domingo, 17 de março de 2013

"Khor e Kalínitch" - Ivan Turguêniev [trad.Irineu Franco Perpetuo]

folha de são paulo

IMAGINAÇÃO
prosa, poesia e tradução
Khor e Kalínitch
IVAN TURGUÊNIEVTRADUÇÃO IRINEU FRANCO PERPETUOQuem já foi do distrito de Vólkhov ao de Jizdra possivelmente ficou espantado com a aguda diferença no aspecto das pessoas da província de Oriol e de Kaluga. O mujique de Oriol é baixo, arqueado, soturno, olha de soslaio, mora em umas isbás de álamo pequenas e malfeitas, presta corveia, não faz comércio, come mal, calça alpargatas; o camponês arrendatário de Kaluga habita em espaçosas isbás de pinheiro, é alto, olha de forma sorridente e alegre, tem o rosto limpo e claro, comercia manteiga e alcatrão e usa botas nos feriados.
A aldeia de Oriol (estamos falando da parte oriental da província de Oriol) normalmente está situada em meio a campos arados, perto de uma vala transformada de qualquer jeito em um tanque imundo. Tirando uns salgueiros sempre às ordens e umas duas ou três bétulas ralas, não se vê uma árvore sequer no raio de uma versta; uma isbá é grudada na outra, os telhados, atulhados de palha suja... A aldeia de Kaluga, ao contrário, é geralmente rodeada de floresta; as isbás são mais livres e mais retas, com telhado de ripa; o portão fecha direito, a cerca do quintal não está desfeita nem tombada, convidando os porcos que passam... E, para a caça, a província de Kaluga também é melhor.
Na província de Oriol, as últimas florestas e praças estão fadadas a desaparecer em cinco anos, e não há nem sombra de pântano; em Kaluga, ao contrário, as matas se estendem por centenas de verstas, os pântanos por dezenas, essa ave nobre que é a tetraz ainda não se extinguiu, encontra-se a bondosa narceja, e a atarefada perdiz alegra e assusta o atirador e o cachorro com seu voo impetuoso.
Visitando o distrito de Jizdra como caçador, eu me deparei com um campo e travei conhecimento com um pequeno proprietário de Kaluga, Polutikin, um apaixonado pela caça e, portanto, uma pessoa exemplar. Possuía, é verdade, algumas fraquezas: por exemplo, oferecia-se a todos os bons partidos da província e, quando a mão e a casa lhe eram recusadas, confiava seu pleno pesar, com o coração aflito, a todos os amigos e conhecidos, continuando, porém, a enviar aos parentes da noiva pêssegos azedos e outros presentes de seu jardim; adorava repetir sempre a mesma anedota, a qual, apesar da admiração do senhor Polutikin por seus méritos, decididamente jamais fez alguém rir; louvava a obra de Akim Nakhímov e a novela "Pinna"; gaguejava; chamava o cachorro de Astrônomo; em vez de mas, dizia todavia, e implantara em casa a cozinha francesa, cujo segredo, no entendimento de seu cozinheiro, consistia em alterar completamente o sabor natural de todos os pratos: graças a esse artista, a carne ficava com gosto de peixe, o peixe, de cogumelos, o macarrão, de pólvora; em compensação, não havia cenoura que entrasse na sopa sem ter tomado o aspecto de um losango ou trapézio. Porém, à exceção desses poucos e insignificantes defeitos, o senhor Polutikin era, como já foi dito, uma pessoa exemplar.
No primeiro dia em que conheci o senhor Polutikin, ele me convidou a pernoitar em sua casa.
- São umas cinco verstas - acrescentou-, é longe para ir a pé. Vamos primeiro até a casa de Khor. (Permita-me o leitor não reproduzir seu gaguejar.)
- E quem é esse Khor?
- Um mujique meu... Fica pertinho daqui.
Fomos até ele. Em meio à floresta, em uma clareira limpa e bem cuidada, a casa de Khor se erguia, solitária. Consistia de umas armações de pinheiro, unidas em uma cerca; na frente da isbá principal, estendia-se um alpendre sustentado por colunas finas. Entramos. Veio a nosso encontro um rapaz de 20 anos, alto e belo.
- Ei, Fédia! Khor está em casa? -perguntou o senhor Polutikin.
- Não, Khor foi à cidade -respondeu o rapaz, sorrindo e mostrando uma fileira de dentes brancos como a neve- Quer que prepare a teleguinha?
- Sim, irmão, a teleguinha. E nos traga kvas.
Entramos na isbá. Nenhuma imagem de Suzdal cobria as limpas paredes de madeira; no canto, em frente ao severo ícone com moldura de prata, ardia uma lamparina; a mesa de tília fora raspada e lavada havia pouco; nos troncos e no umbral da janela, não havia carochas ligeiras a perambular, nem se escondiam baratas pensativas.
O jovem logo apareceu com uma grande caneca branca, cheia de um ótimo kvas, uma fatia enorme de pão branco e uma dúzia de pepinos salgados em uma tigela de madeira. Deixou toda essa comida na mesa, encostou-se na porta e se pôs a contemplar-nos, sorridente. Nem conseguimos comer todos os acepipes, pois a telega já estava na entrada. Saímos. Um menino de 15 anos, com cabelos encaracolados e faces vermelhas, era o cocheiro, contendo com dificuldade o garanhão malhado e bem nutrido. Em volta da telega havia seis jovens grandes, muito parecidos uns com os outros e com Fédia. "São todos filhos de Khor!", observou Polutikin. "Todos de Khor", corroborou Fédia, que viera atrás de nós até a entrada, "mas ainda não são todos: Potap está na floresta, e Sídor foi à cidade com o velho Khor... Veja bem, Vássia", continuou, dirigindo-se ao cocheiro, "vá a toda: você está levando o patrão. Mas fique de olho nos solavancos: não vá acabar com a telega, nem revirar as tripas do patrão!". Os outros filhos de Khor riram do exagero de Fédia.
"Ajude o Astrônomo a subir", exclamou solenemente o senhor Polutikin. Fédia, não sem prazer, ergueu no ar o cachorro, que sorria amarelo, e colocou-o no fundo da telega. Vássia soltou a rédea do cavalo. Partimos. "Esse é o meu escritório", disse Polutikin, subitamente, mostrando uma casinha baixa e pequenina, "quer entrar?". "Por favor." "Está desativado", observou, descendo, "mas ainda vale a pena dar uma olhada".
O escritório consistia em dois aposentos vazios. O vigia, um velho zarolho, veio correndo dos fundos. "Olá, Miniáitch", disse Polutikin, "cadê a água?". O zarolho sumiu, voltando imediatamente com uma garrafa de água e dois copos. "Aproveite", disse Polutikin, "essa minha água de nascente é ótima". Bebemos copos d'água enquanto o velho nos fazia uma profunda reverência. "Bem, agora parece que podemos ir", observou meu novo amigo. "Nesse escritório, vendi ao negociante Allilúiev quatro deciatinas de floresta por um bom preço." Sentamo-nos na telega e, em meia hora, já estávamos no pátio da casa senhorial.
- Diga, por favor -perguntei a Polutikin, no jantar-, por que Khor vive isolado dos outros mujiques?
- Veja por quê: ele é o meu mujique esperto. Há 25 anos, a isbá dele queimou; ele veio ao meu finado pai e disse: "permita, Nikolai Kuzmitch, que eu me instale no pântano da floresta. Vou pagar ao senhor um ótimo tributo". "Mas por que você quer se instalar no pântano?" "Ah, porque sim: Nikolai Kuzmitch, meu pai, apenas não exija nenhum trabalho de mim, mas estabeleça um tributo, aquele que o senhor quiser." "Cinquenta rublos por ano!" "Como quiser." "Mas veja bem, não me venha com atraso!" "Eu sei, sem atraso..." Daí ele se instalou no pântano. E, a partir desse dia, passou a ser chamado de Khor.
- Ele enriqueceu?
- Enriqueceu. Agora ele me paga um tributo de cem rublos, e ainda é possível que eu aumente. Já lhe disse mais de uma vez: "Compre sua liberdade, Khor, compre...". Mas ele, malandro, me garante que não tem como: é o dinheiro, diz, não tenho... Sei! Como se fosse isso!
No dia seguinte, fomos caçar logo depois do chá. Ao passar pela aldeia, o senhor Polutikin mandou o cocheiro parar em uma isbá baixa, e chamou sonoramente: "Kalínitch!". "Já vou, meu pai, já vou", soou uma voz que vinha do pátio, "estou amarrando as alpargatas".
Prosseguimos; na aldeia, fomos alcançados por um homem de 40 anos, alto, magro, com a cabecinha erguida para trás. Era Kalínitch. Seu rosto bronzeado e bondoso, marcado aqui e ali pela varíola, agradou-me logo de cara. Kalínitch (como vim a saber mais tarde) ia caçar todo dia com o patrão, carregava sua bolsa, às vezes até a espingarda, observava onde estavam as aves, arrumava água, colhia morangos, construía cabanas, corria atrás da drójki; sem ele, Polutikin não conseguia dar um passo. Kalínitch era um homem do temperamento mais alegre e dócil, cantarolava a meia-voz o tempo todo, olhava despreocupadamente para todos os lados, falava um pouco pelo nariz, sorria, apertava os olhos azuis claros e passava a mão frequentemente na barba rala e cuneiforme. Não caminhava rápido, e sim a passos largos, levemente apoiado em um bastão comprido e fino. Ao longo do dia, falou comigo mais de uma vez, servindo-me sem ser servil, mas o patrão ele vigiava como se fosse um bebê.
Quando o calor insuportável do meio-dia nos forçou a buscar refúgio, ele nos levou a seu colmeal, bem no fundo da mata. Kalínitch nos abriu uma pequena isbá, revestida de tufos de ervas aromáticas secas, alojou-nos em feno fresco e colocou na cabeça uma espécie de saco de tela, pegou uma faca, um pote e um tição e foi à colmeia, cortar um favo para nós. Sorvemos um mel diáfano como água de fonte e adormecemos sob o zumbido monótono das abelhas e o murmúrio loquaz das folhas.
SOBRE O TEXTO Este trecho foi extraído da narrativa "Khor e Kalínitch", que abre "Memórias de um Caçador", livro publicado em 1852 e a partir do qual Ivan Turguêniev (1818-83) se tornaria conhecido. A coletânea de contos baseados nas observações do autor em suas estadas no campo deve ser lançada no país em maio, pela editora 34. Foram suprimidas as notas do tradutor. Leia íntegra do relato emfolha.com.br/ilustrissima.

    O xadrez nível UFC de Tezza - Caetano Galindo

    folha de são paulo

    ARQUIVO ABERTO
    memórias que viram histórias
    Curitiba, 2006
    CAETANO W. GALINDOEu hoje sou vizinho de prédio de Cristovão Tezza.
    Quinze anos atrás, no entanto, quando virei professor da Universidade Federal do Paraná e acabamos dividindo um gabinete, minha relação com ele era só de leitor. Foi quando vim morar o condomínio Leblon, quando juntei a biblioteca (expressão da Beth, mulher do Cristovão) com a da Sandra (Stroparo, outra colega de departamento), que a gente passou a conversar mais e a "se frequentar". (A vida social dos curitibanos, mesmo dos adotivos, como Cristovão, podia ser tema de documentário, como aqueles sobre bichinhos em extinção.)
    Foi mais ou menos nessa época, e também por influência da Sandra -que me deu o meu primeiro software de xadrez- que o meu interesse de adolescência pelo jogo recebeu uma reanimação cardiorrespiratória básica; ou talvez o estado zumbi do meu jogo seja uma condenação cármica maior.
    Gosto muito de xadrez, jogo bastante (sempre on-line: eis o curitibanismo), mas o jogo para mim continua sendo uma fundamental lição de humildade. Eu sou péssimo. Não evoluo. Aprendo a fracassar. A fracassar de novo. A fracassar melhor, como diria Beckett (outro enxadrista, aliás).
    E nada me "humilifica" mais do que jogar com o Cristovão. Ele é bom. Bom tipo semiprofissional. Ele é sério. (E não se engane o não jogador. Quem esteve lá sabe. Xadrez é violência, é destruição. E mesmo com as melhores simpatias que ele sempre demonstra, o que o Cristovão faz comigo no tabuleiro é nível UFC.)
    A gente joga hoje on-line (estilo correspondência, onde cada um dá um lance e volta no dia seguinte para conferir a resposta), já jogou na casa dele, com relógio (que é como UFC com alguém soprando baboseiras no teu ouvido), mas começamos mesmo jogando no nosso gabinete, no 11º andar do edifício d. Pedro 1º, do conjunto da Reitoria da UFPR. Sala 1104.
    Lá o esquema já era o da correspondência. Eu tinha levado um tabuleirinho tipo caixa, de fechar, e cada um dava um lance, anotava numa planilha para compensar qualquer desacerto promovido pelo pessoal da limpeza e voltava dias depois para "reresponder". Era divertido. E andava bem.
    Aí um dia chegou uma data de aniversário do Cristovão. Fui lá e, com o recém-adquirido salário de doutor, em 2006, comprei um tabuleiro mais bonito, com mais cara de sério, para pôr na minha mesa. Cheguei na universidade, troquei os tabuleiros, repondo as peças na posição correspondente do jogo em curso naquele momento. E dei meu lance, claro.
    Dia seguinte, todo animadinho, pergunto ao Cristovão: "E você viu o jogo, daí?". E ele, claro, tem na memória a posição completa, o meu lance mais recente, a resposta dele e as possíveis alternativas de ambos.
    "Mas... o tabuleiro novo? Viu lá?" (Curitibano adora terminar frase com advérbio.) Não. Simplesmente não tinha registrado.
    O lance, sim. A modificação das relações sempre instáveis entre os valores relativos das peças em suas posições temporárias ele, claro, notou e avaliou (Ele viria a ganhar essa partida, como todas as outras.) Mas a "notação", os elementos concretos, esses não são relevantes.
    Bons jogadores de xadrez são capazes de jogar sem um tabuleiro e peças. O mapa, sabemos, não é o território. Os peões não são o jogo.
    Marcel Proust dizia que, como das pessoas só entendemos o que dela representamos para nós, é da sabedoria do romance eliminar o inacessível (as tais "pessoas reais") e instaurar representações que tenham de se sustentar plenamente. Formas.
    Não sei se o que fez do Cristovão um jogador de xadrez astronomicamente melhor que eu não pode ter a ver com o que faz dele um escritor (e dos bons) e de mim um tradutor (um "reescritor" dos livros dos criadores).
    Só sei que, desde que ele saiu da universidade e se mocozou no apartamento que vejo da janela, o tabuleiro está parado em posição de sentido em cima da minha mesa, esperando que algum aluno se intimide com o meu bullying ou fique com pena do meu "patetiquismo" e abra um jogo.
    Eu ofereço as brancas, tá?
    E vou perder. Não se preocupe.

      Sexo + DSK = notícia - Serge Kaganski

      folha de são paulo

      DIÁRIO DE PARIS
      o mapa da cultura
      Sexo + DSK = notícia
      O livro da ex-amante, a privacidade e a mídia
      SERGE KAGANSKITRADUÇÃO PAULO WERNECKO affaire Marcela Iacub-Dominique Strauss-Kahn acaba de agitar a esfera midiático-cultural da França. Jurista, ensaísta e cronista de origem argentina, Iacub volta e meia perturba por seu feminismo paradoxal e suas críticas à criminalização da sexualidade, na fronteira da defesa do estupro. Ela acaba de publicar "Belle et Bête" (Stock), relato de sua relação de sete meses com DSK, lançado de modo espetacular na capa da revista "Le Nouvel Observateur", que publicou trechos duas semanas antes da chegada às livrarias.
      Em 2011, como se sabe, o então presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI) foi acusado de estupro por uma camareira de um hotel em Nova York. O escândalo mundial minou sua promissora candidatura à presidência da França pelo Partido Socialista.
      Muitas perguntas foram feitas quando o livro saiu. Sobre a qualidade literária. Sobre o lançamento midiático que instrumentalizou DSK. Sobre as fronteiras entre literatura e comércio, jornalismo e sensacionalismo, informação e respeito pela vida privada.
      Em meio à tempestade no copo d'água, cada um foi um pouco hipócrita: Iacub e o "Nouvel Obs", que invocam a literatura enquanto sabem que DSK vende; DSK, que apregoa seu desgosto e apela à deontologia; o público, que denuncia nas redes sociais um livro "nojento" sem nem ter lido. Oscilando entre realidade e fantasias, "Belle et Bête" não é nem escandaloso nem genial. Mas o burburinho do lançamento se parece com o cinismo mercantil de nossa época.
      CINEMA SINGULAR
      Apresentado no Festival de Berlim,"Camille Claudel 1915" é o filme francês mais forte e atípico do momento. Lembramos que a escultora e irmã do escritor Paul Claudel já foi tema de uma cinebiografia com Isabelle Adjani e Gérard Dépardieu uns 20 anos atrás. O diretor Bruno Dumont escolheu mostrar algumas semanas da vida de Camille Claudel no asilo psiquiátrico onde foi erroneamente internada durante longos anos.
      Dumont fez o filme num asilo de verdade, com doentes verdadeiros e enfermeiras reais, em meio aos quais Juliette Binoche encarna Camille Claudel. O filme mostra a solidão, o silêncio, o vazio de uma existência entravada. Dumont filma com a mesma atenção, a mesma duração e as mesmas escalas de plano o rosto de Binoche e os dos internos verdadeiros: confronto esclarecedor entre o rosto de uma estrela sem maquiagem e os de figuras monstruosas que acabam ganhando certa beleza pela potência do olhar do autor. Uma experiência cinematográfica singular e fortíssima.
      POP MADE IN FRANCE
      Os meandros da história do rock ecoam às vezes estranhas coincidências. Enquanto acaba de morrer o cantor mítico do rock francês Daniel Darc, de obediência pós-punk, figura "destroy" do sombrio tecnopop dos anos 80, um de seus filhos estéticos acaba de lançar seu primeiro álbum e de entrar no clube das promessas da canção francesa: o nome é Lescop (esse é também o título de seu disco).
      Muito influenciado pela "cold wave", Lescop se situa na encruzilhada de cantores de texto como Murat, Miossec ou Dominique A, e de mitos do rock anglo-saxão como Joy Division, que marcou sua educação musical e sua atitude. Encarna perfeitamente a fusão pós-moderna entre canção francesa tradicional pouco exportável e o pop universal, dois universos que, por muito tempo, foram incomunicáveis entre si e que se aproximaram há uns 30 anos, graças a personalidades como Daniel Darc. O ciclo se fecha.
      CINEMA POLÍTICO
      Num registro muito diferente de "Camille Claudel 1915", sai esses dias "Notre Monde", documentário de Thomas Lacoste que está no cruzamento do cinema, da política e das ideias. Reunindo cerca de 30 intelectuais de prestígio (Luc Boltanski, Etienne Balibar, Jean-Luc Nancy, Françoise Héritier...), que representam diversas disciplinas e correntes de pensamento, Lacoste os filmou analisando o mau estado de nosso mundo e desenvolvendo propostas para melhorá-lo.
      Cada um fala de seu campo de especialização, mas o filme articula todas essas vozes e mostra que a ideologia liberal dominante atualmente destrói todos os setores de nossas sociedades. Isso poderia ser deprimente, mas a associação de todas essas cabeças pensantes e falantes dá esperança e vontade de se mobilizar. O trailer, em francês, pode ser visto em http://bit.ly/notremonde.

        Notas sobre a violência - De antropólogos e outras tribos ferozes

        folha de são paulo

        MARCELO LEITERESUMO Antropólogo Napoleon Chagnon retoma em novo livro teoria sobre agressividade ianomâmi e ataca adversários da sociobiologia. Jared Diamond escreve obra de bases semelhantes, mas mais generosa com 'primitivos', aproximando-se de adversários de Chagnon, como Manuela Carneiro da Cunha, que lança coletânea.
        É preciso ter estômago forte para digerir a narrativa de um antropólogo que escolhe iniciar o relato de seu primeiro dia de campo entre os ianomâmis -meio século depois- com a frase: "Nunca antes tinha visto tanto ranho verde". Não é a antropologia, porém, a disciplina que ensina a combinar o máximo de disciplina com o mínimo de conforto em benefício do entendimento do homem?
        Leia-se então com dose generosa de bonomia antropológica a obra mais recente do americano Napoleon Chagnon, "Noble Savages - My Life among two Dangerous Tribes - The Yanomamö and the Anthropologists" [Simon & Schuster, 531 págs., R$ 87,50]. Em desagravo, que seja, porque Chagnon pagou um preço alto demais por sua crença nas explicações ultradarwinistas do comportamento, cuja matriz -a natureza humana- acredita ter desvendado nas selvas do Orinoco.
        O estudioso americano dedicou pelo menos duas décadas de sua vida a longas permanências em terras ianomâmis, quase sempre na Venezuela (com desastradas incursões também do lado brasileiro). As três seguintes ele ocupou em defesa da carreira e da reputação quase arruinadas por dois outros livros: "O Povo Feroz" (1968), trabalho acadêmico de sua própria lavra, e "Trevas no Eldorado", um panfleto do jornalista Patrick Tierney (2000).
        Os que desconhecem a crônica dessa guerra entre os clãs cultural e biológico da antropologia encontrarão um resumo devastador das acusações mútuas no documentário "Os Segredos da Tribo", de José Padilha. Não se recomenda o consumo de pipoca na sessão de barbaridades que a fita apresenta.
        O povo feroz do título de Chagnon são os ianomâmis. Sua caracterização pelo antropólogo como uma etnia violenta, de homens "maliciosos, agressivos e intimidadores", que acumulam homicídios para obter mais mulheres e maior sucesso reprodutivo, despertou a ira dos antropólogos culturalistas.
        Primeiro, Chagnon foi acusado de distorcer a imagem do grupo e, assim, facilitar sua dizimação por brancos dos dois lados da fronteira. Depois, foi denunciado por Tierney como genocida, pois teria -intencional ou negligentemente, sob a tutela do médico americano James V. Neel- contribuído para uma epidemia de sarampo que matou centenas de índios.
        BOM SELVAGEM "Noble Savages" ("bons selvagens") é um acerto de contas com as duas tribos que infernizaram sua vida. A partir da descrição para o público não especializado de seu convívio de cinco anos com os ianomâmis, Chagnon retoma sua conclusão de que o "bom selvagem" concebido por Rousseau é um mito politicamente correto e que só há uma resposta biológica (evolucionista) -e simploriamente hobbesiana- para a questão de por que seres humanos são sociais: a luta de todos contra todos para aumentar a própria prole (ou pôr mais cópias dos próprios genes no mundo, na vulgata sociobiológica).
        Não faltam páginas desairosas para os ianomâmis no livro. "Olhei para cima e arfei, em choque, quando vi uma dúzia de homens corpulentos, nus, suados e pavorosos nos encarando por trás dos caniços de suas setas apontadas!" -conta sobre a primeira visita a uma casa coletiva dos índios.
        "Imensos rolos de tabaco verde estavam enfiados entre os dentes e os lábios inferiores, tornando sua aparência ainda mais pavorosa. Veios de ranho verde escuro pingavam ou pendiam de suas narinas -tão longos que se desprendiam de seus queixos, caíam sobre os músculos peitorais e escorriam preguiçosamente sobre seus ventres, mesclando-se com a pintura vermelha e o suor."
        Chagnon também não economiza relatos sobre tentativas mal sucedidas de engodo dos ianomâmis contra ele. Sempre eficazes, por outro lado, eram seus próprios ardis para levá-los a ceder amostras de sangue (para Neel) e a revelar nomes de ancestrais mortos -um tabu- para rechear suas genealogias e estatísticas. As mesmas informações, pagas com machados, facas e panelas de metal, que lhe permitiriam afirmar, depois, serem os homens com mais homicídios nas costas também os de prole mais numerosa.
        Muito antes das acusações de Tierney, as conclusões sociobiológicas e os métodos traficantes de Chagnon já vinham sendo questionados por seus pares na comunidade antropológica. Até a correlação estatística entre ferocidade e fertilidade masculina, formulada num famigerado artigo de 1988 para a revista acadêmica "Science", teve seus dados postos em dúvida (o autor foi acusado de excluir da amostra aqueles pais que já haviam sido mortos por vingança, portanto sem meios de multiplicar descendência).
        Os antropólogos culturais, refratários à moldura biológica em que Chagnon queria enquadrar o painel exuberante das culturas, já estavam no seu encalço. Nada se compara, porém, com a virulência do ataque de Tierney. Assim que um capítulo do livro foi publicado na revista "New Yorker", em outubro de 2000, a Associação Antropológica Americana entrou na briga -do lado dos culturalistas. Foi montado um comitê de investigação, que acabou por inocentar o médico Neel e descartar a epidemia intencional, mas recriminou Chagnon por desvios éticos.
        O caso teve enorme repercussão na imprensa mundial, brasileira inclusive. Contudo, quando a obra do "jornalista investigativo" Tierney e os próprios investigadores da AAA passaram a ser investigados, a começar pela historiadora da ciência Susan Lindee, o vento virou.
        Forçada por um referendo entre seus membros, a associação renegaria o relatório. As acusações de Tierney não paravam de pé, como reconstitui com farta documentação um ensaio demolidor da também historiadora Alice Dreger publicado em 2011 no periódico acadêmico "Human Nature", sob o título "Darkness's descent on the American Anthropological Association. A cautionary tale" (trevas sobre a Associação Antropológica Americana - uma fábula moral; leia em bit.ly/adreger).
        Dreger puxa vários fios da teia de perseguição a Chagnon. Levanta a suspeita, intrigante, de que a cruzada de Tierney pode ter ocorrido sob o patrocínio da Igreja Católica, mais especificamente da ordem de padres salesianos, que já mantinha missões junto aos ianomâmis da Venezuela quando o antropólogo por lá baixou.
        Após alguns meses de convívio e cooperação, cientista e religiosos se estranharam. Na versão fantástica narrada em "Noble Savages", isso ocorreu depois de um hierarca pedir a Chagnon ajuda para matar um padre amasiado com índia. Na passagem do livro que mais se avizinha do estilo de Tierney, o antropólogo também acusa os salesianos de distribuir espingardas cartucheiras entre os índios para conquistar seu favor.
        A inconsistência mais relevante da obra, porém, não decorre do ânimo retaliatório, e sim da pretensão de ter localizado entre os ianomâmis as nascentes da agressividade que supõe inerente à natureza humana. A antropóloga Elizabeth Povinelli assinalou, numa resenha escaldante de "Noble Savages" para o "New York Times", que a tese se assenta sobre a premissa falaciosa de que os ianomâmis sejam relíquias de uma infância neolítica da humanidade.
        FÓSSEIS Desde esse ponto de vista, compreende-se melhor o esforço retórico de Chagnon em degradar os ianomâmis, acentuando nas suas descrições uma animalidade que serve para relocar sua cultura na vizinhança da biologia. Ora, não há básica empírica nenhuma para afirmar que sociedades "primitivas" como a dos ianomâmis se mantiveram à margem da história, fósseis de um passado inaugural da espécie humana.
        Como lembra Manuela Carneiro da Cunha -que presidia a Associação Brasileira de Antropologia quando esta cerrou fileiras contra Chagnon- na coletânea de ensaios "Índios no Brasil - História, Direitos e Cidadania" [Claro Enigma, 160 págs., R$ 29,50], essa é uma visão originária do século 19, que atribui "à natureza e à fatalidade de suas leis o que é produto de política e práticas humanas, [...] consoladoras para todos à exceção de suas vítimas".
        Os ianomâmis, por exemplo, só permaneceram mais ou menos isolados (na realidade, longas redes de contatos já lhes garantiam acesso a artefatos de metal) porque suas terras montanhosas não interessavam a colonizador algum.
        A perspectiva adotada por Chagnon -um engenheiro convertido para a antropologia- faz tábula rasa de tudo que há de peculiar no modo de vida ianomâmi. Por que cargas d'água esses índios cremam seus mortos, moem os ossos calcinados e ingerem as cinzas com um mingau de banana? É esse tipo de manifestação simbólica que a antropologia cultural se esforça por sistematizar e elucidar, mas que a obra de Chagnon relega à penumbra dos detalhes irrelevantes para a "natureza humana".
        Ótica semelhante anima o último best-seller de outro adepto declarado da sociobiologia (rebatizada psicologia evolucionista), Jared Diamond, mas com resultados muito diversos, se não opostos. Em "The World until Yesterday - What Can We Learn from Traditional Societies?" [Viking, 512 págs., R$ 96,90], Diamond acredita piamente ter aberto uma janela para o passado nas suas décadas de visitas à Nova Guiné para estudar pássaros.
        A ilha, fervilhante com centenas de tribos e línguas em contato e conflito, constitui um continente cultural descoberto como tal por ocidentais só nas primeiras décadas do século 20. Fornece a Diamond, portanto, o equivalente dos ianomâmis para Chagnon, em matéria de isolamento e primitivismo.
        As diferenças entre esses dois generalizadores prodigiosos, contudo, salta já do título de Diamond. Ao contrário de Chagnon, ele está aberto -mais que isso, interessado- a aprender algo com os nativos, e não só sobre eles. São muitas as lições úteis que o observador de pássaros e homens extrai para o aperfeiçoamento marginal do indubitavelmente superior modo de vida ocidental: ingerir menos sal, aleitar bebês à vontade até os três anos, dar educação bilíngue às crianças, fazer refeições lentamente com amigos...
        Até das ameaças constantes da natureza e do estado de guerra crônica entre os primitivos Diamond retira um ensinamento, centro de gravidade do livro, que chama de "paranoia construtiva": o estado de vigilância permanente para os muitos perigos que a vida oferece aos homens. Depois de embasbacar multidões com as generalizações audazes de "Armas, Germes e Aço" (livro pelo qual ganhou o Pulitzer em 1998), Diamond corteja com leveza o gênero da autoajuda e compila um volume de leitura bem mais amena que
        "Noble Savages". Os ilhéus são feios e sujos como os ianomâmis, mas simpáticos e sábios.
        Já a paranoia de Chagnon, se cabe falar assim, é corrosiva. Nos termos da controvérsia que animou o Brasil escravizador de índios nos séculos 18 e 19, relatada por Manuela Carneiro da Cunha, eles podem ser encarados como cães, canibais e ferozes, ou como homens, diferentes e por isso exemplares de capacidade adaptativa e perfectibilidade. É uma questão de escolha, ou de ponto de vista.
        Como diz a antropóloga, repetindo o que ouviu em conferência de Claude Lévi-Strauss, a sociodiversidade pode ser tão preciosa quanto a biodiversidade: "Creio, com efeito, que ela constitui essa reserva de achados na qual as futuras gerações poderão encontrar exemplos -e quem sabe novos pontos de partida- de processos e sínteses sociais já postos à prova".
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        Em 2012, Napoleon Chagnon foi eleito para a prestigiada Academia Nacional de Ciências (NAS) dos Estados Unidos. Ato contínuo, em protesto, o antropólogo Marshall Sahlins -que em 2000 se engajara na campanha contra ele- renunciou à sua cadeira na NAS.
        Manifesto de 17 antropólogos que trabalham com ianomâmis deblaterou mais uma vez contra a noção de "povo feroz" reiterada no novo livro, que poderia ser usada por governos para prejudicar a etnia. Uma nota do líder ianomâmi David Kopenawa sobre a obra aponta as guerras dos brancos como muito mais ferozes que as de seu povo -uma observação antropologicamente perspicaz, ao menos no que respeita às tribos dos culturalistas e dos sociobiólogos.