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terça-feira, 16 de julho de 2013

Paraenses rejeitam domínio tecnobrega

folha de são paulo

Pará lança ritmo junglebeat, mistura de batidas africanas e músicas regionais

Lucas Nobile
Mais de 7.000 quilômetros separam Abeokuta, na Nigéria de Fela Kuti (1938-1997), e Barcarena, no Pará de Mestre Vieira. Contemporâneos, os pais do afrobeat e da guitarrada, respectivamente, nunca se encontraram, mas as influências de suas músicas se unem agora por um estilo criado em solo paraense.
Trata-se do recém-gerado junglebeat (batida da selva), gênero que mescla as referências percussivas do afrobeat com ritmos do norte do país, mais especialmente do Pará, como guitarrada e carimbó.
O estilo é encabeçado pela Zebrabeat Afro-Amazônia Orquestra e conta ainda com poucas bandas, como Metaleiras da Amazônia.
Editoria de Arte/Folhapress
A Zebrabeat mistura em seu balaio sonoro referências como Fela, Mulatu Astatke, Mestre Vieira, Mestre Solano, Curica e Aldo Sena, entre outros, e prepara para este ano o lançamento de seu primeiro álbum, com temas que podem ser ouvidos na internet (soundcloud.com/zebrabeat ).
"Misturamos o groove do afrobeat com a influência que temos do Caribe e do Pará, como a guitarrada e o carimbó", diz o baterista Júnior Gurgel.
O gênero ainda flerta com referências de black music, guitarrada, zouk, carimbó, ritmos latinos, e "sons da floresta amazônica", como define o músico.
Com shows previstos para São Paulo e Rio, ainda sem data definida, a Zebrabeat Afro-Amazônia Orquestra é apenas uma das diversas bandas da cena paraense que começam a despontar e a extrapolar as fronteiras locais.
Além deles, o duo instrumental Strobo, Trio Manari --que recentemente chamou a atenção do guitarrista mexicano Carlos Santana, que deve gravar uma música do grupo--, Camila Honda, Natália Matos e Juliana Sinimbú, as três últimas com estética mais pop, são alguns que lançam discos em 2013.
Alguns, como Matos, Sinimbú e Honda, terão seus trabalhos incentivados por um edital da Natura Musical, divulgado no primeiro semestre.
FESTIVAL
Esses artistas reforçam a efervescência da produção local, que desde 2006 apresenta todo ano em São Paulo revelações e veteranos no festival Terruá Pará, bancado pelo Governo do Estado --em 2012, houve também uma edição carioca do evento.
Há no time nomes mais pop, como Felipe Cordeiro, Luê e Lia Sophia, e mais clássicos --Dona Onete, Manoel Cordeiro e Sebastião Tapajós.
Existe também uma novíssima geração local, com nomes como Enquadro, A Trip to Forget Someone, Projeto Secreto Macacos (instrumental) e Molho Negro (rock), que faz uma música popular e bem elaborada.
Com uma recente e ainda tímida difusão de sua música para o país, esse grupo de artistas nega a possibilidade de que o tecnobrega de Gaby Amarantos, o melody da Gang do Eletro e o brega do Calypso ofusquem o restante da produção paraense.
"Acho positivo o destaque do tecnobrega. Por mais que seja uma moda, abre as portas para a música do Pará", diz Marcelo Damaso, produtor e organizador do festival Se Rasgum, de Belém.
Para o guitarrista e produtor Pio Lobato, que já fez trabalhos de resgate da música dos mestres da guitarrada paraense, a produção local não corre risco de ser ofuscada.
"Acho que não vai acontecer isso porque não existe um investimento público em massa na música para festas de rua como ocorreu na Bahia, com o axé e o Carnaval", explica Lobato, que prepara um disco para o ano que vem.
Para ele, o espaço dado pela rádio pública a artistas independentes tem sido fundamental para fortalecer a cena e "fomentar essa geração".
"O que ofusca é a repetição. Gaby e Gang do Eletro representam a música paraense. Todos têm espaço para fazer música verdadeira", diz Léo Chermont, do Strobo.

OPINIÃO
Produção do Estado é diversa, rica e supera o 'regionalismo'
RODRIGO LEVINOEDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA"
É típico: sempre que cenas regionais são alçadas à vista do grande público, parte de seus expoentes fica à margem do recorte feito por rádios, TVs e gravadoras, que pinçam nomes para servir como metonímia do que querem expor.
Um risco a quem emerge dessas cenas é o de ser posto no saco do "regionalismo", como se não houvesse particularidades em cada nome. Pior ainda é ser carimbado como "exótico", termo a um passo do preconceito.
Para os mais atentos, desde o início dos anos 2000 a música do Pará se transformou numa botija de estilos, gêneros e influências (uma fronteira aberta para países latinos e caribenhos), que serve a variados recortes, do brega ao cult, do dançante ao experimental.
Com curiosidade e fones de ouvido, é possível descobrir um universo igualmente rico por trás dos nomes em voga na mídia (Gaby Amarantos, Gang do Eletro, Calypso), mostrando o quanto é vasta e se renova permanentemente a cena.
E o que é melhor: numa variedade tamanha de estilos que só a falta de criatividade justificaria restringi-los ao recorte geográfico. Ora, importa que é música --e da boa

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Encolheram o CD

folha de são paulo
Como fez Roberto Carlos com "Esse Cara Sou Eu", mais músicos brasileiros gravam seus trabalhos em um formato mais enxuto, rápido e barato que o CD, conhecido pela sigla EP, uma novidade no mercado brasileiro
LUCAS NOBILEDE SÃO PAULOArtistas brasileiros têm apostado no EP (sigla de "extended play"), que nada mais é do que um CD com menos músicas, uma novidade no mercado brasileiro, mas um formato consolidado já há muitos anos no exterior.
Nomes como Luan Santana, Paula Fernandes e Fafá de Belém lançaram músicas em EPs neste ano.
A venda de CDs caiu 12,45% em 2012, na comparação com o ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos. A queda de faturamento das vendas de formatos físicos --juntos, CD, DVD e Blu-ray caíram mais de 10%-- só não foi maior graças ao fenômeno "Esse Cara Sou Eu", de Roberto Carlos. A música, até então inédita, foi lançada junto de outras três, no formato EP.
O CD encolhido de Roberto foi vendido a R$ 9,90 e ultrapassou 2 milhões de cópias vendidas desde 2012.
"O sucesso do Roberto abriu esta possibilidade para outros artistas", diz Paula Fernandes, a maior vendedora de DVDs musicais no país.
A cantora sertaneja lançou este ano o EP "Um Ser Amor", puxado pela música homônima, tocada na novela "Amor à Vida", da Globo, e que saiu com tiragem de 50 mil cópias.
Fafá de Belém lança agora "Amor e Fé", com quatro canções religiosas. "Quando Roberto lança um EP, desmitifica' e manda abaixo qualquer crítica em relação a esse formato", diz Fafá.
CUSTO E ITUNES
Há várias razões para um músico optar por um EP em vez de um CD convencional. Uma delas é a redução no preço da produção e, consequentemente, em um preço final menor para o consumidor, o que facilita a venda.
No Brasil, até pouco tempo era comum o artista em início de carreira --sem gravadora e sem recursos financeiros-- lançar EPs como forma de divulgar seu trabalho.
Depois, partia para o CD, como ocorreu com a Orquestra Imperial e, mais recentemente, com a banda Holger e com o capixaba Silva.
Outros artistas encontram no EP uma solução para fazer com que uma música que tenha estourado, lançada isoladamente --como o "single", consolidado nos Estados Unidos--, saia no formato físico.
São os casos de Paula Fernandes, com o sucesso na novela, e de Luan Santana, com "Te Esperando", cujo clipe teve mais de 13 milhões de visualizações no YouTube.
"O fato de o Roberto ter lançado o EP com um hit mostrou para o público que vale a pena. O Rei abriu as portas para outros artistas. É uma ideia da gravadora que pode ser uma tendência de mercado", diz Luan Santana.
"Em virtude da novela, começamos a ter uma demanda grande dos fãs e nas rádios. Os EPs se tornaram uma boa solução para casos como esses, mas não consigo enxergar o formato como substituto do CD cheio", diz Paula Fernandes.
Além deles, de 2012 para cá artistas como Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Victor & Léo, Jota Quest, Agridoce (projeto de Pitty com o guitarrista Martin), Sandy, Clarice Falcão, Madrid e MC Anitta, entre outros, lançaram EPs.
Um dos aspectos que contribuíram para o fortalecimento dos EPs foi a chegada do iTunes (loja de discos e vídeos da Apple) no Brasil, em 2011.
Como os EPS têm poucas músicas, algumas pessoas preferem comprá-las apenas no formato digital. Dos mais de 2 milhões de cópias de "Esse Cara Sou Eu", mais de 500 mil são do iTunes.
RESPOSTA RÁPIDA
Outro artista que lançou um EP este ano foi Tom Zé, em caso bem diferente dos outros. A intenção do compositor baiano ao apostar no formato enxuto foi a de dar uma resposta ao público, não por algum hit, mas por críticas recebidas em redes sociais.
Tom Zé, criticado por ter feito a locução de um comercial da Coca-Cola, lançou o EP "Tribunal do Feicebuqui" para responder aos ataques com rapidez, sem perder o "timing" do debate.
    Formatos não convencionais estão em alta
    DE SÃO PAULOOs formatos não convencionais são uma tendência também entre artistas independentes. O baterista e compositor Mauricio Takara, do Hurtmold, por exemplo, lançou virtualmente seis músicas no projeto "EP Fantasma" no final de 2012.
    O músico diz ter pensado apenas em mostrar as músicas na rede, apesar de ter ouvido perguntas como "isso é um EP ou um esboço de CD?".
    "Não estava a fim de pensar em formato. Não tinha esse compromisso de fazer um disco, eram apenas músicas que eu já tinha gravado e quis disponibilizá-las", comenta, comparando o lançamento ao modelo antigo e informal de gravar músicas em fitas cassete e mostrar aos amigos.
    Sem contrato com gravadoras, vários músicos produzem em quantidade e lançam trabalhos sem atrelá-los a planejamentos do mercado.
    Um dos representantes dessa alta produtividade é o saxofonista e compositor Thiago França.
    O músico, integrante de projetos como Metá Metá, MarginalS e Sambanzo, lançou discos que se assemelham aos "bootlegs".
    Antes, o formato dizia respeito a sobras, registros "não oficiais", que ganhavam ares de raridade. Hoje, são gravações de qualidade, lançadas intencional e gratuitamente.
    Entre os registros de França estão "Funfun Sessions" (com Kiko Dinucci), "Dada Radio Sessions" (com Dinucci e Sérgio Machado), e sessões ao vivo do MarginalS com convidados como M. Takara, Thomas Rohrer, Guizado e DJ Marco.
    "Por não ter aquela pressão mercadológica, as coisas podem existir em outro timing', sem uma obrigação de formatos", diz França.

      segunda-feira, 17 de junho de 2013

      Em novo álbum, Wilson das Neves canta de Chico Buarque a Nelson Sargento

      folha de são paulo
      LUCAS NOBILE
      DE SÃO PAULO

      Com 77 anos completados na última sexta, Wilson das Neves, exímio frasista e um dos bateristas mais requisitados do país, segue com a mesma receita de quando iniciou sua carreira, no começo dos anos 1950: fazer música sem grandes invenções.
      "Não tenho compromisso com coisa nenhuma. Uma coisa que não faço muito é invenção. Acho que a música é a voz da alma. A minha música não tem pirotecnia, não tem foguete."

      É dessa maneira que ele sintetiza seu mais recente álbum, lançado recentemente com o título "Se me Chamar, Ô Sorte", que segue a mesma linha de seus discos anteriores: sambas elegantes com melodias bem elaboradas e letras interessantes.
      Daryan Dornelles/Divulgação
      Wilson das Neves, 77, ao lado de seu bisneto João, 4, que inspirou letra de Chico Buarque para o novo álbum do sambista
      Wilson das Neves, 77, ao lado de seu bisneto João, 4, que inspirou letra de Chico Buarque para o novo álbum do sambista
      O nome do álbum, o quarto de Das Neves como cantor, faz referência à expressão "ô, sorte" --institucionalizada por ele no meio do samba, quando se quer agradecer algo e se mostrar um privilegiado. A expressão surgiu nos anos 1970 em diálogo com o sambista Roberto Ribeiro (1940-1996).
      "Com ele, essa história tinha eco. Ele morreu, e eu fiquei falando sozinho", diz Das Neves, cria da escola de samba Império Serrano, do Rio.
      Aluno do maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006) e baterista da banda de Chico Buarque há mais de 30 anos --além de ter tocado com nomes como Caetano Veloso, Elis Regina, Clara Nunes, Elza Soares e Sarah Vaughan--, o músico mostra novamente ser um privilegiado em seu disco recente.
      PARCEIRO DE SORTE
      A "sorte" do artista é justificada não só pela quantidade mas também pela qualidade do time de parceiros e arranjadores do disco.
      Entre os nomes com quem o sambista --que também integra a Orquestra Imperial-- compôs para este disco estão Cláudio Jorge (violonista de Martinho da Vila e parceiro de Das Neves na faixa que batiza o novo álbum), Toninho Geraes e Vitor Bezerra.
      Wilson das Neves também assina parcerias com compositores que dispensam apresentações no universo do samba, como Nelson Sargento, Délcio Carvalho e Luiz Carlos da Vila.
      Ainda completam o time Paulo César Pinheiro --parceiro mais constante dele, com quem assina seis faixas-- e Chico Buarque.
      Assim como a variação de parceiros, a diversidade de arranjadores volta a aparecer em um álbum de Das Neves.
      Além de Luiz Cláudio Ramos, Cláudio Jorge, Jorge Helder, João Rebouças e Zé Luiz Maia --que já tinham trabalhado com o sambista em seus discos anteriores--, assinam arranjos Bia Paes Leme e Vittor Santos.
      "Se pudesse, eu ainda faria com mais pessoas. Todos querem fazer arranjos para mim. Não gosto das coisas padronizadas", diz o músico.
      Bisneto do cantor inspira parceria com o "chefe"
      DE SÃO PAULOBaterista de Chico Buarque há mais de 30 anos, Wilson das Neves assinou nova parceria com o "chefe". A primeira, "Grande Hotel", fora registrada no disco "O Som Sagrado de Wilson das Neves" (1996).
      No penúltimo CD do músico, "Pra Gente Fazer Mais um Samba" (2010), Chico rasgou elogios ao parceiro no encarte.
      Desta vez, Chico compôs "Samba Para o João", em homenagem ao bisneto do amigo sambista."Ele fez essa música como se eu estivesse passando o instrumento para o meu bisneto", diz Das Neves.

        domingo, 9 de junho de 2013

        Músicos elegem CD como melhor formato

        folha de são paulo
        LUCAS NOBILE
        DE SÃO PAULO

        "Permita-me ser sincero, a primeira vez que ouvi a sigla MP3 foi hoje." A frase pode soar absurda para os jovens --familiarizados com os arquivos digitais comprimidos de música desde o surgimento dos primeiros modelos, na década de 1990--, mas está no centro de uma discussão que já uniu nomes como Keith Richards, Neil Young e Lou Reed.
        Os roqueiros, que têm quase a mesma idade do maestro brasileiro, não cansam de reclamar da qualidade dos arquivos digitais de música oferecidos pela principal fabricante do mundo, a Apple.
        "Não tenho um iPod. Ainda uso CDs ou álbuns de verdade. Às vezes fitas cassete. Têm um som melhor, soam muito melhor do que o digital", disse Richards à "Associated Press".
        Numa espécie de tira-teima, a Folha reuniu músicos de estilos e gerações distintas para um teste às cegas sobre as diferenças entre três formatos: vinil, CD e MP3.
        Além do maestro João Carlos Martins, participaram do encontro --realizado no estúdio da Trama, de João Marcello Boscoli-- Nasi e o rapper Rael.
        Editoria de Arte/Editoria de Arte/Folhapress
        De costas para os aparelhos que tocariam as três mídias, os participantes tentaram adivinhar os formatos de reprodução. "You Don't Know Me", do disco "Transa", de Caetano Veloso, lançado em 1972, foi a música que serviu de referência.
        A ordem escolhida foi MP3, vinil e CD. Nasi e Rael acertaram a ordem das mídias, ao passo que João Carlos Martins errou, invertendo a ordem de MP3 e CD.
        "Se o MP3 é o que há de mais moderno, fico com o CD. A gravação do CD mostrou maior equilíbrio de baixos e agudos", disse o maestro.
        Para Nasi, as gravações em vinil e CD apresentaram melhor qualidade de graves. "Essa é a crítica que se faz ao digital, que não tem os sulcos do vinil e perde em qualidade", comentou o roqueiro.
        Na opinião dele, houve uma queda de qualidade do vinil para o CD, "mas o MP3 vem melhorando".
        Rael se mostra um entusiasta da praticidade do MP3.
        "Ele funcionou por ser fácil de ser compartilhado. E não consigo viver sem MP3, não dá para ter tudo no formato físico, sem desmerecer o CD e o vinil, que têm bastante
        qualidade."
        CORRIDA DO OURO
        As reclamações a respeito da qualidade do áudio de arquivos MP3 não partem somente de roqueiros meio
        ranzinzas.
        A cada ano, novos formatos de áudio chegam ao mercado com a promessa de revolucionar a maneira de se ouvir música Ðe sobrepor o formato em voga.
        Em 2012, depois de inúmeras reclamações dos consumidores sobre a qualidade dos arquivos digitais comercializados pelo iTunes, a loja online da Apple, a empresa criou uma espécie de selo de garantia de excelência, o ªMastered for iTunesº (Masterizado para o iTunes).
        Para tanto, iniciou contatos com estúdios de gravação no mundo inteiro, com o objetivo de desenvolver um procedimento para criar arquivos digitais de áudio de alta fidelidade Ðou o mais perto disso possível.
        "Fiz vários testes com o novo disco do [Wilson] Simoninha e os ouvintes tiveram muita dificuldade para diferenciar o áudio do CD (que tem geralmente o melhor equilíbrio de timbres e tons) e o do Mastered for iTunes", conta o engenheiro de som Carlos Freitas, o primeiro brasileiro a receber o aval da Apple para trabalhar com o
        novo formato.
        Na corrida por áudios de ponta, a tecnologia mais recente foi anunciada neste mês, pelo braço francês da gravadora americana Universal Music, que vai oferecer CDs com áudio de Blu-ray em alta definição.

        quarta-feira, 5 de junho de 2013

        Edi Rock, integrante do Racionais MC's, lança disco com 41 convidados

        folha de são paulo
        LUCAS NOBILE
        DE SÃO PAULO

        Mesmo com todo o reconhecimento conquistado em 25 anos de carreira ao lado do maior grupo de rap do país, Edivaldo Pereira Alves diz ter um dia a dia de sofredor.
        "Se você não correr, morre, é 'quente'. Você tem que trabalhar, todo dia inventar uma nova forma de sobreviver na selva de pedra."
        Aos 42 anos, conhecido como Edi Rock, ele anuncia a volta aos estúdios com seu grupo, Racionais MC's, para 2014. Antes disso, lança seu álbum solo, "Contra Nós Ninguém Será", e vê o rap passar por uma evolução natural.
        Fabio Braga/Folhapress
        Edi Rock, que lança o CD solo "Contra Nós Ninguém Será"
        Edi Rock, que lança o CD solo "Contra Nós Ninguém Será"
        "O público imaginou que o rap tinha morrido, mas ele estava se refazendo, agora está voltando com uma evolução, mais musical, com uma visão empresarial, uma visão profissional", diz o rapper.
        Edi Rock não apenas admira nomes de gerações posteriores à sua, como convidou alguns para participar de seu disco. No grupo estão Emicida (em "Cava Cava"), Flora Matos e Rael (em "Eu Canto Uq Soul") e Criolo (que teve a sua "Lion Man" sampleada).
        "Sou fã de toda essa geração, Emicida, Criolo, Rashid, Projota, Rael, Ogi, Flora Matos, Rapadura, aplaudo de pé. Eu digo que eles são nossos filhos, a evolução do hip-hop, estão dando um show de profissionalismo", diz Edi Rock.
        DIVERSIDADE
        O novo disco do integrante dos Racionais não tem participações apenas de figuras ligadas ao rap.
        A lista com mais de 40 participantes conta com Seu Jorge ("That's My Way"), Alexandre Carlo, do Natiruts, Falcão, d'O Rappa ("Abrem-se os Caminhos"), Marina De La Riva (em "Voltarei Para Você"), entre outros.
        Na linha do rap, Edi Rock contou com o apoio de nomes como Don Pixote, Dexter, Ndee Naldinho e DJ Cia. Os parceiros de Racionais, Mano Brown, Ice Blue e KL Jay, aparecem em "Homem Invisível" e "Tá na Chuva", respectivamente. Helião ("Selva de Pedra") e Sandrão ("Você Não Pode se Enganar") representam o extinto RZO.
        "Não quis fazer 'Edi Rock e Convidados'. Chamei vozes diferentes para não ficar enjoativo. Eu mesmo não aguento ficar ouvindo minha voz o tempo inteiro", diz Edi Rock.
        O disco, que levou seis anos para ficar pronto, será lançado também em vinil e terá duas faixas que ficaram de fora do CD: um blues e um samba gravado com o Quinteto em Branco e Preto.
        PARTIDÁRIO DO RAP
        Edi Rock também rebateu as críticas feitas por Lobão aos Racionais. Recentemente, o cantor chamou o grupo de "braço armado do governo", em seu livro "Manifesto do Nada na Terra do Nunca".
        "A gente não é braço armado de ninguém, a não ser de nós mesmos. Nosso partido político é o rap", diz Edi Rock.
        "O PT já é outra 'fita'. A gente admirava o Lula pela trajetória que teve, saiu do nada e se transformou em presidente. É tipo olhar para Obama, Malcolm X, Martin Luther King, é uma referência, mas longe de a gente ser braço armado de partido político."
        CONTRA NÓS NINGUÉM SERÁ
        ARTISTA Edi Rock
        GRAVADORA Baguá Records
        QUANTO R$ 20, em média
        *
        QUEM É QUEM
        CONVIDADOS DO EDI
        PARCEIROS DO RAP...
        Mano Brown, em "Homem Invisível"
        Ice Blue e KL Jay, em "Tá na Chuva"
        Helião, em "Selva de Pedra"
        Sandrão, em "Você Não Pode se Enganar"
        DJ Cia, em "Estrela de David"
        Don Pixote, em "Salve Negoo"
        Flora Matos e Rael, em "Eu Canto Uq Soul"
        Emicida, em "Cava Cava"
        Dexter, em "Liberdade Não Tem Preço"
        Ndee Naldinho, Crônica Mendes, Lakers Epá, Demis Preto e Nego Jam, em "Não Deixe a Mínima"
        André Atila, Thig e DJ Babão, em "Gangstar"
        ... E DE OUTROS ESTILOS
        Marina De La Riva, em "Voltarei Para Você"
        Falcão e Alexandre Carlo, em "Abrem-se os Caminhos"
        Vanessa Jackson, em "Final Feliz"
        Seu Jorge, em "That's My Way"

        quarta-feira, 29 de maio de 2013

        Após mudar a cara do sertanejo, produtor Dudu Borges é procurado por nomes da MPB

        folha de são paulo
        LUCAS NOBILE
        DE SÃO PAULO

        Milionário e José Rico, ícones da música caipira dos anos 1970, ostentaram a riqueza no nome e venderam milhões de discos. Hoje, eles e seus pares invejariam os valores movimentados pelos milionários do chamado sertanejo universitário.
        A lista dos mais bem pagos do gênero inclui Michel Teló (estima-se que "Ai Se Eu Te Pego" tenha rendido mais de R$ 100 milhões), Luan Santana, Fernando & Sorocaba (o último é campeão de arrecadação de direitos autorais pelo Ecad, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) e Jorge & Mateus.
        O que esses nomes têm em comum, além das músicas mais tocadas? Todos já tiveram produção e arranjos de Dudu Borges, apontado como o principal responsável por mudar a cara do sertanejo.
        Danilo Verpa /Folhapress
        O produtor Dudu Borges, 30, em seu estúdio em São Paulo
        O produtor Dudu Borges, 30, em seu estúdio em São Paulo
        Aos 30 anos, o músico, que é natural de Campo Grande, mora há 13 em São Paulo, onde comanda as gravações em seu estúdio Vip, localizado no Cambuci, desde 2010.
        Por lá, após produzir hits como "Chora, Me Liga" (João Bosco & Vinicius, 2009), "Fugidinha" e "Ai Se Eu Te Pego" (ambas de Teló, respectivamente em 2010 e em 2011), Dudu Borges já é procurado por artistas de fora do sertanejo.
        Depois de ter produzido Fiuk e duas faixas de Jorge Ben Jor --uma delas, "Salve o Verde", ao lado de Mano Brown--, o produtor trabalha no primeiro álbum de inéditas de Fabio Jr. desde 2004.
        O sucesso também se reflete em números. Dudu produz dez discos por ano, recebendo R$ 500 mil por trabalho, segundo a Folha apurou. A produção de um álbum de artista brasileiro de destaque custa, com outros produtores, de R$ 150 mil a R$ 200 mil.

        "Teve gente dizendo que acabei com a música brasileira. Depois, você se acostuma e pensa: está tudo bem, as coisas estão indo bem pelos resultados", diz o produtor.
        Produtor fez arranjos das 3 mais tocadas neste mês
        Dudu Borges assina "Amiga da Minha Irmã", "Vidro Fumê" e "Te Esperando"
        Músico trabalha atualmente em DVD de Luan Santana e no primeiro CD de inéditas de Fabio Jr. desde 2004
        DE SÃO PAULONuma rua pacata do bairro do Cambuci, em São Paulo, são burilladas as fórmulas para transformar canções extremamente simples nos maiores sucessos do país na atualidade.
        Ali fica o Vip, estúdio nada suntuoso (perto dos padrões dos frequentados por estrelas da MPB), mas confortável e bem equipado. É lá que Dudu Borges recebe com frequência Michel Teló, Luan Santana, Fernando & Sorocaba, Jorge & Mateus, Bruno & Marrone, entre outros.
        Com mais de dez anos de carreira como produtor e arranjador, o trabalho do rapaz vindo de Campo Grande (MS) começou a vingar em 2009. Naquele ano, ele arranjou e produziu o álbum "Curtição", da dupla João Bosco & Vinícius, com o qual emplacou o hit "Chora, Me Liga".
        "A gente fez Sufoco', que foi uma das que mais marcaram na mudança de sonoridade do sertanejo, cheio de convenções. Ou dava certo ou dava tudo errado. Depois veio Chora, Me Liga', que estourou na América Latina", lembra o produtor.
        O sucesso com Jorge & Mateus ajudou a consolidar a fórmula básica do sertanejo universitário: pegar elementos regionais (como a voz sertaneja e instrumentos como a sanfona) e adaptá-los a uma sonoridade mais pop rock.
        "Na minha cabeça tinha que soar como um rock acústico, com vozes sertanejas e elementos regionais. Mas tinha que conhecer o lance sertanejo, nasci em Campo Grande. Mas, se eu te disser que eu ouvia Milionário & José Rico, é mentira", admite Dudu.
        FORMAÇÃO NO GOSPEL
        Aos 12 anos, ainda em Campo Grande, Dudu Borges começou a frequentar o estúdio de um primo, que lhe apresentou discos de bandas como Queen e Beatles e lhe ensinou a fazer jingles.
        O garoto, que ouvia dos roqueiros ingleses a duplas sertanejas dos anos 1990, como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel, teve sua formação como tecladista aprimorada na igreja.
        "Sempre tive muita liberdade para fazer o que queria na igreja. Lá, você toca de tudo: samba, pagode, rap, black, funk... Quando tive a oportunidade de fazer o sertanejo, foi um pouco de ingenuidade minha, não pensei muito para fazer", diz Dudu.
        Filhos de pais que frequentavam a Igreja Batista, em Campo Grande, ele iniciou sua carreira como produtor e arranjador no gospel. De lá para cá, assinou mais de 35 trabalhos dentro do gênero.
        Após ficar conhecido no meio, Dudu diz ter sofrido preconceito ao deixar de trabalhar com músicas de cunho religioso para produzir canções com temática de balada, cujas letras são, digamos, bem menos pudicas do que as do ambiente da igreja.
        "Pessoas falam: O cara é da igreja e tá aí fazendo essas músicas'. Isso é natural. Minha mãe se preocupava um pouco mais, não pelo lance das letras, mas pelo ambiente", diz o produtor. "Minha religião é uma coisa, meu trabalho é outro, não sou esse cara bitolado", completa.
        UM BILHÃO DE "VIEWS"
        Depois de se estabelecer no meio gospel, o salto da carreira de Dudu se deu com os trabalhos "seculares", como ele define. A entrada no meio sertanejo aconteceu em 2006, quando ele escreveu os arranjos de algumas músicas do disco "Ao Vivo em Goiânia", de Bruno & Marrone.
        Entre os anos de 2005 e 2008, também canetou as partituras e tocou teclado na banda Tradição, que tinha Michel Teló, seu amigo de adolescência dos tempos de Campo Grande, no vocal.
        E a igreja, mesmo que indiretamente, ainda reservava bons frutos para Dudu. Em um culto, ele encontrou o pagodeiro Rodriguinho (ex-Travessos), que lhe disse que mostraria algumas canções.
        No pacote estava "Fugidinha". Com o faro apurado para o sucesso, Dudu recomendou a Teló que ele a gravasse. A música foi a mais tocada no país em 2010.
        No ano seguinte, veio o maior sucesso, novamente com Teló, "Ai se Eu Te Pego", que já ultrapassou a marca de mais de 500 milhões de visualizações no YouTube.
        "Tenho mais de um bilhão de views' no YouTube", comenta. "Já ouvi que esse cara sou eu, não o Roberto Carlos', mas sou vacinado. Não tem prêmio maior que ser procurado por quem sempre admirei: Bruno & Marrone, Jorge Ben Jor e Fábio Jr., que é mito."
        E os números seguem a favor de Dudu. Neste mês, segundo a Crowley Broadcast Analysis Brasil, as três músicas mais tocadas no país foram produzidas por ele: "Te Esperando", de Luan Santana, "Vidro Fumê", de Bruno & Marrone, e "Amiga da Minha Irmã", novo hit de Teló.
        Além de trabalhar no próximo disco de Fábio Jr., o produtor se dedica ao novo DVD de Luan Santana, que será gravado em julho, em Itu.
          CDS
          SERTANEJO
          Sunset
          Michel Teló
          GRAVADORA Som Livre
          QUANTO R$ 19,90 (CD) e R$ 29,90 (DVD), em média
          AVALIAÇÃO **
          O disco novo de Michel Teló reafirma a máxima deque "um raio não cai duas vezes no mesmo lugar". Este álbum ao vivo dificilmente emplacará um fenômeno como "Ai se Eu Te Pego", mas mantém a mesma fórmula: um batidão (vaneirão com pegada de balada) extremamente pop. Com produção de Dudu Borges e participações de nomes como Paula Fernandes, Teló já emplacou o hit "Amiga da Minha Irmã". (LN)
          SERTANEJO
          Homens e Anjos
          Fernando & Sorocaba
          GRAVADORA Som Livre
          QUANTO R$ 19,90, em média
          AVALIAÇÃO **
          Também com produção e arranjos de Dudu Borges, o CD de Fernando & Sorocaba já tem uma faixa entre as mais tocadas do Brasil. Com seu country de balada, versos e músicas simplórios, o disco da dupla é puxado pelo hit "Imagina na Copa", cuja letra diz "Se hoje a mulherada já topa/ Imagina na Copa". "As Mina Pira", "Musa do Timão" e "Minha Ex" seguem a mesma linha de euforia sem conteúdo. (LN)

            terça-feira, 28 de maio de 2013

            A paixão de (santo) Cristo - Iuri de Castro Tôrres e Lucas Nobile

            folha de são paulo

            'Faroeste Caboclo', adaptação da música da Legião Urbana, estreia na quinta-feira (30)

            IURI DE CASTRO TÔRRES
            DE SÃO PAULO

            O ano era 1987, e as rádios foram tomadas por uma canção que fugia em tudo dos padrões da indústria musical.
            Em nove minutos e quatro segundos e 161 versos, "Faroeste Caboclo" levou a todo o país a saga de um homem negro e pobre que gostaria de falar com o presidente para ajudar toda essa gente que só faz sofrer --mas que morre antes disso, no duelo mais famoso do rock brasileiro.
            Vinte e seis anos depois, a música mais cinematográfica do pop nacional chega à tela grande --"Faroeste Caboclo", o filme, estreia nesta quinta.
            Divulgação
            Fabrício Boliveira vive João de Santo Cristo em "Faroeste Caboclo", de René Sampaio
            Fabrício Boliveira vive João de Santo Cristo em "Faroeste Caboclo", de René Sampaio
            O longa do diretor René Sampaio nasce cercado de expectativas dos milhões de fãs da Legião Urbana, que sabem de cor e salteado a jornada de João de Santo Cristo do interior da Bahia até o tiro fatal do arqui-inimigo Jeremias no lote 14 da Ceilândia, cidade-satélite da capital federal.
            Mais do que uma adaptação literal das estrofes de Renato Russo, o diretor buscou entender o cerne da canção para então transformá-la em imagens. "Tentei amplificar as emoções que a música traduz", afirma Sampaio.
            Para ele, o conflito entre personagens, mais do que denúncias sociais, é a alma de "Faroeste Caboclo" e apostou todas as fichas nisso.
            "Qual a parte principal da música?", questiona Sampaio. "É o duelo final. O que eu tenho que fazer para construir isso? Tudo que não contribuísse para isso não deveria estar no filme."
            Sai o general de dez estrelas com o cu na mão e entra um enredo mais completo para o amor entre uma dama e um vagabundo.
            "Faroeste Caboclo" é sobre o triângulo amoroso entre João, Maria Lúcia e Jeremias, entremeado por drogas, crimes e, é claro, Brasília.
            "Esses são os eventos mais importantes: o duelo, Maria ficar com o Jeremias, João querer mudar, a história pregressa dele, como eles se conhecem", enumera Sampaio.
            O diretor afirma que não quis fazer um videoclipe da música. "Para quem curte Legião, é melhor ver uma adaptação dessas do que uma coisa fiel mas, ao mesmo tempo, capenga", afirma o diretor.
            "Faroeste Caboclo" foca no amor trágico entre João e Maria
            Diretor constrói com detalhes paixão dos protagonistas, abalada por Jeremias e pelo envolvimento com crime
            Ator diz que tentou fugir de maniqueísmos ao retratar Santo Cristo, caracterizado como um anti-herói por professor
            IURI DE CASTRO TÔRRESDE SÃO PAULOFabrício Boliveira é muito diferente de João de Santo Cristo, o mítico protagonista da canção "Faroeste Caboclo" que ele interpreta no cinema.
            Falastrão e de sorriso fácil, o ator de 31 anos teve como missão incorporar um tipo endurecido pela vida, pouco simpático e a caminho de uma vingança sangrenta.
            "As pessoas torcem pelo João, mas ao mesmo tempo não acreditam nele, não confiam nele o tempo inteiro", afirma Boliveira, que participou da série "Subúrbia" (2012), da Globo, entre outros trabalhos na TV e no cinema.
            "Tentei fugir de qualquer esquema maniqueísta, de bem contra o mal, mocinho e vilão", diz o ator.
            No filme, João vai para Brasília atrás de um primo distante de seu pai, Pablo, após passar alguns anos no reformatório por vingar a morte do pai por um policial militar.
            Já nos primeiros dias na capital federal, envolve-se no esquema de venda de drogas de Pablo e é pego pela polícia. Na fuga, entra escondido em um apartamento de classe alta e conhece Maria Lúcia.
            "Na música, Maria Lúcia entra em uma estrofe e, cinco estrofes depois, ela já está grávida, então você tem que criar esse romance", explica o diretor, René Sampaio.
            "Faroeste Caboclo" estreia em 400 salas em todo o país e teve orçamento de R$ 10 milhões, incluindo distribuição e ações de marketing.
            PAIXÃO TRÁGICA
            A paixão trágica dos dois embala o faroeste contemporâneo. Jeremias (Felipe Abib), amigo de Maria Lúcia e apaixonado pela mocinha, não aceita o enlace e transforma a vida de João em um inferno.
            Maria Lúcia, filha de um senador vivido por Marcos Paulo (1951-2012) em seu último trabalho no cinema, fica dividia entre o amor por alguém tão diferente e o conforto de uma boa vida.
            "A troca do João e da Maria é tão bonita e diferente, atípica de um mocinho e uma mocinha", analisa Isis Valverde, 27, a Suelen de "Avenida Brasil" sobre sua primeira personagem no cinema.
            "Ele trouxe para ela dureza, confiança e força; ela deu pra ele mais delicadeza, fragilidade. Esse homem é muito duro", afirma.
            A jornada de João de Santo Cristo até a redenção, passando por provações como o envolvimento com o crime, o insere no rol de anti-heróis brasileiros, diz Luiz Gonzaga Motta, professor da UnB (Universidade de Brasília) que analisou a letra da música em um artigo recente.
            "São heróis porque são vítimas de um sistema. Há uma meta-história que é a narrativa de grande parte da população, do migrante que vai para a periferia de uma grande cidade, se deslumbra, tenta melhorar de vida e não dá certo. João representa isso."
            Para Boliveira, "Faroeste Caboclo" mostra "como o Brasil trata alguns de seus filhos".
            Segundo ele, "em tempos de [Marcos] Feliciano", presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados que já fez comentários considerados racistas, "um filme que discute amor, preconceito e intolerância social e racial vem a calhar".
            "Faroeste' é autoconhecimento, trabalha como um espelho para a gente", afirma o ator.
              Canção foi escrita na juventude do cantor
              DE SÃO PAULOQuando "Faroeste Caboclo" foi lançada no disco "Que País É Este 1978/1987", a canção já era velha conhecida de amigos do compositor Renato Russo.
              A música foi escrita no início da década de 1980, quando um jovem Russo se apresentava por Brasília como Trovador Solitário: só ele, um banquinho e um violão.
              "Lembro quando ele me mostrou a música, em umas férias na Ilha do Governador [RJ]", conta Helena Lemos, irmã mais nova de Fê e Flávio Lemos, do Capital Inicial.
              "Ele tinha um caderno cheio de letras ainda não gravadas, que depois foram surgir com a Legião", conta.
              Philippe Seabra, vocalista da banda Plebe Rude, também presenciou os primeiros dias daquela que se tornaria uma das músicas mais famosas do rock brasileiro.
              "Renato tocou 'Faroeste' para mim debaixo de um bloco em Brasília", lembra. "A música era muito forte."
              O álbum "Que País É Este 1978/1987", terceiro da carreira da Legião, reunia sete canções antigas, da época de Trovador Solitário e de Aborto Elétrico, e apenas duas inéditas, "Angra dos Reis" e "Mais do Mesmo".
              "A música é a história do Brasil, é um hollywoodão, cheio de clichês do país. Quando ouvi, pensei: 'É um filme'. Tanto é que acabou virando isso mesmo", diz Marcelo Bonfá, baterista da banda.
              A canção foi censurada para radiofusão por conter "referências a drogas e linguagem grosseira e vulgar", conta o jornalista Carlos Marcelo na biografia "Renato Russo - O Filho da Revolução", cuja nova edição sairá com ensaio sobre "Faroeste Caboclo".
              As rádios começaram, então, a tocar uma versão com cortes em partes como "comia todas as menininhas da cidade", "que fica atrás da mesa com o cu na mão" e "olha pra cá, filha da puta sem vergonha".
              Renato Russo afirmou na época que a estrutura de "Faroeste Caboclo" foi inspirada em "Hurricane", sucesso épico de Bob Dylan sobre um boxeador condenado à prisão, e em "Domingo no Parque", de Gilberto Gil.

                segunda-feira, 20 de maio de 2013

                Virada da diversão, Virada do arrastão - Lucas Nobile

                folha de são paulo

                Virada da diversão
                Em sua volta ao evento paulistano, rap atrai milhares de jovens com shows pacíficos divididos em dois palcos
                LUCAS NOBILEDE SÃO PAULOSeis anos após ter ser seu show marcado por uma confusão entre Polícia Militar e público, os Racionais MC's fizeram ontem, na praça Júlio Prestes, o show mais aguardado desta Virada Cultural.
                A apresentação teve público de cerca de 100 mil pessoas, segundo a Secretaria Municipal de Cultura.
                Se a contestação do papel da "polícia" e do "sistema" aparecem fortemente nas letras do grupo de rap, o mesmo não aconteceu em discurso surpreendente do líder dos Racionais, Mano Brown.
                Diferente do ocorrido em 2007, quando a Polícia Militar declarou que os Racionais estimularam o confronto entre PM e público, a fala e a apresentação de Brown tiveram tom apaziguador.
                Com crianças no palco, o líder do grupo de rap creditou a violência ocorrida no centro da cidade ao público presente no evento.
                "Dez manos roubaram o [tênis] Mizuno de um moleque. Custa R$ 900. Quem aqui ganha isso?", disse o rapper.
                Ele ainda pediu que a volta para casa fosse pacífica. "Olha que multidão, olha que exército. Não pode faltar ninguém na volta. A falta de um é a falta de milhões."
                Há seis anos, a confusão durante o show dos Racionais teve início após algumas pessoas subirem em uma banca de jornal. Desta vez, na tentativa de evitar que algo parecido ocorresse novamente, Mano Brown foi precavido.
                Ao observar que mais de 50 pessoas assistiam à apresentação de seu grupo em cima da marquise de um estabelecimento, Brown pediu que elas descessem do local.
                "Esse barato vai cair, é de plástico. Já vi inventarem um monte de coisa, mas ainda não vi inventarem algo pra negão voar", disse Brown, de forma bem humorada.
                Em termos de segurança, o show teve policiamento maior do que o show de Criolo, que aconteceu antes no mesmo palco. A dispersão do público após a apresentação foi rápida e sem tumultos.
                A REDENÇÃO DO RAP
                Famoso por atrasar seus shows em horas, o grupo de rap adiantou a apresentação da Virada, prevista para as 15h, em 30 minutos.
                Pelo Twitter, a produção dos Racionais informou que a antecipação aconteceu para que Brown, santista fanático, pudesse ver a final do campeonato paulista entre Santos e Corinthians.
                Quem chegou antes ao local presenciou na íntegra a melhor apresentação desta edição do evento.
                Com repertório eficiente, os Racionais mesclaram músicas recentes, como "Mil Faces de Um Homem Leal", homenagem a Carlos Marighella, com outras mais conhecidas, como "Diário de Um Detento" e "Negro Drama".
                Desde a confusão de 2007, o rap vinha sendo deixado de lado na Virada. Este ano, o gênero ganhou espaço não apenas no palco principal, com Racionais e Criolo, mas teve também um local dedicado ao hip-hop, na avenida Rio Branco.
                Por lá, além de nomes como Sombra, KL Jay, Edi Rock e Inquérito, o destaque foi Emicida, na noite de anteontem. Com show lotado, o rapper comemorou o retorno do gênero à Virada. "Thaíde, Racionais, Criolo, isso é um sonho. Façam barulho para o rap nacional", disse ele, antes de cantar "Dedo na Ferida".
                O palco de rap também teve pelo menos um arrastão presenciado pela reportagem daFolha.

                  Virada do arrastão
                  Apesar de programação abrangente e com artistas de peso, primeira Virada Cultural da gestão Haddad é uma das mais violentas em nove anos de evento
                  DE SÃO PAULOMais concentrada no centro de São Paulo do que em anos anteriores, a Virada Cultural encerrada ontem, a primeira sob gestão do prefeito petista Fernando Haddad, foi também uma das mais violentas nos nove anos do evento.
                  Uma onda de arrastões e assaltos ofuscou uma programação mais abrangente, que trouxe o rap de volta à festa, abriu espaços para o funk e o forró, reuniu intervenções artísticas de peso e sanou alguns problemas de infraestrutura.
                  Apesar do orçamento recorde, de R$ 10 milhões para reforços na infraestrutura e na segurança, e do contingente de 4.800 agentes de segurança, o maior nos últimos cinco anos, um jovem de 19 anos foi baleado ao reagir a um assalto na avenida Rio Branco e morreu no hospital.
                  Houve ainda mais uma morte, por uma suposta por overdose. Outras três pessoas foram baleadas e seis, esfaqueadas. No total, 28 pessoas foram detidas pela polícia e outros nove adolescentes, apreendidos. Até a conclusão desta edição, a polícia investigava outras 32 ocorrências.
                  A reportagem da Folha flagrou pelo menos 11 arrastões pelo centro. Houve ataques de grupos de até 50 bandidos nas avenidas Ipiranga, São João, Rio Branco e Duque de Caxias, na praça da República, e no viaduto Jaceguai.
                  Em entrevista coletiva, o prefeito Fernando Haddad admitiu que houve um "aumento do número de ocorrências". Mas o coronel Reynaldo Simões Rossi, à frente do policiamento durante a Virada, relativizou a afirmação, dizendo que prefere se pronunciar após a compilação de todos os dados da festa.
                  Juca Ferreira, secretário municipal da Cultura, não quis comentar os episódios de violência, dizendo apenas que "foram casos isolados".
                  Embora Simões Rossi, da Polícia Militar, evite classificar como arrastão a ação de bandidos na Virada Cultural, grupos de assaltantes agrediam frequentadores da festa, roubando bonés, tênis, joias e celulares gritando "é o bonde, é bonde do arrasta".
                  Vítimas da violência na festa reclamaram da desatenção da polícia. Um jovem atingido por um chute no rosto chegou a ficar dez minutos desacordado no chão da praça da República, mas policiais disseram a amigos da vítima que havia ocorrências mais graves para atender.
                  Aureliano Santana, 49, pai de Elias Martins Morais Neto, o rapaz morto com um tiro na cabeça, também cobrou providências da polícia. "Como pode um menino vir para uma festa e ser baleado? Não tinha ninguém para revistar e ver quem estava armado?"
                  Drogas eram vendidas a menos de uma quadra de uma delegacia na rua Aurora e policiais permaneciam enfileirados, sem responder a delitos, na Rio Branco.
                  Na rua Cásper Líbero, no entanto, a PM conseguiu prender seis suspeitos de envolvimento em um arrastão.
                  Mesmo o senador petista Eduardo Suplicy teve o telefone e sua carteira furtados durante a festa e subiu ao palco após o show de Daniela Mercury, pedindo que devolvessem seus pertences --ele, de fato, recuperou alguns de seus documentos.
                  Sob o olhar do prefeito, Mano Brown, líder dos Racionais MC's, reclamou da violência durante seu show.
                  "Estive ontem aqui. Sou da rua, vi muita covardia no centro. Todo mundo fala da polícia, do sistema, mas eu vi vários malucos roubando. Isso está longe de ser evolução. O rap precisa de gente de caráter, não de malandrão."

                    REVIRADAS
                    Incorreto No palco de stand-up, na Sé, o humor politicamente incorreto de Rafinha Bastos foi só sucesso, sem nada da rejeição acalorada que enfrenta na internet.
                    Incorreto 2 Citando dois processos movidos contra ele, um por fãs da cantora Wanessa Camargo e outro pela Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), arrancou gargalhadas ao resumir: "Fui processado duas vezes pelo mesmo grupo de pessoas".
                    Choro O tributo a Chorão, que morreu em março, lotou o palco São João e fez muita gente desabar em lágrimas. O ponto alto foi quando Sandrão, do RZO, e o filho de Sabotage se juntaram ao grupo A Banca, formado por ex-membros do Charlie Brown Jr., para cantar "Respeito É para Quem Tem".
                    Quebrando tudo Falcão não perdoou ninguém nas piadas de seu show no Sesc Santo Amaro. Sobrou para políticos ("Estava vendo a convenção do PSDB, e foi eleito o Aécio Neves", disse, antes de cantar, em "homenagem" ao tucano, a música "Abutre") e para o orgulho gay ("Algum dia vamos ter um gay na presidência. Desconfio dessa Dilma").
                    Churrasquinho A feira gastronômica que ocupou av. São Luís teve como destaque o porco assado com tutu de feijão e geleia de pimenta, do chef Jefferson Rueda. Ele escreveu na barraca: "Mais vale um porco na churrasqueira do que dois no chiqueiro".
                    Churrasquinho 2 Quem não achou graça foi o grupo vegano Veddas. Em protesto, gritou: "Porcos são vocês".

                      Violência causa mal-estar entre PM e prefeitura
                      DE SÃO PAULO
                      Os seguidos arrastões provocaram durante a Virada Cultural um mal-estar entre o governo do Estado e a prefeitura. Frequentadores reclamaram de "falhas" no esquema de segurança e de uma demora de policiais militares no enfrentamento de criminosos que agiam no evento.
                      Representantes da prefeitura, organizadora da Virada, disseram ter recebido, ao longo da madrugada, relatos de uma suposta inércia de PMs.
                      Em dois arrastões presenciados pela Folha, logo após os crimes, era possível ver PMs concentrados perto de viaturas, que só saíam em busca de suspeitos após serem cobrados por vítimas.
                      Nos bastidores do show dos Racionais MCs, a Folha acompanhou o momento em que o coronel Reynaldo Rossi conversou com o prefeito Fernando Haddad.
                      Rossi negou a suposta indiferença da corporação em relação à segurança do evento e disse que a PM não se omitiu. Haddad respondeu: "Estamos tranquilos, tem um pessoal querendo fazer picuinha".
                      Mais tarde, à Folha, Haddad disse estar "muito preocupado". "Estamos averiguando, porque omissão é muito grave. Estamos fazendo um relatório para podermos falar com mais assertividade."
                      Organizadores da Virada disseram à reportagem, em conversas reservadas, que a omissão da PM visaria comprometer um "evento-vitrine" da gestão petista --criado pelo tucano José Serra, em 2005.
                      A reportagem apurou que há muitos PMs insatisfeitos com o prefeito por causa das mudanças na Operação Delegada, em que policiais atuam pagos pela prefeitura para conter comércio ambulante.
                      Para o coronel Rossi, comandante do policiamento na Virada, as ações da PM tiveram a "justa medida". "Não digo em sutileza nem em leniência. A sensação de ser vítima não é confortável para ninguém, mas gostaria de perceber o universo de vítimas dentro do universo de pessoas."


                      FOCO
                      Jovem fica 12 horas em DP para recuperar tênis, mas sai descalço
                      GIBA BERGAMIM JR.DE SÃO PAULO"Tá todo mundo falando da polícia, do sistema, mas eu vi maluco roubando. Os malandrão (sic) roubaram o Mizuno de um moleque que custa 900 paus. Quem aqui ganha isso por mês?", perguntou Mano Brown, do Racionais MC's, ontem ao comentar os arrastões que ocorreram na Virada Cultural.
                      Na mesma hora, o conferente de supermercado Fábio Viana, 24, estava descalço na delegacia. Tentava recuperar seu par de tênis Mizuno Wave Creation, pelo qual ele diz ter pago "quase R$ 1.000".
                      Viana foi uma das centenas de pessoas que foram a delegacias após terem suas roupas, celulares e carteiras arrancadas à força por grupos de ladrões que agiam no chamado arrastão. Quem resistia levava chutes e socos.
                      O jovem estava no DP às 5h quando viu um dos 15 detidos pela PM. Olhou para os pés de um ladrão e disse: "é meu tênis". Passou o dia na esperança de recuperar o pisante do qual Mano Brown havia falado no show. Às 17h, concluiu que o calçado não era o dele. Saiu e foi de trem a Itaquera, onde mora. Descalço.

                        REVIRADAS
                        Frustração alemã
                        A participação do Kultur Tour, caminhão com filmes e músicas alemãs --parte das comemorações do ano Alemanha+Brasil--, foi cancelada na Virada Cultural por falta de segurança. A mostra foi programada para a rua dos Gusmões, na região da cracolândia. Produtores disseram ter pedido à prefeitura por um local mais seguro. Como não tiveram resposta, removeram o veículo dali.
                        Blecaute na cozinha
                        Após uma estreia marcada por filas, baixa oferta de comida e tumulto em 2012, o Chefs na Rua teve problemas nesta Virada Cultural. Metade das barracas do evento gastronômico, aberto no domingo às 8h30, ficou sem energia, sem poder cozinhar ou esquentar pratos. A energia foi restabelecida ao meio-dia.

                          domingo, 19 de maio de 2013

                          Caixa com 13 CDs recupera fase de ouro de Nara Leão

                          folha de são paulo

                          Projeto com LPs da cantora nos anos 1960 tem direção de Rodrigo Faour
                          Edição reúne discos de carreira da artista e raridades registradas em compactos e trilhas para cinema e teatro
                          LUCAS NOBILEDE SÃO PAULOUm jeito "cool" de cantar aliado a um sorriso que revelava os dentes dianteiros ligeiramente separados e a um belo par de joelhos conferiram a Nara Leão o status de musa da bossa nova.
                          Desde que se lançou como cantora, em 1964, Nara tinha tudo para se firmar como o nome feminino do movimento alentado na zona sul carioca e interpretar temas ligados à estética "banquinho e violão", mas optou por um caminho que a levou além.
                          Nascida numa família de classe média, a garota da zona sul impressionou crítica e público ao dar voz a sambistas do morro, como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti.
                          Mais de duas décadas depois da morte de Nara (1942-1989), o repertório do período mais significativo da trajetória da cantora, os anos 1960, é relançado em uma caixa com 12 discos de carreira e um duplo com raridades.
                          Com o título de "Nara Leão - Samba, Festivais e Tropicália", a compilação foi feita por Rodrigo Faour.
                          Inicialmente, o jornalista e produtor fora convidado para organizar um CD duplo com raridades de Nara.
                          No repertório, reuniu gravações não incluídas em discos de carreira da cantora, mas em trilhas de filmes como "Quando o Carnaval Chegar", de peças como "Quincas Berro D'Água" e de registros ao vivo ou em compactos de Sidney Miller e Dulce Nunes, dos quais Nara participou.
                          "Hoje, um playboyzinho gravar Cartola é comum e bobo. Naquela época não, aqueles compositores estavam esquecidos. A Nara teve ousadia, bom gosto de repertório, critério e ética, que caíram em desuso hoje", diz o produtor.
                          Faour ampliou a proposta original e agregou ao projeto o relançamento de 12 álbuns, que compreendem um período de cinco anos na carreira de Nara: vão do primeiro LP dela, "Nara" (1964), até o disco "Coisas do Mundo" (1969).
                          "Bossa, samba de morro, músicas de protesto: a Nara sempre esteve na vanguarda. Fez uma revolução de comportamento", diz o cineasta Cacá Diegues, que dirigiu "Quando o Carnaval Chegar" e foi casado com a cantora por dez anos, de 1967 a 1977.

                            quinta-feira, 16 de maio de 2013

                            Na "maturidade" da Virada, ordem é concentrar atrações

                            folha de são paulo

                            De fora pra dentro
                            Virada Cultural 2013, marcada para este fim de semana, tira atrações da periferia e se concentra no centro de SP
                            LUCAS NOBILEMATHEUS MAGENTASILAS MARTÍDE SÃO PAULONo ano em que chega à sua nona edição, a festa mais popular de São Paulo abandonou a periferia e se concentrou na região central.
                            A primeira Virada Cultural da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), marcada para este fim de semana, também vai ser menor do que a do ano passado, mesmo tendo o maior orçamento de toda a sua história, R$ 10 milhões.
                            Foram cortados da festa todos os Centros Educacionais Unificados, os CEUs, que no ano passado reuniram 162 apresentações.
                            No total, 4 milhões de pessoas foram a 790 eventos no centro e 414 em áreas periféricas em 2012. Agora, serão 784 atrações centrais e 226 em pontos distantes.
                            Com um orçamento 33% maior neste ano--foi de R$ 7,5 milhões para R$ 10 milhões--, a Virada diminuiu os eventos em cerca de 16%.
                            "Tudo que levava à dispersão, a gente reduziu", diz Juca Ferreira, secretário municipal da Cultura, à Folha.
                            "A Virada não diminuiu. Houve um reordenamento e fortalecimento de certos processos e redução de outros. O conceito da Virada é permitir uma convivência inaudita na cidade, por isso ela não pode se dispersar."
                            Ferreira ressalta que a periferia não está fora da Virada porque manifestações como rap, forró e funk voltaram à programação.
                            "O que nós não queremos é que a periferia tenha de ficar na periferia. Queremos que as pessoas que moram lá venham até a Virada."
                            "Acho isso um erro", ataca o vereador tucano Andrea Matarazzo, que lançou agora um projeto de lei para assegurar a realização da Virada. "Eu teria feito como sempre fizeram, para não sobrecarregar o centro."
                            José Mauro Gnaspini, que passou a dividir o comando da festa com outros oito curadores, diz que "talvez não seja a Virada que vá atender a periferia" e diz que há planos para criar outras festas menores ao longo do ano.

                              Na "maturidade" da Virada, ordem é concentrar atrações
                              Prefeitura atribui a redução do território da festa aos reforços em infraestrutura, limpeza e policiamento
                              "Nosso conceito não foi o de crescer a festa, mas qualificá-la, porque a grandeza dela já é sua marca", diz secretário
                              DE SÃO PAULONa opinião de seus organizadores, a Virada Cultural chegou a sua "maturidade". Em vez de crescer, seria a hora de a festa melhorar seu conteúdo e resolver problemas crônicos, como a escassez de banheiros, a limpeza das ruas e o policiamento.
                              "Nosso conceito foi qualificar a Virada, porque a grandeza já é a sua marca", diz Juca Ferreira, secretário municipal da Cultura. "Ampliamos a higiene, a infraestrutura, os serviços. Não devemos pensar que a Virada resolve todos os eventos da cidade."
                              Ferreira diz que a concentração da Virada nas ruas do centro faz parte dessa "qualificação" e não contradiz uma das bandeiras do prefeito petista Fernando Haddad, de levar cultura à periferia, porque outros eventos em bairros fora do centro devem ser criados ao longo do ano.
                              "Talvez a festa tenha chegado mesmo ao seu limite", diz José Mauro Gnaspini, responsável pela programação da Virada desde sua primeira edição e hoje um dos curadores da festa. "Esse é o tamanho que a festa pode ter, e outras expansões serão em outros locais e outras datas."
                              Segundo Gnaspini, a posição e o tamanho dos palcos também foram repensados para evitar tumultos e, ao mesmo tempo, manter uma distância curta entre eles. Fora dos palcos, também haverá atrações de rua, que vão se deslocar entre as praças.
                              "Tem um interesse da população em se sentir convidada para a mesma festa." Percebemos que a população da periferia queria estar aqui", diz o curador, lembrando que, com a operação 24 horas dos trens da CPTM, esse acesso ficará mais fácil.
                              Mesmo mais concentrada, a Virada Cultural ficou mais cara agora por causa dos reforços na infraestrutura e "cachês mais equilibrados", nas palavras de Juca Ferreira.
                              Além do custo da Virada, que aumentou de R$ 7,5 milhões para R$ 10 milhões este ano, a prefeitura gastou R$ 2 milhões a mais --R$ 6,8 milhões contra R$ 4,8 milhões de 2012-- com a campanha publicitária para promover a edição da festa.

                                Matarazzo quer garantir a festa anual com lei
                                DE SÃO PAULOCom a troca de partidos no comando da prefeitura paulistana, o vereador tucano Andrea Matarazzo lançou um projeto de lei para "assegurar" a realização da Virada Cultural, criada na gestão do ex-prefeito José Serra, em 2005.
                                "Quero instituir a Virada Cultural como programa de governo, para assegurar que ela aconteça, não importa o partido que estiver no poder", diz Matarazzo. "É importante que ela continue com as características que ela já tem."
                                Matarazzo, que critica a concentração da Virada no centro, também incluiu na lei a exigência de que pelo menos 20% das atrações da festa sejam inéditas a cada ano, evitando "chavões de sempre" e abrindo espaço para "revelações".
                                Segundo o vereador, o projeto deve entrar em votação na Câmara paulistana no mês que vem.

                                  Escalada às pressas, curadoria coletiva fez poucas mudanças
                                  Resultado mais aparente apresentado pelos nove curadores foi a maior presença do rap
                                  DE SÃO PAULOMais de mil atrações espalhadas por mais de cem palcos durante 24 horas em um evento que recebeu cerca de 4 milhões de pessoas no ano passado. Afinal, quem decide quais são os artistas da Virada Cultural, onde e em que horário eles se apresentam?
                                  Nas primeiras oito edições da festa, a tarefa ficou nas mãos de José Mauro Gnaspini. Neste ano, na primeira Virada da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) e do secretário municipal da Cultura Juca Ferreira, Gnaspini divide a curadoria com outras oito pessoas.
                                  A contratação de especialistas em diferentes áreas, no entanto, teve pouco impacto na programação do evento.
                                  "Tem mais diversidade e profundidade dentro dessa diversidade. Você acrescenta mais camadas, mas, pela grandeza do evento, talvez isso não fique tão aparente para as pessoas", diz Pena Schmidt, um dos curadores.
                                  Uma das mudanças mais significativas da nona Virada é a volta do rap ao evento.
                                  Além dos holofotes voltados para o retorno dos Racionais MCs à programação -a última apresentação do grupo, em 2007, foi marcada por um confronto entre o público e a polícia- e do show de Criolo, o rap terá agora um ponto dedicado ao gênero.
                                  O palco Rio Branco - A Rua É Show receberá 24 apresentações de nomes como Emicida, Nelson Triunfo, Sombra e dois integrantes dos Racionais, KL Jay e Edi Rock.
                                  "O rap era dissolvido em palcos, até como forma de amainar a confusão de 2007. A curadoria entende que devia dar um lugar apropriado ao rap", diz Schmidt. "A Virada é um evento que carrega a mudança e a evolução. Portanto, não é exótico ter um palco de forró e um de funk, por exemplo", completa.
                                  Outra mudança é o destaque para as artes visuais, que não ficam mais só dentro dos museus da cidade. Intervenções como a do grupo Bijari, que construiu uma ponte luminosa sobre o vale do Anhangabaú e fez uma projeção para o Palácio da Justiça, devem chamar a atenção.
                                  ÀS PRESSAS
                                  Consenso entre os curadores é a falta de tempo para planejar a Virada deste ano. A comissão teve pouco mais de dois meses para conceber a programação. "Ideias ótimas apareceram, mas não tivemos tempo", diz Schmidt.
                                  Nomes como Marisa Monte e Chico Buarque foram convidados, cobraram cachês muito altos, mas não houve tempo para negociações.
                                  "Falta também cair a ficha para algumas pessoas de que não é hora de ganhar dinheiro, mas de fazer um preço generoso e dar um presente para o Brasil", comenta o curador Marcus Preto.

                                    sexta-feira, 10 de maio de 2013

                                    Novo disco de Marcelo D2 lança luz sobre limites para se alterar músicas de outros

                                    folha de são paulo

                                    LUCAS NOBILE
                                    MATHEUS MAGENTA
                                    DE SÃO PAULO

                                    Há dez anos, Marcelo D2, conhecido na época como líder do Planet Hemp, estabeleceu sua carreira solo com o disco "A Procura da Batida Perfeita", em que misturava rap com samba. Recentemente, o músico carioca teve de enfrentar outra procura, cujo desfecho não foi tão perfeito.
                                    Em seu quinto álbum solo, "Nada Pode me Parar", D2 foi obrigado a deixar de fora músicas que havia sampleado de outros discos. Como não chegou a um acordo para a liberação com os autores das canções, precisou mudar os planos do CD, que começou a ser gravado em fevereiro de 2011.
                                    No jargão musical, o "sample" é a técnica de usar trechos de sons previamente gravados num sampler (equipamento eletrônico), alterá-los e inseri-los em uma nova gravação.
                                    Editoria de Arte/Folhapress
                                    Associado à cultura do hip-hop americano desde os anos 1970, o ato de samplear tem dois caminhos: ou o artista pede liberação ao autor da música para reutilizá-la (dando crédito ao compositor) ou o faz sem autorização, prática mais comum no rap.
                                    D2, por exemplo, optou por tentar um acordo com os sampleados para seu novo disco. Obteve êxito em alguns casos --como o tema "Abre Alas", de Ivan Lins, autor que já lhe rendera sucesso com o "sample" de "Desabafo"; e "Escravos de Jó", gravação de Dom Um Romão para composição de Milton Nascimento--, mas fracassou em outros.
                                    Entre as negativas, o músico não recebeu autorização para usar trechos de "Mr. Tambourine Man", de Bob Dylan, em gravação vocal de Raul Seixas; de "Take Five", de Dave Brubeck; de uma música do Parliament; e de um discurso sobre o rap feito pelo apresentador Roberto Maya, no programa "Documento Especial", na TV Manchete, na década de 1980.
                                    "É difícil fazer sample no Brasil. Fica mais fácil negociar quando o músico está vivo, é uma homenagem. Complicado é tratar com as editoras e com os herdeiros, que, em muitos casos, não entendem de música", diz D2.
                                    Segundo o músico, em muitos casos, são cobrados valores "inviáveis" para se obter a liberação do sample.
                                    "Os caras do Parliament pediram R$ 50 mil, quase a metade do orçamento do meu disco", completa.
                                    Roberto Maya confirmou a negociação que envolvia sua narração e disse ter cobrado R$ 500 para liberar sua voz no disco de D2.
                                    "Pedi a metade do meu condomínio, mas não aceitaram. Sabia que não podia cobrar muito, sei que o Brasil é uma grande quitanda, é tudo a preço de banana", disse. A reportagem não consegui ouvir D2 sobre esse valor até a conclusão desta edição.
                                    Diferentemente de D2, muitos artistas fazem seus "samples" sem autorização prévia. No grupo estão nomes como ConeCrewDiretoria, que sampleou "I Put a Spell on You", de Nina Simone, Racionais MC's, Emicida e RZO.
                                    Fabio Braga/Folhapress
                                    Marcelo D2, que lança o álbum "Nada Pode Me Parar"
                                    Marcelo D2, que lança o álbum "Nada Pode Me Parar"
                                    "Não peço autorização, editora brasileira tem a cabeça no século passado. Deveria haver uma forma de fragmentar o lucro da nova criação de maneira menos leonina", diz Emicida.
                                    Em alguns casos, a prática é descoberta, e os músicos têm de pagar direitos autorais, como ocorreu com a ConeCrewDiretoria, que sampleou Os Originais do Samba em "Falador Passa Mal".
                                    Depois de lançá-la, o grupo recebeu notificação extrajudicial de Jorge Ben Jor, autor da canção, fechando um acordo de repassar a ele 30% dos direitos da execução.
                                    Para o produtor musical BiD, o "sample" é parte da cultura hip-hop de pegar a música emprestada sem dar o crédito ao compositor.

                                    Lei brasileira proíbe modificar obra sem autorização do autor
                                    DE SÃO PAULOA Lei dos Direitos Autorais brasileira permite que um artista use pequenos trechos de obras de outros autores para compor uma música, por exemplo, independentemente de eles terem autorizado.
                                    Esse tipo de uso, chamado de citação, difere do "sample" (amostra, em inglês), porque esse segundo altera o original para a nova obra.
                                    "A lei brasileira permite o uso de pequenos trechos de uma obra, mas o artigo 24º dessa mesma lei diz que ninguém pode mudá-la sem a autorização do autor", diz José Carlos Costa Netto, advogado que preside a Associação Brasileira de Direito Autoral.
                                    Para Hildebrando Pontes, advogado que representa o Ecad (que arrecada e distribui direitos autorais de obras sonoras) em diversas ações judiciais, o "sample" feito sem autorização pode ser considerado "genericamente" um plágio --apresentar-se como autor da obra de outra pessoa.
                                    "A lei brasileira não define o que é um plágio, mas o que é a contrafação, ou seja, a reprodução não autorizada."
                                    Para ele, o "sample' sem autorização do autor faz parte de uma mentalidade que vem sendo difundida no país em nome de um processo de formação cultural que é, na verdade, só uma forma de violar direitos e de não pagar o que se deve ao autor."

                                      HIP-HOP
                                      Nada Pode me Parar
                                      Marcelo D2
                                      GRAVADORA EMI Music
                                      QUANTO R$ 30 (em média)
                                      AVALIAÇÃO ****
                                      Depois de escutar as 15 faixas do novo disco de Marcelo D2, bate uma grande vontade de ouvir as outras que não foram lançadas por questões de direitos autorais. Porque a fase do rapper carioca parece ótima. "Nada Pode me Parar" é um título adequado: remete à autorreferência (o nome Marcelo D2 em vários versos, os bairros do Rio, o filho, os amigos...) e à experimentação quase sem limite que corre pelo álbum. O som negro das últimas décadas, de artistas nacionais ou estrangeiros, dá as caras em apropriações sampleadas ou influências não menos escancaradas. Confortável entre a virulência de um Racionais MC's e o lirismo de um Gabriel O Pensador, o hip-hop de D2 seduz até quem torce o nariz ao gênero. Ele solta agora seu melhor trabalho desde "A Procura da Batida Perfeita", de 2003. (THALES DE MENEZES)