sábado, 6 de abril de 2013

Marcos Caramuru de Paiva

folha de são paulo

A primeira-dama chinesa e a moda
O que definitivamente não se pode é, também nessa área da economia, ser indiferente à China
A China não está acostumada a primeiras-damas. As mulheres dos governantes nunca aparecem.
Contudo, no final de março, em mais uma manifestação de que a política está mudando de tom -e de hábitos- o presidente Xi Jinping, em sua primeira viagem internacional, desceu do avião em Moscou ao lado da mulher, Peng Liyuan.
Os chineses notaram, com surpresa, que, ao invés de ostentar as grandes grifes estrangeiras que estão no imaginário das pessoas bem-sucedidas, Peng vestia marcas nacionais.
Foi o suficiente para que o Weibo (Twitter local) corresse a divulgar quem produziu suas peças e, a partir daí, começasse uma grande discussão sobre "buy China".
A primeira-dama Peng Liyuan é uma figura conhecida. Militar, general de brigada, cantora nas Forças Armadas, integra o Comitê Consultivo do Partido. Sempre se achou que ela adicionaria leveza à figura do presidente. Mas nunca que sua primeira aparição pública tivesse tanto impacto.
No meio de comparações de seu perfil com Carla Bruni e Michelle Obama, não faltaram artigos para lembrar que a China já teve produtos nacionais valorizados. De repente, apaixonou-se pelo que vem de fora. Mas isso pode mudar.
A China é uma grande exportadora de vestimentas e acessórios. As vendas externas desses itens totalizaram US$ 159 bilhões em 2012. O que sai não tem marca. Ganha etiquetas coladas por quem importa.
Ao mesmo tempo, a febre do consumo fez dos chineses os segundos maiores compradores do luxo no mundo. O cálculo mais comumente divulgado é que eles consomem 25% dos bens nessa categoria, sendo que 55% dos consumidores das grandes grifes na Europa e nos Estados Unidos são turistas chineses.
O fator primeira-dama pode não mudar radicalmente o panorama do negócio da moda e da vestimenta. Mas traz um dado novo a um mercado já agitado.
Recentemente, alguns dos conglomerados internacionais do luxo começaram a investir em marcas chinesas de melhor qualidade, possivelmente antecipando um consumidor mais voltado para produtos locais. A Hermès, num movimento diferente, criou a Shang Xia, que nasceu em Xangai, estendeu-se a Pequim e está abrindo em Paris.
Na direção contrária, grupos chineses compraram marcas europeias que perdiam brilho, para levantá-las em casa. Os exemplos são vários: Cerruti e Gieves and Hawks, adquiridas pelo Trinity, o Lanvin, pelo taiwanês Shaw Lan Wang, a Sonya Rykiel pelo Fung Brands, a Miu Miu pelo fundo Fosun.
Em complemento a tudo isso, a China agora ganhou uma defensora poderosa das suas próprias grifes, ainda muito desconhecidas dos nacionais, apesar de algumas delas já estarem abrindo na Europa. E os analistas mais alertas dizem aos designers estrangeiros que passem a olhar o gosto oriental.
Na esteira da São Paulo Fashion Week, não há como ignorar o que está ocorrendo no negócio da moda do outro lado do mundo. Tudo leva a crer que haverá espaço para todos, inclusive para os que ainda não chegaram. O que definitivamente não se pode é, também na moda, ser indiferente à China.

    Painel - Vera Magalhães

    folha de são paulo

    Reação imediata
    Um dia depois de Eduardo Campos (PSB) lançar um slogan em que se apresenta como o "novo", o PT inicia hoje a distribuição de propaganda pró-Dilma Rousseff. O panfleto estampa o título: "Dilma atinge recorde de aprovação popular: 79% dos brasileiros apoiam a presidenta. Por que será?". A peça cita a redução da conta de luz, a desoneração da cesta básica e programas como Brasil Sem Miséria e Minha Casa, Minha Vida. Outro capítulo trata da queda do desemprego.
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    Vácuo 1 O espaço que Campos e Aécio Neves (PSDB) tiveram no congresso de prefeitos paulistas evidenciou desconforto com o tratamento dado pelo governo federal aos municípios.
    Vácuo 2 O Comitê de Articulação Federativa, criado para atender as demandas das prefeituras, se reuniu só uma vez na gestão Dilma, em 2011. Sob Lula, foram seis encontros. O entendimento de prefeitos, inclusive do PT, é que o Planalto não dá prioridade à agenda municipalista.
    Sofá "Temos uma boa sala de visitas no Planalto, mas a verdade é que, no atual governo, a execução de medidas que envolvem mais de uma pasta é mais lenta", diz um prefeito aliado de Dilma.
    Sem gás Na tentativa de responder ao setor, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) pilotará rodada de encontros estaduais com prefeitos. Ainda assim, a iniciativa é considerada tímida.
    Termômetro 1 Na comparação entre Campos e Aécio, o pessebista conseguiu arregimentar mais claque e mais políticos de vários partidos (além do PSB, havia representantes de PPS, PDT, PV e PTB) para assistir seu discurso perante os prefeitos.
    Termômetro 2 O trunfo esgrimido pelos tucanos, em contraposição à supremacia numérica do pernambucano, foi o engajamento do governador Geraldo Alckmin, considerado vital para a decolagem do mineiro no Estado.
    Almoço grátis? A mobilização para ver o pessebista não foi 100% espontânea. Uma ''militante'' vestindo camiseta com o novo slogan disse ter recebido R$ 50 para ir de São Vicente a Santos e brandir uma bandeira em frente ao local do congresso.
    Fica a dica Do ministro Ricardo Lewandowski à coluna, diante do esforço do Supremo Tribunal Federal para dar privacidade ao depoimento de Marco Feliciano (PSC-SP) ontem: "Embora se alegue que ele desrespeita os direitos humanos, a Justiça tem o dever de respeitar os direitos humanos dele''.
    Agenda... Na audiência, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara disse que deu mais de 270 palestras em 2008, ano em que deixou de comparecer a evento para o qual havia sido contratado no Rio Grande do Sul -e que originou o processo por estelionato a que responde no STF.
    ... cheia Feliciano afirmou que houve um erro de programação e que imediatamente devolveu aos organizadores os R$ 8.000 que recebeu com juros e correção, num total de R$ 13 mil.
    Paredão Diante das especulações sobre uma possível ação casada de PT e PMDB para impedir sua candidatura ao governo do Rio em 2014, o senador Lindbergh Farias (PT) ouviu de um aliado: "É como no Big Brother: quanto mais tentam te tirar, mais você se fortalece".
    Visita à Folha Arthur Virgílio, prefeito de Manaus (AM), visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava acompanhado de Humberto Michiles, secretário de Governo, e de Márcio Noronha, secretário de Comunicação.
    com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
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    TIROTEIO
    "Lula e Dilma ficaram mais de seis horas falando de Eduardo Campos. Nunca um aliado consumiu tanto tempo do divã do PT."
    DO DEPUTADO MÁRCIO FRANÇA (PSB-SP), sobre o encontro da presidente e do antecessor em que discutiram o papel do governador de Pernambuco em 2014.
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    CONTRAPONTO
    Balança, mas não cai
    Ao apresentar Aécio Neves em congresso de prefeitos, anteontem, o presidente da APM (Associação Paulista de Municíos), Celso Giglio (PSDB), disse ter conhecido o senador mineiro no episódio da queda de Mário Covas de um palanque em Osasco, em 1998. Aécio brincou:
    -Geralmente, os políticos se conhecem em cima de um palanque. Nós nos conhecemos embaixo de um palanque.
    O presidenciável tucano emendou um agrado à plateia:
    -Agora a situação é bem diferente. Estamos num sólido palanque. Até porque as propostas do municipalismo são muito consistentes.

      Mortes durante a ditadura militar vão ter reconstituição

      folha de são paulo

      Objetivo da Comissão da Verdade é testar explicações de laudos do regime com técnicas atuais de perícia
      Outra investigação em andamento pretende apurar se morte de JK em acidente na Dutra decorreu de atentado
      MATHEUS LEITÃOJOÃO CARLOS MAGALHÃESDE BRASÍLIAA Comissão da Verdade vai reconstituir ao menos oito mortes de opositores da ditadura militar (1964-1985) para tentar desmontar versões de suicídio ou resistência armada divulgadas à época.
      O objetivo é testar as explicações contidas nos laudos produzidos pelo regime com técnicas periciais atuais, que serão operadas por especialistas contratados pela comissão -grupo responsável por, até maio do ano que vem, investigar e narrar todas as violações aos direitos humanos cometidas na ditadura.
      Após o trabalho dos peritos, a Comissão poderá pedir à Justiça a retificação das certidões de óbito, o que foi feito para João Batista Drummond e Vladimir Herzog.
      Folha apurou que um dos casos a ser reconstituído é o de Arnaldo Cardoso Rocha, da Ação Libertadora Nacional (ALN), morto em 1973.
      Segundo a versão oficial, Arnaldo teria reagido a tiros contra voz de prisão dada por policiais e sido morto na Penha, em São Paulo.
      Mas, na década de 1980, uma criança que morava na rua contrariou essa versão e disse que o viu cair ao ser perseguido e depois ser levado em um carro verde. O laudo necroscópico indica que ele recebeu sete tiros.
      Três foram na perna direita, que provavelmente o fizeram cair na perseguição; outro foi disparado próximo ao supercílio direito; e um outro "causou diversas fraturas na mão direita, característica de lesão de defesa, quando o atirador está perto e a mão é levantada buscando proteção", descreve o livro "Direito à Memória e à Verdade", editado pelo governo federal em 2007.
      JK
      Além dos casos de suicídio e de resistência, uma outra investigação em andamento pretende tirar dúvidas relativas à morte de Juscelino Kubitschek em agosto de 1976.
      Segundo a versão da época, o Opala em que estava o ex-presidente foi atingido por um ônibus e colidiu com uma carreta na rodovia Dutra.
      Surgiram suspeitas de que a morte foi fruto de um atentado -o motorista de JK teria sido alvejado enquanto dirigia, causando o acidente.
      Em novembro, Claudio Fonteles, integrante da Comissão, já havia divulgado texto afirmando que Carlos Marighella (1911-1969) foi morto sem esboçar reação ou tentar pegar sua arma, contrariando a versão oficial.

        A China deve liderar o diálogo com a Coreia do Norte? [Tendências/Debates]

        folha de são paulo

        LUIZ AUGUSTO DE CASTRO NEVES
        TENDÊNCIAS/DEBATES
        A China deve liderar o diálogo com a Coreia do Norte?
        SIM
        A escolha chinesa
        O recente agravamento das tensões na península coreana é um problema recorrente, que se tem acentuado ao longo dos últimos anos.
        Não se pode avaliar o comportamento da República Democrática e Popular da Coreia, nome oficial da Coreia do Norte, sem ter em mente a própria divisão da península em dois países em decorrência do armistício de 1953. Os enfrentamentos da Guerra Fria levaram à divisão de vários países onde foi impossível acordar um modus vivendi entre entre o Ocidente e o mundo socialista.
        Assim, tivemos a criação de duas Alemanhas, de dois Vietnãs e de duas Coreias. O fim da Guerra Fria permitiu a absorção da República Democrática Alemã, socialista, pela República Federal da Alemanha, vinculada ao Ocidente; o Vietnã foi reunificado sob a égide do Vietnã do Norte, após uma longa e sangrenta guerra que levou à retirada dos Estados Unidos do Vietnã do Sul.
        Na península coreana, o movimento foi ao contrário: foi uma guerra, igualmente sangrenta, primeiro enfrentamento armado da Guerra Fria, que levou à divisão da península em duas Coreias. No mundo de hoje, regimes como o da Coreia do Norte são produtos de uma época superada e o seu isolamento reflete essa realidade.
        O caso da Coreia do Norte tem complexidades adicionais porque o armistício de 1953 foi apenas um cessar-fogo, uma suspensão das hostilidades, e até hoje não foi possível celebrar um tratado de paz entre as duas Coreias. A Coreia do Norte ainda está tecnicamente em guerra com o seu vizinho do sul e seus aliados, entre os quais os EUA.
        Existe, ademais, uma percepção crescente de que a própria sobrevivência do regime de Kim Jong-un depende de uma radicalização crescente, que inclui a obtenção de armas de destruição em massa, como a bomba atômica. Essa percepção pode explicar a agressividade de Kim Jong-un, particularmente após a última rodada de sanções adotadas pela ONU em decorrência do teste nuclear norte-coreano em 12 de fevereiro último.
        O jovem Kim também aparenta utilizar a sua belicosidade em relação aos EUA e à Coreia do Sul como uma forma de se afirmar perante a idosa cúpula militar norte-coreana.
        As bravatas da Coreia do Norte sempre partiram da premissa de que uma eventual retaliação por parte da Coreia do Sul e dos EUA contaria com a mais decidida oposição da China, aliado essencial para a sua própria sobrevivência.
        Na última rodada de sanções da ONU, contudo, a China juntou-se à ampla maioria condenatória, o que deverá ter aumentado a sensação de isolamento por parte da liderança norte-coreana.
        Outra diferença na crise atual é a atitude mais afirmativa por parte da Coreia do Sul. No episódio do afundamento do navio sul-coreano Yeonpyeong, o então presidente Lee Myung-bak não reagiu à altura e passou uma imagem de fraqueza perante a Coreia do Norte. A atual presidente, Park Geun-hye, já anunciou desafiadoramente que em caso de uma confrontação, "o norte sofrerá muito mais do que o sul".
        Além disso, setores conservadores sul-coreanos já estão defendendo publicamente que a Coreia do Sul adquira armas nucleares para enfrentar as ameaças da Coreia do Norte.
        A crise, portanto, adquire contornos mais graves, pelo menos no plano retórico. A liderança da Coreia do Norte, cada vez mais isolada na comunidade internacional, busca na radicalização o caminho de sua própria sobrevivência e de seu regime. O risco é que essa linguagem belicosa possa provocar algum incidente que leve a enfrentamentos armados de consequências imprevisíveis.
        O único ator que tem condições para persuadir os norte-coreanos a baixar o tom e voltar à mesa de negociações é a China. Resta saber o que os chineses preferem: o caos decorrente do colapso do regime de Kim Jong-un ou uma península coreana nuclearmente armada.




        ARNALDO CARRILHO
        TENDÊNCIAS/DEBATES
        A China deve liderar o diálogo com a Coreia do Norte?
        NÃO
        Acúmulo de equívocos
        Fosse ainda vivo, o teórico da propaganda política e da publicidade comercial Edward Bernays franziria o cenho diante das invectivas bélico-nucleares do governo norte-coreano contra o norte-americano.
        Por outro lado, as reações de Washington à mobilização gigante e à declaração de guerra do país fundado por Kim Il-sung e dirigido por seu neto Kim Jong-un revelam inegável preocupação com uma das nove nações nuclearizadas do planeta.
        Jamais se chegou a um consenso sobre a origem da divisão da península coreana durante a Conferência de Potsdam (1945): partira de Stalin ou de Truman? Curiosa proposta essa, de criarem-se duas áreas de ocupação num país não beligerante.
        Na prática, a divisão territorial de um povo muito antigo acoplada às explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki e às invasões soviéticas da Manchúria e do Japão marcaram o início da Guerra Fria. Na prática, convém repetir, porque a tomada de Berlim e a mentalidade antianarquista e anticomunista reinante nos EUA não devem ser esquecidas nessa ontologia guerreira de disputas ideológicas em aparência, conquanto intrinsecamente estratégicas.
        Os EUA se empenhariam desastradamente em "não perder a China", conceito vezeiro no Departamento de Estado, de modo que os ocupantes designados teriam de ser implacáveis. Até 1948, data oficial da desocupação, registraram-se massacres de mais de 200 mil pessoas. Os massacres de esquerdistas e social-democratas, já empregando "mão de obra" nacional, estão inscritos como ultrajes históricos dos coreanos. Já da ocupação soviética ao norte comenta-se pouco, salvo quanto ao treinamento de tropas e entrega de equipamento militar.
        Os norte-coreanos, e também multidões no mundo inteiro, forçoso reconhecê-lo, acham justo que, no processo de desenvolvimento nuclear, suas forças armadas contem com armas e explosivos originados em tais pesquisas.
        Em outras palavras, como os cinco do Conselho de Segurança das Nações Unidas não puseram cobro ao aperfeiçoamento de seus artefatos nucleares, outros países asiáticos -Índia, Paquistão, Israel e RPDC (República Popular Democrática da Coreia)- decidiram adotá-los. Com a saída da última do TNP (Tratado de Não Proliferação) em 2006, nenhum deles se vê obrigado a proibir os engenhos, mas só um é sancionado, a Coreia do Norte.
        O problema central da questão coreana é o da sua reunificação: duas ocupações depois de 1945, uma guerra em que pereceram 2,5 milhões de civis, um armistício com o sul que acaba de ser denunciado e uma fronteira tida como "desigual" pelo norte, na verdade, tornaram-se empecilhos menores que o causado pela falta de negociações de Pionguiangue (Pyongyang, em grafia prosódica inglesa) com Washington. Não que inexistam contatos.
        Há, porém, equívocos, que se acumulam nas incursões diplomáticas que houveram. A militarista RPDC tem opositores em Washington, e não apenas nas hostes mais acirradamente anticomunistas dos republicanos: o Pentágono, eis aí.
        Se a China é crescentemente visada e a Rússia passou a dispor de prioridades nas pranchetas de planejamento militar dos EUA, não é difícil inferir-se que o regime sem par da RPDC, verificando que é, mais que abandonado, acuado com severíssimas sanções das Nações Unidas, reage conforme suas prementes necessidades de fazer-se valer perante o mundo.
        A questão coreana é um tema que merece mediações, envolvendo Washington principalmente, Moscou, Pequim, Seul e Tóquio. Por que não encarregar do assunto emissários especiais de países não nuclearizados e fora dos esquemas de alianças defensivas? Por que não um membro do mecanismo Brics?
        Afinal, o vienense Edward Bernays precisa do seu merecido descanso, após 104 anos de existência.