quarta-feira, 21 de agosto de 2013

DE GALDINO A EDVAN, A BARBÁRIE SE REPETE - RENATO ALVES

Correio Braziliense - 21/08/2013


Imagens gravadas por uma câmera de um posto de combustível ajudaram investigadores a desvendar o caso. No filme, aparecem Wesley Lima da Silva, 18 anos, um rapaz de 15 e uma garota de 17 comprando um litro de gasolina. O trio confessou que havia consumido bebida, drogas e estava à procura de “diversão" quando decidiu tocar fogo em moradores de rua que dormiam em praça da QE18. Edvan Lima da Silva teve 65% do corpo queimado e morreu. A ideia do crime teria sido da menina, filha de um policial federal. Ela disse ter sido vítima de uma tentativa de assalto perpetrada pelos sem-teto e, por isso, “queria se vingar”. Os adolescentes que incendiaram Galdino numa parada de ônibus da 703 Sul, em abril de 1997, também eram de classe média e, ao serem presos, alegaram que se tratava apenas de uma “brincadeira”.

Assim como há 16 anos, jovens de classe média compram combustível e incendeiam um homem que dormia ao relento. Desta vez, três adolescentes são suspeitos, entre eles uma menina de 17 anos filha de policial federal


Madrugada no Distrito Federal. Após uma noite de diversão, adolescentes de classe média passam em um posto e compram combustível. Por volta das 5h, seguem até uma praça e decidem atear fogo ao pé de um homem que dorme ao relento. Perdem o controle. As chamas tomam conta do cobertor e do corpo do desconhecido. O grupo foge. A vítima é levada ao Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Menos de 48 horas depois, morre por insuficiência respiratória e falência dos órgãos. Logo, a polícia prende os suspeitos. Os investigadores apontam para um crime planejado. Os acusados falam em “brincadeira”. O enredo se repete 16 anos depois.

Um dos líderes da tribo Pataxó Hã-Hã-Hãe, Galdino Jesus dos Santos estava em Brasília, em 19 de abril de 1997, Dia do Índio, para lutar pela demarcação das terras do seu povo no sul da Bahia. À noite, ao retornar à pensão onde estava hospedado, ele se perdeu no início da Asa Sul. Decidiu dormir no ponto de ônibus da 703. Acordou por volta das 5h, com fogo no corpo. Socorrido por bombeiros, acabou no Hran com 95% do corpo queimado. Um chaveiro e a amiga, que passavam pela W3, perseguiram o carro dos agressores e anotaram a placa do veículo. A atitude levaria a polícia aos acusados (leia Memória).

Guará, 1º de agosto de 2013. O morador de rua Edvan Lima da Silva, 49 anos, dormia na praça da QE 18, na companhia de três mendigos e encostado em um quiosque para se proteger do frio. Por volta das 4h50, levantou correndo, com o corpo em chamas. Edvan foi levado ao Hran com 63% do corpo queimado. A princípio, não havia testemunhas do crime. A polícia tratou como uma possível vingança, motivada por uma briga entre moradores de rua. Mas o caso viria a sofrer uma reviravolta com a prisão dos suspeitos. E, assim, apareceriam as semelhanças com o assassinato de Galdino.

Susto

Entre outros detalhes, os assassinos do índio Galdino contaram que compraram álcool num posto perto do local do crime. Alegaram que queriam só dar um susto no índio, que acreditavam ser um mendigo. Chamaram o ato de “brincadeira”, mas a tentativa de homicídio virou assassinato triplamente qualificado. Galdino morreu às 2h de 21 de abril de 1997, no Hran. O corpo dele seguiu poucos dias depois para a reserva indígena da família, onde foi enterrado.

Para prender os suspeitos de matar Edvan da Silva, os agentes da 4ªDP (Guará) trabalharam em silêncio. Levaram seis dias para apreender o primeiro envolvido, de 15 anos. Menos de 24 horas depois, detiveram uma menina de 17, filha de um agente da Polícia Federal. Ambos são moradores do Guará. Ontem, 20 dias após o crime, veio o desfecho, segundo o delegado Jeferson Lisboa, chefe da unidade. Ele anunciou a prisão do terceiro acusado, Wesley da Silva Lima. Também morador do Guará, o rapaz de 18 anos acabou detido na praça da QI 6 da cidade, próximo de onde Edvan foi queimado vivo.

Agentes e delegados afirmaram que o trio agiu premeditadamente e confessou o assassinato. Os três teriam passado em um posto de combustíveis, comprado 1 litro de gasolina e, na sequência, se dirigiram para o local onde Edvan e outros três mendigos dormiam. A menina assumiu jogar a gasolina na vítima, mas ninguém admitiu ter iniciado o fogo. Os três fumaram maconha e beberam vinho antes do crime, segundo Jeferson Lisboa.

Pacto de silêncio

No caso do índio Galdino, da 1ªDP, os acusados maiores de 18 anos seguiram para o Núcleo de Custódia de Brasília, no Complexo Penitenciário da Papuda, onde permaneceram quatro anos e sete meses presos até o início do julgamento, em 6 de novembro de 2001. Cinco dias depois, quatro réus foram condenados a 14 anos em regime fechado por homicídio triplamente qualificado.

Ninguém nunca disse quem teve a ideia de queimar um suposto mendigo nem riscado o fósforo que incendiou Galdino. Logo, começaram a receber benefícios. O irmão de Tomás passou dois anos internado no antigo Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje). Todos estão em liberdade e trabalhando.

Já dos acusados de matar o mendigo no Guará, apenas Wesley deve enfrentar o júri popular. Na data do crime, havia seis dias que completara a maioridade. Ontem, foi indiciado por homicídio qualificado e três tentativas de homicídio. Passaria a noite em uma cela da 4ªDP. Hoje, deve seguir para o Departamento de Polícia Especializada (DPE) e, de lá, para a Papuda. A menina foi para um centro de internação de menores infratores, no Recanto das Emas. O menino, ao antigo Caje.

Matias Spektor

folha de são paulo
Russas
Legislação russa esvazia argumento brasileiro de que Brics seriam renovação nas relações internacionais
A Rússia acaba de criminalizar a homossexualidade. Com isso, seus diplomatas trabalham para legitimar as chamadas leis antigay em foros internacionais.
O tema afeta o Brasil, onde está em pauta um projeto de lei que pretende fazer o oposto, criminalizando a homofobia.
O embate pela futura legislação brasileira não é trivial. Em 2012, notificaram-se 10 mil casos de homofobia no país, um terço dos quais envolveu lesão corporal, maus-tratos ou tentativa de homicídio.
Como essa questão divide a sociedade, as políticas públicas são contraditórias. Enquanto o STF e os seguros de saúde reconhecem a união civil entre pessoas do mesmo sexo, os ministros da Educação e da Saúde suspendem campanhas de conscientização.
Com uma mão, o Planalto recebe as demandas dos movimentos sociais; com a outra, pactua no Parlamento com quem faz da homofobia uma bandeira.
Ciente de que esse é um campo minado, a política externa brasileira tem inserido a orientação sexual e a identidade de gênero nos foros multilaterais.
Nesse quesito, o talho do Itamaraty é progressista. Nos últimos meses, houve vitórias significativas na ONU e na OEA.
Mas a batalha é árdua. Países do norte queixam-se de que Brasília não reforma as suas próprias leis, além de ser leniente com africanos e também com asiáticos.
Países árabes, por sua vez, resistem às pressões brasileiras e já chegaram a condicionar a realização de cúpulas com a América do Sul à retirada, nas Nações Unidas, de propostas do Brasil.
Por isso, as notícias vindas da Rússia não ajudam. Ao acirrar a divisão entre os países, elas dificultam o trabalho da diplomacia brasileira, cujo êxito depende da possibilidade de estabelecer pontes entre gregos e troianos.
Para piorar as coisas, a legislação russa esvazia ainda mais o argumento brasileiro segundo o qual os Brics seriam uma força renovadora nas relações internacionais.
O que fazer?
Algumas vozes no estrangeiro sugerem um boicote à Olimpíada de Inverno de fevereiro próximo, que será sediada pela Rússia.
Fazê-lo, contudo, seria contraproducente. O governo russo empunharia a bandeira nacionalista, ganhando boa dose de apoio popular.
Melhor é o Brasil participar com sua mensagem contundente.
Afinal, a homofobia brasileira tem raízes profundas. Na televisão, bicha é malvada ou espalhafatosa. No Congresso, Feliciano preside. No futebol, torcedor promete "fazer a vida impossível" do jogador que lascou um selinho em outro homem.
E, no entanto, o Brasil não é a Rússia. Pode ser conservador, mas não criminalizará gente que ama gente do mesmo sexo. Porque a tese, aqui, não sobrevive nas tribunas, nos tribunais ou nas urnas.
"Não aceitamos que o homossexualismo seja tratado como doença. E muito menos como assunto de polícia", disse Lula na convenção petista de 1981.
Imagine se Dilma quebrasse o silêncio que tem mantido sobre a homofobia repetindo essas palavras no inverno russo que se aproxima.

    Banksy e os black blocs - MARTHA MEDEIROS

    ZERO HORA - 21/08/2013


    Por mais justas que sejam as reivindicações por melhoras no país, fica difícil apoiar black blocs, que se manifestam através da violência e da depredação, sem estimular nenhuma ideia original, nenhuma consciência – apenas promovem pânico e prejuízos à cidade.

    Para encerrar a série de crônicas inspiradas em Londres, me parece oportuno lembrar de Banksy, grafiteiro inglês que há uns 10 anos preenche muros, paredes, pontes e estações de metrô com grafites ora engraçados, ora chocantes. Agindo de madrugada, disfarçando-se com nariz postiço e óculos escuros, ele faz suas interferências urbanas de uma forma extremamente audaciosa – introduz objetos em monumentos públicos, instala avisos surpreendentes em meio aos lagos dos parques e até já conseguiu colar obras suas nas paredes dos museus mais respeitados da Inglaterra.

    Às vezes, leva uma ou duas horas para que descubram e apaguem seus grafites ou retirem das paredes suas marcas de protesto, mas já conseguiu que levasse dias e até meses antes de ter sua arte recolhida. E detalhe: até hoje, ninguém sabe quem ele é.

    Se a polícia não gosta nada do moço, a população rendeu-se a esse transgressor misterioso, e o inusitado aconteceu: hoje suas obras valem milhares de libras e estabelecimentos comerciais rezam para ter suas paredes pichadas por Banksy.

    Ele defende o grafite como uma arte honesta e popular. Diz que é uma resposta aos milhares de anúncios publicitários estampados em painéis gigantescos por toda a cidade, inclusive nas laterais dos ônibus: por que todos aceitam que a cidade se desfigure com publicidade e não com o grafite artístico? Ele mesmo responde: as pessoas acham que só o que gera lucro tem o direito de existir.

    Banksy apronta e faz pensar. Esconde-se porque o grafite ainda é considerado subversivo, e também para denunciar essa sociedade que valoriza mais o artista do que sua arte: hoje estão todos mais interessados em saber que rosto têm, como se vestem, com quem namoram as grandes estrelas, em vez de focarem apenas no trabalho que fazem.

    Pois através do mistério, Banksy conseguiu total visibilidade para o que faz e ficou famoso sem aparecer. Há quem diga que ele não existe, que as obras são criações coletivas de um grupo, que o Dalai Lama é seu fã, que ele foi expulso da escola por causa de uma briga em que não teve culpa, por isso sua obsessão por justiça social. Rumores que só reforçam o mito.

    Dilapidar patrimônio público e placas de sinalização é crime, bandidagem. Já Banksy não depreda nem picha imundícies: ele tem um propósito e uma estética, por isso se diferencia. Inverte nosso senso de ordem, denuncia hipocrisias e surpreende com seu espírito rebelde e um talento gráfico inquestionável. Diz que gostaria de ter permissão para fazer o que faz, mas, não tendo, vai em frente contando com o perdão da cidade. Tem conseguido. Demonstrou que é possível protestar com inteligência e pacificamente. 

    FERNANDO BRANT » Responsabilidade e caráter‏


    Estado de Minas: 21/08/2013 


    Quanto pesam o senso de responsabilidade e o caráter na existência, no dia a dia de cada um de nós? Teriam a dimensão de um mundo que carregamos nas costas, como disse Drummond, e não pesam mais que a mão de uma criança? Diria que quando assumimos uma obrigação que envolve outras pessoas, seja a família ou a sociedade, precisamos procurar na alma o vigor e na mente a sabedoria possível para fazer o melhor. Sou, tenho de confessar, um escritor de canções que, além de me dedicar ao trabalho poético e musical, busca não se calar diante da injustiça e dos poderosos, e eles não estão apenas nos gabinetes governamentais. Mas certamente eles lá estão.

    Estou disposto a sacrificar meu tempo de prazer, com os que me cercam e com a música, a poesia e a cultura que me fazem bem, e até descuidar perigosamente de minha saúde, para cuidar das ideias coletivas generosas. Mas reconheço que esses poderes privados e públicos, que não têm nenhum interesse pela coisa pública, a res publica, manipulam as cidades e os países por se sentirem imperiais, donos da nossa vontade. Para enfrentá-los, Davis que somos contra os Golias, não basta apenas coragem e persistência.

    Sensibilidade, sentimento, inteligência e percepção do conjunto são as armas de quem não tem a grana, mas tem o direito. Quem não tem a ‘‘politicasacanagem’’, mas é um cidadão que sabe o que lhe pertence.
    Sendo possuidor de caráter e responsabilidade, no meio de uma luta desleal que envolve os direitos de meus colegas de profissão, sei que não posso vacilar. Tenho que cumprir o dever que assumi e não posso ser radical. Faço o que sempre fiz, verificando os vários caminhos, todos os desdobramentos possíveis, apostando na razão e também na intuição, na crença de que é possível contornar o verdadeiro paredão que a grande mídia brasileira construiu em torno de nós. Ela desinforma para proteger alguns de seus pares.

    Sinto, queridos leitores, vocês que estão acostumados com meu lado lírico e de bem com a vida, com as singelezas que busco perceber no cotidiano de nossa realidade comum de moradores de uma cidade e um país que adoramos, sinto mesmo ter de fazer, em público, este desabafo.

    Por ser otimista e acreditar nas pessoas, ter uma boa-fé do tamanho de um bonde e acreditar que no fim prevalece a justiça, me conforto e me abraço a meus amigos, recolho minhas energias para colher não tudo que merecemos, mas o que nos é possível no momento. De tanto ver triunfar as nulidades, hei de vencer.


    >>  fernandobrant@hotmail.com