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domingo, 14 de julho de 2013

Para ocupar vagas, cidades do Rio Grande do Sul contratam doutores uruguaios sem validar diploma

folha de são paulo
Hospital de cidade de fronteira sobrevive com médico uruguaio
Contratação de estrangeiros sem diploma válido no Brasil foi decidida pela Justiça para suprir a falta de profissionais
Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul se opõe à medida e fala em exercício ilegal da profissão
FELIPE BÄCHTOLDENVIADO ESPECIAL A QUARAÍ (RS)Enquanto o governo federal compra briga com a classe médica --devido ao plano de flexibilizar a contratação de estrangeiros--, cidades gaúchas na fronteira com o Uruguai enfrentam a falta de profissionais de saúde contratando médicos do país vizinho sem diploma revalidado.
Municípios e hospitais ganharam na Justiça o direito de contar com médicos uruguaios e dependem deles para formar equipes mínimas.
Em Quaraí, cidade de 23 mil habitantes, a maioria dos 20 médicos do Hospital de Caridade, o único do município, é do país vizinho. O hospital tem há anos vagas abertas para diversas especialidades.
Com salários na faixa dos R$ 7.000, não consegue atrair profissionais de grandes centros do Rio Grande do Sul.
Assim como Quaraí, outras quatro cidades da fronteira que apelaram para a alternativa e tiveram aval da Justiça são pouco populosas, sem faculdades de medicina por perto e com orçamento limitado.
Um perfil muito próximo dos municípios que o governo pretende beneficiar com a contratação de médicos estrangeiros --projeto que virou bandeira da presidente Dilma Rousseff na saúde após as manifestações de junho.
EXERCÍCIO ILEGAL
O Conselho Regional de Medicina do RS, no entanto, se opõe à contratação de uruguaios sem registro e fala em exercício ilegal da profissão.
Hoje, para que um médico estrangeiro atue no Brasil, ele precisa ser aprovado no Revalida, considerado difícil.
Mas o CRM vem sofrendo derrotas. O hospital de Quaraí, mantido por fundação filantrópica e com atendimento voltado ao SUS, já ganhou em segunda instância o direito de contar com os uruguaios.
Um argumento considerado pela Justiça é um acordo entre Brasil e Uruguai para atendimento de saúde na fronteira. O texto não especifica o tema da contratação de médicos estrangeiros, mas, na interpretação dos juízes, autoriza o trabalho no Brasil sem revalidação do diploma.
Em 2011, o juiz federal Belmiro Krieger afirmou em decisão que não se tratava de escolher entre brasileiros e uruguaios, mas "entre o médico uruguaio ou nenhum."
Quaraí é ligada por uma ponte ao município uruguaio de Artigas, onde moram 40 mil pessoas. As cidades brasileiras mais próximas ficam a cerca de 100 km dali.
A diretora do Caridade, Daniele Garcia, diz que, se não fossem os uruguaios, o hospital iria "fechar as portas".
O hospital faz cerca de 2.000 atendimentos por mês. Sofreu intervenção da prefeitura neste ano e tem dívidas de R$ 10 milhões. Nos últimos anos, se inscreveu em um plano federal que visava atrair médicos ao interior, mas não houve interessados.
CONTRATEMPOS
A contratação dos uruguaios gera contratempos. Os gestores não conseguem pagar esses profissionais com repasses do Ministério da Saúde, já que eles não são reconhecidos. O dinheiro sai do caixa único da prefeitura.
"Atrapalha demais [as finanças]. Poderia fazer obras, mas passa para a folha de pagamento", diz o prefeito Ricardo Gadret (PTB).
Outro problema é que farmácias não aceitam receitas prescritas pelos uruguaios.
"Quando é preciso um remédio que não está na Secretaria da Saúde, pedimos que algum médico brasileiro valide a receita", diz o médico uruguaio Santiago de León, 27, que começou a fazer plantões em Quaraí neste ano.
Clínico geral formado em Montevidéu em 2012, ele diz que revalidar o diploma não é sua prioridade, devido à demora e porque já estuda para provas de residência médica.
Para o médico, além da remuneração no nível da oferecida em seu país, o interesse dos uruguaios pelo trabalho na fronteira também se explica pela demografia. O Uruguai não tem grandes municípios além de Montevidéu.

    domingo, 21 de abril de 2013

    Minha História Peter Ho Peng,64

    folha de são paulo

    A ditadura quis me apagar
    Naturalizado brasileiro, homem que lutou contra regime militar conta como recuperou sua identidade, cassada há 40 anos
    FELIPE BÄCHTOLDDE PORTO ALEGREA ditadura tentou apagar minha cidadania brasileira. E conseguiu, por muitos e muitos anos.
    Eu tinha 1 ano e 11 meses quando vim para o Brasil. A naturalização foi automática, era filho de pais naturalizados. Minha família sempre foi de Porto Alegre, uma das primeiras da colônia chinesa.
    Estudei engenharia química na Federal do Rio Grande do Sul e era ativista, fazia oposição [ao regime militar]. Da nossa direção do diretório acadêmico, quatro foram expulsos da universidade. O clima não era de falta de liberdade, mas de medo. Nas salas de aula havia espiões.
    Pais recomendavam que os alunos não entrassem no diretório. Mas nós mobilizávamos shows, reuniões dançantes, sessões de cinema. Enchíamos o centro acadêmico.
    Havia gente que pregava confronto mais direto com a ditadura. Isso não prevaleceu. O nosso trabalho sempre foi defender liberdades democráticas.
    Em 1971, fui sequestrado no Rio de Janeiro. Fui preso, torturado por mais de 60 dias no DOI-Codi e outros 60 dias no Dops do Rio.
    Fui transferido para Porto Alegre e permaneci detido sem ter uma acusação. Nunca fui julgado ou condenado. Consegui sair. Depois, em 1973, fui novamente sequestrado, junto com outros estudantes de engenharia.
    Desapareceram então com meus documentos. Na libertação, me deram uma carteira modelo 19 [documento dos estrangeiros à época].
    Correspondências entre órgãos da repressão me caracterizavam como "chinês" e "apátrida". Havia a intenção de me expulsar do país. Estava sob vigilância constante.
    Resolvi me antecipar e sair do Brasil. Eu não tinha para onde ir. Poderia voltar para Hong Kong, mas minha cultura não é a chinesa.
    EXÍLIO
    Fui morar nos Estados Unidos. Meu visto de saída do país dizia: "Não dá direito de retorno ao Brasil".
    Foram mais de dez anos longe do Brasil. Quando houve a Lei da Anistia, em 1979, eu fiquei fora, porque era para brasileiros voltarem ao país. E eu não conseguia provar que era brasileiro.
    Com a abertura [do regime militar], nos anos 80, passei a visitar o Brasil a trabalho três ou quatro vezes por ano.
    Só voltei a ter residência no país em 2004. Era bastante trabalhoso para mim: a cada 90 dias, tinha que sair do Brasil para entrar de novo.
    Comecei a reivindicar cidadania por essa época, mas não descobria o caminho. Procurei meus documentos e eles tinham sido apagados: carteira de trabalho, de motorista, RG, tudo.
    Fiz contato com o [ativista] Jair Krischke e iniciamos um processo na Comissão da Anistia [do governo federal].
    Levou um tempo. Como devolver uma cidadania que tinha sido apagada? Pesquisas em Porto Alegre apontavam que eu tive um RG, mas a pasta [do arquivo] estava vazia.
    Em abril do ano passado foi deliberado na comissão que eu deveria usufruir de todos os direitos de um brasileiro.
    Devido à dificuldade legal, demorou até agora, quase um ano, para eu poder retirar o RG. Exemplo de como é difícil reconstruir a democracia. Foi uma longa trajetória, mas é uma vitória.
    Aos 64 anos, vou fazer um título eleitoral pela primeira vez. Vou votar com gosto.

      segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

      Minha História Carlos Alfredo Claret,64

      FOLHA DE SÃO PAULO

      Cercado por ditaduras
      Argentino foi preso e torturado no Rio Grande do Sul, em possível ação da Operação Condor em 1978
      FELIPE BÄCHTOLDDE PORTO ALEGRERESUMO O engenheiro argentino Carlos Alfredo Claret, 64, vivia no Rio Grande do Sul em 1978, quando foi preso. Com militância peronista, ele migrou após o golpe militar na Argentina, em 1976. Na cadeia, sofreu tortura e foi interrogado por pessoas que identificou como militares argentinos, em uma possível ação da Operação Condor, a aliança entre ditaduras do Cone Sul.
      -
      Na ditadura da Argentina, diziam: "Primeiro, vão matar os militantes, depois os simpatizantes e, ao final, serão os indiferentes".
      Saí do país por uma questão política. Era dirigente da universidade de Río Cuarto, em Córdoba. Um colega foi encarcerado em 1976 e apareceu no outro dia enforcado. Eu não podia mais ficar.
      Vim ao Brasil e fui trabalhar em uma fábrica em Passo Fundo (RS). Mas me procuravam na Argentina pela militância na universidade.
      Um dia, um amigo veio me avisar que a polícia estava na fábrica procurando documentos de estrangeiros.
      Pouco depois, o Exército me apanhou. Estava perto de uma praça, dirigindo, e dois carros militares na frente trancaram o meu Fiat. Eles me apontaram um fuzil e diziam: "Fica quieto". Ninguém falava nenhuma palavra.
      Dias antes, eu tinha solicitado um certificado de bons antecedentes para poder trabalhar regularmente.
      Fui levado a um regimento do Exército em Passo Fundo. Fui encapuzado, algemado e deitado no banco de trás de um Fusca.
      Viajamos e chegamos à Polícia Federal em Porto Alegre umas 3h. Tentava saber onde estava. Diziam: "Temos todo o tempo do mundo, ninguém sabe onde você está. Temos a tua mulher, os filhos". Não me diziam a acusação, nada.
      Fui levado para uma salinha de interrogatório, isolada. Não davam porrada, mas vinha um grandão que me pegava pelos cabelos e falava: "Vamos te matar".
      Eles me mandaram escrever toda a minha história, as pessoas que eu conhecia na Argentina, tudo. Passei um tempo longo nessa sala.
      Vinha um cara mau, ameaçava. Apareceu até um que se dizia padre, falando para confiar na igreja e relatar meus "contatos".
      Fui deixado lá dias, sem água ou comida. Escrevi toda a história da minha vida. Se eu deitava, tocava uma campainha, acendia uma lâmpada muito forte. Não sei quanto tempo foi. O cérebro já não sabe o que está fazendo.
      Foram dois períodos disso. No segundo, puseram fios [elétricos] nas mãos e nos pés. Davam choques e diziam que teria mais se não escrevesse.
      O último interrogatório tinha gente da Argentina. Estavam vestidos como civis, mas dava para ver que eles eram militares.
      O que eu mais sofria era não saber o que ocorria com as crianças e a minha mulher.
      De uma hora para outra, parou tudo. O chefe da polícia disse: virá aqui o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados.
      Achei que era outra estratégia para me fazer falar, como a do padre. Fecham a porta e entra um rapazinho, bem vestido. Era Guy Prim, do Alto Comissariado, que trabalhava com dom Paulo Evaristo Arns em São Paulo. Falou que meus amigos em São Paulo o tinham contatado.
      Ele disse: "Podem te levar à Argentina a qualquer momento, tens que confiar em mim". Ele mostrou seu passaporte e pediu para preencher um formulário das Nações Unidas [para solicitar refúgio]. Escrevi o que ocorreu.
      Guy Prim me disse para tentar ir para a Holanda ou a Suécia porque responderiam rápido. Falou: "Se não responderem logo, vão te mandar para a Argentina".
      Colocamos Suécia e, em 24 horas, concederam a autorização para viver lá. Levaram-me algemado até o avião. Moro na Suécia hoje, criei uma companhia de consultoria.
      Fiquei um mês preso. Foi por milímetros, uma coisa terrível. Se me mandassem para a Argentina em vez de Porto Alegre, desapareceria e ninguém saberia.

        domingo, 6 de janeiro de 2013

        Pedra lunar presente dos EUA está 'esquecida' em universidade gaúcha

        FOLHA DE SÃO PAULO

        Da lua para o cofre
        Cidade gaúcha de Bagé é o lar de uma relíquia inusitada: uma pedra lunar trazida à Terra pelo projeto Apollo e presenteada ao governo militar
        FELIPE BÄCHTOLDENVIADO ESPECIAL A BAGÉ (RS)Em Bagé, cidade gaúcha próxima ao Uruguai, a reverência à personalidade local mais conhecida, o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), está por toda parte: nomes de prédios, placas e uma exposição de objetos pessoais.
        A principal fortuna que o presidente entre 1969 e 1974 deixou para a cidade, porém, está escondida em um cofre de uma universidade local.
        Em 1973, o militar, que comandou o país no auge da ditadura, recebeu um presente inusitado do então presidente americano Richard Nixon (1913-1994): uma pedra trazida da Lua por astronautas.
        O fragmento foi doado anos depois pelo general ao museu de sua cidade, mantido pela universidade privada local Urcamp (Universidade da Região da Campanha).
        Apesar do aspecto de pedaço de carvão e de seu peso de pouco mais de um grama, o valor da pedra pode alcançar milhões de dólares no mercado negro.
        O fragmento foi exposto por anos no Museu Dom Diogo de Souza sem ser muito notado. Até o dia em que reportagem em uma revista abordou o caso de uma outra pedra similar, furtada do governo de Honduras e avaliada à época em US$ 5 milhões.
        A direção da universidade decidiu retirar a relíquia de exposição e, há mais de dez anos, nenhum visitante pode observar o objeto histórico.
        SEM PATROCÍNIO
        Em 2012, a gestão do museu tentou organizar uma exposição sobre o espaço na qual a pedra seria a grande atração. Não conseguiu levantar R$ 80 mil necessários para o patrocínio, e o objeto de origem espacial continua guardado a sete chaves, em local não revelado.
        A pedra fica acomodada em uma esfera de acrílico pouco menor do que uma laranja. A redoma está fixada em uma placa de madeira, com inscrições em inglês falando em "símbolo do esforço humano".
        Um trauma na história do local contribui para o temor de furto: em 1989, o museu foi arrombado e teve objetos levados. Atualmente, um zelador durante o dia e outro à noite cuidam do acervo.
        A universidade não pretende deixar a pedra em exposição permanente. Em uma mostra temporária, a ideia é pedir auxílio ao Exército, que iria atuar na vigilância.
        A reitora, Lia Quintana, afirma que não há como arcar com os custos de uma exibição ininterrupta. "É como um quadro valioso", diz.
        Para piorar a situação, a Urcamp enfrenta uma crise financeira e esteve ameaçada de ter seu principal prédio levado a leilão neste ano. O orçamento anual da instituição é de R$ 45 milhões.
        A Folha foi autorizada a fotografar a pedra. Mas teve de esperar 40 minutos até que a direção da universidade retirasse a pedra do esconderijo.
        Em Bagé, cidade de 117 mil habitantes, há quem desconheça a existência do objeto.
        CASUALIDADE
        O advogado Fernando Sérgio Lobato, 66, diz que o fragmento foi parar no acervo do museu de maneira quase casual. Nos anos 1970, após Médici deixar a Presidência, Lobato era advogado dele e o ajudava com processos sobre escrituras de fazendas. Não cobrava honorários.
        Ele conta que certa vez visitou uma sala onde o presidente expunha objetos pessoais. "Tinha camisas de futebol autografadas. Ele perguntou se eu tinha uma escolha ali para fazer como presente. Eu disse que tinha escolhido a pedra da Lua: 'Quero que o senhor dê para o museu de Bagé'."
        E assim foi feito. Por pouco a pedra não ficou esquecida na coleção particular do presidente.

          Felipe Bächtold/FolhapressPedra lunar, acomodada em cilindro de acrílico, está em universidade em bagé (RS) Pedra lunar, acomodada em cilindro de acrílico, está em universidade em Bagé (RS)

          Grupo dos EUA rastreia rochas mundo afora
          DO ENVIADO A BAGÉEstudantes americanos liderados por um ex-investigador da Nasa (agência espacial dos EUA) tentam há anos descobrir o paradeiro de pedras lunares como a que foi doada ao Brasil nos anos 1970.
          Os Estados Unidos distribuíram naquela década fragmentos de uma pedra conhecida como "rocha da boa vontade" para 130 países e para os 50 governadores americanos.
          Os alunos do ex-investigador Joseph Gutheinz afirmam que já conseguiram rastrear, desde 1998, 79 dos fragmentos dados como presentes.
          Se parte dos souvenires está exposta em locais de prestígio, como o Museu Alemão de Munique, dezenas ainda têm o destino desconhecido.
          À Folha, questionado sobre a situação da pedra de Bagé, Gutheinz, que é professor de direito, diz que a peça pode ser exposta e protegida ao mesmo tempo. "A Nasa faz isso o tempo todo. Todas deveriam estar em exibição para o maior número possível de crianças."