terça-feira, 2 de julho de 2013

Livro sobre jornal que combateu Hitler é tema de debate em SP

folha de são paulo
Obra de Silvia Bittencourt narra resistência de diário a nazista
DE SÃO PAULOAdolf Hitler mal era conhecido em sua cidade quando, em 1920, um jornal chamado "Münchener Post" já chamava atenção para o perigo que aquele homem representava.
Inimigo feroz do líder nazista por anos, o diário de Munique tem sua trajetória retomada, pela primeira vez no mundo, num livro da jornalista Silvia Bittencourt.
"A Cozinha Venenosa - Um Jornal Contra Hitler" (editora Três Estrelas) será lançado hoje, em debate dela com o jornalista Manuel da Costa Pinto, na livraria Martins Fontes, em São Paulo.
Fruto de três anos de trabalho de Bittencourt, baseado em pesquisas na Alemanha e em entrevistas com familiares dos jornalistas do "Post", a obra narra com detalhes a ascensão de Hitler e a resistência, classificada por muitos como "heroica", do jornal.
Por conta dela, Hitler se referia ao "Post" como "cozinha venenosa" ou como "Münchener Pest".
O jornal não fazia por menos. Divulgava os planos do ditador (foi o primeiro a mencionar a "solução final da questão judaica", no início de 1923) e o atacava com vigor, classificando-o como "o bacilo venenoso mais perigoso que o corpo do povo vem carregando consigo".
Cerca de 40 dias após tomar o poder, em 1933, Hitler ordenou que tropas da SA destruíssem o jornal, encerrando 13 anos de resistência.

    João Pereira Coutinho

    folha de são paulo
    Amestrando proletários
    O conhecimento verdadeiro não tem cor, sexo ou classe. E, quando tem, então não é conhecimento verdadeiro
    O problema do pensamento politicamente correto é que ele nada tem de correto. Pior: na ânsia de impedir qualquer ofensa a grupos ou minorias, ele converte-se na mais grotesca ofensa que existe para esses grupos ou minorias.
    A revista alemã "Der Spiegel" relata um caso que merece partilha: parece que a Universidade Livre de Berlim decidiu publicar um guia interno para que os alunos de famílias proletárias possam ser mais facilmente integrados na vida acadêmica. E que nos diz o guia?
    Coisas sensatas. Primeiro, informa os estudantes da instituição que os coleguinhas proletários não se sentem naturalmente confortáveis em ambientes não proletários.
    Mas o guia vai mais longe e exorta os alunos de classe média a gerar o ambiente ideal para que os coleguinhas proletários se sintam em casa. Como? Por exemplo, aconselhando a classe média a não criticar ou ridicularizar nenhuma afirmação dos coleguinhas proletários.
    Para os autores do guia, os alunos proletários são como certas espécies zoológicas que é necessário proteger em "habitat" adequado. E isso implica não os assustar e, logicamente, não os alimentar com doses arcaicas de conhecimento "burguês" e "reacionário".
    Como é evidente, o pensamento politicamente correto das patrulhas parte de duas ideias profundamente ofensivas.
    A primeira ideia é a defesa explícita de que alunos de famílias proletárias estranham e definham em ambientes eruditos. Sim, seria possível fazer uma lista de intelectuais gerados pelo proletariado --de Jack London a D.H. Lawrence-- que marcaram a história da cultura ocidental.
    As patrulhas politicamente corretas não conhecem essa lista. Preferem a caricatura do filho do operário fabril que só consegue ser feliz e "autêntico" no meio da fuligem. Livros, para ele, dão soneira. Ou coceira, tanto faz.
    Mas é a segunda recomendação que impressiona pela sua evidente discriminação. Para as patrulhas, sempre que um aluno proletário abre a boca, é preciso ser condescendente para escutar as alarvidades que ele diz.
    A universidade não é uma universidade, com a missão de corrigir erros e procurar algum conhecimento válido para todos. A universidade é uma grande encenação --ou, melhor ainda, uma sessão coletiva de terapia onde ninguém está certo (ou errado) porque todos estão certos (ou errados).
    O que o pensamento politicamente correto produz não é difícil de imaginar: a perpetuação do estigma de alunos proletários e a impossibilidade de eles aprenderem alguma coisa (na universidade) para ascenderem social e economicamente (na vida profissional).
    Quando se sai da universidade exatamente como se entrou, é preciso perguntar que mecanismo de atraso explica o resultado. Ironia: o atraso é promovido por aqueles que imaginam lutar contra ele.
    Depois de críticas severas da imprensa alemã, o guia da Universidade Livre de Berlim foi retirado para "reformulação". Mas ele deveria ensinar duas lições preciosas aos fanáticos do pensamento politicamente correto.
    Para começar, ele ensina como é tirânico falar em nome de grupos inteiros. Porque não existem grupos inteiros. O proletariado não existe. Os negros não existem. Os gays, as mulheres, os anões não existem.
    O que existe são indivíduos diversos, com histórias ou interesses diversos. Haverá proletários que não gostam de livros. Haverá proletários que não vivem sem eles.
    E haverá burgueses, genuínos burgueses, para quem ler, escrever e pensar são formas medievais de tortura. Conheço vários.
    A caricatura do "proletário" como um jumento apedeuta diz mais sobre as patrulhas politicamente corretas do que sobre o proletariado que elas julgam defender.
    Por último, respeitar as pessoas não significa tratá-las como crianças. Ou como velhos dementes a quem sorrimos e aplaudimos sempre que eles tentam vestir as cuecas pela cabeça.
    O conhecimento verdadeiro não tem cor, sexo ou classe. E, quando tem, então não é conhecimento verdadeiro.
    Um guia decente para uma universidade decente só precisava de duas mensagens: "bem-vindo" e "mostra o que vales". Nada mais.

    Com Dilma sob pressão, Serra volta à cena política

    folha de são paulo
    Tucano estava recluso desde derrota na disputa pela Prefeitura de SP, em 2012
    Ex-governador esteve em encontro da cúpula da gestão Alckmin, e voltou a dar entrevistas após 8 meses submerso
    DANIELA LIMADE SÃO PAULOSubmerso há quase oito meses, ex-governador José Serra (PSDB-SP) decidiu voltar a atuar tanto nos bastidores quanto em frente aos holofotes no momento em que o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) atravessa sua maior crise.
    Nas últimas quatro semanas Serra reativou contatos com economistas e cientistas políticos de sua confiança, encomendou estudos sobre a situação fiscal do país e colocou na ponta do lápis o impacto de medidas anunciadas pelo governo federal ou pelo Congresso para fazer frente à crise atual.
    No último domingo, o tucano participou de uma reunião no Bandeirantes com o governador Geraldo Alckmin, o chefe da Casa Civil, Edson Aparecido, líderes do PSDB na Câmara e no Senado, o presidente estadual da sigla, Duarte Nogueira, e o ex-governador Alberto Goldman.
    Foi a primeira vez que Alckmin convocou encontro deste tipo. O grupo avaliou pesquisas internas e discorreu sobre o impacto das manifestações no governo estadual e federal.
    Da reunião, saiu o consenso de que Alckmin deverá manter uma agenda de respostas concretas à crise. O anúncio de cortes de gastos, feito semana passada, foi celebrado como exemplo de ótima repercussão --inclusive por se contrapor à postura de Dilma.
    Serra, que não falava abertamente desde sua derrota na disputa pela Prefeitura de São Paulo, no ano passado, deu três entrevistas na última semana.
    Em todas elas, criticou pontualmente bandeiras erguidas por Dilma --posicionou-se contra o plebiscito e afirmou que a destinação de royalties para a educação não terá impacto a médio prazo.
    Nas falas há também críticas à antecipação da campanha eleitoral, "inclusive no PSDB", afirmou, por exemplo, em entrevista ao "Roda Viva", na semana passada.
    Hoje, o único nome dos tucanos para 2014 é o do senador Aécio Neves (MG).
    A nova postura foi notada por aliados e adversários. "Eu acho muito positivo que o Serra tenha voltado a atuar. Isso é o natural. Estranho era o estado de hibernação", afirmou o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP).
    Alguns tucanos passaram a informá-lo de pesquisas nas quais é citado. Ontem, por exemplo, soube que um instituto do Paraná incluiu seu nome entre os presidenciáveis.
      Interior salva Alckmin de recuo maior em pesquisa
      Governador diz que é preciso entender os atos
      DE SÃO PAULOOs eleitores do interior de São Paulo amorteceram a queda das intenções de voto no governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, mostra o Datafolha.
      No cenário da disputa em que o candidato do PT é o ministro Alexandre Padilha (Saúde), as intenções de voto em Alckmin caíram de 52% para 40%, o que ainda lhe daria vitória no primeiro turno.
      Se fossem considerados só os votos da capital, porém, Alckmin teria 33%, o que colocaria e disputa dentro da margem de erro para a realização de um segundo turno.
      A pesquisa foi finalizada em 28 de junho, com margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos no Estado, e 3 pontos percentuais na capital. A diferença entre capital e interior para Alckmin pode ser percebida nos índices de aprovação da gestão. Na cidade de São Paulo, 31% avaliam seu governo como ótimo ou bom. No interior, a taxa sobe para 43%.
      Já a reprovação tem relação inversa. Na capital, Alckmin é ruim ou péssimo para 28%. No interior, para apenas 15%.
      Alckmin disse ontem que a sociedade "está insatisfeita com a representação politica. Cabe a nós ter a humildade de ouvir, de compreender essa manifestação e de agir. Não é fazer discurso, é trabalhar, é governar, é cortar gasto, é aumentar investimento".
      O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), que segundo a mesma pesquisa Datafolha perdeu 16 pontos de aprovação em três semanas, comentou: "Na vida real o mandato dos políticos não tem mais quatro anos. Em seis meses, as pessoas querem saber qual é a novidade. A tolerância é muito menor".
        Para prefeito e governador, queda reflete insatisfação
        Alckmin e Haddad dizem que vão trabalhar mais
        DE SÃO PAULOO governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), cuja aprovação caiu 14 pontos em três semanas segundo pesquisa Datafolha divulgada ontem, disse que a sociedade "está insatisfeita com a representação politica" e "é importante ouvir a população".
        "Cabe a todos nós ter a humildade de ouvir, de compreender essa manifestação e de agir. Não é fazer discurso, é trabalhar, é governar, é cortar gasto, é aumentar investimento", declarou ele.
        A avaliação positiva do governador foi de 52% em 7 de junho, antes do início das manifestações, para 38%. Alckmin foi criticado pela ação da Polícia Militar, que primeiro agiu com violência durante protestos e depois, diante das críticas, teria reduzido o rigor no combate ao vandalismo.
        O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), que segundo a mesma pesquisa Datafolha perdeu 16 pontos de aprovação em três semanas, comentou: "Na vida real, o mandato dos políticos não tem mais quatro anos. Em seis meses, as pessoas querem saber qual é a novidade. A tolerância é muito menor".
        A avaliação positiva do petista recuou de 34% para 18%, e sua reprovação (soma dos julgamentos ruim e péssimo) subiu de 21% para 40%.
        À semelhança de Alckmin, Haddad afirmou que a resposta à queda de popularidade é trabalhar mais. "Temos que antecipar cronogramas", disse o prefeito, que vistoriou ontem o funcionamento da faixa exclusiva de ônibus implantada na marginal Pinheiros (zona sul de São Paulo).

          Janio de Freitas

          folha de são paulo
          A favor, porém contra
          O plebiscito e a constituinte estão conectados na recusa de 73% à entrega da reforma política ao atual Congresso
          O mais interessante no recente Datafolha, a meu ver, está no apoio de 73% dos entrevistados à convocação de uma constituinte, índice que não despertou interesse na imprensa. Considerada a margem de erro, são justos três quartos que indicam o anseio por uma reforma política tão remodeladora, e de fluência menos demorada, que requer uma via própria. Nada com os deputados e senadores.
          O índice conduz, porém, a uma contradição com outro dado colhido pelo Datafolha: 68% consideram que "a presidente agiu bem ao propor um plebiscito" para decidir sobre uma constituinte (vale repetir: a presidente nunca propôs um plebiscito, como lhe atribui, por exemplo e criticamente, até um ministro do Supremo, Gilmar Mendes; propôs apenas um "debate para decidir" sobre plebiscito ou não).
          O plebiscito e a constituinte estão conectados na ideia que os suscitou e, mais significativo, na própria recusa dos 73% à entrega da reforma política ao atual Congresso. A diferença dos índices, apesar de relativos ao mesmo fim, sugere que plebiscito não é algo claro para o eleitorado. Uma advertência, então, para os que preferem propor aos eleitores diferentes fórmulas de reforma para sua escolha. Ou seja, plebiscito mesmo, e não o referendo, que apenas pediria sim ou não à convocação de constituinte.
          Bem de acordo com a confusão do momento, os 73% pró-constituinte aprovam o item fundamental da resposta de Dilma Rousseff às manifestações. Mas, quando os mesmos entrevistados definem sua opinião sobre "o desempenho de Dilma frente aos protestos", apenas 32% o dizem ótimo ou bom. Por ser outra contradição, não deixa de ser também o que aqui mesmo já ficara pressentido.
          Trecho desta coluna em 25.jun: "Melhor para eles [governadores e prefeitos] se Dilma Rousseff chamou a si, no que talvez seja um erro político, a responsabilidade por todos os problemas e soluções em questão [os citados nas manifestações]". A baixa aprovação dessa atitude e a espetacular perda de 27 pontos no prestígio de Dilma confirmam o erro. Os manifestantes, com razão, não viram nas propostas presidenciais o atendimento às suas reclamações.
          A resposta administrativa e politicamente mais adequada, para todos, seria o compromisso público de dar aos prefeitos e governadores toda a colaboração federal possível para a solução dos problemas apontados nas ruas. Isso não foi feito no discurso e não está feito na prática. E o resultado é Dilma Rousseff juntar-se à queda dos governadores e prefeitos responsáveis pelos temas majoritários da insatisfação, municipais e estaduais.
          Em termos eleitorais, que logo concentraram as especulações, as numerosas e fortes quedas de prestígio constatadas pelo Datafolha expressam muito menos do que parece. Só pesquisas futuras indicarão o quanto as quedas atuais resultam, ou não, do ambiente fermentado.
          E se todos os expostos caem ou sobem, a disposição do conjunto fica semelhante à anterior. Quem não estava exposto ao clima do momento, como Marina Silva e Aécio Neves, ficou isento, ou quase isso, de uma aferição comparativa. Assim não vale.
          A insatisfação se volta contra a classe política, como concluíram as boas análises de Aécio e do prefeito Eduardo Paes, mas não só. Agora chama para acerto de contas também os inúmeros juristas, acadêmicos e outros contrários à constituinte.