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domingo, 18 de agosto de 2013

Como aprender árabe - Diogo Bercito

folha de são paulo
LÍNGUA
Como aprender árabe
O que se fala nem sempre se escreve
RESUMO Na última década, o interesse global por assuntos ligados ao Oriente Médio e ao islã contribuiu para aumentar o número de estudantes do árabe. Correspondente da Folha em Jerusalém aborda complexidades do aprendizado da língua, como a diglossia, a convivência de sua variante formal e dialetos locais.
DIOGO BERCITO
COM A QUEDA das Torres Gêmeas, em 2001 e, dez anos depois, a derrocada de ditadores como o egípcio Hosni Mubarak e o líbio Muammar al-Qaddafi, o idioma árabe tornou-se um "habib" --querido-- dos estudantes de idiomas.
Já falado por milhões ao redor do mundo, o árabe teve aumento de 46,3% de procura no bancos acadêmicos americanos entre 2006 e 2009, segundo a Modern Language Association. Foi o idioma estrangeiro com maior procura no país, com incremento de 126,5% em relação à edição anterior do mesmo estudo, no qual o árabe havia passado a figurar entre os dez idiomas estrangeiros mais estudados nos Estados Unidos.
O fenômeno é recente, mas não está desligado do fato de que o árabe foi, no passado, uma das línguas da ciência no mundo. É o idioma da conquista islâmica, do califado de Córdoba, do Alcorão e dos clássicos medievais de Avicena. É a fala do cinema egípcio, dos discursos do ditador sírio Bashar al-Assad e de populações associadas, via preconceito, ao terrorismo.
Estudar árabe, porém, é um compromisso de longo prazo --digo por experiência própria. Mais de dois anos depois de decidir estudar o idioma e após ter estado em um punhado de países árabes como correspondente desta Folha no Oriente Médio, ainda passo minhas tardes tentando me lembrar das declinações e da vocalização correta. Isso quando não estou frustrado, em um mercado de Jerusalém, tentando entender quanto custa uma latinha de Coca-Cola.
LENDA Uma lenda do século 7º fala de como Ziyad ibn Abihi, governador de Basra, no atual Iraque, convenceu o sábio Abu al-Aswad a normatizar o árabe. Abertos os portões da expansão islâmica, as fronteiras da península Arábica devoravam África e Ásia. Os novos falantes emprestavam erros à língua.
Como o sábio resistia à tarefa, o governador teve uma ideia: pediu que um homem sentado à beira de uma estrada recitasse o Alcorão, trocando, porém, as terminações dos casos gramaticais. Em árabe, isso faz com que uma frase como "Deus e o profeta salvam dos incrédulos" tenha seu sentido subvertido para "Deus salva dos incrédulos e de seu profeta".
Assim Aswad se convenceu da necessidade de compilar um conjunto de regras para chegar a um árabe padrão. Essa lenda passou a servir como um dos mitos fundadores da tradição gramatical do árabe, reunindo diversas das características que marcaram, desde então, o estudo dessa língua.
Está presente na historieta, por exemplo, a ideia ainda corrente de que a língua é uma característica biológica dos povos árabes e que os desvios, portanto, nascem nos povos arabizados. Ou a ideia de que a língua é um fato estanque, desvinculado da história, preso a um texto sagrado do qual é, aliás e antes de tudo, uma manifestação.
Além disso, a lenda do governador e do sábio dá conta da obsessão pela manutenção dos casos gramaticais na língua --cujo bom uso, aparentemente, é ameaçado desde os anos desérticos do surgimento do islã, no centro da península Arábica, até a manhã em que assisti à minha primeira aula de árabe, na Universidade de São Paulo.
Minha história com o estudo do árabe decepcionaria aqueles que gostam de narrativas orientadas pelo "maktub", o conceito de que algo "estava escrito" --popularizado (mesmo no mundo árabe) por Paulo Coelho.
Quando escolhi essa língua, não estava pensando na "qisma", a ideia de que o árabe é a parte do latifúndio linguístico que coube aos árabes como dádiva divina. Nem me motivava um bisavô paterno talvez damasceno, de quem não há nenhum registro ou memória.
Eu escolhi me habilitar em árabe, durante o curso de letras, porque o hebraico só era ensinado à noite, enquanto eu trabalhava na Redação. Os anos se seguiram e, antes de me mudar para Jerusalém, eu só havia passado de raspão por essa língua irmã do árabe.
Durante uma corrida de táxi em Rabat, a capital do Marrocos, onde por três meses fui bolsista do projeto Ibn Batuta de ensino da língua, o motorista desandou a falar em árabe ao me ouvir conversar sobre xiismo com um colega holandês.
Ainda iniciante, perdi quase todas as palavras. Mas aproveitei para perguntar como se dizia "direita", em árabe. Podia ser útil para dar indicações no próximo trajeto. "Al-yamin", ele respondeu. E aí, bem de longe, o hebraico fez sua aparição: "Mas não confunda com Binyamin", brincou o motorista, fazendo troça com Binyamin Netanyahu, atual premiê de Israel.
Eu ri e disse que usaria a tirada para memorizar a palavra. "Como vai fazer com a esquerda?", ele me perguntou. "Fácil. Al-shimon", brinquei. A resposta correta é "Al-yasar", mas eu estava então falando de Shimon Peres, o presidente israelense. O táxi balançou de tanto que nós três rimos da piada, ainda que não tivesse havido graça.
Talvez pelo contato com todo tipo de passageiro, os taxistas dominam a variante padrão do árabe --o termo se entende pelo fato de que não existe, na prática, a "língua árabe". O que há é um conjunto de línguas, nem sempre compreensíveis entre si, que não formam um idioma, do ponto de vista linguístico. São dialetos. Mais por política e religião, as variantes se cobrem sob um mesmo véu, no que se chama uma sociolíngua.
Para os muçulmanos, Deus decidiu que o Alcorão fosse revelado a Maomé em árabe --não em hebraico, grego ou persa, porque era aquela a revelação feita especificamente a eles (em árabe, diz-se que o livro "nazala", "desceu"). Assim, para autoridades religiosas, a língua está em seu estágio único. Não há antes, não há depois.
É como diz o poeta sírio Adonis, o nome mais cotado, entre os que se expressam em língua árabe, para o Nobel de literatura. "O Islã se revelou como inspiração divina em língua árabe. A partir daí, a língua, como portadora das verdades divinas, deixou de ser uma parte da realidade relativa e mutável. Tornou-se absoluta: imagem absoluta do absoluto Deus."1
Se existe uma unidade na religião ("não há nenhum deus que não seja Deus", diz a profissão de fé do árabe, uma das bases teológicas do islamismo), a ideia de que haveria também uma homogeneidade na língua árabe se debate diariamente contra a realidade.
Dessa maneira, uma ação cotidiana, como tomar o café da manhã antes da aula, pode se transformar num desafio linguístico. Em que língua pedir dois croissants? Em árabe --ou em árabe?
Havia duas opções. Eu poderia dizer o número como "ithnan", em árabe formal, e soar como saído do século 7º, de um manuscrito ou da lenda de Abu al-Aswad. Mas, se preferisse usar a palavra "juj", típica do coloquial marroquino, os vendedores poderiam ver nisso a pretensão de me passar por local. Como se um estrangeiro em São Paulo usasse uma expressão como "de boa" para dizer "tudo bem".
ESQUIZOFRENIA A linguística tem nome específico para essa convivência entre formal e coloquial. Chama-se "diglossia", "duas glossas", situação geralmente exemplificada pelo latim, que manteve por séculos uma variante culta e diversas versões vernaculares. "É claro que isso é uma espécie de esquizofrenia", explica o escritor libanês Amin Maalouf.
Maalouf escreve em francês ""entre os vários reconhecimentos a sua obra está o Goncourt, prêmio máximo da literatura na França, que ele recebeu em 1993 por "O Rochedo de Tânios". Ele defende, intelectualmente, a manutenção da variante culta do árabe, diante de propostas de simplificar a língua a partir de um consenso entre as dezenas de dialetos. "É preciso viver com a dicotomia."
"O latim desapareceu como uma língua falada. Mas, com o árabe, as coisas aconteceram de maneira diferente. O árabe produziu dialetos locais, mas a variante culta não desapareceu. Ela permanece verbalizada, escrita e compreendida pelos falantes educados", diz Maalouf. "Ter uma língua em comum é um recurso cultural importante."
O árabe seguiu um caminho distinto daquele trilhado pelo latim --que, diante da queda do Império Romano, perdeu seu centro, possibilitando que surgissem, nas periferias, as línguas românicas, transformadas pelos séculos em idiomas como o português, o castelhano, o sardo e o romeno.
Professor na Universidade de Zaragoza, o acadêmico Federico Corriente, autoridade no estudo do árabe falado na península Ibérica durante o califado de Córdoba (séculos 10 e 11), insiste que um processo semelhante ao do latim seria um "empobrecimento" tanto cultural quanto político para a comunidade de países falantes.
"O latim, infelizmente, foi destruído pelos nacionalismos da idade moderna e contemporânea, prejudicando todos os europeus, já que não temos mais uma língua culta comum a todos", diz. Unificar o árabe, afirma Corriente, seria repetir o "disparate que a Europa cometeu ao abdicar do latim: fragmentação e preguiça mental".
LÍNGUA FRANCA Ao contrário do que houve no Ocidente, continua havendo uma língua franca para a comunicação entre os Estados de população árabe. Também são ligados pelo árabe como língua litúrgica os milhões de muçulmanos ao redor do mundo. O Alcorão não pode ser traduzido, e o estudo do árabe formal torna-se, assim, um imperativo religioso.
"O Alcorão teve uma grande influência na língua árabe", opina o jovem saudita Muhammad Hassan Alwan, autor de "The Beaver", uma das obras que concorreram ao Arabic Booker Prize, competição pan-árabica lançada em 2007. "Esse livro sagrado manteve a língua por 14 séculos de maneira que pode ser facilmente entendida hoje."
Apesar dos mitos sobre sua inacessibilidade, o árabe padrão ainda é compreendido nas ruas. Foi com essa variante que um grupo de crianças me cercou, em Rabat, para perguntar se eu era muçulmano. Quando disse que não, uma gritou, as mãos na cabecinha indignada: "La! La tarif al-nar?" ("Não! Você não conhece o fogo?")
Um estudioso do idioma que não segue o islã e não é nem sequer de origem árabe se vê, por vezes, obrigado a justificar seus estudos. É possível argumentar que o interesse vem do prazer histórico. Mantida estática pelas exigências da religião, a língua ainda é próxima do dialeto urbano falado em Meca no século 7º. Falar árabe é como conversar com beduínos --o falante ideal, segundo a tradição.
O árabe é parente não só do hebraico mas também das demais línguas semíticas, como o acadiano, o aramaico e o fenício. Quem diz "salam", em árabe, de certa forma está dizendo "shalam" (acadiano), "shlam" (aramaico) e "shalom" (hebraico).
O termo "semita" vem de Sem --na Bíblia, um dos filhos de Noé. Emprestado da linguística, foi compreendido politicamente como designação étnica. Em sua origem, era a reunião de um grupo específico das línguas afro-asiáticas, como o hebraico e o árabe, parentes distantes do egípcio antigo.
Para falantes de línguas latinas ou germânicas, ambas indo-europeias, aprender um idioma semítico envolve adaptar-se a um modo de pensar. O árabe não tem verbos "ser", "estar" e "ter". A existência é presumida (de "eu Diogo" se entende "eu sou Diogo"). O estado, também ("eu doente"). Para a posse, se diz "para mim, um carro".
"Línguas orientais exigem muita dedicação", diz Mamede Mustafa Jarouche. Tradutor do "Livro das Mil e Uma Noites", Jarouche ensina gramática árabe na USP. "Com línguas como o inglês, é possível haver aprendizado passivo. Um aluno pode aprender sem nunca ter ido aos Estados Unidos. Isso não ocorre com o árabe."
A forma da escrita, com alfabeto próprio, correndo da direita para a esquerda na página, é outro aspecto a levantar curiosidade em torno de um estudante de árabe. Quando foi estabilizada, em cerca de 1.000 a.C., a escrita fenícia --origem dos sistemas do árabe, do aramaico e do hebraico-- seguia esse sentido. Os gregos, ao se apropriarem da invenção semítica num momento posterior, mudaram-lhe o rumo.
LEITURA Pouco se fala, porém, da real dificuldade da leitura em árabe. Para os acadêmicos mais rigorosos com a classificação, a escrita do árabe não é de fato "alfabética", apesar de "alfa" e "beta" serem ironicamente palavras emprestadas do fenício pelos gregos. O árabe é escrito por meio de um "abjad" --uma escrita consonantal.
O árabe (como o hebraico, o siríaco e o nabateu) não registra todos os sons que são falados. Boa parte de suas vogais é subentendida. Assim, escreve-se "ktb" para dizer "kataba", ou "ele escreveu". O que pode levar a problemas, uma vez que "ktb" também pode ser lido "kutub", "livros". Ou "kutiba", "foi escrito".
(A hstór de Abu al-Aswd nos lembr de que os árbs stveram, desd o níci do slmism, prcpads com a mntnção do text crânc. Tref inglóri par um livr sgrad scrit sem dverss de sus vgais.2)
Daí entram os diacríticos, marcações feitas sobre ou sob as letras para indicar vogais ocultas. Os sistemas de diacríticos são, de certa maneira, uma invenção siríaca motivada pelas traduções da Bíblia e pela necessidade de grafar com exatidão os nomes gregos registrados durante a Antiguidade.
A atual vedete do ensino do árabe é um método didático chamado "Al-Kitaab fi Ta'alum al-Arabiya", organizado por professores americanos. É usado em Chicago e em Harvard, e também na USP e na escola Qalam wa Lawh, onde estudei no Marrocos.
É, porém, um livro controverso. Em 2008, um editorial do "Washington Post" expressava preocupação quanto ao método. O quarto capítulo do manual mostra a personagem Maha, antipática filha de uma professora palestina, dizendo a frase que se tornou clássica entre estudantes (no meu caso, rendeu a ideia para um rap, escrito para um trabalho da USP): "Ana la uhibu madinat Niw Yurk", "Não gosto da cidade de NY". Os motivos? Trânsito e calor. De onde vinha Maha? Do Cairo, a quente e caótica capital do Egito.
Apesar do estranhamento que o livro possa ter causado, é exagerada a alegação de que o método do "Kitaab" forme terroristas. Mas é pertinente a observação de acadêmicos, como o espanhol Corriente, que se opõem às tentativas de ensinar o árabe padrão por diálogos.
O árabe formal não é uma língua falada. As situações de comunicação são em geral pouco naturais, como discursos na ONU --o idioma é uma das seis línguas oficiais das Nações Unidas, ao lado do inglês, do chinês, do francês, do russo e do espanhol. Experimente pedir uma cerveja em árabe formal a um garçom no Marrocos: ele vai olhar para você como se estivesse diante de um personagem de um filme.
O estudante de árabe nunca está em paz, entre a "fusha" ("a eloquente", como se chama a variante formal) e a "amia" ("a popular", os dialetos). Se estuda o padrão, lhe perguntam por que não quis o dialeto --afinal, é a língua das ruas. Caso estude o vernacular, lhe perguntam por que não escolheu o formal --ora, é a língua dos livros!
O ideal, opina o espanhol Corriente, é "um conhecimento equilibrado da realidade linguística árabe, abarcando tanto a habilidade de ao menos ler a língua clássica quanto falar um dialeto". Mas isso esbarra, diz, na realidade de que o ensino do árabe "é catastroficamente terrível, por falta de métodos, de definição de objetivos e de preparação pedagógica".
A predominância da "fusha" como única variante escrita, porém, parece estar caindo. Os livros dizem ser impossível registrar os dialetos, porque têm sons sem equivalente na escrita. Mas, na estação de ônibus de Rabat, um outdoor anuncia: "kein" desconto --"kein" é o equivalente dialetal marroquino para o formal "hunaka", "há".
A Wikipedia também aposta em um futuro menos rígido para as línguas árabes. Alguns verbetes, como o referente a Cleópatra, têm versões em "egípcio". "Egípcio", como vem sendo chamado na enciclopédia colaborativa o dialeto cairota, era o termo que designava, até há pouco, a língua escrita com hieróglifos, no tempo dos faraós.
CENÁRIO O terreno para um novo cenário cultural, ainda que o total declínio do árabe formal como língua franca seja pouco provável, é a literatura. É nela, e sobretudo em diálogos, que as variantes vernaculares ganham corpo. "O árabe dialetal está carregado de história, de cultura religiosa e de cultura profana, de memória", diz o escritor libanês Rachid Daif.
O autor --que terá um de seus livros, "Que se Estrepe Meryl Streep", traduzido ao português por Felipe Benjamin Francisco, monitor de cursos de gramática na USP, como dissertação de mestrado-- afirma que "os dialetos estão vivos e são capazes de traduzir o ritmo da vida contemporânea".
A americana Meredith Meyer, minha colega no Marrocos, era um exemplo de estudante capaz de usar o dialeto naturalmente.
Além de sua notável pronúncia do "ayn", uma consoante tão gutural que parece vir do âmago do ser humano, ela soltava qual um nativo o corrente "ghadi an darrrbak": "Vou sentar a mão na sua cara", em tradução livre.
Como as ruas que ligavam os antigos califados islâmicos no passado, o caminho que leva o estudante de árabe até o domínio do idioma é longo. Às vezes, mesmo para os mais hábeis nos dialetos ou para os afiados na variante padrão, parece sem fim. Costumamos nos perguntar, ansiosos: "Seremos, um dia, fluentes?". A resposta possível, por ora, está numa palavra que aprendi com o tempo: "Mumkin". Talvez.
Uma ação cotidiana, como tomar o café da manhã, pode se transformar num desafio linguístico. Em que língua pedir dois croissants? Em árabe --ou em árabe?
Mantida estática pelas exigências da religião, a variante padrão ainda é próxima do dialeto urbano falado em Meca no século 7º. Falar árabe é como conversar com beduínos
O estudante de árabe nunca está em paz, entre a "fusha" ("a eloquente", como se chama a variante formal) e a "amia" ("a popular", os dialetos)

    terça-feira, 9 de julho de 2013

    Massacre aumenta a tensão no Egito - Diogo Bercito

    folha de são paulo
    Exército abre fogo contra manifestantes ligados ao presidente deposto Mohammed Mursi e deixa 51 mortos
    Lideranças islâmicas deixam negociação para novo governo; presidente promete eleição para breve
    DIOGO BERCITODE JERUSALÉMAo menos 51 defensores do presidente deposto do Egito, Mohammed Mursi, foram mortos ontem por militares, e 435 ficaram feridos.
    O massacre, ocorrido em frente à sede da Guarda Republicana, aumentou a tensão no país e provocou a debandada de líderes islamitas que haviam apoiado o golpe na semana passada.
    Segundo a Irmandade Muçulmana, movimento ao qual pertencem as vítimas, cinco crianças estavam entre os mortos, o que não foi confirmado.
    Horas depois do episódio, o novo governo divulgou cronograma que dá prazo de quatro meses e meio para reformar a controversa Constituição promulgada no ano passado, hoje suspensa.
    De acordo com decreto do presidente interino, Adly Mansur, após referendo para aprovar as mudanças na Carta, eleições parlamentares seriam convocadas e, depois, viriam as presidenciais.
    Se os prazos forem cumpridos, poderá haver nova votação no Egito no final deste ano ou no começo de 2014.
    O número de mortos ontem --o maior saldo de vítimas desde a queda de Hosni Mubarak em 2011, quando morreram mais de 300 pessoas em 18 dias-- provocou reações. Partidos políticos emitiram condenações e lideranças religiosas se dividiram a respeito da formação de um governo de transição.
    O partido islâmico Al-Nur, rival da Irmandade que havia apoiado o golpe, paralisou sua participação nas negociações para a formação do governo interino.
    Enquanto islamitas afirmam ter sido atacados pelas forças de segurança durante uma prece matinal, o Exército diz ter havido um ataque terrorista às instalações militares em que se acredita estar detido Mursi --o vencedor das primeiras eleições democráticas do Egito, ocorridas no ano passado.
    CONFLITO PÓS-GOLPE
    Ambas as facções estão em conflito desde o golpe.
    Militantes pró-Mursi realizam protestos pelo país, em especial em determinadas áreas da capital, como a Guarda Republicana, a mesquita Rabia al-Adawiya e a Universidade do Cairo.
    Nas proximidades do local da matança, a Folha encontrou estradas bloqueadas por blindados e testemunhou a passagem de fileiras de veículos carregando soldados.
    Apesar da guerra de versões a respeito do conflito na Guarda Republicana, incluindo vídeos na internet, testemunhas ouvidas pelas agências de notícias relatam que as forças de segurança atacaram os manifestantes durante uma vigília pacífica.
    Para o Exército, o incidente foi causado por um "grupo armado" com bombas, pedras e tiros para atacar o local em que Mursi está detido.
    Em reação ao ocorrido, Ahmed al-Tayyeb, grande imã de Al-Azhar e maior autoridade religiosa do país, afirmou que pode permanecer em reclusão até que se encerrem todos os confrontos nas ruas.
    Ele é alvo de crítica no Egito, após ter apoiado o golpe militar no país.
    Na mesquita Rabia al-Adawiya, centro de manifestações de islamitas no centro do Cairo, a Folha conversou durante a semana com integrantes da Al-Azhar que se diziam contrários à posição oficial dessa instituição.
    "O grande imã está participando do jogo político sujo", disse Abdel Ghani Salim. "Não apoiamos o imã depois de ele participar do golpe. Isso é uma coisa que só deveria acontecer em países ignorantes e opressivos."

      segunda-feira, 8 de julho de 2013

      Minha História - Yasmine El Baramawy

      folha de são paulo
      Engolida pela praça
      Durante protesto na Tahrir, centro do Egito, jovem foi estuprada por multidão, assim como tem ocorrido com várias mulheres nos últimos meses em manifestações
      DIOGO BERCITOENVIADO ESPECIAL AO CAIRORESUMO A musicista Yasmine El Baramawy, 30, protestava na icônica praça Tahrir em novembro passado quando, arrastada por uma multidão de homens, foi estuprada repetidas vezes. À Folha ela diz que aterrorizar uma mulher de maneira que ela deixe de se manifestar é, também, uma forma de desrespeitá-la. Ontem, Baramawy voltou à praça, escoltada por amigos. "Aprendi a ir em grupos."
      Eu estava na praça Tahrir em 23 de novembro, em um grande protesto contra a declaração constitucional de Mohammed Mursi. Fiquei perto dos confrontos com as forças de segurança.
      Naquele dia, todos estávamos unidos contra a Irmandade Muçulmana.
      Um pouco após o pôr do sol, quando já estava escuro, um homem me agarrou dizendo que estava me protegendo --só que de uma coisa que não estava ali. Ele começou a me puxar.
      No começo, eram 15 homens. Então eles se tornaram uma multidão. Era imenso.
      Não sei dizer, talvez uma centena.
      Algumas pessoas viram o que estava acontecendo comigo, mas é difícil dizer o que estava ocorrendo. Não sei quantos deles estavam realmente tentando me ajudar. Tudo estava tão confuso...
      Muitos manifestantes lutaram por mim ali, mas não era o suficiente. Os estupradores eram muitos, e eles tinham armas. Os ativistas em Tahrir não estão preparados para isso, eles não são membros de gangues ou nada assim.
      HUMILHAÇÃO
      Eles me estupraram de diversas maneiras com as mãos. Não com o pênis. Um homem veio por trás e me estuprou com um canivete. Uma outra mulher teve a vagina e o ânus abertos com uma faca, foi muito pior.
      O que acontece não é só uma violência sexual. São crimes violentos. Eles humilham as mulheres.
      Eles abusaram de mim na Tahrir e então me levaram a um canto próximo da praça. Continuaram. Fui arrastada a outra rua, depois mais adiante, então me puseram em cima de um carro e seguiram me estuprando.
      Estava de costas, e eles pressionavam as mãos em mim para que eu não pudesse me mover.
      Puseram um capuz na minha cabeça e dirigiram até uma região distante. Foi um caminho longo, talvez dez, quinze minutos.
      Lá, alguns moradores perceberam o que estava acontecendo e lutaram por mim. Consegui ser resgatada.
      Nunca tinha ouvido falar sobre esse tipo de violência no Egito. Eu ainda vejo cenas daquele dia. Às vezes, sinto o estupro no meu corpo. Preciso segurar minhas roupas.
      Tenho sonhos ruins também. Fico irritadiça. Tenho alguma coisa dentro de mim e preciso gritar de repente.
      Há um grande desrespeito pela mulher no Egito. A maior parte das pessoas pensa que as mulheres são escravas, que são coisas que eles podem comprar. Principalmente os mais velhos.
      ESTIGMA
      O estupro deixa um estigma na mulher e silencia a família. Isso no mundo todo, não apenas no Egito. Mas, depois que comecei a falar sobre isso, e outras mulheres também, ficou mais fácil de lidar. Tenho, além disso, o apoio dos meus amigos. Muitas pessoas agem como se nada tivesse acontecido, porém.
      Acho que é também um desrespeito quando, de alguma maneira, uma mulher é impedida de participar das manifestações por ter medo de estar ali.
      Eu nunca me arrependi de ter ido à praça Tahrir. Eu me juntei à revolução, naqueles dias. Essa era a coisa certa a ser feita. Não penso nisso.
      Aprendi, agora, a ir em grupos. Naquele dia, estava com outra amiga, que também foi estuprada quando nos separaram. Hoje, meus amigos vão me levar para o protesto. Estou esperando por eles.
        SAIBA MAIS
        Egito tem onda de estupros com manifestações
        DO ENVIADO AO CAIRONas sombras das renovadas manifestações em massa no Egito, o país testemunhou na última semana nova onda de abusos sexuais contra mulheres. Ao menos 91 foram estupradas no período de quatro dias, de acordo com a Human Rights Watch.
        Porém, para Fatemah Khafagy, líder feminista de um escritório governamental de combate ao estupro, a situação tem melhorado.
        Segundo ela, a polícia passou a cooperar com os ativistas de maneira inédita desde a queda do presidente Mursi, na quarta.
        Khafagy acredita que a recente onda de estupros é obra de islamitas, ainda que não tenha provas disso.
          ANÁLISE
          Drama no país se desenrola seguindo roteiro conhecido
          SIMON SCHAMADO "FINANCIAL TIMES"O Cairo está passando pelo terceiro ato da paixão revolucionária, aquele no qual a euforia das ruas se depara com as armas dos militares.
          Por enquanto, os dois lados estão trocando um abraço fraternal.
          Os soldados, trazendo aos ombros a bandeira tricolor do país, são recebidos como heróis do povo, como aqueles que libertaram a população de opressores disfarçados em libertadores.
          É um momento de festa e fogos de artifício. Desta vez tudo será diferente.
          Mas nunca é. O primeiro ato é a "Concretização do Impossível": o poder autocrático por muito tempo visto como indestrutível se desintegra de dentro para fora, e a crise é adiantada quando o governo termina paralisado pelo imenso número de almas que tomam as ruas.
          O segundo ato desanima um pouco, e vai adiante em forma de "Divisão dos Vitoriosos", com cada parte alegando personificar os objetivos da revolução, ainda que as metas de cada grupo estejam em conflito inconciliável.
          Uma facção fica por cima, e promete, com a mão no coração e o olhar voltado à Providência lá em cima, respeitar a liberdade e as opiniões dos oponentes.
          Logo em seguida, age para esmagá-los e monopolizar o poder.
          Os perdedores se resignam ao papel de oposição leal, até o momento em que percebem que sua sobrevivência mesma está em jogo.
          A parte tediosa --redigir constituições, depositar votos, fazer discursos-- vai se desenrolando, mas parece cerveja chocha quando comparada à embriaguez deslumbrante da comunhão com as massas.
          O primeiro ato é como o agitar de uma varinha de condão. A liberdade fará com que chovam pães e peixes; ninguém governará a não ser em nome do povo unido; os congestionamentos de trânsito do Cairo serão coisa do passado. Espantosa, revoltante e imperdoavelmente, nada disso se materializa.
          Um ano inteiro se passou e a vida de ninguém está melhor. Que escândalo!
          É evidente que o mago era um trapaceiro.
          Hora de tirá-lo de cena.
            Nobel da Paz pode ser nomeado para vice-Presidência
            DO ENVIADO AO CAIROUm dos fundadores do movimento de oposição Kefaya ("basta", em árabe), embrião dos protestos que culminaram no golpe militar da semana passada, George Ishak diz que o diplomata Mohamed ElBaradei poderia liderar o Egito de maneira justa.
            ElBaradei, prêmio Nobel da Paz em 2005, chegou a ser anunciado como primeiro-ministro do Egito no sábado para, em seguida, ter sua nomeação desmentida pela própria Presidência.
            Ontem, um porta-voz da Presidência disse que "provavelmente" ElBaradei se tornaria vice-presidente. O cargo de primeiro-ministro ficaria com o social-democrata Ziad Baha al-Din. A confirmação deve sair hoje.
            À Folha, Ishak afirmou que o impasse em torno do cargo de premiê foi criado pelo partido salafista Al-Nur, em retribuição ao fechamento de canais de televisão islamitas pelo Exército nos momentos seguintes ao golpe.
            "Estamos lidando com isso. Eles querem uma garantia de que os canais permanecerão abertos. A oposição deles não tem a ver com o nome de ElBaradei."
            PROTESTOS
            Tanto a oposição quanto os simpatizantes do presidente deposto Mohammed Mursi organizaram, ontem, manifestações em massa pelo país.
            Em Alexandria, ouviram-se tiros durante os protestos e 29 pessoas ficaram feridas ao longo do dia, segundo o Ministério da Saúde
            A promotoria pública do Egito pediu a prisão de dois membros de alto escalão da Irmandade Muçulmana, de acordo com a mídia local ""Essam el-Erian e Mohamed el-Beltagy. Eles são acusados de incitar a violência contra durante os protestos.
            "Está claro que há preconceito contra a Irmandade", disse Abdul Rahman El-Barr, um dos líderes da organização. "Eles não entendem o significado de democracia'."
            Gehad el-Haddad, porta-voz dos islamitas, afirmou à reportagem estar frustrado com a reação internacional ""por enquanto, cautelosa em condenar os eventos políticos recentes no Egito, onde o primeiro presidente democraticamente eleito foi deposto.
            "Outros países podem fazer a diferença. O apoio deles fez com que [o ex-ditador Hosni] Mubarak ficasse no poder por quase 30 anos", afirmou. "Está claro que a voz do povo só é ouvida se coincidir com os interesses internacionais", disse el-Haddad.

              sábado, 22 de junho de 2013

              Minha História Yityish Titi Aynaw

              folha de são paulo
              A nova rainha de Sabá

              Aviv Phayon/Efe
              Yityish Aynaw encontra Barack Obama e Shimon Peres (centro) em março, pouco depois de ser coroada Miss Israel
              Yityish Aynaw encontra Barack Obama e Shimon Peres (centro) em março, pouco depois de ser coroada Miss Israel
              A jovem perdeu os pais ainda criança e migrou da Etiópia para Israel; lá, ganhou o concurso de miss e se tornou ícone da comunidade etíope
              DIOGO BERCITODE JERUSALÉMHá dez anos, eu vivia em uma pequena cidade na Etiópia e corria de pés descalços nas florestas, brincava na lama. Depois que meus pais morreram, vim para Israel com meu irmão mais velho. Vim ficar com meus avós, que nunca tinha visto.
              Era um país estranho para mim, com uma nova língua, uma nova cultura. Estudei em um internato e tive de superar diversos obstáculos.
              Soube desde cedo que eu era sozinha e que, se não tomasse conta de mim mesma, ninguém faria isso por mim.
              Há três meses, minha vida mudou de uma maneira drástica. Frequentemente sinto que estou vivendo em um sonho que eu não ousava sonhar. Estou feliz e nem sempre consigo digerir as experiências que tive em um período de tempo tão curto.
              Quando Shimon Peres, presidente de Israel, me apresentou a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, disse que eu era a nova rainha de Sabá. Foi algo muito animador.
              AMIGA
              Quando vim a Israel, comecei imediatamente a estudar no internato. Não conhecia a língua. Sentei ao lado de uma estudante israelense. Ela virou minha melhor amiga, e somos melhores amigas até hoje. Ela me recomendou o concurso de beleza, me ensinou a língua.
              Eu era uma estudante teimosa. Se não entendia alguma coisa que a professora havia dito, não deixava ela continuar a ensinar até eu compreender a explicação.
              Meus avós eram adultos e mesmo eles não sabiam a língua hebraica corretamente, então lutei todos os dias para aprender e entender.
              No internato, não havia apenas etíopes. Havia crianças nascidas em Israel e também imigrantes da Rússia. Então eu não me sentia como uma minoria. Sempre fui parte de um ambiente misto.
              A comunidade etíope é muito fechada. Estamos em Israel há 30 anos, não muito tempo. Viver em outro país não é fácil, em especial para pessoas mais velhas. É mais difícil para eles aceitarem a mudança, encontrarem trabalho, aprenderem a língua.
              Acho que minha geração e a geração seguinte terão mais chances de se adaptar confortavelmente a Israel.
              COR
              Percebi que, nos últimos dois meses, depois da minha vitória no concurso, há uma cobertura mais positiva na mídia a respeito dos imigrantes etíopes --e espero que logo as pessoas possam ver através da cor da pele.
              Minha melhor amiga, israelense, sempre me encorajou a ir para a competição. Eu achava que já estava na hora de Israel ter uma rainha da beleza vinda da Etiópia.
              Realmente quero ser uma modelo e quero representar Israel. Acredito que a competição é a maneira mais correta de fazer ambas as coisas.
              Depois da escola, estive no Exército. Fui uma instrutora da Polícia Militar. Instruía soldados. Servi durante três anos. Saí do serviço em setembro, e trabalhei como vendedora em uma loja de sapatos. Então ganhei o concurso e larguei o emprego.
              Estou orgulhosa de representar a comunidade etíope em Israel. Cada um de nós, à sua própria maneira, contribui para a consciência, criando uma ponte entre o povo que vive em Israel.
              MAR
              Este é meu país. Eu me senti em casa imediatamente. Mesmo que não seja fácil, ainda assim essa é a minha casa. Amo o calor humano, as paisagens. Amo o mar.
              Quando estava no internato, participava de corridas, era meu alívio. Corria na praia. Sempre vou à praia para pensar, para relaxar.
              Viajei para a Etiópia em setembro passado, quando saí do Exército. Fiquei um mês lá. Usei minhas economias para construir a lápide do túmulo da minha mãe. Não é muito visitado, porque não há membros da família morando nas redondezas. Quis investir para preservar.
              Visitei também minha família na Etiópia e fechei um círculo importante. Depois de tantos anos de dificuldades, me entreguei ao fato de que não tenho pais. Sabia que tinha de ir, tomar conta do túmulo da minha mãe e começar a viver minha vida.

                sexta-feira, 17 de maio de 2013

                O duque palestino - Diogo Bercito

                folha de são paulo

                Aos 79 anos, empresário vive em palacete em estilo de Veneza e diz se inspirar no herói grego Hércules para vencer os obstáculos a seus negócios
                DIOGO BERCITOENVIADO ESPECIAL A NABLUS (CISJORDÂNIA)Munib al-Masry não deixa a reportagem pegar um segundo guardanapo em cima da mesa, durante a entrevista. "Use o mesmo." Depois, insiste em oferecer os bolinhos feitos em seu palácio. "Anda, você comeu pouco."
                Aos 79 anos, aquele que é o palestino mais rico do mundo mantém a vista no império que ele ergueu durante as últimas décadas seguindo um comportamento rigoroso, conforme ele mesmo afirma.
                Masry está à frente da Padico, holding de 35 empresas em diversos setores, com patrimônio US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2 bilhões), segundo ele próprio. Também fundou a Edgo, de serviços geológicos.
                Fortuna e comportamento excêntrico colaram em Masry uma série de apelidos, entre eles "duque de Nablus", por causa da cidade natal, e "Rothschild palestino", em comparação com a família de banqueiros judeus.
                "Mas eu prefiro ser chamado de vovô'", diz. "Gosto de ajudar os outros, de ouvir os problemas, de resolver."
                Masry tem dois filhos, quatro filhas e 18 netos. "Meus filhos foram preguiçosos", critica. "Se eles tivessem tido seis filhos cada um, como eu, seriam 36 netos."
                HÉRCULES
                O empresário palestino recebe a reportagem em seu palácio de Nablus, construído no topo do monte Gerizim, com vista para o vale.
                Apelidado "Bait Filastin" --em árabe, "casa palestina"--, o local é um marco na cidade. A inspiração é um palacete veneziano de Andrea Palladio (século 16).
                No centro, uma estátua do herói grego Hércules trazida da França. O personagem é o modelo para o empresário diante dos obstáculos aos seus negócios, como os bloqueios israelenses à movimentação de bens e pessoas.
                "Esperamos, esperamos. As frutas apodrecem. Mas isso tudo é parte da resistência. Imito Hércules na sua perseverança, paciência, força", afirma. "E esperança."
                São os sentimentos que ele diz nutrir também em relação às negociações de paz entre israelenses e palestinos, a despeito de suas frustrações.
                Após estudar nos EUA e trabalhar na Jordânia, Masry decidiu voltar à Cisjordânia, onde havia crescido, assim que foram estabelecidos os acordos de Oslo, em 1993.
                "Eu achava que teríamos um Estado palestino imediatamente", afirma. "Pensei que eu teria um passaporte."
                POLÍTICA
                Ao voltar do exílio, Masry investiu em companhias que pudessem construir a infraestrutura para um futuro país. A Padico, que ele fundou em 1993, atua em turismo, construção, telecomunicação e parques industriais.
                O território palestino da Cisjordânia, porém, ainda carece de conexão 3G, portos, aeroportos e livre trânsito para a faixa de Gaza --entraves a negócios locais, diz.
                A Padico é a única empresa em que ele ainda está à frente. A Edgo está hoje com seus filhos. Além disso, afirma, só se dedica à política.
                Amigo próximo de figuras como Yasser Arafat (1929-2004), presidente da Autoridade Nacional Palestina, e Abdullah 2º, rei da Jordânia, Masry é constantemente aventado pela imprensa local como um possível futuro primeiro-ministro palestino.
                Ele desconversa. "Estou velho. Agora, queria ver uma jovem mulher como premiê. Precisamos de mudanças."
                Novidades, segundo ele, para chegar à "liberdade" --sua palavra predileta.
                "Para mim, significa poder expressar meus pensamentos, ter um país independente, contribuir com o mundo, viajar. Estou acostumado a me mover. Liberdade de movimento, de ideias. Quero poder ir a Jerusalém sem restrições", afirma.
                JANTAR
                Masry precisa se mexer. Tem um compromisso em Ramallah. Sugere prosseguir com a entrevista no carro. Ele responde às perguntas com dois celulares na mão, e se irrita quando a reportagem hesita em interrompê-lo. "Vai falando comigo enquanto estou no telefone."
                Na passagem por um assentamento israelense, o carro é parado. Ele entrega o passaporte. Um soldado quer ver o documento do motorista. "Não", responde Masry. "Essa é minha casa, não precisamos mostrar os papéis."
                O militar revida: "Não, essa não é sua casa. É minha terra. Você é meu convidado aqui. Você precisa ler meu livro sagrado para entender".
                Masry, elogiado pelos esforços pela paz, parece ser colocado à prova pelo soldado, que tenta provocá-lo.
                O empresário estende a mão direita e convida o soldado e sua mulher para jantarem em seu palácio, quando quiserem. "Mas, antes disso, me convide primeiro."

                  quarta-feira, 15 de maio de 2013

                  Hackers do ditador [Exército Eletrônico Sírio, pró-regime] - Diogo Bercito

                  folha de são paulo

                  Hackers do ditador
                  Exército Eletrônico Sírio, pró-regime, faz guerrilha on-line contra grupos apoiados por rebeldes e se especializa em invadir sites
                  DIOGO BERCITODE JERUSALÉMEnquanto os Exércitos do regime sírio e da insurgência batalham pelo controle físico de cidades como Damasco e Aleppo, soldados de outra sorte disputam em um terreno abstrato -a informação.
                  Armado pela informática e camuflado no anonimato, um grupo de hackers montou o chamado Exército Eletrônico Sírio, uma espécie de braço virtual do regime do ditador Bashar al-Assad.
                  A ideia é levar a batalha para um campo até agora dominado por sites e hackers simpáticos aos insurgentes (veja ao lado).
                  Os hackers de Assad também atacam sites daqueles que consideram como inimigos do regime, danificando seus sistemas.
                  Na semana passada, o site satírico "The Onion" uniu-se à lista de territórios tomados pelos corsários virtuais.
                  Antes, os sites da rede britânica BBC e do jornal "The Guardian" foram alvo.
                  Quando a vítima foi a agência de notícias Associated Press, em abril, publicando uma falsa notícia a respeito de ataques à Casa Branca, a Bolsa dos EUA despencou.
                  O Exército Eletrônico Sírio se apresenta como uma ação independente motivada pela necessidade de defender o país em um âmbito virtual.
                  Mas Helmi Noman, um pesquisador da Universidade de Toronto, rastreou o domínio desses soldados on-line -até descobrir que o site foi registrado pela Sociedade Síria de Computadores, antigamente liderada pelo próprio Assad.
                  "Os Exércitos eletrônicos que surgiram durante a Primavera Árabe são, em geral, campanhas de relações públicas", diz. "Hackear tem sido uma das táticas usadas por regimes árabes para destruir o conteúdo virtual de seus oponentes. É uma maneira radical de censura."
                  MÉTODO
                  Segundo relatos publicados na mídia após os ataques, o Exército Eletrônico Sírio usa truques virtuais simples para suas invasões.
                  No caso do "The Onion", os soldados atacaram com "phishing" -manobra de fraude eletrônica para adquirir, por exemplo, uma senha.
                  E-mails foram enviados a funcionários do site até alguém clicar num link que parecia levar a uma notícia real.
                  Em seguida, a vítima preencheu um formulário com sua senha, acreditando fazer login em sua conta do Gmail. A partir daí, os hackers tiveram o acesso aberto.
                  Desde o surgimento, esse grupo atacou também sites como os da Universidade Harvard e da rede de TV Al Jazeera, baseada no Qatar, país que é uma espécie de padrinho dos rebeldes sírios.
                  "Isso, é claro, envergonha os veículos de imprensa e deixa perplexos seus seguidores", diz Noman. "Se eles continuarem a invadir contas de Twitter, os usuários vão passar a pensar antes de acreditar no que eles leem."
                  DESCRENÇA
                  A atividade de hackers pró-regime em países como a Síria se alimenta, em parte, da descrença da população em relação ao que é divulgado por veículos de imprensa.
                  Moradores de Majdal Shams -um vilarejo anteriormente sírio, controlado por Israel desde 1967- afirmam, por exemplo, apoiar o regime de Assad por não acreditar no que veem pela televisão.
                  A dúvida é especialmente forte quando se trata de informação de Al Jazeera e Al Arabiya -esta, financiada pela Arábia Saudita, também contrária ao regime sírio.
                  "A brutalidade extremiza as posições", afirma Wiyam Amasha, 31, morador de Buqata, nas colinas de Golã -hoje em Israel, mas de população majoritariamente síria. "A maior parte da mídia tem uma agenda. Nunca são só fatos", afirma. "Estamos longe dos acontecimentos."
                  Amasha combate grupos como o Exército Eletrônico Sírio divulgando via Facebook fotos e informações a respeito do conflito no país.
                  Recentemente, ele descobriu que seu nome está em uma lista de assassinatos do serviço secreto. Seu pai passou 14 dias internado, após um acidente de carro que ele acredita ter sido intencional.
                  "O problema é que a rede social é ampla e está fora do controle, e é difícil encontrar seu caminho entre tanta informação, tanto barulho", afirma.

                    sexta-feira, 19 de abril de 2013

                    Minha história - Amina Tyler, 19

                    folha de são paulo

                    Meu corpo me pertence
                    Garota da Tunísia atrai a ira de conservadores após mostrar seios nus em defesa de direitos das mulheres no mundo árabe e é apoiada por feministas de vários países, principalmente ligadas ao grupo Femen
                    DIOGO BERCITODE JERUSALÉM
                    RESUMO
                    A tunisiana Amina Tyler, 19, divulgou em março imagens suas com os seios desnudos. Em seu corpo, a garota escreveu "Foda-se sua moralidade" e "Meu corpo é minha propriedade, e não é a honra de ninguém". Ameaçada de morte por conservadores no seu país, ela diz ter sido sequestrada pela própria família --e fugiu na semana passada.
                    -
                    No meio tempo, mobilizou as feministas do grupo Femen em vários países por sua causa. Ela pode ser sentenciada a seis meses de prisão.
                    Quando era mais nova, meu sonho era o mesmo das outras garotas. Queria me casar com o homem certo, comprar uma casa, ter família.
                    As coisas começaram a mudar há três anos. Passei a ler sobre feminismo, na internet. Meu sonho é convencer as mulheres de que são livres.
                    Na escola, descobriram que sou agnóstica e feminista. Todos ficaram contra mim. Não era diferente do que eu vivia dentro da minha família. Tentavam me convencer a mudar minhas convicções.
                    Foi duro para uma parte de mim. Mas a outra parte não ligava. Você ouve e joga no lixo. Minhas opiniões são a única coisa certa para mim.
                    O melhor exemplo de feminismo é o Femen [grupo de origem ucraniana que realiza protestos topless pelo mundo]. Tudo o que é radical me serve.
                    Fizemos manifestações pacíficas na Tunísia e nada mudou. Agora os islamitas [que controlam o governo do país árabe] pensam que estamos assustadas, que não somos fortes.
                    Os extremistas não querem ver o corpo da mulher. Dizem que é pornografia. Eles têm medo de que uma garota abra um livro. Mostrar meus seios é horrível para eles, e eu quero provocá-los. Quero mostrar o que não querem ver.
                    Um dia, espero que alguma coisa mude. As mulheres vão estar convencidas de que são livres. Vão poder fumar seus cigarros, fazer o que quiserem e ser felizes.
                    A história das fotos que tirei é bem engraçada, por isso estou rindo [enquanto conto]. Eu estava hesitante quando escrevi "Foda-se sua moralidade". Não esperava que fosse ter esse impacto.
                    Então, conversando com meus amigos, tive a ideia de fazer as outras fotos. Pensei por duas semanas até chegar ao slogan "Meu corpo é minha propriedade, e não é a honra de ninguém".
                    Muitas pessoas ficaram contra mim. Disseram que eu merecia ser apedrejada.
                    Minha família não se importava com o fato de que eu não uso o hijab [véu]. Isso não era um problema. O problema, para eles, foram as minhas fotos na internet. Ver meu topless foi inaceitável.
                    Minha tia me ligou um dia pela manhã e perguntou: "É você nessas fotografias?". Depois disso, todo o mundo começou a me telefonar.
                    Fugi da minha família e fui para a casa de amigos, mas eles me encontraram em um café. Meu primo me pegou. Eles foram tão violentos. Alguns me bateram.
                    Em casa, tentaram me exorcizar mais de cinco vezes, mesmo sabendo que não sou muçulmana. Também me fizeram repetir trechos do Corão todos os dias.
                    Quebraram meu celular. Tomaram meu laptop. Fizeram de tudo para me esconder do mundo por um mês.
                    Fiquei primeiro na casa da minha avó. Depois, na casa dos meus pais. Então fomos para a casa de parentes, em um vilarejo no interior.
                    Nesse tempo, fizeram um teste de virgindade em mim. Não sei o porquê. Foi horrível. Minha família também me deu remédios para eu dormir o dia todo. Mas fui forte.
                    Nunca em toda a minha vida tomei remédios. Só durante esse mês. Agora querem dizer que sou louca.
                    Eles estão pensando apenas na própria reputação. Eu esperava que minha família se voltasse contra mim, mas não desse modo.
                    Não fiquei assustada, porque não tinha dúvidas de que muitas pessoas ao redor do mundo me apoiavam. Vi fotos de brasileiras de topless segurando cartazes com os dizeres:"Liberte Amina". É isso que me fortalece.
                    Fugi da minha família há uma semana. Todos estavam ocupados fazendo alguma outra coisa, então aproveitei a oportunidade e corri, de pijama. Mesmo se estivesse pelada, teria fugido.
                    Mudei meu cabelo para ninguém me reconhecer, especialmente os islamitas.
                    Na época do Ben Ali [ditador tunisiano derrubado do poder em 2011], as mulheres estavam melhores que agora.
                    Ele era um ditador na política, mas não impunha uma ditadura sobre as mulheres. A situação está horrível. As mulheres usam burca, coisa que não usavam antes.
                    Estou tentando organizar um protesto topless. Queremos, o Femen e eu, algo que envolva outras mulheres tunisianas. Depois, vou direto para o aeroporto. Quero ir para a França. A polícia já está me procurando aqui.
                    Tenho de partir porque nenhuma escola na Tunísia vai me aceitar. Estou reunindo os documentos. Minha família queimou meu passaporte.

                      domingo, 14 de abril de 2013

                      O polêmico Dr. Sêmen - Diogo Bercito

                      folha de são paulo


                      Médico palestino diz que trafica esperma de presos para fecundar suas mulheres, que confirmam ter engravidado dessa forma; Israel afirma que o contrabando é difícil, mas não impossível
                      DIOGO BERCITOENVIADO ESPECIAL A NABLUS (CISJORDÂNIA)O palestino Ammar al Ziben, 38, está detido há 16 anos em Israel. Cumpre 27 sentenças de prisão perpétua e está proibido de receber visitas íntimas.
                      Ammar dizia à mulher, separado dela por um vidro, que já se considerava morto, incapacitado de dar continuidade à linhagem familiar.
                      Até que um recente esquema de contrabando de esperma e fertilização in vitro culminou, segundo o médico responsável, no nascimento de um pequeno garoto chamado Muhannad. Seu filho.
                      Seria o resultado de uma amostra de sêmen traficada de dentro de uma prisão para um laboratório, desafiando as autoridades penitenciárias israelenses.
                      Mas o garoto é também fruto da defesa do médico Salim Abu Khaizaran, 56, de que é preciso mitigar o que considera o drama familiar dos mais de 4.700 prisioneiros palestinos em Israel.
                      "Somos uma sociedade conservadora e gostamos de ter filhos", diz à Folha. "Há uma pressão muito grande sobre as mulheres. Em alguns casos, se o marido é solto, elas já não estão mais no período fértil e têm de aceitar que ele se case de novo."
                      A ideia de contrabandear sêmen dos palestinos partiu das lideranças presidiárias, que procuraram Abu Khaizaran para perguntar a ele se a fertilização seria viável do ponto de vista técnico.
                      O médico, por sua vez, consultou as autoridades islâmicas para investigar se a fertilização seria aceita religiosamente. Seria, e um pronunciamento legal ("fatwa") foi emitido a seu favor.
                      Foi a vez de Dallal al Ziben, mulher de Ammar, ir à clínica e pedir que Abu Khaizaran lhe ajudasse a realizar o sonho do marido: ter um filho. Antes da prisão, ele já tinha gerado duas meninas.
                      DOR
                      A ideia veio a Ammar em 2004, depois da morte de sua mãe, então em greve de fome pela libertação do filho. "Ele queria trazer uma pessoa à vida", diz Dallal, 32.
                      "No começo eu estava hesitante. Pensava em como as pessoas iriam olhar para mim, grávida, sabendo que meu marido está na prisão."
                      Encorajada pela família e pelo vilarejo de Maythalun, aceitou. Segundo ela, foram necessárias três tentativas, incluindo um fracasso na fertilização e um aborto natural. "Que ninguém pense que foi fácil. Foi muito doloroso, e não sei se faria de novo", diz.
                      Muhannad foi recebido com alegria na vila, "como se fosse uma festa de casamento", conta. Para o marido, diz, significou uma razão para lutar pela soltura.
                      Ammar foi preso em 1997, condenado pela acusação de treinar homens-bomba, de acordo com a sua mulher.
                      Segundo o médico, outras oito mulheres estão grávidas após passarem pelo mesmo procedimento. Na clínica, diz Abu Khaizaran, existem mais de 60 amostras de esperma de prisioneiros palestinos congeladas.
                      O médico e Dallal se recusaram a explicar de que maneira o sêmen é traficado e em que condições é retirado.
                      Procurada pela Folha, a autoridade penitenciária israelense diz que o contrabando de sêmen na prisão seria "muito difícil" de ocorrer. Mas não impossível.
                      "As condições de visita são restritivas, e só as crianças de até oito anos podem tocar os prisioneiros", diz a porta-voz Sivan Weizman. "Estão sempre sob vigilância."
                      Mas as crianças não são revistadas ao sair.
                      Weizman afirma que a proibição a visitas íntimas é por segurança. "Visitantes podem trazer outras coisas, como um telefone, uma arma", diz.
                      TESTEMUNHAS
                      No quesito técnico, a fertilização in vitro com o sêmen tirado da prisão seria também viável, de acordo com especialistas consultados pela Folha.
                      Antes de congelar a amostra, Abu Khaizaran exige que duas testemunhas do marido e duas da mulher confirmem qual é a autoria do sêmen.
                      Os prisioneiros palestinos são um dos assuntos-chave para a retomada das negociações entre árabes e israelenses. O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, exige que parte dos detentos seja solta.
                      Se para Israel eles são considerados terroristas, para palestinos os presidiários são encarados como heróis da resistência à ocupação.
                      Quando morrem na prisão, eles são enterrados como mártires, caso no início do mês de Maysara Abu Hamdiyeh --vítima de um câncer de esôfago, pelo qual ele era tratado em hospital.
                      O assunto estará especialmente em foco nesta semana. No dia 17, é relembrado o "dia do prisioneiro" nos territórios palestinos, e há manifestações programadas.
                      "É uma questão emocional", diz Abu Khaizaran. "Somos uma comunidade pequena, e todos conhecem alguém que está na prisão."
                      Ele afirma que não cobra pelos procedimentos médicos e que por causa disso tem grande prejuízo.
                      Também afirma que recusa o apoio oferecido pelos grupos políticos Hamas e Fatah, pois não quer "politizar o assunto".
                      "Que tipo de pessoa eu seria se pedisse dinheiro para essas famílias?"

                        SAIBA MAIS
                        Especialistas afirmam que método é viável
                        DO ENVIADO A NABLUSNão há detalhes de como é feito o transporte do sêmen entre a prisão e a clínica de Abu Khaizaran. Mas médicos ouvidos pela reportagem afirmam que, caso não haja longo tempo entre a ejaculação e o congelamento, a fertilização é tecnicamente viável.
                        "Um homem ejacula milhões de espermatozoides", afirma Dirceu Mendes Pereira, diretor da clínica Profert e conselheiro da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. "Se [o congelamento] for feito após duas, três horas, é possível", diz.
                        A fertilização in vitro, método usado por Abu Khaizaran, é a técnica mais sofisticada na reprodução assistida. É feita em laboratório, inserindo um espermatozoide em um óvulo e, em seguida, o embrião no útero.
                        Nas condições descritas pela reportagem, Arnaldo Cambiaghi, médico do IPGO (Instituto Paulista de Ginecologia e Obstetrícia), diz que é possível que a fertilização tenha ocorrido.

                          Ministro palestino diz que governo dá apoio a iniciativa
                          DO ENVIADO A BELÉM (CISJORDÂNIA)Mesmo que haja desenvolvimento econômico e ampliação do controle palestino na Cisjordânia, "ainda assim, o processo de paz vai emperrar se nossos filhos continuarem detidos", diz Issa Qaraqe, ministro palestino de Assuntos de Cativos e Libertos.
                          Ele recebe a Folha em Belém para discutir essa questão que, afirma, "representa um valor cultural palestino".
                          "O povo tem um nível de identificação muito mais próximo com os prisioneiros do que com o muro e os assentamentos", afirma Qaraqe.
                          Procurada pela reportagem, a autoridade penitenciária israelense não quis comentar o caso específico de Yigal Amir, citado pelo ministro durante a entrevista.
                          Mas uma porta-voz confirmou que, ao contrário dos prisioneiros palestinos, o assassino de Yitzhak Rabin teve o direito de se casar na prisão e também de receber visitas íntimas da mulher.
                          -
                          Folha - Um médico palestino diz que participa de esquema de contrabando de sêmen para engravidar mulheres de prisioneiros. O que o sr. pensa?
                          Issa Qaraqe - Apoio esse ato. Mas o processo ainda ocorre pelas costas das autoridades israelenses. Os prisioneiros transportam o sêmen secretamente. Se pegos, terão de enfrentar sentenças mais longas.
                          Qual é a importância política dos prisioneiros palestinos?
                          Eles representam um valor cultural. É um dos primeiros passos para criar uma paz justa. Manter palestinos nas prisões israelenses é sinal de que a ocupação dos territórios irá continuar.
                          A independência palestina está relacionada à prática da liberdade. Nosso esforço é representado pelos que estão atrás das grades das prisões.
                          Há um valor emocional?
                          Sim. A questão está relacionada ao sofrimento do povo e dos que têm conexões com os prisioneiros. Todo tipo de passo no processo político que ignore a liberdade dos prisioneiros não terá valor para a população.
                          Caso haja desenvolvimento econômico, caso áreas passem para controle palestino, --ainda assim o processo de paz vai emperrar se nossos filhos continuarem na prisão.
                          Palestinos chamam em árabe um homem preso de "cativo", e não "prisioneiro". Israel diz que são "terroristas". Há uma divergência de visões?
                          É claro. Os israelenses não os reconhecem como prisioneiros políticos; para eles, são criminosos. Como povo, consideramos esses homens guerreiros da liberdade. São pessoas que deram a vida pela causa. Nós nos recusamos a tratá-las como terroristas.
                          O sr. acredita que o tratamento a prisioneiros palestinos e israelenses seja igualitário?
                          Não. Existe discriminação. Os judeus são mais bem tratados. Yigal Amir [que assassinou o ex-premiê israelense Yitzhak Rabin em 1995] casou-se dentro da prisão e recebe visitas íntimas.

                          domingo, 31 de março de 2013

                          Samaritanos lutam para não desaparecer

                          folha de são paulo

                          Ameaça demográfica persegue povo que hoje sofre com escassez de mulheres e é obrigado a trazer noivas de fora
                          Homens podem casar com companheiras de outras religiões desde que haja conversão para samaritanismo
                          DIOGO BERCITOENVIADO ESPECIAL A KIRYAT LUZA (CISJORDÂNIA)No começo do século 20, eles tiveram seu desaparecimento anunciado. Não havia, à época, mais de uma centena de samaritanos no mundo.
                          Após enganar o monstro da demografia, que os queria devorar, hoje eles são mais de 750, em duas cidadelas.
                          Mas esses que se dizem os verdadeiros israelitas bíblicos não baixam a guarda -a praga demográfica ainda os persegue, agora com a escassez de mulheres entre eles. A questão é agravada pela proibição ao casamento com seguidores de outros credos.
                          Com isso em mente, os anciões da comunidade passaram a permitir que os homens tragam mulheres de fora do povoado e da religião para convertê-las e assim estimular a natalidade.
                          Eles escolheram, via agências de matrimônio, em geral russas e ucranianas -que já caminham nas ruas levando os filhos pelas mãos, conforme a Folha testemunhou.
                          Pouco receptivos a estrangeiros, porém, alguns membros das sete famílias que moram em Kiryat Luza, uma das duas vilas samaritanas, dizem à reportagem não estar à vontade com a solução.
                          "Eu nunca me casaria com uma estrangeira", diz Breeto Cohen, 20. "Quando você faz isso, sai da religião", afirma.
                          As mulheres procuradas pela reportagem não quiseram ser entrevistadas. Uma delas, que disse se chamar Nataly, mora na casa do alto sacerdote do vilarejo.
                          "Muitos não gostam [da solução]", diz Abdullah, jovem muçulmano que trabalha como guia no museu de Kiryat Luza, onde moram 350 dos samaritanos. Os demais moram em Holon, perto de Tel Aviv. "Eles preferem as mulheres samaritanas."
                          O universitário Rida Altif, que reclama da dificuldade de encontrar uma namorada e da competição com os amigos, está aberto à opção. "Somos humanos. Eu me casaria com uma estrangeira."
                          Mas a alternativa tem uma condição, diz Dan Hakam, 16. "Elas têm de seguir as tradições como a gente."
                          MONTE SAGRADO
                          Kiryat Luza ocupa o topo do monte Gerizim, um cume seco despontando entre vilarejos árabes.
                          A vista é estratégica -embaixo, a cidade palestina de Nablus se esparrama no vale. Táxis fazem o caminho monte acima por R$ 7. Para descer, o preço é R$ 1,50.
                          Durante o dia, as ruas estão vazias. Um parquinho enferruja, abandonado. Há dois mercadinhos e uma tenda para bebidas alcoólicas -para suportar o vento gelado, dizem.
                          É para essa montanha que todos os samaritanos rumam em dias festivos. A religião pede que ritos sejam realizados apenas ali.
                          Gerizim é uma das principais divergências desse grupo em relação aos judeus. Para os samaritanos, foi no monte Gerizim que Abraão se prontificou a sacrificar seu filho Isaac. "Os judeus acreditam em Jerusalém", afirma Hakam. "Mas nós acreditamos nesta montanha."
                          A separação entre samaritanismo e judaísmo ocorreu no primeiro milênio antes de Cristo, quando judeus foram exilados em massa na Babilônia.
                          A religião que eles trouxeram de volta, dizem os samaritanos, foi corrompida durante o tempo de cativeiro, e não corresponde às crenças israelitas.
                          "Eles se referem a si mesmos como o 'verdadeiro Israel'", diz Terry Giles, teólogo da Universidade Gannon, nos EUA, que pesquisa a Bíblia samaritana. "Eles dizem preservar a religião", afirma.
                          Há afinidades entre as crenças de samaritanos, judeus, cristãos e muçulmanos -são todas religiões ditas "abraâmicas". Mas, isolados entre povos em conflito, os samaritanos tentam se manter distantes dos irmãos de fé.
                          "Os árabes pensam que somos judeus", afirma Cohen. "Eles nos agridem."
                          "Eles não são gentis", diz o motorista palestino que leva a reportagem de volta à cidade de Nablus -onde nem todos contam boas histórias sobre a vila samaritana, montanha acima. Mas a rivalidade entre os dois locais ignora as pesquisas genéticas e os estudos genealógicos que apontam que a população palestina de Nablus descende em parte de samaritanos convertidos durante o Império Otomano.

                            quinta-feira, 28 de março de 2013

                            Páscoa judaica tem polêmica da "libertação dos legumes"

                            folha de são paulo

                            FOCO
                            DIOGO BERCITODE JERUSALÉMA insurgência se ergueu em Israel. Entre disputas e debates, foi fundada a Frente de Libertação -dos Legumes.
                            Criado no Facebook, esse grupo de rebeldes do "kasher" (os rituais de alimentação, no judaísmo) anuncia seu objetivo como sendo "libertar todos os judeus que querem estar a salvo desse costume questionável que causa divisões desnecessárias entre famílias e amigos".
                            Isso porque há um debate se os "kitniyot" são permitidos durante o Pessach, a Páscoa judaica. "Kitniyot" são um grupo de vegetais que inclui arroz, feijão e milho.
                            "Essa é uma questão simbólica que toca um grande número de pessoas", afirma Quinoa McGee, criador do movimento, à reportagem da Folha. O nome é fictício, pois ele não quis se identificar.
                            "A religião está viva? Ou a história acabou e tem de ser preservada como um museu de nostalgia pelo que foi?"
                            As discussões sobre o que é tradicional ou não são relevantes para o judaísmo, em que costumes são transmitidos pelas comunidades.
                            Por isso a celeuma em torno desses vegetais, já que eles são considerados proibidos para a semana de Pessach pelos grupos ashkenazim (os judeus da Europa Oriental) -mas permitidos pelos sefaradim (os ibéricos).
                            Assim, diz o insurgente, as comunidades são separadas por seus costumes em um dos feriados mais importantes do calendário judaico.
                            A proibição aos "kitniyot" está relacionada a outro impedimento observado durante o Pessach -a ingestão de alguns grãos.
                            No século 13, judeus franceses temiam que, durante o transporte e o armazenamento, eles se misturassem aos legumes, tornando-os portanto impuros.

                              segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

                              Obra reúne clássicos literários adaptados em HQs e ilustrações

                              FOLHA DE SÃO PAULO

                              "The Graphic Canon", inédito no Brasil, retrata desde épico sumério de Gilgamesh até livros contemporâneos
                              São quase 120 artistas para cerca de 1.500 páginas; lista inclui figurões como Robert Crumb e Will Eisner
                              DIOGO BERCITODE SÃO PAULOPara quem desconfia das adaptações de clássicos para quadrinhos, talvez seja um choque. Para os demais, será uma oportunidade de ler -ou reler- obras essenciais da literatura narradas fora da estrutura padrão de parágrafos.
                              É a premissa da série "The Graphic Canon", cujo terceiro e último volume deve ser lançado em abril nos EUA. No Brasil, ela permanece inédita.
                              A trilogia reúne, em quase 1.500 páginas, um apanhado de obras que começa na epopeia de Gilgamesh e se espraia através dos séculos, indo além do cânone ocidental.
                              O editor da antologia, Russ Kick, sabe da encrenca que pode significar verter livros clássicos para o formato de gibis -a transição costuma torcer o nariz de alguns puristas. Diplomático, diz que o intuito era "demonstrar que essas histórias ainda têm significado" ao apresentá-las de uma nova maneira.
                              Kick avalia que seu trabalho é encontrar "a mistura certa de material". Ele já organizou outras coletâneas.
                              "The Graphic Canon" é a sua primeira experiência com histórias em quadrinhos. "Eu quis incluir o maior número possível de tipos de ilustração", diz à Folha. "Não queria que os desenhos se misturassem e parecessem a mesma coisa", afirma.
                              Daí a variedade de traços, desde o sujo de Robert Crumb até o estudo de perspectiva de Will Eisner -passando pelas linhas de promessas como Molly Crabapple. São cerca de 120 autores.
                              Nem todos fizeram quadrinhos, no sentido de narrar as histórias em arte sequencial. Alguns dos trabalhos são ilustrações, como o referente à obra da poeta grega Safo.
                              ESCOLHA
                              Cerca de 75% da antologia consiste em criações inéditas. Procurados pelo editor, os artistas convidados puderam escolher as obras que iriam desenhar a partir de uma lista ou sugerir outros títulos.
                              "Ninguém optou por 'Finnegans Wake' [do irlandês James Joyce], mas acredito que seja uma obra adaptável", palpita Kick.
                              O primeiro "The Graphic Canon" vai de Gilgamesh a "As Relações Perigosas" (Choderlos de Laclos). O segundo, até "O Retrato de Dorian Gray" (Oscar Wilde). O último termina em "Infinite Jest" (David Foster Wallace).

                                sábado, 5 de janeiro de 2013

                                Coletânea de HQs publicada nos EUA reúne quatro décadas de gibis gays, produzidos desde as manifestações de Stonewall

                                FOLHA DE SÃO PAULO

                                HQ mix
                                Coletânea de HQs publicada nos EUA reúne quatro décadas de gibis gays, produzidos desde as manifestações de Stonewall
                                Ilustração do espanhol Nazario, que está em "No Straight Lines"
                                Ilustração do espanhol Nazario, que está em "No Straight Lines"
                                DIOGO BERCITODE SÃO PAULOTome um gênero marginal. Por exemplo, quadrinhos. Coloque dentro dele a produção underground, ainda mais às margens. Por fim, enfie ali os enredos de temática gay.
                                "Os gibis gays são tão contraculturais quanto é possível ser", explica à FolhaJustin Hall, organizador da antologia "No Straight Lines", recém-lançada nos EUA pela Fantagraphics (US$ 22,7, R$ 46).
                                Hall reuniu a produção gay ocidental desde 1969, data das manifestações de Stonewall, em Nova York, marco do movimento gay moderno.
                                Em português, o título da HQ significa "sem linhas retas" -mas, em inglês, "straight" também quer dizer "hétero", além de "reto".
                                O livro reúne o trabalho de celebridades como Alison Bechdel (de "Fun Home", publicado no Brasil pela Conrad) e de desconhecidos do grande público. Não há inéditos nem previsão de sair no Brasil.
                                "São quadrinistas que representam uma minoria oprimida usando um meio desrespeitado para falar sobre questões complexas de identidade e justiça", afirma Hall.
                                Os trabalhos têm uma estética em comum, apesar de variada, com influências vindas dos comix (os gibis com xis, mais undergrounds), da arte erótica gay de Tom of Finland e dos fanzines punk.
                                As obras são marcadas pelas décadas em que foram produzidas. A partir dos anos 1980, por exemplo, passam a tratar da Aids. A introdução da coletânea traz um resumo.
                                SIGNIFICADO
                                Há quem diga que quase tudo nos quadrinhos é gay. Os super-heróis, paladinos saradões do mainstream, vivem sob suspeita, vestidos com colantes supercoloridos.
                                "Sempre houve um grau de homoerotismo, da relação suspeita entre Batman e Robin à ilha da Mulher Maravilha, cheia de mulheres vivendo sem homens", diz Hall.
                                O termo "quadrinho gay", para a antologia, significa as obras que discutem a experiência homossexual a partir de um ponto de vista pessoal. Isso inclui sexo explícito.
                                Mas nem todos os autores publicados são gays, e nem todos os autores gays foram incluídos. "O importante era o material produzido, e não quem o produziu", diz Hall.
                                "O rótulo limita a aceitação do público", diz à Folha Tim Fish, autor de HQs de temática gay. "Por outro lado, amo amo amo saber quais de meus colegas saíram do armário."
                                Tanto Hall quanto Fish, que está na coletânea, concordam que, apesar de nem sempre ser a intenção, essas revistinhas têm papel social.
                                "Queria apenas entreter caras gays com histórias com as quais eles pudessem se relacionar", explica Fish.
                                "Ficava surpreso a cada vez em que um fã me dizia o quanto meu trabalho significou para ele. Saber que o que ele fazia era uma experiência comum era algo importante."
                                No Brasil, a produção é esparsa. Para o quadrinista Laerte, que assina o desenho abaixo, pode ser devido à diferença entre o movimento gay nacional e o americano.
                                "O Brasil vive contradições entre a suposta liberalidade e o conservadorismo", diz.

                                  HQ enfrenta fantasmas de máquinas inteligentes
                                  Graphic novel 'V.I.S.H.N.U.' rediscute terceirização da consciência humana
                                  Ficção científica em quadrinhos brasileira é uma parceria entre Ronaldo Bressane, Eric Acher e Fabio Cobiaco
                                  DOUGLAS GAVRASDE SÃO PAULONo futuro, cientistas, guerrilheiros, governantes e religiosos tentam tomar as rédeas de uma misteriosa inteligência artificial em um mundo dominado pela tecnologia, em que até cidadãos comuns podem ter seus robôs pessoais. Até que tudo, de repente, entra em colapso.
                                  Essa distopia pós-moderna desencadeia uma mudança na ordem mundial, mas não sem antes provocar grandes tragédias pelo planeta.
                                  Tempos depois, uma nova consciência eletrônica, denominada V.I.S.H.N.U, surge de forma espontânea.
                                  Primeira experiência de fôlego dos quadrinhos nacionais no campo da ficção científica, "V.I.S.H.N.U." conta com roteiro do escritor e jornalista Ronaldo Bressane, autor de "Céu de Lúcifer" (Azougue Editorial), e se baseia em um argumento de Eric Acher. A arte é de Fabio Cobiaco.
                                  A aventura tecnológica, primeira de uma trilogia, dialoga com traços do quadrinista francês Jean "Moebius" Giraud (1938-2012) e com os conceitos estéticos do artista plástico suíço H. R. Giger, famoso por compor os monstros e cenários do primeiro filme da saga "Alien" (1979).
                                  "O livro é um resultado das inquietações em relação ao livre-arbítrio do homem e ao que ele quer para o futuro. Toca em temas como a transferência de consciência e a imortalidade", diz Bressane.
                                  Segundo o escritor, a ideia era discutir os dilemas de ciência e tecnologia por uma perspectiva pop, imaginando da interação sexual entre homem e máquina a uma questão filosófica central: até que ponto um objeto high-tech pode ser dotado de alma?
                                  Vishnu, na mitologia hindu, é o deus responsável pela manutenção do universo. O romance transforma a entidade em um impulso eletrônico messiânico, gerado dentro de um supercomputador, mas a sociedade corre novo risco de se deixar governar.
                                  Ao compor o argumento, em 2007, Eric Acher revisitou a obra do filósofo indiano
                                  Jiddu Krishnamurti (1895-1986) como inspiração para "V.I.S.H.N.U", questionando o que enxerga como a "terceirização" da inteligência humana para os computadores.
                                  "Hoje usamos dispositivos externos como smartphones para nos conectar. Em alguns anos, poderemos ter computadores com realidade aumentada e, quem sabe, virão os implantes neurais. Difícil prever o que acontecerá em seguida", reflete Acher.
                                  V.I.S.H.N.U.
                                  ARGUMENTO Eric Acher
                                  ROTEIRO Ronaldo Bressane
                                  ILUSTRAÇÕES Fabio Cobiaco
                                  EDITORA Quadrinhos na Cia.
                                  QUANTO R$ 55 (224 págs.)

                                    quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

                                    Com gibi que não é gibi, Chris Ware cria leitura fora de ordem

                                    Folha de São Paulo

                                    Em entrevista à Folha, artista explica o projeto 'Building Stories', que traz 14 peças arranjadas dentro de uma caixa
                                    Edição de HQ, lançada em outubro nos EUA, já está esgotada; não há previsão para publicação no Brasil
                                    DIOGO BERCITODE SÃO PAULO"Caro, aqui está a entrevista, com minhas respostas verborrágicas e pretensiosas demais, pelas quais eu peço perdão antecipadamente."
                                    Desculpas aceitas, Chris Ware. Nem carecia -é justamente a ambição, ou a mania de ser diferente, que marca o trabalho do quadrinista americano premiado com 18 Eisner Awards, o Oscar das HQs, e considerado um dos mais criativos artistas do gênero atualmente em atividade.
                                    Ware está acostumado a construir com temas como isolamento social, depressão e tormento. Ele usa esses mesmos tijolos em seu projeto mais ambicioso: o recém-lançado "Building Stories", que já figura na lista das HQs essenciais desta década.
                                    O gibi, lançado em outubro passado nos EUA e já esgotado, não se parece com um gibi. Por fora, ele lembra uma caixa. Por dentro, traz 14 peças, entre elas um livro, um jornal, um folheto e uma tirinha impressa nos dois lados.
                                    Não há ordem para a leitura, e até a embalagem conta a história, em anotações registradas em seus cantinhos. O leitor constrói a narrativa conforme decide o que ler primeiro e em que sequência.
                                    É a inusitada representação física do que Ware acredita serem as HQs: "o contrário do que pensam que um gibi é, ou seja, uma história ilustrada sobre moral e/ou musculatura em metástase".
                                    Essa concepção, para o artista, "deixa escapar a verdadeira vantagem do meio". "As HQs são a esteticização do processo de leitura, uma tentativa de tomar os conceitos limitantes da linguagem e devolvê-los como coisa visível."
                                    Ware entrega ao leitor as memórias de um punhado de personagens. São lembranças tristes. Como é de seu feitio, ele se concentra nas histórias melancólicas, ao ponto de parecer que as felizes são só uma extravagância.
                                    Uma abelha em crise de gênero. Uma mulher que, deitada, tenta se lembrar de quando o marido passou a sentir repulsa por ela. Uma vizinha sem perna -cuja privada do apartamento entope.
                                    A tristeza é tamanha que parece infiltrar-se nas paredes do prédio em que todos os personagens vivem. Até o imóvel se deprime, enquanto pensa no tempo decorrido desde o seu esplendor (quando ainda tinha friso no topo).
                                    CONSTRUCTO
                                    Uma das chaves para entrar em "Building Stories" está nesse edifício de três andares. O título do gibi pode ser traduzido, em português, como "construindo andares" ou "construindo histórias".
                                    Os quadrinhos foram erguidos com precisão por Ware, que gastou 40 horas para cimentar cada página, "e a aparente clareza do traço vem de querer que a história seja tão legível quanto possível, de forma a permitir maior ambiguidade e incerteza", diz.
                                    "Isso mostra como eu experiencio a vida. Por exemplo, raramente duvido que minha mulher e filha estejam sentadas ao meu lado na mesa de jantar. Mas como cheguei ao ponto em que tenho na mesa de jantar uma mulher e uma filha que amo tanto? Essa é a parte estranha."
                                    Ao publicar "Building Stories" em 14 itens soltos, tendo em vista a experiência tátil de lidar com a obra, Ware se dedica ao livro como meio necessariamente impresso.
                                    Nesse desmembramento do objeto, o quadrinista também cria um gibi que, afinal, não é exatamente um gibi.
                                    "Como o 'livro' é ele próprio um elemento imaginário em 'Building Stories', ele tem de se tornar um objeto físico para que tenha qualquer efeito emocional real no leitor."
                                    Não há previsão de lançamento desse gibi no Brasil. "Jimmy Corrigan", seu maior sucesso, saiu pela Companhia das Letras em 2009.



                                    CRÍTICA / QUADRINHOS
                                    Engenhosa, obra é ápice da carreira do quadrinista
                                    RODRIGO LEVINOEDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA"Faz tempo que quadrinhos deixaram de ser coisa só de criança ou adolescente. Mas é improvável não se sentir assim diante dos 14 fragmentos que compõem "Building Stories", o "tour de force" de Chris Ware, tamanhas as possibilidades, invencionices e formatos da obra.
                                    O fio condutor da trama, dividida em objetos que vão de jornais e tabuleiros montáveis a tirinhas e folders, é a história de uma mulher solitária que tem parte da perna esquerda amputada.
                                    Quer dizer, esse é o desenrolar "normal" da HQ, que acompanha a protagonista da infância à vida adulta. As mil outras possibilidades ficam por conta da curiosidade do leitor. Um desbunde.
                                    À parte o jogo proposto pelo autor, "Building" conserva os traços marcantes de Ware -o pendor para a melancolia, o traço detalhista, a economia de palavras- e é uma obra comovente.
                                    Tempos atrás, Ware disse que via o livro como um corpo vivo. Ao deixar que o leitor dê vida a esse corpo, ele faz com que saltemos livremente no seu modo particular de enxergar o mundo.