Estado de Minas: 21/07/2013
Chicago
– Na oncologia, assim como em todas as áreas da medicina, médicos e
demais profissionais vislumbram novas opções de tratamento para seus
pacientes. Há na especialidade um bom número de alternativas para o
câncer em seus estágios iniciais, mas ainda faltam opções para os
pacientes metastásicos. Durante o Congresso da Sociedade Americana de
Oncologia Clínica (Asco 2013), ocorrido no mês passado em Chicago, nos
Estados Unidos, cerca de 30 mil oncologistas de todo o mundo tiveram
acesso a resultados inéditos de estudos, alguns em fase 3, que visam
justamente melhorar esse cenário.
Apresentado durante a
plenária do congresso, o estudo Decision incluiu 417 pacientes com
câncer de tireoide metastásico divididos em um grupo que tomou placebo e
outro com o princípio ativo sorafenibe, já usado no combate ao câncer
renal e hepatocelular. As conclusões mostraram que o risco de progressão
foi diminuído em 41%, e 24% dos pacientes responderam com diminuição do
tumor. Segundo o médico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e
do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês Gilberto de Castro, o
medicamento pode vir a ser uma importante ferramenta para os pacientes
com metástase.
“Já se sabia que as células tumorais são muito
dependentes da angiogênese (formação de vasos). Os tumores usam essa
capacidade normal do organismo para construir seus próprios vasos de
irrigação sanguínea. Esse estudo usa essa molécula para inibir o
processo”, explica Castro. Demonstrou ainda uma sobrevida livre de
progressão da doença de quase 11 meses. “É uma possível alternativa de
tratamento para uma fase do câncer na qual não havia mais alternativas.
Aumenta a sobrevida livre de progressão de pacientes com câncer de
tireoide refratário a iodo radioativo localmente avançado ou
metastático”, revela Marcia Brose, cirurgiã do Hospital da Universidade
da Pensilvânia.
A sobrevida livre de progressão foi o end
point (objetivo final) primário do estudo, conforme definido pelos
Critérios de Avaliação de Resposta em Tumores Sólidos (Recist, na sigla
em inglês). Os end points secundários incluíram sobrevida global, tempo
até a doença voltar a progredir, índice, longevidade de resposta,
segurança e a tolerabilidade. Os efeitos colaterais mais notados foram
alopecia, fadiga e hipertensão.
No caso do câncer de próstata
em homens, quando metastásico, atinge ossos próximos, como a coluna. Os
homens com essa doença também vislumbram por uma nova alternativa de
enfrentamento da doença. Uma das esperanças para tratar localmente a
metástase, sem atingir as células sadias, é o radium 223, um
radiofármaco. Segundo Manuela Zereu, oncologista da Santa Casa de Porto
Alegre, o medicamento é injetável, de fácil aplicação e demonstrou ser
seguro. “Tem menor toxidade e pode ser conciliado com a quimioterapia. O
que é bom, pois outros tratamentos diminuíam as defesas do organismo e
não permitiam essa interação. Os primeiros resultados demonstram uma
sobrevida de 14 meses para os pacientes. Mas o mais importante é que
vivem com qualidade, pois melhoram aspectos como dor e mobilidade, que
muitas vezes é prejudicada pelo fato de o câncer atingir os ossos”,
afirma.
DISFARCE Ainda segundo Manuela, esse é um medicamento
inteligente. “O câncer no osso, precisa de cálcio para crescer. É como
se o medicamento se fizesse passar pelo cálcio. A célula o ‘vê’ como
cálcio, mas não é. O medicamento entra no mecanismo da doença e, como é
radioativo, destrói as células tumorais por dentro. Mas é uma radiação
muito baixa, que age somente no local”, detalha.
Para Chris
Parker, principal investigador do estudo com o radium 223, batizado de
Alsympca, o mais interessante do medicamento é esse novo mecanismo de
ação. “É algo completamente novo. É o primeiro medicamento na oncologia
que entra no organismo em busca de seu alvo certeiro. É
consideravelmente mais efetivo e muito mais bem tolerado pelo organismo.
As radiações são pequenas porque são radiações alpha, que são
bloqueadas por uma folha de papel. Mas em nível celular é eficaz”,
garante. O tratamento, já autorizado nos Estados Unidos, está em fase de
aprovação no Brasil.
O oncologista Volney Soares Lima, do Oncocentro
de Belo Horizonte, e que esteve no evento em Chicago, destaca que os
pacientes que receberam o radium 223 tiveram queda nos níveis do PSA –
ingrediente do sêmen produzido pela próstata. Em caso de câncer no
órgão, seus níveis sobem no sangue – e o medicamento também diminui
efeitos danosos do câncer nos ossos, o que leva a uma redução da dor.
“Imagine um câncer crescendo dentro de um osso, que é uma estrutura
rígida”, diz a oncologista Manuela Zereu.
Entre as
alternativas para tratamento de câncer em estágio avançado, os médicos
também puderam tomar conhecimento sobre os efeitos do regorafenibe para
as metástases no sistema colorretal. “É o terceiro câncer no mundo,
tanto em homens como mulheres. E temos uma boa quantidade de abordagens,
principalmente na primeira linha, que são os recursos iniciais no
tratamento da doença. Mas são finitos. E essa droga vem para aquele
paciente que já tinha chegado ao fim da linha com o que temos atualmente
na medicina. Tivemos paciente com sobrevida de até um ano com o novo
tratamento. O mecanismo de ação, assim como no câncer de próstata, é o
da terapia-alvo. Nesse caso, a radiação busca quebrar importantes
enzimas na multiplicação celular. Age também como uma medicação
angiogênica”, expõe Jorge Sabbaga, oncologista do Instituto do Câncer do
Estado de São Paulo (Icesp) e do Hospital Sírio Libanês.
A
notícia é relevante porque cerca de 60% dos pacientes com câncer
colorretal chegam à metástase. Mas cerca de 20% desses já estão em
estado avançado quando a doença é diagnosticada. Nesse cenário, os
tratamentos de primeira linha, como a cirurgia para retirada do tumor
localmente, já não podem ser feitas. O regorafenibe chega para ser a
terceira ou quarta linha de tratamento. Já foi aprovado nos Estados
Unidos e está em análise pela Anvisa.