domingo, 25 de agosto de 2013

Suzana Singer - Folha Ombudsman

folha de são paulo

Respeito aos mortos

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Três casos recentes mostram que falta cuidado à imprensa ao tratar de vítimas da violência.
No afã de encontrar uma explicação para crimes surpreendentes e com um apetite irrefreável por detalhes, busca-se todo tipo de informação, sem ponderar sua relevância ou refletir se a publicação pode, desnecessariamente, aumentar o sofrimento dos que ficaram.

Alexandre (1971-2013)
O dentista Alexandre Peçanha Gaddy foi assaltado em seu consultório, em São José dos Campos (SP), na noite de 27 de maio.
Ele foi levado para o banheiro, amarrado com fios de computador a uma cadeira e queimado vivo. Quando os bandidos saíram, ele conseguiu se soltar e gritou por ajuda. Chegou vivo ao hospital, mas não resistiu às queimaduras, que tomaram 60% do seu corpo. Tinha dois filhos, de 5 e 12 anos.
No dia seguinte ao enterro, a Folha dizia ter "apurado" que a polícia investigava a hipótese de suicídio, porque Alexandre tinha feito um seguro de vida recentemente.
A informação, vendida ao leitor como grande apuração, era a mera reprodução acrítica do que dizia a polícia. Não é estranho planejar a própria morte de forma tão cruel? Se a intenção era morrer, por que ele pediria socorro?
A hipótese publicada por alguns jornais, não apenas a Folha, serviu apenas para aumentar o estresse da família. "Minha avó ficou sabendo pela imprensa que a polícia investigava suicídio. Ela tem 88 anos e usa marca-passo", conta Christianne Gaddy, 40, irmã da vítima.
No início deste mês, a polícia deu o caso como encerrado. Dois assaltantes e três menores envolvidos no crime estão presos.

Bianca (1995-2013)
No último dia de julho, "Cotidiano" noticiou: "Garota mata ex-namorada e esconde o corpo debaixo da cama em Goiás". Tratava-se do assassinato da universitária Bianca Mantelli Pazinatto, esfaqueada por duas amigas adolescentes.
Mais uma vez, a fonte era a polícia, que dizia que uma das garotas tinha namorado Bianca e queria reatar a relação. Na mesma reportagem, um tio da vítima contava que a família nunca soube que a amiga "queria namorar a Bianca".
Não havia, portanto, informação suficiente para sustentar o título, que definia a vítima como "ex-namorada" de seu algoz.
Não foi um erro apenas da Folha, que pelo menos teve a preocupação de procurar a família depois. Ouviu do agricultor Hércules Pazinatto, 39: "Não bastasse a morte da nossa filha, ainda lidamos com essa maldade. Se tinha algo nesse sentido de gostar, era da parte da moça que a matou".
O pai fez questão de contar que Bianca namorava um rapaz de 19 anos e que, antes dele, tivera outro namorado por dois anos.

Marcelo (2000-2013)
A grande imprensa não embarcou na rápida solução encontrada pela polícia para o mistério da chacina da Vila Brasilândia. A hipótese de que o filho matou toda a família e depois se suicidou foi colocada, acertadamente, com ressalvas.
O problema nesse caso foi a busca desenfreada por detalhes da vida familiar, na tentativa vã de explicar o que poderia ter levado um garoto aparentemente tranquilo a praticar tamanha violência.
Esquadrinhou-se a vida de Marcelo Pesseghini, suas amizades, quais videogames ele gostava de jogar, a doença que o atormentava desde o nascimento.
A capa da "Veja São Paulo", no domingo passado, citava o "boato" de que a mãe de Marcelo tinha um caso com um colega da polícia. Não poupou o pai, que também teria uma amante no trabalho.
"Sabe-se que os pais do menino, por suspeitas mútuas de infidelidade, não viviam bem como casal", concluiu a revista. Qual a utilidade dessa informação?
"A imprensa já estava fixada no Marcelinho. Agora, é a mãe. É uma barbaridade", diz Sebastião de Oliveira Costa, 54, tio-avô do menino.
Com certa resignação, ele completa: "Fazer o quê? Quem morre não fala mais nada".
Suzana Singer
Suzana Singer é a ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2010. No jornal desde 1987, foi Secretária de Redação na área de edição, diretora de Revistas e editora de "Cotidiano". Escreve aos domingos na versão impressa.

Principal alvo da nova censura moralista é a telenovela - Renata Pallottini

folha de são paulo aqui
ANÁLISE
RENATA PALLOTTINIESPECIAL PARA A FOLHAHá menos de uma semana, em reunião sobre arte e censura na USP, tratei do tema, cada dia mais delicado, do moralismo na TV. Sob a forma de censura à produção artística, esse moralismo atinge, sobretudo, a telenovela e modelos semelhantes.
O aumento da preocupação com a moral, concretizada em rejeições de vários tipos, é uma nova censura.
A censura não deve ser tomada como assunto policial, como na ditadura militar. Ela pode partir de anunciantes e da sociedade em geral, quase sempre fruto da visão moralista dessas categorias.
As empresas que podem vir a subvencionar a produção se afastam quando o conteúdo da sinopse não lhes agrada; a sociedade reduz a audiência e provoca a necessidade de mudanças, de acordo com a sensibilidade da emissora ao seu desagrado.
Se nos reportarmos à telenovela de maior audiência no momento, "Amor à Vida", vemos reações de público e grupos organizados que configuram o repúdio àquilo que, segundo eles, representa o perigo de formar estereótipos: associações médicas se rebelam contra o fato de doutores, na história, serem adúlteros e pouco dedicados ao trabalho; grupos de obesos se solidarizam com a personagem Perséfone, enquanto grupos ligados à questão de gênero lamentam a personalidade do vilão Félix (um dos maiores acertos da novela).
Nossa sociedade atual, sobretudo a que assiste à novela, é, em boa parte, moralista. Defende que, na obra de ficção, se apresentem modelos de boa conduta --nem sempre seguidos na vida real.
Despreza, deliberadamente ou por ignorância, o fato de que a ficção é uma história inventada, baseada, sim, na realidade, mas que não está obrigada a nos apresentar exemplos de pureza moral e bons costumes.
A ficção, especialmente na telenovela, deve nos dar personagens interessantes, conflitos, ação dramática, suspense e desfecho. Quase sempre, o vilão é castigado. Por acaso, na vida real, os vilões sempre perdem? Se assim fosse, o que aconteceria com nossos homens públicos?

    Ferreira Gullar

    folha de são paulo
    A beleza doída
    Não havia ali urubus engaiolados ou casais nus para constranger os visitantes da mostra
    Se a vinda do papa Francisco ao Rio de Janeiro já foi, por si só, um presente à cidade, o Vaticano procurou ampliar essa dádiva enviando ao Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) uma coleção de obras de seu acervo e de outras instituições italianas que muito dificilmente teríamos a oportunidade de ver fora de lá e, menos ainda, vê-las reunidas no mesmo lugar.
    No entanto, durante a visita do papa, um número relativamente pequeno de pessoas foi ver aquela mostra, não só porque preferiu ver o próprio papa e participar dos atos religiosos, realizados em vários pontos da cidade e particularmente na praia de Copacabana, mas também por não ser fácil, naquele período, deslocar-se para certos pontos da cidade e, pior ainda, de certos pontos.
    Este foi o meu caso, residente em Copacabana, onde se concentrava verdadeira multidão de fiéis que vinham participar das cerimônias. Não eram, claro, 3 milhões de pessoas (já que isso equivaleria a mais de 40 estádios do Maracanã lotados). Mas era gente suficiente para me impedir de sair do bairro.
    No primeiro domingo, após a partida do papa, porém, fui ao MNBA apreciar as obras-primas ali reunidas. Felizmente, havia um bom número de visitantes, mas não a multidão que temia encontrar ali. Pude, assim, percorrer as salas da exposição, criteriosamente montada, e viver a experiência única que só a verdadeira arte oferece.
    Não havia ali urubus engaiolados, casais nus para constranger os visitantes nem penduricalhos de mau gosto flutuando sobre nossa cabeça. Não, nada disso: havia só pintura, imagens e cenas, criadas pelo talento e o domínio técnico da linguagem pictórica.
    Foi uma experiência impactante, já que havia anos não via muitas daquelas obras, e nem foi a mesma impressão que me causaram agora. A figura de São Januário decapitado, de Caravaggio --que ainda não tinha visto--, teve sobre mim um impacto poderoso. O jogo de luz e sombra, próprio à linguagem desse pintor, já dramático por si mesmo, neste caso alcança especial dramaticidade.
    Mas não só essa obra me atingiu naquela visita. Ainda que de outro modo, as pinturas de Da Vinci, Michelangelo e Ticiano, naquela tarde, na penumbra daquelas salas, atingiram-me, fosse com a sutileza das linhas e dos tons de cor, fosse pela expressão facial do Cristo, do apóstolo Pedro ou da Virgem Maria, a nos passar a sua dor profunda.
    Até então, não havia me dado conta do sentimento de culpa que envolvia todas aquelas obras, todas aquelas cenas e figuras, como se a alegria, o prazer de viver, não coubesse naquele universo por ser contrário à fé nas palavras de Cristo e uma traição ao martírio a que se submetera para redimir a humanidade do pecado original. Ao terminar o percurso daquelas, e sair do ambiente das salas, senti-me aliviado, pois voltava à normalidade do mundo sem culpa.
    E ocorreu que, ao sair da mostra, encontrei-me no hall interno do MNBA, onde estão várias cópias de obras-primas da escultura grega, a começar pela Vitória de Samotrácia. Assim foi que, ao sair do universo sofrido da arte cristã, deparei-me com a arte sem culpa dos escultores helênicos, os quais, ao contrário daqueles, exaltam a beleza e a sensualidade do corpo humano, seja da Vênus de Milo, seja dos atletas que lutam nus, ou de Apolo que exibe sem pudor a beleza de sua nudez.
    Enfim, ali estava eu, diante de outra cultura, que não via o corpo humano como origem de nenhum pecado e, sim, pelo contrário, como fonte de felicidade e de prazer.
    Curioso é observar que também foi nessa civilização sem culpa que nasceu a filosofia, ou seja, a tentativa de ver a existência como algo que podia ser entendido racionalmente. E foi essa confiança na possível ordem objetiva do mundo que, séculos mais tarde, deu origem à ciência.
    Em meio a essas reflexões, lembrei-me de um pintor, Filippo Lippi, que, embora monge, não pintava com culpa, mas para exaltar a beleza tranquila dos santos e do mundo. Não por acaso, fugiu com uma bela noviça e com ela teve um filho, que se tornou pintor como o pai. Viveu e morreu sem culpa, amando a vida e as mulheres.
    Mais uma razão para saudarmos o papa Francisco, que substitui a culpa pela solidariedade.

    Antonio Prata

    folha de são paulo
    (M?)(H?)otel
    A única concordância entre quem busca o sono e quem procura o sexo é sobre a conveniência de um colchão
    A pergunta que me faço sempre que passo pelo luminoso, há anos, é se estamos diante de um M disfarçado de H ou de um H que finge ser M. Embora as duas hipóteses encontrem argumentos, tendo a me inclinar em direção à primeira: trata-se de um motel envergonhado.
    O estabelecimento fica quase na Raposo Tavares --e é esse "quase", acredito, que explica sua indecisão. Logo ali, menos de três quilômetros adiante, os Ms já não terão pudor de exibir seus rubros decotes à beira da estrada: Motel L'Amour, Motel Belle, Sedutti e Fox Trot Motel. Uma estrada, contudo, é uma estrada, uma cidade é uma cidade. O ambíguo luminoso brilha entre uma imobiliária e uma casa de família: suas piscadelas vão para os trabalhadores no ponto de ônibus, para os estudantes da USP, para a secretária que, a caminho do metrô, compra uns chocolates do ambulante. É melhor que as lâmpadas brancas não esclareçam totalmente os contornos da moldura vermelha: assim, só quem sabe o que busca verá, no sorriso discreto do H, o púbis desnudo do M.
    Ou não --como diria o poeta. Afinal, por que teria de se esconder, um motel? Um motel não é um bordel. Ninguém se choca com sua existência. Não atrai "gente diferenciada". Associações de bairro não tentam evitar sua construção. O Feliciano, a bispa Sônia ou o papa, até onde eu sei, jamais fizeram dele o alvo de seus recalques. Será que, em vez de um motel envergonhado, estamos diante de um hotel atrevido? Um pequeno hotel cujo peso das contas a pagar, todo mês, acabou por flexibilizar o austero H, levando-o a ampliar seu público? Se o caminhoneiro cansado quiser dormir algumas horas antes de seguir para Sorocaba, encontrará uma cama limpa. Se o casal afobado não aguentar chegar à Raposo, terá uma cama redonda.
    Motel acanhado ou hotel saidinho, a mesma dúvida me traz: como lidará a clientela com tal indecisão gráfica e mercadológica? Convenhamos, a única concordância entre quem busca o sono e quem procura o sexo é sobre a conveniência de um colchão: afora isso, tudo os separa. Uns aspiram ao silêncio decorativo, no qual espelharão a tranquilidade domiciliar, os outros desejam exatamente o contrário, o estímulo excêntrico que os faça esquecer do tédio do lar.
    Tentar unir roncos e gemidos parece uma receita para o fracasso e, no entanto, o negócio resiste, há anos. Ocorre-me agora que ele talvez perdure não apesar da ambiguidade, mas justamente por causa dela. As lâmpadas brancas, sem esclarecer totalmente os contornos da moldura vermelha, não são a senha para quem sabe o que busca, mas um convite aos trabalhadores no ponto de ônibus, à secretária comprando chocolates, ao ambulante, aos estudantes da USP, ao caminhoneiro a caminho de Sorocaba. Quem sabe se as promessas de aventura do motel, somadas ao lastro de segurança de um hotel, não trazem vez por outra certas ideias a esses incautos pedestres que, atraídos pelo sorriso discreto do H, acabam seguindo a seta do M? Talvez as duas letras, mais do que divergentes, sejam consoantes.