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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Novos carnívoros exigem tratamento digno dos animais e abate humanizado - Giuliana Miranda Alexandre Dall'ara

folha de são paulo
GIULIANA MIRANDA
ALEXANDRE DALL'ARA
DE SÃO PAULO
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Poucos problemas ambientais e de consciência são tão apetitosos quanto um bom bife. O consumo de carne está associado à alta do desmatamento na Amazônia, usa uma enorme quantidade de água e emite gases-estufa.
No entanto, tem ganhado força o movimento dos "carnívoros éticos": gente que não pensa em ser vegetariana, mas faz questão de uma postura mais sustentável e de respeito ao animal.
Segundo Leonardo Leite de Barros, presidente da ABPO (Associação Brasileira da Pecuária Orgânica), a quantidade de animais criados segundo os preceitos orgânicos (sem confinamento, com uso restrito de remédios, alimentação no pasto e abate humanizado) tem crescido.
"Hoje as fazendas da associação estão abatendo de 800 a mil animais por mês. Quando começamos, em 2007, eram cerca de 200", diz ele.
Theo Marques/Folhapress
Cláudio Ushiwata, dono de um café em Curitiba, é um consumidor de carne orgânica
Cláudio Ushiwata, dono de um café em Curitiba, é um consumidor de carne orgânica
O empresário curitibano Cláudio Ushiwata é um desses consumidores mais atentos e só leva para casa carnes cuja procedência e produção ele considere adequadas.
"Na minha casa temos o hábito de consumir carne orgânica. Não tenho dificuldade de encontrar, mas ela é restrita a poucos estabelecimentos e a poucos cortes."
O engajamento do consumidor tem potencial de transformar a indústria, diz Luís Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação agrícola do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola).
"O consumidor não deve aceitar animais vivendo em condições ruins ou rebanhos vindos de áreas de desmatamento na Amazônia."
Nos últimos anos, as agências reguladoras também estão mais exigentes. A Europa passa, neste ano, a ter regras mais duras quanto às condições de criação, transporte e abate de animais. Quem quiser vender para o bloco --incluindo frigoríficos brasileiros-- precisa se adequar.
"Ser vegetariano não é a única opção para quem quer um tratamento ético dos animais", diz José Rodolfo Panim Ciocca, gerente do programa de abate humanitário da WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal).
William Mur/Ed. de arte/Folhapress
O abate humanitário faz o animal perder a consciência antes que o estímulo da dor chegue ao cérebro.
Nos bovinos, isso é feito com uma pistola especial. Em suínos e em aves, a insensibilização deve ser feita com uma descarga elétrica.
O presidente da Abrafrigo (Associação Brasileira de Frigoríficos), Péricles Salazar, afirma que há realidades distintas quanto a isso no Brasil. "Os frigoríficos sujeitos à inspeção federal têm controles rígidos. O problema está na esfera dos Estados e municípios. É lá que se encontram barbaridades como o abate de bois a marretadas."
A crueldade tem consequências na qualidade do produto. Muita tensão antes do abate deixa a carne pálida e mole, com liberação excessiva de água. Já nos bichos com estresse crônico, a carne costuma ser mais dura, escura e ressecada.
Quando eles são conduzidos com violência, usando bastões elétricos ou apanhando, são formados hematomas que devem ser descartados.
Em breve, o Ministério da Agricultura deve lançar novas normas mais rígidas para a criação e o abate. A consulta pública sobre o tema acaba de terminar e o texto sofre agora ajustes finais.
Colaborou Rafael Garcia

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ministro da Ciência diz que faltam verbas para grandes projetos - Sabine Righetti

folha de são paulo
Participação do Brasil nos maiores centros de física e astronomia mundiais corre risco por causa de orçamento
Verbas extras para concretizar parcerias internacionais podem não sair; projetos não são unanimidade
SABINE RIGHETTIENVIADA ESPECIAL AO RECIFE
A novela sobre a participação brasileira nos maiores centros de pesquisa em astronomia e física do mundo --o ESO (Observatório Europeu do Sul) e o Cern (Centro Europeu para Pesquisa Nuclear)-- ainda está longe de um final feliz.
Segundo o ministro Marco Antonio Raupp (Ciência), o governo quer tocar as iniciativas, mas faltam recursos.
"Não posso tirar dinheiro dos outros projetos para colocar no ESO e no Cern", disse àFolha durante a reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Recife.
A entrada do Brasil no ESO está em tramitação no Congresso há mais de um ano.
"Quando se aprova um acordo de cooperação internacional, é preciso dar uma sustentação orçamentária. Senão é colocar uma batata quente no nosso colo", diz.
Para usar as instalações do ESO --incluindo o maior e mais avançado telescópio terrestre do mundo, em construção em solo chileno,-- o Brasil teria de desembolsar, segundo o ministro, cerca de R$ 1 bilhão ao longo de dez anos.
Hoje, o orçamento anual da pasta é de R$ 3,8 bilhões, sendo que R$ 1,4 bilhão é para bolsas de pesquisa.
Se o projeto de entrada do Brasil no ESO for aprovado no Congresso, um recurso extraorçamentário deve ser repassado ao ministério.
Conforme a Folha apurou, no entanto, a tendência do governo é enxugar o que for extraorçamentário.
Anteontem, a presidente Dilma Rousseff anunciou um corte de R$ 10 bilhões e há a previsão de outros.
"As atividades no ESO contribuem para o desenvolvimento científico em todas as áreas", diz Adriana Válio, presidente da SAB (Sociedade Astronômica Brasileira).
Ela pretende ir ao Congresso com um grupo de cientistas para falar com deputados sobre a importância do projeto para a ciência nacional.
O acordo, no entanto, não é unanimidade entre a comunidade científica brasileira.
"O Brasil vai subsidiar a ciência europeia com o dinheiro do contribuinte. O ministério que assina esse tipo de acordo é irresponsável", diz João Steiner, professor do IAG (departamento de astronomia) da USP.
IMBRÓGLIO
O atraso na liberação das verbas para o ESO, três anos após a assinatura do contrato de adesão, tem prejudicado também a participação do país no maior acelerador de partículas do mundo.
O conselho superior do Cern, na Suíça, ainda não ratificou o pedido de associação do Brasil. O laboratório só costuma aprovar países nos quais o poder executivo tenha dado sinal claro de que há interesse (e dinheiro).
Desde o início das negociações, a ideia é que fosse aprovada verba extra, sem onerar o orçamento do MCTI. Sergio Novaes, da Unesp, um dos físicos articuladores da parceria Brasil-Cern, lamenta que haja risco de retrocesso.
"Hoje que se fala tanto em internacionalização e no Ciência Sem Fronteiras, o Brasil se tornar membro do Cern seria algo na direção que a presidente quer dar para a ciência e a tecnologia", diz.
A associação permitiria ao país participar de licitações para construir peças de aceleradores de partículas, ampliar o intercâmbio de cientistas que já vem sendo feito e concorrer a alguns cargos de gestão no laboratório.
Acelerador de partículas aguarda recursos
DA ENVIADA AO RECIFEDE SÃO PAULONo Brasil, outro projeto aguarda a liberação do dinheiro: o novo anel de luz síncrotron, localizado em Campinas, interior de SP.
O terreno onde será construído o chamado projeto Sirius, orçado em R$ 650 milhões, já está em terraplanagem. A expectativa é começar a obra em setembro. Mas o dinheiro ainda não é certo.
"O dinheiro está planejado no orçamento plurianual. Mas é um planejamento. Se houver cortes federais, se as condições do país mudarem, a gente tem de mudar o orçamento", diz Raupp.
Se não houver cortes, a obra ficará pronta em 2016. O anel permitirá que os cientistas, por exemplo, enxerguem o conteúdo de um ovo fossilizado de dinossauro.
Segundo Antonio José Roque da Silva, diretor do LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), até o momento o projeto recebeu R$ 55 milhões do ministério. "Neste ano, o Sirius deve receber quase R$ 87 milhões."
De acordo com o diretor, cerca de 25 empresas já demonstraram interesse na fabricação dos componentes do anel em parceria.
O aperto no orçamento não se aplica aos recursos destinados a pesquisas feitas nas empresas. O dinheiro operado para pesquisa privada no ministério já chega a R$ 5,5 bilhões em créditos para inovação (via Finep, órgão federal que financia projetos de inovação).
    País terá instituto de estudos do mar com navio de R$ 80 milhões
    Embarcação adquirida da China deve chegar ao Brasil em 2014
    DA ENVIADA AO RECIFEO governo oficializou a criação do Inpo (Instituto Nacional de Pesquisas Oceanográficas) para coletar informações sobre o mar e a costa brasileira.
    O anúncio foi feito na reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), no Recife. A iniciativa foi adiantada pela Folha no ano passado.
    A proposta é viabilizar, por meio do instituto, pesquisas sobre o mar que já são feitas em universidades, institutos e empresas do país, além de estimular novos estudos.
    "A ideia é organizar e financiar projetos na área do mar", disse o ministro Marco Antonio Raupp (Ciência). O projeto é uma parceria do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com a Marinha, a Petrobras e a Vale.
    Uma das novidades é a aquisição de um navio chinês que será adaptado para as pesquisas --uma espécie de navio-laboratório.
    De acordo com Raupp, o navio está sendo comprado pela Marinha por R$ 80 milhões e deve chegar ao Brasil em outubro de 2014. A ideia é que o instituto tenha também um espaço físico.

      quarta-feira, 17 de julho de 2013

      Médico brasileiro cria 'rede social' para atrair testes clínicos

      folha de são paulo
      GIULIANA MIRANDA
      DE SÃO PAULO

      Uma rede social criada por um médico brasileiro pretende facilitar a comunicação entre os centros de pesquisa e as empresas farmacêuticas que precisam de testes clínicos --pesquisas com voluntários que avaliam a segurança e a eficácia dos remédios.
      Os testes são necessários para a liberação de novas drogas e, quanto mais amplos e diversificados, inclusive quanto ao tipo de população estudada, mais confiáveis tendem a ser seus resultados.
      Mas, para as equipes que projetam esses ensaios, em geral concentradas nos EUA e na Europa, pode ser difícil conseguir informações sobre as capacidades técnicas e humanas de centros de pesquisa de outras partes do mundo, inclusive do Brasil.
      Os testes clínicos movimentam cerca de US$ 50 bilhões por ano no mundo. Mas, devido ao baixo número deles feito no Brasil --pouco mais de 1% do total mundial--, o país fica com uma pequena parte dessa bolada.
      São Paulo está entre as dez cidades com mais instituições aptas a receber testes clínicos. Mas, segundo um levantamento dos criadores da nova rede social, menos de 50% dessa capacidade é usada.
      "O desconhecimento das atividades no Brasil ainda é grande. Não havia uma forma fácil de os pesquisadores dividirem as capacidades de seus centros com as pessoas que planejam os estudos", diz o médico Fábio Thiers, criador da plataforma, batizada de ViS.
      A rede social "apresenta" esses dois lados da cadeia de pesquisa de novas drogas.
      Ex-diretor do programa de pesquisa em testes clínicos estratégicos globais no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Thiers vem reunindo dados sobre o tema há mais de dez anos.
      O site está aberto para receber cadastros de instituições de todo o mundo. Após a verificação da veracidade do perfil, cada centro tem uma página com dados sobre suas capacidades técnicas.
      Além das informações sobre mais de 400 mil centros, a plataforma agrega dados sobre a prevalência de doenças por região e outras especificidades, recolhidos por algoritmos criados pela ViS.
      É a partir da venda de serviços especializados que dependam desse material que o grupo pretende lucrar.
      Editoria de Arte/Folhapress
      BUROCRACIA
      Além da dificuldade de comunicação, especialistas ressaltam a burocracia e a demora na liberação dos testes clínicos no Brasil como entraves à realização dos estudos.
      As pesquisas precisam ser aprovadas nos CEPs (Comitês Ética em Pesquisa), na Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
      Levantamento feito pela Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) indica que, de junho de 2012 a julho de 2013, o país perdeu 21 desses estudos devido à demora no processo. Estima-se que 43 serão perdidos até o fim deste ano.
      Coordenador da Conep há pouco mais de um mês, Jorge Venâncio reconhece que há problemas, mas diz que está empenhado em corrigi-los, com um aumento no número de revisores de pedidos e melhoria no sistema de tecnologia. "O objetivo é zerar a fila de pedidos até o fim do ano."
      Para Antonio Britto, presidente da Interfarma, a iniciativa da Conep é bem-vinda, mas não será suficiente.
      "O Brasil é o único país em que é preciso ter a liberação de três autoridades [Anvisa, Conep e CEP]. Nunca houve tanto interesse em fazer pesquisas clínica no Brasil. Mas estamos começando a desperdiçar oportunidades."

      segunda-feira, 8 de julho de 2013

      Museu da espanha exibe fóssil brasileiro cheio de adulterações

      folha de são paulo
      GIULIANA MIRANDA
      ENVIADA ESPECIAL AO RIO

      O fóssil de um pterossauro brasileiro superconservado é destaque em um dos principais museus de ciência do mundo, o CosmoCaixa, em Barcelona. Milhares de pessoas viram o bicho, inclusive muitos especialistas, mas só um paleontólogo achou que havia algo errado e foi a fundo no assunto. Acabou descobrindo uma falsificação.
      A peça era vista por muitos com um dos exemplares mais preservados do Cretáceo Inferior (entre 100 milhões e 145 milhões de anos atrás).
      O trabalho de Fabio Dalla Vecchia, no entanto, mostrou que se trata de uma espécie de "Frankenstein" paleontológico: uma composição de vários fósseis diferentes que são montados para darem a aparência de que são os restos de apenas um indivíduo.
      Editoria de Arte/Folhapress
      E mais: apesar de ser uma composição de vários animais diferentes, os cientistas não conseguiram provar que nenhum deles era, de fato, um Anhanguera piscator, como diz o museu.
      Algumas partes da peça nem fósseis eram, mas sim pedaços de plástico pintado.
      "A importância científica desse exemplar é bem menor do que nós pensávamos no início", diz Dalla Vecchia.
      Para descobrir a montagem, o cientista e seus colaboradores fizeram um verdadeiro trabalho de detetive.
      O MÉTODO
      Com a autorização do museu, o grupo olhou o material com lentes de aumento. Já foi o suficiente para detectar algumas partes da composição, sobretudo as de plástico.
      O crânio e a mandíbula, o mais relevante cientificamente, foram removidos e submetidos a exames de luz ultravioleta e de tomografia computadorizada. O esqueleto não podia ser removido.
      Eles identificaram que 50% do crânio e da mandíbula eram reconstituídos. Na parte que era verdadeira, houve uma combinação de partes de vários indivíduos.
      O cientista diz que devem existir vários casos semelhantes, já que essas falsificações são relativamente comuns.
      Uma das mais famosas foi apresentada pela Sociedade Geográfica Nacional dos EUA em 1999 como o "elo perdido" da evolução dinossauro-pássaro. Batizado de Archaeoraptor liaoningensis, ele parecia ter o corpo de um pássaro com um rabo de dinossauro. Algum tempo depois, os cientistas viram que eram dois animais distintos colocados para parecerem um só.
      O Museu Nacional do País de Gales foi outro atingido. Após 116 anos exibindo um suposto fóssil de Icthyosaurus, um réptil marinho, a instituição descobriu que se tratava de uma combinação de duas criaturas marinhas, com pedaços feitos de gesso.
      CRIME COMPENSA?
      Fósseis bem preservados são mais valiosos. Por isso, há muita gente que tenta dar uma "forcinha" para a natureza, criando peças que são verdadeiros Frankensteins.
      O antigo habitat do pterossauro Anhanguera piscator, na chapada do Araripe, no Nordeste, concentra uma grande diversidade de répteis voadores e é famoso pela boa conservação dos fósseis.
      Por isso, muito embora venda de fósseis no Brasil seja proibida, é comum que pessoas explorem a área clandestinamente, já que eles são facilmente encontrados.
      O trabalho de Della Vecchia foi apresentado no Rio Ptero, simpósio internacional de pterossauros no Rio, e provocou reações exaltadas da plateia. Ironicamente, por motivos distintos.
      A maioria dos pesquisadores brasileiros ressaltou que esse é o tipo de coisa que acontece quando se compra fósseis ilegalmente. Já os estrangeiros ficaram mais preocupados com a falta de confiabilidade de seus fornecedores regulares.
      O museu, porém, diz não ter a intenção de tirar a peça de exposição (leia ao lado). Jorge Wagensberg, diretor científico da Fundação la Caixa, diz que, em breve, a informação de que se trata de uma composição será inserida na descrição da peça.

      OUTRO LADO
      Diretor diz que instituição sabia da montagem e minimiza o caso
      DA ENVIADA AO RIOApesar de a placa do fóssil no museu não fazer menção ao fato de que se trata de uma composição, Jorge Wagensberg, diretor científico da Fundação la Caixa, divisão de um banco espanhol que é dona do museu, disse à Folha que sabia desde o início que se tratava de uma montagem com vários animais.
      Segundo Wagensberg, ele comprou o fóssil pessoalmente em 1998, em Denver, nos EUA. Ele diz ter sido acompanhado por dois especialistas.
      "Só pelo preço eu já saia que não era original."
      Paleontólogos ouvidos pela reportagem, no entanto, disseram que duvidam de que o museu soubesse do "Frankenstein" desde o início.
      "Você queria o quê? Que eles reconhecessem que foram enganados?", perguntou, rindo, um deles.
      Questionado pela reportagem sobre o fato de não haver qualquer menção no museu sobre o fóssil ser uma composição, considerando que ele diz que isso era um fato conhecido, ele disse: "A área para descrição de cada exemplar é uma placa muito pequenininha. Se fôssemos detalhar tudo, não caberia". Ele diz, no entanto, que vai colocar um pequeno aviso.
      Segundo Wagensberg, as composições são um recurso que pode ser usado sem prejuízo quando objetivo é explicar ao público alguns aspectos mais gerais, como a aparência de um fóssil de perto.
      Questionado se considerava correto comprar fósseis de países em que esse comércio é considerado ilegal, o diretor disse que só poderia responder sobre os aspectos científicos. (GM)
        KEPLER
        Nasa vai tentar ressuscitar telescópio caçador de planetas
        DE SÃO PAULO - A Nasa começará a testar nas próximas semanas alternativas para tentar ressuscitar o telescópio espacial Kepler, que pifou em 11 de maio, após uma pane em um de seus giroscópios.
        De acordo com representantes da agência espacial americana, desde que o incidente aconteceu, diversos especialistas têm pensado em maneiras de fazer o dispositivo voltar a funcionar. Os testes para ver a viabilidade de desses projetos deve começar em breve ma Califórnia.
        Lançado em março de 2009 com o objetivo de localizar novos planetas, sobretudo uma possível "gêmea" da Terra, o Kepler foi equipado com quatro giroscópios. Ele poderia operar só com três deles. Mas, como um já havia pifado no ano passado, a nova falha foi crítica.
        Apesar das várias alternativas, a Nasa destaca de que não há garantia de que o satélite, que já encontrou mais de 3.200 candidatos a planeta, volte mesmo à ativa.

          quarta-feira, 3 de julho de 2013

          Quatro revistas brasileiras são suspensas de índice internacional

          folha de são paulo
          Periódicos são suspeitos de 'turbinar' citações de forma irregular
          GIULIANA MIRANDADE SÃO PAULOQuatro periódicos brasileiros da área médica foram suspensos do JCR (Journal Citation Reports) da Thomson Reuters, um dos principais índices que medem o fator de impacto das revistas científicas (número de citações dos artigos publicados), por irregularidade em suas citações.
          Os afetados foram a revista "Clinics", da Faculdade de Medicina da USP, o "Jornal Brasileiro Pneumologia", a "Revista da Associação Médica Brasileira" e a "Acta Ortopédica Brasileira". Eles fazem parte de um total de 67 publicações suspensas.
          Um dos mais populares modos de medir o trabalho científico, o fator de impacto é a média de citação por artigo que um periódico tem em um intervalo de tempo. Apesar das críticas ao modelo, é comum associar o fator de impacto ao prestígio da revista.
          A Thomson Reuters, que organiza a lista do JCR, diz que as revistas brasileiras usaram um truque conhecido como "stacking" para inflar o fator de impacto.
          A prática é uma espécie de citação cruzada. Uma revista A cita a revista B, enquanto a B cita a revista A. Assim, a média de citações é inflada.
          Um dos problemas apontados pela empresa está em dois artigos da revista da AMB que citam 330 trabalhos brasileiros, sendo 127 publicados na "Clinics", o que foi considerado uma distorção.
          "As revistas afetadas são boas. Se foi isso o que aconteceu, é uma escorregadela quase infantil", diz Rogerio Meneghini, coordenador científico do SciELO, que indexa periódicos do Brasil.
          Os quatro títulos afetados fazem parte dessa plataforma. Segundo Meneghini, haverá uma reunião para discutir possíveis providências.
          Os periódicos suspensos do JCR não terão fator de impacto em 2012.
          Ontem, o editor da revista "Clinics", Maurício Rocha e Silva, foi afastado temporariamente do cargo até que o caso seja esclarecido.
          Carlos Carvalho, editor do "Jornal Brasileiro de Pneumologia", suspenso por citações suspeitas em um artigo de outra revista, disse ontem que pediu revisão do caso.
          "O trabalho era uma revisão de pesquisas brasileiras na área respiratória. E é o nosso jornal que publica a maioria delas. É normal uma quantidade maior de referências."
          Bruno Caramelli, editor da revista da AMB, afirmou que pode estar havendo uma diferença de tratamento com os brasileiros. "Os editores das revistas científicas do Brasil não são profissionais como os da Europa e dos EUA. Nós somos autores."
          A "Acta Ortopédica Brasileira" não respondeu à reportagem.

            quinta-feira, 9 de maio de 2013

            Derretimento de geleiras da Groenlândia pode desacelerar

            folha de são paulo

            GIULIANA MIRANDA
            DE SÃO PAULO

            Um novo estudo publicado na revista "Nature" usou uma sofisticada modelagem de computador para simular os efeitos do aquecimento global no degelo de quatro grandes geleiras da Groenlândia e sua consequente interferência na elevação do nível do oceano.
            Dirk van As/Divulgação
            Gelo se parte na geleira Kangiata Nunata Sermia, uma das estudadas pelos cientistas
            Gelo se parte na geleira Kangiata Nunata Sermia, uma das estudadas pelos cientistas
            O grupo verificou que o ritmo de derretimento não deve acompanhar as rápidas taxas dos últimos anos, mas isso não significa que as geleiras irão parar de diminuir.
            O estudo prevê que as geleiras acrescentarão algo em torno de 19 mm a 30 mm até 2200 em um cenário de aquecimento moderado, de de 2,8°C. Já em um mundo 4,5°C quente, o incremento poderia chegar a 49 mm no mesmo período.
            "É um estudo interessante porque a questão de cenários para essas geleiras da Groenlândia não apareceu muito no último relatório do IPCC (painel da ONU sobre as mudanças climáticas), diz o climatologista José Marengo, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
            Segundo ele, esses novos dados já devem ser levados em consideração na publicação do próximo relatório, em setembro.

            Bebida promete efeito contra alzheimer

            folha de são paulo

            Suplemento tem mistura de nutrientes que melhoraria memória em casos leves; especialistas pedem cautela
            Cientistas dizem que faltam pesquisas que comprovem todos os benefícios do composto e seu uso na prevenção
            GIULIANA MIRANDADE SÃO PAULOUm complemento alimentar que promete melhorar a memória de pacientes em estágio leve de alzheimer entrou discretamente no mercado brasileiro em setembro de 2012 e já é usado por mais de 2.000 pessoas no país.
            Apresentado oficialmente para o público ontem, o produto, porém, divide especialistas. Para alguns, faltam pesquisas que comprovem os benefícios do composto.
            O suplemento é uma mistura de nutrientes --incluindo óleo de peixe, ômega 3, selênio e vitaminas-- que têm o objetivo de "turbinar" o cérebro.
            Eles ajudariam na formação da membrana dos neurônios, melhorando, assim, as sinapses --a comunicação química dessas células.
            Por enquanto, os efeitos do Souvenaid, fabricado pela Danone, só estão documentados em um cenário: pacientes em estágio muito leve da doença e que ainda não fazem uso de remédios que inibem a beta-amiloide, proteína apontada como a culpada pelo mal de Alzheimer.
            Em dois estudos patrocinados pela Danone com pessoas nessas condições, quem usou o composto teve melhora na memória em relação ao grupo que recebeu placebo.
            Mas, em outro teste, com pacientes em um estágio moderado da doença e que tomavam remédios, a bebida não fez diferença.
            EFEITO PREVENTIVO
            Especialistas ouvidos pela Folha disseram que, com base nos estudos já apresentados, ainda é precipitado falar em uso preventivo contra o mal de Alzheimer.
            "Ainda não há resultados sobre o uso [do suplemento] por pessoas saudáveis ou por pacientes leves que já usem medicação", afirma a neurocientista Luísa Lopes, pesquisadora do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa.
            "Não podemos afirmar que existe efeito protetor, mas os dados permitem inferir que isso é possível", disse Marcelo Borges, presidente da Divisão de Nutrição Especializada da Danone.
            "De qualquer maneira, o objetivo não é substituir a medicação. É algo complementar ao tratamento", diz Cláudio Sturion, diretor médico da divisão, destacando que o Souvenaid não interfere no uso do remédio e não tem efeitos adversos sérios.
            A combinação do suplemento alimentar e a medicação, porém, dobraria os gastos dos pacientes, já que os dois têm preços similares.
            O neurologista Ivan Okamoto, coordenador do Instituto da Memória da Unifesp, disse já ter apresentado a bebida para alguns de seus pacientes, mas diz que, por causa do preço --R$ 10 cada potinho, que deve ser tomado diariamente--, muitos preferem usar só a medicação.
            Também à venda na Bélgica, Alemanha, Holanda, Itália, Irlanda e no Reino Unido, o composto deve ser lançado em mais dez países até o fim de 2013 e nos EUA em 2014, dependendo da aprovação das agências reguladoras.

              terça-feira, 9 de abril de 2013

              Mudança climática intensifica turbulência em voos

              folha de são paulo


              Aumento das temperaturas deve dobrar ocorrência do tipo mais imprevisível de tremor aéreo nos próximos 40 anos
              GIULIANA MIRANDASABINE RIGHETTIDE SÃO PAULOApertem os cintos: o aquecimento global deve dobrar a ocorrência de turbulência de céu claro nas viagens aéreas.
              Além de mais frequentes, esses sacolejos causados por variação de velocidade de correntes de ar -menos comuns do que a turbulência ligada a tempestades- devem ficar mais intensos até a metade deste século.
              Um trabalho, publicado na revista "Nature Climate Change", usou um supercomputador para simular a ocorrência de eventos atmosféricos em diferentes cenários climáticos e, assim, estimar o impacto das temperaturas elevadas sobre as turbulências.
              O grupo identificou que o incremento na frequência das turbulências de céu claro pode ficar entre 40% e 170%. Mas o cenário mais provável é que a quantidade de tremores aéreos dobre até a metade deste século -quando, segundo projeções, a temperatura terá subido até 2º C.
              "As mudanças climáticas estão acelerando as correntes de ar e levando a mais instabilidade nos voos", diz o climatologista Paul Williams, principal autor do estudo.
              O trabalho se concentrou na região do Atlântico Norte, mas seus resultados podem valer para outras partes do globo, apesar de haver ainda muitas incertezas.
              "O trabalho tem o mérito de chamar a atenção para os efeitos das mudanças climáticas nas turbulências, que não têm sido muito estudados", diz José Marengo, climatologista do Inpe membro do IPCC (painel de mudanças climáticas da ONU).
              O tipo de instabilidade no qual o trabalho se concentrou -as turbulências de céu claro- é o mais problemático para as empresas aéreas.
              "Elas são invisíveis para pilotos e satélites, e é no inverno que elas se intensificam", explica Manoj Joshi, da Universidade de East Anglia e também autor do trabalho.
              O sacolejo danifica aviões, atrasa voos, aumenta custos de manutenção e pode ferir a tripulação e os viajantes. A pesquisa estima o custo anual disso em US$ 150 milhões (cerca de R$ 300 milhões).
              A boa notícia é que, nas próximas décadas, a tecnologia aeroespacial deve evoluir muito. "Até a metade do século, já será possível detectar essa turbulência", diz Ronaldo Jenkins, coordenador da comissão de segurança de voo do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias.


              FRASE
              "As variações de temperatura causadas pelo CO2 estão aumentando a velocidade das correntes de ar atmosférico; essa aceleração das correntes de ar está levando a mais instabilidade nos voos"
              PAUL WILLIAMS, climatologista da Universidade de Reading

                sábado, 6 de abril de 2013

                Desmatamento pode estar em alta na Amazônia

                folha de são paulo

                GIULIANA MIRANDA
                DE SÃO PAULO
                O desmatamento na Amazônia, que em 2012 chegou ao seu menor índice histórico, pode estar voltando a subir.
                Por enquanto, os dados são preliminares, os chamados alertas de desmatamento, mas a tendência de alta já preocupa os ambientalistas.
                O sistema Deter do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) identificou 1.695 quilômetros quadrados de áreas possivelmente desmatadas ou degradadas entre 1º de agosto de 2012 e 28 de fevereiro de 2013.
                Isso representa um aumento de 26% em relação ao mesmo período do ano anterior.
                Apesar de confiáveis, esses dados ainda não são definitivos. O sistema Deter tem uma série de limitações, como a existência de pontos cegos quando há presença de muitas nuvens sobre a floresta.
                Editoria de Arte/Folhapress
                Por isso, os cientistas dizem que as comparações entre um mês e outro não são precisas. Mesmo assim, já há uma sensação de alerta.
                "Ainda não é possível dizer se houve aumento no desmatamento. Os dados do Deter incluem também a degradação, que pode não se concretizar em desmatamento", explica Dalton Valeriano, pesquisador do Inpe.
                Segundo ele, a alta nos alertas foi em parte causada pelo mês de agosto com uma grande quantidade de queimadas --ligadas à exploração humana--, que puxaram os números para cima.
                "Nos outros meses, a situação não foi tão diferente."
                O Mato Grosso (734 km2) liderou a lista de possíveis danos à floresta, seguido pelo Pará (428 km2) e por Rondônia (270 km2).
                O Inpe tem outro sistema de monitoramento via satélite, o Prodes, que mede o número consolidado do desmatamento. Esses dados, porém, ainda não estão prontos.
                Com a divulgação dos números, o Ibama diz que está intensificando a fiscalização.
                O órgão destaca a quantidade de madeira e materiais apreendidos. Pela primeira vez, o instituto fiscalizou a retirada de madeira de forma intensiva durante o período de chuvas.
                Só em fevereiro, o Ibama apreendeu R$ 15 milhões em toras de madeira ilegais.
                Batizada de Onda Verde, a operação apreendeu, em apenas um mês de fiscalização no Oeste do Pará, a mesma quantidade de madeira irregular identificada no Estado inteiro em 2012.
                REPERCUSSÃO
                O Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), que tem sistema próprio de monitoramento da floresta, já havia identificado uma tendência de alta nos últimos seis meses.
                "Ainda não podemos dizer que é um aumento do desmatamento, mas já é preciso ficar atento. O que preocupante é que estamos entrando no período de seca, em que o desmatamento tradicionalmente sobe. Se os alertas já foram altos para o período de chuvas, é possível que eles subam ainda mais", avalia Heron Martins, do Imazon.
                O Greenpeace mandou um comunicado sobre o desmatamento para sua base de apoiadores e cobrou uma atitude para frear o avanço.
                Entre os motivos principais apontados para a alta está a contínua pressão para a pecuária na região, além da intensificação da ocupação das redondezas da BR-163 e da Transamazônica, no Pará.

                sábado, 30 de março de 2013

                Bolsistas do CNPq nos EUA têm problemas com ajuda de custo

                folha de são paulo

                Verba adicional prevista para o Ciência sem Fronteiras em San Diego foi negada a pelo menos 4 dos 11 estudantes
                Confusão com os limites geográficos da cidade californiana seria o motivo; CNPq afirma que os estudantes têm direito
                GIULIANA MIRANDAENVIADA ESPECIAL A SAN DIEGOEstudantes do programa Ciência sem Fronteiras na Universidade da Califórnia em San Diego estão tendo dificuldades para provar ao governo que vivem mesmo em San Diego. A região em que estão, La Jolla, está sendo considerado como uma cidade independente. Com isso, eles não recebem a verba adicional para quem mora em cidades de alto custo.
                Os pedidos de recursos adicionais -US$ 400 (R$ 810) por mês- foram negados pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) a pelo menos 4 dos 11 alunos na instituição com essa justificativa.
                Em e-mails e ligações, os alunos ouviram do CNPq a mesma resposta: a "cidade" de La Jolla que não consta na lista das 50 que têm direito ao benefício.
                Para o Estado da Califórnia, a universidade e todos os serviços oficiais, porém, não há dúvidas de que La Jolla é uma região de San Diego.
                "É como dizer que o Morumbi não é parte de São Paulo", diz Kellen Gasque, estudante de pós-doutorado na Califórnia três meses e, até agora, sem o aditivo.
                San Diego é uma das cidades mais caras dos EUA, e La Jolla é uma de suas áreas mais abastadas.
                "Tudo aqui é muito caro. Para comer, para morar, fazer coisas básicas", completa Marina Scopel, outra aluna aluna de pós-doutorado que não consegue o aditivo.
                Temendo não ter suas bolsas renovadas, alguns alunos não quiseram se identificar.
                A reportagem teve acesso à troca de e-mails entre um dos bolsistas e o Sebie (serviço de bolsas individuais no exterior) do CNPq
                São mais de dez mensagens em que o bolsista argumenta, mandado links oficiais e provas documentais, que Ja Lolla é um bairro, e não uma cidade. Muitas vezes, a resposta era apenas "prezado bolsista, infelizmente não há condições para atender sua solicitação".
                Ao cobrar uma justificativa, veio a resposta do CNPq: sua cidade não faz parte das quais recebem o Adicional de Localidade".
                "Até carta eu pedi para a responsável pelos intercâmbios escrever, explicando para o CNPq que La Jolla é um bairro. Foi muito humilhante. Passou a ideia de que brasileiro é ignorante", disse ele.
                OUTRO LADO
                Questionado pela Folha, o CNPq não respondeu objetivamente se considera La Jolla uma cidade independente.
                Na primeira das três respostas enviadas à reportagem, o conselho dá a entender que considera se tratar de uma cidade independente, parte da "grande San Diego".
                " Há um grupo de trabalho analisando essas questões das regiões metropolitanas das cidades de alto custo."
                O órgão afirmou que todos os 11 bolsistas atualmente na Universidade da Califórnia em San Diego têm direito ao benefício, bastando que eles entrem em contato para pedir a inclusão.
                Alguns alunos em San Diego já conseguiram receber o aditivo, mas não sem batalhar contra a burocracia.
                "Parece que foi uma coisa mais de boa vontade da pessoa que me atendeu", afirma um deles.
                Apesar das dificuldades, eles elogiam o Ciência sem Fronteiras como um todo.
                A jornalista GIULIANA MIRANDA viajou a convite do Wilson Center e do Instituto das Américas

                  Ciência sem Fronteiras já teve caso parecido
                  DE SÃO PAULO
                  Em janeiro, atrasos no pagamento dos recursos adicionais de bolsistas do programa Ciência sem Fronteiras levaram a University of East London a oferecer "empréstimo de emergência" a alunos prejudicados pela demora no repasse do governo.
                  A situação, revelada pela Folha, se normalizou pouco depois.
                  As alunas que apareceram na reportagem, no entanto, tiveram de escrever uma carta ao ministro da Educação, Aloizio Mercadante, dizendo que gostariam de continuar no programa.

                  segunda-feira, 11 de março de 2013

                  País tem deficit de 1.800 geneticistas, diz estudo

                  folha de são paulo

                  Levantamento aponta para dificuldades de diagnóstico de doenças raras
                  Ministério da Saúde estuda facilitar a aprovação das drogas usadas nos tratamentos dessas enfermidades
                  GIULIANA MIRANDADE SÃO PAULOTer uma doença rara no Brasil significa perambular por muito tempo para conseguir um diagnóstico preciso e ter dificuldades de acesso ao tratamento.
                  A constatação é de um levantamento da Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa), lançado hoje em São Paulo.
                  As doenças raras atingem cerca de 6 pessoas a cada 10 mil. Quase 80% dessas moléstias têm origem genética.
                  Estima-se que haja 13 milhões de brasileiros com alguma das cerca de 7.000 doenças raras existentes -75% delas se manifestam antes dos cinco anos.
                  Como esperado de um texto feito pelas farmacêuticas, uma das principais questões é o acesso aos remédios.
                  A maioria das drogas para as doenças raras são de alto custo e sem tratamento similar -são as chamadas drogas órfãs. No entanto, enfrentam os mesmos critérios de avaliação de outras drogas para serem incorporadas no SUS (Sistema Único de Saúde).
                  "Como são doenças raras, os testes clínicos não têm a quantidade mínima de participantes ou não há droga similar para comparar resultados", explica Maria José Delgado, diretora de Inovação e Responsabilidade Social da Interfarma.
                  Além disso, para entrarem no SUS essas drogas precisam constar nos protocolos clínicos do Ministério da Saúde.
                  Dos 18 protocolos de atendimento a esses problemas realizados sob a política de doenças raras, só um prevê a oferta de uma droga modificadora da doença, o de doença de Gaucher. Os demais incluem drogas convencionais que amenizam os sintomas.
                  Hoje há 14 drogas aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para doenças raras e que não foram incorporadas à rede pública, levando os pacientes a batalhas judiciais.
                  "Sem uma política de atenção integrada, tudo isso fica nas mãos dos juízes, que precisam tomar decisões sobre tratamentos de alta complexidade", diz Antônio Britto, presidente da Interfarma.
                  DIAGNÓSTICO
                  A demora enfrentada por boa parte dos pacientes para conseguir um diagnóstico se deve a fatores como a escassez de geneticistas e a concentração dos centros de referência no Sul e Sudeste, segundo o relatório.
                  No Brasil, há cerca de 200 geneticistas -um para 1,25 milhão de pessoas. Segundo a conta da Interfarma, baseada em estimativa da Organização Mundial da Saúde, faltam 1.800 geneticistas.
                  O relatório pede ainda a criação de uma política nacional que integre os centros estaduais e ofereça diretrizes e regras mais claras para o tratamento dessas doenças.
                  Helvécio Magalhães, secretário de atenção à saúde do Ministério da Saúde, reconhece que o diagnóstico e a incorporação de drogas órfãs no SUS têm problemas, mas diz que o governo está trabalhando para solucioná-los.
                  As mudanças de critério para a incorporação no SUS estão em estudo e ele diz que há planos de expandir os centros de referência para outros Estados, ainda sem prazo.
                  Familiares de pacientes, no entanto, cobram urgência.
                  "Os tratamentos para essas doenças são caríssimos. Quem pode pagar R$ 40 mil por mês por medicação?", diz Regina Próspero, presidente da Associação Paulista dos Familiares e Amigos dos Portadores de Mucopolissacaridoses e mãe de dois filhos com o problema.

                    sábado, 2 de março de 2013

                    Ambientalistas se dividem entre mico-leão-dourado e o muriqui para mascote da Rio-16

                    folha de são paulo

                    GIULIANA MIRANDA
                    DE SÃO PAULO

                    As Olimpíadas de 2016 ainda estão longe de começar, mas já têm uma grande disputa. Simpáticos, atléticos e 100% brasileiros, o mico-leão-dourado e o muriqui competem pela vaga de mascote oficial do evento.
                    Os dois têm argumentos de peso. São carismáticos, endêmicos da mata atlântica e seriamente ameaçados.
                    Espécie de pop star da fauna brasileira, o mico-leão-dourado tem a seu favor justamente essa fama.
                    A agressiva campanha para salvar a espécie, que dominou a mídia há 20 anos -quando as discussões ambientais ainda eram bem menos comuns- tornou sua juba avermelhada conhecida em vários cantos do planeta.
                    "Esse animal é a cara do sucesso. Tem uma história linda, de engajamento da sociedade. Vem gente de todo lugar do mundo só para conhecê-lo", diz Luís Paulo Ferraz, diretor-executivo da ONG Associação do Mico-Leão-Dourado, que encabeça a campanha do macaquinho.
                    Editoria de Arte/Folhapress
                    O esforço para salvar o animal tem reconhecimento em todo o mundo. Em pouco mais de duas décadas, a população na natureza saltou de cerca de 200 indivíduos para os atuais 1.700. Uma vitória conseguida principalmente pela proteção e recuperação da área de mata atlântica na qual eles vivem.
                    "E, além de tudo isso, o mico-leão-dourado ainda é da cor da medalha de ouro", brinca o ambientalista.
                    Modesta, a campanha pelo loiro-ruivo mais famoso das florestas se apoia principalmente nas redes sociais.
                    Do outro lado da disputa, o muriqui, maior primata das Américas, tem um time estrelado de apoiadores, como Gilberto Gil e Chico Buarque, que aparecem em um caprichado vídeo de divulgação da campanha, encabeçada pelo Instituto Ecoatlântica.
                    "O muriqui está para o Brasil como o panda gigante está para a China", diz Russell Mittermeier, presidente da Conservação Internacional e estudioso de primatas.
                    Mittermeier e a ONG estão ajudando na internacionalização da campanha do muriqui, que tem ainda o apoio do governo do Rio de Janeiro.
                    "Justamente por ser um animal menos conhecido, ele merece essa chance de aparecer. O mico também está ameaçado, mas a situação do muriqui é alarmante", diz Mittermeier. A estimativa é que, no Estado do Rio de Janeiro, haja apenas 160 deles.
                    Apesar da repercussão de ambas as campanhas, não há garantia de que uma das espécies seja a escolhida.
                    Não existe uma candidatura oficial, e o tema do mascote é livre. Ele será escolhido entre as propostas apresentadas pelas 15 agências de comunicação convidadas pela organização das Olimpíadas para enviar propostas de aparência e conceito.
                    Ou seja, antes de conquistar o mundo, muriqui e mico-leão terão de conquistar os publicitários participantes.
                    O resultado só sai em 2014, mas os cientistas estão otimistas. A definição do tatu-bola, também muito ameaçado, como mascote da Copa de 2014 é considerada um sinal de que a questão ambiental será determinante.
                    Já os apoiadores dos dois primatas vão além: torcem para que haja mais de um mascote oficial.
                    QUEM SERÁ O MASCOTE?
                    A escolha será feita em 2014. O comitê organizador pediu para que 15 agências de comunicação pensassem no visual de mascotes que representassem o Brasil e o espírito olímpico, mas não existe uma lista pré-definida de candidatos

                    domingo, 10 de fevereiro de 2013

                    País tem pressa para reerguer base antártica

                    folha de são paulo

                    Limpeza dos escombros da estação destruída por incêndio já dá lugar à montagem de módulos temporários
                    Presença brasileira no continente gelado é estratégica para decisão sobre futura exploração de riquezas naturais
                    GIULIANA MIRANDAENVIADA ESPECIAL À ANTÁRTIDAEm meio à neve e ao frio, um canteiro de obras funciona a todo vapor. Operários passam para lá e para cá conduzindo tratores, descarregando material e construindo estruturas em uma área que, há um ano, foi complemente destruída por um incêndio no meio da noite.
                    A reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz virou questão de honra para o governo brasileiro e para a Marinha. A limpeza da área afetada foi feita em tempo recorde e o projeto da nova estação será feito por meio de um concurso milionário.
                    Além de garantir a continuidade do trabalho científico realizado na região, a pressa tem um significado mais profundo: a exploração da Antártida é uma questão estratégica para o Brasil.
                    Apesar de a região conter grande quantidade de minerais raros e de alto valor comercial, além de petróleo, sua exploração comercial está embargada até 2048, quando a questão volta a ser debatida e decidida pelos países que fazem pesquisa científica no continente.
                    PLANOS
                    O projeto da nova base brasileira será escolhido por meio de um concurso, em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil. O vencedor levará R$ 100 mil no ato e mais R$ 5,3 milhões na entrega do projeto executivo.
                    Não à toa, o concurso já está movimentando escritórios de arquitetura de todo o país e alguns do exterior.
                    "Felizmente, o governo federal não tem faltado com recursos", comemora o contra-almirante Marco Silva Rodrigues, secretário da Cirm (Comissão Interministerial dos Recursos do Mar).
                    Pouco após o incêndio, o governo federal destinou R$ 40 milhões, em caráter emergencial, para a remoção dos destroços e a preparação adequada do local.
                    E, antes que a nova estação fique pronta, o Brasil terá uma temporária, constituída por módulos pré-fabricados, comprados por R$ 14 milhões de uma empresa canadense especializada em instalações do tipo.
                    "É quase como 'plug and play'. Os módulos chegam já com tudo pronto, a mobília escolhida, os fios passados por dento das paredes. O mais trabalhoso é interligar tudo", explica Ricardo Soares Ferreira, engenheiro naval e um dos responsáveis por finalizar a instalação dos módulos e torná-los habitáveis.
                    A miniestação poderá receber cerca de 65 pessoas, mais ou menos a capacidade da antiga base brasileira.
                    Já para a base definitiva, a Marinha tem planos mais ambiciosos. A nova estação será maior que a anterior, além de ter instalações científicas mais modernas, incluindo dois laboratórios de biologia molecular.
                    O custo deve ficar em R$ 100 milhões, mas o martelo só será batido após o projeto executivo ficar pronto.

                      'Com 10°C, todos já estão de camiseta'
                      DA ENVIADA À ANTÁRTIDAConvencer alguém a participar de uma construção em um local gelado, isolado e onde o vento pode superar 170 km por hora pode parecer difícil. Mas não faltam interessados.
                      Hoje, cerca de 200 pessoas trabalham para colocar a Estação Antártica Comandante Ferraz novamente em pé. Cento e vinte em terra e, os demais, em dois navios deslocados para a região para auxiliar nos trabalhos.
                      "Por mim, poderia passar mais tempo aqui", diz o comandante Alessandro Domingos Gurski, que chegou ao continente gelado em setembro e só deve voltar para o Brasil no fim de novembro.
                      Ele faz parte do grupo-base da estação, composto por 15 militares que são a ocupação fixa do complexo, do verão ao inverno.
                      Gaúcho, Gurski diz que já se acostumou ao frio. "Com 10ºC, já está todo mundo de camiseta."
                      Nem tão entusiasmada com o clima, a comandante Carla da Costa, engenheira naval, chegou à Antártida na última sexta.
                      "Trabalhar aqui é um prêmio", diz ela, que vai ajudar a preparar os módulos emergenciais.

                        FOCO
                        Resgate de barco naufragado em 2012 entra na reta final
                        DA ENVIADA À ANTÁRTIDAO barco brasileiro Mar sem Fim, que naufragou na Antártida em abril de 2012, foi finalmente retirado do fundo do mar e içado até a margem.
                        Desde o incidente, havia o temor de que os 8.000 litros de combustível pudessem vazar e causar danos ambientais -o que não aconteceu, segundo a Marinha.
                        O trabalho entra agora na reta final, que é o reboque do barco até a cidade chilena de Punta Arenas, onde será vendido como sucata.
                        A travessia dos mais de mil quilômetros, no entanto, traz um grande desafio: cruzar as temidas águas da passagem de Drake, uma região de mar agitado na qual as ondas passam de dez metros de altura.
                        Essa etapa depende das condições climáticas na região, que não andam favoráveis. Fortes ventos têm atrapalhado os planos de militares e cientistas, impedindo inclusive o pouso de aviões de carga brasileiros.
                        A embarcação de 30 metros de comprimento pertence ao jornalista João Lara Mesquita, ex-diretor da Rádio Eldorado, do Grupo Estado.
                        O acidente aconteceu quando Mesquita foi ao continente gelado gravar imagens para um documentário.
                        Ainda no início da jornada o barco naufragou em frente à base chilena Eduardo Frei, a 50 km da estação brasileira destruída por um incêndio em fevereiro de 2012.
                        Agora, Mesquita grava um documentário sobre o resgate da embarcação. O cinegrafista Alessandro Taques disse que houve uma grande cooperação para ajudar no resgate. "Os russos cederam um barco, a Marinha está dando um grande apoio."

                          quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

                          Módulos que formarão a base temporária chegam à Antártida

                          folha de são paulo

                          Área destruída por incêndio em 2012 voltará a receber cientistas
                          GIULIANA MIRANDAENVIADA ESPECIAL A PUNTA ARENASA área destruída pelo incêndio da Estação Antártica Comandante Ferraz, em fevereiro do ano passado, deve voltar a receber pesquisadores e militares de forma efetiva em breve.
                          Chegaram ontem ao local os chamados Módulos Antárticos Emergenciais, estruturas pré-fabricadas que vão formar uma estação temporária na Antártida.
                          Segundo a Marinha, a montagem dos módulos deve começar em breve. Espera-se que o trabalho acabe até o fim de março, quando uma equipe de 15 militares deve retomar as operações básicas da estação.
                          De fabricação canadense, os módulos custaram cerca de R$ 14 milhões. Eles já são usados com sucesso em operações no Ártico, onde também há condições climáticas extremas.
                          A estação provisória terá capacidade para receber cerca de 60 pessoas, entre cientistas e militares -quase o mesmo número comportado pela antiga base.
                          MONTAGEM
                          Os módulos serão instalados na área que atualmente é destinada ao pouso de helicópteros. O local é mais elevado e ligeiramente afastado da área destruída pelo fogo.
                          Essa opção foi feita para não prejudicar o andamento da reconstrução definitiva do complexo.
                          A remoção dos destroços já acabou. O material está sendo embarcado em um navio contratado pela Marinha para esse fim e deve chegar ao Rio de Janeiro em abril.
                          Uma empresa especializada na destinação ambientalmente correta dos resíduos fará o descarte final.
                          De acordo com o chamado Pacto de Madri, que rege a exploração da Antártida, todo país deve se responsabilizar integralmente pela remoção e destinação correta de qualquer resíduo de sua atividade no continente gelado.
                          Agora, com a limpeza finalizada, começa a mobilização para a reconstrução.
                          A Marinha está realizando um concurso para escolher o novo projeto da base.
                          Espera-se que o resultado saia em abril.

                            sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

                            França suspende venda de pílula Diane 35

                            folha de são paulo

                            Medida passa a valer daqui a três meses, mas médicos já não devem receitar o remédio, indicado contra acne
                            Anúncio veio após relatório ligando pílula a mortes; riscos já são conhecidos e estão na bula, diz laboratório
                            GIULIANA MIRANDADE SÃO PAULOApós a confirmação de quatro mortes ligadas ao uso da pílula Diane 35, um remédio para a acne amplamente receitado como contraceptivo, as autoridades sanitárias da França decidiram interromper sua comercialização.
                            A proibição começa a valer daqui a três meses, mas os médicos já devem parar de receitar a pílula.
                            A agência, no entanto, desaconselhou a interrupção abrupta para quem está usando a medicação. A orientação é para que as mulheres francesas visitem um médico para trocá-la por uma das várias alternativas disponíveis no mercado.
                            A suspensão vale também para os genéricos do medicamento, que é uma combinação de acetato de ciproterona e etinilestradiol.
                            No Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) disse estar acompanhando o caso, mas, até agora, não há nenhuma alteração em relação ao uso do medicamento em vista.
                            As autoridades francesas pediram ainda que a EMA (Agência Europeia de Medicamentos) conduza uma ampla investigação sobre o uso e as possíveis complicações da Diane 35 no continente.
                            OS CASOS
                            Um relatório da agência francesa divulgado recentemente indicou que, nos últimos 25 anos, o uso de Diane 35 esteve relacionado a quatro mortes e a mais de uma centena de complicações graves, como trombose venosa profunda, embolia e AVC (Acidente Vascular Cerebral).
                            Embora o medicamento seja aprovado na França e em muitos países, inclusive no Brasil, como remédio para a acne, ele é amplamente receitado como contraceptivo.
                            "O uso de Diane 35 como contraceptivo já é consagrado e amplamente descrito na literatura médica", diz Marta Franco Finotti, presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).
                            Segundo Finotti, não há motivo para pânico.
                            "Não existe nenhuma evidência nova de perigo. Um possível aumento de problemas cardiovasculares já é conhecido. Por isso, é importante que o médico, antes de prescrever a medicação, avalie outros fatores de risco."
                            Na França, a pílula tem cerca de 315 mil usuárias. A representante da Febrasgo estima que 1,5 milhão de mulheres usem Diane 35 ou seus genéricos no Brasil.
                            A multinacional alemã Bayer, que fabrica a pílula, não confirma esses números.

                            OUTRO LADO
                            Em nota, a farmacêutica afirmou que vai cooperar com as autoridades francesas, mas diz que, até agora, não tomou conhecimento de qualquer novo fato que "leve a uma mudança na avaliação positiva do risco-benefício do Diane 35".
                            No início da semana, a Bayer reafirmou que o remédio é destinado ao tratamento da acne, "não sendo indicado com um método de contraceptivo oral".
                            A empresa afirma que os riscos de ocorrência de problemas cardiovasculares nas usuárias estão claramente descritos na bula.

                              Contraceptivos novos estão na mira de agências
                              DE SÃO PAULOA associação entre contraceptivos hormonais e complicações cardiovasculares é antiga e conhecida.
                              No entanto, as chamadas pílulas de nova geração, posteriores à Diane 35 e que têm baixa concentração de hormônios, além de também melhorarem a pele, estão na mira das agências regulatórias.
                              Estudos recentes mostraram que essas pílulas com drospirenona, como a Yasmin e a Yaz, também da Bayer, aumentam o risco de formação de coágulos sanguíneos.
                              A FDA (agência que regula alimentos e remédios nos EUA) discutiu amplamente o tema em 2011 e acabou decidindo manter essas pílulas no mercado, mas com advertências nas bulas sobre riscos aumentados.
                              Agora, é a EMA, a agência reguladora europeia, que está conduzindo um estudo sobre os riscos.
                              "Não há contraceptivo hormonal 100% seguro. Mas, na maioria dos casos, a chance de complicações é baixíssima", afirma Carlos Alberto Petta, professor de ginecologia da Unicamp.
                              Segundo ele, antes de receitar um contraceptivo, o médico deve fazer uma avaliação criteriosa do histórico de saúde e de possíveis outros fatores de risco.
                              "Tabagismo, obesidade, sedentarismo e a questão da idade também devem ser considerados."

                                terça-feira, 29 de janeiro de 2013

                                França investiga mortes causadas por pílula 'Diane35'

                                FOLHA DE SÃO PAULO

                                Diane 35, à venda no Brasil, é indicada para acne e usada também como contraceptivo
                                GIULIANA MIRANDADE SÃO PAULOA agência que regula os medicamentos na França confirmou que liga a morte de quatro mulheres no país diretamente ao uso Diane 35, um remédio para a acne amplamente receitado como contraceptivo.
                                A revelação foi feita após o jornal "Le Figaro" ter tido acesso a um relatório confidencial do órgão francês sobre complicações do medicamento. As mortes teriam sido causadas por trombose venosa profunda, mas há relatos de AVC (Acidente Vascular Cerebral) e outros problemas.
                                Segundo o documento, nos últimos 25 anos, 125 mulheres tiveram complicações que puseram suas vidas em risco devido ao uso do Diane 35 ou de seus genéricos.
                                Depois das revelações, a Ema (Agência Europeia de Medicamentos) decidiu abrir uma investigação sobre o remédio e as pílulas de nova geração, como Yaz e Yasmin.
                                A Anvisa afirmou que está atenta à situação e "analisa os desdobramentos do caso".
                                OUTRO LADO
                                Em comunicado oficial, a Bayer afirmou que os especialistas da companhia primeiro precisam avaliar as alegações antes que possa tecer mais comentários.
                                A empresa diz que até o dia 27 (domingo) não havia sido comunicada oficialmente sobre o conteúdo do relatório da agência francesa mencionado nas matérias.
                                Além de dizer que os potenciais efeitos colaterais do produto estão contidos na bula, a Bayer destaca que o medicamento é aprovado na França para o tratamento de acne em mulheres, "não sendo indicado como método de contraceptivo oral".
                                Comercializado em 116 países, o Diane 35 é aprovado na maioria deles como remédio contra a acne. Sua prescrição como anticoncepcional, porém, é amplamente difundida em todo o mundo.
                                A apresentação da cartela, inclusive, vem em formato idêntico ao da maioria dos anticoncepcionais, com 21 pequenos comprimidos.
                                No Brasil, a indicação na bula é para a acne, além de "alopecia androgênica; casos leves de hirsutismo síndrome de ovários policísticos".
                                Além de melhorar a pele, a combinação de acetato de ciproterona e etinilestradiol do Diane 35 também inibe a ovulação, explica Carlos Alberto Petta, professor de ginecologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
                                "O uso como contraceptivo acontece principalmente em mulheres que querem melhorar a pele. O uso diminuiu um pouco com a chegada da drospirenona [Yaz e Yasmin, também da Bayer], que não causam tanto inchaço."
                                "Mas, como a ciproterona é muito mais barata, ela ainda é muito popular e utilizada", completa Petta.
                                Nos últimos anos, outros anticoncepcionais também entraram no radar das agências reguladora, especialmente a drospirenona, que foi relacionada a casos de trombose e embolia, causando inclusive algumas mortes.
                                Em setembro de 2011, após mais de dez horas de sessão, a agência reguladora dos EUA decidiu manter essas pílulas no mercado, com novos alertas na bula.

                                  sábado, 26 de janeiro de 2013

                                  Grupo de paleontólogos brasileiros acha tubarão pré-histórico no sertão do Ceará

                                  FOLHA DE SÃO PAULO

                                  GIULIANA MIRANDA
                                  DE SÃO PAULO

                                  O sertão do Ceará já foi rio e, 130 milhões de anos atrás, tinha até tubarão.
                                  Um grupo de paleontólogos brasileiros acaba de anunciar uma nova espécie de tubarão de água doce que habitou a região. E as surpresas não param por aí: eles já têm vestígios de outras espécies ainda não catalogadas, que vão desde inofensivos peixes até ferozes crocodilos.
                                  "Começamos a trabalhar em algumas bacias ainda pouco exploradas do Ceará e foi assim que descobrimos a espécie. Nesses locais, há um grande potencial para encontrarmos muita coisa relevante", diz Felipe Pinheiro, do Laboratório de Paleontologia e Vertebrados da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e um dos autores do trabalho.
                                  Editoria de Arte/Folhapress
                                  O novo tubarão foi encontrado na bacia de Lima Santos, que fica cerca de 100 km ao norte da região do Araripe --principal sítio arqueológico da região e famoso mundialmente pela qualidade dos fósseis--, onde também foram encontrados sinais da sua presença.
                                  O tamanho do bicho é estimado em menos de um metro. "À primeira vista, pelo olhar de um leigo, ele seria parecido com um tubarão dos dias de hoje. Mas esse tubarão era distinto em aspectos importantes, como o posicionamento da boca", completa o paleontólogo.
                                  A descrição da espécie, publicada nesta semana na revista especializada "Cretaceous Research", foi feita com base em dentes. Pode parecer pouco, mas os cientistas dizem que, com base nisso, já é possível saber muito.
                                  "O corpo dos tubarões é essencialmente cartilaginoso. Então, em geral, o que nós encontramos fossilizados são os dentes. E por eles já é possível inferir tamanho e outras características."
                                  O nome do tubarão,Planohybodus marki, é uma homenagem ao paleontólogo Mark Van Tomme, que ajudou o grupo no início das pesquisas. O cientista acabou sem ver o trabalho publicado. Ele não resistiu a uma leucemia e morreu no ano passado com apenas 30 anos.
                                  A linhagem do P. marki já está extinta, mas isso não significa que sua descoberta seja de pouca relevância.
                                  Embora esses animais sejam relativamente comuns em outras partes do mundo, eles são raros na América do Sul, com apenas duas espécies descritas para o Brasil.
                                  O estudo desses tubarões, bem como do resto da fauna e da flora que lhe foi contemporânea, é de grande relevância para compreender a separação entre a América do Sul e a África, que já estava acontecendo nessa época.
                                  "[A descoberta dessa espécie] é mais uma peça no quebra-cabeças que ajuda a explicar como animais tão bem-sucedidos foram, aos poucos, sendo substituídos pelos tubarões atuais", afirma o paleontólogo.


                                  Camarão fóssil é descoberto no sul do Estado
                                  DE SÃO PAULOOutra descoberta de fóssil no Ceará foi anunciada neste mês: uma nova espécie de camarão, achada também no sul do Estado, foi relatada por cientistas.
                                  A descoberta ocorreu numa região de rochas conhecida como Formação Romualdo, surgida há 110 milhões de anos.
                                  Esta é a primeira vez que um fóssil deste tipo de invertebrado é encontrado em concreções calcárias, também conhecidas como "pedras de peixe".
                                  Segundo um dos pesquisadores envolvidos, Alamo Saraiva, da Universidade Regional do Cariri, a descoberta ajuda a comprovar que a bacia do Araripe, que hoje é uma região de sertão, já teve a presença de mar no passado, ou pelo menos possuía lagoas com certo nível de salinidade.
                                  A espécie foi batizada de Kellnerius jamacaruensis e pertence a família Caridea, que está na linha evolutiva dos camarões atuais criados em fazendas.
                                  O nome é uma homenagem a Alexander Kellner, pesquisador que ajudou a estabelecer um núcleo de paleontologia na região, e ao local onde ocorreu a descoberta.
                                  O fóssil tem 1,8 cm de comprimento e foi encontrado após 11 dias de escavação numa profundidade de 9,5 metros.