quinta-feira, 13 de junho de 2013

Papa Francisco fez menção a "lobby gay"

Religiosos confirmam fala polêmica do pontífice
A Clar (Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos) confirmou ontem o "sentido geral" da fala do papa Francisco a membros da entidade no último dia 6.
No encontro privado, segundo noticiado anteontem pelo site chileno "Reflexión y Liberación", o pontífice teria reconhecido a existência de "uma corrente corrupta" e de um "lobby gay" no Vaticano.
"Não se pode atribuir ao Santo Padre, com segurança, cada uma das expressões contidas no texto, mas apenas seu sentido geral", afirmou a Clar em nota oficial ontem. A entidade também lamentou a divulgação da síntese do encontro, que acabou vazando para o site chileno.
Segundo a presidência da organização, a fala do papa não foi gravada e o texto foi redigido com base na recordação dos participantes.
"Essa síntese, que não contém as perguntas feitas ao Santo Padre, estava destinada apenas à memória pessoal dos participantes e de maneira alguma à publicação, para a qual, aliás, não se pediu autorização alguma", disse a entidade, que pediu desculpas pela "confusão" que pode ter causado.
Segundo o texto reproduzido pelo site chileno, o papa afirmou: "Na Cúria há gente santa, de verdade, há gente santa. Mas também há uma corrente de corrupção, também há, é verdade."
Em outro trecho, ele teria dito: "Fala-se de lobby gay', e é verdade, ele existe... É preciso ver o que podemos fazer".
Questionado sobre as declarações do papa, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, recusou-se a tecer comentários, afirmando que se tratava de uma reunião privada.

    Marina Colasanti-À noite, as bruxas‏


    Estado de Minas: 13/06/2013 


    Amiga portuguesa me manda um surpreendente mapa vivo da Segunda Guerra Mundial. Vivo porque a cada impulso do mouse o mapa se modifica, as invasões vão acontecendo na tela do computador. Como se fosse um jogo e eu fizesse parte da ação, a um toque do mouse desperto a cor vermelha da Alemanha nazista. E ela avança, toque a toque, por cima das fronteiras. A Europa vai sendo tomada pela mesma cor. Não há explicações, apenas um som distante de explosões, o ranger das lagartas dos tanques, o ronco dos aviões, tudo muito discreto.

    Um toque a mais no mouse e, como um caldo derramado, o vermelho escorre sobre a Rússia. É o começo de 1941, 75% do Exército alemão avança para tomar Moscou.

    Quando desligo o mapa e agradeço por e-mail à amiga distante, ainda não sei que tenho um encontro marcado com esse mesmo ano, esse avanço, essa ameaça. E é para depois do jantar. As Bruxas da noite me esperam na escuridão.

    Eu as encontro num documentário da RAI, tão jovens todas, tão sorridentes, fotografadas junto a seus aviões. No início de 41, quando o Exército alemão forçava a frente oriental e a Rússia redobrava seu esforço de guerra para conter a invasão, a major da Força Aérea soviética Marina Raskova pediu uma audiência a Stalin. O projeto que lhe ofereceu foi aprovado. E 10 meses depois, três regimentos aéreos exclusivamente femininos entraram em ação.

    Nada estava a seu favor. Os colegas homens as receberam com desprezo e deboche, os uniformes eram grandes demais para elas, as botas tiveram que ser preenchidas com papel de jornal, o treinamento havia sido bem mais breve que os três anos regulamentares, e os aviões que lhes foram designados eram velhos, lentos e perigosos. Chamavam-se Policarpov U-2, biplanos de madeira e pano, antes usados para fumigação, que qualquer fósforo incendiava, onde a piloto e a navegadora iam sem proteção, entregues da cintura para cima ao frio e ao vento. Nenhum instrumento, só bússola, relógio e mapa. E nada de para-quedas. Do outro lado, os poderosos e velozes Messerschmidt alemães.

    O terceiro regimento só voava à noite. No escuro, desligando o motor por momentos para evitar o ruído, elas se aproximavam do alvo e despejavam suas bombas. Só duas de cada vez, porque o aviãozinho não aguentava carga maior. Aí, era só fugir da artilharia antiaérea, livrar-se dos caças alemães que saíam atrás delas, retornar à base, aterrissar, carregar mais duas bombas e levantar voo novamente. A noite das moças era animada. Como disse no documentário uma delas, agora velhíssima, mas igualmente alerta: “Quando nós terminávamos a nossa noite, os homens estavam apenas começando a se espreguiçar e se preparando para tomar café”.

    No fim da guerra, elas tinham feito 23 mil saídas e despejado cerca de 3 mil toneladas de bombas. Eram 40 tripulações duplas.

    Fui rever o mapa vivo. A retirada do vermelho nazista, empurrado para fora da Rússia, tinha agora outro sabor. Desta vez, no ronco distante dos aviões, imaginei distinguir o tossir dos Policarpov. E pensei naquelas moças de cabelos curtos, cortados pela norma militar, aquelas quase meninas sorridentes, de capacete de aviação e blusão de couro, tão pouco bruxas, mas assim batizadas pelos inimigos nazistas, que sabiam, na carne, do que elas eram capazes.

    Tereza Cruvinel - O Velho, Cassandra e Poliana‏

    Dilma tem todo o direito de exorcizar as pragas do Velho do Restelo e as profecias das cassandras, mas deve também evitar a "síndrome de Poliana" 


    Estado de MInas: 13/06/2013 


    Vestindo vermelho, a presidente Dilma Rousseff ressurgiu ontem lançando um programa de crédito subsidiado aos beneficiários do programa Minha Casa, Minha Vida, para a compra de móveis e eletrodomésticos. Não poderia haver palanque melhor para ela exorcizar a onda criada pelo viés de baixa na popularidade e o de alta na deterioração de indicadores econômicos. Evitando o primeiro assunto, ela enfrentou o segundo, reiterando que tudo está sob controle. Voltando de Lisboa, valeu-se da figura camoniana do Velho do Restelo para desafiar os pessimistas que torceriam pelo insucesso de seu governo.

    Governantes, em momentos difíceis, costumam apontar contra eles o canhão verbal. Para não recuar muito, Fernando Henrique referia-se frequentemente às “cassandras”, e citou também o Velho de Camões. Lula falava nos “pessimistas de plantão” e no “complexo de vira-lata”. O Velho do Restelo é um eco erudito que já atravessou muitos discursos políticos. No obra épica sobre as navegações portuguesas que alargaram o mundo, ele ficava no cais profetizando desgraças para os tripulantes das caravelas. “Azarando”, disse Dilma, usando a palavra duas vezes. Mas “O Velho do Restelo não terá a última palavra no Brasil”, assegurou desafiadora.

    É claro que uma presidente com a reeleição praticamente garantida, alta popularidade e prestígio mundial mobiliza a energia negativa das cassandras, que existem mesmo na política. Mas, é claro que a conjuntura negativa na economia não decorre apenas das profecia negativas, que os jornais vêm registrando, alguns com estranha vibração, há pelo menos três meses. Mas, se essas profecias adversárias estão se realizando, foi porque, de alguma forma, o governo ajudou, com medidas equivocadas ou com a falta de medidas, afora a incontrolável variável externa. Dilma tem todo o direito de exorcizar as pragas do Velho do Restelo e as profecias das cassandras, mas deve também evitar a “síndrome de Poliana”, aquela personagem da literatura juvenil que, mesmo sob raios e trovões, diz que tudo vai dar certo.

    Remédio vencido

    A própria medida lançada, o programa Minha Casa Melhor, baseia-se na receita que vem sendo usada para alavancar o crescimento, o estímulo ao consumo, que, por sua vez, é inflacionário. “É injusto dizer que este evento tem relação com as pesquisas, porque estava marcado há algumas semanas”, dizia ao fim da solenidade palaciana a empresária Luiza Trajano, das lojas que levam seu nome. Ela acredita que a medida terá um efeito aquecedor sobre o mercado, mas parte dos analistas econômicos vem dizendo que esse remédio já perdeu a eficácia. Mas voto, certamente, ele dá.

    Eleitoralmente, a oscilação negativa da popularidade de Dilma não abalou seu favoritismo. Ela perdeu alguns pontos, mas seus adversários, juntos, cresceram quase nada. O que as pesquisas indicam, por enquanto, são perigos de duas naturezas. O primeiro está no fato de ela não ter um tefal (antiaderente) forte como o de Lula. Se a economia desandar, especialmente a inflação, o eleitorado reagirá. O segundo não tem a ver com o povo, mas com a elite política. Se a popularidade voltar a minguar, os partidos de sua coalizão vão encarecer o apoio, podendo mesmo um ou outro debandar. Ela tem tempo para evitar uma coisa e outra.

    Quanto à identidade do Velho do Restelo, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), dizia no final do evento: “Velhos do Restelo por aqui há muitos, e cada qual saberá enfiar a carapuça”. Para quem tenha curiosidade literária, um pedacinho da fala derrotista da personagem: “A que novos desastres determinas/de levar estes reinos e esta gente?/Que perigos, que mortes lhes destinas/Debaixo de algum nome preminente?”

    O valor dos aliados

    Relativamente ao segundo perigo que ronda Dilma – o de oscilação negativa na fidelidade e engajamento dos aliados – um sinal pode ter havido ontem na decisão da bancada do PMDB na Câmara de nada votar enquanto não forem apreciados os vetos acumulados. Isso não começou agora, mas também vem de longe o queixume sobre o tratamento arrogante que o Planalto dispensaria aos aliados. O encolhimento da popularidade, se não ameaça Dilma eleitoralmente, talvez sirva para ampliar a compreensão do governo sobre o valor dos aliados e a importância da articulação do governo no Congresso, hoje quase inexistente.

    Poucos, no PT, são tão realistas quanto o deputado Cândido Vacarezza (SP) quando aborda o assunto.“Nós temos aliados muito bons e o governo precisa compreender isso. O PT, com apenas 90 deputados, ou 17% das cadeiras na Câmara, não governaria o Brasil sem o apoio da coalizão. Agora, por desarticulação é que uma base com mais de 400 deputados exibe-se no plenário como uma Seleção Brasileira que precisa fazer de tudo para não perder para um time de várzea. Eles podem ter diferenças conosco, mas não têm divergências. Se fôssemos iguais, eles estariam no PT.”

    Dilma, agora, vai ter que tratar melhor os que lhe dão apoio.

    Mama África - Carolina Braga

    Mostra Internacional Imagem dos Povos, que começa sábado em BH, tem programação dedicada ao cinema contemporâneo do continente e sua influência ao redor do mundo 


    Carolina Braga

    Estado de Minas: 13/06/2013 



    Quando falamos em cinema americano, inglês, francês ou até mesmo no brasileiro, dá para imaginar o que pode aparecer na telona. Além de ser o que mais conhecemos, há um padrão de narrativa. Agora, o que esperar sobre um filme realizado nas Ilhas Maurício ou em Madagascar, Camarões, Moçambique, Congo, Burkina Faso? Faltam referências e sobra folclore. Pois abandone a ideia da África primitiva e se abra para o cinema do continente.

    É esse o convite da Mostra Internacional Imagem dos Povos, que será realizada em Belo Horizonte de15 a 30 deste mês, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes, e entre 25 e 27 no Memorial Minas Gerais, na Praça da Liberdade. Em sua oitava edição, o evento chama a atenção para a variedade de temas e linguagens que a produção contemporânea audiovisual africana tem alcançado, seja no continente ou nas diásporas ao redor do globo. “É uma viagem que a gente pode fazer na diversidade humana”, comenta o bailarino e coreógrafo Rui Moreira, personagem do documentário Fan do Brasil, uma das atrações da mostra.

    De acordo com o cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo, a África tem números surpreendentes que são desconhecidos do público brasileiro. “É o continente que mais cresce e o cinema acompanha esse ritmo. Existem ações efetivas de vários governos para que seja elemento de reforço das identidades nacionais e históricas”, explica. Joel Zito, que participará do Imagem dos Povos com o documentário Raça, defende a ideia de que ainda temos uma visão muito colonizada e desatualizada sobre a África hoje e, por consequência, sabemos muito pouco do cinema africano.

    A programação foi desenhada para borrar – nem que seja um pouco – essa imagem predefinida. Segundo o cineasta, o primeiro passo para isso é a compreensão da diversidade. “É pensar que a África não é somente negra”, ressalta. Assim, ele lembra que o continente tem boa parcela árabe e islâmica. Dele fazem parte tanto os dramas e comédias do cinema egípcio e da região do Magreb, assim como as criações marroquinas e até mesmo a “hollywoodiana” produção da África do Sul.

    “Gosto de destacar um aspecto que está presente em boa parte dos filmes: é uma África também com conflitos urbanos, plugada no século 21”, comenta Adyr Assumpção, idealizador e curador do festival. Diferentemente dos últimos anos, quando a escolha da programação era compartilhada, neste ano, o próprio Adyr percorreu mostras audiovisuais fora e dentro do Brasil. Uma delas foi o Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Uagadugu, em Burkina Faso, o mais antigo e considerado um dos mais importantes da região. Foi onde garimpou trabalhos, no mínimo, curiosos.

    Novos horizontes Criado em 2004, inicialmente em Ouro Preto, o Imagem dos Povos sempre procurou destacar a produção cinematográfica distante e ainda desconhecida no Brasil. Depois de abordar obras da Nova Zelândia, Índia, China e Japão, Adyr conta que, desde 2009, a aproximação com a África se acentuou. Isso, segundo ele, se deve também ao momento particular do audiovisual africano.

     É que muitos profissionais que deixaram seus países para ampliar a formação na Europa não só voltaram a produzir na terra natal como também ampliaram as coproduções. Esse movimento contribuiu com o desenvolvimento do chamado cinema da diáspora, ou seja, dos criadores com raízes africanas espalhados pelo mundo. É aí que entram outras safras mundiais e o maior interesse do Imagem dos Povos.

    “O cinema africano não está preocupado em fazer filmes sobre o negro ou o branco. Não tem problema de identidade. O cinema diaspórico brasileiro, caribenho e norte-americano tem a temática do racismo de forma muito mais acentuada”, explica Joel Zito. Além da produção brasileira, o Imagem dos Povos também realiza a primeira retrospectiva em Minas Gerais da obra do haitiano Raoul Peck. “É um cineasta importante nessa questão do olhar para a África. É um momento para ficar conhecendo um pouco mais dessa cultura guerreira”, convida Adyr.

    Todas as sessões do Imagem dos Povos têm entrada franca. Para ampliar o alcance, repete em 2013 a experiência com canal para a exibição pela internet dos filmes nacionais que fazem parte da programação. No ano passado, as 20 produções que ficaram disponíveis on-line foram assistidas por espectadores de 193 cidades de 29 países, nos cinco continentes.

    Outra atividade paralela à mostra é o 8º Seminário Internacional Imagem dos Povos – Encontros Criativos. Entre os temas estão os editais públicos e a produção artístico-cultural negra, com mediação de Rui Moreira e participação do presidente da Fundação Palmares, Hilton Cobra.

    Homenagem a Bulbul 

    O ator e cineasta Zózimo Bulbul, que morreu em janeiro, será o homenageado desta edição do Imagem dos Povos. Zózimo foi o primeiro ator negro a protagonizar uma novela, Vidas em conflito, na TV Excelsior e esteve à frente de papéis de destaque no cinema brasileiro, como em Cinco vezes favela (1962), Ganga Zumba (1963) e Terra em transe (1967). No evento de abertura será exibido o curta-metragem Alma no olho, e Rui Moreira apresentará coreografia especialmente criada para a ocasião.

    O que ver e por quê

    Cinema africano

    •  As crianças de Troumaron (2012, Ilhas Maurício, de Sharvan Anenden, Harrikrisna Anenden)
    O longa gira em torno da luta pela sobrevivência de quatro jovens nas Ilhas Maurício. Apesar do cenário turístico do local, a produção destaca questões urbanas muito particulares.
    •  O grito da pomba (2010, Nigéria, de Sani Elhadj Magori)
    É road movie nigeriano que aborda um tema universal: a família.


    Cinema da diáspora

    •  Raça
    (2013, Brasil, de Joel Zito Araújo e Megan Mylan)
    É documentário feito ao longo de cinco anos e que pretende registrar momento de afirmação da negritude no Brasil.
    •  O início dos sonhos
    (2010, EUA, de Horne Brothers)
    Feito nos Estados Unidos, toca diretamente na questão da formação do sentido de identidade no país.


    Programação

    •  Sábado
    19h – Alma no Olho (Soul in the eye), (1973, Brasil, 11 minutos, de Zózimo Bulbul) e Fan do Brasil (2013, Guadalupe/Brasil, 52 minutos, de Steve James)

    •  Domingo
    14h – 8º Seminário Internacional Imagem dos Povos – Encontros Criativos
    17h – Vamos fazer um brinde? (2011, Brasil, 75 min, de Sabrina Rosa e Cavi Borges)
    19h – Nossa estrangeira (2011, Burkina Faso, 82 min, de Sarah Bouyain)
    21h – Koundi e o feriado de quinta-feira (2012, Camarões, 86 min, de Ariane Astrid Atodji)

    • Segunda
    17h – Nessa rua tem um rio (2012, Brasil, 38 min, de Alexandre Pimenta e Beatriz Goulart)
    19h – Alma no olho e Fan do Brasil
    21h – Mahaleo (2005, Madagascar, 102 min, de César Paes e Raymond Rajaonarivelo)

    Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes
    Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Entrada franca. Informações: imagemdospovos.blogspot.com