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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

'Black blocs' se unem a anarcopunks e pichadores e 'Mídia Gaysha' quer ser uma alternativa aos 'ninjas'

folha de são paulo
Manifestantes saem de bairros distantes para participar de atos no centro de SP
Depois de confronto com a polícia na Câmara Municipal, grupo ataca loja e agência bancária
PATRÍCIA CAMPOS MELLOFABIANO MAISONNAVEGIBA BERGAMIM JR.DE SÃO PAULOCom o grito de guerra que se tornou marca das últimas manifestações --"uuuuuuuu vamos ocupar"-- cerca de 300 manifestantes, grande parte encapuzados e integrantes dos "black blocs", começaram o quebra-quebra ontem na Câmara Municipal.
A confusão começou logo após as 19h, minutos depois de o Movimento Passe Livre (MPL) ter encerrado a sua passeata, na praça da Sé.
Manifestantes tentaram invadir o prédio, protegido por grades de ferro e PMs. Num intervalo de dez minutos, ao menos quatro bombas foram lançadas de dentro da multidão em direção ao prédio.
Gabriel, de 17 anos, veio de Lauzane Paulista, na zona norte, com seus amigos pichadores. Tinha duas caixas de bombas dentro da mochila --R$ 10 cada uma. Amarrou uma camiseta preta na cabeça e veio da praça da Sé fumando um "baseado".
No tumulto que se formou na frente das grades da Câmara, ele acendia as bombas e jogava nos policiais.
"Aqui só tem boyzinho, vai olhar quantos andam de ônibus" dizia Igor, 25, amigo de Gabriel, mostrando o Bilhete Único no bolso. "A gente já esteve no sistema, sabe como funciona."
Arrebanharam no caminho o menino Flávio, 12, que mora na praça da Sé e se animou com o "programa". "Vamos quebrar tudo! E depois podemos tomar' [roubar] os boy'."
Ao menos 55 manifestantes conseguiram entrar no prédio da Câmara, alguns foram autorizados pelo comando, outros furaram o bloqueio --15 deles bateram boca com o presidente da Casa, José Américo.
Por volta das 19h10, um oficial da PM identificou um dos manifestantes que atiravam bombas e enviou três policiais que estavam no cordão de segurança para prendê-lo.
Foi o começo da correria. Os manifestantes cercaram os policiais para impedir a prisão e um deles foi atingido com uma bomba na altura do peito.
Mais PMs saíram do prédio da Câmara para socorrer os colegas, usando bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.
O pichador Gabriel e outros manifestantes saíram correndo e arrancaram o tapume das obras ao lado da Câmara. Começaram a usar pedaços do tapume como escudo e projéteis.
Outro manifestante, de 26 anos, com uma máscara de lã preta, jogava bombas que levava na mochila. "Se a polícia revistar as mochilas, vai ser só no final, quando já vamos ter jogado todas as bombas", dizia.
Os manifestantes correram em direção à Liberdade. No caminho, montavam barricadas com sacos de lixos queimados.
Felipe, de 34 anos, estava na linha de frente que empurrou as grades para invadir a Câmara. Saiu da Câmara correndo, depois que a polícia começou a dispersar a multidão com bombas.
FÚRIA REVOLUCIONÁRIA
Com brincos e alargadores de orelha, lenço preto cobrindo e o rosto e um camiseta da banda punk britânica "The exploited", foi quebrando coisas pelo caminho. Arrancou uma lata de lixo suspensa e jogou contra um ônibus.
"É a fúria revolucionária!", gritava. "Tenho três filhos em casa, de 10, 12 e 14, deixei a janta na mesa e vim pra cá quebrar tudo", disse ele, que disse ser um anarcopunk da zona leste.
"Já quebrei uma porrada de coisa hoje, porque esse sistema é uma m... Democracia não existe, shoppings são uma mentira, bancos são uma mentira", disse.
"Tá vindo a viatura, vaza!"
O grupo de "black blocs" e anarcopunks continuou correndo pelo viaduto Dona Paulina. Na avenida Liberdade, quebraram os vidros e picharam uma agência bancária do Itaú e a loja de cosméticos Ikesaki.
    'Mídia Gaysha' quer ser uma alternativa aos 'ninjas'
    DE SÃO PAULOO sucesso do 'Mídia Ninja' na cobertura dos protestos já rendeu ao menos uma cria: ontem, três jovens autointituladas "Mídia Gaysha" também usavam o celular para transmitir as manifestações ao vivo via web.
    Mas as semelhanças param aí. Enquanto os "ninjas" têm cabelo desgrenhado e usam roupas surradas, compartilhadas nas casas coletivas onde vivem, as "gayshas" preferem jeans justos, echarpes coloridas e não dispensam a maquiagem e o pente.
    "É uma brincadeira com outra possibilidade", disse uma delas, que se identificaram apenas como irmãs Franzese. "A subjetividade existe em qualquer observador."
    Ela defendeu uma cobertura "sem o monopólio de nenhuma mídia alternativa ou tradicional".
    O grupo, explica, inclui homens e mulheres, entre designers, ativistas e artistas.
    Ao ser questionada se vivem em casas coletivas como os "ninjas", a integrante do grupo respondeu que "vivo com a minha irmã": "Quem não é coletivo?"
    Em sua estreia na cobertura das manifestações de rua, as "gayshas" ficaram bem longe da popularidade dos "ninjas".
    A transmissão na internet, localizável por uma página no Facebook, não chegou a cem acessos por vídeo. No Twitter, tinha apenas 13 seguidores até ontem à noite.
    Para comparação: o Mídia Ninja', que também cobriu ao vivo os protestos de ontem, acumula cerca de 19 mil seguidores no Twitter.

      domingo, 11 de agosto de 2013

      Portugal vive sua maior crise demográfica - Patricia Campos Mello

      folha de são paulo
      Queda na taxa de fecundidade e emigração podem tirar cerca de 1 milhão de habitantes do país em 10 a 20 anos
      'Primeira, segunda e terceira opção de nossos melhores alunos é emigrar', diz diretor de incubadora de Lisboa
      PATRÍCIA CAMPOS MELLOENVIADA ESPECIAL A LISBOAPortugal vive a crise demográfica mais grave de sua história. O país pode perder 1 milhão de habitantes em 10 a 20 anos --quase 10% de sua população de 10,6 milhões.
      "É catastrófico", diz João Peixoto, professor da Universidade de Lisboa. "A crise demográfica em Portugal é muito grave, porque junta motivos estruturais, como a queda da taxa de fecundidade, e conjunturais, as emigrações por causa da crise."
      Cerca de 100 mil portugueses emigram por ano desde 2010, segundo o governo.
      São os mais qualificados e mais jovens que deixam o país. Gente como o economista Alexandre Abreu, 34, que vai trabalhar em Timor Leste por dois anos.
      Ele fez faculdade e mestrado na Universidade de Lisboa e doutorado na Universidade de Londres, estudando migrações e a crise do euro. Grande parte dos seus estudos foi custeada por bolsas do governo português.
      Há dois anos voltou da Inglaterra, mas não consegue emprego fixo em Portugal, porque as vagas foram congeladas no plano de austeridade. Com contrato de meio período, ganhava € 1.000 por mês (cerca de R$ 3.000).
      "Tentei ficar, mas, com esse contexto de crise, não consegui. Fomos subsidiados pelo governo para atingir essa formação avançada e agora não há empregos aqui."
      O declínio da natalidade é antigo na Europa, mas era parcialmente compensado pelos imigrantes, que têm número maior de filhos.
      Portugal teve queda forte na taxa de fecundidade, hoje em 1,28 filho por mulher. E a crise demográfica do país é mais grave que a de outras nações europeias porque se alia à onda de emigração de mão de obra qualificada.
      "A crise agravou a queda de fecundidade, porque, quanto maior a instabilidade na vida profissional, menor a vontade de ter filhos", diz o demógrafo Jorge Malheiros, da Universidade de Lisboa.
      Os nascimentos vêm caindo. Foram 96.856 em 2011, 89.841 em 2012 e a estimativa para este ano é de 80 mil.
      Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, o número de mortes em Portugal foi 11.868 superior ao de nascimentos entre janeiro e abril deste ano. Associado às emigrações, o país encolhe a taxas aceleradas.
      "Só não emigram mais portugueses porque outros países também estão em crise", diz o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.
      A maioria emigra para outros países da Europa, aproveitando-se do espaço Schengen. França, Reino Unido, Luxemburgo e Alemanha são os principais destinos.
      Em 2012, calcula-se que Angola tenha recebido 30 mil portugueses, Moçambique, 5.000, e o Brasil, 2.171.
      Além de Portugal, também Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Hungria e Romênia encolheram em 2011.
      "A longo prazo, nenhum país consegue ter crescimento econômico forte com regressão demográfica; um país que perde população não tem dinamismo", diz Jorge Malheiros.
      Segundo dados do Eurostat, Portugal tem a quarta maior porcentagem de população com 65 anos ou mais da UE ""19,4%. Perde apenas para Alemanha, Itália e Grécia.
      "E os jovens são mais capazes de assumir riscos, de empreender, então, ao se perder jovens, perde-se capacidade de inovação no país", diz o demógrafo.
      "A mobilidade de quadros é positiva, desde que eles voltem. Hoje não temos forma de atraí-los de volta", acrescenta José Cesário.
      A taxa de desemprego de Portugal foi de 17,4% em junho. Mas entre os jovens (abaixo dos 25 anos) é bem mais grave --está em 41%.
      "Portugal sempre foi um país de emigrantes --emigrar não dói, não aleija, e todos têm um emigrante na família", diz João Vasconcelos, diretor da Startup Lisboa, que reúne 40 empresas de alta tecnologia e estimula o empreendedorismo. "Mas agora é diferente: todos os melhores alunos, nossa elite, têm como primeira, segunda e terceira opção emigrar".
        Visto de trabalho a portugueses dobra no Brasil
        DA ENVIADA A LISBOAO número de portugueses que receberam visto de trabalho no Brasil aumentou 101% no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 2012. Segundo o Ministério do Trabalho, foram 704 diante de 349 em 2012. Em 2010, foram 757 vistos; em 2011, 1.547; em 2012, 2.171.
        Mas, segundo autoridades dos dois países, o número de portugueses que chegam ao Brasil é bem maior do que os vistos concedidos, pois a maioria entra de forma irregular. A concessão de vistos é burocrática, e o processo chega a levar mais de seis meses.
        "A equivalência de diplomas de arquitetos e de engenheiros portugueses no Brasil, país que precisa muito desses profissionais para as suas obras de infraestrutura, evolui muito lentamente", conta o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.
        "Visto de trabalho para o Brasil é muito difícil, burocrático, por isso alguns optam por outros países europeus ou por Angola e Moçambique", diz ele. (PCM)
          Apesar de iniciativas do governo, interior passa por 'desertificação'
          PATRÍCIA CAMPOS MELLODA ENVIADA A FELGAR (PORTUGAL)
          A última escola primária de Felgar, aldeia em Trás-os-Montes, fechou no início deste ano. Tinham sobrado só 12 alunos. Felgar, como o resto do interior do país, vive um processo de esvaziamento.
          A aldeia, cercada de oliveiras e amendoeiras, faz parte do município de Torre de Moncorvo, que tem 8.572 mil pessoas (Censo de 2011). Em 1960, eram 18 mil.
          Não se veem jovens nas ruas de pedra de Felgar. São quatro idosos com mais de 65 anos para cada jovem no município.
          Toda a família de Antonia Maria Salgado, 88, foi embora dali. "Só sobramos eu e minha prima Conceição", diz. Conceição tem 83 anos.
          Dois dos três filhos de Antonia morreram. Um não vive mais na aldeia. De seus netos, nenhum ficou em Felgar. Um foi para Angola e outra está na França.
          Felgar é um retrato da chamada desertificação do interior de Portugal. No interior, o número de municípios que perdeu população aumentou de 173 (entre 1991 e 2001) para 198 entre 2001 e 2011.
          Também aumentou o número de municípios com decréscimos populacionais superiores a 10% no interior.
          "Teremos cada vez mais aldeias vazias; isso resulta em um país muito desequilibrado", diz Jorge Malheiros.
          Na onda de emigração dos anos 60 e 70, os trasmontanos foram para Lisboa, Porto, França e Alemanha. Muitos agora se aposentaram e voltaram para as aldeias. Mas seus filhos, mais qualificados que a geração anterior, estão quase todos no exterior ou em cidades grandes.
          O governo fez iniciativas para repovoar o interior. "O turismo rural e a profissionalização da agricultura não foram suficientes para reverter o esvaziamento do interior, principalmente em algumas aldeias em Trás-os-Montes e no Alentejo", diz o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.

          sexta-feira, 2 de agosto de 2013

          Gente "diferenciada" de Portugal - Patrícia Campos Mello

          folha de são paulo

          Gente "diferenciada" de Portugal


           
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          DE LISBOA - Cristina Espirito Santo, herdeira de uma das famílias mais ricas de Portugal, deveria ter investido parte de sua fortuna em "media training".
          Em entrevista à revista do semanário Expresso, Cristina afirmou que gostava de ir a Comporta, uma das praias frequentadas pela alta sociedade lisboeta, para "brincar aos pobrezinhos" --em tradução livre, fingir-se de pobre.
          Na reportagem, intitulada 'Como se vive no refúgio das elites', Cristina queria dizer que podia ficar relaxada, andando de chinelos, na praia onde sua família tem várias propriedades e que pode ser comparada a Trancoso e seu apelo "hippie chique".
          Mas a declaração desastrada ficou "viral" na internet. Nas redes sociais, rodinhas e nos jornais, só se falava disso.
          Dizer que vai se "fingir de pobre" na praia dos ricos, em um país com desemprego na faixa dos 17% e PIB encolhendo é, no mínimo, de extremo mau gosto. Em Portugal, tem muita gente "brincando de pobrezinho", mas não por vontade própria
          Lembrou muito o pessoal da "gente diferenciada" de Higienópolis.
          Em 2010, uma moradora do bairro que se opunha à construção de metrô em Higienópolis disse à Folha: "Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada..."
          Pouco depois, foi organizado o "churrascão da gente diferenciada", para protestar contra o cancelamento da estação de metrô na avenida Angélica.
          Portugal vai na mesma linha. Após convocação pelo Facebook, os "pobrezinhos" prometem invadir a praia de Comporta no dia 10 de agosto. Na versão lisboeta dos farofeiros, vão munidos de "geleira" (isopor) e "alheiras" (linguiças).
          patrícia campos mello
          Patrícia Campos Mello é repórter especial da Folha e escreve para o site, às sextas, sobre política e economia internacional. Foi correspondente em Washington durante quatro anos, onde cobriu a eleição do presidente Barack Obama, a crise financeira e a guerra do Afeganistão, acompanhando as tropas americanas. Em Nova York, cobriu os atentados de 11 de Setembro. Formou-se em Jornalismo na Universidade de São Paulo e tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. É autora dos livros "O Mundo Tem Medo da China" (Mostarda, 2005) e "Índia - da Miséria à Potência" (Planeta, 2008).

          quarta-feira, 3 de julho de 2013

          Mercado vê risco maior de calote de Eike; Bolsa desaba

          folha de são paulo
          Agência rebaixa OGX para nível pré-default; bancos preveem ação a R$ 0,10
          Percepção externa ajuda a derrubar Bolsa de SP para pior nível desde 2009; saída seria venda ou aporte de dono
          DENISE LUNAMARIANA SALLOWICZDO RIORAQUEL LANDIMDE SÃO PAULOInstituições financeiras internacionais apontaram ontem risco mais concreto de calote da OGX, líder do grupo de Eike Batista, e bancos estimaram que os papéis da petroleira podem chegar a valer R$ 0,10. As ações das empresas do grupo desabaram.
          A agência de classificação de risco Standard & Poor's cortou a nota da OGX de "B" para "CCC" --nível anterior a "default" (calote).
          A S&P atribui a perspectiva negativa "à grande vulnerabilidade de não pagamento e à dependência de condições favoráveis para cumprir seus compromissos".
          O mercado reagiu à avaliação e à drástica revisão dos planos de produção da OGX, divulgados anteontem.
          A empresa informou que seu único campo de petróleo em atividade, Tubarão Azul, na bacia de Campos (RJ), pode parar de produzir em 2014.
          Também suspendeu os planos de colocar em produção os campos de Tubarão Tigre, Tubarão Gato e Tubarão Azul.
          "Essa base de ativos menor prejudicará a capacidade da OGX de atingir níveis de produção e de geração de caixa para cobrir seus níveis de dívida", disse a agência.
          As ações da OGX caíram 19,64%, para R$ 0,45. Em 12 meses, o tombo é de 92,9%.
          Na avaliação dos bancos, o papel pode cair ainda mais. O Deutsche Bank reduziu seu preço-alvo de R$ 0,70 para R$ 0,10. O Bank of America e o Merrill Lynch, de R$ 1 para R$ 0,10. Crédit Suisse e HSBC estimam o preço em R$ 0,30.
          Os títulos da dívida da OGX continuaram caindo para um nível que indica risco de calote. Os papéis com vencimento em 2018 eram negociados ontem por 20% do valor de face, ante 32% na sexta-feira.
          A queda das ações da OGX voltou a contaminar as outras companhias do grupo. MMX, LLX e OSX caíram, respectivamente, 17,3%, 11,2% e 15,8%.
          O efeito respingou até na Petrobras, que recuou 4,76% e ajudou a derrubar a Bolsa.
          Também foram afetados os papéis de bancos --investidores estão preocupados com a dívida que o grupo de Eike tem com as instituições.
          O Ibovespa recuou 4,24%, maior tombo desde 22 de setembro de 2011, e fechou no pior nível desde 22 de abril de 2009, também sob influência da queda da produção industrial.
          O QUE SOBROU?
          Em relatório, os analistas do Credit Suisse afirmaram ontem que "não sobrou muito para o acionista" da OGX.
          Pelas contas do banco, os ativos da empresa valem US$ 2 bilhões --US$ 1,2 bilhão por Tubarão Martelo, US$ 500 milhões pelos blocos na bacia do Parnaíba e US$ 270 milhões pelo bloco BS-4.
          O problema, aponta o Crédit Suisse, é que o valor patrimonial não é suficiente para pagar a dívida da empresa, que chega a US$ 4 bilhões.
          Segundo o relatório, se a OGX pagar e investir tudo o que previu, chegaria ao fim do ano com um caixa negativo de US$ 400 milhões.
          Pelos cálculos do banco, a empresa começou 2013 com um fluxo de caixa de US$ 1,6 bilhão. Mas teria que gastar US$ 200 milhões em capital de giro, US$ 335 milhões em juros da dívida e US$ 1 bilhão em investimentos.
          Além disso, a OGX tem que pagar US$ 188 milhões até agosto para a ANP (Agência Nacional do Petróleo) pelos novos campos que ganhou em leilão. E se comprometeu a pagar outros US$ 449 milhões para a OSX, estaleiro do grupo EBX, pelo rompimento de contrato para a construção de plataformas.
          Para Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), "a OGX agora contou a verdade para o mercado e está com sua dimensão real".
          Ele considera que a empresa ainda tem alternativas se conseguir uma "injeção de capital", porque ainda possui alguns bons ativos.
          A "injeção" poderia vir do próprio Eike, que se comprometeu a colocar R$ 1 bilhão na petroleira, ou de um sócio estratégico, que o BTG, banco que fechou parceira com o empresário, tenta encontrar.
          O mercado tem dúvidas se Eike vai realmente injetar esse capital, pois ele vendeu ações da empresa a valores baixos para levantar recursos.
            Investidor estrangeiro se preocupa com exposição de bancos ao EBX
            PATRÍCIA CAMPOS MELLODE SÃO PAULOAs ações dos principais credores das empresas do grupo EBX despencaram ontem. Os papéis do BTG, que tem R$ 458,7 milhões em empréstimos de curto prazo para o grupo de Eike Batista, segundo levantamento da Folha, tiveram queda de 7,59%.
            De acordo com relatório do BofA (Bank of America), entre os bancos privados, o BTG tem a maior exposição às empresas do grupo X em dívidas de curto e longo prazo, de 6,2% de seu capital de nível 1 (parte do patrimônio que absorve as perdas da atividade normal do banco).
            As ações do Bradesco, que tem R$ 996,4 milhões em empréstimos de curto prazo para empresas do grupo (exposição de 1,8% segundo o Bofa), caíram 5,07%.
            E os papéis do Itaú, que tem R$ 1,007 bilhão de crédito de curto prazo para as empresas X e exposição de 1,7%, tiveram baixa de 4,32%.
            Segundo o BofA, a exposição do BNDES a dívida das empresas de Eike é de 10,1%, e a da Caixa Econômica Federal, de 6,2%.
            A exposição de bancos brasileiros às empresas de Eike preocupa muito investidores estrangeiros.
            "A grande preocupação do mercado agora é descobrir exatamente quanto cada banco emprestou para as empresas de Eike; por isso as ações de bancos como Itaú e Bradesco já estão caindo", disse o chefe de negociação de ações de um grande banco em Nova York.
            "É o segundo estágio da crise --o que vai acontecer com os bancos e o que o governo vai fazer."
            "Não falamos sobre ações específicas, especialmente em uma situação como essa", disse Michael Shaoul, presidente da Marketfield Asset Management, gestora de recursos em Nova York.
            "Mas esperávamos que os usuários mais agressivos de crédito no Brasil começassem a ter problemas agora e esperamos mais casos de inadimplência", disse.
            Segundo Shaoul, "os credores vão ser afetados pelas preocupações do mercado, e a atividade de crédito bastante agressiva dos bancos estatais e de bancos de investimento privados do Brasil levará a problemas nas próximas semanas."
              OGX já busca compradores que a salvem
              Eike aceita abdicar do controle da petroleira para viabilizar venda; empresa deve ser fatiada para melhorar preço
              Segundo executivos, BTG Pactual, que assessora o grupo, busca interessados e aceita assumir parcela
              RENATA AGOSTINIDE BRASÍLIA
              Com a ação da OGX reduzida a centavos, Eike Batista tenta buscar um grupo de compradores para a petroleira como último lance para salvá-la.
              O empresário, que detém hoje 59% das ações da companhia, já aceitou abrir mão de seu controle para viabilizar a operação, apurou a Folha com executivos próximos a Eike e ao banco BTG Pactual, que assessora o grupo X.
              Eike autorizou o banco a iniciar um processo de venda da companhia para atrair novos sócios ao negócio --um pool de investidores, no jargão do mercado. O próprio BTG já manifestou interesse em assumir uma parcela da empresa se necessário.
              Para banqueiros, é mais fácil conseguir um bom preço negociando a OGX por fatias, em vez de tentar passá-la a um só comprador. Assim, o risco se dilui entre os novos sócios, que tenderiam a exigir desconto menor no valor a pagar.
              A fatia final que restará a Eike, caso o processo seja bem-sucedido, é incerta, pois dependerá de quanto os investidores estarão dispostos a desembolsar pela empresa.
              Não se descarta, no entanto, a possibilidade de a porção do empresário ser reduzida a até 25%, abrindo espaço para aportes maiores na OGX.
              Há consenso entre os banqueiros do BTG e os executivos de Eike de que a venda não será fácil, diante do baixo valor de mercado e das dificuldades de caixa da empresa.
              ESTRATÉGIA
              A aposta é tentar convencer interessados de que os ativos valem mais do que o mercado está disposto a pagar agora.
              "Atrair um sócio implicará termos desvantajosos, mas a OGX já passou dessa fase", avalia Roberto Altenhofen, da Empiricus Research. "Agora é a busca por sobrevivência."
              Entre os interessados, está a petroleira russa Lukoil, que iniciou conversas com o grupo neste ano para assumir até 40% da OGX, como revelou a Folha. A negociação, porém, não será mais exclusiva.
              O processo estava em estágio avançado, e um escritório no Brasil já havia sido acionado pelos russos em abril para esquadrinhar dados da OGX.
              Eike e os russos, contudo, não chegaram a um acordo sobre preço até o momento.
              Sem um cheque irrecusável na mesa, o lado político pesou, segundo executivos da EBX. A Petrobras, que Eike vê como peça valiosa para o plano de resgate do grupo, sinalizou que não via com bons olhos a associação aos russos.
              Além de eventuais parcerias em campos operados pela Petrobras, executivos da OGX esperam conseguir "vender" a petroleira de Eike como parceira ideal para empresas estrangeiras investirem no pré-sal, cujas licitações serão coordenadas pela estatal.
              Procurados, OGX e BTG Pactual não se pronunciaram.
              Para consultores, vender as ações agora é má ideia
              DANIELLE BRANTCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAApesar do tombo das ações das empresas do grupo de Eike Batista, é pior para os investidores vender os papéis do que mantê-los, afirmam consultores.
              Mesmo no caso das ações da OGX, que fecharam ontem a R$ 0,45 e foram avaliadas por bancos a R$ 0,10.
              "Quem já aguentou as perdas até hoje deve permanecer no jogo", diz Clodoir Vieira, consultor de investimentos. "Pode ser que o BNDES libere verba ou que o governo faça alguma interferência junto com Petrobras, ou mesmo que um estrangeiro surja e compre a empresa", acrescenta.
              Caso o socorro não venha, porém, o investidor precisa estar preparado.
              "O acionista é o último a ser ressarcido em caso de quebra da empresa. Antes, vêm credores e funcionários", diz Bruno Gonçalves, da corretora WinTrade.
              Como regra geral, especialistas aconselham que o investidor não se deixe influenciar pela queda de uma ação ao decidir vendê-la, pois ele perde o dinheiro da aplicação se desfizer do papel por um valor menor que o pago na compra.
              "Muitas vezes, pode ser uma queda conjuntural da Bolsa, e não um problema específico da empresa. É preciso analisar o contexto", diz Michael Viriato, professor de finanças do Insper.
              No caso da OGX, porém, especialistas ouvidos pela Folha dizem haver sérias dúvidas sobre a capacidade financeira da empresa.
              "O grupo como um todo está sob uma desconfiança muito grande, o que faz com que todas as portas [de bancos] fiquem mais difíceis de serem abertas", diz Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest Título Corretora.

                sexta-feira, 28 de junho de 2013

                Reforma imigratória avança nos EUA

                folha de são paulo
                Senado aprova proposta para regularizar até 11 milhões de pessoas, mas texto deve sofrer resistência na Câmara
                Projeto é uma das principais promessas de campanha de Obama e conta com apoio de empresas de tecnologia
                RAUL JUSTE LORESDE WASHINGTONO Senado americano aprovou ontem, com 68 votos favoráveis e 32 contrários, a maior reforma imigratória do país em décadas. Agora o projeto vai para a Câmara dos Deputados, onde sofre maior oposição.
                Com o apoio de 54 democratas e apenas 14 republicanos no Senado, a reforma cria um processo de legalização escalonada, que pode levar até 13 anos, para os 11 milhões de imigrantes sem papéis nos Estados Unidos.
                Ela também aumenta gradualmente a emissão de vistos de trabalho H-1B para trabalhadores altamente qualificados, os que ganham acima de US$ 115 mil dólares (cerca de R$ 253 mil) por ano.
                Autoriza ainda o investimento de US$ 30 bilhões (R$ 66 bilhões) na segurança da fronteira do país com o México, uma das principais exigências da oposição republicana para aprovar a lei.
                Os 3.141 quilômetros de fronteira terão uma sucessão de muros e cercas, passando por quatro Estados americanos, e o número de guardas pulará de 21 mil para 40 mil --ainda que, nos últimos quatro anos, a entrada de imigrantes pela fronteira seja a menor em 30 anos.
                A reforma imigratória virou uma das maiores promessas de campanha da reeleição do presidente Barack Obama em 2012.
                Como 73% dos hispânicos votaram em Obama no ano passado, muitos republicanos achavam que era hora de se reconciliar com as minorias de imigrantes para reduzir a rejeição ao partido entre os latinos.
                Mas os republicanos encontram-se divididos. Muitos calculam que a reforma simplesmente dará voto a 11 milhões de possíveis eleitores democratas.
                Vários deputados republicanos foram eleitos em distritos majoritariamente brancos e com poucos estrangeiros, que se opõem à reforma.
                Mas tanto associações de empresários quanto sindicatos, antes contrários à reforma, apoiam a legalização. Sindicalistas dizem que imigrantes sem papéis são mais vulneráveis e puxam salários para baixo.
                VALE DO SILíCIO
                Facebook, Apple, Microsoft, Yahoo! e Google estiveram entre os maiores lobistas para a aprovação da reforma. Essas empresas criaram uma associação no início do ano para promover a reforma.
                Os empresários do setor se queixam que os 85 mil vistos concedidos anualmente para especialistas em tecnologia se esgotam em apenas 10 semanas. A reforma aumenta o número desses vistos a 180 mil.
                CÂMARA
                Agora, o projeto será votado na Câmara dos Deputados, onde os republicanos são maioria. Lá, a reforma não deve passar tão facilmente. Ted Cruz, deputado do Texas e estrela ascendente dos republicanos, já chamou a reforma de "anistia para criminosos".
                  Para ex-secretário de Bush, republicanos precisam de mudança
                  Carlos Gutierrez defende apoio a imigrantes para evitar que partido fique cada vez menor
                  PATRÍCIA CAMPOS MELLODE SÃO PAULOA sobrevivência do partido republicano americano depende da aprovação da reforma da imigração, que agora segue para votação na Câmara, onde a sigla tem maioria.
                  Esse é o alerta de Carlos Gutierrez, ex-secretário de comércio do governo George W. Bush, que hoje preside o grupo "Republicans for Immigration Reform" (republicanos pela reforma imigratória).
                  Veja os principais trechos da entrevista à Folha.
                  Folha - Muitos republicanos que irão enfrentar primárias em 2014 temem ser atacados por candidatos da extrema direita se apoiaram a reforma...
                  Carlos Gutierrez - Isso tem acontecido muito, e nós tentamos ser uma espécie de defesa para eles.
                  Quem no partido republicano apoia a reforma?
                  Principalmente empresários. Eles entendem que o que faz o partido poderoso é sua ideologia econômica ­--livre mercado, baixos impostos e redução do Estado-- e não questões sociais. Gastamos tanto tempo falando sobre tudo o que somos contra --aborto, imigração, gays... Ora, isso representa 50% da população.
                  Foi como o senador Marco Rubio disse: os hispânicos podem até apoiar nossas propostas para a economia e os impostos, mas, se acharem que queremos deportar a avó deles, não vão votar na gente.
                  Quem se opõe à reforma, além da extrema direita e quem tem medo das primárias?
                  Também há quem acredita que os imigrantes ilegais são democratas sem documentos. Ou seja, por que dar a chance para eles votarem?
                  A aprovação da reforma é essencial para a sobrevivência do partido republicano?
                  Se o partido não apoiar a reforma e, consequentemente, não atrair o voto hispânico, vai ficar cada vez menor. Talvez possamos conseguir eleição em 2016, por causa da fadiga de Obama, mas em 2020, 2024, estamos condenados a virar um partido regional.
                  O que você acha que vai acontecer na Câmara?
                  A Câmara pode acabar aprovando uma lei que é tão extrema para a direita que não poderá ser "reconciliada" com a lei do Senado. Se for muito dura em relação à segurança da fronteira, mas não fizer concessões para a legalização dos 11 milhões de ilegais, por exemplo.
                    Saúde de Mandela ofusca visita de Obama
                    Presidente dos EUA chega hoje à Africa do Sul e tentará visitar o líder antiapartheid
                    FÁBIO ZANINIENVIADO ESPECIAL A JOHANNESBURGOO presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, inicia hoje uma aguardada, mas azarada, visita à África do Sul. Pela manhã estão marcados protestos organizados por aliados do mesmo governo que o recebe em Pretória.
                    Nada deve importar muito, no entanto: a viagem deve ser totalmente ofuscada pelo estado de saúde do ex-presidente Nelson Mandela.
                    Mandela, 94, permanecia ontem internado em estado crítico. Ao longo do dia, o governo sul-africano deu informações contraditórias sobre a situação dele, que sofre de crise respiratória. Pela manhã, o porta-voz da Presidência, Mac Maharaj, disse que a condição do líder havia se deteriorado muito.
                    Mas, à tarde, o próprio presidente Jacob Zuma desmentiu o auxiliar, afirmando que Mandela estava "bem melhor", embora em situação ainda delicada.
                    Uma visita de Obama a Mandela é improvável, para frustração do líder americano. Segundo assessores, ele contava com o encontro para simbolizar sua preocupação com a África e contraditar acusações de que negligencia o continente de seu pai (que era queniano).
                    Obama esteve só uma vez na África subsaariana, em Gana, em 2009. Os EUA vêm perdendo espaço no continente, sobretudo para a China, hoje líder em investimentos nos países africanos.
                    O presidente começou seu giro africano no Senegal e termina na Tanzânia. Ontem, ele pediu aos governos no continente que parem de criminalizar a homossexualidade e elogiou a decisão da Suprema Corte dos EUA que reconheceu benefícios federais aos casais gays. Para o presidente, foi uma "vitória da democracia".
                    Em território sul-africano, além de encontro com Zuma, Obama deve visitar um dos locais mais associados à figura de Mandela: o antigo presídio de Robben Island, na Cidade do Cabo, onde o ícone antiapartheid passou 18 de seus 27 anos de prisão.
                    A chegada de Obama deve coincidir com um protesto convocado pela Cosatu, maior central sindical do país, e pelo Partido Comunista Sul-Africano (SACP), além de grupos menores. Cosatu e SACP fazem parte do governo Zuma.
                    O protesto, segundo Bongani Masuku, secretário de Relações Internacionais da Cosatu, tem vários alvos: a militarização da política externa dos EUA, sobretudo com o uso de drones (aviões não tripulados), o apoio a Israel e a relação econômica desigual Norte-Sul.
                    "Não há constrangimento para o governo, porque não estamos protestando contra a pessoa de Obama, mas contra aspectos do poder americano", disse Masuku.
                    A marcha deve terminar na embaixada dos EUA, em Pretória, e tem o título de "Nobama" ("Não a Obama").

                      sábado, 15 de junho de 2013

                      'Foucault viu neoliberalismo como o novo'

                      folha de são paulo
                      Em livro lançado no Brasil, Geoffroy de Lagasnerie examina fascínio de intelectual esquerdista por essa ideologia
                      Segundo professor de sociologia francês, o filósofo enxergou elementos positivos em teorias neoliberais
                      CASSIANO ELEK MACHADODE SÃO PAULOO caminho de Michel Foucault até o palco no qual proferia suas aulas, no Collège de France, não era fácil. O filósofo francês tinha que, literalmente, saltar sobre as pessoas que se aglomeravam na arena da prestigiada escola de ensino superior em Paris.
                      Projetado para 300 pessoas, o espaço nunca tinha menos de 500 ouvintes.
                      Mas Foucault (1926-1984) não era de se assustar com caminhos difíceis. No período no qual lecionou no Collège de France, entre 1971 e 1984, quando morreu, ele já era um dos mais célebres, mas também um dos mais polêmicos intelectuais do país.
                      Poucas vezes, porém, Foucault causou tanto burburinho quanto no seminário que ministrou entre 10 de janeiro e 4 de abril de 1979.
                      Consagrado como pensador icônico da esquerda francesa, se propunha, quarta-feira após quarta-feira, a dissecar um tema indigesto para os espectros ideológicos "canhotos": o neoliberalismo.
                      "E se Foucault, no fim da vida, estivesse virando um liberal?", foi a questão que reverberou de bate-pronto nas universidades mundo afora.
                      No ano passado, um jovem sociólogo e filósofo conterrâneo de Foucault resolveu enfrentar a velha pergunta. Também pelo rumo difícil.
                      Em "A Última Lição de Michel Foucault" (Fayard, 2012), agora lançado no Brasil, pela editora Três Estrelas (do Grupo Folha), Geoffroy de Lagasnerie, 32, se debruça sobre o fascínio do intelectual com alguns aspectos neoliberais.
                      "Foucault não denuncia o neoliberalismo. Ele não adere à percepção espontânea dessa tradição como algo negativo", opina Lagasnerie, em entrevista por e-mail à Folha. "Ao revés, ele pensa que há algo de positivo no neoliberalismo."
                      O autor compara o movimento de Foucault a uma manobra intelectual de um dos pensadores mais admirados (e, depois, mais criticados) por ele: Karl Marx.
                      Segundo Lagasnerie, Foucault evoca um "espírito idêntico" ao de Marx quando este atacou a relação dos socialistas alemães com o capitalismo, no texto "Crítica do Programa de Gotha" (1875).
                      "Ele tenta entender o que o neoliberalismo produz, teoricamente e politicamente, e quais são seus efeitos, da mesma forma que Marx fez com o capitalismo."
                      De outra parte, o autor de "A Última Lição de..." sustenta que é justamente para tentar se afastar de Marx, em meados dos anos 1970, que Foucault chegou aos liberais e neoliberais.
                      ANTIMARXISTA
                      "Foucault talvez tenha sido um dos pensadores mais antimarxistas e anticomunistas da França ao longo desta década", diz à Folha.
                      "Isso não significa, claro, que ele tenha tido alguma proximidade com a direita. Mas queria inventar, criar, imaginar como poderia ser uma teoria e uma prática radical não-marxista."
                      Foucault estaria particularmente interessado nos novos sentidos que neoliberais como o economista austríaco Friedrich Hayek (1899-1992) deram a conceitos como Estado, dominação, minorias e sociedade.
                      Para o professor, "o conceito central da abordagem neoliberal não é, como se costuma pensar, o de liberdade. É o de pluralidade".
                      "O neoliberalismo desenha uma imagem de um mundo essencialmente desorganizado, um mundo sem centro, sem nenhuma unidade, sem coerência e significado. Em outras palavras, nenhuma sociedade."
                      Lagasnerie considera que o insight mais importante de Foucault no seminário de 1979, chamado "Nascimento da Biopolítica" (há versão em livro publicada no Brasil pela Martins Editora) diz respeito à relação estabelecida por ele entre o neoliberalismo e o pensamento crítico.
                      "O pensamento neoliberal não tenta legitimar o Estado ou a soberania política, como a filosofia política ou a teoria do contrato social. Pelo contrário, elabora uma nova questão política: por que é necessário o governo?"
                      Professor de sociologia no Institut d'Études Politiques de Paris (Sciences-Po), e autor de outros três livros, Lagasnerie afirma que seu livro foi recebido raivosamente por estudiosos ("felizmente não todos") de Foucault.
                      "Leram meu livro como se fosse a favor' do neoliberalismo e se quisesse ter sustentado que Foucault poderia ter sido neoliberal. É um erro", expressa.
                      "Para entender os interesses de Foucault no neoliberalismo é necessário deixar de lado a questão a favor' ou contra' o liberalismo, assim como a visão de que o neoliberalismo seja conservador. Os textos de Foucault são estranhos e desafiadores precisamente porque não batem com nossas expectativas."
                        CRÍTICA ENSAIO
                        Autor recorre a ícone da esquerda para defender que ela se reinvente
                        PATRÍCIA CAMPOS MELLODE SÃO PAULOQue um intelectual de esquerda resolva investigar desapaixonadamente o neoliberalismo parece ultrajante. Que esse intelectual seja Michel Foucault, ícone da esquerda radical, é heresia.
                        Em "A Última Lição de Michel Foucault", Geoffroy de Lagasnerie mostra como Foucault dedicou seus derradeiros anos a tentar entender, sem preconceitos, os fundamentos do execrado neoliberalismo no curso "Nascimento da Biopolítica" (1979).
                        Foucault tentou desconstruir clichês da esquerda em seus ataques ao neoliberalismo, colocando-se no lugar de autores neoliberais como Friedrich Hayek, Milton Friedman e Gary Becker.
                        Argumentou que o neoliberalismo não era uma teoria reacionária e que o "mercadismo" tinha um aspecto revolucionário, que queria subverter a ordem existente.
                        No mercadismo, diz Foucault, "nenhuma autoridade particular é reconhecida. Ela subordina-se à avaliação utilitarista. Não é dotada de valor em si mesma, mas apenas se os seus ganhos forem superiores a seus custos --de maneira que a própria ideia de obediência, de respeito à autoridade, não faz sentido no arcabouço neoliberal".
                        EMANCIPAÇÃO
                        Não que Foucault defenda os resultados e alvos do neoliberalismo --como acabar com o estado do bem-estar social. Mas reconhece méritos em uma teoria que questiona o Estado na sua atual forma. Para Lagasnerie, "há alguma coisa de emancipador, de crítico que se elabora e também se instaura através do neoliberalismo".
                        Isso porque o neoliberalismo conseguiu se emancipar "do pensamento de Estado", "não vai, como os revolucionários e teóricos do iluminismo, pensar em termos de direito, legitimidade, contrato... e sim avaliar a lei do ponto de vista de sua utilidade ou inutilidade".
                        O autor argumenta que a esquerda se vê em lugar invertido hoje: vê a nossa sociedade e forma de governo como os positivos e o neoliberalismo como a ameaça de destruição dessa civilização.
                        "Hoje nos vemos confrontados com a necessidade de reinventar a esquerda."
                        A denúncia ao neoliberalismo embotou a capacidade de raciocínio das esquerdas. Ainda mais agudamente após a crise financeira de 2008, em que o crescimento incontido e não regulado de instrumentos financeiros levou à bancarrota de países e pessoas.
                        Tornou-se difícil ter uma visão não maniqueísta diante da lógica "comunidade e ação do Estado" para cuidar de distribuição de riqueza e maximização do bem comum versus o "mercado impessoal e frio" concentrando renda.
                        "É urgente nos livrarmos dessas matrizes analíticas com que normalmente abordamos o neoliberalismo."
                        Para Lagasnerie, Foucault não "virou a casaca". Mas, ao mergulhar no pensamento liberal, aproveitou para repensar dogmas da esquerda.
                          RAIO-X G. DE LAGASNERIE
                          FORMAÇÃO
                          Nascido em 1981, doutorou-se pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. É professor no Institut d'Études Politiques de Paris
                          OUTROS LIVROS
                          "L'empire de l'université" (2007) e "Sur la science des ceuvres" (2011) e "Lógique de la création" (2011)
                            RAIO-X MICHEL FOUCAULT
                            BIOGRAFIA
                            Nascido Paul Foucault, em 1926, em Poitiers, na França, estudou na École Normale Supérieure de Paris, foi professor das universidades de Uppsala (Suécia), de Túnis (Tunísia) e do Collège de France. Morreu em 1984
                            PRINCIPAIS LIVROS
                            "História da Loucura" (1961), "As Palavras e as Coisas" (1966), "A Arqueologia do Saber" (1969), "Vigiar e Punir" (1975) e "História da Sexualidade" (1976)

                              quarta-feira, 8 de maio de 2013

                              Entrevista Dani Rodrik

                              folha de são paulo

                              Economia brasileira não volta a ter expansão de 7%
                              Professor de Harvard diz que fase de alto crescimento no mundo acabou e que expansão de 3% a 4% no país é 'realista'
                              PATRÍCIA CAMPOS MELLODE SÃO PAULOO Brasil não voltará a crescer entre 7% e 8% ao ano, diz o economista Dani Rodrik, 55, professor de política econômica internacional da Universidade Harvard e um dos maiores especialistas em economia do desenvolvimento.
                              Segundo Rodrik, o ambiente global benéfico --alto crescimento da China, elevados preços das commodities, países avançados em expansão-- não vai se repetir. "É realista esperar uma taxa de crescimento de 3% a 4% no Brasil", disse à Folha Rodrik, que participou ontem de seminário da revista "Carta Capital".
                              Segundo ele, a fase de alto crescimento no mundo acabou. O Brasil, com instituições democráticas sólidas, é resiliente. "Mas o país não deve ser excessivamente ambicioso, precisa ser cuidadoso, fiscalmente seguro, para lidar com os choques externos que provavelmente virão."
                              Folha - O Brasil cresceu 0,9% em 2012 e há uma percepção de que o modelo de crescimento baseado em consumo se esgotou. O que o sr. acha?
                              Dani Rodrik - Dois anos atrás, todo mundo dizia que o Brasil estava vivendo um novo milagre econômico. Eu achava que era um enorme exagero. Agora, as pessoas estão tirando conclusões apressadas em cima de apenas um ano de crescimento.
                              O Brasil não vai mais crescer 7%, como no milagre econômico antes da crise da dívida ou mesmo em 2010 [7,5%]. É realista esperar uma taxa de crescimento de 3% a 4%. Se o contexto global ajudar, 5% será uma taxa razoável.
                              O sr diz que, a partir de agora, alto crescimento no mundo será exceção. Como se situa o Brasil nesse cenário?
                              As condições que permitiram crescimento de 7% a 8% não vão se repetir. Antes, tínhamos os estágios iniciais da industrialização --ao tirar mão de obra da zona rural ou do setor informal e levar para as indústrias, tínhamos ganhos de 400% na produtividade. Agora, não teremos grandes ganhos sem mais investimentos em educação e tecnologia. Com as mudanças tecnológicas, a indústria é muito mais intensiva em capital e não absorve tanta mão de obra. E o Brasil, na realidade, já atingiu o pico de industrialização e está agora se desindustrializando. Mas isso é verdade para a maioria dos países. É inevitável. A discussão agora é a velocidade da desindustrialização, se está mais rápida do que deveria. A indústria não mais será o motor do crescimento. Serviços e outras áreas irão gerar ganhos de produtividade.
                              O sr. ficou decepcionado com a decisão dos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] de criar um banco de desenvolvimento...
                              Essa é uma noção dos anos 50, de que é preciso ter financiamento de infraestrutura. Frequentemente, o que emperra o desenvolvimento não é a falta de financiamento, mas sim instituições frágeis, excesso de regulação, falta de política industrial e moedas sobrevalorizadas. Financiamento é apenas um dos fatores. Não me parece o foco apropriado para os Brics. Faltam ideias novas de como consertar a globalização e criar uma nova relação entre emergentes e ricos.
                              O sr. diz que os Brics precisam parar de se comportar como "suplicantes". Qual é a mensagem que o Brasil deveria passar nos foros mundiais?
                              Gostaria de ver o Brasil abordar o sistema internacional não como um país em desenvolvimento dizendo que é pobre e precisa de ajuda. Em vez disso, o Brasil precisa se posicionar como formador de políticas, que também tem grandes responsabilidades. Em áreas como mudança climática, por exemplo, não haverá redução de emissões se os emergentes não assumirem responsabilidade.
                              O que o sr. espera de Roberto Azevêdo à frente da Organização Mundial do Comércio?
                              A agenda da OMC precisa mudar. A Rodada Doha morreu e as pessoas deveriam simplesmente declarar isso. O real desafio para a OMC é estabelecer uma nova narrativa, que não se restrinja a: "você reduz suas tarifas e em troca nós abrimos nossos mercados". No momento, o maior problema não é a falta de abertura comercial.
                              E o Brasil precisa mudar sua atitude. O Brasil ocasionalmente precisa proteger sua indústria, mas tem de entender que os países ricos passam por uma situação muito difícil e também precisam proteger a sua indústria. O Brasil, apesar de todas as elevações de tarifas recentes, não pode ser chamado de economia fechada. Aliás, acho que a atual estrutura de tarifas no Brasil é até positiva.
                              Por quê?
                              Porque, na margem, está dando uma proteção temporária para algumas indústrias que estão sendo dizimadas pela valorização da moeda. Vivemos no mundo possível, não no mundo doutrinário.
                              Qual é a importância de ter um brasileiro liderando a OMC?
                              O Brasil pode levar para a OMC uma abordagem pragmática, não doutrinária, que é uma evolução da proposta radical de livre mercado --é assim a política econômica do Brasil atualmente. Então ter um brasileiro no comando da OMC é muito positivo.
                              O sr. classifica os países de mercantilistas ou liberais. Em que faixa se situa o Brasil?
                              O Brasil é uma boa mistura --usa regras liberais em seu sistema financeiro, políticas monetária e cambial, mas é mais mercantilista no que se refere às políticas industriais, proteção por tarifas, regras de conteúdo local e uso do BNDES. Talvez precise de menos liberalismo no fronte macroeconômico e mais no fronte comercial.

                                RAIO-X DANI RODRIK
                                IDADE
                                55 anos
                                CURRÍCULO
                                Professor de política econômica internacional da Universidade Harvard. É autor de "Has Globalization Gone Too Far?" (1997), entre outros
                                FORMAÇÃO
                                Formou-se em economia pela Universidade Harvard. Fez mestrado e doutorado na Universidade Princeton

                                sábado, 20 de abril de 2013

                                Vingança dos paranoicos - Patricia Campos Mello

                                folha de são paulo

                                Algumas horas depois de o FBI revelar que os autores do atentado da maratona de Boston tinham ligações tchetchenas, o Tea Party começou a disparar e-mails sobre a "Conexão Muçulmana". "Três das cinco páginas destacadas por Dzhokhar A. Tsarnaev no Facebook são islâmicas. Vai ser interessante ver como a mídia e o presidente vão distorcer mais esse ataque muçulmano contra os Estados Unidos."
                                Faz quase 50 anos que o historiador americano Richard Hofstadter publicou o ensaio "O estilo paranoico da política americana", na revista "Harper's". Mas o texto é cada vez mais atual.
                                O estilo paranoico, segundo Hofstadter, é um fenômeno antigo e recorrente. O "exagero acalorado, a suspeita, e as fantasias conspiratórias" costumam prosperar na direita, mas não são privilégio dos conservadores. Maçons, católicos, o governo, comunistas e agora muçulmanos já foram os vilões por trás de todas as conspirações imaginadas pelos paranoicos de plantão.
                                Quando ocorreu o massacre de Newtown, com a morte de 20 crianças, os conspiracionistas se apressaram em dizer que não passava de uma armação do governo para conseguir aprovar leis de desarmamento. Os atentados do 11/9 foram uma trama de Bush e companhia para justificar a invasão do Iraque (ou do Mossad, segundo outras fontes delirantes). E John F. Kennedy foi vítima de um assassinato encomendado pela máfia.
                                Nesta semana, contudo, há que se dar algum crédito aos paranoicos.
                                Em uma única semana acontece o seguinte: um imitador de Elvis envia cartas com rícino para um senador e para o presidente Barack Obama. Dois irmãos com ligações tchetchenas explodem bombas de panela de pressão na maratona de Boston e matam três pessoas --em pleno Patriot's Day, que celebra batalhas que desencadearam a guerra da independência dos EUA. E uma fábrica de fertilizantes perto de Waco, Texas, explode e deixa 15 mortos.
                                Foi nessa mesma época do ano que o extremista antigoverno Tim McVeigh matou 168 pessoas em um atentado a bomba em Oklahoma, em 19 de abril de 1995, e que a polícia invadiu a sede do Ramo Davidiano em Waco, no Texas, em 19 de abril de 1993.
                                Como pano de fundo, na quarta-feira, o Senado rejeitou um projeto de lei de restrição à venda de armas no país.
                                E, para completar, esta é a semana em que os americanos precisam entregar a declaração do Imposto de Renda.
                                Não é para ficar paranoico?
                                Como dizem nos Estados Unidos, "ninguém conseguiria ter inventado essa por- caria toda".
                                Eu, se fosse adepta das teorias da conspiração, iria me sentir vingada.

                                  quarta-feira, 17 de abril de 2013

                                  Análise: Obama corre o risco de perder sua carteirinha de 'durão'

                                  folha de são paulo

                                  Sem suspeitos, investigação de ataque em Boston avança lentamente



                                  DA EFE
                                  DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

                                  As autoridades americanas avançam lentamente na investigação dos atentados de Boston, mas seguem sem dispor de pistas que permitam identificar seus autores, enquanto nenhuma pessoa ou organização se responsabilizou pelas explosões de segunda-feira.
                                  O único indício que parece ter se consolidado ontem (16) é o que se refere ao dispositivo utilizado no atentado, embora esse elemento também não esteja ajudando a orientar as suspeitas em direção a um autor nacional ou estrangeiro.
                                  Segundo vazou, pelo menos um dos dois artefatos que explodiram nos últimos metros da maratona de Boston, e muito provavelmente os dois, parece ter consistido em uma simples carga explosiva colocada dentro de uma panela de pressão metálica.
                                  Trata-se de um dispositivo muito simples, de fácil fabricação e comum tanto entre os terroristas islâmicos como entre os extremistas violentos e solitários do interior dos EUA.
                                  A panela em questão estava dentro de uma mochila ou bolsa de náilon na cor preta, segundo fontes das forças de segurança citadas por várias emissoras de televisão americanas.

                                  Explosões na Maratona de Boston

                                   Ver em tamanho maior »
                                  Imagem das equipes de investigação mostra destroço de uma das bombas utilizadas no ataque à Maratona de Boston
                                  O congressista republicano Michael McCaul, que pertence ao Comitê de Segurança Nacional da Câmara de Representantes, confirmou que as autoridades acreditam que os explosivos são provavelmente "artefatos de panelas de pressão", similares aos explosivos rudimentares usados contra as tropas americanas no Afeganistão e Iraque.
                                  Esse tipo de bomba improvisada é um dos preferidos dos militantes da organização terrorista Al Qaeda e foi empregada em vários atentados no Oriente Médio, no Norte da África e no Sudeste Asiático.
                                  No entanto, também é uma técnica muito apreciada pelos grupos radicais americanos e neonazistas que declararam guerra ao Governo de Washington.
                                  É de fabricação muito simples e não requer nenhuma instrução que não possa ser aprendida anonimamente na internet, o que facilita qualquer ação dificilmente detectável por parte de um "lobo solitário", como pode ter sido o caso nos atentados de Boston.
                                  As autoridades pensam que os artefatos usados na segunda-feira foram detonados mediante um temporizador, e não por meio de telefones celulares, o que teria revelado um nível maior de sofisticação e organização.
                                  De acordo com a emissora Fox, em pelo menos um dos artefatos a panela de pressão estava ligada a uma tábua de madeira que também levava uma garrafa cheia de pregos e bolas de gude.
                                  Fotografias que estão sendo examinadas pelo FBI parecem sugerir que uma das bombas foi deixada no local em uma bolsa ou mochila.
                                  As fotos mostram a área próxima à linha de chegada da maratona antes e depois do atentado. Na primeira delas, pode ser vista uma bolsa perto de uma caixa de correio, apoiada em uma cerca atrás dos espectadores. Na segunda foto, imediatamente depois da explosão, não há mais rastros da bolsa.
                                  VÍTIMAS
                                  O ataque deixou três mortos e 176 feridos. Um dos mortos é um menino de oito anos e a outra uma mulher de 29 anos. A identidade da terceira vítima não foi divulgada
                                  Editoria de arte/Folhapress
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                                  Análise: Obama corre o risco de perder sua carteirinha de 'durão'

                                  PATRÍCIA CAMPOS MELLO
                                  DE SÃO PAULO

                                  O presidente Barack Obama precisou comandar a operação que matou o terrorista Osama bin Laden, em maio de 2011, para finalmente se livrar da pecha de liberal leniente com terrorismo.
                                  Mas agora Obama corre o risco de perder sua carteirinha do clube dos "durões em segurança nacional".
                                  Quanto mais tempo demorar para o governo americano apresentar pistas concretas sobre quem cometeu --além de como e por que-- o atentado na maratona de Boston, mais Obama se arrisca a virar vidraça.
                                  O líder da minoria republicana no Senado, Mitch McConnell, já veio a público dizer que "a complacência que vigorava antes dos atentados de 11 de setembro voltou".
                                  Até agora, Obama seguiu direitinho o script de como reagir a ataques terroristas: foi à TV e jurou que vai encontrar e punir rigorosamente os culpados e demonstrou solidariedade com as vítimas.
                                  Bem diferente do olhar aparvalhado de George W Bush ao ouvir de um assessor sobre os ataques às Torres Gêmeas, reação patética eternizada em vídeo.
                                  Mas Obama admite: não tem a menor ideia se o atentado foi cometido por um estrangeiro ou por um cidadão americano, um grupo ou um indivíduo.
                                  Essa incerteza é terreno fértil para ataques partidários dos republicanos e desvarios dos milhares de adeptos de teorias de conspiração espalhados pelo país --alguns já falam que o FBI estava por trás do ataque, uma suposta trama para fortalecer o "Estado policial" nos Estados Unidos.
                                  Obama está, portanto, em posição frágil.
                                  Mas os republicanos não deveriam embarcar em um momento Schadenfreude. Não se sabe se o autor veio das hostes mais radicais da direita americana, de onde saíram extremistas antigoverno como Tim McVeigh, autor do ataque em Oklahoma que deixou 168 mortos, em 1995.