um pouco menos do que em 2006 (104).
                              Alckmin também demorou muito para agir, temendo prejudicar a campanha eleitoral de José Serra a prefeito. Esperou o fechamento das urnas para realizar uma operação em Paraisópolis, local onde foi tramada a morte de vários policiais. O detalhe é que o governo de São Paulo já sabia do envolvimento de criminosos dessa favela nos assassinatos desde pelo menos o mês de agosto, quando a Polícia Federal prendeu um deles em Santa Catarina.
                              Só depois da eleição, também, o governador resolveu montar ações em conjunto com o governo federal. E, ainda assim, cometeu a imprudência de mandar um dos chefes da quadrilha para uma penitenciária em Rondônia.
                              No passado, medidas como essa ajudaram a organização criminosa a se estabelecer em outras regiões do país, como várias autoridades já reconheceram. Hoje, estima-se que o PCC atue em pelo menos 15 Estados, além de São Paulo.
                              Minimizando o problema e demorando a tomar providências, o governo paulista perdeu controle sobre uma parte da Polícia Militar, que partiu para um contra-ataque fora da lei, matando quem vê pela frente, criminoso ou não.