Indicada para pacientes com predisposição genética,
a retirada preventiva dos ovários reduz as chances
de surgimento de tumores malignos, mas obriga
a paciente a adiantar a reposição hormonal
Isabela de Oliveira
Estado de Minas: 17/05/2013
Para se proteger do
câncer, a atriz Angelina Jolie se submeteu à retirada dos dois seios e
não descarta extrair também os ovários. A segunda cirurgia, chamada
ooforectmia, reduz a quase zero as chances de surgimento de tumores
malignos no órgão, dizem especialistas. Diferentemente da Europa e dos
Estados Unidos, o procedimento é pouco realizado no Brasil como forma
preventiva. Mas deve passar a ser assunto mais recorrente nos
consultórios daqui depois que Jolie decidiu tornar público seu drama
familiar.
A ooforectmia é indicada apenas para pacientes com
mutações nos genes breast cancer 1 ou 2 (BRCA 1 e 2), ligados à
ocorrência do câncer de mama e de ovário. De acordo com Hugo Miyahira,
vice-presidente da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do
Rio de Janeiro, esses genes organizam e limitam o crescimento das
células dos seios e do ovário, que têm um ciclo de vida pré-programado
no organismo. Pessoas propensas a sofrerem mutações nesses genes, como
Angelina Jolie – no caso dela, o problema está no BRCA1 – têm, de forma
geral, 87% de chances de desenvolver câncer de mama e 50% de câncer nos
ovários. Eles são supressores de tumores. Quando há a deformação, a
replicação descontrolada das células não é coibida.
Chefe do Núcleo
de Assistência de Detecção Precoce do Câncer da Secretaria de Saúde do
Distrito Federal, Farid Buitrago explica que a cirurgia de retirada dos
ovários pode ter um corte muito parecido com a cesariana ou ser
realizada a partir de pequenas incisões no umbigo e na lateral do
abdômen da paciente. "Isolamos os ovários, amarramos as artérias e
retiramos. A mulher vai parar de produzir hormônios e entrar
imediatamente no climatério. Ela precisará fazer reposição hormonal,
além de tomar sol e vitaminas. Depois de um mês estará bem, ou até em
menos tempo", explica.
Apesar de poder ser realizada pela rede de
saúde pública, a ooforectmia não é comum nem no Sistema Único de Saúde
(SUS) nem nos hospitais da rede privada. "Além do exame genético,
necessário para a indicação da cirurgia, ser caro, a retirada do órgão é
um trauma muito grande, porque a mulher não quer perder a mama ou
retirar o ovário, que, até então, não têm absolutamente nenhuma doença.
Mas apesar disso, o procedimento pode ser benéfico."
Martha
Mesquita, oncologista do Grupo Acreditar – especializado no tratamento
contra o câncer em Brasília –, ressalta que há tratamentos hormonais,
com medicamentos de via oral, para pacientes que não têm anomalias no
gene BRCA 1 e 2, mas têm maior risco de desenvolver câncer de ovário,
como as pessoas como carcinomas – esse tipo de câncer de pele em alguns
casos pode desencadear também tumores nos ovários. "Só em último caso
retiramos órgãos ainda normais, e, mesmo assim, ainda há controvérsia. A
grande dificuldade está na pesquisa genética e na dificuldade de
identificar essa tendência genética. É preciso medir todas as
consequências e ter certeza do diagnóstico para seguir com a cirurgia,
que já mostrou ser um tratamento benéfico e eficaz contra essa
predisposição hereditária", avalia a oncologista.
Segundo Miyahira,
os passos para identificar possíveis anomalias na identidade genética
devem ser dados com cautela. "Para isso, é preciso fazer um estudo
genético cuidadoso, além de uma minuciosa investigação no histórico
familiar. É preciso ter critério ético e bioético para não deixar a
população neurótica, pois a cirurgia preventiva não é para todo mundo",
argumenta o médico. Ele indica a mamografia e os exames periódicos como
ferramenta eficazes para a prevenção de câncer em pessoas que não têm
carga genética propensa a anomalias.
IMPACTO GRANDE Além das
ponderações genéticas, médico e paciente precisam levar em conta as
consequências acarretadas pela retirada dos ovários. Segundo Maria de
Fátima Brito Vogt, chefe do Serviço de Mastologia do Hospital
Universitário de Brasília (HUB), o impacto da cirurgia é grande, pois
significa "uma castração" da paciente . Perder o órgão produtor dos
hormônios femininos leva imediatamente ao início da menopausa e traz
sintomas como ondas de calor, ressecamento da vagina, mau humor,
osteosporose e até outros tipos de câncer, como o de intestino.
A
reposição hormonal e a adoção de hábitos de vida mais saudáveis, como
cuidados maiores com a alimentação e a prática de exercícios físicos,
são praticamente obrigatórios após o procedimento. "É uma espécie de
mutilação, mas o caráter genético dessa mutação atinge um percentual
pequeno de mulheres. Quando o teste for realizado e a presença da
mutação constatada, é preciso oferecer a paciente a possibilidade de
realizar a cirurgia profilática", alerta Vogt.
Farid Buitrago, chefe
do Núcleo de Assistência de Detecção Precoce do Câncer da Secretaria de
Saúde do Distrito Federal, explica que, embora o SUS não forneça o
exame genético, a rede pública de saúde atende pacientes que chegam com o
resultado positivo para as mutações no BRCA1 e 2, que nunca ocorrem
simultaneamente. "Elas passam por avaliação profissional e faz a
cirurgia. Vale lembrar que, apesar do diagnóstico, há chance de não
desenvolver a doença."
INFLUÊNCIA EXTERNA A mutação do BRCA1 e 2
pode ser desencadeada por fatores externos, como a infecção pelo vírus
HPV ou a exposição a radiação, como ocorreu em Hiroshima e Nagasaki
durante o bombardeio americano em 1945. "Essa predisposição genética é
muito rara e alcança cerca de 5% da população. Não podemos considerar
pessoas acima de 50 anos que tiveram câncer nesses órgãos como uma
referência familiar porque, à medida que o organismo envelhece, perde a
capacidade de reparação. Os casos de muitos familiares próximos
desenvolvendo câncer de mama ainda jovens, no entanto, deve ser
observado com atenção", diz Miyahira.
Vogt alerta que 85% dos casos
de câncer de mama não são causadas pela mutação. "Quando as pessoas têm
esse perfil de doença na família, os médicos indicam que a paciente
faça o teste. No caso de diagnóstico positivo, é preciso pesar muitas
coisas antes de optar pela cirurgia. Se ela ainda quiser ter filhos e
amamentar, então, o procedimento não é recomendado."