quarta-feira, 29 de maio de 2013

Editorias FolhaSP - Charge

folha de são paulo - Charge - Angeli

Bolsa independência
Indicador mostra que programa de transferência de renda precisa melhorar para impulsionar ascensão social autônoma dos mais pobres
Adotado pelo governo desde o início dos anos 2000, o Índice de Desenvolvimento da Família (IDF) é a metodologia que detalha seis componentes da pobreza nacional com base no Cadastro Único --o banco de dados federal sobre a população de renda familiar mensal abaixo de três salários mínimos.
Além da variação dos rendimentos, o IDF avalia a vulnerabilidade, o desenvolvimento infantil, as condições habitacionais e o acesso ao trabalho e à educação desse universo de brasileiros, dos quais 13 milhões de famílias recebem recursos do Bolsa Família.
Os resultados, com base nos dados de dezembro de 2012, mostram um quadro que contrasta, em aspectos relevantes, com a euforia da propaganda oficial, concentrada no benefício monetário.
Com efeito, a presidente Dilma Rousseff anunciou em fevereiro a ampliação das transferências para tirar da pobreza extrema a totalidade dos cadastrados. Forjou, com isso, mais um slogan: "O fim da miséria é só um começo".
A medida da presidente atingiu 2,5 milhões de pessoas que já recebiam benefício do programa, mas ainda tinham renda abaixo de R$ 70, o valor adotado pelo governo federal para traçar a linha de miséria no país, cifra nunca reajustada.
Com a elevação, o orçamento do Bolsa Família passou para cerca de R$ 24 bilhões, aumento significativo em relação a 2010, último ano do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando as transferências consumiram R$ 14,3 bilhões.
Os índices do IDF, que variam no intervalo de 0 a 1, mostram-se especialmente preocupantes em dois aspectos: o acesso de adultos a empregos de boa qualidade (0,29) e de adultos e adolescentes a conhecimento e educação (0,38).
No primeiro caso, o indicador afere a ocorrência de adultos formalmente ocupados com ganhos de pelo menos dois salários mínimos. No segundo, o nível educacional de adultos e jovens.
Os valores indicam que os mais pobres se encontram muito aquém das condições para trilhar com sucesso um percurso de verdadeira emancipação social.
Mais auspicioso é o indicador sobre desenvolvimento infantil --de 0,83. Neste quesito, a nota aumenta quando mais crianças e adolescentes deixam de trabalhar e frequentam escolas. Boa notícia.
É esse, aliás, um dos objetivos originais do Bolsa Família: fazer a renda induzir a família a promover a escolarização dos filhos.
O programa, que consolidou e ampliou sistemas de transferência anteriores, desempenha papel inquestionável no processo de redução das desigualdades no Brasil.
No entanto, mais do que um colchão para amortecer a miséria, é crucial instrumentar todos os beneficiados --hoje, e não só nas gerações futuras-- para viver sem o auxílio. Ainda há muito a melhorar.
    EDITORIAIS
    editoriais@uol.com.br
    Pagamentos inidôneos
    A publicação de certas notícias --e não são poucas-- põe o contribuinte a se perguntar: haverá alguém, no governo, que de fato se importe com a coisa pública? Vale dizer, com o bom emprego das verbas que passam por suas mesas?
    Se houvesse, os cidadãos que trabalham mais de um terço do ano só para custear impostos não seriam afrontados tão frequentemente com manchetes aborrecidas como "Governo pagou R$ 294 milhões a empresas de lista suja' ".
    A reportagem, publicada nesta Folha, dava conta de que o governo federal carreou tal montante, nos últimos 16 meses, para 79 das mais de mil empresas listadas pela Controladoria-Geral da União (CGU) no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas (Ceis), por irregularidades em licitações e convênios.
    A explicação para a flagrante contradição é descabida: a proibição valeria só para novas contratações, não para contratos já em andamento. Não haveria impedimento legal para manter os repasses de verbas públicas à contratada, sob pretexto de preservar a prestação de serviços "essenciais" contratados. Tal justificativa, meramente burocrática, foi apresentada por vários ministérios afetados.
    Ora, a lógica por trás de uma "lista suja" é punir maus fornecedores. Se a existência do índex não os impede de seguir recebendo dinheiro do erário, há uma falha que salta aos olhos.
    O governo deveria cancelar todos os contratos com as firmas inidôneas ou faltosas, e não só aqueles flagrados em irregularidades. Não há razão aceitável para continuar a fazer desembolsos em seu favor, a não ser nos casos de serviços já prestados.
    Nenhuma hipótese quanto à origem desse comportamento anômalo é boa para os órgãos de governo que o exibem. A menos danosa é a de prevaricação, ou seja, que os funcionários responsáveis estejam a negligenciar sua obrigação (sustar os pagamentos).
    Bem mais grave, ainda que não implausível, é a possibilidade de que as companhias indigitadas sejam mantidas no rol de fornecedores aptos desta ou daquela repartição federal como retribuição por serviços outros, nada republicanos, como doações ocultas de campanha ou simples propinas.
    Há que fazer cumprir, nos editais e contratos, a cláusula óbvia de que só as firmas que se mantenham idôneas seguirão recebendo pagamentos do governo.

      Após mudar a cara do sertanejo, produtor Dudu Borges é procurado por nomes da MPB

      folha de são paulo
      LUCAS NOBILE
      DE SÃO PAULO

      Milionário e José Rico, ícones da música caipira dos anos 1970, ostentaram a riqueza no nome e venderam milhões de discos. Hoje, eles e seus pares invejariam os valores movimentados pelos milionários do chamado sertanejo universitário.
      A lista dos mais bem pagos do gênero inclui Michel Teló (estima-se que "Ai Se Eu Te Pego" tenha rendido mais de R$ 100 milhões), Luan Santana, Fernando & Sorocaba (o último é campeão de arrecadação de direitos autorais pelo Ecad, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição) e Jorge & Mateus.
      O que esses nomes têm em comum, além das músicas mais tocadas? Todos já tiveram produção e arranjos de Dudu Borges, apontado como o principal responsável por mudar a cara do sertanejo.
      Danilo Verpa /Folhapress
      O produtor Dudu Borges, 30, em seu estúdio em São Paulo
      O produtor Dudu Borges, 30, em seu estúdio em São Paulo
      Aos 30 anos, o músico, que é natural de Campo Grande, mora há 13 em São Paulo, onde comanda as gravações em seu estúdio Vip, localizado no Cambuci, desde 2010.
      Por lá, após produzir hits como "Chora, Me Liga" (João Bosco & Vinicius, 2009), "Fugidinha" e "Ai Se Eu Te Pego" (ambas de Teló, respectivamente em 2010 e em 2011), Dudu Borges já é procurado por artistas de fora do sertanejo.
      Depois de ter produzido Fiuk e duas faixas de Jorge Ben Jor --uma delas, "Salve o Verde", ao lado de Mano Brown--, o produtor trabalha no primeiro álbum de inéditas de Fabio Jr. desde 2004.
      O sucesso também se reflete em números. Dudu produz dez discos por ano, recebendo R$ 500 mil por trabalho, segundo a Folha apurou. A produção de um álbum de artista brasileiro de destaque custa, com outros produtores, de R$ 150 mil a R$ 200 mil.

      "Teve gente dizendo que acabei com a música brasileira. Depois, você se acostuma e pensa: está tudo bem, as coisas estão indo bem pelos resultados", diz o produtor.
      Produtor fez arranjos das 3 mais tocadas neste mês
      Dudu Borges assina "Amiga da Minha Irmã", "Vidro Fumê" e "Te Esperando"
      Músico trabalha atualmente em DVD de Luan Santana e no primeiro CD de inéditas de Fabio Jr. desde 2004
      DE SÃO PAULONuma rua pacata do bairro do Cambuci, em São Paulo, são burilladas as fórmulas para transformar canções extremamente simples nos maiores sucessos do país na atualidade.
      Ali fica o Vip, estúdio nada suntuoso (perto dos padrões dos frequentados por estrelas da MPB), mas confortável e bem equipado. É lá que Dudu Borges recebe com frequência Michel Teló, Luan Santana, Fernando & Sorocaba, Jorge & Mateus, Bruno & Marrone, entre outros.
      Com mais de dez anos de carreira como produtor e arranjador, o trabalho do rapaz vindo de Campo Grande (MS) começou a vingar em 2009. Naquele ano, ele arranjou e produziu o álbum "Curtição", da dupla João Bosco & Vinícius, com o qual emplacou o hit "Chora, Me Liga".
      "A gente fez Sufoco', que foi uma das que mais marcaram na mudança de sonoridade do sertanejo, cheio de convenções. Ou dava certo ou dava tudo errado. Depois veio Chora, Me Liga', que estourou na América Latina", lembra o produtor.
      O sucesso com Jorge & Mateus ajudou a consolidar a fórmula básica do sertanejo universitário: pegar elementos regionais (como a voz sertaneja e instrumentos como a sanfona) e adaptá-los a uma sonoridade mais pop rock.
      "Na minha cabeça tinha que soar como um rock acústico, com vozes sertanejas e elementos regionais. Mas tinha que conhecer o lance sertanejo, nasci em Campo Grande. Mas, se eu te disser que eu ouvia Milionário & José Rico, é mentira", admite Dudu.
      FORMAÇÃO NO GOSPEL
      Aos 12 anos, ainda em Campo Grande, Dudu Borges começou a frequentar o estúdio de um primo, que lhe apresentou discos de bandas como Queen e Beatles e lhe ensinou a fazer jingles.
      O garoto, que ouvia dos roqueiros ingleses a duplas sertanejas dos anos 1990, como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel, teve sua formação como tecladista aprimorada na igreja.
      "Sempre tive muita liberdade para fazer o que queria na igreja. Lá, você toca de tudo: samba, pagode, rap, black, funk... Quando tive a oportunidade de fazer o sertanejo, foi um pouco de ingenuidade minha, não pensei muito para fazer", diz Dudu.
      Filhos de pais que frequentavam a Igreja Batista, em Campo Grande, ele iniciou sua carreira como produtor e arranjador no gospel. De lá para cá, assinou mais de 35 trabalhos dentro do gênero.
      Após ficar conhecido no meio, Dudu diz ter sofrido preconceito ao deixar de trabalhar com músicas de cunho religioso para produzir canções com temática de balada, cujas letras são, digamos, bem menos pudicas do que as do ambiente da igreja.
      "Pessoas falam: O cara é da igreja e tá aí fazendo essas músicas'. Isso é natural. Minha mãe se preocupava um pouco mais, não pelo lance das letras, mas pelo ambiente", diz o produtor. "Minha religião é uma coisa, meu trabalho é outro, não sou esse cara bitolado", completa.
      UM BILHÃO DE "VIEWS"
      Depois de se estabelecer no meio gospel, o salto da carreira de Dudu se deu com os trabalhos "seculares", como ele define. A entrada no meio sertanejo aconteceu em 2006, quando ele escreveu os arranjos de algumas músicas do disco "Ao Vivo em Goiânia", de Bruno & Marrone.
      Entre os anos de 2005 e 2008, também canetou as partituras e tocou teclado na banda Tradição, que tinha Michel Teló, seu amigo de adolescência dos tempos de Campo Grande, no vocal.
      E a igreja, mesmo que indiretamente, ainda reservava bons frutos para Dudu. Em um culto, ele encontrou o pagodeiro Rodriguinho (ex-Travessos), que lhe disse que mostraria algumas canções.
      No pacote estava "Fugidinha". Com o faro apurado para o sucesso, Dudu recomendou a Teló que ele a gravasse. A música foi a mais tocada no país em 2010.
      No ano seguinte, veio o maior sucesso, novamente com Teló, "Ai se Eu Te Pego", que já ultrapassou a marca de mais de 500 milhões de visualizações no YouTube.
      "Tenho mais de um bilhão de views' no YouTube", comenta. "Já ouvi que esse cara sou eu, não o Roberto Carlos', mas sou vacinado. Não tem prêmio maior que ser procurado por quem sempre admirei: Bruno & Marrone, Jorge Ben Jor e Fábio Jr., que é mito."
      E os números seguem a favor de Dudu. Neste mês, segundo a Crowley Broadcast Analysis Brasil, as três músicas mais tocadas no país foram produzidas por ele: "Te Esperando", de Luan Santana, "Vidro Fumê", de Bruno & Marrone, e "Amiga da Minha Irmã", novo hit de Teló.
      Além de trabalhar no próximo disco de Fábio Jr., o produtor se dedica ao novo DVD de Luan Santana, que será gravado em julho, em Itu.
        CDS
        SERTANEJO
        Sunset
        Michel Teló
        GRAVADORA Som Livre
        QUANTO R$ 19,90 (CD) e R$ 29,90 (DVD), em média
        AVALIAÇÃO **
        O disco novo de Michel Teló reafirma a máxima deque "um raio não cai duas vezes no mesmo lugar". Este álbum ao vivo dificilmente emplacará um fenômeno como "Ai se Eu Te Pego", mas mantém a mesma fórmula: um batidão (vaneirão com pegada de balada) extremamente pop. Com produção de Dudu Borges e participações de nomes como Paula Fernandes, Teló já emplacou o hit "Amiga da Minha Irmã". (LN)
        SERTANEJO
        Homens e Anjos
        Fernando & Sorocaba
        GRAVADORA Som Livre
        QUANTO R$ 19,90, em média
        AVALIAÇÃO **
        Também com produção e arranjos de Dudu Borges, o CD de Fernando & Sorocaba já tem uma faixa entre as mais tocadas do Brasil. Com seu country de balada, versos e músicas simplórios, o disco da dupla é puxado pelo hit "Imagina na Copa", cuja letra diz "Se hoje a mulherada já topa/ Imagina na Copa". "As Mina Pira", "Musa do Timão" e "Minha Ex" seguem a mesma linha de euforia sem conteúdo. (LN)

          José Simão

          folha de são paulo
          Caixa! O Dudu tá lendo errado!
          E o prefeito Eduardo Paes acusado de agredir músico. Ele só queria incluir o UFC nas Olimpíadas
          Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta: "Grupo é preso ao fazer gato em peixaria de BH". É muita sacanagem fazer gato em peixaria! Rarará.
          E tem uma agência da Caixa Econômica num bairro em Porto Alegre: Caixa agência Tristeza! Achei! Descobri a origem dos boatos de extinção do Bolsa Família: agência Tristeza! Rarará!
          Foi nessa tristeza que começaram os boatos!
          E essa confusão toda da Caixa? O Dudu tá lendo. Só que errado! Deviam fazer um novo comercial da Caixa: "O Dudu tá lendo errado!". Rarará!
          E o prefeito Eduardo Paes acusado de agredir músico? Ele só queria incluir o UFC nas Olimpíadas!
          E o agredido que xingava o prefeito se chama Botkay! Devia se chamar Batekay!
          E o Sensacionalista revela que Paes pediu desculpas à população: "Eu não devia ter dado um soco, devia ter dado uns dez". Rarará!
          Olha, se me xingassem de "bosta e vagabundo", como esse cara fez com o prefeito, eu dava uma voadora nas oreia! Rarará!
          E adorei essa faixa na Marcha das Vadias em Porto Alegre: "Tenho orgasmos, e o Marco Feliciano não me representa".
          E um pastor que xingou as participantes da Marcha das Vadias de comunistas?! Rarará!
          E o Marco Feliciano confirmou presença na Parada Gay. Fantasiado de armário! Vai sair em cima de um trio elétrico fantasiado de armário e chapinha! Rarará.
          E o Kibeloco revela mais duas manchetes para 2030! Como será o Brasil em 2030.
          Entretenimento: 1) "Carro inteligente é atropelado em programa matinal por loira que pensa". Isso, até 2030 a Ana Maria Braga vai pensar. Rarará!
          2) "Ex de Ju Paes fica com futura ex de Galisteu que é ex de ex-ex-BBB". Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
          Os Predestinados! É que em Fortaleza tem um médico obstetra: dr. Kitt Rôla!
          E o chefe de segurança da Copa das Confederações que proibiu a caxirola se chama Hilário! Não pode! Não inspira respeito.
          "Não pode entrar no estádio com a caxirola". Quaquaquá! Hilário.
          "Não pode subir nas cadeiras". Quaquaquá! Hilário! Rarará.
          Nóis sofre mas nóis goza!
          Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

          Antonio Prata

          folha de são paulo

          Apolpando

          DE SÃO PAULO

          Eu gosto de goiaba, mas não gosto de comer goiaba. Ela tem uns caroços que não são grandes, mas são duros: você deve mastigar com cuidado, só até seus dentes tocarem um caroço, então para --é como se nunca pudesse fruir plenamente das potencialidades da goiaba.
          Eu gostava da Alice, mas não gostava de namorar a Alice. Ela tinha umas implicâncias que não eram grandes, mas eram pétreas: eu tinha que me aproximar com cuidado, só até roçar em suas defesas --era como se eu nunca pudesse fruir plenamente das potencialidades da Alice.
          Quando terminamos, pensei: nossa, que mulher incrível seria Alice sem caroços!
          *
          Uma noite, muito tempo depois de terminarmos, Alice apareceu aqui em casa. Com outras palavras, disse que eu só era capaz de me relacionar com maçãs: pessoas homogêneas, medíocres, com quem você pode conviver sem se preocupar com a casca, os caroços, segurando pelo cabinho, sem melar as mãos.
          Acho que ela via a si própria como uma espécie de romã.
          *
          A banana é uma das frutas mais saborosas que existem e é, sem dúvida, a mais fácil de comer. O que joga por terra a falácia de que as pessoas interessantes ou inteligentes ou talentosas devem ser antipáticas, cheias de caroços ou difíceis de descascar. (Pena que, naquela noite, não pensei nisso.)
          *
          Chega de Alice. Falemos de coisas boas.
          *
          A manga é a picanha do reino vegetal. Se o mundo fosse justo, seria a manga, não a maçã, o paradigma da fruta; "pomme", em francês, seria manga; a serpente ofereceria manga a Adão e Eva (ah, o sexo que perdemos!*); Steve Jobs teria ficado rico pondo suas manguinhas de fora; Newton teria tirado a famosa soneca à sombra de uma mangueira.
          Não: se uma manga caísse na cabeça de Newton, ele a teria comido e mandado a física pras cucuias --que gravidade resiste a este Sol da Terra?
          *
          Nunca achei a menor graça na Audrey Hepburn --uma uva, diriam muitos: não discordarei, mas prefiro as mangas; ah, Scarlett Johansson!
          *
          Outro dia, meu pai veio me visitar e trouxe uma caixa de caquis, lá de Sorocaba. Eu os lavei, botei numa tigela na varanda e comemos um por um, num silêncio reverencial, nos olhando de vez em quando. Enquanto comia, eu pensava: Deus do céu, como caqui é bom! Caqui é maravilhoso! O que tenho feito eu desta curta vida, tão afastado dos caquis?!
          Meus amigos e amigas e parentes queridos são como os caquis: nunca os encontro. Quando os encontro, relembro como é prazeroso vê-los, mas depois que vão embora me esqueço da revelação. Por que não os vejo sempre, toda semana, todos os dias desta curta vida?
          Já sei: devem ficar escondidos de mim, guardados numa caixa, lá em Sorocaba.
          *Ver "A Verdadeira História do Paraíso", de Millôr Fernandes (Editora Desiderata).
          antonioprata.folha@uol.com.br
          @antonioprata
          antonio prata
          Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles "Meio Intelectual, Meio de Esquerda" (editora 34). Escreve às quartas na versão impressa de "Cotidiano".