segunda-feira, 15 de julho de 2013

Proibido obrigar - Ruy Castro

folha de são paulo
RIO DE JANEIRO - No Brasil, como se sabe, o que não é proibido é obrigatório. Veja a obrigatoriedade da tomada de três pinos. Até há pouco, parecia uma piada. Mas é para valer. Em breve, todas as tomadas domésticas terão de ser adaptadas para receber os fabulosos três pinos. Para ter uma ideia do alcance da medida, imagine um apartamento de quarto e sala. Entre computador, TV, geladeira, micro-ondas, liquidificador, secador de cabelo, carregador de celular, ferro de passar, ar-condicionado, abajures e repelente de pernilongo, ninguém vive sem pelo menos 30 tomadas em casa.
No Brasil, há 73 milhões de unidades consumidoras de energia. Se todas fossem quarto e sala --esqueça os escritórios, lojas e fábricas--, e à média de 30 tomadas em cada, o número de tomadas a adaptar passaria de dois trilhões. Pode-se avaliar a sensação de poder que deve estar embriagando o pai da tomada de três pinos no Brasil?
O mesmo quanto a uma medida mais antiga e já em circulação em muitos Estados: a proibição de saleiros nas mesas dos restauran- tes e sua obrigatória substituição por aqueles sachezinhos de sal. A cada 200 refeições servidas por um restaurante, 100 sachês são abertos pelos clientes, salpicados com culpa sobre a batata frita e deixados quase intatos sobre a mesa.
Agora multiplique o número de restaurantes em sua cidade pela média de refeições que eles servem por dia e, sendo generoso, divida o resultado por dois, se achar que em apenas metade delas se abrirá um sachê. O resultado será a monumental quantidade de sachês/lixo produzida por uma única cidade e cujo destino serão os lixões --ou os esgotos, os rios e o mar. E só porque alguém implicou com os saleiros.
No Brasil, por 21 anos, foi quase proibido votar. Hoje é obrigatório. Mas, com esses partidos e políticos, deveria ser proibido obrigar.

    Editoriais FolhaSP

    folha de são paulo
    O preço do pedágio
    A julgar pelas propostas em estudo, o governo não sabe bem como resolver o problema que criou para si ao anunciar que, em 2013, não haveria aumento na tarifa dos pedágios de estradas federais.
    Por força de contrato, as concessionárias podem reajustar esse preço uma vez por ano para repor perdas com a inflação. Diante das manifestações de junho, porém, o governo achou que faria bem em suspender a majoração.
    Dizer que a bondade tem efeito publicitário é tão óbvio quanto lembrar que ela tem um custo. Sem ignorar o peso do primeiro desses truísmos, o governo parece amenizar a importância do segundo. Até agora não se sabe como as concessionárias serão compensadas pelo valor que deixarão de arrecadar --o reajuste das tarifas seria da ordem de 6,5%.
    Cogitou-se, primeiro, usar verbas do Tesouro para restituir a diferença às empresas privadas que administram as estradas, ampliando gastos correntes. Em outras palavras, o pedágio, que por definição deve ser pago pelos usuários das rodovias, seria subsidiado com recursos de todos os contribuintes.
    Aventou-se, em seguida, a hipótese de ampliar o prazo dos contratos em vigor. Seria um contrassenso, já que concessões feitas nos anos 1990 foram pensadas à luz de um contexto econômico mais incerto --e, por isso, têm taxas de retorno mais elevadas.
    Ambas as ideias parecem perder força. Segundo afirmou o ministro dos Transportes, César Borges, em entrevista ao "Valor Econômico", ganha peso uma terceira opção. Não menos extravagante, permitiria às empresas reduzir investimentos nas estradas para contrabalançar o deficit na arrecadação.
    Ou seja, as empresas deixariam de fazer algumas obras de melhoria, como se a qualidade superior do serviço não fosse exatamente o que se espera das concessões.
    Diante da dificuldade de encontrar uma saída, não se descarta nem mesmo que o governo federal volte atrás em sua decisão. Embora já anunciado, o cancelamento do reajuste dos pedágios, se de fato ocorrer, somente será sacramentado em agosto --quando ocorreriam os primeiros aumentos.
    Em qualquer dos casos, sobrará para o governo um saldo negativo: se não pelo custo de recuar na sua promessa, pela evidência de que cláusulas contratuais podem ser acochambradas para evitar desgaste político. Tanto pior que isso ocorra às vésperas de importantes licitações de estradas, portos, ferrovias e aeroportos.
      EDITORIAIS
      editoriais@uol.com.br
      Mudança franciscana
      Papa altera normas penais do Vaticano, mas efeitos concretos devem ser maiores na questão da corrupção do que no combate à pedofilia
      Em sua primeira homilia dirigida ao episcopado italiano na Basílica de São Pedro, em maio, o papa Francisco falou sobre a vigilância que os membros da Igreja Católica deveriam manter diante de seduções materiais e mundanas.
      O discurso foi interpretado como um alerta ao corpo eclesiástico, abalado pelos recentes escândalos de pedofilia, de irregularidades na gestão do Banco do Vaticano e de vazamento de informações confidenciais do papa Bento 16.
      Na semana passada, Francisco foi além do discurso. O papa aprovou uma reforma das leis penais do Estado do Vaticano, aumentando o rigor contra infrações sexuais e financeiras e transformando em delito a divulgação não autorizada de informações. A nova legislação entrará em vigor a partir de setembro deste ano.
      Até as mudanças, a Santa Sé baseava suas normas penais na legislação italiana para o tema que vigorava no fim do século 19. Qualquer crime contra menor de idade era genericamente definido como abuso, e os crimes sexuais entravam na categoria dos atentados aos bons costumes. As penas iam de três a dez anos de prisão.
      Agora foram criadas classificações específicas para as diferentes infrações: venda, prostituição, recrutamento, violência sexual, atos sexuais e produção ou posse de pornografia. As sanções previstas vão de cinco a dez anos de de prisão, com multa de até 150 mil euros.
      A mudança legal dá continuidade à reforma iniciada por Bento 16, hoje papa emérito, que procura tornar o sistema da igreja mais transparente e condizente com as convenções e tratados em vigor na comunidade internacional --muitos deles ratificados pelo Vaticano.
      O diretor da ONG americana Rede de Sobreviventes de Abusos de Padres, porém, reagiu com ceticismo ao afirmar que novas regras não são a solução para o problema da pedofilia. Na opinião de David Clohessy, é preciso que as autoridades eclesiásticas --a começar pelo papa-- apliquem duras punições aos infratores, um poder que sempre possuíram, mas que não tiveram disposição para usar.
      Além disso, a alteração refere-se apenas às normas de Estado do Vaticano, não às de Direito canônico, válido para toda a igreja. Padres que cometam crimes sexuais continuarão sendo julgados segundo as leis dos países em que atuam, como não poderia ser diferente, e sob normas eclesiásticas que seguem inalteradas.
      Não se pode negar o impacto simbólico das novas normas, mas seus efeitos concretos deverão ser mais sentidos em aspectos que interessam à direção do Vaticano --como corrupção e lavagem de dinheiro-- do que no combate à sensível chaga social da pedofilia.

        Chinês pinta autoridades corruptas de seu país e atiça reflexão sobre censura local

        folha de são paulo
        MARCELO NINIO
        DE PEQUIM

        Um grande mapa da China enfeita uma das paredes no estúdio do artista plástico e cineasta Zhang Bingjian, na periferia de Pequim. Tudo está no lugar certo, exceto por um detalhe: o mapa está de cabeça para baixo.
        "Foram cinco anos para inverter os nomes de todas as cidades", conta o artista.
        Na sutil, mas poderosa mensagem visual, Zhang condensou sua visão das contradições da China moderna, cujo norte nem sempre é o que parece.
        Ao botar de pernas para o ar o galo de briga que os chineses enxergam com orgulho no desenho de seu mapa, Zhang imprimiu em cores vivas uma das características principais de seu trabalho: a fina crítica política.

        Zhang Bingjian

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        Marcelo Ninio/Folhapress
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        Artista plástico e cineasta Zhang Bingjian e seu painel de retratos de políticos acusados ou condenados por desvio de dinheiro na China
        Uma marca que ganhou projeção internacional graças a um projeto no qual ele deu contornos artísticos a um dos temas mais revoltantes para os chineses: a corrupção nos altos escalões do Partido Comunista.
        Depois de chocar-se ao saber pela TV estatal que 3.000 autoridades haviam sido processadas por corrupção em apenas um ano, Zhang decidiu dar caras ao problema.
        A COR DO DINHEIRO
        Começava assim o "hall da fama" da corrupção, uma galeria da vergonha que já tem quase 2 mil retratos de autoridades condenadas.
        Produzidos por Zhang Bingjian sempre em tons rosados, para lembrar a cor do dinheiro chinês (chamado iuan), os quadros são a forma que ele encontrou para dividir com o público chinês seu assombro com o contágio da corrupção no país.
        "Não penso no valor artístico. O que quero é criar um ponto de interrogação sobre a situação da China. Meu trabalho não dá respostas. Oferece uma plataforma para a reflexão", explica.
        A ambição de levar sua interrogação ao público, no entanto, esbarrou na dificuldade em expor temas sensíveis num país onde a produção cultural é objeto de rígida censura do Estado.
        Zhang enviou propostas para várias galerias do país, mas nenhuma respondeu. O hall da infâmia mantém-se limitado às paredes de seu estúdio e aos convites do exterior. Há dois meses, expôs os retratos dos corruptos chineses na Itália.
        "A corrupção é um tema universal, pode ser compreendido em qualquer parte do mundo. Não sei porque meu trabalho não foi selecionado para a Bienal de São Paulo", brinca.
        Nascido em Xangai, Zhang, 53, fez parte da primeira geração de chineses que pôde estudar arte depois dos anos de histeria coletiva da Revolução Cultural (1966-1976).
        NOVIÇA SEM BEIJO
        Apesar de ainda serem anos de forte repressão, Zhang recorda com emoção a tímida abertura política que lhe permitiu assistir pela primeira vez a um filme estrangeiro, "A Noviça Rebelde" (1965), aos 18 anos.
        "Todos esperavam uma cena de beijo, que nunca tínhamos visto. Quando ela ia acontecer, uma enorme sombra cobriu a tela. Era a mão do projecionista. Beijo era contra o padrão moral comunista", relembra o artista.
        Hoje, a censura oficial é muito mais profissional, mas nem por isso menos absurda, na visão de Zhang.
        "Se há um policial no roteiro, ele é submetido à polícia. Se tem um professor, é checado pelo departamento de educação. E assim por diante. Desse jeito, todas as classes profissionais viram parte da censura", lamenta.
        A obsessão em decepar as obras no nascedouro induz à atual produção cinematográfica insossa do país, diz ele, dominada por comédias e filmes para adolescentes.
        Os produtores não querem perder dinheiro investindo em um filme que será decepado pela censura.
        "É difícil entender a insegurança do governo. Censura é falta de confiança nas pessoas. É uma contradição. O país avança, mas continua atrasado nisso. Parece ser a natureza da China: toda vez que dá passos à frente, tem que dar outro para trás."
        Contemporâneo na academia de cinema do polêmico Ai Weiwei, o mais conhecido artista chinês, Zhang considera o amigo um modelo de como os limites da censura podem e devem ser esticados ao máximo.
        Um exemplo disso é o tragicômico documentário que dirigiu, "Readymade", sobre dois camponeses que largaram tudo para viver como imitadores de Mao Tse-tung, o fundador da China moderna.
        "No filme, Mao deixa de ser um semideus, anda de ônibus e dança com Michael Jackson. Desconstruir uma imagem às vezes é mais forte que criticá-la", diz.
        Sem permissão para ser exibido no país, porém, o filme permanece fora do alcance do público chinês.

        'The Newsroom' explora erro jornalístico em nova temporada - Fernanda Ezabella

        folha de são paulo
        Série de TV sobre bastidores de um telejornal fictício estreia hoje a segunda fase na HBO
        Equipe do programa 'News Night' é alvo de processo jurídico pesado devido a uma reportagem polêmica
        FERNANDA EZABELLADE LOS ANGELESO âncora de TV Will McAvoy (Jeff Daniels) volta ao noticiário desta noite com mais uma polêmica na manga.
        Se na primeira temporada do seriado "The Newsroom" ele iniciou os trabalhos afirmando que os EUA não eram o maior país do mundo, agora ele estreia a segunda pisando no calo dos conservadores ao comparar o Tea Party, grupo ultraconservador do Partido Republicano, ao Taleban.
        Mas este será um problema menor para a equipe do programa "News Night", do canal fictício Atlantis Cable News, cujos bastidores são tema da série criada e escrita pelo premiado roteirista Aaron Sorkin ("A Rede Social", "The West Wing").
        Como já mostra o primeiro episódio, o programa é alvo de um processo jurídico pesado devido à exibição de uma matéria errada que coloca toda a emissora em risco.
        As circunstâncias do erro jornalístico envolvem drones (aeronaves de pilotagem remota) e fontes pouco confiáveis. Vão ficar mais claras ao longo dos nove episódios.
        "Will e sua equipe têm esta noção utópica de como o noticiário deve ser. Há dias em que conseguem fazer direito, mas há outros em que não. E a nova temporada é um bom exemplo de quando falham miseravelmente", conta Daniels, 58 anos.
        "Qualquer erro feito por qualquer outra emissora dos EUA é fichinha perto da grande besteira que fizemos."
        O ator acredita que 90% dos jornalistas americanos estão tentando fazer a coisa certa, mas critica os canais "a serviço do dinheiro" e que "são um desserviço e um custo à democracia".
        "Todo mundo pega sua notícia da Fox News e vira fato. O mesmo pode ser dito do outro lado [mídia liberal]. Eles dizem o que querem porque há dinheiro nisto. Acho perigoso. O que é sagrado no jornalismo está sendo prejudicado pelos caras atrás de dinheiro."
        CRIADOR PERFECCIONISTA
        A nova temporada se passa entre agosto de 2011 e novembro de 2012 e aborda desde o início do movimento Occupy Wall Street até a cobertura das eleições americanas.
        A comparação do Tea Party com o Taleban vai complicar a vida do jornalista Jim (John Gallagher), que é destacado para cobrir as viagens da campanha republicana. Na verdade, Jim pede pelo posto para evitar ficar no escritório trabalhando com a colega Maggie (Alison Pill), por quem é apaixonado.
        "Esta nova temporada está mais centrada nos personagens. As notícias vão acontecendo ao redor, não é tão focada num só evento por episódio. Mistura mais pessoal e profissional", explicou Gallagher, 29 anos. "Achei corajoso Aaron [Sorkin] dar uma mexida no formato."
        Os atores comentam que Sorkin está sempre presente nos ensaios e gravações, atento a qualquer palavra que não faça parte do roteiro. Dizem que ele é tão perfeccionista que reescreveu os dois primeiros episódios que já estavam gravados.
        Cada ator tem um truque para decorar as páginas e mais páginas de diálogos, como Thomas Sadoski, que faz Don, ex-produtor executivo do "News Night" e namorado de Maggie. Ele grava suas falas num gravador e vai se ouvindo durante o dia, principalmente no carro.
        "No estúdio, tem gente em todos os cantos circulando com o roteiro, saindo do banheiro até, falando sozinho. Sempre tem alguém que bate a cabeça em porta de vidro", conta Sadoski, 37 anos.
        "Já tivemos pessoas que tentaram improvisar e foi chocante. Você percebe na hora por causa do ritmo. É como querer improvisar Shakespeare, sem querer exagerar, claro."
        Sadoski, que assim como Daniels e Gallagher vem do teatro, diz ter orgulho de fazer parte de "Newsroom" por ser um programa que lida com "aspirações".
        "Tem tanto entretenimento hoje em dia sobre anti-heróis e comédias sarcásticas... Acho ótimo que Newsroom' é sobre perguntar como podemos fazer algo bom no lugar de ficar dizendo que tudo é uma porcaria."