terça-feira, 23 de julho de 2013

Eliane Cantanhêde

folha de são paulo
Discurso errado na hora errada
BRASÍLIA - O encontro com o papa Francisco no Rio foi a grande chance de Dilma Rousseff aparecer bem desde que a economia derrubou 8 pontos de sua popularidade e as manifestações lhe roubaram outros 27. No mínimo, ela ganhou uma excelente foto, num dia em que as pessoas foram às ruas felizes por receber o papa --e não só para reclamar.
Nesse momento de profunda descrença nos partidos e muita crença na chegada de um papa que simboliza ruptura e humildade, o contraste só pode ter sido proposital: com o mesmo voluntarismo de sempre, Dilma não foi à reunião do diretório do PT por um motivo pueril, numa clara provocação, e foi ao papa com um discurso político e fora de lugar.
Digamos que Francisco foi Francisco, Dilma foi Dilma. Um foi o papa despretensioso, que dispensa ouro, capas de veludo e pompas para se colocar cada vez mais próximo do povo. A outra foi a presidente de expressão arrogante, num momento em que está acuada, precisa se justificar e luta bravamente para recuperar a popularidade perdida.
Enquanto a fala do papa foi essencialmente religiosa e despojada, num português agradável e cheia de adjetivos gentis para o Brasil e para os jovens, Dilma recorreu a todos os chavões lulistas, enalteceu as mudanças "que inauguramos dez anos atrás" e amplificou a versão de Lula no "New York Times", definindo as manifestações que atingiram em cheio seus índices nas pesquisas não como a derrota que foi, mas como uma vitória sua e de Lula.
No discurso da presidente, pulularam autoelogios ao Brasil e à era petista, além de chavões de palanque: direitos, justiça social, solidariedade, fome, desigualdade, ética, transparência. Eis a dúvida: para quem Dilma estava falando? Para o papa ou para o eleitor? Para o milhão e meio da Jornada Mundial da Juventude ou para o milhão e meio de pessoas nas ruas exigindo dignidade, fim da corrupção, serviços decentes?
Valeu pela foto, não pela fala.

De vidros abertos - Vera Magalhães

folha de são paulo
SÃO PAULO - "Não tenho ouro nem prata'', falou o papa Francisco em português tranquilo e impecável, diante de uma plateia VIP que se abalou de Brasília até o Palácio Guanabara para lhe beijar a mão.
Foi a tradução mais explícita do estilo despojado, simples de Francisco, lembrado a cada gesto dele no Brasil, de fechar a porta do carro a dar dois beijinhos na bochecha da presidente Dilma Rousseff.
O contraste das palavras do papa era enorme não só com o tom empolado e marqueteiro da fala de Dilma, ademais bem maior que a do visitante, mas também com os atos da audiência empertigada que o aplaudia.
O anfitrião, o governador Sérgio Cabral, tem de pedir licença não para entrar no coração'' daqueles que governa, para citar outro trecho da singela mensagem papal, mas para sair de sua casa, cuja rua está interditada por manifestantes há semanas.
Já o prefeito Eduardo Paes se esqueceu do amor fraterno'' a que se referiu Francisco na sua fala e, há alguns meses, desferiu um soco na cara de um munícipe que o abordou num restaurante para xingá-lo e criticar a sua administração.
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), tiveram de despender um tanto de ouro e prata'' para reembolsar os cofres públicos de voos em aviões oficiais que utilizaram para compromissos particulares --festividades como um jogo de futebol e um casamento.
Nada mais distante do papa, que fez todos os engravatados esperarem por um longo tempo porque, ao optar por se deslocar no Rio num carro simples, se perdeu no trânsito da capital e teve a passagem interrompida por pessoas ávidas por vê-lo.
Quantos ali puderam sentir o mesmo calor humano após os protestos de junho? Mais que isso: quais das autoridades que foram atrás de fotos e bênçãos do papa franciscano poderiam se dar ao luxo de passear pela avenida Rio Branco com os vidros do carro (não blindado) abertos?

    Editoriais FolhaSP

    folha de são paulo
    A crise na saúde
    Deficiências do SUS são graves demais para que governo e classe médica se percam numa disputa infrutífera como a atual
    A vocação atávica dos governos petistas para dar mais atenção ao marketing que ao planejamento, de um lado, e o usual corporativismo da classe médica, de outro, conspiram para inviabilizar o que poderia ser uma iniciativa séria para tirar a saúde pública de sua precariedade crônica.
    A carência de médicos é uma das graves deficiências do setor. O Brasil tem 1,8 profissional para cada mil habitantes. Não muito menos que os EUA (2,4 por mil), mas a distribuição é péssima: 22 Estados ficam abaixo da média nacional. Estima-se o deficit de profissionais, por aqui, em cerca de 54 mil.
    O programa Mais Médicos, lançado às pressas pela presidente Dilma Rousseff como resposta aos protestos de junho, desatou um fluxo hemorrágico de críticas por parte das associações de classe.
    A escalada de sintomas atingiu o clímax com o abandono das comissões oficiais por essas entidades e sua anunciada intenção de barrar o programa na Justiça. O prognóstico é deprimente: nenhum governo conseguirá reanimar o combalido SUS (Sistema Único de Saúde) por medida provisória e sem a cooperação dos líderes da profissão.
    O Mais Médicos se apoia em dois pilares. O primeiro deles, que começaria a surtir efeito em 2021, iria acrescentar dois anos aos seis do curso de graduação em medicina. O chamado segundo ciclo, a iniciar-se em 2015, seria cumprido obrigatoriamente no SUS.
    A reação a esse trecho do programa decorre de certo autoritarismo que o contaminou. Se faz sentido obter retribuição de quem se beneficia do ensino gratuito em universidades públicas, soa abusivo impor essa atuação ao aluno que custeia os próprios estudos, obrigando-o, ademais, a morar em determinada região contra sua vontade.
    O outro pilar objetiva suprir as unidades básicas de saúde com profissionais até que a mão de obra do segundo ciclo se materialize. Trata-se do edital para médicos formados no Brasil e no exterior preencherem os postos vagos em 2.868 municípios, metade dos quais sem um único profissional.
    As entidades da classe têm sua razão ao dizer que não basta o médico --ele precisa de instalações, auxiliares e medicamentos. Mesmo assim, é melhor ter o profissional presente, ainda que em condições precárias, do que não tê-lo.
    Além disso, o governo diz que vai investir R$ 15 bilhões até 2014 para melhorar a infraestrutura de saúde, R$ 5,5 bilhões dos quais em verbas novas para construir 6.000 postos e reformar outros 11,8 mil.
    São prioridades corretas para melhorar, no longo prazo, a saúde pública brasileira? É esse tipo de questão que governo e médicos deveriam discutir. O assunto requer amplo debate. Para tanto, Planalto e entidades de classe precisam abandonar a intransigência e chegar a um entendimento.
      EDITORIAIS
      editoriais@uol.com.br
      Licença para mudar
      A coalizão partidária do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, obteve vitória por ampla margem nas eleições da Câmara Alta (espécie de Senado do país), realizadas no domingo. Os parlamentares governistas formarão maioria também nessa casa legislativa, vantagem já assegurada na Câmara Baixa no fim do ano passado.
      Cristaliza-se, assim, a reabilitação do conservador Partido Liberal Democrático (PLD), que, no pleito de 2009, havia sido derrotado após cerca de meio século de controle político do Japão.
      O resultado corrobora o apoio popular à estratégia de Abe, ora em curso, para destravar a economia japonesa, imobilizada há mais de duas décadas pela deflação e pela recessão intermitentes.
      Desde que assumiu o governo, em dezembro, o primeiro-ministro passou a implementar um agressivo programa de estímulos que amplia os gastos públicos e afrouxa, de maneira sem precedentes, o controle sobre a quantidade de moeda em circulação.
      O plano tem se mostrado exitoso. A Bolsa japonesa subiu 40% desde então, e o FMI revisou de 1,5% para 2% a previsão de crescimento do país para este ano. Não surpreende que a popularidade de Abe atinja altos índices.
      Analistas são unânimes em afirmar, contudo, que essa foi a parte indolor do pacote --as iniciativas mais difíceis estão por vir.
      A pretensão do primeiro-ministro é aprovar medidas reformistas --que, por isso mesmo, enfrentam maior resistência. Abertura comercial e flexibilização do mercado de trabalho são alguns dos pontos centrais em que ele busca avançar.
      O primeiro item, contudo, esbarra no interesse econômico de produtores agrícolas, que dão sustentação ao partido de Abe. O segundo colide com a cultura ancestral japonesa. Com o nascimento de menos crianças, tornou-se importante para o país incentivar a força de trabalho feminina, o que não encontra amplo respaldo social.
      Shinzo Abe encara os obstáculos com ousadia. A fim de fomentar a valorização de ativos e salários, por exemplo, ele se comprometeu com a meta, nada trivial para o Japão, de elevar a inflação para 2% já no ano que vem, na expectativa de que o crescimento econômico se sustente nos próximos meses.
      Não é pouco o que está em jogo. Do sucesso de Abe e de sua estratégia --apelidada de "abenomics"-- depende o futuro da terceira maior economia do mundo.

        Brasileiros se aventuram na onda boa de filmes de ficção científica - Rodrigo Salem

        folha de são paulo
        RODRIGO SALEM
        DE SÃO PAULO
        Poucos cineastas brasileiros ousam se arriscar na ficção, mesmo depois do avanço da tecnologia e do
        barateamento dos equipamentos.      








        Má há indícios de que esse desprezo pelo gênero pode mudar, já que alguns jovens estão ganhando destaque internacional nesse terreno arenoso da ficção científica.



        O principal trabalho do tipo é o curta-metragem "The Flying Man", escrito, dirigido e

        financiado pelo brasiliense Marcus Alqueres, 34, que fez desenho industrial na UFRJ e há oito anos trabalha fora do país como animador. Outros brasileiros fizeram parte da sua empreitada: o roteirista Henry Grazinoli, o animador João Sita e o compositor Roger Lima, que fez a trilha sonora.

        Ficções científicas brasileiras

         Ver em tamanho maior »
        Divulgação
        AnteriorPróxima
        Cena do curta 'The Flying Man', do brasileiro Marcus Alqueres
        Alqueres vive em Toronto, no Canadá, onde concebeu seu curta sobre uma figura voadora estranha que aparece nos céus da cidade e assusta a população --apesar de apenas atacar quem tem ficha criminal.
        "A maioria dos filmes de super-heróis é sob a ótica deles mesmos, mas eu queria pensar como seria o outro lado, a surpresa de ver alguém voando", conta Alqueres.
        Com bons efeitos especiais e trama, "The Flying Man" começou a se espalhar rapidamente. Em uma semana, havia sido visto mais de 300 mil vezes. O site Vimeo o escolheu como destaque da semana e o jornal americano "USA Today" estampou em suas páginas o sucesso do curta de apenas 9 minutos.
        Mas o grande elogio veio de Joe Quesada, chefe criativo da Marvel Entertainment: "Palavras não podem expressar o quanto amei esse curta", escreveu no Twitter.
        "Fiquei satisfeito com o comentário, é um reconhecimento por alguém que entende do assunto", diz o cineasta, que sonha um dia adaptar um dos filmes da Marvel para o cinema e já tem um agente em Hollywood para transformar "The Flying Man" em longa-metragem.
        Assista "The Flying Man":
        Gabriel Kalim Mucci, paulista de 31 anos, não teve o apoio da Marvel na divulgação informal, mas o trailer de seu curta pós-apocalíptico "Lunatique" (veja o trailer) foi uma das atrações do site americano "Twitch", segundo o qual "a América do Sul continua provando ser um celeiro de novos talentos para o gênero".
        Os brasileiros seguem o exemplo do diretor uruguaio Fede Alvarez, que foi contratado para dirigir o remake milionário de "A Morte do Demônio", em Hollywood, após seu curta-metragem sobre robôs gigantes virar uma sensação na internet.
        VISÃO ROMÂNTICA
        "Lunatique", que foi todo filmado no centro antigo de Santos por R$ 200 mil, está agora em pós-produção.
        O curta conta a história de uma sobrevivente solitária que precisa fazer incursões pela cidade para angariar mantimentos --até ser caçada por uma criatura. O filme chama a atenção pelo cuidado na direção de arte e pelos ângulos de câmera.
        "O cinema de gênero não é valorizado no Brasil, mas tenho uma visão romântica de que posso ajudar a consolidar a ficção científica por aqui", diz Mucci, o diretor formado em cinema pela Faap.
        É a mesma ideia de Carlos G. Gananian, 33, ex-sócio de Mucci na Geral Filmes, que rodou o mundo com seu curta vampírico "Akai", em 2006, mas agora investiu em um conto de ficção científica chamado "AM/FM", que fica pronto mês que vem e usa recursos de stop-motion (quadro-a-quadro), animatronics (criaturas animadas mecanicamente) e miniaturas.
        O curta é entrelaçado por imagens do presente de um mendigo atacado por visões e por flashbacks em preto e branco que homenageiam antigos filmes do gênero.
        Os três cineastas têm em comum a dificuldade de financiar os filmes no Brasil e de mostrá-los em festivais.
        "Não sinto entusiasmo com o cinema fantástico por aqui. Será mais fácil fazer um longa fora do que no Brasil, como o diretor de 'A Morte do Demônio'", crê Gananian, também formado na Faap.
        "O cinema brasileiro está se solidificando como mercado", diz Cláudio Torres, que dirigiu a comédia de ficção científica "O Homem do Futuro", um sucesso com mais de 1 milhão de espectadores.
        "A ficção científica é um gênero curioso no mundo inteiro e não tem aceitação garantida. Mas temos um terreno fértil, como o ET de Varginha, [o paranormal] Thomas Green Morton e pistas de aterrissagem de discos voadores no Planalto Central", diz ele.
        É, também, um dos gêneros mais lucrativos do cinema: o filme "Avatar", por exemplo, é a maior bilheteria da história, com US$ 2,7 bilhões em caixa.

        CRÍTICA FICÇÃO
        Curta nada fica a dever a blockbusters
        ANDRÉ BARCINSKICRÍTICO DA FOLHANão é à toa que o curta-metragem de "The Flying Man", de Marcus Alqueres, tem recebido elogios: o filme é muito bem feito e bem dirigido. Se foi, como afirma Alqueres, produzido com orçamento baixíssimo, é caso a ser estudado por estúdios, já que os efeitos especiais, a montagem e a edição de som não ficam nada a dever a produções milionárias.
        O filme começa com cenas impactantes, que mostram o "Homem Voador" sobrevoando uma cidade. A aparição provoca caos, engarrafamentos e acidentes de trânsito.
        O filme é contado do ponto de vista dos habitantes da cidade. O misterioso herói é mostrado só de longe, o que aumenta o clima de mistério.
        Logo, o ser voador passa a atirar pessoas do céu. Descobre-se que ão todos criminosos, com longas fichas na polícia. Entram em cena dois sujeitos em um carro. Estão a caminho de alguma transação criminosa -- não fica claro de que tipo -- e conversam sobre o justiceiro.
        Grande parte dos nove minutos de duração do curta se passa dentro do carro, onde um dos homens se mostra preocupado com as notícias sobre o ser que mata bandidos, enquanto o outro só quer completar a transação.
        "The Flying Man" parece mais um cartão de visitas, um trailer que apresenta um super-herói misterioso e atiça a curiosidade do espectador para saber mais sobre o personagem. O curta tem um final em aberto, que deixa mais dúvidas que respostas.
        Fica evidente que Alqueres só deu um aperitivo, uma pequena amostra do que é capaz de fazer.
        Seus efeitos especiais, realizados em parceria com João Sita --que trabalhou com efeitos visuais em "300" e "A Saga Crepúsculo: Amanhecer "" Parte 2"-- impressionam, e a música e os efeitos sonoros, de Roger Lima, são de primeira.
        Que venha "The Flying Man", o longa-metragem.