quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Pasquale Cipro Neto


Comparações
Como se conserta (e concerta também) a construção? Colocando lé com lé, ou cré com cré
Estava num site, dia desses: "Velocidade da internet móvel brasileira perde para Argentina, Chile e Colômbia". Belo material para uma questão de vestibulares de ponta (Fuvest, Unicamp, Unesp etc.). As bancas poderiam tomar esse título como base para abordar o paralelismo (ou a falta dele), por exemplo.
Vamos direto ao ponto: quem perde para quem? O que se compara? Parece claro que o tema do título jornalístico é a velocidade da internet móvel nos países A, B, C e D, não? Como são citados esses países? O primeiro dos quatro (verdadeiro ponto central do tema) é o Brasil, implícito no adjetivo "brasileira" ("internet móvel brasileira" = "internet móvel do Brasil"). O caro leitor certamente notou (e sabe) que "brasileira" não corresponde a "Brasil"; corresponde à locução "do Brasil".
E os outros três países? Nada de adjetivo. E nada de locução adjetiva. O que se diz é que a nossa internet móvel perde para Argentina, Chile e Colômbia, ou seja, comparam-se salas de cinema com pratos de arroz e feijão, ou rodas de automóveis com hambúrgueres de frango.
O título em questão carece de simetria e, consequentemente, de elegância. Antes que alguém diga que em grandes textos literários o paralelismo é solenemente atropelado, digo que já citei isso diversas vezes neste espaço, com exemplos mais do que instigantes. Em suma: literatura é uma coisa; texto informativo (ou técnico, jurídico, filosófico, científico etc.) é outra.
Pois bem, voltando ao título sobre a internet móvel, como se conserta (e concerta também) a construção? Colocando lé com lé, ou cré com cré. Vamos às possibilidades, começando pelas duas melhores ou mais simétricas: a) "Velocidade da internet móvel brasileira perde para a argentina, a chilena e a colombiana" (note a inicial minúscula em "argentina", já que agora estamos diante do adjetivo, e não do substantivo próprio); b) "Velocidade da internet móvel do Brasil perde para a da Argentina, a do Chile e a da Colômbia".
Você certamente notou que na primeira construção há quatro adjetivos pátrios; na segunda, quatro locuções correspondentes a esses adjetivos.
Agora vamos a mais duas possibilidades, menos simétricas do que as anteriores: c) "Velocidade da internet móvel brasileira perde para a da Argentina, a do Chile e a da Colômbia"; d) "Velocidade da internet móvel do Brasil perde para a argentina, a chilena e a colombiana". Preciso explicar por que são menos simétricas? Parece que não.
Ontem, ao vir para o jornal, ouvi no rádio do carro uma matéria sobre uma experiência feita na Nova Zelândia com cães motoristas. Sim, conseguiram adestrar dois cães, que aprenderam a "conduzir" um automóvel por alguns metros. O assunto provocou brincadeiras e comentários jocosos dos participantes do programa. Num desses comentários, comparou-se a capacidade de dirigir desses cães com a de humanos alcoolizados. O comentário terminou com algo semelhante a isto: "...motoristas alcoolizados têm condições inferiores a um cão". Falar ao vivo é fogo, caro leitor! O que se compara? As condições de humanos alcoolizados com um cão? Não. Comparam-se as condições de humanos alcoolizados com as (condições) de um cão.
Moral da história: a construção que mantém a simetria é outra. Vamos lá: "...motoristas alcoolizados têm condições inferiores às de um cão". Notou o acento grave? Já sabe por que ele aparece? Pense um pouco. De qualquer maneira, prometo voltar ao assunto brevemente para elucidar esse emprego do acento indicador de crase. É isso.

Papa Bento 16 publica primeiro tuíte e responde a dúvidas de internautas


FOCO
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
O papa Bento 16 publicou ontem sua primeira mensagem pela rede social Twitter.
"Queridos amigos, é com alegria que entro em contato convosco via Twitter. Obrigado pela resposta generosa. De coração, vos abençoo a todos", disse o pontífice em sua primeira postagem.
A publicação do papa foi feita às 9h28 no horário de Brasília, depois da audiência pública das quartas-feiras.
Imagens da TV Vaticano davam a impressão de que a primeira tentativa não deu certo. O papa, que ainda escreve seus discursos à mão, parece ter tido dificuldades ao tocar na tela, e o tuíte não foi enviado imediatamente.
Então, ele precisou de uma pequena ajuda dos amigos. O arcebispo dom Claudio Maria Celli mostrou ao pontífice o que fazer.
PERGUNTAS
Segundo o Vaticano, no primeiro dia o papa iria responder a três perguntas. A primeira pergunta e a resposta foram postadas 40 minutos depois da saudação.
"Como podemos viver melhor o Ano da Fé no nosso dia a dia?", foi a questão. "Dialoga com Jesus na oração, escuta Jesus que te fala no Evangelho, encontra Jesus que está presente nas pessoas que passam necessidade", foi a resposta do pontífice.
A segunda pergunta e resposta entraram três horas mais tarde. Um usuário do Twitter perguntou: "Como viver a fé em Jesus Cristo em um mundo sem esperança?".
"Com a certeza de que a pessoa crente nunca está sozinha. Deus é a rocha segura sobre a qual construir a vida, e o seu amor é sempre fiel", respondeu Bento 16.
Um terceiro internauta pediu, pela rede social, "algumas sugestões para conseguir orar mais quando estamos tão ocupados com as solicitações de trabalho, da família e da sociedade".
Bento 16, o usuário @pontifex, respondeu: "Oferece tudo o que fazes ao Senhor, pede a sua ajuda em todas as circunstâncias da vida, e lembra-te de que Ele está sempre ao teu lado".
A maioria dos seguidores do pontífice é de língua inglesa, mais de 710 mil, seguidos pelos de língua espanhola, esses mais de 176 mil. Em português, os seguidores do papa já passam de 25 mil.
O bispo de Roma não escreverá diretamente os 140 caracteres -tamanho máximo permitido em cada tuíte.[folha de são paulo]

Haitianos criam 'pequena Porto Príncipe' nas ruas de Porto Velho


Capital de Rondônia é um dos principais destinos de imigrantes que chegaram após terremoto
Ruas do centro e da periferia da cidade já têm maioria haitiana; esgotamento da cota de vistos traz preocupação
FRANCISCO COSTACOLABORAÇÃO PARA A FOLHA DE SÃO PAULO, EM PORTO VELHO (RO)Imigrantes haitianos que se aventuraram em busca de melhores condições de vida no Brasil acabaram se aproximando entre si e criaram redutos em Porto Velho (RO).
A capital de Rondônia é um dos principais destinos dos haitianos que chegaram após o terremoto de 2010, que devastou o país caribenho.
Hoje, a capital de Rondônia já tem ruas em que a maioria dos moradores é de haitianos, instalados no centro e em bairros da periferia.
Eles dividem imóveis como quitinetes pelo aluguel médio de R$ 500 e costumam se reunir à noite nas ruas, que se transformaram em "pequenas Porto Príncipe", uma referência à capital do Haiti.
O governo de Rondônia oferece aulas de português aos imigrantes, mas o idioma que predomina nos redutos é o creole -língua falada pela maioria dos haitianos.
Segundo o governo, 792 se instalaram na capital, que tem como atrativo as obras das usinas hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio, no rio Madeira. Cerca de cem imigrantes trabalham nas obras.
Apesar de trazerem os costumes na bagagem, os imigrantes ainda tentam se adaptar à vida no Brasil.
"Sinto falta do vodu [religião de raiz semelhante ao candomblé] e deixei todas as minhas músicas. Mas gosto de 'Ai, Se Eu Te Pego' [sucesso do cantor Michel Teló], vou à igreja evangélica e jogo futebol", diz Jhony Wills, 26.
Marie Iolene Brusna, 29, que conseguiu trabalho como auxiliar de limpeza no shopping da cidade, diz estar feliz no Brasil, mas lamenta não ter conseguido trazer os quatro filhos que deixou no Haiti aos cuidados da mãe.
"Os haitianos são todos irmãos; aqui não esquecemos nossos costumes. A comida é o que mais dá saudade", diz.
Os haitianos também se reúnem para rezar. Eles montaram até uma pequena igreja evangélica, que reúne cerca de cem imigrantes nos fins de semana. No idioma nativo, eles rezam e cantam no local. Na fachada, foi pintada a bandeira do Haiti ao lado da brasileira.
Letesse Vilsant, 32, que deixou dois filhos e a esposa em Porto Príncipe, é um dos pastores. "Ouvir a música gospel do Haiti aqui no Brasil me aproxima da minha terra", diz Vilsant mostrando uma caixinha de som.
Como a maioria deixou familiares para trás com o objetivo de trazê-los mais tarde, os haitianos de Porto Velho mostraram preocupação ao serem avisados pela reportagem de que a cota de vistos concedidos pelo Brasil já se esgotara, como informou a Folha em 8 de dezembro.
"Quero trazer minha mulher e meu filho de dois anos para Porto Velho, onde tem trabalho. Não sabia do limite [de vistos]. O que vou fazer agora?", disse Delfin Vital, 23, há dois anos em Rondônia.

    Clovis Rossi


    O Brasil é um êxito, não foi?
    Está ocorrendo um fenômeno viral para dizer que o país, agora, está longe de ser a bola da vez
    Sinal inequívoco da incrível aceleração dos tempos que caracteriza a contemporaneidade: em apenas três anos, o Brasil passou de foguete que disparava rumo ao infinito a economia "moribunda", tudo nas páginas de uma mesma revista, a "Economist".
    Convém lembrar que a reportagem da "Economist" foi apenas a mais recente de uma série de análises em que o brilho da estrela Brasil aparece apagado ou se apagando. Quase dá para dizer que o país está sendo vítima de um "meme" (ou "mimi", em português), palavra que significa um fenômeno, sensação, rumor ou esquisitice que é passada adiante rapidamente.
    É natural, nessa situação, que no Ministério da Fazenda se culpe a "turma da bufunfa" pela disseminação do "meme". É uma expressão criada por Paulo Nogueira Batista Júnior, representante do Brasil e de oito países latino-americanos no FMI, para designar o pessoal que vive de aplicações financeiras, os rentistas, em português mais castiço e menos fiel à realidade.
    O economista Yoshiaki Nakano, que não é ligado ao governo, até deu números para a suspeita, em artigo para o "Valor Econômico": a taxa de juros caiu 5,25 pontos percentuais nos últimos 15 meses, o que significa que os rentistas deixaram de ganhar nessa proporção.
    Como sou o inimigo número 1 das teorias conspiratórias, prefiro pensar em outras explicações.
    A mais simples: houve exagero duplo da revista. Nem o Brasil era um foguete imparável em 2009 nem sua economia está morrendo agora.
    Se fosse um foguete, não teria desacelerado no biênio 2011/12. Se estivesse à morte agora, não continuaria gerando emprego e renda, que, enfim, é o que importa para a maioria da população.
    Além disso, uma economia de fato moribunda levaria a popularidade do governante de turno ao rés do chão, o oposto do que está ocorrendo com Dilma Rousseff.
    Não quer dizer, como é óbvio, que a economia brasileira seja uma maravilha. Longe disso. Exceto em 2010, o crescimento tem sido "medíocre" nos últimos 20 anos, como lembrou ontem o professor Delfim Netto, em sua coluna para a Folha.
    Para Delfim, o baixo crescimento "tem mais a ver com uma redução dos investimentos gerada por uma desconfiança exagerada entre o setor privado e o governo".
    Só faltou Delfim explicitar as razões para a desconfiança. Afinal, o setor privado foi tão bem tratado desde pelo menos o governo Lula que o então presidente usava seu folclórico bordão para dizer que "nunca antes o empresariado lucrara tanto" como o fazia com ele.
    Tão bem tratado que o presidente da CUT, Vagner Freitas, reclama isonomia, ao dizer que "a classe trabalhadora não recebe do governo o mesmo tratamento dado aos empresários". Freitas lembra que a pauta dos assalariados "ainda não foi levada em consideração pelo governo", mas, do outro lado, 41 setores da economia foram beneficiados com medidas de estímulo desde o início da crise internacional.
    Será essa desconfiança, que não se explica pelos fatos, a responsável pela derrubada da estrela Brasil?