quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Antonio Delfim Netto

folha de são paulo

Pessimistas
Há um evidente exagero no pessimismo sobre a política econômica. Faz-se tábula rasa do claro progresso social que está gestando uma classe média mais educada e, consequentemente, mais exigente de qualidade dos serviços públicos, sem a qual não se consolidam as instituições democráticas que contribuem para o aumento paulatino da igualdade de oportunidades.
Pior, finge-se ignorar avanços importantes: a aprovação do sistema previdenciário do funcionalismo público; a bem-sucedida substituição dos juros reais de 6% na caderneta de poupança; o enfrentamento dos custos dos insumos básicos (energia e portos); o aprendizado nos leilões de concessão dos projetos de infraestrutura, que deve atrair o investimento privado; o controle do aumento de salários no serviço público por três anos; a redução ordenada da taxa de juros reais; a exoneração da folha de pagamentos para setores exportadores que, combinada com uma relativa desvalorização da taxa cambial, começa a estimular a exportação industrial; a redução pontual da carga tributária; pequenos aperfeiçoamentos no sistema tributário etc.
E, por último, mas não menos importante, a melhora do entendimento entre o poder incumbente e o setor privado, que deve levar o empresário a introjetar o fato de que a política econômica é amigável e objetiva o aumento da competição e da produtividade. Isso pode nos levar a um PIB entre 3% e 4% em 2013.
A afirmação de que se abandonou o famoso tripé da política econômica canônica a que se apegam nossos sacerdotes é falsa. Do ponto de vista fiscal, reconheçamos a inutilidade das "manobras criativas", pecado venial expiado pela crítica severa de amigos e inimigos. Vamos à essência. Um crescimento do PIB de 1% não justifica uma política anticíclica? Um deficit nominal de 2,5% do PIB com uma relação dívida líquida/PIB de 36% representa o abandono da responsabilidade fiscal?
Do ponto de vista monetário, uma taxa de inflação de 6%, empurrada por um choque de oferta agrícola que, provavelmente, tenderá a amenizar-se em menos de seis meses, é sinal de que o Banco Central abandonou a meta de 4,5%? Ou que ele tenha perdido a "autonomia"? Não parece que esse seja o momento para um aumento da taxa Selic. Quando o dr. Tombini diz que não se sente confortável com o comportamento da inflação, o que ele quer dizer senão que pode fazê-lo se for necessário?
Do ponto de vista cambial, a discussão beira o ridículo quando ouvimos François Hollande, Mario Draghi e Shinzo Abe. Quem ainda acredita em taxa de câmbio livremente fixada pelo "mercado em função dos seus fundamentais"?
ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.

Ruy Castro

folha de são paulo

A amada morta
RIO DE JANEIRO - Você conhece a história de Ligeia. É um conto de Edgar Allan Poe, de 1838. O narrador descreve como a fascinante Ligeia -a mulher de sua vida, que o assombrava pela beleza e pela inteligência, e cujo cabelo era como a asa do corvo- morreu e o deixou em desespero eterno. Ele se casou de novo, mas a loura Rowena, de traços etéreos e amorfos, nunca poderia suplantar seu amor por Ligeia.
De repente, Rowena também morre. Ele a veste para o velório e começa a longa vigília. Mas, nesta, a sós com Rowena, Ligeia não lhe sai da cabeça -e, numa sequência de pequenas ressurreições e mortes, parece tomar também o corpo de Rowena. No fim, é Ligeia que ali está, viva, para morrer de vez. Ele a recuperara, pela força da mente, mas apenas para perdê-la de novo e para sempre.
Você também já assistiu a "Um Corpo que Cai" ("Vertigo"), o filme de Hitchcock, de 1958. Scottie, o detetive (James Stewart), apaixona-se pela loura Madeleine (Kim Novak), a mulher que ele é pago para seguir. Madeleine morre no meio da história e Scottie tem um colapso nervoso. Ao se recuperar, conhece a morena Judy, quase sósia de Madeleine. Por intermédio de roupas e penteados, consegue transformar Judy em Madeleine -apenas para perdê-la de novo e também para sempre.
Em 2010, o argentino Victor Cingolani, 27 anos, matou a namorada, a bela Johana Casas, 22, com dois tiros no peito. Foi condenado a 13 anos e começou a cumprir a pena. Entrementes Edith, irmã gêmea de Johana e tão bela quanto, aproximou-se de Victor. Os dois iniciaram uma relação que, contrariando família, amigos e a sociedade argentina, resultou em casamento na semana passada, no cartório de Pico Truncado, no sul do país.
Os heróis de Poe e Hitchcock tiveram de reconstruir a amada morta. A de Cingolani já estava pronta -cópia perfeita da que ele matou.

    Fernando Rodrigues

    folha de são paulo

    2014 está no ar
    BRASÍLIA - O PT promove hoje um "rendez-vous" para celebrar os 33 anos de sua fundação e os dez anos no comando da República. Será o primeiro ato da campanha de reeleição de Dilma Rousseff.
    Ao lado de seu antecessor, Lula, a presidente fará um discurso descrito como "forte" pelos que participaram de sua formulação. O evento será em um hotel em São Paulo, com todo o esmero técnico e imagético que o PT aprendeu com Duda Mendonça e aperfeiçoou com João Santana, os marqueteiros da corte.
    Além do discurso forte, Dilma e Lula (mais Lula do que Dilma) vão se ocupar, a partir de agora, da reedição da maior aliança que um candidato vitorioso ao Planalto teve no Brasil moderno.
    Em 2010, Dilma ganhou ancorada em uma coalizão de dez partidos. Nunca depois da ditadura militar houve uma aliança formal tão robusta em torno de um candidato a presidente vencedor.
    Como o tempo apaga um pouco a memória, eis a lista dos dez partidos oficialmente pró-Dilma na eleição de 2010, em ordem alfabética: PC do B, PDT, PMDB, PR, PRB, PSB, PSC, PT, PTC e PTN.
    Pelo menos três dessas siglas ameaçam pular fora do barco: PDT, PR e PSB. Os dois primeiros se acomodam com um pouco de fisiologia. Já o PSB dependerá do apetite do seu único líder, Eduardo Campos, cuja pretensão atual é sair em voo solo numa campanha para presidente.
    Como compensação para eventuais defecções, Dilma tem à porta o novo partido criado por Gilberto Kassab, o PSD. Essa agremiação já é a quarta maior do país em tempo de TV e rádio, o predicado que faz a diferença numa eleição no Brasil.
    Com o aumento do Bolsa Família ontem, uma penca de partidos ao seu lado e o tal discurso forte hoje, só faltará a Dilma que a economia cresça acima de 2% para pavimentar de uma vez sua reeleição. Por enquanto, o roteiro parece exequível.
    fernando.rodrigues@grupofolha.com.br

      Helio Schwartsman

      folha de são paulo

      Limites da democracia
      SÃO PAULO - Os protestos de grupos esquerdistas contra a blogueira cubana Yoani Sánchez em sua passagem pelo Brasil configuram uma tremenda falta de educação e, talvez, revelam falhas na organização da visita, mas acho complicado afirmar que representam um veto à liberdade de expressão da jornalista e, portanto, constituem uma atitude antidemocrática.
      Quem melhor demarcou a natureza do problema foi a própria blogueira, quando, de forma bastante elegante, por sinal, disse que gostaria de ver a mesma liberdade de manifestação em seu país. De fato, estaríamos diante de uma inequívoca agressão aos primados da sociedade aberta se autoridades brasileiras tivessem dado um jeito de impedir os jovens revolucionários de expressar suas opiniões, por mais absurdas e anacrônicas que as julguemos.
      Por falar nisso, é preciso habitar um museu contíguo ao Vaticano para acreditar que o regime cubano deva ser imitado. Se viver ali fosse bom ou mesmo tolerável, o governo de Havana não teria passado mais de 50 anos impedindo viagens de cidadãos ao exterior. E não há sucessos na saúde e na educação que compensem a ausência de liberdades tão fundamentais como a de dizer o que pensa ou a de viver num outro país.
      Uma vez que não dá para proibir manifestações nem incutir juízo e urbanidade na cabeça de jovens comunistas, a alternativa para garantir que Yoani possa tranquilamente passar seu recado aos que queiram ouvi-la é organizar melhor os próximos eventos, ainda que ao preço de restringi-los apenas para convidados.
      Eu até gostaria que as disputas políticas fossem uma justa cavalheiresca, na qual cada lado ouviria galantemente os argumentos do adversário e os retrucaria só com raciocínios lógicos. Infelizmente, a democracia é um processo algo mais conturbado e que não tem o dom de eliminar o conflito da sociedade. Ela tenta apenas e muito imperfeitamente discipliná-lo.
      helio@uol.com.br