domingo, 31 de março de 2013

Crianças superseletivas na hora de comer preocupam as mães

folha de são paulo

MARIANA VERSOLATO
DE SÃO PAULO

Nicolas, 4, só come macarrão, arroz com carne e arroz com frango. Um legume no prato pode fazê-lo gritar, e um molho a mais ou um orégano salpicado fazem a refeição toda ser recusada.
É o chamado "picky eater" ou, em bom português, uma criança bastante seletiva.
"Quando ele era pequeno e começou a comer coisas mais sólidas, já começou a entortar o nariz. Depois dizia com o dedinho que não queria nada. Até hoje é muito difícil fazer ele experimentar algo diferente", diz a blogueira Milene Massucato, de São Bernardo do Campo (SP).
Ed. de arte/Folhapress
Ela não está sozinha: a queixa "meu filho não come" é uma das mais frequentes nos consultórios pediátricos.
Um estudo no "Journal of Clinical Gastroenterology" diz que 35% das crianças têm esse comportamento.
Outra pesquisa, encomendada pela Abbott Nutrition e realizada com 954 famílias brasileiras, mostrou que 50% delas relatam dificuldades alimentares em crianças com idade pré-escolar.
"Se causa preocupação para os pais e gera um grande estresse na hora da refeição, é um problema que merece atenção. Os médicos até chamavam essa dificuldade de falsa anorexia.
Diziam que o peso e a altura estavam normais e desqualificavam a queixa da mãe. Preocupa-nos essa falta de resposta", diz Mauro Fisberg, pediatra, nutrólogo e professor da Unifesp, que vai coordenar o Centro de Dificuldades Alimentares a ser aberto no mês que vem no Hospital Infantil Sabará, em São Paulo.
O centro oferecerá tratamento multidisciplinar (com pediatras, nutricionistas, fonoterapeutas etc.), treinamento profissional e cursos e oficinas para os pais. A unidade também contará com a estrutura do hospital para exames e consulta com outros especialistas e um centro de pesquisas.
"O espectro das dificuldades alimentares é grande. Algumas crianças têm traumas porque foram forçadas ou entubadas numa internação, por exemplo. Temos que analisar se há alguma doença por trás, se o problema é comportamental", afirma.
Segundo ele, a seletividade exagerada pode causar uma carência nutricional e, ao mesmo tempo, obesidade, se a criança se concentrar só em junk food.
idade
Em geral, o período crítico é quando os alimentos são introduzidos na dieta da criança e o leite deixa de ser a única fonte da alimentação.
"A maioria das mães tem receio de que o filho não vá conseguir comer e bate toda a comida. Isso não ensina a criança a mastigar e a experimentar diferentes sabores e texturas", afirma a nutricionista Priscila Maximino, que integrará o centro do Sabará.
Segundo ela, as causas dos distúrbios envolvem, além de problemas orgânicos, genética e traumas, a participação dos pais e cuidadores e outros fatores ambientais.
"Não há como desvincular isso dos pais. São eles que compram a comida, permitem que certos alimentos sejam ingeridos ou deixam de permitir", afirma.
Ela lembra que é próprio da criança ter medo da novidade. "Cada refeição é uma descoberta. Quanto maior a variedade, menor a chance de ela ser seletiva no futuro. Se a comida é monótona, a mensagem é que a criança deve comer só aquilo."
Para diversificar o cardápio de seu filho Lucas, de 1 ano e 5 meses, a veterinária Adriana Lopes, 26, de São Paulo, recorreu a dois grupos no Facebook: Delícias do Dudu e Alimentação Consciente, este último da nutricionista Karine Nunes Durães.
"Quando eles não comem o que a gente oferece, ficamos desesperadas. Participar dos grupos me trouxe tranquilidade porque vi que não sou a única", afirma Adriana.
E os especialistas são unânimes: de nada adianta oferecer espinafre se os próprios pais só comem pizza.
"Toda vez que desanimo lembro do estrogonofe. Meu marido não gosta, mas o Nicolas experimentou um dia desses e já pediu 'estrogongofe' de novo. Há uma luz no fim do túnel", brinca Milene.

Marcelo Gleiser

folha de são paulo

Mente e matéria
O desafio é que não podemos investigar a mente de fora para dentro. A mente tem de entender a si própria
Continuando minha discussão sobre as "Três Origens", após a origem da vida e do Universo nas semanas anteriores, hoje trato do tema talvez mais complexo: nossa mente. Minha intenção é apenas levantar alguns pontos que, espero, poderão inspirar debates sobre o assunto.
Foi Descartes quem, no século 17, famosamente escreveu "penso, logo existo". Para ele, mente e matéria eram coisas separadas. Nossa capacidade de reflexão não poderia ser reduzida a processos meramente materiais. A essência da razão é o pensamento, e a da matéria é a extensão.
E já que a física lida com processos materiais, a mente não é uma entidade física. O dualismo de Descartes garante que a física pode ser aplicada à matéria sem se enrolar tentando explicar a mente.
Hoje, essa separação não vinga. Existe apenas matéria, ou pelo menos não temos razão para supor que exista uma entidade imaterial capaz de interagir com a matéria. Do ponto de vista científico, algo imaterial não pode interagir com a matéria. Se existe uma interação, deve ser descrita pelas leis da física. Num exemplo meio prosaico, se alguém crê ter visto um fantasma, esse fantasma emitiu radiação eletromagnética no visível. Para ser visto, o fantasma interagiu com seu sistema visual e é uma entidade física, não tendo nada de sobrenatural.
Nosso cérebro, pesando em torno de 1,3 kg e com 86 bilhões de neurônios-um número que, graças à pesquisa de Suzanna Herculano-Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é bem menor do que os populares 100 bilhões- é a entidade mais complexa que conhecemos. A questão central das ciências cognitivas é saber como a rede neuronal, coligada através de trilhões de sinapses, gera a mente. Outra, é saber como a mente gera a consciência, que pode ser definida como a capacidade que temos de refletir sobre nós mesmos.
De certa forma, existe um paralelo entre a origem da mente e a da vida. Podemos entender a vida como uma propriedade emergente da matéria, algo que ocorre quando as reações químicas em um volume isolado (a célula) tornam-se capazes de se alimentar e de se reproduzir de forma autônoma. Seguindo o paralelo, a mente é uma propriedade emergente do cérebro, que ocorre quando o cérebro atinge um certo nível de complexidade neuronal. Ninguém sabe como ainda.
Existe também o aspecto evolucionário, as mudanças no cérebro desde espécies mais primitivas até o homem. A inteligência atua em níveis diversos, e defini-la é um problema. Existe o conceito de inteligência coletiva (formigas e abelhas), inteligência emocional e inteligência como capacidade de adquirir e aplicar conhecimento. A inteligência vem da arquitetura cerebral e está relacionada de forma não óbvia com o tamanho e nível de atividade neuronal. Se entendêssemos inteligência, já teríamos fabricado inteligência artificial.
O desafio que a mente nos apresenta é que, tal como o Cosmo, não podemos investigá-la de fora para dentro. A mente tem de entender a si própria. Mas atualmente não sabemos nem menos se a mente começa e termina no indivíduo ou se existem ligações entre indivíduos ou mesmo entre o indivíduo e o Cosmo. Mas isso fica para outra semana.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI

    Samaritanos lutam para não desaparecer

    folha de são paulo

    Ameaça demográfica persegue povo que hoje sofre com escassez de mulheres e é obrigado a trazer noivas de fora
    Homens podem casar com companheiras de outras religiões desde que haja conversão para samaritanismo
    DIOGO BERCITOENVIADO ESPECIAL A KIRYAT LUZA (CISJORDÂNIA)No começo do século 20, eles tiveram seu desaparecimento anunciado. Não havia, à época, mais de uma centena de samaritanos no mundo.
    Após enganar o monstro da demografia, que os queria devorar, hoje eles são mais de 750, em duas cidadelas.
    Mas esses que se dizem os verdadeiros israelitas bíblicos não baixam a guarda -a praga demográfica ainda os persegue, agora com a escassez de mulheres entre eles. A questão é agravada pela proibição ao casamento com seguidores de outros credos.
    Com isso em mente, os anciões da comunidade passaram a permitir que os homens tragam mulheres de fora do povoado e da religião para convertê-las e assim estimular a natalidade.
    Eles escolheram, via agências de matrimônio, em geral russas e ucranianas -que já caminham nas ruas levando os filhos pelas mãos, conforme a Folha testemunhou.
    Pouco receptivos a estrangeiros, porém, alguns membros das sete famílias que moram em Kiryat Luza, uma das duas vilas samaritanas, dizem à reportagem não estar à vontade com a solução.
    "Eu nunca me casaria com uma estrangeira", diz Breeto Cohen, 20. "Quando você faz isso, sai da religião", afirma.
    As mulheres procuradas pela reportagem não quiseram ser entrevistadas. Uma delas, que disse se chamar Nataly, mora na casa do alto sacerdote do vilarejo.
    "Muitos não gostam [da solução]", diz Abdullah, jovem muçulmano que trabalha como guia no museu de Kiryat Luza, onde moram 350 dos samaritanos. Os demais moram em Holon, perto de Tel Aviv. "Eles preferem as mulheres samaritanas."
    O universitário Rida Altif, que reclama da dificuldade de encontrar uma namorada e da competição com os amigos, está aberto à opção. "Somos humanos. Eu me casaria com uma estrangeira."
    Mas a alternativa tem uma condição, diz Dan Hakam, 16. "Elas têm de seguir as tradições como a gente."
    MONTE SAGRADO
    Kiryat Luza ocupa o topo do monte Gerizim, um cume seco despontando entre vilarejos árabes.
    A vista é estratégica -embaixo, a cidade palestina de Nablus se esparrama no vale. Táxis fazem o caminho monte acima por R$ 7. Para descer, o preço é R$ 1,50.
    Durante o dia, as ruas estão vazias. Um parquinho enferruja, abandonado. Há dois mercadinhos e uma tenda para bebidas alcoólicas -para suportar o vento gelado, dizem.
    É para essa montanha que todos os samaritanos rumam em dias festivos. A religião pede que ritos sejam realizados apenas ali.
    Gerizim é uma das principais divergências desse grupo em relação aos judeus. Para os samaritanos, foi no monte Gerizim que Abraão se prontificou a sacrificar seu filho Isaac. "Os judeus acreditam em Jerusalém", afirma Hakam. "Mas nós acreditamos nesta montanha."
    A separação entre samaritanismo e judaísmo ocorreu no primeiro milênio antes de Cristo, quando judeus foram exilados em massa na Babilônia.
    A religião que eles trouxeram de volta, dizem os samaritanos, foi corrompida durante o tempo de cativeiro, e não corresponde às crenças israelitas.
    "Eles se referem a si mesmos como o 'verdadeiro Israel'", diz Terry Giles, teólogo da Universidade Gannon, nos EUA, que pesquisa a Bíblia samaritana. "Eles dizem preservar a religião", afirma.
    Há afinidades entre as crenças de samaritanos, judeus, cristãos e muçulmanos -são todas religiões ditas "abraâmicas". Mas, isolados entre povos em conflito, os samaritanos tentam se manter distantes dos irmãos de fé.
    "Os árabes pensam que somos judeus", afirma Cohen. "Eles nos agridem."
    "Eles não são gentis", diz o motorista palestino que leva a reportagem de volta à cidade de Nablus -onde nem todos contam boas histórias sobre a vila samaritana, montanha acima. Mas a rivalidade entre os dois locais ignora as pesquisas genéticas e os estudos genealógicos que apontam que a população palestina de Nablus descende em parte de samaritanos convertidos durante o Império Otomano.

      Vale a pena ver de novo?

      folha de são paulo

      PSDB reúne líderes de mãos dadas, assim como em 2006, quando prevaleceu a desunião
      DANIELA LIMADE SÃO PAULOEm 2006, Aécio Neves era governador de Minas, tinha boa avaliação e trabalhava pela reeleição. Em nome dessa empreitada, destacava sua boa relação com o governo Lula e mantinha em seu palanque partidos que tinham candidato à Presidência, como o PDT. O PSDB, porém, tinha seu próprio nome para o Planalto: Geraldo Alckmin.
      Passaram sete anos. Mas, trocando apenas os nomes, a descrição acima continua atual. Onde estiver escrito Aécio, troque por Alckmin. Onde estiver Alckmin, use Aécio. Eis então uma síntese da atual situação do PSDB.
      Alckmin, hoje, tem boa avaliação em São Paulo e disputará a reeleição. Por isso, destaca sua relação com a presidente Dilma Rousseff (PT) e namora uma sigla que também pode ter candidato ao Planalto, o PSB, de Eduardo Campos. No PSDB, apenas um nome é cotado para a Presidência em 2014: Aécio.
      Sete anos atrás, Aécio se reelegeu em Minas beneficiado pelo "voto Lulécio", como ficou conhecida a tabelinha Lula para presidente, Aécio para governador.
      Agora, com Alckmin tentando a reeleição possivelmente de mãos dadas com o PSB, alguém poderá falar em "voto Campimin": meio Campos, meio Alckmin.
      No encontro que o PSDB organizou na última semana, em São Paulo, os caciques da sigla se empenharam para demonstrar união em torno da indicação de Aécio para a presidência da sigla.
      Não fosse pela ausência de José Serra, que posou com Alckmin em 2006 mas faltou à festa de Aécio na semana passada, as imagens poderiam ser confundidas.
      Nas duas ocasiões, o partido tentava dar provas de união em torno de um candidato à Presidência que, internamente, não era unânime.
      2006
      Em junho de 2006, Alckmin iniciou sua campanha presidencial em Belo Horizonte, numa tentativa de neutralizar os boatos de que Aécio não se empenharia "sanguineamente" na disputa nacional.
      O mineiro tinha aliados no governo de Lula (que disputava a reeleição contra Alckmin), como o ex-ministro do Turismo Walfrido dos Mares Guia, defensor público do voto "Lulécio". O próprio ex-presidente dizia ter "boa relação" com o tucano.
      Naquela ocasião, Alckmin chegou ao ato tucano em Belo Horizonte ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do próprio Aécio e do candidato a governador José Serra, com quem havia disputado a indicação para concorrer ao Planalto.
      Não faltaram discursos efusivos e fotos com Alckmin, Aécio, FHC e Serra de mãos dadas e erguidas. Do lado de fora, porém, integrantes do PFL (atual DEM), que fazia chapa com Alckmin, flagraram santinhos com fotos do mineiro ao lado de Lula.
      2014
      Hoje senador, Aécio desponta como única opção do PSDB para a Presidência da República em 2014. Já Alckmin, focado em se reeleger em São Paulo, segue a antiga cartilha do mineiro.
      Além da relação cordial com Dilma, que disputará a reeleição, Alckmin trabalha para manter o PSB, de Campos, em seu palanque -a sigla é quem, no atual arco de alianças, mais contribui com tempo de campanha na TV.
      Tal atributo faz com que o paulista estude entregar a vaga de vice ao partido, o que preocupa aliados de Aécio.
      Com o PSB na chapa, Alckmin não poderia negar apoio a Campos em São Paulo. O resultado seria a divisão do palanque de Aécio no maior colégio eleitoral do país.
      O governador tem dito que é cedo para definir candidato à Presidência, mas defendeu unidade em torno do nome de Aécio no evento da semana passado.
      No dia seguinte ao ato, o deputado estadual Orlando Morando (PSDB-SP) disse ao "Painel", em tom irônico: "Nós temos a obrigação de retribuir a Aécio o apoio que ele deu a Alckmin, em 2006, e a Serra, em 2010".
      Um aliado de Serra, que viajou para os Estados Unidos, fotografou a frase no jornal e lhe enviou por e-mail. A viagem foi a justificativa oficial de Serra para a ausência na festa de Aécio.
      2010
      O confronto entre Serra e Aécio é anterior, mas ganhou ares de irremediável em 2010, quando o paulista perdeu a eleição à Presidência pela segunda vez.
      Serra e Aécio disputaram a indicação do PSDB para o Planalto. O mineiro acabou se retirando e lançou-se ao Senado. Empenhou-se para eleger Antonio Anastasia (que havia sido seu vice) governador de Minas.
      Há um episódio sempre mencionado por aliados de Serra quando o assunto é a indisposição dele com Aécio.
      Ainda no primeiro turno, após cumprir agenda em Minas, Serra desembarcou em São Paulo para reunião de preparação de debate.
      Encontrou-se com seu marqueteiro, Luiz Gonzalez, e com um de seus principais assessores, Bruno Caetano. Tirou do bolso do paletó um panfleto. Era uma "colinha": Aécio senador, Anastasia governador. O espaço do voto presidencial estava em branco.
      Serra não foi ao ato pró-Aécio, mas seus principais aliados posaram com o senador. Nas palavras de um serrista, "a sinceridade do gesto tem a profundidade de um pires".
      Aécio sabe que precisará de mais do que uma foto para garantir a unidade em torno de seu nome. Assim, começou um trabalho para conquistar as bases do PSDB paulista.
      Elegeu interlocutores, como o secretário estadual de Energia, José Aníbal, influente nos diretórios estadual e municipal, e, de quebra, desafeto de Serra.
      "O Aécio já mostrou com palavras e atos que quer olhar adiante. É o Brasil, não é o PSDB. [Mário] Covas (ex-governador) dizia que o ponto de partida é a unidade partidária. E ele está trabalhando nisso", diz Aníbal.