quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ANTONIO DELFIM NETTO


Leilões

O Prêmio Nobel de Economia de 2012, atribuído a dois brilhantes microeconomistas, Lloyd Shapley e Alvin Roth, tem um significado especial para a recuperação do prestígio da profissão, fortemente abalado pelo formidável fracasso de muitos "especialistas" na teoria monetária.
Estes envolveram-se na destruição da regulação do sistema financeiro construída -nos anos 30 do século passado- para prevenir as patifarias que aquele estatuto controlou por mais de quatro décadas.
Maria Antônia de Oliveira, brilhante economista brasileira, hoje professora da FEA-USP e colaboradora de Alvin Roth em vários trabalhos, deu uma definição de suas finalidades altamente relevantes para o momento atual da economia brasileira.
Afirmou ela (numa transcrição livre, conveniente para meu objetivo neste "suelto"), que um dos objetivos da teoria que tem sido matéria de estudo de muitos pesquisadores é o "desenho dos mercados".
A ideia é tentar entender mais detalhadamente as regras dos mercados para colaborar na sua organização, ou "consertálos" quando eles quebram...
Por que a relevância? Porque ela tangencia o mais importante problema que o governo brasileiro tem que enfrentar para poder utilizar o capital e a eficiência do setor privado para acelerar os investimentos em infraestrutura: a construção de leilões eficientes, capazes de obrigar os competidores a revelarem "tudo o que sabem" e, afinal, determinar o vencedor capaz de assegurar a prestação do melhor serviço presente e garantir os investimentos futuros para mantê-los (definidos pelo poder concedente) à menor taxa de retorno (aceita no leilão pelo concessionário).
Este é o momento para a administração pública socorrer-se do imenso progresso da teoria dos leilões.
Deveria ser evidente que, em muitos casos, o excesso de voluntarismo nos tem levado a políticas e concessões que não fecham, particularmente, por exemplo, no setor do petróleo, onde as oportunidades que nos oferece o pré-sal para acelerar o desenvolvimento econômico do país estão sendo dramaticamente retardadas.
Agora, com a grande decisão da presidente Dilma de reconstruir a empresa de logística entregue a um excelente profissional treinado no velho Geipot e a disposição de acelerar e ampliar as concessões de infraestrutura ao setor privado, é a oportunidade do governo de aproveitar o saber acumulado em nossa academia na constru-ção de leilões eficientes, em lugar de insistir na burocracia bem intencionada, mas amadora na teoria dos leilões.

RUY CASTRO


Santo forte

RIO DE JANEIRO - Nos 16 anos em que morei e trabalhei em São Paulo, de 1979 a 1995, fui ao Rio, a trabalho ou sem motivo, duas vezes por mês em média. Isso significou 24 viagens por ano. Multiplicando por 16, temos que, naquele período, fiz 384 viagens ao Rio. Não admira que, quando anunciei aos amigos que iria voltar, muitos perguntassem: "Voltar como, se você nunca saiu daqui?".
Mas é claro que saí. Em 16 anos de São Paulo, tive sete empregos, morei em seis endereços, um deles próprio, comi da baixa à alta gastronomia, conquistei grandes amigos e fui casado com uma paulistana. Talvez por isso, sempre que dizia que ia ao Rio, as pessoas se preocupassem: "Mas, de novo? Você não tem medo da violência, das balas perdidas? E os arrastões na praia?".
Pelo que a TV martelava, de fato era difícil explicar que, se você não se visse num fogo cruzado entre polícia e bandidos perto de algum morro na Linha Vermelha, podia andar sem susto pela cidade -o que eu fazia dia e noite. A possibilidade de levar uma bala perdida era remota. Quanto a arrastões, só houvera um grave, em 1992, e, por acaso, num momento em que as câmeras estavam a postos na praia. Um acaso que marcou a cidade por anos.
De volta ao Rio, também há 16 anos, continuo na ponte aérea, só que ao contrário -raro não ir uma ou duas vezes por mês a São Paulo, e sempre com prazer. Mas, agora, com o Rio pacificado, a apreensão dos amigos se inverteu: "Você vai a São Paulo? E a violência? Os assassinatos, as execuções, os arrastões em restaurantes? Os sequestros-relâmpago? E se você for tirar dinheiro no caixa eletrônico e eles botarem uma bomba?".
Tento explicar que, assim como a violência no Rio era localizada, não há esse medo geral em São Paulo, as pessoas continuam levando a vida. Ou então eu é que, há séculos, abuso do santo forte.

FERNANDO RODRIGUES


Eleições e futurologia

BRASÍLIA - O mais divertido das eleições são os vaticínios peremptórios sobre seus efeitos futuros. Há vários e para todos os gostos.
O PT está predestinado a ganhar o governo de São Paulo em 2014. O PSDB afundou-se em crise irreversível. Eduardo Campos será candidato a presidente em 2014 ou 2018, pois o PSB é um dos grandes vencedores neste ano. O DEM está no fim, mesmo com a conquista de ACM Neto em Salvador. E Gilberto Kassab e seu PSD serão eternamente governistas.
Tudo isso pode estar certo. Ou não. Ninguém sabe. Não existe um algoritmo capaz de processar o resultado eleitoral e calcular com precisão o que ocorrerá daqui a dois anos.
O que há são dados objetivos do presente. Desde o final da ditadura militar, nunca um presidente da República viu durante seu mandato alguém do seu partido ser eleito prefeito de São Paulo. Dilma é uma exceção: ela e Fernando Haddad são do PT. Mas qual é o significado dessa curiosidade? Saberemos no futuro.
No final de 1987, só um maluco diria que dois anos depois Fernando Collor seria o primeiro presidente da República eleito pelo voto direto na nova fase democrática do país.
Em 1993, Fernando Henrique Cardoso fazia as contas sobre como se eleger deputado federal em 1994.
Em março de 1994, Luiz Inácio Lula da Silva liderava todas as pesquisas de opinião. Estava quase eleito presidente. No meio do ano, veio o Plano Real. FHC venceu em outubro.
No ano 2000, o PT analisava nomes para lançar a presidente em 2002. Lula estava desgastado. José Genoino e Cristovam Buarque eram as possibilidades mais citadas. Em 2008, Dilma era apenas uma aposta excêntrica de Lula para sucedê-lo.
É claro que as urnas em 2012 produziram vencedores e perdedores. Lula, o PT e o PSB saíram bem na foto. Todos os outros, com algumas variações, enfrentaram derrotas.
Mas nada garante que daqui a dois anos o cenário se repita. Ou não.

HÉLIO SCHWARTSMAN


Gol de mão

SÃO PAULO - Ao entrar com o pedido de anulação do jogo contra o Internacional, o Palmeiras estará na prática reivindicando o direito de fazer gols com a mão, o que não pega bem para um clube de futebol.
Antes que rábulas ludopédicos e palmeirenses em geral me venham corrigir, sei que a ideia é questionar uma suposta interferência externa na decisão do árbitro, o que é vedado pelas regras. Pior, a pessoa que teria influenciado o juiz lhe teria passado informações obtidas através de imagens de TV, o que também é proibido.
A analogia cabível, sustentam os "filopalmeirenses", seria com provas judiciais colhidas de forma ilegal, as quais, segundo a melhor doutrina do Direito, devem ser peremptoriamente excluídas do processo. "Mutatis mutandis", a informação de que o gol de Barcos foi feito com a mão não poderia ter chegado licitamente ao conhecimento do árbitro.
A tentativa é boa, mas não me convence. A razão para não tolerarmos provas ilegais na vida real não se aplica ao esporte bretão. Trata-se de uma proteção conferida ao indivíduo para protegê-lo do poder do Estado. Recusamos a busca sem mandado para preservar a privacidade do cidadão. Abominamos a confissão sob tortura para garantir-lhe a integridade física.
Obviamente, um jogador que se exibe diante de um público de dezenas de milhares de pessoas (sem contar a TV) não pode legitimamente invocar o direito de privacidade. Por mais que tente, não consigo ver, no contexto do futebol, nenhum interesse que possa competir com o de apurar o que de fato ocorreu na jogada.
É por essas e outras que me parece absurda a insistência da Fifa em banir ferramentas tecnológicas que possam melhorar a qualidade da arbitragem. Os esforços da entidade me lembram o rival de Galileu que se recusou a pôr o olho no telescópio para ver as evidências, alegando que tudo o que havia para saber sobre os astros já estava descrito na doutrina aristotélica sobre os céus.