quinta-feira, 4 de julho de 2013

Plebiscito para inglês ver? - Eliane Cantanhêde

folha de são paulo
BRASÍLIA - A deposição do presidente do Egito e o veto dos países europeus ao sobrevoo do avião do presidente da Bolívia são o fim do mundo. O primeiro foi golpe. O segundo, uma submissão aos EUA que não se coaduna com as melhores práticas internacionais.
Mas Dilma, apesar de acompanhar as duas coisas, tem problemas de sobra e mais o que fazer aqui mesmo, dentro do Brasil. A constituinte exclusiva não sobreviveu 24 horas e o plebiscito vai por água abaixo.
Há três adversários do plebiscito para fazer a reforma política, encruada há 20 anos. Um é a oposição e parte do Judiciário, que discordam da ideia. O segundo é a base aliada ao Planalto, que faz cena para o público fingindo que apoia, enquanto trabalha para solapar o cronograma. E o terceiro é justamente o tempo.
Reza a lenda e dita a realidade que, quando o Planalto quer e a opinião pública pressiona, os digníssimos deputados e senadores fazem tudo a toque de caixa. Este momento mesmo está repleto de ótimos exemplos. Mas há excesso de problemas e falta de soluções para que tudo esteja pronto a tempo e a hora e possa vigorar nas eleições de 2014.
Para valerem já no ano que vem, as votações precisam estar concluídas um ano antes, no início de outubro. Haverá tempo para o Congresso fechar o pacote de perguntas no prazo? E para que as campanhas publicitárias informem, expliquem e massifiquem a questão? E para transportar a vontade popular para as leis?
Independentemente do resultado, porém, Dilma já está se blindando, ou sendo blindada. Se der certo, a vitória é dela, que "ouviu a voz das ruas". Se der errado, que pena, ela fez tudo o que podia e o Congresso brecou. A culpa acaba sempre caindo mesmo na conta dos políticos.
Parece simples, mas não é. Os manifestantes pedem educação, saúde, transporte, segurança. Contrapor com plebiscito sobre reforma política já parece pouco. E se até isso for só para inglês (e manifestante) ver?

    Rogério Gentile

    folha de são paulo
    Mosca azul
    SÃO PAULO - Joaquim Barbosa não tem sido muito enfático ao tratar da eleição presidencial. Quando é questionado sobre o assunto, o presidente do STF diz não ter "a menor vontade" de ser candidato, o que, na prática, significa deixar uma porta aberta. Afinal, a vontade pode aparecer de repente.
    Da mesma forma, chama muito a atenção a defesa que o ministro faz do modelo que prevê o lançamento de candidaturas avulsas, sem a intermediação de partidos políticos. "O que falta no Brasil é dar uma chance ao povo de trazer as respostas", afirmou, na mesma entrevista em que se disse lisonjeado com o fato de ser bem avaliado nas pesquisas, "apesar de não ser político".
    Aliás, uma das "respostas" que surgiu no Datafolha do fim de semana foi justamente o crescimento da intenção de voto no presidente do STF. Ninguém subiu tanto. Barbosa passou de 8% para 15%, praticamente dobrando. Marina foi de 14% para 18%. Aécio, de 12% para 15%. Dilma caiu de 49% para 29%.
    A pesquisa mostra também que, em alguns estratos da sociedade, Barbosa não apenas cresce, como seria hoje o líder na corrida presidencial. Ele tem, por exemplo, 26% entre os eleitores com renda familiar de 5 a 10 salários mínimos. Dilma tem 19%, empatada com Aécio. Seria o mais votado também entre os eleitores com escolaridade superior (27%, contra 22% de Marina) e os situados na faixa de renda acima de 10 salários mínimos (26%, contra 22% de Aécio).
    Barbosa, que virou "pop star" após o julgamento do mensalão, é um cidadão de muitos méritos. Inteligente e detentor de um currículo acadêmico brilhante, demonstra ser implacável com a corrupção e intransigente com o corporativismo.
    Seu desprezo pela política, o modo imperial com que tenta fazer prevalecer sua vontade entre os colegas no STF e o temperamento explosivo, no entanto, são traços muito preocupantes em uma personalidade tão rodeada pela mosca azul.

    Editoriais FolhaSP - Charge

    folha de são paulo
    Sombra no Egito
    Golpe militar depõe primeiro presidente democraticamente eleito no país e provoca grave revés nas conquistas da Primavera Árabe
    Durou pouco mais de um ano o mandato do primeiro presidente democraticamente eleito da história do Egito.
    A insistência de Mohamed Mursi em uma agenda sectária e o fracasso na economia contribuíram para o golpe de Estado promovido pelas Forças Armadas, que não souberam respeitar as regras do jogo democrático e prestaram enorme desserviço ao que parecia ser o ideário da Primavera Árabe.
    A Constituição do Egito foi suspensa e o país será liderado provisoriamente pelo chefe da Suprema Corte Constitucional.
    Nos últimos dias, centenas de milhares de manifestantes haviam voltado à praça Tahrir, no Cairo, símbolo da Primavera Árabe. Desta vez, exigiam a renúncia de Mursi. Confrontos resultaram na morte de pelo menos 16 pessoas.
    Os desgastes foram sobretudo políticos. Confiante na força da Irmandade Muçulmana, agremiação majoritária nas eleições do ano passado, Mursi tentou se impor sobre as demais forças do país. Nos atos mais controversos, se atribuiu superpoderes e referendou a toque de caixa uma Constituição elaborada por religiosos de seu grupo.
    Essas ações desataram a ira das forças políticas seculares. Mursi foi acusado de desvirtuar o movimento que, há mais de dois anos, tirou do poder o ditador Hosni Mubarak. As antes execradas Forças Armadas agora se juntaram à oposição e trabalharam contra o presidente.
    Muito da insatisfação recente se deve à economia paralisada pela instabilidade institucional do país. Só o turismo, principal fonte de divisas do Egito e responsável por 10% dos empregos, caiu cerca de 30%. Temores de insegurança afastaram os turistas, que eram 14 milhões em 2010 e foram 10,5 milhões no ano passado.
    O índice de desemprego já está acima de 13%, e a inflação anual, que havia chegado a 4% em dezembro, voltou ao patamar de 8% de maio do ano passado, ainda antes das eleições. Com reservas internacionais em baixa, Mursi dependia cada vez mais de empréstimos da Arábia Saudita e do Qatar.
    Mesmo com Mursi deposto, é temerário supor que a Irmandade esteja politicamente morta. A organização tem capilaridade suficiente para convocar manifestações de monta. Não se descarta cenário mais sangrento nos próximos dias.
    Ainda que os militares cumpram a promessa de entregar o poder a um civil, parece óbvio que o presidente será tutelado. Uma democracia de fachada já seria grave. Tanto pior pelo precedente antidemocrático que as Forças Armadas egípcias abriram no maior país árabe.
    Ilusões perdidas
    Não era simples coincidência. Em 2009, quando Eike Batista estreou no posto de pessoa mais rica do país, a imagem do Cristo Redentor apareceu como um foguete decolando na capa da revista "The Economist". No ano seguinte, o Brasil cresceria vigorosos 7,5%.
    Era o auge da crença em um cenário auspicioso, impulsionado pela simbiose entre a demanda chinesa por commodities e a abundância de matérias-primas do Brasil.
    As descobertas de reservas de petróleo no pré-sal elevavam o otimismo, e as políticas de inclusão contribuíam para o dinamismo da economia. Com a ascensão de milhões à classe média, formava-se um mercado robusto e ávido por bens de consumo duráveis.
    Empreendedor arrojado e visionário, Eike Batista surfou como ninguém a onda favorável ao país. Seu discurso fazia sentido: o Brasil crescia, mas todos os setores de infraestrutura tinham deficiências; logo, investimentos seriam necessários.
    O empresário e seus planos ambiciosos foram recebidos de braços abertos por investidores e bancos, incluindo o BNDES. Eike formou um império --com empresas nas áreas de petróleo e gás, mineração, construção naval, energia e logística-- sustentado mais por promessas do que por resultados.
    Não era apenas do empreendedor o tom triunfalista. Enquanto ele prometia se tornar o homem mais rico do planeta, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, apostava que a economia brasileira se tornaria a quinta maior do mundo antes de 2015 --estava na sexta colocação em 2011.
    Deu-se algo bem diferente: o Brasil caiu uma posição no ranking, e o empresário despencou do sétimo para o centésimo lugar na lista publicada pela "Forbes" em 2013 --isso antes mesmo de as ações da petroleira OGX terem derretido nesta semana, com queda acumulada de 93,6% em 12 meses.
    Sonhos de grandeza e erros de gestão explicam, em larga medida, as expectativas frustradas.
    A forte expansão do PIB em 2010 foi fruto de estímulos que turbinaram a demanda doméstica. Mas a teimosia em manter uma política fiscal expansionista e o improviso na administração da economia minaram a credibilidade do governo.
    Também o dono do grupo X inspira menos confiança, já que suas metas se revelaram irrealistas. Acredita-se que seus negócios sobreviverão em versão reduzida, mas os tropeços devem lhe custar o controle do império.
    O "x" de Eike Batista, outrora ícone da multiplicação da riqueza, agora simboliza melhor as incógnitas que pairam sobre o grupo --e sobre a economia brasileira.

      Musical à brasileira - Nelson de Sá

      folha de são paulo
      O espetáculo 'A Madrinha Embriagada', com direção de Miguel Falabella, marca a entrada do Sesi nesse gênero teatral
      NELSON DE SÁDE SÃO PAULODurante o ensaio de anteontem de "A Madrinha Embriagada", em São Paulo, o tradutor e diretor Miguel Falabella primeiro mudou o nome da personagem de Saulo Vasconcelos, de Feldzieg para Iglesias. Foi para homenagear Luiz Iglesias, produtor e depois marido da célebre atriz Eva Todor, 93 --que estreou no palco em 1934, como bailarina de uma revista musical de Iglesias, "Quanto Vale uma Mulher".
      Mais alguns minutos e, ao passar uma cena, o diretor decidiu mudar também o nome da personagem de Kiara Sasso, de Kitty para Eva.
      Vasconcelos e Sasso, dois dos principais atores-cantores a surgirem da explosão do musical na última década no Brasil, interpretam um produtor e uma corista neste espetáculo que celebra os musicais de um século atrás.
      Mas era originalmente uma celebração dos musicais da própria Broadway, quando o espetáculo "The Drowsy Chaperone" estreou em Nova York, em 2006, e conquistou cinco prêmios Tony.
      Falabella não gostou e, na adaptação, mudou tudo, a começar do título. De "a letárgica dama de companhia", na tradução literal, trocou para "a madrinha embriagada".
      "Tem que trazer para nós, para o Brasil, senão fica muito chato", afirma ele, que está em cartaz como ator até este domingo com "Alô, Dolly!", da Broadway, mas se diz cansado de musicais estrangeiros.
      "A Madrinha Embriagada", assim, é apresentada como uma versão brasileira do espetáculo americano de 1928 feita por um fictício "João Canarinho" e que teria estreado também em 1928 no teatro São Pedro, na Barra Funda.
      Nas mãos de Falabella, virou uma "revue modernista", revista musical com referências do movimento modernista, como a cena em uma mansão da avenida Paulista onde vive uma quatrocentona com seus quadros de jovens artistas paulistanos.
      "Está na hora do musical nacional", diz o diretor, que já anuncia seu próximo trabalho: comprou os direitos de "Memórias de um Gigolô", de Marcos Rey, e vai adaptá-lo para musical, com composições de Josimar Carneiro.
      Falabella fala seguidamente sobre o elenco que juntou. "É a nata do teatro musical brasileiro, vozes lindas, gente de Brasília, de Minas, do Rio de Janeiro", repete.
      MILHÕES
      O brasiliense Vasconcelos e a carioca Sasso, por exemplo, começaram a atuar juntos em "A Bela e a Fera", há dez anos. Desde então já dividiram o palco em "O Fantasma da Ópera", "A Noviça Rebelde" e "Mamma Mia!".
      Sara Sarres, que faz Jane, atuou em "Fantasma", "Les Misérables" e "Cats", entre outros. É ela quem responde pelo quadro mais memorável de "The Drowsy Chaperone", com a canção "Show Off", em que anuncia que quer deixar o palco, quer deixar de "aparecer", sem maior convicção.
      Stella Miranda, a "madrinha", é parceira de Falabella desde os anos 1980 e trabalhou com ele, no Rio, nos musicais "South American Way" e "Império". Adriana Caparelli, que faz Dora, vem dos musicais do Teatro Oficina.
      O elenco de 25 reúne atores e bailarinos que estiveram em boa parte dos musicais da última década, apresentados em teatros paulistanos que acabaram se especializando no gênero, como Bradesco, Alfa e Renault, ex-Abril.
      O Teatro do Sesi, agora, não economiza para entrar no grupo. "A Madrinha...", que estreia no dia 14 de agosto, tem seu orçamento de R$ 12 milhões bancado integralmente pela instituição, sem apoio de leis de incentivo.
      Os números da produção são grandiloquentes: dividindo o palco com o elenco de 25, uma orquestra com 15 músicos; temporada de 11 meses, totalizando 325 apresentações, oito por semana; público final de 148 mil pessoas.
        Projeto quer formar atores para esse tipo de teatro
        DE SÃO PAULO
        Depois de dois anos atuando em teatro musical na Cidade do México, em espetáculos derivados da Broadway e do West End londrino, como "O Fantasma da Ópera" e "Les Misérables", Saulo Vasconcelos chegou a São Paulo em 2001 e encontrou "uma terra de ninguém".
        Entrava para fazer os primeiros testes de elenco, as primeiras audições, e "não havia concorrência". Eram poucos os atores com formação musical, então.
        Naqueles primeiros passos da retomada do gênero em São Paulo e no Rio, nem o público sabia como agir --desacostumado, por exemplo, a aplaudir os quadros musicais separadamente. "A gente puxava as palmas da coxia", conta Vasconcelos, rindo.
        "Hoje a concorrência é maior, e o público, mais experiente." Mas ele vê necessidade de mais formação e é um dos coordenadores de um programa paralelo à produção de "A Madrinha Embriagada", no Sesi: a partir de agosto, oficinas de "vivência" de teatro musical; a partir de março do ano que vem, um curso de três anos.
        O projeto foi levado ao Sesi pela produtora Atelier de Cultura, a mesma do espetáculo. Além de Vasconcelos, estão envolvidos nisso os atores Cleto Baccic, que dirige a produtora, Sara Sarres e Vivian Albuquerque, entre outros profissionais do gênero musical.
        O grupo visitou quatro escolas tradicionais nos EUA, inclusive a Tisch, de Nova York, e duas no Reino Unido. "E ouvimos 50 personalidades dos musicais no Brasil, para levantar as necessidades do mercado."
        A primeira turma deve ter 90 alunos, selecionados em audições. De início, os estudos se restringirão a atores, mas Vasconcelos admite também a possibilidade de formar compositores "mais para a frente", uma das necessidades levantadas.
        Não é a primeira iniciativa de formação em musicais, em São Paulo. Dez anos atrás, depois dos primeiros espetáculos de maior repercussão no gênero, surgiram dois cursos, um da Casa de Artes OperÁria, na Mooca, zona leste, e outro na escola Wolf Maya, no shopping Frei Caneca.