quarta-feira, 3 de julho de 2013

Mercado vê risco maior de calote de Eike; Bolsa desaba

folha de são paulo
Agência rebaixa OGX para nível pré-default; bancos preveem ação a R$ 0,10
Percepção externa ajuda a derrubar Bolsa de SP para pior nível desde 2009; saída seria venda ou aporte de dono
DENISE LUNAMARIANA SALLOWICZDO RIORAQUEL LANDIMDE SÃO PAULOInstituições financeiras internacionais apontaram ontem risco mais concreto de calote da OGX, líder do grupo de Eike Batista, e bancos estimaram que os papéis da petroleira podem chegar a valer R$ 0,10. As ações das empresas do grupo desabaram.
A agência de classificação de risco Standard & Poor's cortou a nota da OGX de "B" para "CCC" --nível anterior a "default" (calote).
A S&P atribui a perspectiva negativa "à grande vulnerabilidade de não pagamento e à dependência de condições favoráveis para cumprir seus compromissos".
O mercado reagiu à avaliação e à drástica revisão dos planos de produção da OGX, divulgados anteontem.
A empresa informou que seu único campo de petróleo em atividade, Tubarão Azul, na bacia de Campos (RJ), pode parar de produzir em 2014.
Também suspendeu os planos de colocar em produção os campos de Tubarão Tigre, Tubarão Gato e Tubarão Azul.
"Essa base de ativos menor prejudicará a capacidade da OGX de atingir níveis de produção e de geração de caixa para cobrir seus níveis de dívida", disse a agência.
As ações da OGX caíram 19,64%, para R$ 0,45. Em 12 meses, o tombo é de 92,9%.
Na avaliação dos bancos, o papel pode cair ainda mais. O Deutsche Bank reduziu seu preço-alvo de R$ 0,70 para R$ 0,10. O Bank of America e o Merrill Lynch, de R$ 1 para R$ 0,10. Crédit Suisse e HSBC estimam o preço em R$ 0,30.
Os títulos da dívida da OGX continuaram caindo para um nível que indica risco de calote. Os papéis com vencimento em 2018 eram negociados ontem por 20% do valor de face, ante 32% na sexta-feira.
A queda das ações da OGX voltou a contaminar as outras companhias do grupo. MMX, LLX e OSX caíram, respectivamente, 17,3%, 11,2% e 15,8%.
O efeito respingou até na Petrobras, que recuou 4,76% e ajudou a derrubar a Bolsa.
Também foram afetados os papéis de bancos --investidores estão preocupados com a dívida que o grupo de Eike tem com as instituições.
O Ibovespa recuou 4,24%, maior tombo desde 22 de setembro de 2011, e fechou no pior nível desde 22 de abril de 2009, também sob influência da queda da produção industrial.
O QUE SOBROU?
Em relatório, os analistas do Credit Suisse afirmaram ontem que "não sobrou muito para o acionista" da OGX.
Pelas contas do banco, os ativos da empresa valem US$ 2 bilhões --US$ 1,2 bilhão por Tubarão Martelo, US$ 500 milhões pelos blocos na bacia do Parnaíba e US$ 270 milhões pelo bloco BS-4.
O problema, aponta o Crédit Suisse, é que o valor patrimonial não é suficiente para pagar a dívida da empresa, que chega a US$ 4 bilhões.
Segundo o relatório, se a OGX pagar e investir tudo o que previu, chegaria ao fim do ano com um caixa negativo de US$ 400 milhões.
Pelos cálculos do banco, a empresa começou 2013 com um fluxo de caixa de US$ 1,6 bilhão. Mas teria que gastar US$ 200 milhões em capital de giro, US$ 335 milhões em juros da dívida e US$ 1 bilhão em investimentos.
Além disso, a OGX tem que pagar US$ 188 milhões até agosto para a ANP (Agência Nacional do Petróleo) pelos novos campos que ganhou em leilão. E se comprometeu a pagar outros US$ 449 milhões para a OSX, estaleiro do grupo EBX, pelo rompimento de contrato para a construção de plataformas.
Para Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), "a OGX agora contou a verdade para o mercado e está com sua dimensão real".
Ele considera que a empresa ainda tem alternativas se conseguir uma "injeção de capital", porque ainda possui alguns bons ativos.
A "injeção" poderia vir do próprio Eike, que se comprometeu a colocar R$ 1 bilhão na petroleira, ou de um sócio estratégico, que o BTG, banco que fechou parceira com o empresário, tenta encontrar.
O mercado tem dúvidas se Eike vai realmente injetar esse capital, pois ele vendeu ações da empresa a valores baixos para levantar recursos.
    Investidor estrangeiro se preocupa com exposição de bancos ao EBX
    PATRÍCIA CAMPOS MELLODE SÃO PAULOAs ações dos principais credores das empresas do grupo EBX despencaram ontem. Os papéis do BTG, que tem R$ 458,7 milhões em empréstimos de curto prazo para o grupo de Eike Batista, segundo levantamento da Folha, tiveram queda de 7,59%.
    De acordo com relatório do BofA (Bank of America), entre os bancos privados, o BTG tem a maior exposição às empresas do grupo X em dívidas de curto e longo prazo, de 6,2% de seu capital de nível 1 (parte do patrimônio que absorve as perdas da atividade normal do banco).
    As ações do Bradesco, que tem R$ 996,4 milhões em empréstimos de curto prazo para empresas do grupo (exposição de 1,8% segundo o Bofa), caíram 5,07%.
    E os papéis do Itaú, que tem R$ 1,007 bilhão de crédito de curto prazo para as empresas X e exposição de 1,7%, tiveram baixa de 4,32%.
    Segundo o BofA, a exposição do BNDES a dívida das empresas de Eike é de 10,1%, e a da Caixa Econômica Federal, de 6,2%.
    A exposição de bancos brasileiros às empresas de Eike preocupa muito investidores estrangeiros.
    "A grande preocupação do mercado agora é descobrir exatamente quanto cada banco emprestou para as empresas de Eike; por isso as ações de bancos como Itaú e Bradesco já estão caindo", disse o chefe de negociação de ações de um grande banco em Nova York.
    "É o segundo estágio da crise --o que vai acontecer com os bancos e o que o governo vai fazer."
    "Não falamos sobre ações específicas, especialmente em uma situação como essa", disse Michael Shaoul, presidente da Marketfield Asset Management, gestora de recursos em Nova York.
    "Mas esperávamos que os usuários mais agressivos de crédito no Brasil começassem a ter problemas agora e esperamos mais casos de inadimplência", disse.
    Segundo Shaoul, "os credores vão ser afetados pelas preocupações do mercado, e a atividade de crédito bastante agressiva dos bancos estatais e de bancos de investimento privados do Brasil levará a problemas nas próximas semanas."
      OGX já busca compradores que a salvem
      Eike aceita abdicar do controle da petroleira para viabilizar venda; empresa deve ser fatiada para melhorar preço
      Segundo executivos, BTG Pactual, que assessora o grupo, busca interessados e aceita assumir parcela
      RENATA AGOSTINIDE BRASÍLIA
      Com a ação da OGX reduzida a centavos, Eike Batista tenta buscar um grupo de compradores para a petroleira como último lance para salvá-la.
      O empresário, que detém hoje 59% das ações da companhia, já aceitou abrir mão de seu controle para viabilizar a operação, apurou a Folha com executivos próximos a Eike e ao banco BTG Pactual, que assessora o grupo X.
      Eike autorizou o banco a iniciar um processo de venda da companhia para atrair novos sócios ao negócio --um pool de investidores, no jargão do mercado. O próprio BTG já manifestou interesse em assumir uma parcela da empresa se necessário.
      Para banqueiros, é mais fácil conseguir um bom preço negociando a OGX por fatias, em vez de tentar passá-la a um só comprador. Assim, o risco se dilui entre os novos sócios, que tenderiam a exigir desconto menor no valor a pagar.
      A fatia final que restará a Eike, caso o processo seja bem-sucedido, é incerta, pois dependerá de quanto os investidores estarão dispostos a desembolsar pela empresa.
      Não se descarta, no entanto, a possibilidade de a porção do empresário ser reduzida a até 25%, abrindo espaço para aportes maiores na OGX.
      Há consenso entre os banqueiros do BTG e os executivos de Eike de que a venda não será fácil, diante do baixo valor de mercado e das dificuldades de caixa da empresa.
      ESTRATÉGIA
      A aposta é tentar convencer interessados de que os ativos valem mais do que o mercado está disposto a pagar agora.
      "Atrair um sócio implicará termos desvantajosos, mas a OGX já passou dessa fase", avalia Roberto Altenhofen, da Empiricus Research. "Agora é a busca por sobrevivência."
      Entre os interessados, está a petroleira russa Lukoil, que iniciou conversas com o grupo neste ano para assumir até 40% da OGX, como revelou a Folha. A negociação, porém, não será mais exclusiva.
      O processo estava em estágio avançado, e um escritório no Brasil já havia sido acionado pelos russos em abril para esquadrinhar dados da OGX.
      Eike e os russos, contudo, não chegaram a um acordo sobre preço até o momento.
      Sem um cheque irrecusável na mesa, o lado político pesou, segundo executivos da EBX. A Petrobras, que Eike vê como peça valiosa para o plano de resgate do grupo, sinalizou que não via com bons olhos a associação aos russos.
      Além de eventuais parcerias em campos operados pela Petrobras, executivos da OGX esperam conseguir "vender" a petroleira de Eike como parceira ideal para empresas estrangeiras investirem no pré-sal, cujas licitações serão coordenadas pela estatal.
      Procurados, OGX e BTG Pactual não se pronunciaram.
      Para consultores, vender as ações agora é má ideia
      DANIELLE BRANTCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAApesar do tombo das ações das empresas do grupo de Eike Batista, é pior para os investidores vender os papéis do que mantê-los, afirmam consultores.
      Mesmo no caso das ações da OGX, que fecharam ontem a R$ 0,45 e foram avaliadas por bancos a R$ 0,10.
      "Quem já aguentou as perdas até hoje deve permanecer no jogo", diz Clodoir Vieira, consultor de investimentos. "Pode ser que o BNDES libere verba ou que o governo faça alguma interferência junto com Petrobras, ou mesmo que um estrangeiro surja e compre a empresa", acrescenta.
      Caso o socorro não venha, porém, o investidor precisa estar preparado.
      "O acionista é o último a ser ressarcido em caso de quebra da empresa. Antes, vêm credores e funcionários", diz Bruno Gonçalves, da corretora WinTrade.
      Como regra geral, especialistas aconselham que o investidor não se deixe influenciar pela queda de uma ação ao decidir vendê-la, pois ele perde o dinheiro da aplicação se desfizer do papel por um valor menor que o pago na compra.
      "Muitas vezes, pode ser uma queda conjuntural da Bolsa, e não um problema específico da empresa. É preciso analisar o contexto", diz Michael Viriato, professor de finanças do Insper.
      No caso da OGX, porém, especialistas ouvidos pela Folha dizem haver sérias dúvidas sobre a capacidade financeira da empresa.
      "O grupo como um todo está sob uma desconfiança muito grande, o que faz com que todas as portas [de bancos] fiquem mais difíceis de serem abertas", diz Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest Título Corretora.

        Vinicius Torres Freire

        folha de são paulo
        A voz das ruas do mercado
        Liquidação no Brasil pode até passar logo, mas 'manifestantes' e 'vândalos' abalam economia
        NENHUM MOTIVO parece despropositado o bastante ou sem sentido quando a manada financeira está mugindo e correndo para a saída. Motivos reais, fantasistas ou mesmo picaretas não faltam hoje em dia no Brasil.
        Ontem, até os bloqueios de estradas do Movimento Brasil Caminhoneiro, do velho Nélio Botelho, andavam na boca e nos bate-papos eletrônicos dos rapazes do mercado (e das mais raras moças também).
        O motivo principal da liquidação na Bolsa era, óbvio, o problemaço no grupo "X", de Eike Batista. Mas as ações de empresas e bancos maiores também estavam indo para o vinagre (sim, a segunda revolta do vinagre acontece ora nas finanças).
        Como se sabe, o país havia derrapado na ladeira entre maio e junho.
        Primeiro, como vítima da manada financeira mundial, que antecipava ávida e ansiosamente a mudança na política monetária americana (em suma, tirando dinheiro daqui, de investimentos em commodities e recursos naturais que vendemos etc.).
        Depois, veio o desarranjo no mercado de títulos da dívida pública brasileira (juros sobem, o preço dos papéis cai e quem emprestou para o governo leva uma tunda). A coisa toda ainda está meio difícil de entender nos detalhes, mas aumentou o mau humor.
        O mau humor vinha inflando desde 2012: crescimento baixo, política econômica na biruta, governo metendo bronca e intervindo em mercados. Histórias velhas, mas vivas.
        Como resultado, o dólar saltou, cresceu o risco de inflação e alta de juros maiores. História de sempre.
        Para piorar, ninguém ainda acredita na "virada fiscal" prometida pelo governo no fim de maio (isto é, o governo gastar menos). As contas estão ruins, os povos dos mercados dizem temer mais gastos em razão da "reação às ruas" e, cerejinha recente nesse bolo de desconfiança, o governo apareceu agora com mais uma novidade contábil.
        Na prática e em resumo grosso, o governo pode tirar dinheiro do BNDES com uma mão (para tapar buracos na conta do governo) e entregar com outra (fazendo mais dívida). A coisa toda é pequena, mas virou motivo de troça e escárnio na praça do mercado.
        Até a queda da produção industrial virou motivo, da boca para fora, para a liquidação no mercado, como se a maioria dos que faziam negócio ontem estivesse ligando a mínima. De resto, nem dá para saber bem o que significou o tombo industrial de maio. Na média dos últimos meses, a coisa vai como sempre, recuperação lerdinha e miúda.
        No entanto, o estresse financeiro e político dos últimos dois meses mais a lerdeza de dois anos vão jogar mais areia na economia. O dólar mais caro, no curto prazo (e dada a lerdeza mundial), não vai ajudar muito a exportação e vai prejudicar investimentos (máquinas e equipamentos ficam mais caros).
        Convém notar que a taxa de investimento no Brasil tem caído porque os empresários estão em "greve de confiança" (foi o investimento do setor privado que caiu, desde 2012; o do setor público, embora minúsculo, até aumentou um tico). Em vez de surgirem sinais animadores, o caldo engrossou: dólar mais caro, juros mais altos, incerteza política, finança global mais conturbada. Se não atrapalhar muito, pelo menos não vai ajudar em nada.
        vinit@uol.com.br

          Nina Horta

          Folha de São Paulo
          Línguas
          Nem desconfiam do bicho da goiaba. Nem sabem que para comer uma goiaba boa há que se morar perto do pé
          Estava lendo um livro sobre traduções, a quase impossibilidade delas, quando me dei conta do problema idêntico na tradução e na transposição de receitas culinárias de um lugar para outro. Acabei de fazer um curso na internet e havia um capítulo sobre "Madame Bovary". E, é claro, os americanos liam em inglês. Cada frase me deixava estuporada, tinha que ir correndo ao original par ver se estava errada. E era igualzinha, só que não.
          No livro "Frutas", da inglesa Jane Grigson, ela ensina como descascar uma manga. Nem marcianos descascariam uma manga assim, e me dei conta, de novo, que ingredientes que não temos num país são enigmas para nós, de alguma maneira. Alguém vê uma jaboticaba pela primeira vez. O que lhe ocorre? Dá para comer, o que se come? É para descascar? Engole-se o caroço? Já dá para comer verde ou tem que esperar ficar preta? Quando está mole, está boa?
          E o kiwi? Descasca-se, corta-se ao meio no sentido da largura ou do comprimento? É de chupar, comer em rodelas, ou comer de colherinha dentro da casca? Perceberam? Vi goiabas na Fauchon que seriam jogadas fora por uma criança de três anos de idade e o cheiro permeava a loja, cheiro de trópico podre, decadente.
          Não temos que ser só bilíngues para traduzir uma receita, mas biculturais, "possuidores de todo o complexo de emoções, associações e ideias que relacionam a língua de uma nação à sua vida e tradição". Diz o livro que leio, sobre traduções. Claro. Fauchon pode dar o nome científico da goiaba, de onde veio, em qual mês estaria pronta para ser comida, sua origem, mas ela continua impermeável para os franceses.
          E nós, ao lermos uma receita de ruibarbo, se tivermos o bichinho à mão, podemos fazê-lo, mas sem saber ao certo se é para o almoço, para o lanche e com o quê combina bem.
          Ao lermos, no entanto, a palavra goiaba, o que vem à nossa cabeça?
          Cozidas à Pedro Nava "têm a polpa quente e corada como o dentro dos beiços, o embaixo da língua e o fundo das bochechas". Em compota são como "orelhas em calda".
          Na sua estrutura, é uma árvore criada para criança subir. O tronco liso e tortuoso, esgalhado, abrindo espaços, de um marrom muito claro. É só passar a unha e o verde claríssimo aparece, contrastando com as formigas passeadeiras.
          As flores das goiabas nascem nos sovacos dos ramos novos e são brancas, perfumadas. A goiabinha se forma em verde escuro, vai clareando até ficar "de vez" com um gosto adstringente que é a hora da verdade da goiaba.
          Dali, descamba para o fruto marchetado de pintas duras e pretas como pregos ou são bicadas por passarinhos, ou se esborracham no chão com um cheiro forte e almiscarado, exagerado, penetrante, ruim para sermos mais precisos.
          A goiaba é nossa, a "guava" não é deles. Eles nem desconfiam do bicho da goiaba. Nem sabem que para comer uma goiaba boa há que se morar perto do pé, e nós não sabemos que uma maçã de beira de estrada pode ensopar nossa blusa de um caldo doce-azedo, o que explica ser ela a fruta do bem e do mal.
          ninahorta@uol.com.br
          Leia o blog da colunista
          ninahorta.blogfolha.uol.com.br

            Quatro revistas brasileiras são suspensas de índice internacional

            folha de são paulo
            Periódicos são suspeitos de 'turbinar' citações de forma irregular
            GIULIANA MIRANDADE SÃO PAULOQuatro periódicos brasileiros da área médica foram suspensos do JCR (Journal Citation Reports) da Thomson Reuters, um dos principais índices que medem o fator de impacto das revistas científicas (número de citações dos artigos publicados), por irregularidade em suas citações.
            Os afetados foram a revista "Clinics", da Faculdade de Medicina da USP, o "Jornal Brasileiro Pneumologia", a "Revista da Associação Médica Brasileira" e a "Acta Ortopédica Brasileira". Eles fazem parte de um total de 67 publicações suspensas.
            Um dos mais populares modos de medir o trabalho científico, o fator de impacto é a média de citação por artigo que um periódico tem em um intervalo de tempo. Apesar das críticas ao modelo, é comum associar o fator de impacto ao prestígio da revista.
            A Thomson Reuters, que organiza a lista do JCR, diz que as revistas brasileiras usaram um truque conhecido como "stacking" para inflar o fator de impacto.
            A prática é uma espécie de citação cruzada. Uma revista A cita a revista B, enquanto a B cita a revista A. Assim, a média de citações é inflada.
            Um dos problemas apontados pela empresa está em dois artigos da revista da AMB que citam 330 trabalhos brasileiros, sendo 127 publicados na "Clinics", o que foi considerado uma distorção.
            "As revistas afetadas são boas. Se foi isso o que aconteceu, é uma escorregadela quase infantil", diz Rogerio Meneghini, coordenador científico do SciELO, que indexa periódicos do Brasil.
            Os quatro títulos afetados fazem parte dessa plataforma. Segundo Meneghini, haverá uma reunião para discutir possíveis providências.
            Os periódicos suspensos do JCR não terão fator de impacto em 2012.
            Ontem, o editor da revista "Clinics", Maurício Rocha e Silva, foi afastado temporariamente do cargo até que o caso seja esclarecido.
            Carlos Carvalho, editor do "Jornal Brasileiro de Pneumologia", suspenso por citações suspeitas em um artigo de outra revista, disse ontem que pediu revisão do caso.
            "O trabalho era uma revisão de pesquisas brasileiras na área respiratória. E é o nosso jornal que publica a maioria delas. É normal uma quantidade maior de referências."
            Bruno Caramelli, editor da revista da AMB, afirmou que pode estar havendo uma diferença de tratamento com os brasileiros. "Os editores das revistas científicas do Brasil não são profissionais como os da Europa e dos EUA. Nós somos autores."
            A "Acta Ortopédica Brasileira" não respondeu à reportagem.