terça-feira, 30 de outubro de 2012

CARLOS HEITOR CONY


O lobo e o cordeiro

RIO DE JANEIRO - Aos 11 anos, obrigaram-me a decorar uma fábula de Esopo, reescrita em latim por Fedro. Até hoje a sei de cor: "Ad rivum eundem lupus et agnus...". O lobo e o cordeiro vieram ao mesmo rio. O lobo quis comer o cordeiro que estava sujando a água que pretendia beber.
O cordeiro se defende: "Estou bebendo abaixo do trecho onde você bebia, como posso sujar a sua água?". O lobo deu a sentença final: "Ano passado, seu pai sujou a água que eu bebia!". E comeu o cordeiro.
Pensei nisso quando ouvi uma douta ministra do STF, a propósito de um dos réus do mensalão, dizer que não estava julgando a história, mas o fato. Com isso, condenou -e outros juízes fizeram o mesmo- alguns personagens que, no passado, se destacaram na luta contra a ditadura.
Sem entrar no mérito da questão, acho que a juíza julgou certo, desconhecendo o passado dos réus e julgando apenas os delitos cometidos e denunciados por quem de direito. Evitou usar a razão histórica do lobo que acusou o pai do cordeiro de ter sujado a água que bebia. Adotou o argumento às avessas, não lembrou o passado para julgar o presente.
Além da dupla Esopo-Fedro, recorro a autor mais recente, William Shakespeare, e a uma das cenas mais famosas de sua peça "Júlio César". Após o discurso de Marco Antônio -que citei em crônica da semana passada-, o povo, revoltado contra o assassinato de César, promove a caça às bruxas que haviam feito parte da conspiração. Pegam um tal de Cina, que se explica: "Não sou conspirador, sou Cina, o poeta!".
O povo não o perdoa: "Então morra por seus maus versos!".
Outro argumento histórico, igual ao do lobo da fábula e que a ministra do STF não quis aplicar no caso dos dois Zés, o Dirceu e o Genoino. Justiça ou acerto de contas?

ELIANE CANTANHÊDE


O fator PSB

BRASÍLIA - O PT ganhou a joia da coroa, São Paulo, mas levou a pior ao bater de frente com o PSB em Recife e Belo Horizonte, no primeiro turno, e em Fortaleza e Cuiabá, no segundo. Sem falar em Campinas.
É assim, batendo o PT, avançando no Nordeste, conquistando espaço no Sudeste e com o troféu de principal vencedor nas cem cidades mais pobres, que o PSB se consolida como força política relevante no país. Com a vantagem de ser simultaneamente aliado do governo Dilma e interlocutor dileto da oposição.
Ou seja: o PSB e seu grande líder, o governador Eduardo Campos (PE), mantêm as vantagens e luxos de quem está casado com o poder, mas já se preparando para fazer o inverso do PSD de Kassab: trair o PT com o amante PSDB. Possivelmente, não ainda em 2014, mas já em 2018. Tudo é questão de oportunidade.
O PT é uma faca de dois gumes: aliado conveniente porque detém o Planalto -e a caneta, os cargos, as verbas, a popularidade-, mas profundamente inconveniente para os que almejam o poder. Sabe quando o PT vai abrir mão da cabeça de chapa para o PSB, o PMDB, o PC do B ou qualquer outro? Nunca.
Já o PSDB é um aliado excelente, porque é o partido mais forte da oposição e está cada vez mais fraco. Aos 70 anos, Serra, derrotado para a Prefeitura de São Paulo e com alta rejeição dentro e fora do partido, não tem mais vez. Alckmin já não deu para o gasto em 2006. E Aécio, hibernando no Senado, é uma incógnita.
Sem os três, não sobra ninguém no PSDB e na oposição que seja ao menos visível a olho nu para 2014 e 2018. É esse espólio que Eduardo Campos trabalha e cobiça.
Quando Aécio e Campos se abraçam e despejam milhares de pulgas atrás das orelhas de Lula, Dilma, Serra e Alckmin, o mineiro se sente esperto como o avô Tancredo, imaginando que é ele quem vai colher os frutos. Há controvérsias. Não é Campos quem faz o jogo de Aécio, é Aécio quem está fazendo o jogo de Campos.

HÉLIO SCHWARTSMAN


HÉLIO SCHWARTSMAN
Mensagem das urnas

SÃO PAULO - O PT obteve uma fulgurante vitória nestas eleições municipais, mas boa parte do brilho vem da conquista de uma única cidade, São Paulo, que concentra 5,7% da população e 11% do PIB do país.
O tamanho do triunfo paulistano foi ainda magnificado pelo fato de que, trazendo o novato Fernando Haddad como candidato, o partido tenha derrotado um dos principais caciques tucanos num importante reduto do PSDB. É temerário, porém, interpretar os resultados municipais como uma prévia de 2014.
A melhor hipótese que li para explicar a disparidade dos desfechos do segundo turno foi a aventada por Melchiades Filho e André Singer, segundo os quais o baixo dinamismo econômico dos últimos anos contribuiu decisivamente para que as oposições locais derrotassem os candidatos situacionistas.
Se esse raciocínio é correto, como me parece que é, mais do que o enfraquecimento da oposição nacional, o que emerge das urnas de 2012 é um sinal de que, se a economia não reagir no próximo biênio, os sonhos continuístas da presidente Dilma Rousseff poderão enfrentar dificuldades. Tudo indica que uma recuperação está em curso, mas nunca se sabe. O seguro morreu de velho.
Algo parecido vale para a oposição. Seria desejável que ela se renovasse, mas deixar de fazê-lo não significa uma sentença de morte.
Se há uma lição política a tirar do que vem acontecendo na Europa, é a de que crises econômicas mais fortes têm o dom de transformar qualquer coisa que se pareça com oposição em situação. E crises de maior profundidade acontecem. Não conseguimos prever se elas virão em um, cinco ou dez anos, mas a ideia de que a economia possa funcionar sem sobressaltos parece cada vez menos crível.
Desconfio até que a tão louvada alternância no poder, fundamental na democracia, tenha mais a ver com ciclos econômicos do que com propostas e o debate de ideias.

Globo renova faixa nobre com séries humorísticas



"Louco Por Elas" é a primeira de 4 produções que estreiam a partir hoje
'Como Aproveitar o Fim do Mundo' e novo ciclo de 'Casseta & Planeta', completam lista ao lado de 'Suburbia'

ALBERTO PEREIRA JR.

DE SÃO PAULO

O humor vai ganhar mais espaço no horário nobre da Globo. São três as atrações do gênero que a emissora estreia a partir de hoje.
A largada é dada com a nova temporada da série "Louco por Elas". Na quinta, é a vez de "Como Aproveitar o Fim do Mundo". Um dia depois, "Casseta & Planeta Vai Fundo".
"'Louco por Elas' trata de assuntos íntimos de maneira ágil e divertida", segundo João Falcão, criador da série.
Na nova temporada, Léo (Du Moscovis) seguirá rodeado de mulheres. Sua ex Giovana vai arranjar um namorado bem mais novo, interpretado por Thiago Martins.
A cantora Maria Gadu fará participação em um episódio de temática musical.
Partindo da profecia maia de que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012, Alexandre Machado e Fernanda Young, criadores de "Os Normais" [2001-03] fazem sua estreia na comédia romântica em "Como Aproveitar o Fim do Mundo".
No enredo, Alinne Moraes é a exuberante Kátia. Crente que o mundo vai acabar, ela arrasta o sério e introspectivo Ernani (Danton Mello), seu colega de trabalho, em suas aventuras.
"A série tem um quê de autobiográfico; a maluca, a Fernanda, e o certinho, que seria eu. É um humor que só pode ser feito com um pouco de confissão", diz Machado.
"Suburbia" é a única estreia da Globo que destoa da comédia rasgada.
Isso não quer dizer que a série de Luiz Fernando Carvalho e Paulo Lins (autor do livro "Cidade de Deus") não tenha bom humor.
Cultura negra, religião e violência vão se misturar na trama, que mostra a vida da mineira de Conceição (Débora Nascimento/Erika Januza) no Rio de Janeiro.