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domingo, 25 de agosto de 2013

Por uma vida menos ordinária [Peter Singer] - Marcelo leite

folha de são paulo

De mal com a natureza


 
MARCELO LEITE
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RESUMO Após povoar a literatura nos anos 2000, o temor do aquecimento global arrefece, mas não se apaga. Em novos romances, protagonistas se mostram entediados diante da percepção de que a catástrofe não é tão iminente como parecia, e falta reencontrar o fascínio com o mundo natural que vigia nas letras entre o séc. 19 e o 20.[continue lendo aqui ]
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ENTREVISTA PETER SINGER
Por uma vida menos ordinária
O filósofo australiano nos recorda de que a ética é coisa do dia a dia
MARCELO LEITERESUMO Peter Singer, professor da Universidade de Princeton (EUA), vem ao Brasil para duas palestras no ciclo Fronteiras do Pensamento. Ele argumenta que a pobreza e a mudança do clima são os maiores problemas do mundo e, como solução, defende que as pessoas reduzam consumo de carne e doem parte de sua renda.
O filósofo australiano Peter Singer, da Universidade de Princeton (EUA), é o conferencista de amanhã, em Porto Alegre, do ciclo Fronteiras do Pensamento. Na quarta-feira ele estará em São Paulo para palestra no Teatro Geo, onde deve abordar temas de ética prática como a pobreza no mundo, escolhas alimentares, bem-estar animal e mudança climática.
Para o controverso autor do clássico "Libertação Animal" [trad. Marly Winckler e Marcelo Brandao Cipolla, WMF Martins Fontes, 496 págs., R$ 79,90], cada pessoa deveria doar uma parte de sua renda para ajudar a diminuir a desgraça de 1 bilhão de pobres que vivem com menos de um dólar por dia. Esse é o tema do livro "The Life You Can Save", de 2009 (lançado em Portugal com o título "A Vida que Podemos Salvar", Gradiva, 252 págs., R$ 69,10, sob encomenda), mas um de seus primeiros artigos, de 1972, já tratava dele --e foi citado por 1.259 outros autores desde então.
Singer está insatisfeito com o efeito do livro, que calcula ter vendido 60 mil cópias no mundo inteiro. Mais ainda com o baixo número de "compromissos" (pledges) da página de internet equivalente, em que pessoas comuns podem jurar em público que vão passar a doar determinado percentual de sua renda para organizações de caridade: 16.394. Ele doa um terço de sua renda, mas prefere não equiparar a "cegueira moral" dos outros ao Holocausto, e diz que é o maior problema do presente é a pobreza, ao lado da mudança do clima, no futuro.
Folha - O tema da mudança climática já apareceu também no seu radar ético? Ela tem o potencial de tornar a vida pior para um bocado de gente pobre, no futuro. Devemos nos importar menos com as vidas futuras do que com as do presente?
Peter Singer - Esses dois assuntos estão intimamente conectados. A resposta curta para a pergunta é "não". Devemos nos importar o mesmo tanto com as pessoas, não importa a época em que vivam. Claro que há questões sobre a incerteza, quando falamos do futuro. Nós podemos saber muito mais sobre as pessoas que vivem agora, de modo a ajudá-las, do que podemos saber sobre pessoas que viverão daqui a cem anos. Isso é relevante, e podemos aplicar um desconto sobre o futuro, mas num grau bem pequeno.
Não é demais pedir a alguém que se torne vegetariano e ainda por cima doe uma porção significativa de sua renda para combater a pobreza?
Reconheço que só algumas pessoas vão de fato agir nesse sentido. Mas acho que todo mundo poderia considerar uma mudança nas suas escolhas alimentares e, se tiverem alguma sobra de dinheiro, considerar sua responsabilidade perante os pobres do globo. Não é uma questão de tudo ou nada, ou você se torna um vegetariano ou não faz nada. Várias pessoas nos Estados Unidos, por exemplo, estão dizendo: "Bem, eu como carne todos os dias...". Existe uma prática chamada Segunda-Feira Sem Carne. Outros escolhem dois ou três dias por semana em que não comem carne. Penso que seja algo fácil de fazer, uma coisa saudável, e obviamente faz diferença, pelo menos do ponto de vista de reduzir a pecuária industrial e a emissão de gases do efeito estufa.
Se o sr. tivesse de dar um conselho a um adolescente sobre como agir, diria que ele ou ela devem se juntar a uma organização de caridade, a um partido político ou a uma ONG militante? O que seria mais eficaz para salvar vidas agora e no futuro?
Bem, não há razão para não fazer as três coisas. Não precisa ser uma escolha do tipo "ou isso ou aquilo". O valor de se envolver com um partido político vai depender de onde, no mundo, a pessoa vive e de quão abertos são os partidos políticos, da possibilidade de fazer alguma diferença nesses partidos. Minha resposta, realmente, é: quanto mais, melhor.
Há um problema com a ideia de ação individual. Um exemplo: no livro "Uma Verdade Inconveniente", Al Gore dá uma série de ideias sobre o que as pessoas podem fazer para combater o aquecimento global, como trocar as lâmpadas de casa. Mas, desde 2006, as coisas só pioraram nesse campo. O sr. acha que pedir às pessoas que doem parte de sua renda resolve algo?
Acho que não é igual ao caso da mudança climática. Se eu doo para a Oxfam ou outra organização eficiente, isso faz uma diferença específica. Claro que não se trata de resolver a questão da pobreza global; obviamente eles não podem fazer isso. Mas quer dizer que algumas famílias vão receber telas contra mosquitos para as camas e que suas crianças não vão morrer de malária, ou que as crianças vão receber vermífugos e, sem parasitas, serão mais saudáveis, terão mais energia e irão melhor na escola. Ou uma aldeia consegue abrir um poço, e as pessoas não terão mais de caminhar três horas por dia para conseguir água.
A razão para não ser assim com a mudança do clima é que, neste caso, de fato é necessário que governos se unam e estabeleçam limites de emissões de gases do efeito estufa. Não há como reunir um grupo de pessoas que possa fazer algo de significativo para de fato reduzir o aumento dos gases de efeito estufa e o aumento de temperatura resultante. São decisões mais amplas, como livrar-se de usinas elétricas movidas a carvão, criar um imposto sobre o carbono ou um mercado para créditos de carbono. É uma situação diferente da pobreza global, para a qual penso que indivíduos podem fazer uma grande diferença.
Voltando ao tema do bem-estar animal e do bem-estar humano. O sr. responde ao romance "A Vida dos Animais", do sul-africano J.M. Coetzee, indicando que vê problema na comparação que a protagonista, Elizabeth Costello, faz entre o modo como tratamos os animais e o Holocausto. O sr. escreveu: "O valor que se perde quando algo é esvaziado depende do que estava ali quando estava cheio, e há mais [conteúdo] na existência humana do que na de um morcego".
Esse argumento se parece ao de parte de pecuaristas que destroem a floresta no Brasil: eles criam empregos que vão beneficiar pessoas, e pessoas são mais importantes que o ambiente ou espécies selvagens. O sr. concorda?
Concordo com a posição geral de que é relevante a questão de quantas pessoas estão se beneficiando e quantas pessoas estão sofrendo, mas não que isso seja usado como argumento para destruir a Amazônia ou pôr mais cabeças de gado para pastar, ignorando as questões de longo prazo de que falávamos há pouco. Uma das principais causas das emissões brasileiras de gases do efeito estufa é o desmatamento; outra, o próprio gado. Esse pessoal não está de fato beneficiando mais pessoas do que aquelas que consomem essa comida hoje. Eles causam muito mais dano no mundo todo, hoje e no futuro. É um cálculo errado.
E quanto à oposição de valores entre existências humanas e animais? Devemos ter uma preferência?
É razoável dizer que, se se trata do valor de uma vida, do ato de matar em si, o ser cuja vida contenha mais capacidades sofre uma perda maior. Se for para comparar a morte de uma pessoa com a de uma vaca, é razoável dizer que a morte de um ser humano é a tragédia maior. Mas há muito mais que o ato de matar na criação industrial de animais, que vivem vidas horríveis. Precisamos perguntar: por que fazemos isso, qual a necessidade de fazer assim?
Seria comparável ao caso dos alemães que preferiam ignorar a existência de campos de concentração, como sugere a personagem Elizabeth Costello, de Coetzee?
Há um certo paralelo aí. A diferença, suponho, é que as pessoas na Alemanha aceitavam a moralidade da ideia de que é errado matar seres humanos inocentes. Creio que estavam mais conscientes da seriedade do mal que se fazia durante o Holocausto, na medida em que sabiam do que estava acontecendo. No entanto, a maior parte das pessoas não é criada com a noção de que animais são moralmente importantes, de que devemos dar a seus interesses a mesma consideração que damos aos nossos. Pode-se dizer que voltar as costas para isso é mais desculpável. Mas também creio que haja algum paralelo, sim.
Um paralelo constrangedor, não? Essa é a questão suscitada pelo livro de Coetzee.
Sim. Ele é um escritor brilhante e nos faz sentir o desconforto das pessoas na plateia quando ouvem a palestra de Elizabeth Costello sobre o questionamento de seus hábitos. Há no livro a discussão particular sobre o paralelo com o Holocausto, muito contencioso. Coetzee está expondo as pessoas a esse desconforto. Mas, de novo: não há um número suficiente de pessoas que o estejam lendo e levando essas questões em conta.
O sr. iria até o ponto de dizer que a pobreza mundial é o Holocausto do século 21?
Não gosto muito de usar essa linguagem de Holocausto, de estendê-la para coisas que não estão assim tão perto. Vejo algumas diferenças. Ao dizer que o que está acontecendo com os pobres do mundo é o nosso próprio Holocausto, você desqualifica ou reduz a enormidade do que aconteceu no período histórico dos anos 1940. Mas o que eu diria é que, ao lado da mudança climática, é uma cegueira moral que temos e que, na escala de sua seriedade e de suas consequências, é comparável ao Holocausto.

    Marcelo Leite

    folha de são paulo

    Simples monarcas


     
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    Todos os anos, algo entre 60 milhões e 1 bilhão de borboletas monarcas (Danaus plexippus) migra de Ontário (Canadá), para Michoacán (México). Uma jornada de 3.500 km, que dura até dois meses. Podem ser necessárias quatro gerações para chegar ao destino final.
    As monarcas deixam o Canadá no outono do hemisfério Norte, quando o frio aperta. Partem atrás de temperaturas mais estáveis, que não caiam abaixo de 0°C, no planalto central do México. Para recebê-las, e aos milhares de turistas que atraem, existe a Reserva da Biosfera Borboleta Monarca ("mariposa monarca", em espanhol).
    Na primavera, elas fazem a viagem de volta. Alguns desses insetos, que pesam 1 g, foram rastreados. Descobriu-se que vários retornam para as mesmas árvores de que haviam partido seus antepassados.
    Essa pequena maravilha da natureza serviu de mote para um bom romance sobre a mudança global do clima: "Flight Behavior" (comportamento de fuga, ou de voo), da americana Barbara Kingsolver --uma resenha sobre ela se encontra hoje no caderno "Ilustríssima".
    Como tantas migrações periódicas (pássaros, baleias, tartarugas marinhas), a das monarcas intriga os humanos. Como é possível que seres tão menos aparelhados do que nós consigam ser tão precisos, tendo apenas o instinto por guia?
    Por algum tempo, acreditou-se que as monarcas tinham uma espécie de mapa gravado nos genes (embora ninguém tenha sido capaz de imaginar como se pode inscrever um mapa numa sequência de DNA). Bastaria seguir os grandes marcos da paisagem nele registrados para orientar o voo e achar o rumo certo.
    Parece que a coisa é bem mais simples. Henrik Mouritsen, um dinamarquês que faz pesquisa na Universidade de Oldenburg (Alemanha), teve a ideia maliciosa de deslocar um grupo de borboletas 2.500 km para oeste, de Ontário para Alberta, e depois soltá-las para voar.
    Mouritsen verificou que as monarcas transferidas jamais alcançariam as montanhas de Michoacán. Elas não se davam ao trabalho de fazer ajustes na longa rota. Simplesmente continuavam a voar para o sudoeste, como se o México tivesse sido transferido 2.500 km para oeste, como elas.
    Tudo indica que a única programação inscrita em seus minúsculos sistemas nervosos manda rumar para o sudoeste quando começa a fazer frio. O resto fica por conta de um funil geográfico, concluiu o dinamarquês em artigo na revista "PNAS". Sua teoria é tão elegante quanto a navegação lepidóptera.
    "É bem esperto: as borboletas não gostam de voar sobre água ou sobre montanhas", explica Mouritsen. "Isso quer dizer que, enquanto sua direção estiver correta --isto é, sudoeste no outono-- elas vão seguir ou a Costa Leste dos EUA ou as Montanhas Rochosas [a oeste] até atingir seu destino invernal nas montanhas Transmexicanas, que atravessam todo o México."
    Para dar apoio empírico à explicação, Mouritsen precisava provar que as monarcas voam sempre para sudoeste no outono. Buscou a ajuda do canadense Barrie Frost, da Universidade Queens, que inventou um simulador de voo sob medida para as monarcas.
    Sim, elas voam só para sudoeste.
    O leitor pode achar uma grande bobagem essa história de ficar medindo voo de borboleta. Por sorte ainda há quem ache isso bonito.
    marcelo leite
    MARCELO LEITE é repórter especial da Folha, autor dos livros "Folha Explica Darwin" (Publifolha) e "Ciência - Use com Cuidado" (Unicamp). Escreve aos domingos.

    terça-feira, 13 de agosto de 2013

    Fora da lei, 11 capitais negam tempo livre a professores

    folha de são paulo
    (FÁBIO TAKAHASHI, NATÁLIA CANCIAN, RAFAEL TATEMOTO E RAYANNE AZEVEDO)

    Municípios ignoram exigência de horário para docente planejar aula
    Prefeituras alegam falta de verbas; apenas Macapá ainda não paga o valor mínimo de R$ 1.567 de salário-base
    DE SÃO PAULO
    Cinco anos após ser aprovada no Congresso, a lei que fixa condições mínimas aos professores de escolas básicas públicas não é cumprida em 12 das 27 capitais. Uma delas não paga o piso salarial e as outras 11 não concedem jornada extraclasse mínima.
    A regra determina piso salarial de R$ 1.567 no ensino fundamental e médio (jornada de 40 horas semanais).
    Também exige que o docente fique 1/3 do período fora das aulas, para preparação de atividades, por exemplo.
    Levantamento da Folha com secretarias municipais de Educação aponta que em 11 capitais o período extraclasse é inferior ao exigido (Belém, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis, Maceió, Manaus, Natal, Recife, Salvador, São Paulo e Vitória). Em relação ao valor do salário, Macapá paga R$ 1.345 --menos que o piso, portanto.
    A lei visa melhorar condições de trabalho dos docentes em atividade e atrair mais jovens para o magistério.
    A maior dificuldade para se cumprir a regra da jornada extraclasse é que ela requer contratação de docentes, pois os professores já em atividade teriam que dar menos aulas.
    Segundo a Undime, que representa secretários municipais de Educação, gestores buscam cumprir a regra, mas alegam falta de verbas.
    "Todo mundo vai ter de ceder nesse processo", disse a presidente da Undime, Cleuza Repulho, referindo-se a prefeituras e sindicatos.
    SANÇÃO
    A lei não prevê sanção automática ao gestor que descumpra a regra. Ao sancionar a norma, o então presidente Lula afirmou que só cabe punição se comprovada a desonestidade do administrador.
    Pesquisador da USP em direito administrativo, Gustavo Justino de Oliveira entende que a própria legislação sobre improbidade prevê punição a quem desrespeita lei como a do piso do magistério. Um passo necessário é o pedido do Ministério Público.
    Já Carlos Ari Sundfeld, pesquisador da PUC e da FGV, vê como exagerada uma ação de improbidade em casos que não se caracterizem má fé. Diz, porém, que há respaldo legal para que docentes peçam cumprimento da lei.
    Resolução do Conselho Nacional de Educação estabeleceu 2015 como prazo final de transição. A regra, porém, não tem força de lei.
    Há divergências sobre o alcance da lei do piso. "Atividade intelectual, principalmente como a docência, exige reflexão e preparação", disse o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.
    Já Ilona Becskeházy, consultora em educação, considera ser mais importante a definição de currículo claro para as escolas, melhoria nos materiais e infraestrutura.
    OUTRO LADO
    Redes municipais dizem que vão se adequar à norma
    DE SÃO PAULOAs capitais que descumprem a lei do magistério dizem buscar a adequação, mas esbarram na falta de recursos.
    Única capital que não paga o valor salarial mínimo, a Prefeitura de Macapá diz que o pagamento é compensado com gratificações, que podem aumentar "em até quatro vezes" o salário docente.
    A lei do magistério, porém, fixa piso para o salário-base. "Há uma série de penduricalhos [gratificações]. Se formos pagar o piso-base, quebra a prefeitura", afirmou a secretária de Educação, Antônia Costa Andrade.
    A rede paulistana diz que apenas parte dos professores não tem o 1/3 da jornada fora da aula (os com contrato de 30 horas semanais). Mesmo eles, afirma a prefeitura, podem migrar para jornadas que já cumprem o que prevê a lei.
    Florianópolis e Belém dizem que, como não conseguem deixar todos os professores 1/3 da jornada fora da sala de aula, pagam gratificações para compensar.
    A capital catarinense afirma que os professores dos anos finais do fundamental já estão enquadrados na lei. E que os demais estarão adequados até 2015.
    Campo Grande, Maceió, Natal, Recife e Salvador dizem que também estão em processo de adequação.
    A Prefeitura de Cuiabá afirma que seu percentual de jornada extraclasse ao menos cumpre lei municipal (20%).
    As redes de Manaus e Vitória não explicaram por que descumprem a regra.
    O Ministério da Educação afirma reconhecer a dificuldade de implementação da lei, mas diz que não tem o poder de fiscalizar as prefeituras, que têm autonomia.

    Jornada afeta professor e aluno, diz docente
    DE SALVADOR
    A baiana Ivone Anunciação Souza, 43, não se conforma. Ela trabalha na rede municipal de Salvador, que descumpre a lei dos professores e não lhe dá um terço de sua jornada para preparar aulas ou corrigir provas.
    Ivone, que ensina em dois turnos (à noite, para jovens e adultos), diz que isso compromete a qualidade do curso e de sua vida.
    "Nós também temos relações interpessoais e nosso futuro. Isso tudo fica prejudicado quando se tem uma pilha de provas para corrigir ou três empregos", diz.
    Em 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) julgou que a reserva do chamado terço extraclasse é constitucional.
    "Assim como vocês, repórteres, precisam de tempo para apurar uma história e depois escrevê-la, o professor precisa para fazer seu planejamento pedagógico", diz.
    O professor Arlindo César, 24, concorda.
    "Por enquanto não tenho filhos e estou sem namorar. Como conseguirei ter uma vida normal no ritmo que levo?", questiona.
    ANÁLISE
    Da intenção à realidade, ainda há uma grande distância
    MARCELO LEITEDE SÃO PAULOCom a adoção de um piso salarial nacional para professores de educação básica, há cinco anos, a sociedade brasileira emitiu sinal inequívoco de que deseja pôr termo à progressiva proletarização dessa profissão decisiva para o desenvolvimento do país e de seus cidadãos. Da intenção à realidade, todavia, vai uma grande distância.
    A boa notícia do levantamento realizado pela Folha está na razoável obediência à norma salarial pelas redes municipais de ensino nas capitais. Só em Macapá se observa descumprimento.
    O valor do piso também é respeitado pela maioria das secretarias estaduais de Educação, indicam levantamentos anteriores. Falta porém, uma pesquisa sobre as outras 5.544 cidades do país, que indicará se esse padrão mínimo de remuneração determinado pela lei "pegou" ou não.
    Não seria arriscado dizer, tomando só as capitais e as redes estaduais de ensino, que a maioria dos alunos de educação básica no Brasil já conta com professores que recebem o piso. Embora acarrete um ônus e tanto para prefeitos e governadores, seria leviano concluir que está tudo bem. Longe disso.
    Em primeiro lugar, o piso de R$ 1.567 não pode ser considerado alto. Equivale a 2,3 salários mínimos, é verdade, mas fica abaixo do salário médio nacional de R$ 1.793 (dado de 2011) divulgado em maio passado pelo IBGE, com base no Cadastro Central de Empresas (Cempre).
    Se comparado com a média dos que têm diploma de nível superior (R$ 4.135), como se exige da quase totalidade de docentes de educação básica, o piso dá uma medida mais objetiva do prestígio social conferido à categoria: o trabalho do professor vale não muito mais do que um terço (38%) do que ganham outros profissionais com a mesma titulação.
    QUALIDADE
    De um ponto de vista qualitativo, então, a realidade é ainda mais preocupante.
    O levantamento constatou também que só 16 das sedes de unidades da Federação cumprem outro dispositivo menos lembrado da lei 11.738: a obrigação de reservar um terço da jornada de 40 horas semanais para trabalho fora da sala de aula.
    Para dar uma educação melhor, o professor precisa de tempo para preparar aulas, fazer cursos e atualizar-se sobre novos conhecimentos, livros didáticos e técnicas de ensino na sua área.
    Se ficar oito horas por dia em classe, a tendência é que repita sempre a mesma aula. Ou, pior, que siga sem refletir as receitas prontas, sem adaptá-las aos alunos de carne e osso que tem diante de si.
    O piso salarial representa um avanço importante para a educação brasileira. Mas o país ainda está muito aquém do teto do que é possível e necessário realizar para que se eleve acima do pântano de mediocridade em que afunda.

      domingo, 11 de agosto de 2013

      Marcelo Leite

      folha de são paulo
      Guerras biológicas
      O mais saliente na natureza humana talvez seja o vasto potencial para ramificar-se em manifestações culturais
      Predomina hoje a noção de que a violência tem raízes biológicas. Uma mixórdia de evidências e especulações refoga neurociência, genética e darwinismo com pitadas de antropologia para concluir que, no fundo, somos todos trogloditas.
      Não faltam exemplos de comportamento violento e irracional nos dias de hoje. Basta ver a PM e o Black Bloc em ação. Obviamente, são casos extremos, excepcionais. A maioria das pessoas é pacífica.
      Uma saída comum para justificar a anomalia consiste em tratar a violência como um resquício do passado natural da espécie humana.
      O raciocínio segue assim: o homem nasceu guerreiro e terminou por civilizar-se, preferindo cooperar a agredir. A seleção natural o pôs no bom caminho, pois haveria mais vantagens para os indivíduos, em termos de sobrevivência, na colaboração (até para vencer guerras).
      Como ninguém tem acesso ao que de fato acontecia na origem da espécie, uns 100 mil anos atrás, a reconstrução se vale de povos caçadores-coletores do presente. Ali estaria a demonstração viva da equação entre "primitivo" e "violento".
      Essa visão aproxima figuras célebres como Edward O. Wilson, Stephen Pinker, Jared Diamond e Napoleon Chagnon. Ganha adeptos até entre filósofos e economistas. Um destes é Samuel Bowles, do Instituto Santa Fé (Novo México, EUA).
      Bowles levantou uma polêmica sobre o tema na edição de 20 de julho do semanário "The Economist", leitura obrigatória entre poderosos (o germe ultradarwinista não se contenta com os limites estreitos da população universitária).
      Bowles reagia a uma reportagem da revista sobre o trabalho antropológico de Douglas Fry e Patrik Söderberg, da Universidade Abo Akademi (Finlândia). No periódico acadêmico "Science" daquela semana, eles tinham lançado um desafio aberto à tese da guerra primordial: pelas suas contas, a maioria dos povos naturais tem índole pacífica e haveria mais violência dentro dos grupos do que guerras entre eles.
      A dupla extraiu dados sobre 148 mortes violentas entre 21 grupos indígenas em estudos etnográficos clássicos. Concluiu que a maioria (55%) resultava de violência entre indivíduos, motivados por vingança ou disputa por alguma mulher, e não de conflitos entre tribos.
      Surgiram várias objeções ao trabalho. Bowles, por exemplo, argumenta com razão que guerras não precisam causar o maior número de mortes para ter um impacto na evolução de comportamentos sociais.
      O furo maior, contudo, se encontra na própria amostra de Fry e Söderberg: o povo tiwi, da Austrália, que responde por quase metade (69) das mortes estudadas. Os tiwis destoam não só pela violência, mas também por praticá-la em grupo.
      Das duas, uma: ou se nega a eles a condição de humanos ou algo na disposição natural do homem possibilita que se comportem assim.
      A resposta para esse dilema é que a característica mais saliente da natureza humana talvez seja o vasto potencial para ramificar-se em manifestações culturais, ainda que contidas entre balizas universais (como a interdição do incesto).
      Não tem nada a ver com relativismo ou com achar que a violência, se for ritual ou tradicional, pode ser aceitável. Não pode, ponto.
      Essa história de estado de natureza é uma gororoba do século 17, e nem mesmo o tempero científico do 21 a tornará mais palatável.

        sexta-feira, 9 de agosto de 2013

        Vacina experimental contra malária 'imita' picada de mosquito

        folha de são paulo
        Teste inicial da imunização, que usa parasitas causadores da doença atenuados com radiação, foi bem-sucedido
        Proteção foi maior do que a obtida com outra vacina em fase mais avançada, mas ainda precisa de confirmação
        MARCELO LEITE
        DE SÃO PAULO
        Ouvir o texto

        A empresa americana Sanaria ressuscitou a ideia de um casal brasileiro publicada há 44 anos e imunizou 12 pessoas contra malária com uma vacina experimental. Num dos subgrupos do teste, a eficiência alcançou 100%.
        O trabalho foi publicado ontem na versão eletrônica da revista "Science". Os líderes do estudo são Stephen Hoffman, da Sanaria, e Robert Seder, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid) dos EUA.
        Trata-se do maior sucesso alcançado, até aqui, na longa e decepcionante luta para prevenir a doença, que em 2010 causou estimadas 660 mil mortes no mundo.
        Outra vacina, da empresa GSK, está em fase mais adiantada de teste, mas só conseguiu entre 47% e 55% de proteção. Para crianças, as principais vítimas, teve resultado ainda pior (33% a 37%).
        Editoria de Arte/Folhapress
        No Brasil, a doença está presente sobretudo na Amazônia, mas o número anual de mortes fica na casa das centenas. Isso porque predomina aqui o parasita Plasmodium vivax, menos perigoso que o P. falciparum, que causa a maior parte das mortes na África.
        O produto da Sanaria, apelidado de PfSPZ, emprega o microrganismo inteiro --no seu estágio de vida batizado de esporozoíto-- para desafiar o sistema imune humano. A fim de impedir que essa versão do plasmódio desencadeie a doença, os esporozoítos são "nocauteados" (atenuados) com raios X.
        A vacina da GSK (conhecida como RST,S) usa só um pedaço do esporozoíto. Não pode, por isso, causar a doença, e terá vantagens práticas sobre a PfSPZ --se der certo.
        Os brasileiros Ruth e Victor Nussenzweig desenvolveram a técnica de atenuação do esporozoíto com raios X a partir de 1965, quando se mudaram para a Universidade de Nova York. Irradiaram milhares de mosquitos e os puseram para picar recrutas americanos voluntários.
        Conseguiram imunizar os rapazes contra a malária, mas era só uma "prova de princípio". Não há como vacinar milhões de pessoas assim.
        Hoffman partiu daí e criou um procedimento para obter os esporozoítos e injetá-los, dispensando as picadas. É um processo laborioso, que exige abrir as glândulas salivares dos insetos para coletar os microrganismos.
        Dois anos atrás, Hoffman e Seder testaram a vacina artesanal em humanos e descobriram que injeções subcutâneas não davam resultado satisfatório. Tentaram então, em julho e outubro de 2012, a imunização com injeção na corrente sanguínea (intravenosa), método impraticável em vacinações de massa.
        São esses os resultados relatados agora na "Science". Um grupo de 40 voluntários recebeu injeções em doses e intervalos variados. Dos seis que receberam cinco injeções e dose máxima, todos acabaram imunizados, assim como seis dos nove inoculados quatro vezes com doses altas.
        Foi só mais uma prova de princípio. Não faltam obstáculos para a PfSPZ se tornar uma alternativa real para combater a malária.
        Primeiro, a Sanaria precisará encontrar uma maneira mais prática de obter os esporozoítos. Depois, provar que o produto funciona com um número maior de pessoas e por mais de um ano.
        Em seguida, terá de demonstrar que a PfSPZ é eficaz contra várias cepas do plasmódio. E, por fim, que pode dispensar o nitrogênio líquido para resfriar a vacina e as injeções intravenosas.
        A luta por uma vacina contra a malária tem vários anos pela frente.

        quinta-feira, 8 de agosto de 2013

        Crise econômica produz superavit de gritos e tapas - Marcelo Leite

        folha de são paulo
        Estudo dos EUA sobre recessão de 2008 mostra aumento de abuso contra crianças
        Agressões físicas e verbais foram mais comuns no caso de mães com gene ligado a "pavio curto"
        MARCELO LEITEDE SÃO PAULOCriança sofre, todo mundo sabe. Também é óbvio que elas sofrem mais em época de crise, como na recessão americana de 2008 e 2009, nas mãos de mães estressadas. Mas será que todas sofrem da mesma maneira?
        Não, responde um estudo publicado na revista "PNAS", da Academia de Ciências dos EUA. Sofrem mais não os filhos de mães desempregadas, mas de mães portadoras de uma variante de gene associada com impulsividade.
        Mais contraintuitivo ainda é outro achado do trabalho realizado em quatro universidades americanas (NYU, Princeton, Columbia e Penn State): quando a situação econômica melhora, essas mães impulsivas protagonizam menos episódios de agressão verbal e física contra filhos do que as portadoras da outra versão do gene.
        "Nosso estudo demonstra que os impactos dos genes e do ambiente não atuam independentemente, mas são deflagrados um pelo outro, pelo menos no que se refere ao comportamento materno abusivo", diz Dohoon Lee, primeiro autor do artigo.
        Para chegar a essas conclusões, o grupo usou dados do Estudo sobre Famílias Frágeis e Bem-Estar Infantil (FFS), de Princeton e Columbia, que acompanha 5.000 crianças nascidas entre 1998 e 2000 em 20 cidades americanas.
        As mães foram entrevistadas sobre como tratavam os filhos quando eles tinham 3, 5 e 9 anos. O comportamento materno agressivo foi classificado com uma escala padronizada que abrange abusos verbais (como gritos) e físicos (como tapas e surras).
        Amostras do DNA das mães foram colhidas e testadas para verificar qual versão do gene DRD2 elas tinham. A proteína correspondente a esse trecho de DNA participa do controle dos níveis de dopamina no sistema nervoso, um neurotransmissor que ajuda a regular reações emocionais.
        A variante T do gene está associada com temperamentos impulsivos. A CC, com pessoas mais controladas.
        ANSIEDADE E ESTRESSE
        Esse conjunto de informações sobre variação do comportamento e predisposição genética foi então cotejado com dados sobre a situação econômica em cada uma das 20 cidades, como taxa de desemprego e índice de confiança do consumidor.
        Constatou-se o esperado, que sobram mais gritos e tapas para as crianças quando a economia piora, mas com algumas peculiaridades. A correlação mais forte não se dá com o nível de desemprego, e sim com seu aumento.
        "As pessoas podem ajustar-se a circunstâncias difíceis quando sabem o que esperar, enquanto o medo ou a incerteza sobre o futuro são mais difíceis de lidar", afirma Sara McLanahan, de Princeton, coautora do artigo.
        O economista e escritor Eduardo Giannetti opina que o estudo na "PNAS" acrescenta uma dimensão ao custo de uma grande recessão que não está sendo computada --"e ela é considerável".
        QUESTÃO DE PERCEPÇÃO
        Giannetti ressalva que a variável de maior impacto, nas pesquisas de bem-estar subjetivo, é o nível de desemprego, como fator de depressão, ou até de suicídios. "Mas a economia comportamental leva muito a sério a percepção, que pode dominar o modo como a pessoa reage."
        "O senso comum liga o estresse à sobrecarga, por exemplo de trabalho. Na verdade, do ponto de vista da resposta, tem mais a ver com a percepção de falta de controle da pessoa sobre o que lhe acontece", afirma Marina Rezende Bazon, do Departamento de Psicologia da USP de Ribeirão Preto.
        Especialista em abuso parental, Bazon explica que o agressor típico é uma pessoa impulsiva, que impõe regras rígidas à criança e reage mal quando esta não as segue, o que toma por provocação. Seu nível de irritabilidade é maior, o que pode ser explicado por fatores biológicos.
        O curioso é que, nos períodos em que a economia melhora, ocorre uma inversão. Mães impulsivas se tornam menos propensas ao abuso do que as menos impulsivas.
          É errado falar em genes ruins, dizem autores
          DE SÃO PAULOMitchell Ginsberg, coautor do artigo, diz que ele reforça a hipótese "orquídeas e dentes-de-leão".
          As mães portadores do alelo (variante) T, sensíveis como orquídeas, murcham em ambientes pobres. As demais, robustas como dentes-de-leão, florescem em qualquer lugar.
          Para Sara McLanahan, outra coautora, não se deve falar em genes "bons" ou "ruins". Dohoon Lee recomenda "extrema cautela" na interpretação dos resultados. Ele não vê sentido em pesquisar quais variantes do gene DRD2 as mães carregam no DNA.
          Para Eduardo Giannetti, pesquisas sobre comportamento e biologia criam dilemas de política pública. Por exemplo: numa situação econômica hostil, e sabendo quem é vulnerável, caberia dar proteção extra às crianças?

            domingo, 28 de julho de 2013

            Frio - Marcelo Leite

            folha de são paulo
            Frio
            No Ártico, o aquecimento global derrete o gelo marinho; em volta da Antártida, aumenta
            Além do bebê de Kate e da turnê de Francisco, a semana foi dominada pelo frio que tomou conta da metade sul do Brasil. Até neve caiu, em mais de uma centena de cidades. Um prato cheio para a vingança de quem nega o aquecimento global ou que ele seja causado pelo homem.
            Pouco importa que, no hemisfério Norte, grasse uma onda de calor. Ou que a calota de gelo sobre as águas do Ártico esteja perto de bater novo recorde de encolhimento.
            Interessa é semear a dúvida entre os incautos. Ninguém melhor que um friorento para se convencer de que o efeito estufa seja uma balela.
            Não faltou especialista para dizer que a frente fria tem origem no superavit de gelo sobre os mares que circundam a Antártida neste inverno. Nem para acrescentar, maliciosamente, que isso estaria em contradição com o aquecimento global.
            Nada como acoplar um antecedente real (mais gelo) a uma conclusão fantasiosa (não há aquecimento da atmosfera) para turbinar a verossimilhança da segunda.
            Sim, 2013 juntou mais gelo ao redor da Antártida. Também é verdade que a superfície marinha congelada resfria o que está acima dela, alimentando a massa de ar gelado que engrena a frente fria.
            Poucos se dão conta, ou simplesmente omitem, que o próprio aquecimento global parece estar na origem desse fenômeno.
            O que aumenta com o efeito estufa é a temperatura média da atmosfera da Terra. Como toda média, ela comporta que algumas partes se aqueçam (ou se resfriem) mais que outras. O saldo, contudo, é positivo: há mais ar quente em volta do planeta do que havia no passado.
            Tomando por base essa média, todos os dez anos mais quentes já registrados ocorreram depois de 1998. São dados compilados por instituições respeitadas, como a Nasa, alguns deles em coleta desde 1880.
            Uma atmosfera mais quente acarreta ventos mais fortes, pois estes se nutrem da diferença de temperatura entre massas de ar. Com a mudança do padrão de circulação dos ventos, uma região poderá enfrentar secas mais severas (como no Nordeste, atualmente), enquanto outra presenciará um aumento de chuvas torrenciais.
            Tornam-se mais frequentes os chamados eventos extremos, uma das consequências mais previstas do aquecimento global. Entre eles, frentes frias de moer os ossos, como a que os brasileiros enfrentaram nos últimos dias.
            O paradoxo do calor que traz mais frio parece ter origem, de fato, na Antártida, como explica Francisco Eliseu Aquino, geógrafo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um estudioso das massas de ar frio que chegam ao Brasil.
            O ar mais quente sobre as águas antárticas impulsiona ventos mais encorpados, que ocasionam mais turbulência na superfície do mar. Isso faz com que a água mais profunda (e mais fria) chegue à superfície, o que se chama de ressurgência.
            Há também quem atribua o excesso de gelo ao maior derretimento da calota sobre o continente antártico, como Richard Bintanja, do Instituto Meteorológico Real da Holanda. Nesta explicação, é a água das geleiras continentais que escorre para o mar e ajuda a resfriá-lo.
            No Ártico, onde só há água em volta do polo Norte, o aquecimento global derrete o gelo sobre o mar. Em torno da Antártida, um continente, ele aumenta o gelo marinho.
            Entendeu? É complicado, mesmo.

              terça-feira, 30 de abril de 2013

              Paulo Vanzolini participou de fatos centrais da ciência do país - Marcelo Leite

              folha de são paulo

              ANÁLISE - O CIENTISTA
              Teve participação direta em momentos-chave da ciência nacional
              MARCELO LEITEEDITOR DE OPINIÃOA especialidade de Paulo Emílio Vanzolini, na sua identidade menos conhecida de pesquisador, eram cobras e lagartos. O afiado zoólogo foi um dos maiores herpetologistas do Brasil e teve participação direta em momentos cruciais da ciência nacional.
              A pesquisa biológica, como um lagarto, caminha pela natureza impulsionada sobre dois pés por vez: teóricos e sistematizadores, de um lado, naturalistas e taxonomistas, de outro. Vanzolini serpenteava com destreza entre os dois campos, aliando como poucos as faculdades de observador detalhista e de generalizador arguto.
              Na descrição de espécies de répteis e seus hábitos ecológicos, avançou sobre terreno quase virgem, aplicando com afinco a formação obtida na Faculdade de Medicina da USP e no doutorado na Universidade Harvard (EUA). Foi fundamental para o Museu de Zoologia da USP, que amou e dirigiu por muitos anos.
              O conhecimento acumulado sobre a distribuição de cobras e lagartos foi empregado como apoio empírico para a chamada teoria dos refúgios (1969 e 1970). Vanzolini a desenvolveu com o geógrafo Aziz Ab'Sáber.
              A imensa diversidade de espécies na Amazônia, segundo a teoria, decorreria da alternância de períodos secos nos últimos 2 milhões de anos (Quaternário). Com a intromissão de línguas de cerrado (savana), a floresta densa teria sido confinada em redutos.
              Isolados nas ilhas de mata ("refúgios") durante milênios, animais teriam evoluído de forma independente até se tornarem espécies distintas.
              Hoje, no entanto, acredita-se que a exuberância e a distribuição da biodiversidade amazônica não podem ser explicadas só pelas variações climáticas do Quaternário. Elas têm raízes muito mais profundas no tempo.
              A colaboração com Ab'Sáber nasceu de sua admiração por Vanzolini ter participado do grupo que criou a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) em 1960. Vanzolini foi um dos que lutaram por padrões rígidos, como limites orçamentários para o gasto administrativo --o grosso dos repasses governamentais tinha de ir para a pesquisa-- e o julgamento dos projetos por pareceristas anônimos.
              Eram usos e costumes estranhos à ciência nacional, mais afeita à camaradagem. Vanzolini também a praticava, mas nos lombos de burro e nas canoas em que se embrenhava pelos cafundós do Brasil.
              Numa de suas incursões pelo rio Paraná, compôs com Antônio Xandó uma estrofe complementar para "Cuitelinho" (espécie de beija-flor), entoada por um pescador. Estão ali talvez os versos mais formosos de uma das mais bonitas melodias do cancioneiro nacional: "A tua saudade corta como aço de navalha / O coração fica aflito, bate uma, a outra falha / E os olhos se enchem d'água, que até a vista se atrapalha".
              A letra é triste, mas o encontro de Vanzolini com a cultura popular não poderia ter sido mais feliz.

                sábado, 13 de abril de 2013

                Hoje as pessoas divulgam até suas sequências de DNA

                folha de são paulo

                Marcelo Leite:
                'Drones' e DNA
                Nos anos 1970, entrou em voga a preocupação com as ameaças à privacidade.
                Os mais radicais lutavam contra a adoção de números únicos de identificação (o nosso CPF) e a favor do habeas data (o direito de uma pessoa conhecer e retificar seus dados em repositórios oficiais). O "Grande Irmão" orwelliano parecia prestes a encarnar e atendia pelo nome de governo.
                Esses receios, hoje, parecem coisa de velho. A moda agora é entregar informação pes- soal nas redes sociais voluntária e gratuitamente. Até sequências de DNA as pessoas põem no domínio público.
                Acumular dados sobre indivíduos tornou-se fonte de lucros para empresas ("data brokers") como Acxiom, Experian e Datalogix. Seu negócio é rastrear padrões de comportamento de indivíduos e vender a informação.
                Os compradores podem ser agências de publicidade, bancos e operadoras de cartão de crédito ou marqueteiros de campanhas políticas. Seu interesse é vender certos produtos para as pessoas com maior propensão a comprá-los. Por exemplo, o candidato fajuto.
                Só a Acxiom, que vale US$ 1,4 bilhão segundo informou quarta-feira o jornal "Financial Times", tem 7.000 clientes e dados sobre 700 milhões de consumidores. Sob pressão de autoridades, já se prepara para permitir que cada pessoa tenha acesso a seu próprio dossiê digital. Excluir ou corrigir dados serão outros 500.
                Serviço mais simpático oferecem bancos genealógicos, sucesso nos EUA. A partir de US$ 159, o cidadão motivado a localizar parentes desconhecidos pode encomendar a leitura de um fragmento de seu DNA. Depois, faz o "upload" da sequência para descobrir sobrenomes de famílias com perfil genético similar.
                Há sites em que a busca é gratuita (www.ysearch.org e www.smgf.org). A genealogia recreacional, no entanto, implica riscos adicionais para a privacidade.
                Em 18 de janeiro, pesquisadores do MIT contaram, na revista "Science", como os bancos genealógicos ajudaram a identificar uma pessoa entre milhares que já cederam para uso científico a sequência completa de seu genoma (e não só um pedacinho do cromossomo Y). Em teoria, qualquer voluntário pode agora ter seu nome vinculado às mazelas hereditárias em seu DNA.
                Tudo isso empalidece, contudo, diante da ameaça à privacidade veiculada pelos "drones". Além das mortes de civis e terroristas que causaram no Afeganistão, esses aeromodelos já sobrevoam as cabeças de cidadãos norte-americanos, primeiro pelas mãos da polícia, logo teleguiados por empresas, "paparazzi" ou bandidos. Alguns Estados preparam leis para disciplinar a invasão.
                Os anos 1970 voltam à moda, e o retorno das calças boca de sino não é o pior a temer.

                  domingo, 17 de março de 2013

                  Notas sobre a violência - De antropólogos e outras tribos ferozes

                  folha de são paulo

                  MARCELO LEITERESUMO Antropólogo Napoleon Chagnon retoma em novo livro teoria sobre agressividade ianomâmi e ataca adversários da sociobiologia. Jared Diamond escreve obra de bases semelhantes, mas mais generosa com 'primitivos', aproximando-se de adversários de Chagnon, como Manuela Carneiro da Cunha, que lança coletânea.
                  É preciso ter estômago forte para digerir a narrativa de um antropólogo que escolhe iniciar o relato de seu primeiro dia de campo entre os ianomâmis -meio século depois- com a frase: "Nunca antes tinha visto tanto ranho verde". Não é a antropologia, porém, a disciplina que ensina a combinar o máximo de disciplina com o mínimo de conforto em benefício do entendimento do homem?
                  Leia-se então com dose generosa de bonomia antropológica a obra mais recente do americano Napoleon Chagnon, "Noble Savages - My Life among two Dangerous Tribes - The Yanomamö and the Anthropologists" [Simon & Schuster, 531 págs., R$ 87,50]. Em desagravo, que seja, porque Chagnon pagou um preço alto demais por sua crença nas explicações ultradarwinistas do comportamento, cuja matriz -a natureza humana- acredita ter desvendado nas selvas do Orinoco.
                  O estudioso americano dedicou pelo menos duas décadas de sua vida a longas permanências em terras ianomâmis, quase sempre na Venezuela (com desastradas incursões também do lado brasileiro). As três seguintes ele ocupou em defesa da carreira e da reputação quase arruinadas por dois outros livros: "O Povo Feroz" (1968), trabalho acadêmico de sua própria lavra, e "Trevas no Eldorado", um panfleto do jornalista Patrick Tierney (2000).
                  Os que desconhecem a crônica dessa guerra entre os clãs cultural e biológico da antropologia encontrarão um resumo devastador das acusações mútuas no documentário "Os Segredos da Tribo", de José Padilha. Não se recomenda o consumo de pipoca na sessão de barbaridades que a fita apresenta.
                  O povo feroz do título de Chagnon são os ianomâmis. Sua caracterização pelo antropólogo como uma etnia violenta, de homens "maliciosos, agressivos e intimidadores", que acumulam homicídios para obter mais mulheres e maior sucesso reprodutivo, despertou a ira dos antropólogos culturalistas.
                  Primeiro, Chagnon foi acusado de distorcer a imagem do grupo e, assim, facilitar sua dizimação por brancos dos dois lados da fronteira. Depois, foi denunciado por Tierney como genocida, pois teria -intencional ou negligentemente, sob a tutela do médico americano James V. Neel- contribuído para uma epidemia de sarampo que matou centenas de índios.
                  BOM SELVAGEM "Noble Savages" ("bons selvagens") é um acerto de contas com as duas tribos que infernizaram sua vida. A partir da descrição para o público não especializado de seu convívio de cinco anos com os ianomâmis, Chagnon retoma sua conclusão de que o "bom selvagem" concebido por Rousseau é um mito politicamente correto e que só há uma resposta biológica (evolucionista) -e simploriamente hobbesiana- para a questão de por que seres humanos são sociais: a luta de todos contra todos para aumentar a própria prole (ou pôr mais cópias dos próprios genes no mundo, na vulgata sociobiológica).
                  Não faltam páginas desairosas para os ianomâmis no livro. "Olhei para cima e arfei, em choque, quando vi uma dúzia de homens corpulentos, nus, suados e pavorosos nos encarando por trás dos caniços de suas setas apontadas!" -conta sobre a primeira visita a uma casa coletiva dos índios.
                  "Imensos rolos de tabaco verde estavam enfiados entre os dentes e os lábios inferiores, tornando sua aparência ainda mais pavorosa. Veios de ranho verde escuro pingavam ou pendiam de suas narinas -tão longos que se desprendiam de seus queixos, caíam sobre os músculos peitorais e escorriam preguiçosamente sobre seus ventres, mesclando-se com a pintura vermelha e o suor."
                  Chagnon também não economiza relatos sobre tentativas mal sucedidas de engodo dos ianomâmis contra ele. Sempre eficazes, por outro lado, eram seus próprios ardis para levá-los a ceder amostras de sangue (para Neel) e a revelar nomes de ancestrais mortos -um tabu- para rechear suas genealogias e estatísticas. As mesmas informações, pagas com machados, facas e panelas de metal, que lhe permitiriam afirmar, depois, serem os homens com mais homicídios nas costas também os de prole mais numerosa.
                  Muito antes das acusações de Tierney, as conclusões sociobiológicas e os métodos traficantes de Chagnon já vinham sendo questionados por seus pares na comunidade antropológica. Até a correlação estatística entre ferocidade e fertilidade masculina, formulada num famigerado artigo de 1988 para a revista acadêmica "Science", teve seus dados postos em dúvida (o autor foi acusado de excluir da amostra aqueles pais que já haviam sido mortos por vingança, portanto sem meios de multiplicar descendência).
                  Os antropólogos culturais, refratários à moldura biológica em que Chagnon queria enquadrar o painel exuberante das culturas, já estavam no seu encalço. Nada se compara, porém, com a virulência do ataque de Tierney. Assim que um capítulo do livro foi publicado na revista "New Yorker", em outubro de 2000, a Associação Antropológica Americana entrou na briga -do lado dos culturalistas. Foi montado um comitê de investigação, que acabou por inocentar o médico Neel e descartar a epidemia intencional, mas recriminou Chagnon por desvios éticos.
                  O caso teve enorme repercussão na imprensa mundial, brasileira inclusive. Contudo, quando a obra do "jornalista investigativo" Tierney e os próprios investigadores da AAA passaram a ser investigados, a começar pela historiadora da ciência Susan Lindee, o vento virou.
                  Forçada por um referendo entre seus membros, a associação renegaria o relatório. As acusações de Tierney não paravam de pé, como reconstitui com farta documentação um ensaio demolidor da também historiadora Alice Dreger publicado em 2011 no periódico acadêmico "Human Nature", sob o título "Darkness's descent on the American Anthropological Association. A cautionary tale" (trevas sobre a Associação Antropológica Americana - uma fábula moral; leia em bit.ly/adreger).
                  Dreger puxa vários fios da teia de perseguição a Chagnon. Levanta a suspeita, intrigante, de que a cruzada de Tierney pode ter ocorrido sob o patrocínio da Igreja Católica, mais especificamente da ordem de padres salesianos, que já mantinha missões junto aos ianomâmis da Venezuela quando o antropólogo por lá baixou.
                  Após alguns meses de convívio e cooperação, cientista e religiosos se estranharam. Na versão fantástica narrada em "Noble Savages", isso ocorreu depois de um hierarca pedir a Chagnon ajuda para matar um padre amasiado com índia. Na passagem do livro que mais se avizinha do estilo de Tierney, o antropólogo também acusa os salesianos de distribuir espingardas cartucheiras entre os índios para conquistar seu favor.
                  A inconsistência mais relevante da obra, porém, não decorre do ânimo retaliatório, e sim da pretensão de ter localizado entre os ianomâmis as nascentes da agressividade que supõe inerente à natureza humana. A antropóloga Elizabeth Povinelli assinalou, numa resenha escaldante de "Noble Savages" para o "New York Times", que a tese se assenta sobre a premissa falaciosa de que os ianomâmis sejam relíquias de uma infância neolítica da humanidade.
                  FÓSSEIS Desde esse ponto de vista, compreende-se melhor o esforço retórico de Chagnon em degradar os ianomâmis, acentuando nas suas descrições uma animalidade que serve para relocar sua cultura na vizinhança da biologia. Ora, não há básica empírica nenhuma para afirmar que sociedades "primitivas" como a dos ianomâmis se mantiveram à margem da história, fósseis de um passado inaugural da espécie humana.
                  Como lembra Manuela Carneiro da Cunha -que presidia a Associação Brasileira de Antropologia quando esta cerrou fileiras contra Chagnon- na coletânea de ensaios "Índios no Brasil - História, Direitos e Cidadania" [Claro Enigma, 160 págs., R$ 29,50], essa é uma visão originária do século 19, que atribui "à natureza e à fatalidade de suas leis o que é produto de política e práticas humanas, [...] consoladoras para todos à exceção de suas vítimas".
                  Os ianomâmis, por exemplo, só permaneceram mais ou menos isolados (na realidade, longas redes de contatos já lhes garantiam acesso a artefatos de metal) porque suas terras montanhosas não interessavam a colonizador algum.
                  A perspectiva adotada por Chagnon -um engenheiro convertido para a antropologia- faz tábula rasa de tudo que há de peculiar no modo de vida ianomâmi. Por que cargas d'água esses índios cremam seus mortos, moem os ossos calcinados e ingerem as cinzas com um mingau de banana? É esse tipo de manifestação simbólica que a antropologia cultural se esforça por sistematizar e elucidar, mas que a obra de Chagnon relega à penumbra dos detalhes irrelevantes para a "natureza humana".
                  Ótica semelhante anima o último best-seller de outro adepto declarado da sociobiologia (rebatizada psicologia evolucionista), Jared Diamond, mas com resultados muito diversos, se não opostos. Em "The World until Yesterday - What Can We Learn from Traditional Societies?" [Viking, 512 págs., R$ 96,90], Diamond acredita piamente ter aberto uma janela para o passado nas suas décadas de visitas à Nova Guiné para estudar pássaros.
                  A ilha, fervilhante com centenas de tribos e línguas em contato e conflito, constitui um continente cultural descoberto como tal por ocidentais só nas primeiras décadas do século 20. Fornece a Diamond, portanto, o equivalente dos ianomâmis para Chagnon, em matéria de isolamento e primitivismo.
                  As diferenças entre esses dois generalizadores prodigiosos, contudo, salta já do título de Diamond. Ao contrário de Chagnon, ele está aberto -mais que isso, interessado- a aprender algo com os nativos, e não só sobre eles. São muitas as lições úteis que o observador de pássaros e homens extrai para o aperfeiçoamento marginal do indubitavelmente superior modo de vida ocidental: ingerir menos sal, aleitar bebês à vontade até os três anos, dar educação bilíngue às crianças, fazer refeições lentamente com amigos...
                  Até das ameaças constantes da natureza e do estado de guerra crônica entre os primitivos Diamond retira um ensinamento, centro de gravidade do livro, que chama de "paranoia construtiva": o estado de vigilância permanente para os muitos perigos que a vida oferece aos homens. Depois de embasbacar multidões com as generalizações audazes de "Armas, Germes e Aço" (livro pelo qual ganhou o Pulitzer em 1998), Diamond corteja com leveza o gênero da autoajuda e compila um volume de leitura bem mais amena que
                  "Noble Savages". Os ilhéus são feios e sujos como os ianomâmis, mas simpáticos e sábios.
                  Já a paranoia de Chagnon, se cabe falar assim, é corrosiva. Nos termos da controvérsia que animou o Brasil escravizador de índios nos séculos 18 e 19, relatada por Manuela Carneiro da Cunha, eles podem ser encarados como cães, canibais e ferozes, ou como homens, diferentes e por isso exemplares de capacidade adaptativa e perfectibilidade. É uma questão de escolha, ou de ponto de vista.
                  Como diz a antropóloga, repetindo o que ouviu em conferência de Claude Lévi-Strauss, a sociodiversidade pode ser tão preciosa quanto a biodiversidade: "Creio, com efeito, que ela constitui essa reserva de achados na qual as futuras gerações poderão encontrar exemplos -e quem sabe novos pontos de partida- de processos e sínteses sociais já postos à prova".
                  -
                  Em 2012, Napoleon Chagnon foi eleito para a prestigiada Academia Nacional de Ciências (NAS) dos Estados Unidos. Ato contínuo, em protesto, o antropólogo Marshall Sahlins -que em 2000 se engajara na campanha contra ele- renunciou à sua cadeira na NAS.
                  Manifesto de 17 antropólogos que trabalham com ianomâmis deblaterou mais uma vez contra a noção de "povo feroz" reiterada no novo livro, que poderia ser usada por governos para prejudicar a etnia. Uma nota do líder ianomâmi David Kopenawa sobre a obra aponta as guerras dos brancos como muito mais ferozes que as de seu povo -uma observação antropologicamente perspicaz, ao menos no que respeita às tribos dos culturalistas e dos sociobiólogos.

                    sábado, 12 de janeiro de 2013

                    Marcelo Leite

                    FOLHA DE SÃO PAULO

                    Raios e trovoadas
                    Ninguém precisa ser meteorologista para prever que a mudança do clima produzirá um dilúvio de notícias em 2013, após a estiagem criada pela alta pressão conservadora. O debate vai trovoar porque começam a reunir-se os fatores para uma tempestade perfeita.
                    Com exceção de 1998, os dez anos mais quentes da história foram registrados neste século. O de 2012 foi o mais escaldante dos EUA, castigado pelo furacão Sandy em outubro. Em setembro, o oceano Ártico bateu o recorde de menor extensão da calota de gelo em sua superfície.
                    Ganha impulso a guerrilha ideológica contra o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima). O colegiado de centenas de cientistas apresentará em setembro seu quinto relatório de avaliação (AR5), com o estado da arte das previsões para o aquecimento global.
                    Sua credibilidade sofreu baixas localizadas, como a polêmica sobre as geleiras do Himalaia. No quarto relatório (AR4, de 2007), redatores do IPCC haviam incluído relatórios de ONGs -e não trabalhos acadêmicos- como evidência de sua suposta retração.
                    Agora, houve o vazamento de capítulos do AR5, documento ainda sigiloso porque em fase de revisão. O texto foi divulgado no blog da jornalista canadense Donna Laframboise, que acusa o painel de reincidir no erro ao citar trabalhos da ONG WWF.
                    Isso não é proibido pelas diretrizes do IPCC, mas, de fato, parece imprudente. De qualquer maneira, as referências ainda podem ser expurgadas pelos revisores do texto, por ora um rascunho. A versão final sai em oito meses.
                    A mudança de ventos na negociação mundial sobre o clima, porém, depende menos do IPCC do que das oscilações de temperatura nos países que contam.
                    Nos EUA, Barack Obama, em seu segundo mandato, poderá animar-se a retomar o tema negligenciado no primeiro. Bom sinal foi ter escolhido para secretário de Estado o senador John Kerry -cuja mulher, Teresa Heinz, é pródiga apoiadora da causa ambiental.
                    Obama e Kerry ainda enfrentam um Congresso disposto a deitar gasolina no fogo (nunca a imagem foi tão apropriada). Mas logo ganharão um argumento para moderar o patriotismo petroleiro dos congressistas.
                    Economias como China, Índia e Brasil devem crescer com mais vigor neste ano e, em breve, contribuirão mais que o mundo rico para agravar o esfeito estufa. Será obrigatória sua participação, como exigem os ianques, em qualquer esforço para domar o aquecimento global.
                    Isso, claro, se nenhum raio lançar esses países, ou a economia mundial, nas trevas.

                    sábado, 3 de novembro de 2012

                    Muita terra, pouco índio - Marcelo Leite


                    MARCELO LEITE

                    Os 20 mil ianomâmis do Brasil vivem numa terra indígena com 96.650 km², área maior que a de Portugal.

                    Na reserva indígena Dourados (MS), cerca de 12 mil guaranis (caiovás e nhandevas) dispõem de 35 km². São mais que 340 pessoas por km².
                    Quem acha que os índios do Brasil têm terra demais deveria ser confrontado com dois pedidos: defina "índios" e defina "terra demais".
                    De aicanãs a zuruahãs, há 238 etnias no diretório "Povos Indígenas do Brasil", do Instituto Socioambiental (ISA). Vivem em 680 terras indígenas e falam 180 línguas.
                    Fazendeiros -em especial pecuaristas, vanguarda do atraso no campo- gostam de citar que as terras indígenas ocupam 13,3% do território brasileiro, 1.128.702 km² de 8.514.877 km². Poucos sabem, porém, que 98,5% dessas áreas ficam na longínqua e pouco valorizada Amazônia.
                    Todas as outras terras indígenas do país abarcam 1,5% do território nacional. Aí se incluem as minúsculas "reservas" sul-mato-grossenses (era esse o nome na década de 1910, quando o Serviço de Proteção ao Índio, precursor da Funai, passou a instituí-las para confinar "bugres", um termo eivado de racismo e ainda utilizado na região).
                    Sem as reservas, não haveria hoje fazendas em Mato Grosso do Sul. Com elas, são os cerca de 50 mil guaranis brasileiros que se acabam. Alcoolismo, suicídios e violência completam a obra iniciada pela escravização nas mãos de portugueses e espanhóis. Quatro séculos atrás.
                    Isso quer dizer que o Estado todo deve ser devolvido aos guaranis? Nunca vai acontecer. Não dá para rebobinar a história. Os proprietários que possuem títulos fundiários de boa-fé podem e devem ser indenizados, não só pelas benfeitorias, mas pela "terra nua".
                    Para isso foi criado, neste ano, o Fundo Estadual de Terras Indígenas. Os fazendeiros mais estouvados preferem aferrar-se a intermináveis recursos judiciais, quando não ao emprego de violência.
                    Os guaranis têm do seu lado a Constituição, que reconhece os direitos originários dos índios sobre as terras que tradicionalmente ocupam (mas nunca se cumpriu o prazo de cinco anos -vencido há 19- para a União concluir a demarcação de todas as terras indígenas do Brasil).
                    O barulho em torno do despejo dos 170 guaranis confinados em um hectare (0,01 km²) da fazenda Cambará, em Iguatemi (MS), decorre de o Estado brasileiro enfim ter começado a se mexer na região em litígio. Um acordo firmado em 2007 entre Ministério Público Federal e Funai determina que se faça a demarcação de 30 territórios tradicionais, emperrada pelas ações na Justiça.
                    As áreas já demarcadas somam 1.240 km², segundo o ISA. Menos de 0,4% do Estado de Mato Grosso do Sul.