terça-feira, 23 de abril de 2013

Roberto Carlos tenta barrar livro que trata de cultura durante a jovem guarda

folha de são paulo

RAQUEL COZER
COLUNISTA DA FOLHA
LUCAS NOBILE
DE SÃO PAULO

Os advogados do cantor Roberto Carlos enviaram, no início deste mês, uma notificação extrajudicial pedindo a interrupção da venda e o recolhimento dos exemplares à disposição, em livrarias, de "Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude", de Maíra Zimmermann, lançado no último dia 4 de abril pela Estação Letras e Cores.
Resultado de uma dissertação de mestrado em moda, cultura e arte no Centro Universitário Senac e publicado com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o livro aborda a relação do movimento com a consolidação da cultura juvenil no Brasil dos anos 1960.
Segundo a notificação, "o livro traz uma série de situações que envolvem o notificante [Roberto Carlos] e traz detalhes sobre a trajetória de sua vida e intimidade". Além disso, diz o texto, "a própria capa do livro contém caricatura do notificante e dos principais integrantes da jovem guarda sem que eles nem sequer fossem notificados".
Zimmermann, que contratou um advogado e enviou uma contranotificação ao escritório de Roberto Carlos, diz que a obra não trata da intimidade do cantor. "A impressão que dá é que eles não tiveram contato com o livro." Ela destaca que a pesquisa se baseou em arquivos e revistas dos anos 1960. "Não fui bisbilhotar fofocas. É uma pesquisa superséria, resultado do meu mestrado."
Divulgação
Capa do livro "Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude", de Maíra Zimmermann
Capa do livro "Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude", de Maíra Zimmermann
A notificação alega que "a publicação das fotografias também violou o direito autoral de determinados fotógrafos, que não concederam autorização para publicação de suas fotos". A autora diz que o volume tem apenas uma foto de Roberto Carlos, posada, junto com com Erasmo Carlos, Wanderléa e outros personagens do movimento. A imagem foi comprada de uma empresa licenciada pela editora Abril, detentora dos direitos.
MUDANÇA NO CÓDIGO CIVIL
A notificação se vale de trecho do artigo 5º da Constituição Federal que veda a violação da intimidade e da vida privada, bem como sua exploração indevida. Cita também o artigo 20 do Código Civil Brasileiro sobre o tema.
Esse é justamente o artigo cuja alteração, proposta pelo deputado Newton Lima (PT-SP), foi aprovada pela Câmara dos Deputados neste mês, visando a liberação de filmes ou a publicação de livros biográficos sem autorização da pessoa retratada ou de sua família. O projeto foi encaminhado para votação no Senado.
Foi com base nessa legislação que a Justiça proibiu, em 2007, a comercialização da biografia "Roberto Carlos em Detalhes", de Paulo Cesar de Araújo, que acabou se tornando símbolo para aqueles que trabalham pela alteração da lei.
Procurado pela Folha, o advogado Marco Antônio Campos, da Campos Escritórios Associados, que representa o cantor, diz que a notificação decorreu da utilização comercial não autorizada da imagem de Roberto Carlos.
"Fazer aquela caricatura de forma desautorizada viola os direitos de imagem do Roberto", diz, referindo-se à capa do livro. "Não estamos tentando proibir a circulação do livro, não temos nenhuma objeção, nenhuma intenção censória quanto ao conteúdo do livro."
A notificação, no entanto, refere-se também ao que se entende por "imagem-atributo", "imagem relacionada à vida do indivíduo em sociedade. É a imagem que se tem de alguém em razão de seus pensamentos e de seu comportamento social".
"É clara a conclusão de que a imagem e a vida privada do notificante estão sendo indevidamente exploradas pela notificada", diz o texto.
Sobre a imagem de capa, de autoria de Douglas K. do Amaral, Maíra Zimmermann diz que não se trata de uma caricatura, que se caracteriza por distorções de proporção para acentuar aspectos de uma pessoa e satirizá-la. "É uma ilustração baseada em croquis de moda e não é de nenhuma maneira ofensiva. Pelo contrário, é uma homenagem."
Dody Sirena, empresário do cantor, disse à Folha que "todo mês, há três, quatro situações de livros ou shows explorando indevidamente a imagem do Roberto".
"Fazemos a notificação porque a lei nos protege. São tantos casos que eu já passo direto para o escritório jurídico. Fazemos isso em situações que não configuram uma homenagem ao Roberto, mas em casos que usam a imagem dele para ganhar dinheiro", diz o empresário.
O livro saiu com tiragem de mil exemplares.

A TV é hoje mais interessante que o cinema, diz Fernando Meirelles em entrevista

folha de são paulo

SILVANA ARANTES
DE SÃO PAULO

O cineasta Fernando Meirelles, autor de seis longas (dois dos quais acumulam oito indicações ao Oscar), tem hoje em sua produtora, a O2, oito projetos de séries para TV.
Os números são sinal não só do aquecimento do mercado proporcionado pela Lei da TV Paga (2011) mas também do que ele avalia como uma mudança de "paradigma do audiovisual brasileiro". Para o diretor, "a TV é hoje mais interessante do que o cinema", um espaço "onde a inventividade é mais possível".
Embora defenda a superioridade da televisão em relação ao cinema, Meirelles se prepara para filmar novo longa no segundo semestre.
"A TV ainda não paga a qualidade [de produção] que o cinema paga. Mas acho que é por pouco tempo", diz.
Avener Prado/Folhapress
O diretor Fernando Meirelles chega para reunião de cineastas em SP
O diretor Fernando Meirelles chega para reunião de cineastas em SP
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Folha - Qual é a sua avaliação sobre a TV hoje?
Fernando Meirelles - A TV está mais interessante do que o cinema. Potencialmente, a TV é muito melhor para contar histórias. O longa virou o conto, e a televisão virou o romance. Nada contra o conto. Mas a TV é onde você pode desenvolver seus personagens numa série de 13 horas. Num conto você não chega a isso. Num longa também não. Nada contra o cinema. É uma virtude da TV.
Por que a gente não descobriu isso antes? A minha tese é técnica. Com as câmeras digitais, a TV tem qualidade melhor. Mas, sobretudo, agora a gente compra TV de plasma de 50 polegadas e tem uma experiência de ver TV com qualidade.
Cite suas séries favoritas.
Gosto de gravar e assistir tudo de pacote depois. Acho que o sucesso da Netflix é um pouco por isso. A primeira em que mergulhei de cabeça foi "Mad Men". "Breaking Bad" é sensacional, uma referência. "The Shield" é muito boa. "Homeland" também.
Seu diagnóstico de que a TV está mais interessante do que o cinema aplica-se ao Brasil?
Aqui, na hora em que as séries começaram a ser assistidas, foi criada a Lei da TV Paga, que é tão marcante como a Lei do Audiovisual [1993].
Naquele momento, não existia cinema. E passou a haver uma indústria. Essa lei é um segundo passo enorme, que muda o paradigma, não só da TV, do cinema também.
A TV aberta terá de se reinventar?
Não, mas ela vai mudar de lugar. Vai ter um lugar de menos influência, de menos protagonismo. Vai ser como nos EUA, onde todo mundo tem TV a cabo, mas está lá a ABC, a CBS, sem a influência de antes. Aqui já está assim.
Nos últimos 20 anos, houve queda suave [de audiência]. Essa coisa de "eu falo para todo o Brasil" vai mudar.
A influência da TV Globo, inclusive na esfera política, tende a diminuir?
Eles ainda terão grande peso por um bom tempo, mas estão se ajustando para uma queda. Daqui a um tempo não vão conseguir ter uma máquina daquele tamanho. A operação deles é muito cara. Mas eles sabem. Estão tentando achar o jeito de operar.
O que é um exemplo de inovação na TV?
A série israelense "Sessão de Terapia" é uma experiência radical e bem-sucedida. Uma conversa entre duas pessoas durante 30 minutos e sobre relação! É de uma ousadia para a TV! O cara que resolveu bancar aquilo é doido.
No cinema há inovação?
Sim, mas ninguém vê. O cinema está ficando muito careta. Essas redes de exibição têm o investimento todo no blockbuster, nesses filmes em que o dinheiro de marketing é três vezes maior que o de produção. O cinema de invenção fica relegado a um festival ou outro, a uma salinha.
Até nesse sentido a TV é mais interessante que o cinema. O cinema está virando a hegemonia do mainstream.
O sr. planeja filmar um longa neste ano. Ainda se interessa em escrever contos?
Sim. Para os contos, você ainda consegue estrutura melhor. O preço por minuto é dez vezes mais caro do que para uma série de TV. A TV não paga a qualidade que o cinema paga. Mas acho que é por pouco tempo.
Que séries sua produtora desenvolve atualmente?
Estamos rodando "Destino Rio" e "Destino São Paulo" para a HBO e "Contos do Edgar" para a Fox. "A Verdade de Cada Um" está no ar (NatGeo). Começamos "Beleza S.A.". Quico [filho de Fernando] e eu desenvolvemos "Os Experientes", para a Globo, sobre gente acima dos 80 anos. Há projeto da série de ação "Chumbo Grosso" e piloto de "Trabalho Duro".
*Qual é a sua avaliação do governo Dilma? [Meirelles apoiou Marina Silva na campanha presidencial]*
Como assim governo? Não estamos em plena campanha eleitoral? O congresso nos manda diariamente o recado de que agora é a hora de fazer o diabo, tirar Eduardo Campos e Marina Silva da jogada de qualquer maneira. E deixamos para pensar em infraestrutura, inflação, desaceleração da economia, safra de soja empacada na estrada e outros assuntinhos de menor importância em 2014.
Como avalia o resultado do julgamento do mensalão?
Achei bom. [O presidente do Supremo Tribunal Federal] Joaquim Barbosa é o meu herói. Se fosse menos duro, seria o meu super-herói.
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VIDA
Nascido em São Paulo, formou-se em arquitetura pela FAU-USP. Tem 57 anos. É sócio da produtora O2 Filmes, que trabalha para os mercados publicitário, de cinema e de televisão
FILMOGRAFIA
"O Menino Maluquinho 2" (codirigido por Fabrizia Pinto), "Domésticas" (codirigido por Nando Olival), "Cidade de Deus" (codirigido por Katia Lund), "O Jardineiro Fiel", "Ensaio sobre a Cegueira", "360"
CARREIRA
Concorreu ao Oscar de melhor diretor por "Cidade de Deus" e à Palma de Ouro com "Ensaio sobre a Cegueira"

João Pereira Coutinho

folha de são paulo

Os filhos fanáticos
A natureza do horror não está nos manuais; está em pequenas obras-primas da literatura contemporânea
DEPOIS DOS atentados de Boston, a pergunta: serão terroristas genuinamente americanos, como Timothy McVeigh? Ou serão terroristas americanos convertidos ao fundamentalismo "religioso" (um eufemismo para evitar a palavra "islâmico")?
Nenhuma conclusão apressada. Esperei para ver. E ler. Nas horas seguintes, nos dias seguintes, começaram a surgir pormenores.
Dois suspeitos. De origem tchetchena. O puzzle começava a compor-se: os tchetchenos não são conhecidos por seguirem a religião cristã (ou judaica). Mas, por outro lado, a inimizade tchetchena tem Moscou como alvo, não Washington (ou Boston). Uma inimizade política, não religiosa.
O círculo policial começou a fechar-se. Os dois suspeitos, os dois tchetchenos, eram irmãos. E o mais velho, que começou a ter influência letal sobre o mais novo, foi encontrando nos preceitos corânicos o tipo de "identidade" que ele não encontrava na sociedade americana de acolhimento.
Foi o adeus ao álcool. O adeus ao fumo. E a condenação violenta do rasteiro materialismo americano, um clássico do islamismo radical desde Sayyd Qutb (1906""1966), o teórico da Irmandade Muçulmana que visitou os Estados Unidos em finais da década de 1940 e deixou uma "bíblia" fanática a respeito.
Os dois suspeitos, os dois tchetchenos, os dois irmãos eram, Deus nos perdoe, dois jihadistas em solo americano?
Aqui, o pânico da mídia ocidental "progressista" voltou a soar mais forte. Já ninguém discutia esses pormenores. A estratégia era outra: martelar até a insanidade que não existe nenhuma relação entre o islã e o terrorismo.
Concordo. Digo mais: não há nenhuma relação entre o islamismo, o cristianismo ou judaísmo e atos criminosos contra inocentes. Pelo contrário, as três religiões condenam expressamente esses atos.
Só que essa não é a questão. Nunca foi. A questão é a inversa: saber se existe uma relação entre atos terroristas e a interpretação que os próprios terroristas fazem da religião islâmica. Pretender silenciar o debate com a proclamação infantil "nem todos os muçulmanos são terroristas!" é o mesmo que condenar qualquer crítica ao Estado de Israel como antissemita.
Comigo não, violão. É possível criticar racionalmente Israel. E é possível constatar a desproporcionalidade de atos de terrorismo cometidos por inspiração islamita. Relembrar uma evidência é o primeiro passo para compreender a natureza do horror.
E essa natureza não está nos manuais de filosofia, ou de história, ou de ciência política. Está em pequenas obras-primas da literatura contemporânea como o profético conto de Hanif Kureishi intitulado "My Son the Fanatic" (1994).
Foram vários os editoriais que, a respeito de Boston, prestaram homenagem ao conto e ao próprio Kureishi. Justíssimo. Como escritor, sempre defendi que Kureishi merece o mesmo respeito que Ian McEwan ou Julian Barnes, seus colegas de geração.
E o conto é um primoroso retrato sobre a radicalização de um imigrante paquistanês de "segunda geração" em solo britânico.
Digo "segunda geração" porque Kureishi capta o essencial do novo terror: ao contrário dos pais, que viajaram para o Ocidente em busca de uma vida melhor, é precisamente essa "vida melhor" que inquieta os filhos.
Confrontados com o pluralismo das sociedades abertas, onde a frustração de expectativas faz parte do jogo da liberdade, há nos filhos uma busca desesperada por um sistema total (e totalitário) que os salve do caos ético e epistemológico dessas sociedades.
O que para os pais é um sonho (viverem livres do dogmatismo doméstico), para os filhos é um pesadelo. Por isso eles fantasiam o exato dogmatismo de que os pais fugiram.
No conto de Kureishi, esse abismo está presente no diálogo tenso entre o pai e o filho: o primeiro, bebendo um uísque e tentando convencer o filho a desfrutar a vida; e o segundo, enojado com os uísques do pai, respondendo que há coisas mais importantes para fazer do que simplesmente desfrutar a vida.
Como disse um dos irmãos tche- tchenos, "eu não tenho nenhum amigo americano". E acrescentou: "Eu nem sequer os entendo."
Eis o primeiro passo para o terror: olhar para as vítimas, não como nossos semelhantes, mas como seres inferiores e estranhos que não merecem sobreviver.

Editoriais FolhaSP

folha de são paulo

Carandiru+30
Julgamento pela morte de 111 detentos se estende por mais de 20 anos e pode consumir outros 10 para enfim levar os condenados à prisão
Quando ocorreu o massacre do Carandiru, em 2 de outubro de 1992, perto de 25% da atual população do Estado de São Paulo não tinha ainda nascido. São 11 milhões de paulistas que não têm lembrança daquela sexta-feira abominável e seu saldo de 111 mortos.
Mesmo entre os pouco mais de 30 milhões de habitantes do Estado que já estavam vivos, só uma minoria se recordará bem da tragédia. Márcio Friggi, um dos promotores do caso, reconhece não ser o seu caso. Ele tinha 13 anos à época.
Se a passagem do tempo obscurece a memória dos fatos, ela torna manifesta a injustiça de julgar com tanto atraso os policiais militares envolvidos na matança. Não existe explicação aceitável para o transcurso de quase 21 anos entre a invasão da penitenciária e o julgamento dos 84 denunciados.
Do ponto de vista dos inocentados, foram duas décadas em que tiveram de suportar o peso das acusações. Para os condenados, o lapso serviu para que desfrutassem de liberdade a que não faziam jus.
Acima desses efeitos individuais pairaram duas consequências coletivas, ainda mais deletérias: durante décadas saiu reforçada a percepção de que agentes do Estado estariam fora do alcance da lei, enquanto o Judiciário se mostrava incapaz de dar resposta satisfatória àquela barbárie inaudita. Tão caótica quanto tenha sido a invasão, por despreparo dos policiais ou imprudência de seus comandantes, o excesso de violência empregado ficou mais do que óbvio.
Somente agora se chega a alguma conclusão, mas nada que se pareça com um desfecho. Nesta primeira etapa do julgamento, estiveram no banco dos réus 26 PMs acusados de matar 15 pessoas no primeiro andar do pavilhão nove. Três deles foram absolvidos.
Os 23 condenados poderão recorrer em liberdade. Se a previsão do promotor do caso estiver certa, a pena será aplicada só daqui a dez anos. Até lá, serão três décadas de impunidade.
Cada um dos 23 condenados foi sentenciado a 156 anos de prisão. Mas, dadas as particularidades do sistema penal brasileiro, a maioria deles não deve ficar atrás das grades por mais de cinco anos.
Isso se o Tribunal de Justiça, ao analisar os recursos dos réus, não absolvê-los. O coronel Ubiratan Guimarães, comandante da invasão no Carandiru, foi condenado pelo júri a 632 anos de prisão, em 2001, mas a pena foi anulada na segunda instância, em 2006 (ano em que ele foi morto, em circunstâncias não de todo esclarecidas).
Hoje, parece impensável repetir uma chacina daquelas. Muito se avançou desde 1992. Falta a Justiça agir com maior celeridade para consolidar tal ganho de civilização.

    EDITORIAIS
    editoriais@uol.com.br
    Ciência com barreiras
    O setor de pesquisa científica no Brasil está numa encruzilhada semelhante à da educação: após crescer em ritmo razoavelmente satisfatório, não sabe ao certo que rumo seguir para melhorar a qualidade do que fornece ao público.
    No campo do ensino, o país caminha para universalizar o acesso à educação. A meta é ter 98% das crianças e jovens de 4 a 17 anos na escola até o ano 2022, e a taxa de cobertura se encontra em 92%.
    Há deficiências, claro, em especial nas pontas do ensino básico --pré-escola e ensino médio. Na faixa de 4 e 5 anos, a taxa de atendimento é de 80%; na de 15 a 17 anos, fica em 83%.
    No que toca à qualidade, as metas vêm sendo cumpridas, mas são por demais modestas: chegar a 2022 com notas 5,5 no ensino fundamental e 5,2 no médio (segundo a metodologia Ideb).
    No ramo da pesquisa científica, o país investiu nas últimas décadas no aumento da quantidade de estudos. Cientistas e instituições passaram a ser avaliados e financiados com base na sua produtividade. Colheram-se bons resultados.
    De acordo com levantamento desta Folha na base de dados internacional Scimago, pesquisadores brasileiros publicaram pouco menos de 14 mil artigos, em 2001, nos periódicos de primeira linha. Isso punha o país na 17ª posição da classificação mundial de campeões da ciência, dominada então por EUA, Japão e países europeus.
    Em 2011, o avanço era visível. Foram quase 50 mil trabalhos publicados, ou 3,6 vezes a produção de dez anos antes. Com isso, o Brasil passou a ocupar o 13º lugar.
    Bem outro é o quadro da qualidade desses trabalhos, tradicionalmente avaliada pela métrica das citações (sob o pressuposto de que, quanto mais menções um artigo publicado receber em outros estudos, mais ele terá contribuído para o conhecimento científico). Neste quesito, a pesquisa brasileira caiu da 31ª para a 40ª posição durante o período considerado.
    A conclusão que se impõe é que os cientistas do Brasil produziram bem mais, mas com impacto decrescente sobre a pesquisa mundial. Há muitas explicações e justificativas para isso, do provincianismo da ciência nacional (publica-se muito em periódicos regionais, de baixa repercussão) às barreiras burocráticas (importação de materiais, por exemplo).
    Ter mais mestres e doutores no país --assim como ter todos os jovens na escola-- é algo positivo. Fixar-se em grandes números, contudo, como faz o programa de bolsas Ciências sem Fronteiras, está longe de ser suficiente.