sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

'Cuca o explicou sobre reserva por...'

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Entre os estudiosos da língua há quem defenda a tese de que a norma culta de hoje está no que publicam os principais jornais do país e os meios de comunicação em geral. Essa corrente, no entanto, não usa em seus trabalhos o que se lê nos principais jornais do país, ou seja, o que ela diz ser a norma culta de hoje.
Muitas questões dos mais importantes vestibulares se baseiam justamente em textos jornalísticos, ou melhor, nos problemas de certos textos jornalísticos. Sempre se pede que se faça alguma "correção" nos excertos destacados, seja no que diz respeito à mensagem em si, seja no que diz respeito a aspectos gramaticais.
Posto isso, vamos a um belo exemplo do que não se deve imitar quando se quer trafegar pelo padrão culto da língua. De onde vou tirar o exemplo? De um título jornalístico, que ninguém é de ferro! Lá vai: "Júnior César diz que Cuca o explicou sobre reserva por mensagem". O desconhecimento de itens gramaticais básicos, a falta de leitura dos clássicos e a confusão com a regência de verbos que pertencem ao mesmo campo semântico estão entre os fatores que produzem a inadequação linguística presente no título citado.
A que variedade de língua pertence a sintaxe desse título? À culta? À popular? A nenhuma delas. O xis do problema está no uso indevido do pronome oblíquo "o". Quando se diz que alguém "o explica", diz-se que alguém explica algo, que pode ser um fenômeno, um texto etc.: "O professor explicou o problema" = "O professor o explicou"; "O poeta explicou o verso" = "O poeta o explicou"; "O astrônomo explicou o fenômeno" = "O astrônomo o explicou".
Como se sabe -ou como deveria saber-se-, no padrão formal da língua o pronome oblíquo "o" funciona como complemento verbal direto (aquele que não é regido por preposição), seja para substituir coisas ou animais, seja para substituir seres humanos. Vamos lá: "Não conheço você" = "Não o conheço"; "Encontrei o cão" = "Encontrei-o"; "Não admiro esse compositor" = "Não o admiro"; "Não li esse livro" = "Não o li".
Na frase em questão, certamente não se quis dizer que Cuca "explicou Júnior César sobre a reserva", já que ninguém explica alguém sobre o que quer que seja. O que se quis dizer é que Cuca explicou A Júnior César sobre a reserva. Se alguém explicasse alguém sobre algo, seria possível dizer "Cuca o explicou sobre tal coisa".
O caro leitor já sabe como ficaria o título citado se fosse redigido na norma culta? Bastaria trocar o pronome "o" pelo pronome "lhe": "Júnior César diz que Cuca lhe explicou sobre a reserva por mensagem". Sim, se Cuca explicou A Júnior César, ou seja, se Cuca explicou A alguém, Cuca lhe explicou. No padrão culto da língua, é o pronome "lhe" que funciona como complemento verbal indireto (aquele que é regido por preposição) da terceira pessoa. Vamos lá: "O livro pertence a você" = "O livro lhe pertence" ou "O livro pertence-lhe"; "Digam ao diretor que este livro pertence a ele" = "Digam-lhe/a ele que este livro lhe pertence" (ou "que este livro pertence a ele").
O desconhecimento dessa particularidade da sintaxe culta tem produzido outras bobagens semelhantes, como "O médico não o permite ingerir gordura" (na língua culta, "O médico não lhe permite ingerir gordura") ou "O juiz não o concedeu o benefício" (no lugar de "O juiz não lhe concedeu o benefício").
E é bom não confundir alhos com bugalhos! Frases como "O juiz não o convenceu a depor" ou "O pai não o autorizou a viajar" são do registro culto, já que, nesse caso, "autorizar" e "convencer" não regem preposição (alguém convence alguém; alguém autoriza alguém). É isso.
pasquale cipro neto
Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa" e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de "Cotidiano".

Barbara Gancia

folha de são paulo
O Corinthians é o novo São Paulo
Mano é mano e mauricinho é mauricinho. E o xis da questão não tem nada a ver com dar ou não dar selinho
A foto que inaugura o meu Instagram foi tirada no dia 8 de abril de 2011 e postada, segundo informa o aplicativo, há 106 semanas. Ela mostra uma área em início de processo de terraplanagem e, à primeira vista, não oferece qualquer atrativo.
Na imagem constam dois caminhões ao centro, uma escavadeira no canto esquerdo e alguns blocos de concreto esparramados pelo chão. Faltam sujeito e contraste. Mas foi o que deu para fazer de dentro de um táxi em movimento na volta de uma reportagem.
Quem se der ao trabalho de olhar melhor, como fizeram os 23 beatos que deram "like" no meu post de segunda classe, mas hoje cheio de significado, irá verificar que lá longe, em segundo plano, é possível ler uma frase escrita no muro que cerca a obra retratada: "A Copa do Mundo de 2014 começa aqui".
Eu tinha ido entrevistar os operários que começavam a construir o Itaquerão na época em que ninguém da zona sul ainda conseguia comprar a ideia de que o chute inicial da Copa de 2014 seria dado ali na ZL paulistana.
Pelas filas de interessados buscando uma ocupação na obra que prometia consagrar um bairro tão distante do centro, habitado em sua maioria por migrantes nordestinos, já dava para perceber que haveria notícia de balde saindo dali. E, de fato, do meu clique em diante, muita saliva rolou.
Houve o episódio do duto da Petrobras debaixo do terreno que ameaçou paralisar o esforço por completo; a gritaria por conta dos custos que iam ultrapassando as projeções e sobrando para os cofres públicos; a alegações por parte dos dirigentes que eles haviam conseguido descontos formidáveis de fornecedores tão fanáticos pela Fiel que acabou sendo possível comprar, digamos, mármore, em vez de porcelanato.
Teve de tudo, enfim, até chegarmos ao estágio atual, que coincide com este Brasil "emergido", o país que subiu nos índices do IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) e que o pessedebista Luiz Carlos Mendonça de Barros, veja só, define como "um país que passa de uma posição vergonhosa no campo do desenvolvimento social para a companhia de sociedades mais justas e ricas".
O Corinthians é essa renovação na carne. A Fiel dos renegados e humildes, que na época do meu clique não passava de uma Palestina do futebol, sem Libertadores, sem título mundial, sem passaporte e sem teto para chamar de seu, hoje tem tudo isso e mais um palácio de mármore e granito, praticamente um Caesars Palace da bola, um Coliseu estalando de novo. E com leão que dá selinho na boca, está sempre com a macaca (o nome dela é Cuta) e desafia a lógica. Quem mais, além de Emerson Sheik, mora em Tamboré e trabalha em Guarulhos?
O colega Vitor Guedes, corintiano, correspondente da BandNews FM em Itaquera (!) e colunista do jornal "Agora", brinca: "Em casa, fico no banheiro lendo jornal uns dez minutos, mas no estádio do Corinthians, pelo que eu pude ver, ficaria uma hora tranquilamente".
Pois é. Uma coisa é duvidar da Copa do Mundo em Itaquera. Mas quem ousaria imaginar que, de lá para cá, o Timão ganharia a Libertadores e o Mundial e que o Tite se desse ao esnobismo de não admitir a utilização, em coletiva de imprensa, do termo "vergonha" para definir a derrota contra o Luverdense? Emergente é uma coisa. Outra, é novo-rico. Deixar de ser maloqueiro para virar mauricinho disfarçado de mano fabricado no shopping Anália Franco... Vamos com calma!
Não sei se isso acontece com você, meu ilustre leitor, mas certas vezes eu preciso olhar duas vezes para verificar se o sujeito na rua vestindo a camisa do Corinthians não é um cordeirinho são-paulino em pele de gavião.

Oito a menos - Ruy Castro

Folha de são paulo
RIO DE JANEIRO - Há um novo formato de disco na praça: o "extended play" --um CD com quatro faixas, em vez das convencionais 12. Não era sem tempo. Até há pouco, quem comprasse um disco por causa de uma música era obrigado a engolir 11 contrapesos, que não lhe davam nenhum prazer e só faziam encarecer o produto. Com a internet, as pessoas ganharam a possibilidade de "baixar" apenas a música que lhes interessava --donde deixaram de comprar discos, e a indústria fonográfica foi para o buraco.
Nesse sentido, o CD "extended play" é uma boa ideia. Atende ao interesse de quem ainda gosta de discos "físicos" e se resume à faixa que interessa ao cliente, com, no máximo, três contrapesos. Aliás, o "extended play" é uma ideia tão boa que até já a tiveram antes --mais exatamente, em 1949, há 64 anos.
Era o que então se chamava de "45", porque rodava em 45 rpm, e não em 33 rpm, como os revolucionários álbuns "long-playing" --os LPs--, também recém-lançados pela Columbia. O "45", um mini-LP com quatro faixas, foi inventado pela RCA Victor para fazer frente ao monopólio da Columbia na rotação de 33. E chamou-se "extended play" porque comportava o dobro de música contida no antigo "single" em 78 rpm, com uma só gravação em cada lado.
O território dos "45" eram as vitrolas automáticas, chamadas "jukebox", onipresentes nos EUA. Daí aquele grande buraco no centro do disco --para comportar a largura do pino de tais máquinas. No Brasil, as "jukeboxes" nunca pegaram e, contornado o problema do monopólio, as gravadoras preferiram lançar os disquinhos em 33 rpm mesmo, chamados de "compactos duplos".
Os novos "extended plays" em CD custarão mais barato --afinal, suas despesas de produção são menores. Mas a maior vantagem é a de que suas oito músicas a menos farão um enorme bem à música brasileira.

    Monica Bergamo

    folha de são paulo

    Justiça questiona Oi por vender bens que deveriam ser devolvidos ao governo

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    A Oi está sendo questionada na Justiça por ter vendido bens que deveriam, em tese, ser devolvidos ao governo depois do fim de seu contrato de concessão para explorar serviços de telefonia, em 2025. A ação é movida pela Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), na 20ª Vara Cível do Rio.
    PATRIMÔNIO
    Nela são listadas a venda de três prédios por R$ 340 milhões, em 2012, e da GlobeNet, de cabos submarinos, por R$ 1,7 bilhão, em julho.
    RITO CERTO
    A Oi informa que não foi notificada. Afirma que as operações seguiram "rigorosamente o rito regulatório", foram submetidas à Anatel e "só serão efetivadas após anuência do órgão regulador". A empresa diz ainda que nenhum bem reversível à União foi comercializado.
    REPETECO
    Advogados de réus do mensalão vão insistir: novos embargos de declaração serão apresentados depois que o STF (Supremo Tribunal Federal) publicar o acórdão negando os que estão sendo analisados nesta semana. Eles citam como exemplo o caso do deputado Natan Donadon, que usou o mesmo instrumento duas vezes para tentar evitar a prisão.
    CLIMA
    E foi grande a decepção, entre advogados, com o voto do novo ministro do STF, Luís Roberto Barroso. "Pilatos perde", chega a dizer um deles. O magistrado diz que discorda de condenações mas não estaria disposto a "revirar" o julgamento.
    CLIMA 2
    Os votos de Barroso e Teori Zavascki esfriaram o clima de otimismo entre defensores e réus. José Dirceu já disse a interlocutores que está perdendo "as esperanças".
    FOCO NO MERCADO
    O músico Arnaldo Antunes com sua mulher, a artista plástica Marcia Xavier, o banqueiro Olavo Setubal Jr., a socialite Alessandra Campiglia, o editor Pedro Corrêa do Lago e Geyze Diniz, mulher do empresário Abilio Diniz, foram na quarta-feira (21) à abertura da SP-Arte/Foto 2013. O empresário Carlos Jereissati Filho e a diretora da feira, Fernanda Feitosa, recepcionaram os convidados no shopping JK Iguatemi.

    Arnaldo Antunes vai a feira de foto

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    Zanone Fraissat/Folhapress
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    O músico Arnaldo Antunes e a mulher, a artista plástica Marcia Xavier, foram à abertura da SP-Arte/Foto 2013, na quarta (21), no shopping JK Iguatemi
    CONSUMO FELIZ
    O otimismo voltou ao varejo, depois de uma queda na expectativa de vendas medida em junho pelo IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), presidido por Flávio Rocha, da Riachuelo. Ao comentar os dados que seriam divulgados ainda nesta semana com o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, Rocha ouviu dele que, caso se confirme a retomada, "o Brasil poderá crescer um pouco mais" do que o imaginado até agora. Esteves fez recentemente críticas públicas à política econômica.
    VERDE DA TV
    Um grupo da elite da arquitetura, design e paisagismo terá um programa no canal +Globosat. "Arquitetura Verde" será semanal e dele vão participar profissionais como Marcelo Faisal, Luis Carlos Orsini, Guto Requena e Hugo França. A atração estreia no dia 6 de setembro. A concepção e realização é da mesma produtora do "Reclame", do Multishow.
    SUBO NESSE PALCO
    Regina Duarte vai estrear nova peça de teatro em outubro, no teatro Vivo, em SP. "Bem-Vindo, Estranho", com texto inédito da dramaturga britânica Angela Clerkin, terá direção de Murilo Pasta, cineasta brasileiro que mora há 20 anos na Inglaterra. O espetáculo, que faz parte do projeto Vivo EnCena, também terá no elenco os atores Kiko Bertholini e Mariana Loureiro.
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