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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Brasil aprova nova droga biológica contra o lúpus - Diego Maia e Ricardo Manini

folha de são paulo
Medicamento é o primeiro em 50 anos específico contra a doença autoimune
No Brasil, cerca de 200 mil pessoas têm a doença; novo tratamento custa mais de R$ 50 mil ao ano
DHIEGO MAIARICARDO MANINICOLABORAÇÃO PARA A FOLHAO primeiro medicamento desenvolvido em mais de 50 anos para tratar especificamente pessoas com lúpus chegou ao mercado brasileiro neste mês. A droga, batizada de Benlysta, é uma proteína que combate o processo responsável por levar o corpo do paciente a atacar as próprias células de defesa.
O tratamento é caro. Cada infusão da droga, administrada por injeção intravenosa, custa R$ 3.800 para alguém com até 60 kg. Só no primeiro ano do tratamento, é preciso desembolsar R$ 57 mil pelas 15 doses previstas, mas o custo pode ser maior, de acordo com o peso do paciente, segundo a fabricante GSK.
O tratamento existente hoje, à base do anti-inflamatório cortisona, não custa mais do que R$ 2.000 ao ano. A droga também é distribuída pela rede pública de saúde.
Estima-se que o Brasil tenha 200 mil pessoas com lúpus. Por ano, mais de mil casos são diagnosticados. Segundo o Ministério da Saúde, em 2012, a doença levou à internação 4.475 pessoas. As mulheres são as mais afetadas. Em cada grupo de dez doentes, nove são mulheres em idade reprodutiva.
NOVO TRATAMENTO
O lúpus é uma doença autoimune. Morton Scheinberg, reumatologista que coordenou parte dos testes clínicos da nova droga no Hospital Abreu Sodré, explica que os linfócitos B, células de defesa, produzem anticorpos que atacam o organismo das pessoas que têm a doença.
O lúpus mais "leve" causa artrite, fadiga, perda de cabelo e problemas na pele. Em fase moderada, a doença leva a uma queda no número de plaquetas e glóbulos brancos no sangue. Casos graves acometem os rins e o sistema nervoso central, causando desde dores de cabeça até convulsões e paralisia.
O novo remédio, que também é um tipo de anticorpo, dificulta o amadurecimento dos linfócitos B para reduzir seu ataque aos tecidos saudáveis do organismo.
Segundo Roger Levy, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e pesquisador que avaliou o Benlysta no Brasil, os efeitos adversos da cortisona aparecem com o tempo. "Anos de uso podem causar diabetes, hipertensão, aumento de peso, queda de cabelo e necrose nos ossos", afirma.
A nova droga, porém, não é isenta de efeitos colaterais, incluindo infecções graves, náuseas, diarreias e febre.
De acordo com o reumatologista Luiz Coelho Andrade, da Unifesp, o Benlysta não vai substituir o tratamento existente. "O uso deverá ser complementar ao tratamento convencional."
O médico nota avanços no tratamento da doença. "Há 40 anos, mais da metade das pessoas com lúpus morria. Hoje, quando o paciente descobre que tem a doença, dizemos que ele vai levar uma vida normal, apesar de eventuais complicações."
A FDA (agência reguladora de fármacos nos EUA) autorizou a venda do Benlysta após oito anos de pesquisa. Os estudos foram feitos em 31 países, incluindo o Brasil. A GSK diz que pretende comercializar o medicamento também na versão para injeção subcutânea em três anos.
DEPOIMENTO
"Não tinha força nem para abrir a pasta de dente"
DA EDITORA DE "CIÊNCIA+SAÚDE"
A consultora de moda Astrid Sekkel, 48, tem lúpus há seis anos e participou dos testes da nova droga aprovada para o tratamento da doença.
(DM)
-
"Comecei a perceber manchas arroxeadas na perna, dores nas articulações da mão e um cansaço muito grande. Fui ao dermatologista e ele disse que era uma picada de bicho. Tratei um ano como alergia e não melhorava.
A primeira reumatologista que procurei me disse que a doença era uma morte silenciosa'. Saí do consultório apavorada, chorando. Então decidi procurar uma segunda opinião. O médico me ofereceu para entrar no estudo clínico.
Muita gente próxima foi contra, porque você corre os riscos de ser a cobaia. Mas pensei que se o remédio não servisse para mim, poderia servir para outras pessoas.
Cada pessoa do teste reagiu de um jeito. Algumas ficaram enjoadas. Eu tinha sonolência no dia em que aplicava o remédio, mas acordava ótima.
As dores articulares pararam. Antes, não conseguia abrir a pasta de dente de manhã. Você fica absolutamente dependente. Hoje estou levando uma vida normal, faço pilates.
Acordo sem dizer ai'."

domingo, 14 de abril de 2013

Patrulha mirim - Em SP, 45% das crianças estão acima do peso

folha de são paulo

Estudo mostra que orientações sobre estilo de vida saudável transmitidas às crianças provocam mudança nos hábitos dos pais
CLÁUDIA COLLUCCIDE SÃO PAULO"Ele virou o fiscal da casa, presta atenção no que comemos e se estamos praticando atividade física. Mas ainda resiste em comer frutas e verduras", diz o analista de sistemas Fábio Guedes, 46.
O "fiscal" é o filho Vinícius, 11, uma das 197 crianças que participaram de um projeto educacional inédito que avaliou o poder de persuasão dos alunos na mudança de hábitos dos pais e na adoção de um estilo de vida saudável.
A conclusão é que, sim, a estratégia dá certo. Os pais reduziram os riscos cardiovasculares, calculados sobre fatores como obesidade, tabagismo, colesterol, pressão alta e diabetes.
Fábio e sua mulher, Mônica, por exemplo, cortaram as massas e passaram a fazer hidroginástica duas vezes por semana. Tiveram, com isso, redução das medidas.
O estudo foi feito em uma escola privada de Jundiaí (SP) e publicado na revista científica "European Journal of Preventive Cardiology". Na terça-feira (16), o trabalho será apresentado em um fórum de cardiologia em Roma.
"Fomos premiados na Europa e nos EUA. Até a China quis conhecer a nossa experiência. Mas aqui a repercussão foi zero", queixa-se o cardiologista Bruno Caramelli, pesquisador do InCor (Instituto do Coração) e coordenador do trabalho.
ORIENTAÇÕES
O projeto envolveu alunos com idades entre 6 e 10 anos e seus pais. Eles foram divididos em dois grupos, com duas abordagens distintas.
Pais de estudantes do período da manhã (grupo-controle) receberam folhetos educativos com orientações sobre alimentação saudável e a importância de realizar atividades físicas. Seus filhos não receberam informações.
Os pais dos alunos da tarde também receberam os folhetos, mas os filhos assistiram a palestras sobre prevenção cardiovascular. Nutricionistas ensinaram como seguir uma alimentação saudável e fisioterapeutas explicavam a importância dos exercícios.
"Em momento algum foi dito às crianças para cobrarem dos pais essas atitudes saudáveis", explica a cardiologista Luciana Fornari, autora principal do estudo.
Os dois grupos passaram por exames e medidas de peso, altura e pressão arterial.
Ao final de um ano, 91% dos pais do grupo da intervenção deixaram o estágio de alto risco com relação às doenças cardiovasculares. Já a diminuição entre os pais do grupo-controle foi de 13%.
"Quando os conceitos são passados de forma divertida, as crianças os incorporam e cobram mudanças da família", afirma Luciana.
A iniciativa agora está sendo replicada em duas escolas públicas de Campo Limpo Paulista (SP). Participam dele cerca de 500 crianças e mil pais. A proposta é ver, a longo prazo, se o efeito das mudanças será duradouro.
No projeto em Jundiaí, algumas delas não foram. "Na época do programa, caminhávamos todos os dias, éramos estimulados. Agora falta tempo", diz Sueli Razzé, 47, mãe da aluna Natalie, 13.
Sem atividade física, o marido engordou três quilos e a filha, um. "Sem incentivo permanente, é difícil manter."
Já alguns dos bons hábitos alimentares permanecem. "Cortei as frituras e quase não faço mais doces", conta.

    Em SP, 45% das crianças estão acima do peso
    DÉBORA MISMETTIEDITORA DE "CIÊNCIA+SAÚDE"Quase a metade das crianças e dos adolescentes paulistanos está acima do peso, de acordo com uma pesquisa que tirou medidas de 476 jovens em mutirões em parques, estações de metrô e escolas estaduais.
    Dados nacionais da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), divulgados em 2010 pelo IBGE, mostram que, no país, um terço das crianças de 5 a 9 anos está acima do peso. No Sudeste, a proporção é maior, de 40%.
    O estudo faz parte do programa de reeducação alimentar "Meu Pratinho Saudável" que, em São Paulo, tem o apoio do governo estadual.
    Ana Paula Alves, coordenadora da divisão de nutrição do Instituto da Criança do HC, afirma que o objetivo do programa é orientar crianças sobre como montar uma refeição saudável.
    O ideal, segundo o projeto, é preencher metade do prato com verduras e legumes, um quarto com carboidratos e dividir o restante entre proteína e leguminosas, como feijão e lentilha.
    Em um projeto-piloto desenvolvido em uma escola estadual de São Paulo, a nutricionista conta que os estudantes usaram peças de resina imitando os alimentos para mostrar como montariam seus pratos.
    "Era sempre metade ou mais de arroz e feijão. Verdura nem aparecia. Elas diziam: Meu pai não compra, meu pai não gosta'. Como você vai falar da importância disso se você não consome?"
    O objetivo, diz Alves, é levar a informação às escolas, passando os conceitos também para o corpo docente.
    A experiência das escolas nos EUA, onde os índices de obesidade são ainda mais altos que os brasileiros, mostra que, se houver uma política consistente, é possível obter resultados positivos.
    Pesquisas recentes mostraram que grandes cidades americanas conseguiram reduzir, ainda que discretamente, os índices de obesidade infantil. Em Nova York, entre 2007 e 2011, o número de crianças obesas caiu 5,5%.
    Especialistas ligaram a tendência aos esforços de escolas como as da Filadélfia --onde a obesidade caiu 5% no período--, que proibiram a venda de bebidas açucaradas e cortaram as frituras.

      sexta-feira, 29 de março de 2013

      Ativista rebate campanha de neozelandês contra gatos

      folha de são paulo

      DÉBORA MISMETTI
      EDITORA DE "CIÊNCIA+SAÚDE"

      A SPCA (Sociedade para a Prevenção da Crueldade contra Animais) em Auckland, na Nova Zelândia, tem travado uma batalha contra a campanha Cats to Go, que responsabiliza gatos domésticos por reduzir o número de aves nativas no país.
      Divulgação
      Bob Kerridge, diretor da sociedade protetora dos animais em Auckland, Nova Zelândia
      Bob Kerridge, diretor da sociedade protetora dos animais em Auckland, Nova Zelândia
      O líder dessa campanha, o empresário neozelandês Gareth Morgan, afirmou, em entrevista à Folha, que os gatos são uma ameaça importante aos pássaros locais porque, enquanto há controle de pestes direcionado a roedores, nada se faz contra os bichanos. Morgan disse ainda que, se um neozelandês tem um gato, que seja o último.
      "Como ele se atreve a sugerir isso?", pergunta Bob Kerridge, 75, diretor-executivo da SPCA. Kerridge, que trabalha há mais de 30 anos na proteção de animais, criticou a campanha de Morgan em entrevista por telefone.
      *
      Folha - O que o empresário Gareth Morgan tem dito de errado sobre a matança de aves por gatos?
      Bob Kerridge - Nossas pesquisas mostram que só 50% dos gatos domésticos caçam e, entre esses, as presas preferidas são roedores; os pássaros nativos são menos de 1% das presas.
      Ele também critica as ações da sua organização, dizendo que vocês alimentam colônias de gatos de rua que são uma ameaça à vida selvagem.
      Temos três escolhas para lidar com gatos abandonados. Podemos ignorá-los, o que não é condizente com nossa organização; matá-los, o que não faz parte da nossa atuação, ou castrá-los. É isso o que escolhemos fazer. Isso comprovadamente controla o número de gatos. Os voluntários os coletam, trazem para serem castrados e, depois, os retornam para as colônias de origem.
      Segundo a campanha Cats to Go, os gatos devem ficar presos em casa o tempo todo para evitar a predação. Você defende essa conduta?
      Aqui, é comum que as pessoas tenham "portinhas de gato": eles entram e saem quando querem. Muito da caça acontece à noite, quando os gatos pegam roedores, e não pássaros. Se as pessoas quiserem prender seus gatos e eles estiverem felizes, tudo bem, mas não insistimos. Reconhecemos que os gatos são predadores. Outros animais também, o problema é que as pessoas implicam com os gatos. A sugestão feita por Gareth Morgan de que se você tem um gato ele deve ser o último é uma invasão na vida das pessoas. Como ele se atreve a sugerir isso?
      A proporção de donos de gatos no país é grande, não?
      Cerca de 48% dos domicílios têm gatos. Para a maioria, os gatos são parte da família. Nossa organização funciona há 130 anos e é mantida por doações. Morgan disse publicamente que as pessoas não deveriam mais doar. Mas, agora, as pessoas estão dando até mais dinheiro!
      Vocês têm muitos problemas com abandono de gatos?
      Gatos são os animais mais "descartáveis", isto é, é fácil abandoná-los. Alguns os deixam para trás quando se mudam ou os abandonam na estrada. Não é muito frequente aqui, mas acontece.
      Sua organização tem algum programa de proteção às aves?
      Vamos fazer um estudo estatístico sério sobre o tema. Não vamos nos tornar draconianos e recomendar que os gatos fiquem trancados noite e dia, mas vamos ver o tamanho do problema que eles causam e o que dá para fazer.

      quarta-feira, 20 de março de 2013

      "Teste genético anormal não significa o fim da gravidez", diz pesquisador americano

      folha de são paulo


      DÉBORA MISMETTI
      EDITORA INTERINA DE "CIÊNCIA+SAÚDE"

      Os testes genéticos para rastrear anormalidades antes e durante a gestação e em casos de aborto estão ganhando novas tecnologias para reduzir o nível de incerteza dos diagnósticos.
      Neste ano, chegou ao Brasil o exame de sangue que encontra problemas cromossômicos, como síndrome de Down, Turner e Patau, por exemplo, a partir do terceiro mês de gestação.
      Em dezembro, duas pesquisas publicadas no "New England Journal of Medicine" mostraram a vantagem do uso de "chips" de DNA em relação aos exames tradicionais de cariótipo para analisar material genético colhido na gestação pela retirada de líquido amniótico e para diagnosticar anormalidades em caso de aborto espontâneo.
      O "chip" tem pequenos segmentos de DNA que detectam ganhos ou perdas nos cromossomos. O cariótipo, método mais usado hoje, analisa visualmente a estrutura dos cromossomos.
      "Quando um casal perde um filho, há muita culpa. O melhor resultado é ter um resultado. Você consegue explicar o que aconteceu e quais são as chances de acontecer de novo", afirma o pesquisador sul-africano Brynn Levy, 46, professor de patologia na Universidade Columbia, nos EUA, e um dos autores das pesquisas sobre os chips com "microarranjos" de DNA.
      Ele veio a São Paulo na última semana para participar de uma conferência no Hospital A.C. Camargo. Para Levy, os pais precisam ser bem informados sobre o significado dos exames genéticos e suas limitações para tomar decisões sobre a gestação.
      Karime Xavier/Folhapress
      O médico Brynn Levy, no Hospital A.C. Camargo, em São Paulo
      O médico Brynn Levy, no Hospital A.C. Camargo, em São Paulo
      *
      Folha- Dois meses atrás, um teste que procura DNA fetal circulando no sangue materno para rastrear síndromes congênitas chegou ao Brasil. Como esse tipo de teste vai mudar o pré-natal?
      Brynn Levy - Esse é um dos tópicos mais quentes no mundo hoje. Quando você olha as metodologias não invasivas oferecidas antes disso, como testes bioquímicos ou translucência nucal [ultrassom], a capacidade de rastreamento era limitada. Os dados vindos dos testes genéticos mostram resultados muito superiores. A sensibilidade é maior e o número de falsos-positivos e falsos-negativos é menor.
      Mas é preciso ter cuidado e entender as limitações do teste. Se as pessoas pensam que isso vai dispensar completamente a retirada de líquido amniótico e a biópsia de vilo corial, estão enganadas.
      Quais são as limitações?
      Esses testes estão se concentrando nos principais cromossomos: 13, 18, 21 e os sexuais. Mesmo com 100% de eficácia, eles não olham duplicações e inversões de cromossomos. Eles ainda vão chegar lá. Mas, por enquanto, há uma diferença de amplitude de diagnóstico e é preciso confirmar resultados positivos no exame de sangue por um método invasivo.
      Como os métodos mais precisos para achar anormalidades mudam as decisões dos pais?
      Quando você acha um problema genético com relevância clínica, muitos casais, ao menos nos EUA, escolhem não continuar a gravidez.
      Mas, no nosso estudo com pré-natal, em muitos casos em que achávamos anormalidades para as quais não sabíamos o significado clínico, os casais decidiam continuar.
      Receber um resultado anormal não é garantia de que a gravidez vai ser terminada. Quem enfrentou anos de infertilidade vai ver aquele resultado de forma diferente de um casal com cinco filhos que engravidou sem querer.
      Um dos seus estudos é sobre como melhorar os exames genéticos em casos de aborto. Por que é necessário melhorar esse diagnóstico?
      O melhor resultado nesse campo é ter um resultado. Quando um casal perde um bebê, é um evento emocionalmente devastador. Há muita culpa. A mãe pensa que foi por alguma coisa que ela fez, o pai pensa que foi algo que ele fez --se foi por que tomou muitas cervejas--, e muitas dessas razões não são racionais nem têm base científica, mas são razões emocionais.
      Só de conseguir dar um resultado, já que com a nova tecnologia temos mais chance de dar uma resposta [87%, contra 70% do exame de cariótico comum], já é bom.
      Em muitos casos é uma resposta simples, como uma trissomia do cromossomo 18. Com isso, você explica o que ocorreu e quais são as chances de ocorrer de novo. Eles conseguem entender e superar isso emocionalmente.
      O crescimento do mercado para os testes não se deve também à idade mais avançada das mulheres ao engravidar?
      Sim, no mundo todo a idade reprodutiva está crescendo e isso está associado a um risco maior de síndromes congênitas. As mulheres leem sobre os novos testes e querem usar, os médicos sentem essa pressão. Muitas vezes isso é bom, outras vezes não, em especial quando não há evidências suficiente de eficácia.
      Editoria de arte/Folhapress

      domingo, 17 de fevereiro de 2013

      Entrevista Gareth Morgan

      folha de são paulo

      Donos de gatos não têm ideia do dano que eles causam
      Empresário neozelandês faz campanha contra gatos, que ameaçam vida selvagem local
      DÉBORA MISMETTIEDITORA INTERINA DE “CIÊNCIA+SAÚDE”
      Ninguém gosta de pensar em seu próprio bicho de estimação como um assassino serial desalmado, que mata por prazer e até põe em risco a sobrevivência de outras espécies. Por isso a campanha do empresário neozelandês Gareth Morgan, 60, tem despertado a revolta de amantes de gatos ao redor do globo.
      No site da campanha Cats to Go, há afirmações absurdas para quem tem gatos, como: "Se seu gato morrer, não tenha outro; faça deste o seu último". Outras chegam a assustar os que costumam receber cadáveres de pássaro, lagartixa ou rato de "presente": os bichanos só entregam aos donos 20% do que caçam, segundo uma pesquisa que pôs câmeras nos gatinhos.
      Morgan diz que ele mesmo já teve gatos e que não é contra os animais em si, mas pede uma posse mais responsável especialmente em seu país, onde quase a metade das espécies de pássaros nativas já foi extinta e uma parcela importante está ameaçada.
      Os predadores que hoje caçam os pássaros neozelandeses, como gatos, ratos e coelhos são espécies invasoras no país. Pássaros locais como os quivis, que não voam, não têm chance, disse Morgan à Folha por telefone.
      Folha - Por que centrar fogo em gatos e não cachorros ou ratos, que também são predadores dos pássaros da Nova Zelândia?
      Gareth Morgan - Já há programas para controle de ratos e cachorros. Os cães precisam ficar presos e, se saem na rua, devem estar com coleira. Mas não há controle de gatos. Não tenho nada contra gatos presos. Um gato confinado é um 'pet', os demais são pestes.
      Quando os gatos se tornaram um problema?
      Eles vieram no século 19 com os colonizadores, assim como coelhos e furões.
      Hoje, a Nova Zelândia é o país com mais gatos por pessoa. Ao menos 48% das residências têm um ou mais. Eles estão levando espécies nativas de pássaros à extinção.
      Ainda que as agências de conservação ambiental sempre tenham sido contra os gatos soltos, ninguém nunca fez nada a respeito.
      É uma questão delicada. As pessoas adoram seus gatos e já pensam que algo assim quer dizer que elas devam se livrar dos seus bichos. Não é isso. Há muitas ideias erradas circulando sobre os gatos. As pessoas dizem: "Deixo meu gato preso à noite, então tudo bem". Não é assim. Gatos caçam pássaros durante o dia. À noite, eles caçam roedores.
      A consciência dos donos de gatos quanto aos danos que seus animais causam é muito limitada. Eles levam para casa só 20% das presas. Esse animais não matam por fome e sim por prazer.
      Você já teve gatos?
      Sim, quando meus filhos eram pequenos. Alguém me disse outro dia que os gatos são animais incríveis, até que atravessam a sala e arrancam a cabeça do seu periquito! Eles não ligam tanto para a gente.
      Às vezes é difícil prender um gato, especialmente em casas com quintal. Como fazer?
      Dá para usar tela de galinheiro, por exemplo. Prender não é impossível, mas é um novo desafio para os donos.
      Você critica a sociedade protetora dos animais na Nova Zelândia. Por quê?
      A prioridade deles era o bem-estar dos animais mas agora são os direitos deles, em particular dos gatos. Eles estão cuidando de colônias de gatos de rua. Eles dizem que os castram. Mas seria necessário castrar mais de 80% dos gatos de rua para evitar o crescimento da população. Eles estão castrando menos de 10% e deixando-os mais saudáveis. São assassinos mais saudáveis. Vou fazer campanha para que as pessoas parem de doar dinheiro a eles até que parem com isso.
      O que eles deveriam fazer? Matá-los?
      Sim. As pessoas deveriam ser encorajadas a capturar os gatos e entregá-los à administração local. Se não tiver dono, ele deve ser destruído. E donos que não conseguem mantê-los presos não devem ter gatos. O que peço é que esse gato seja o último.
      Isso é muito chocante para quem tem gatos.
      Não é metade do quanto é chocante ver quantos animais os gatos estão matando. Estamos investindo muito dinheiro para conservar a vida selvagem aqui.
      Muitas pessoas estão revoltadas suas ideias.
      Eu sei, eu adoro bichos. A questão é ser um dono responsável. O problema é que as pessoas não pensam nisso. Ao menos essa polêmica tem feito as pessoas pensarem mais.


      RAIO-X GARETH MORGAN
      IDADE
      60 anos, nascido em Putaruru, Nova Zelândia
      ATUAÇÃO
      Economista e empresário, tem forte atuação filantrópica e é embaixador da Unicef; apoia causas sociais e ambientais na Nova Zelândia e ao redor do mundo, inclusive na Antártida

      quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

      Pesquisa questiona função protetora de gordura 'boa'

      folha de são paulo

      Troca de gordura saturada animal pela poli-insaturada com ômega 6 reduziu colesterol mas não mortalidade
      Proporção ideal entre os diferentes tipos de gordura na dieta permanece em aberto, diz nutrólogo
      DÉBORA MISMETTIEDITORA INTERINA DE “CIÊNCIA+SAÚDE”
      A troca da gordura saturada de origem animal pelos óleos vegetais começou a ser recomendada pelos médicos para melhorar a dieta e proteger o coração desde a década de 1960. A banha de porco usada na cozinha saiu de cena e entraram os óleos de milho e girassol, entre outros.
      Mas um novo estudo, que recuperou dados de um trabalho realizado entre 1966 e 1973 na Austrália, questiona essa recomendação e mostra que há muito mais no meio do caminho entre a gordura saturada animal "má" e a gordura vegetal "boa".
      Os dados recuperados pertencem a uma pesquisa que avaliou mudanças na dieta em quase 458 homens de 30 a 59 anos que havia sofrido problemas cardíacos.
      Eles foram divididos em dois grupos: um deles foi instruído a reduzir o consumo de gordura saturada para menos de 10% das calorias ingeridas por dia e aumentar o de poli-insaturada, usando óleo vegetal e margarina, de 6% para 15% das calorias diárias; o outro não recebeu orientações sobre dieta.
      Os resultados revistos agora e publicados no "British Medical Journal" demonstram que os homens que aderiram ao óleo vegetal tiveram uma mortalidade mais alta do que os demais, o que contraria a expectativa inicial.
      Segundo os autores, liderados por Christopher Ramsen, dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, o achado pede uma revisão de recomendações de dieta.
      A Associação Americana do Coração, em suas diretrizes sobre consumo de gordura, recomendam o uso dos óleos vegetais com ômega 6 para reduzir o uso de gordura saturada animal.
      No Brasil, as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia também incluem a recomendação da troca da gordura saturada pelo ômega 6 para reduzir o colesterol, apesar de fazerem ressalvas quanto à proporção ideal entre esse tipo de gordura e as demais, principalmente o ômega 3, encontrado em peixes e que já tem bem estabelecida sua ação protetora.
      "Só somos vivos porque comemos tudo em equilíbrio. Não adianta comer só proteína nem só ômega 3", afirma o nutrólogo e cardiologista Daniel Magnoni, um dos autores da diretriz brasileira, publicada neste mês.
      Segundo o nutrólogo Celso Cukier faltam mais estudos que esclareçam qual é o equilíbrio ideal para obter uma dieta mais protetora.
      A quantidade de gordura saturada precisa ser limitada porque, além de trazer energia para o corpo, aumenta o colesterol. A troca pelo óleo vegetal tinha como objetivo reduzir o colesterol e evitar os infartos e derrames.
      Segundo os autores da nova pesquisa, a maior tendência do ômega 6 à oxidação e sua possível ação inflamatória podem ter contribuído para o mau resultado da dieta.
      Cukier chama a atenção para a redução do colesterol mas não da mortalidade.
      "Esse estudo mostra que não basta substituir a gordura saturada, ela não é a única vilã. É preciso saber pelo que estamos trocando."

      segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

      'Vi o Brasil crescer fazendo reportagens sobre saúde'

      FOLHA DE SÃO PAULO

      'Vi o Brasil crescer fazendo reportagens sobre saúde'
      Colunista da Folha Julio Abramczyk, 80, lança livro com seleção de artigos publicados desde 1959 sobre avanços da medicina
      DÉBORA MISMETTIEDITORA INTERINA DE “CIÊNCIA+SAÚDE”Os riscos do excesso de radiação já geravam controvérsia em 1976 a respeito dos benefícios do rastreamento do câncer com os exames de mamografia.
      Pouco depois, em 1981, era noticiada como fato inédito a ausência de fumantes dentro das salas de um congresso de Sociedade Brasileira de Cardiologia, em Curitiba.
      É passeando por cenas como essas, que mostram a evolução da medicina no Brasil e no mundo por mais de cinco décadas, que se encontra o leitor de "Médico e Repórter - Meio Século de Jornalismo Científico", lançando agora pelo colunista da Folha Julio Abramczyk, 80.
      Desde 1959 assinando textos sobre saúde no jornal, doutor Julio, como é conhecido na Redação, era ainda estudante de medicina quando começou a escrever na Folha. A partir daí, rodou o país todo cobrindo desde congressos médicos até experiências científicas na Amazônia e o atendimento aos índios nos primeiros anos após a criação do Parque Nacional do Xingu, fundado em 1961.
      O livro, organizado pelo jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, traz uma amostra dessa trajetória, incluindo a reportagem sobre as primeiras pontes de safena para tratamento do infarto agudo, publicada em 1970 e ganhadora do Prêmio Esso.
      Folha - Como era fazer jornalismo científico no início da década de 1960?
      Uma grande diferença é que não se usava o telefone. Você ia pessoalmente, fazia "ponto" na universidade, entrevistava os catedráticos.
      Foi fazendo "ponto" na Faculdade de Saúde Pública, por exemplo, que fiquei sabendo que tinha um americano doido na Amazônia, estudando vírus. Você imagina um hospital em Belém do Pará na década de 60. Era uma coisa tão modesta que você não imaginaria como rendeu o trabalho desse americano, Ottis Causey, que acabou contribuindo para o capítulo das arboviroses, vírus disseminados por artrópodes.
      A floresta era escura, úmida. E ficava uma pessoa sentada quatro horas esperando ser picada pelo mosquito, para pegar o inseto vivo, colocar dentro de um frasquinho e identificar os novos vírus.
      Os congressos também eram uma grande fonte?
      Uma vez por mês eu cobria um congresso médico. Conheci o Brasil todo por causa disso, vi o país crescer e só me arrependo de não ter comprado um "terreninho" em cada cidade. Em 1962, em um congresso de dermatologia em Fortaleza, tive que enviar a matéria por rádio amador, que era transferido para o telefone para o datilógrafo da Redação escrever.
      Em um desses congressos foram divulgadas as primeiras pontes de safena para infarto agudo, o que rendeu sua reportagem laureada com o Prêmio Esso.
      Sim, na época foi uma coisa incrível, foi para a primeira página do jornal. Já se fazia ponte de safena antes, mas o Zerbini e sua equipe conseguiram operar na vigência do infarto. Antes você tinha que esperar 15 ou 20 dias [após o infarto] só para fazer um cateterismo, não operava quem tinha mais de 60 anos. Hoje uma pessoa de 60 anos é jovem!
      Como o sr. desenvolveu o didatismo para escrever sobre saúde no jornal?
      Meu problema no começo era a crítica dos coleguinhas [médicos]. Até o dia que li um artigo do José Reis [pioneiro da divulgação científica no país] dizendo que a divulgação no jornal não é trabalho científico. O leitor não quer saber de detalhes, da reação química necessária para um resultado, e sim da conclusão. Por causa disso cada vez mais eu escrevo menos. E quanto menos a gente escreve, melhor a gente concentra.
      MÉDICO E REPÓRTER - MEIO SÉCULO DE JORNALISMO CIENTÍFICO
      AUTOR Julio Abramczyk
      ORGANIZADOR Carlos Eduardo Lins da Silva
      EDITORA Publifolha
      PREÇO R$ 59,90 (288 págs.)
      LANÇAMENTO Amanhã, às 19h, na Livraria da Vila do shopping Higienópolis (av. Higienópolis, 618, piso Pacaembu)

        quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

        Teste de sangue que detecta Down no feto chega ao país

        FOLHA DE SÃO PAULO

        Além da síndrome, exame acha outras cinco anomalias cromossômicas
        Clínica vai cobrar R$ 3.500 pelo exame, que já causou controvérsia no exterior por suposto 'estímulo' ao aborto
        DÉBORA MISMETTIEDITORA INTERINA DE “CIÊNCIA+SAÚDE”Laboratórios brasileiros começam a oferecer um exame de sangue para gestantes que detecta problemas cromossômicos no feto a partir da nona semana de gravidez.
        O teste é colhido no consultório como um exame de sangue comum e vai para os EUA, onde é feita a análise do material genético do feto que fica circulando no sangue da mãe durante a gestação.
        A versão mais completa é eficaz para detectar as síndromes de Down, Edwards, Patau, Turner, Klinefelter e triplo X e custa R$ 3.500 no IPGO (Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia), em São Paulo.
        Nos próximos meses, o laboratório do hospital Albert Einstein e o Fleury também vão comercializar exames similares, que já estão disponíveis no mercado americano há pouco mais de um ano.
        Hoje, o diagnóstico dessas síndromes congênitas é feito por meio do ultrassom e do exame do líquido amniótico ou da biópsia do vilo corial, em que é retirada uma amostra da placenta. Esses testes são invasivos e trazem um risco de até 1% de abortamento.
        Além de não aumentar o risco de complicações na gravidez, o novo teste pode ser feito antes dos tradicionais, indicados, em geral, a partir do início do quarto mês de gestação. O resultado fica pronto em cerca de 15 dias. Segundo o ginecologista Arnaldo Cambiaghi, diretor do IPGO, nenhuma amostra de sangue foi enviada para análise ainda.
        O obstetra Eduardo Cordioli, coordenador-médico da maternidade do hospital Albert Einstein, lembra que, se o resultado do teste de sangue for positivo, o diagnóstico deve ser confirmado por meio da biópsia do vilo corial.
        "O novo teste vai reduzir o número de biópsias feitas de forma desnecessária. Mas é preciso confirmar os resultados positivos."
        ABORTOS
        O problema é o que fazer diante de um resultado positivo. O aumento no número de abortos foi uma preocupação de grupos da sociedade civil na Europa e nos EUA após a aprovação desse tipo de teste nesses mercados.
        No Brasil, o aborto é proibido a não ser em caso de anencefalia, violência sexual ou risco de vida para a gestante, mas estima-se que mais de 1 milhão de mulheres o pratiquem por ano.
        "Por um lado, o exame vai tranquilizar a grande maioria que não vai ter problemas. Por outro, permite que os pais se preparem caso vão receber uma criança com alguma anomalia cromossômica", afirma Cambiaghi.
        Entre as síndromes detectadas pelo exame, a de Edwards e a de Patau são praticamente incompatíveis com a vida, de acordo com Artur Dzik, diretor científico da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.
        Para ele, a entrada do teste no país não deve aumentar o número de abortos porque o acesso ao exame de preço alto será restrito e porque as mulheres que vão procurá-lo já teriam indicação para realizar os testes tradicionais. "Isso vai fazer parte do pré-natal de alto risco."
        No caso das síndromes de Patau e Edwards, afirma Cordioli, do Einstein, é possível pedir uma autorização judicial para realizar o aborto. "Mas cada caso é analisado separadamente."
        Para síndrome de Down, anormalidade cromossômica mais comum, esse tipo de autorização não pode ser pedida, porque o problema não é incompatível com a vida.
        Volnei Garrafa, professor titular de bioética da UnB (Universidade de Brasília), diz que a oferta de um teste como esse e as questões morais ligadas a ele deveriam passar por uma discussão ampla, em um conselho de bioética e no Congresso.
        "Para interromper a gravidez, os pais teriam de pedir liminares. Como o Legislativo não faz as leis, o Judiciário acaba fazendo, o que é uma distorção da democracia."

          FRASES
          "O exame vai tranquilizar quem não tiver problemas e permitirá que os pais se preparem se tiverem um filho com uma anomalia"
          ARNALDO CAMBIAGHI
          Especialista em reprodução humana
          "Não espero um aumento no número de abortos; a informação sobre as síndromes já está disponível hoje com outros exames"
          ARTUR DZIK
          Ginecologista

            'Criança com Down não é um fardo na sua vida'
            DA EDITORA INTERINA DE “CIÊNCIA+SAÚDE”A advogada Maria Antônia Goulart, 37, é coordenadora-geral do portal Movimento Down, que reúne informações sobre a síndrome. Sua filha Beatriz, de dois anos e meio, nasceu com down.
            -
            "Descobrimos que a Beatriz tinha down quando ela nasceu. Quando a vi, ela estava ali e era minha filha, não um ser imaginário. Não tinha como não amar.
            Nos exames de pré-natal, o ultrassom não deu alterações. Se na época tivesse o exame de sangue, seria melhor. Ficamos muito preocupados. A gente descobriu que tinha uma filha com isso e não sabíamos nada sobre a síndrome.
            Quando descobrimos as doenças com maior incidência em quem tem down, demos graças da Deus por ela não ter nada. Se ela tivesse uma cardiopatia grave, não tínhamos um cardiologista lá, teria sido importante.
            O exame pode dar um tempo a mais para os pais terem acesso a essas informações e vai permitir que as pessoas tomem sua decisão. Para qualquer mulher, cogitar e levar adiante a decisão de um aborto é algo muito duro. Ninguém toma essa decisão facilmente.
            Quem quiser abortar vai abortar. Não cabe a mim julgar as decisões. Não acho que o jeito de resolver esse problema seja restringir o acesso à informação, à ciência.
            O que acho importante como ativista e familiar de uma pessoa com down é esclarecer a sociedade de que ter um filho com a síndrome não é o fim do mundo. Tem cuidados a mais, mas é um filho que vai ter uma vida feliz, produtiva. Pessoas com síndrome de Down trabalham, namoram, têm vida social.
            Julgar que as pessoas com a síndrome vão ter mais dificuldade é impedir que elas possam nos surpreender e elas sempre nos surpreendem. Hoje há mais campanhas nos meios de comunicação, temos o filme 'Colegas', com protagonistas com a síndrome, que decoram falas, compreendem a complexidade dos personagens, cumprem horários.
            Isso dá a percepção de que eles podem ser felizes e acalma o coração de uma mãe que está num dilema como esse. Uma criança com down é mais um filho e não um fardo na sua vida."

              terça-feira, 15 de janeiro de 2013

              Droga para elevar colesterol 'bom' é alvo de recall global

              FOLHA DE SÃO PAULO

              À venda no Brasil desde 2009, remédio também é usado para reduzir colesterol 'ruim' e triglicérides
              Estudo com 25 mil pessoas mostrou que combinação de substâncias não reduz risco cardíaco
              DÉBORA MISMETTIEDITORA INTERINA DE “CIÊNCIA+SAÚDE”O remédio Cordaptive, que associa duas substâncias para aumentar o colesterol "bom" (HDL) e reduzir o "ruim" (LDL) e os triglicérides, vai ser recolhido nos cerca de 40 países onde era vendido, inclusive no Brasil.
              De acordo com a MSD (Merck), fabricante da droga, a decisão foi tomada após a análise de dados preliminares de um estudo internacional sobre o remédio.
              A pesquisa, com mais de 25 mil pessoas, mostrou que o Cordaptive não reduz o risco cardíaco e ainda aumenta a chance de efeitos colaterais não fatais, ainda não detalhados pela empresa.
              No Brasil, segundo o laboratório, 1.500 pessoas usam o medicamento. Recomenda-se que elas procurem seus médicos para receberem novas prescrições.
              O resultado ruim vem depois da interrupção de dois testes clínicos sobre outros medicamentos que também tentavam reduzir o risco cardíaco aumentando o colesterol "bom", o que levanta dúvidas sobre o futuro dessa estratégia para evitar infartos.
              O Cordaptive é composto por niacina (vitamina B3) e uma substância chamada laropipranto. A niacina ou ácido nicotínico reduz a produção de triglicérides (gorduras) e aumenta a fabricação do colesterol "bom", que ajuda a "limpar" as artérias, recolhendo as gorduras que formam placas nos vasos.
              VERMELHO
              O problema é que essa substância é vasodilatadora e causa vermelhidão intensa e sensação de calor no rosto, como explica o cardiologista Raul Santos, diretor da unidade clínica de lípides do Incor (Instituto do Coração da Hospital das Clínicas de SP).
              Para aumentar a tolerância dos pacientes à niacina, foi adicionada ao remédio a substância laropipranto, que combate esse efeito colateral. É essa combinação que vai sair do mercado. A niacina sozinha continua à venda.
              De acordo com Santos, o remédio é recomendado a pessoas que não conseguem tomar as estatinas, drogas mais usadas no controle do colesterol, por sofrerem com alergias ou dores musculares.
              Pacientes que já haviam infartado e tinham colesterol "bom" muito baixo e os que têm triglicérides e colesterol "ruim" muito altos também poderiam usar o medicamento associado às estatinas.
              Em 2011, um artigo publicado no "New England Journal of Medicine" questionava se já não era hora de aposentar a niacina. Em sua forma isolada, ela está no mercado há 50 anos, mas, em estudos recentes, a droga tem mostrado resultados fracos.
              Segundo o cardiologista, editor da diretriz brasileira para o tratamento do colesterol elevado familiar, apesar do resultado "decepcionante" do Cordaptive, a niacina sozinha ainda pode beneficiar alguns pacientes. No entanto, sua indicação fica cada vez mais restrita.
              "Sabemos que o HDL baixo é um sinal de risco. Mas esse é mais um estudo mostrando que usar um remédio para aumentar o HDL não protege o paciente."
              Para Santos, por enquanto, o foco continua na redução do colesterol "ruim".

                quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

                Prontuário inteligente

                FOLHA DE SÃO PAULO

                Hospital brasileiro vai testar sistema que prevê piora de paciente por meio de dados do prontuário digital
                DÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”A troca dos prontuários hospitalares de papel para os arquivos digitais vai mudar mais do que o suporte no qual estão anotadas as informações dos pacientes.
                Ferramentas desenvolvidas para analisar os dados contidos nesses arquivos podem ajudar os médicos a controlar a prescrição de remédios, a equacionar filas de pacientes para procedimentos em hospitais públicos e até a saber qual dos internados pode tem maior risco de piorar nas horas seguintes.
                O Hospital Santa Catarina de Blumenau (SC) vai começar a testar, a partir de fevereiro de 2013, um algoritmo usado em nove hospitais americanos para prever o prognóstico do paciente, saber quais têm mais chance de voltar a ser internados caso recebam alta e quais devem ser priorizados nas rondas dos médicos e enfermeiros.
                INDICADORES
                De acordo com o cardiologista Luiz Haertel, diretor médico de um programa de prontuários eletrônicos usado no hospital, o algoritmo leva em conta resultados de exames como pressão, frequência cardíaca, hemogramas e testes de função renal, além de observações da enfermagem, como a aceitação do paciente à comida e o seu risco de queda.
                "O algoritmo dá um peso a cada uma dessas variáveis. Se uma piorou, a curva vai começar a cair, ainda que o paciente não sinta nada."
                A ferramenta, chamada de Índice Rothman, vai ser avaliada por um ano no hospital de Blumenau. O objetivo é saber se vai haver mudança na conduta dos médicos e se o atendimento vai melhorar.
                "A junção de informações que estão separadas no prontuário pode virar um novo conhecimento e dar pistas de diagnóstico e tratamento."
                DOMÍNIO DO PAPEL
                O alcance da digitalização ainda é baixo no Brasil. Segundo Marco Antonio Gutierrez, presidente da Sbis (Sociedade Brasileira de Informática em Saúde), menos de 10% dos hospitais no país têm algum tipo de prontuário eletrônico, somando cerca de 600 instituições.
                Na atenção básica, como em postos de saúde e ambulatórios, os sistemas se limitam a controlar agendamento de consultas. O paciente só vai ter seus dados registrados em um prontuário se chegar a um dos hospitais que já aderiram ao sistema.
                O Incor (Instituto do Coração do HC de São Paulo) é um deles. O instituto tem um departamento de informática, dirigido por Gutierrez, que desenvolveu o programa usado ali há cerca de dez anos.
                "O sistema nunca termina. Estamos aumentando o número de ferramentas de apoio ao diagnóstico, saindo de uma fase de registro de dados e entrando num sistema mais ativo", diz o engenheiro.
                A fila de cirurgia, por exemplo, é formada de acordo com um indicador de risco gerado pelo prontuário eletrônico, usando dados como idade, sexo e resultados de exames. "É um método objetivo."
                O sistema também gera alertas caso o médico receite remédios que possam ter uma interação perigosa.
                ECONOMIA
                O Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira) também tem um sistema de prontuário, que tem sido útil, entre outras coisas, para acelerar a fila de cirurgias.
                Kaio Jia Bin, diretor de operações e tecnologia de informação do instituto, afirma que hoje, se um paciente desmarcar sua operação por qualquer motivo, é possível aproveitar a mesma equipe de cirurgia para outro doente, evitando que equipamentos e profissionais fiquem ociosos -isso se a desistência for avisada em um prazo de 24 horas.
                "Consigo substituir o paciente em 94% dos casos. Só com essa gestão, economizamos R$ 3 milhões entre 2010 e setembro de 2012 e agilizamos a fila."
                Mas o médico faz ressalvas ao uso de cálculos matemáticos para estabelecer quais doentes devem ter prioridade.
                "Quanto mais automatizado é o atendimento, menos médicos você vai ter. Um algoritmo pode baratear o custo e piorar o atendimento."
                Para Haertel, o uso dessas ferramentas vai ajudar a tornar mais justa a escolha dos que precisam de mais atenção. "Ninguém quer ser um número num hospital, mas todo mundo é. A vocação do prontuário eletrônico é corrigir os erros assistenciais."

                  domingo, 23 de dezembro de 2012

                  Autópsia virtual

                  FOLHA DE SÃO PAULO

                  Projeto da USP examinará corpos sem bisturi, usando tomografia avançada e outros aparelhos para aumentar precisão de testes e beneficiar pacientes vivos
                  Imagens de tomografia do primeiro corpo submetido a autópsia virtual
                  Imagens de tomografia do primeiro corpo submetido a autópsia virtual
                  DÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”Exames de tomografia, raio-X, ultrassom e ressonância magnética em cadáveres vão ajudar a responder a questões sobre cuidados com a saúde dos vivos, de acordo com pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP.
                  O programa de imagem na sala de autópsia envolve 17 departamentos da faculdade e deve receber US$ 10 milhões, somando recursos da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da própria USP, além de uma parceria com um fabricante de aparelhos.
                  O plano é realizar autópsias virtuais em mil corpos examinados no Serviço de Verificação de Óbitos.
                  Paulo Saldiva, professor de patologia na Faculdade de Medicina da USP e especialista em poluição atmosférica, diz que os resultados da autópsia comum, feita com cortes e análise física dos órgãos, e a da virtual, realizada por meio de exames, serão postos lado a lado.
                  "A qualidade da informação fornecida pelos dois métodos será comparada."
                  A primeira finalidade do projeto é gerar conhecimento para ensino e pesquisa, mas há outros objetivos de médio e longo prazo.
                  Um deles é aumentar a adesão às autópsias. Uma família que negaria o exame invasivo pode ter mais chances de aprovar a autópsia digital.
                  E hospitais que hoje não realizam autópsias poderiam passar a fazer exames pós-morte não invasivos.
                  "Sai o bisturi para todos os casos e entra o tomógrafo e o raio-X", diz Saldiva. O exame também pode incluir a realização de biópsias -a retirada de amostras de tecido para confirmar diagnósticos.
                  Outro objetivo é avaliar novas tecnologias de exame, que poderão ser testadas nos cadáveres. Será possível saber a dose de radiação ou o campo magnético máximo que pode ser usado em uma pessoa viva.
                  Também pode ser avaliada a qualidade de diferentes exames para o diagnóstico de câncer de mama ou próstata, por exemplo, e estudar se a adoção de um novo equipamento vai fazer diferença no cuidado com os pacientes.
                  MÁQUINA NOVA
                  Em cerca de dois anos, o projeto da USP deve receber uma nova máquina de ressonância magnética, muito mais potente do que as presentes hoje nos hospitais. O aparelho será usado nos cadáveres, e esses testes vão ajudar a avaliar a segurança de seu uso nos vivos.
                  Tornar os exames de imagem feitos para fins diagnósticos em pessoas vivas mais precisos também é uma meta do grupo a longo prazo, como explica o médico Edson Amaro Jr., professor associado do Departamento de Radiologia da Faculdade de Medicina da USP.
                  Uma das formas de fazer isso é usar os dados das autópsias comuns e das digitais para investigar a correlação entre as imagens e a análise dos tecidos, isto é, fazer uma ligação direta entre o que aparece no exame e o que está acontecendo no corpo.
                  Hoje, é comum que testes de imagem cheguem com um resultado dúbio: há uma mancha no filme, e o médico não sabe se aquilo pode ser um tumor ou não ser nada.
                  Como pode não ser recomendável ou mesmo viável retirar uma amostra de tecido para realizar um diagnóstico, resta ao paciente esperar e repetir o teste depois.
                  "Dependendo da pessoa, isso é uma fonte de angústia. Ao receber um laudo dizendo que você tem algo no seu coração, mas que os médicos não sabem o que é, o paciente não vai entender que isso é um problema de especificidade. Vai achar que tem algo grave, vai procurar no 'doutor Google' ", diz Amaro.
                  Testes de imagem para detecção de Alzheimer, por exemplo, podem se tornar mais precisos por meio dos estudos com cadáveres.
                  Para o radiologista, não há lugar melhor do que a Faculdade de Medicina para esse tipo de estudo. "Este é o maior centro de autópsia do mundo, com cerca de 15 mil realizadas por ano."

                    domingo, 16 de dezembro de 2012

                    Dieta por assinatura - Debora Mismetti

                    Folha de São Paulo

                    Versões atualizadas dos regimes à base de proteína viram serviço à venda por empresas europeias que abriram suas portas por aqui neste ano
                    Luciana Whitaker/Folhapress
                    Luís Henrique de Oliveira, 49, que perdeu 12 kg em um mês, se exercita na zona sul do Rio
                    Luís Henrique de Oliveira, 49, que perdeu 12 kg em um mês, se exercita na zona sul do Rio
                    DÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE "CIÊNCIA+SAÚDE"Um mês substituindo quase todas as refeições por alimentos em pó saídos de um sachê mudou para pior o humor do carioca Luís Henrique Barcellos de Oliveira, 49. Mas agora, três meses depois, com 14 kg a menos, o empresário acredita que o sacrifício teve uma boa recompensa.
                    Oliveira é um dos clientes de um novo serviço pago de dieta que desembarcou há quatro meses no país, chamado Pronokal. A empresa, criada na Espanha, baseia seu método na substituição temporária das refeições por alimentos proteicos preparados com água a partir de um pó.
                    Além dessa, a francesa Dieta Dukan chegou também por aqui em sua forma de empresa. Antes, o método criado pelo médico Pierre Dukan já estava presente por meio do livro "Eu Não Consigo Emagrecer" (Ed. Best Seller, R$ 29,90, 308 págs.), que ganhou nova edição no país neste ano e ficou famoso ao ser ligado ao nome da agora duquesa Kate Middleton -ela teria recorrido a Dukan para perder peso antes do casamento com o príncipe William, em 2011.
                    Ambos os métodos prometem perda rápida de peso por meio de versões atualizadas da velha dieta das proteínas.
                    O Pronokal foi criado em 2003 e está presente em 11 países. Os sachês de alimentos proteicos em pó, que custam cerca de R$ 8 cada um, devem ser receitados aos pacientes por um médico -o consumidor não pode comprar o produto por conta própria.
                    Até agora, 120 profissionais do Rio foram credenciados pela empresa, trabalho coordenado por Isabela Bussade, professora de pós-graduação em endocrinologia na PUC do Rio.
                    A médica explica que a ingestão dos alimentos proteicos de baixa caloria e baixo carboidrato leva o paciente a um processo de cetose, isto é, ele passa a obter energia por meio da quebra da gordura em vez da glicose.
                    Isso pode causar dor de cabeça e mau hálito. Também não é para qualquer um: o método é contraindicado para diabéticos tipo 1, hipertensos e infartados.
                    A ideia de usar alimentos do sachê (que misturados com água e cozidos viram panquecas, pães, bolos, omeletes), diz Bussade, é permitir uma alimentação à base de proteínas sem sair do cardápio normal. "Comer um bife de manhã não é normal. Uma panqueca, um pão, sim. Só que tudo é proteico."
                    O sabor tem seus altos e baixos. Luís Henrique de Oliveira gostou das panquecas e omeletes, mas não aprovou o sabor das sobremesas.
                    "Fui rebelde e passei a acrescentar adoçante aos bolinhos. O sabor era pouco doce para o meu gosto."
                    Em média, diz Bussade, o paciente fica três meses consumindo os sachês. No início, todas as refeições são feitas a partir dos preparados, com a adição de saladas e algumas verduras e, com o passar do tempo, o usuário pode incluir cada vez mais alimentos frescos no cardápio.
                    "Cansa? Com certeza. Mas a pessoa precisa partir do princípio de que a obesidade é uma doença e essa é uma opção de tratamento."
                    O objetivo é promover uma perda rápida de peso, que motive o obeso a se manter na dieta, e tirar proveito da saciedade trazida pelo alto consumo de proteínas.
                    O mesmo efeito é anunciado pelo método Dukan, vendido por meio do sitewww.dietadukan.com.br.
                    Por uma taxa que varia de acordo com o peso a ser perdido (cerca de R$ 250 para quem quer emagrecer 10 kg), o usuário recebe orientações diárias por e-mail e deve relatar seu progresso também periodicamente.
                    Assim como o método Pronokal, o Dukan é feito em fases. Na primeira, o candidato a ex-obeso deve se ater ao consumo exclusivo de proteínas com baixo teor de gordura -mas, no caso da dieta francesa, usam-se alimentos comuns. Essa primeira fase leva de um a dez dias, dependendo do peso a ser perdido. Depois, é preciso intercalar dias de consumo de proteínas e legumes com os dias só de proteína. Ao longo do tempo, frutas e carboidratos vão voltando ao cardápio, mas sempre é preciso manter um dia só de proteínas por semana por tempo indeterminado.
                    "Foi um grande sofrimento abandonar o pão. Uma privação. Mas eu tinha ficado por anos com 106 kg, então o pãozinho vai me esperar", afirma o gerente de tecnologia Luiz Carlos Segundo, 65.
                    Ele começou a dieta em agosto por meio do site da Dieta Dukan e está com 92 kg.
                    Os bons resultados obtidos por Oliveira e Segundo não surpreendem o nutrólogo Celso Cukier, do Instituto de Metabologia e Nutrição.
                    "A curto prazo, qualquer restrição na dieta funciona", diz o médico. O problema é a manutenção. "As células de gordura, na dieta, perdem seu conteúdo. Quando a pessoa retoma a alimentação normal, a célula volta a crescer muito rápido."
                    Segundo Cukier, planos comerciais de dieta em geral não se concentram na conscientização dos pacientes, ainda que consigam motivá-los com os resultados iniciais. "Vemos que só têm sucesso a longo prazo pessoas que entenderam a necessidade de mudança do estilo de vida."
                    O empresário Luís Henrique se diz consciente do desafio. "Magro come pouco. Se quero ser magro ou menos gordo, tenho que me adaptar a essa realidade."

                      sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

                      Anos a mais de vida têm menos qualidade


                      Aumento da longevidade e número de décadas vividas com saúde estão se distanciando, segundo estudo global
                      Transtornos como depressão e de ansiedade estão entre os que mais roubam tempo de vida saudável
                      DÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”da FOLHA DE SÃO PAULOO aumento da expectativa de vida da população mundial nos últimos 20 anos veio acompanhado de uma má notícia: os anos a mais estão sendo vividos com menor qualidade de vida por causa de problemas de saúde.
                      Um conjunto de estudos publicados ontem pela revista médica "Lancet" avaliou o impacto das doenças na população global. Pesquisadores de 50 países, Brasil inclusive, analisaram um grande volume de dados, como incidência de doenças, motivos de internação hospitalar e mortalidade em todos os cantos do mundo para produzir um retrato das condições de saúde em 2010.
                      Um dos artigos, liderado por Joshua Salomon, da Escola de Saúde Pública de Harvard, mostra o descompasso entre a vida longa e a vida saudável. O trabalho comparou as condições de saúde entre 1990 e 2010 em 187 países.
                      Os resultados mostram que um ano a mais de vida corresponde, na verdade, a 0,8 ano vivido com saúde. E, quanto mais a expectativa de vida aumenta, maior é o degrau entre a longevidade e a qualidade de vida.
                      Em 2010, a expectativa de vida saudável média era de 58,3 anos para um homem e de 61,8 anos para uma mulher. Em relação a 1990, isso representou um ganho de quatro anos com saúde, mas a expectativa de vida total cresceu bem mais nesse período (4,7 anos para eles e 5,1 anos para elas).
                      Isto é, todos vivem mais, mas com menos qualidade.
                      O problema, dizem os autores, é que os ganhos na saúde observados nas últimas décadas se deveram mais à redução da mortalidade infantil do que ao combate às doenças crônicas e suas consequências.
                      Transtornos mentais como a depressão são responsáveis por metade dos anos vividos com alguma sequela incapacitante, segundo os pesquisadores Alan Lopez e Theo Vos, da Universidade de Queensland, na Austrália.
                      A pressão alta é, agora, o maior fator de risco para doenças, causando 9,4 milhões de mortes em 2010, seguido pelo tabagismo e o consumo excessivo de álcool.
                      Os dados devem servir como alerta para a comunidade global, diz a equipe de Harvard. "As Metas do Milênio [estabelecidas pelas Nações Unidas] se concentraram na redução da mortalidade por causas específicas como HIV, tuberculose e malária. Enquanto isso, a prevalência de doenças incapacitantes mudou pouco."
                      Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, afirma, no entanto, que o enfrentamento às doenças crônicas começa a ganhar a visibilidade devida. Ele lembra que, no ano passado, a ONU realizou uma reunião de cúpula para discutir o impacto das doenças crônicas e que, em maio de 2013, devem ser estabelecidas metas para o combate a doenças como câncer, diabetes e problemas cardíacos.
                      Segundo Barbosa, que foi entrevistado para a série de estudos, podem ser decididos requisitos para o acesso a exames de mamografia e câncer do colo do útero, redução no consumo de sal e mortalidade precoce.
                      "Se não atacarmos as doenças crônicas, as pessoas vão viver mais mas com sequelas de AVC (acidente vascular cebral), amputação por causa de diabetes, diálise."

                        terça-feira, 4 de dezembro de 2012

                        Entidades pedem novas regras para pesquisas


                        Grupos de médicos e cientistas brasileiros querem mais agilidade para testes clínicos
                        Folha de São PauloDÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”Três instituições que representam cientistas e médicos brasileiros enviaram ontem ao Ministério da Saúde uma carta pedindo que o Conselho Nacional de Saúde avalie sugestões de mudanças nas regras de aprovação de testes clínicos feitos em voluntários humanos no país.
                        Segundo a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a ABC (Academia Brasileira de Ciências) e a ANM (Academia Nacional de Medicina), do jeito que está hoje, a regulamentação para as pesquisas com novos medicamentos "implica em enormes prejuízos ao nosso desenvolvimento científico e tecnológico, inviabilizando inclusive estudos clínicos de fase 1 e 2 em nosso país".
                        Os estudos de fase 1 e 2 são os primeiros pelos quais os remédios devem passar, para provar que são seguros e eficazes antes serem testados em um número grande de pessoas.
                        De acordo com Rubens Belfort Jr., professor da Unifesp e membro titular da ABC e da ANM, o Brasil tem sido excluído de estudos internacionais por causa da demora no processo de aprovação nos CEPs (Comitês Ética em Pesquisa), na Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
                        "A duplicidade [de processos] de aprovação ou negação é crítica. Há situações em que o projeto está aprovado pela Conep mas a Anvisa demora, e vice-versa." Segundo Belfort, as propostas de mudanças aguardam análise há um ano.
                        O Ministério da Saúde informa que o tema está na pauta da próxima reunião do CNS, no dia 11.

                          quinta-feira, 29 de novembro de 2012

                          Hospital faz detecção de câncer de pele à distância


                          Equipes enviam por e-mail fotos de lesões ao Hospital de Câncer de Barretos
                          Objetivo é realizar diagnóstico onde não haja especialistas; em SP, recurso similar é usado na oftalmologia
                          DÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”Um projeto em desenvolvimento no Hospital de Câncer de Barretos, no interior paulista, usa fotos enviadas por e-mail para facilitar o diagnóstico de câncer de pele.
                          O objetivo é antecipar a detecção da doença em moradores de cidades onde não há médicos especialistas que possam fechar o diagnóstico.
                          O programa começou a ser testado há 18 meses, e 900 imagens já foram analisadas de forma experimental. Segundo o médico Carlos Eduardo Goulart Silveira, do departamento de prevenção do Hospital de Câncer de Barretos, houve 85% de concordância entre os diagnósticos feitos ao vivo e os realizados por meio das fotos.
                          A ideia, afirma Silveira, nasceu a partir das visitas feitas pela equipe do hospital com a unidade móvel, que percorre cidades de Estados do Norte e do Centro-Oeste, além de São Paulo e Minas Gerais, fazendo exames para detectar câncer de mama, do colo do útero, de próstata e pele. "Visitamos muitas cidades pequenas e nesse locais há um deficit de médicos e especialistas. Vemos também uma incidência muito alta de câncer de pele, e essas pessoas precisam esperar até um ano a nossa chegada."
                          Para agilizar o atendimento, foi criado o projeto de teledermatologia. "Em países desenvolvidos, a telemedicina já está mais estabelecida. Nos países em desenvolvimento, onde há mais carência de acesso ao médico, ela ainda não é tão utilizada."
                          Os médicos do hospital analisam fotos das lesões tiradas por enfermeiros ou técnicos que são treinados em Barretos. Usando uma câmera comum ou de celular, eles registram a imagem da lesão, permitindo a identificação de seu tamanho e relevo.
                          A foto é enviada por e-mail aos especialistas do hospital. Se a suspeita for de lesão maligna, é marcada uma consulta no hospital para dar início ao tratamento.
                          Segundo Silveira, o projeto ainda está funcionando de forma experimental em cidades próximas a Barretos. O telediagnóstico deve ser posto em prática de vez em 2013.
                          "Isso evita viagens desnecessárias, economiza tempo."
                          RECURSOS
                          Ainda inicial no país, a telemedicina já conta com outro programa de diagnóstico à distância.
                          Um grupo da Unifesp, liderado pelo médico Rubens Belfort Jr., faz a detecção de problemas na retina e de glaucoma, em especial em pacientes diabéticos, com a ajuda de fotos do fundo do olho feitas em centros de saúde em São Paulo e analisadas por especialistas em retina.
                          Segundo Belfort, presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), esse recurso economiza cinco consultas médicas. Depois que a foto é analisada, o paciente recebe uma mensagem que o direciona ao local de tratamento.
                          Desde o início do ano passado, 2.100 imagens foram analisadas no projeto. Há duas máquinas em funcionamento, uma no centro de diabetes da Escola Paulista de Medicina e outra no ambulatório Tito Lopes, na zona leste. Outras duas serão instaladas na região da Vila Maria.
                          "É impossível o oftalmologista atender a todos os pacientes. A única forma de solucionar o problema da saúde no país é modernizar a política de recursos humanos."
                          Para Belfort, o trabalho do médico deve ser concentrado na interpretação dos dados, realização do diagnóstico e prescrição do tratamento.
                          "A única maneira de melhorar a assistência médica é usar a tecnologia para baratear custos e substituir as tarefas", diz o médico.

                            sexta-feira, 23 de novembro de 2012

                            Hepatite C terá novas opções de tratamento


                            'Tratamento é agressivo, mas estou otimista'
                            DA EDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”O engenheiro aposentado Romulo Correa, 67, não consegue mais comer seus pratos preferidos. "Camarão, peixe, carne, tudo fica amargo."
                            Os remédios que estão prejudicando o paladar de Romulo são parte de um tratamento contra hepatite C. Este já é o quinto a que ele se submete contra a doença. Ele recebeu o diagnóstico em 1992, quando já tinha cirrose hepática. "Tive câncer de fígado por causa da hepatite."
                            Em 2005, o engenheiro foi submetido a um transplante de fígado, mas a doença voltou. Neste ano, Romulo partiu para os tratamentos com telaprevir e boceprevir, aprovados em 2011 no Brasil.
                            "Comecei com telaprevir mas não suportei os efeitos colaterais. Foram devastadores. Diarreia, vômito, perdi o apetite."
                            Agora, ele está usando o boceprevir e interferon. "O interferon é horrível, cai cabelo, perco peso. E estou sentindo tanta dor na perna que mal consigo pôr o pé no chão." Mas, nos últimos exames, sua carga viral já está indetectável. "Estou otimista."


                              NÚMEROS DA INFECÇÃO
                              1,5 milhão
                              de pessoas têm hepatite C no Brasil
                              150 milhões
                              de pessoas no mundo estão cronicamente infectadas e em risco de ter cirrose
                              até 4 milhões
                              de pessoas são infectadas no mundo a cada ano

                              Pesquisas apresentadas em congresso mostram que "terceira geração" de drogas vai permitir terapia mais curta
                              Remédios em fase de teste são o próximo passo depois dos antivirais aprovados no ano passado no país
                              Edson Ruiz/Folhapress
                              O aposentado Romulo Correa, 67, que se trata contra hepatite C, em sua casa em Salvador
                              O aposentado Romulo Correa, 67, que se trata contra hepatite C, em sua casa em Salvador
                              DÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”
                              Um novo grupo de medicamentos contra hepatite C pode permitir tratamentos mais curtos e com menos efeitos colaterais, segundo resultados de testes apresentados no Congresso da Associação Americana para o Estudo das Doenças do Fígado, realizado em Boston (EUA) no início deste mês.
                              O combate à hepatite vem sendo reforçado por novas drogas, como os antivirais de ação direta boceprevir e telaprevir, que foram aprovados no Brasil em 2011 e devem começar a ser distribuídos na rede pública em 2013.
                              Os remédios têm como alvo partes do vírus envolvidas em sua multiplicação.
                              Apesar de apresentarem eficácia alta no combate à infecção (80% de chance de cura), esses dois medicamentos ainda precisam ser administrados junto com a dupla de drogas usada já há anos no combate à doença.
                              Assim, o boceprevir ou o telaprevir se somam à ribavirina, que controla a multiplicação do vírus causador da doença, e ao interferon, um modulador do sistema imune que evita a resistência ao tratamento.
                              EFEITOS COLATERAIS
                              De acordo com o hepatologista Raymundo Paraná, professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia), a combinação desses medicamentos causa alterações do paladar, alergias e anemia.
                              "Cerca de 60% dos pacientes têm anemia. Na maior parte dos casos, é possível administrar isso, mas 5% precisam realizar transfusões."
                              Uma das vantagens da "terceira geração" de drogas que está em testes agora é a possibilidade de uma terapia feita sem o interferon, fonte de efeitos colaterais debilitantes para os pacientes.
                              Isso é possível, segundo Paraná, porque os medicamentos novos são mais potentes que o boceprevir e o telaprevir e não permitem que o vírus se torne resistente.
                              O hepatologista Edison Parise, presidente-eleito da Sociedade Brasileira de Hepatologia, destaca, além da redução dos efeitos colaterais, o tempo menor do tratamento. O boceprevir ou telaprevir são usados por até um ano.
                              As pesquisas dos novos medicamentos, que devem levar até três anos para entrar no mercado, mostram que os tratamentos podem ser completados em três meses ou em um prazo até menor.
                              Além disso, diz Parise, o novo esquema vai ser uma opção para os doentes que não respondem mais ao interferon, o que inviabiliza os tratamentos atuais.
                              Quatro indústrias farmacêuticas têm medicamentos dessa classe em teste. Centros brasileiros foram qualificados para entrar nas pesquisas, mas ainda não conseguiram. Parise (que é professor associado da Unifesp) e Paraná atribuem isso à demora nos trâmites burocráticos.
                              Ainda estão em avaliação as melhores combinações dos novos antivirais. Parise compara os novos esquemas sem interferon ao coquetel anti-HIV. "Como no coquetel, vamos usar esses inibidores de protease e polimerase, que são remédios complementares, evitando a resistência. A vantagem do HCV em relação ao HIV é que, uma vez que você o erradica, ele não volta."