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domingo, 21 de julho de 2013

Encomendas para o futuro - JOCA REINERS TERRON

folha de são paulo
ARQUIVO ABERTO
MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS
São Paulo, 1995


PRIMEIRO, CONHECI VALÊNCIO Xavier (1933-2008) por meio de "O Mez da Grippe", a obra-prima dele que carreguei em cópia xerox para todos os lados durante a faculdade, completamente transtornado.
Da segunda vez, conheci Valêncio Xavier por telefone, se é que é possível afirmar isso de alguém; creio que o mais correto seria dizer que fui apresentado à voz rouca e titubeante do escritor paulista em 1994, quando arrisquei ligar para um número arranjado na lista telefônica de Curitiba, cidade onde ele morava e para a qual eu viajara não fazia uma semana.
E afinal, conheci-o pessoalmente em São Paulo, em 1995; pessoa que, aliás, reunia toda a estranheza anunciada pela gagueira telefônica, coroada por uns olhos azuis irrequietos e branca cabeleira ouriçada de russo perdido nos trópicos. Em sua desarrumação, Valêncio parecia sempre ter sido transportado pelo vento. Naquela época ainda fumava, e também era possível imaginar que recém-pousara trazido pela fumaça do próprio cigarro.
Então eu tinha 27 anos, e ele, 62. Não que houvesse diferença de idades, ou talvez sim: eu era o ancião, e ele, uma criança de imaginação febril --Valêncio Xavier completaria 80 anos neste 2013.
A partir daí, Valêncio me acordaria o mais cedo possível em muitas ocasiões, ligando da "Gazeta do Povo", onde cumpria expediente. Sem cerimônia, gostava de fazer seus telefonemas por volta das 6h30, horário em que a Redação estava vazia. Para ele, não fazia a menor diferença se eu tinha ou não um bebê de poucos meses em casa ("Já que não anda dormindo mesmo", disse uma vez).
Os motivos eram variados: comprar um raro dicionário etimológico que eu encontrara no lixo, vangloriar-se, relatar histórias que andava escrevendo, anunciar-- Valêncio sempre anunciava algo, avisar era pouco para ele-- sua vinda a São Paulo.
Nessas ocasiões, ele me chamava na portaria da editora onde trabalhei alguns anos, na rua Conselheiro Nébias. Hospedava-se na vizinhança, no apartamento de seu sobrinho, o pintor Sergio Niculitcheff. Tomávamos café no Aldino's, um bar na esquina da Helvétia com a Barão de Limeira, e dali caminhávamos até a extinta livraria Duas Cidades, na Bento Freitas.
Por aquela altura eu planejava criar minha minúscula editora, a Ciência do Acidente, e queria estreá-la com um livro de Valêncio Xavier. Então os telefonemas, a cada dia mais madrugadores, passaram a tratar quase exclusivamente disso, da edição de seus livros.
O primeiro a sair foi "Meu 7º Dia - Uma Novella-rébus", em 1999, e pretendíamos publicar outro em seguida, "O Corpo do Sonho", que ainda permanece inédito. O livro, como toda sua obra, deveria ter ilustrações. Só que desta vez, Valêncio --que recuperava imagens de filmes mudos e antigos anúncios publicitários -- insistia que eu deveria produzi-las.
Como de costume, ele entregou o texto acompanhado de esboços a fim de me orientar. Os rabiscos (um deles ilustra esta recordação) eram excelentes, e tentei convencê-lo a fazê-los ele próprio, o que recusou. Então Valêncio teve Alzheimer, minha aventura editorial acidentou-se, e o livro não saiu.
Um dia, soube que ele encomendara os mesmos desenhos ao Sergio Niculitcheff. Foi o próprio Sergio quem me contou. Anos depois, recebi um telefonema inesperado de Curitiba, do ilustrador Ricardo Humberto, relatando que Valêncio também lhe pedira idênticos desenhos para ilustrar "O Corpo do Sonho". Fico imaginando a quantos desenhistas ele solicitou as tais ilustrações, e se as repetidas encomendas se deviam ao esquecimento causado pela doença ou à sua proverbial desconfiança com editores.
Porém, logo lembrei o sorriso maquiavélico de Valêncio e desconfiei que não, ele apenas devia estar sendo prevenido --se um furasse, outro não falharia. A verdade parece ser que todos furamos, e "O Corpo do Sonho" continua inédito e à espera de ilustrador.

    sábado, 13 de julho de 2013

    Clássico de Cortázar é relançado aos 50

    folha de são paulo
    Obra maior de argentino, 'O Jogo da Amarelinha' ganha edição com cartas em que escritor fala sobre processo criativo
    Romance, que segundo autor seria 'a crônica de uma loucura', precede celebrações pelos cem anos de seu nascimento
    SYLVIA COLOMBODE BUENOS AIRES"Não é uma novela, mas sim um relato muito longo que definitivamente acabará sendo a crônica de uma loucura." Assim explicava Julio Cortázar (1914-1984) em uma carta a um amigo sobre seu romance "O Jogo da Amarelinha", enquanto o escrevia, em pleno verão europeu de 1960.
    Aquela que seria sua principal obra, e uma das mais importantes do chamado "boom latino-americano", completa em 2013 exatos 50 anos de sua publicação.
    Já em fevereiro de 2014 serão celebrados os cem anos do nascimento do autor. Entre uma efeméride e outra, o mercado editorial hispano-americano e os órgãos de cultura do governo argentino preparam uma série de exposições, relançamentos e reedições de suas principais obras.
    É o caso da edição especial de "O Jogo da Amarelinha" que a Alfaguara argentina acaba de enviar às livrarias. Entre as novidades, contém as cartas de Cortázar que se referem ao "making of" do romance (e que incluem o texto mencionado acima).
    No Brasil, também sairá uma edição comemorativa, pela Civilização Brasileira, acompanhada de outros relançamentos, como o de "Bestiário", desde 1960 fora de catálogo.
    DEBATE
    "O Jogo da Amarelinha" apresenta a história de um triângulo amoroso, mas não só. Se lido linearmente do capítulo 1 ao 56, trata-se de uma história. Se seguido de acordo com a leitura que propõe Cortázar, salteada a partir do capítulo 73, é outra.
    "Os personagens não são o mais importante, e sim o rompimento com a estrutura e a relação com a linguagem. O livro é uma discussão sobre quantos mundos cabem na literatura, e sobre a literatura por si só", disse à Folha o editor espanhol Juan Cruz, um dos maiores especialistas em literatura hispano-americana.
    Na Argentina, Cortázar tem tido sua obra reavaliada. Enquanto críticos como Damian Tabarovsky defendem que seu legado é superestimado, outros apontam o fato de ser central como referência para a produção contemporânea.
    É comum que se faça um traçado direto de influências entre seu legado e o do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003). "Assim como Cortázar, Bolaño rompeu com a estrutura narrativa e ofereceu uma alternativa a uma geração", diz Cruz.
    O argentino, que nasceu na Bélgica e viveu em Paris, se identificava com "O Jogo da Amarelinha" mais do que com qualquer de suas obras.
    "Há um gigantismo em Cortázar, que é físico. Como ele tinha uma síndrome hormonal que fazia com que não deixasse de crescer, por muito tempo em sua vida pareceu um adolescente. Assim é O Jogo da Amarelinha' também, um romance que, por sua forma aberta, interativa, não para de desenvolver-se", diz o editor brasileiro Sergio Molina.
    Na Argentina, as comemorações alimentam um debate político. Como o autor era antiperonista convicto, a oposição ao governo kirchnerista o assume como alguém que hoje estaria a seu favor. Já os governistas apelam para seu lado de militante das causas esquerdistas latino-americanas, que incluiu um amplo apoio à Cuba revolucionária.
    "É muito reducionista pensar Cortázar nesses termos. Sua importância, mais do que nada, é literária e cultural, nesse sentido é universal, vai muito além do debate argentino", diz o editor argentino Augusto Di Marco.
      OPINIÃO
      Livros que despertam paixão em jovens são os que mais têm sua memória vilipendiada
      SE CÉSAR AIRA DIZ QUE 'O JOGO DA AMARELINHA' É O PIOR DE CORTÁZAR, BOLAÑO NUNCA ESCONDEU SUA ADMIRAÇÃO PELO ROMANCE
      JOCA REINERS TERRONESPECIAL PARA A FOLHAA medida da rejeição de um livro amado na juventude é a mesma desse amor, só que ao contrário. Nós, que amávamos tanto "O Jogo da Amarelinha", hoje sabemos disso. Livros que despertam paixão no leitor imberbe são aqueles que mais têm sua memória vilipendiada.
      Os prelúdios do fim são idênticos aos do processo amoroso: aquela pálpebra desmaiada e a perninha torta que antes simbolizavam o cúmulo intransferível da beleza de repente passam a ser meros defeitos.
      O romance de Julio Cortázar reuniu três tipos de romances em um só: o romance existencialista francês (rapazes de sobretudos negros esvoaçantes sobre as pontes do Sena), também compreensível como "romance sobre Paris" (é todo um gênero literário, inaugurado por Baudelaire); romance dentro do romance (em meio à transa de Oliveira e Maga acontece a caça a um escritor desparecido, Morelli); e o romance de latino-americano exilado, cuja escola inaugurou.
      Esses romances são reunidos sob forma lúdica e experimental, que em seu momento correspondeu àqueles símbolos personalíssimos ali de cima (o olhinho caído, o coxear etc) e atualmente representam rugas e pés-de-galinha: a prova inconteste de que o livro envelheceu mal.
      "O melhor Cortázar é um Borges ruim", afirmou o escritor César Aira, abrindo a porta para que outros rejeitassem publicamente sua primeira namorada, a Maga. Quanta deselegância. Além de ressaltar que "O Jogo da Amarelinha" é o pior de Cortázar (o melhor seriam os contos), Aira também disse que o carinhoso ogro belga serve apenas aos "adolescentes que querem ser escritores".
      Sem dúvida, esse caráter iniciático ingressa o cinquentão ao restrito clube de livros da puberdade escritos por Boris Vian, J.D. Salinger, Jack Kerouac, Clarice Lispector, Fernando Sabino etc, servindo de base ao caçula da turma: Roberto Bolaño nunca escondeu sua admiração por "O Jogo da Amarelinha", e "Os Detetives Selvagens" --um romance experimental sobre latino-americanos exilados que esconde um romance sobre a caça a um escritor desaparecido-- a seu modo atesta a sobrevivência dos supostos erros de Cortázar, sua fé imóvel na contribuição inteligente e sensível do leitor para a conclusão do livro, na contribuição milionária de todos os erros.

        sábado, 30 de março de 2013

        Joca Reiners Terron

        folha de são paulo

        CRÍTICA ROMANCE
        Em "1Q84 - Livro 2", Murakami só extrai do leitor óbvias reações de concordância
        JOCA REINERS TERRONESPECIAL PARA A FOLHAComparado a Kafka e a García Márquez, Haruki Murakami tem mais a ver consigo mesmo, ou pior, seus livros mais recentes (incluindo a trilogia "1Q84", cuja segunda parte acaba de ser lançada) soam como repetição capenga de anteriores, como "A Crônica do Pássaro que Dá Corda ao Mundo", inédito no Brasil.
        Nesses romances, o autor japonês criou sua mistura de ficção científica, policial "hard-boiled" e conto açucarado de banca de jornal.
        Com um método narrativo baseado em repetição, enigmas e algum erotismo, Murakami reinventa o "ethos" do folhetim clássico: heróis a combaterem o poder oculto e seitas secretas que governam o mundo.
        Outra característica da ação folhetinesca, porém, é o achatamento moral de personagens maniqueístas, e tal bidimensionalidade se estende a vários aspectos pessoais desses tipos heroicos.
        O esquema "decimonônico" do seriado periódico se adaptou contemporaneamente aos quadrinhos do "Superman" e outros fantasiados (exceção feita aos "Watchmen", de Alan Moore, que tornou mais complexa a conformação simplista do caráter).
        Mas certamente não cai bem na obra de um autor lembrado com frequência para ganhar o Nobel de literatura -ao menos pelo marketing das editoras-, por motivo básico: o que Murakami faz não é literatura.
        Em "1Q84", Tengo é um jovem professor de matemática contratado para reescrever o romance de Fukaeri, adolescente disléxica cuja relação com a seita religiosa Sakigake, liderada por um estuprador de crianças, é nebulosa.
        Tengo, embora tenha aceitado a tarefa de ghost-writer, é incorruptível. Aomame, a heroína, é dotada atleta e professora de ginástica, contratada para assassinar homens que maltratam mulheres.
        Ambos se envolveram platonicamente na infância, quando Tengo a protegeu da sanha de colegas maldosos. Nunca mais se viram, porém ainda alimentam um amor idealizado. Tendo por base tais elementos, Murakami extrai do leitor apenas óbvias reações de concordância e expectativa satisfeita.
        A suspensão hábil da satisfação iminente conduz a leitura ao longo da trama estapafúrdia de homúnculos, cidades habitadas somente por gatos e tramas românticas dignas de novelas mexicanas, do tipo "mãe-abandona-o-pai-que-cria-o-filho-de-outro".
        Mesmerizado, o leitor diante da página não aprende coisa alguma, assim como os personagens, que não se transformam (a não ser por meio de cirurgias plásticas ou magia), enfim não ganha nada.
        E ponto inegociável é que a verdadeira literatura deve ser crime que recompensa, não mero entretenimento.

          domingo, 10 de março de 2013

          O espírito febril de Roberto Bolaño vive

          folha de são paulo

          LITERATURA
          Bolañismo selvagem
          RESUMO Cultuado sobretudo após sua morte, que em julho completa dez anos, o prolífico escritor chileno deixou inúmeros originais por publicar. Grande mostra de seus arquivos em Barcelona, além de novos livros dele próprio e sobre sua biografia revelam personagem menos boêmio do que o mito que se erigiu à sua volta.

          CASSIANO ELEK MACHADO

          A 22 ESTAÇÕES de trem a partir do centro de Barcelona há uma cidadezinha chamada Blanes. Com prédios baixos, estreitos e beges, e um vento que despenteia todos os dias do ano os cabelos de seus 39.785 habitantes, Blanes passaria despercebida no recreio da escola, se os "pueblos" do litoral catalão fossem ao colégio. Não tem a exuberância da quase vizinha Cadaqués, não é a capital regional das anchovas (como poderia se gabar L'Escala), tampouco reúne a cada ano milhares de pessoas vestidas de Darth Vader, zumbis ou Frankenstein, a exemplo da colega mais ao sul Sitges, sede de um festival de cinema fantástico.
          Mas no verão de 1985, um chileno magrelo de vasta cabeleira cacheada se mudou para a cidade. Sua mãe havia aberto uma lojinha de bijuterias, e o ex-lavador de pratos e ex-vigia noturno de camping vinha ajudá-la a vender brincos, pulseiras e colares baratos. O rapaz, não há mistério, era Roberto Bolaño e, usando Blanes como "cockpit", consagrou-se como "o mais admirado e influente escritor de sua geração", nos dizeres da crítica americana Susan Sontag.
          As façanhas literárias empreendidas por Bolaño (1953-2003) nos seus anos de Catalunha seriam dignas de uma grande exposição num museu de ponta. Ao menos foi a essa conclusão que chegaram os diretores de um dos principais espaços culturais de Barcelona, o Centre de Cultura Contemporània de Barcelona (CCCB), que inaugurou na semana passada a mostra "Arxiu Bolaño 1977-2003".
          A exposição, em cartaz até o último dia de junho, ocupa todo o andar térreo da portentosa sede da instituição, uma antiga maternidade no bairro do Raval, a três quadras do estúdio de 15 metros quadrados onde viveu Bolaño assim que chegou à Espanha, em 1977.
          Centenas de pessoas, entre moleques com "dreadlocks", senhores de bengala e óculos fundo de garrafa e um sujeito corpulento e descabelado vestindo um casaco fosforescente de lixeiro (um personagem de Bolaño?), enfrentaram a noite chuvosa e fria de terça para olhar em primeira mão o arquivo do escritor, morto há dez anos. Ganharam "buttons" com os dizeres "Soy Bolañista!" e o acesso a uma espécie de Disneylândia literária.
          Estão expostos mais de 400 itens, entre originais de romances, contos e poemas, cadernos, fotos, vídeos, desenhos, livros, jogos de tabuleiro e alguns objetos pessoais, como a máquina de escrever elétrica Olivetti ET Personal 55 na qual batucou parte de sua obra. Poucas peças causam alarido comparável ao produzido pelos três pares dos óculos que qualquer bolañista básico consegue visualizar encaixados no rosto do escritor.
          MÉTODO Fetichismos à parte, é o conteúdo dos textos a grande atração. "Esses documentos evidenciam o método de trabalho de Bolaño", afirma a curadora literária da exposição, Valerie Miles, em entrevista num dos cafés prediletos de Bolaño, o Café-Bar Centric, em Barcelona. "Olhando o arquivo fica claro que cada anotação e cada livro é uma peça da grande máquina que é a sua obra."
          Norte-americana radicada há duas décadas na Espanha, onde edita a versão local da revista literária "Granta", Miles passou os últimos quatro anos encrustada nos arquivos do escritor, que ficam no apartamento da viúva dele, Carolina López, em Blanes.
          Na abertura da mostra, López trazia na ponta da língua a dimensão da papelada produzida pelo ex-cônjuge, a quem conheceu numa rambla de Girona, em 1981 ("Ele veio em minha direção, sem que nos conhecêssemos, e perguntou: "Quer jantar lá em casa?"). "São 14.374 páginas de originais, à mão e à máquina, e o equivalente a mais de 24 mil páginas impressas de computador", contabiliza a mulher alta e enérgica, ladeada pelos dois filhos que teve com o escritor: Alexandra, 11, e Lautaro, 22, estudante de cinema.
          Outro cômputo de Carolina eriça o bolañismo. Por ocasião da mostra, ela revelou que é vasto o conjunto de inéditos do escritor: "Há ao menos quatro romances, 26 contos, além de dezenas de poemas e de toda a correspondência".Se a palavra "inédito" provoca pequenos choques quando acoplada ao trabalho de qualquer grande escritor morto, neste caso o espanto é maior, dado o manancial de póstumos de Bolaño. Seu histórico editorial, por isso, merece repasse.
          Nascido em Santiago, filho de um caminhoneiro boxeador e de uma professora, Roberto Bolaño Ávalos foi viver no México aos 13 anos e lá publicou, em 1976, seu primeiro livro, o volume de poesia "Reinventar el Amor".
          Embora tenha escrito ininterruptamente desde o final da adolescência e tenha publicado em edições regionais quase secretas, ele só viria a estrear numa grande editora em 1996, aos 43, com o romance "La Literatura Nazi en América", lançado pela Seix Barral (e inédito no Brasil). No mesmo ano, publicou seu primeiro livro pela Anagrama, casa editorial espanhola que lançou espantosos 18 livros do autor desde então, sendo um deles, o póstumo "2666", um mamute de 1.126 páginas (na edição brasileira, são 856).
          "Ele era um grafômano", afirma o fundador e diretor da Anagrama, Jorge Herralde. "Vivia dentro da literatura e trabalhava, e muito, para ela", diz à Folha na sede da editora em Barcelona, num predinho alaranjado no bairro de Sarrià.
          Exemplo do voluntarismo de Bolaño está numa carta enviada a Herralde, e exposta na mostra do CCCB, sobre o grandioso romance "Os Detetives Selvagens" (1998), que compõe com "2666" seus maiores sucessos (na Espanha, "Os Detetives..." vendeu 170 mil exemplares e "2666" outros 120 mil; no Brasil, o mais vendido é "2666", com quase 17 mil cópias).
          "Trabalho duro, mas o texto resiste como o coelho da Duracell, e a cada página que elimino saem outras duas. Por exemplo: na segunda parte, que é a mais volumosa (na realidade, a primeira e a terceira parte são o prólogo e o epílogo do romance), há 50 personagens que falam em primeira pessoa e mais de 300 personagens que também falam e falam e a quem acontecem coisas e se apaixonam e morrem", escreve Bolaño.
          Para não se perder em meio ao povaréu que criava, o autor fazia listas e mais listas, com nomes e características de cada personagem. Sobre Oscar Amalfitano, protagonista do recém-lançado no Brasil "As Agruras do Verdadeiro Tira" [trad. Eduardo Brandão, 320 págs. R$ 44,50], nono título de Bolaño pela Companhia das Letras, ele rabisca, com caligrafia clara e delicada, o seguinte: "Professor de literatura e ex-membro de grupos de extrema esquerda latino-americanos. Homossexual recentíssimo. 50 anos. Único da universidade que leu Arcimboldi".
          O fato de que Amalfitano faça uma participação em "2666", ou que o citado Arcimboldi seja, com a grafia Archimboldi, um dos grandes personagens do mesmo romance, ajuda a ilustrar a maneira como trabalhava o autor, em que as obras sempre se comunicam, como num grande caleidoscópio.
          CALEIDOSCÓPIO O termo não é, aliás, nada estranho a Bolaño. Por isso foi adotado no título de um dos três segmentos da exposição, cada um centrado numa das cidades catalãs onde ele viveu, seguindo uma tradição do CCCB de exposições sobre escritores e cidades (Kafka e Praga, Pessoa e Lisboa etc.). "Dentro do Caleidoscópio" é a seção dedicada a Girona, cidade a 99 km de Barcelona onde Bolaño esteve entre 1980 e 1984, quando produziu uma parte do grande farnel de inéditos anunciados por Carolina López.
          No underground bolañista, um dos mais comentados inéditos se chama "O Espírito da Ficção Científica". "Eu me senti perdido e feliz no meio daquela escada. A escada em si, que antes não significa nada em especial, se transformou em algo extraordinário: metade serpente, metade desfiladeiro", escreve, num trecho exposto da obra. Os dois cadernos de rascunhos para o livro estão numa vitrine, ao lado de exemplares de obras lidas enquanto o escrevia: de obras de ficção científica de Ursula K. Le Guin a "O Idiota", de Dostoiévski.
          "O Espírito da Ficção Científica" é um dos primeiros trabalhos de prosa de Bolaño, que até o fim dos anos 1970 escrevia basicamente poesia. O romance inaugural do autor é uma obra a quatro mãos, forjada com o catalão A. G. Porta, "Conselhos de um Discípulo de Morrison a um Fanático de Joyce".
          A dupla faturou com esse romance policial à Bonnie & Clyde um prêmio chamado Âmbito Literário. "Bolaño chamava esses prêmios regionais, que davam algum dinheiro, de 'prêmios Búfalo', à caça dos quais um pele-vermelha tinha de sair, porque deles se sustentava", explica Jorge Herralde.
          Presente na abertura da mostra, Porta, 59, diz que por muitos anos perguntaram ao chileno como eles haviam "caçado esse búfalo" a quatro mãos. "Ele era extremamente bem-humorado, e cada vez respondia uma coisa diferente."
          E qual a verdadeira? "A menos divertida de todas. Eu tinha um esboço do romance. Enviei a ele para pedir a sua opinião. Ele sugeriu tantas coisas que acabamos assinando juntos", relembra Porta. "Bolaño queria escrever outras obras a quatro mãos, e cheguei a começar com ele 'La Literatura Nazi en América'. Mas era impossível acompanhar seu ritmo", diz. "Ele então já vivia em Blanes, dormia no chão da loja de bijuterias da mãe e escrevia sem parar."
          Na época, o escritor gostava de distribuir um cartão de visitas que dizia "Roberto Bolaño - Poeta e Preguiçoso". Quanto ao preguiçoso, não há muita controvérsia, mas nos meios literários de Barcelona há um longo e inconclusivo debate sobre qual era a essência dele como escritor: prosador ou poeta.
          Porta, cúmplice da primeira prosa, não pestaneja: "Bolaño era totalmente um poeta". Valerie Miles, curadora da exposição com o argentino Juan Insua, defende o caráter anfíbio do escritor. Ela diz ter encontrado no arquivo incontáveis exemplos de textos que estavam em poesia e ele transformaria em prosa, e vice-versa. "Sua mecânica era a da multiplicidade. Reescrevia, quebrava o texto em partes, colocava uma narrativa dentro de outra, a poesia em prosa, e a prosa, em poesia", afirma.
          Miles, que só esteve com Bolaño uma vez, diz que, das anotações do escritor, emerge um personagem muito diferente daquele que imaginava e enumera uma lista de "surpresas". "Nos seus escritos mais pessoais, ele se revela um homem metódico, caseiro e familiar. Um sujeito que anotava por todos lados a frase 'sou incrivelmente feliz'. Isso tudo destoa da figura do maldito boêmio que projetam."
          MORTE Um dos mitos mais difíceis de tourear é o de que a enorme produção dos últimos anos do escritor esteja diretamente ligada ao fato de que ele sabia que a morte estava próxima. No pequeno escritório sem telefone, no segundo andar de um prédio magricela, num trecho sem saída da Carrer del Lloro, talvez a rua mais estreita de toda Blanes, de fato Bolaño escreveu em alguns anos mais que a maioria dos autores numa vida inteira. E essa entrega selvagem à literatura se intensificou depois do diagnóstico da doença congênita no fígado que viria a matá-lo.
          Mas alguns de seus interlocutores mais frequentes dos últimos anos, como Herralde, dizem que foram pegos de surpresa pelo telefonema recebido do Hospital Vall d'Hebron, na madrugada de 15 de julho de 2003. "Todos sabiam da gravidade da doença, mas duvido que alguém imaginasse que ele fosse partir naquele momento."
          Mais do que opiniões e memórias, no caso de Bolaño o melhor é recorrer à literatura. Na abertura de "Enrique Martín", conto do livro "Chamadas Telefônicas" (1997) dedicado ao amigo escritor Enrique Vila-Matas (e que parece um texto do próprio Vila-Matas), Bolaño escreve o seguinte:
          "Um poeta pode suportar tudo. O que equivale a dizer que um homem pode suportar tudo. Mas não é verdade: são poucas as coisas que um homem pode suportar. Suportar mesmo. Um poeta, em compensação, pode suportar tudo. Com essa convicção crescemos. O primeiro enunciado é correto, mas conduz à ruína, à loucura, à morte".
          Usando Blanes como "cockpit", Bolaño consagrou-se como "o mais admirado e influente escritor de sua geração", nos dizeres da crítica americana Susan Sontag
          Se a palavra "inédito" provoca pequenos choques quando acoplada ao trabalho de qualquer grande escritor morto, neste caso o espanto é maior, dado o manancial de póstumos de Bolaño
          "Trabalho duro, mas o texto resiste como o coelho da Duracell, e a cada página que elimino saem outras duas", escreve Bolaño sobre "Os Detetives Selvagens"
          A. G. Porta, cúmplice da primeira prosa, não pestaneja: "Bolaño era totalmente um poeta". Valerie Miles, curadora da exposição com o argentino Juan Insua, defende o caráter anfíbio do escritor

            Efeméride traz onda biográfica
            JOCA REINERS TERRON
            EM SUA ÚLTIMA entrevista, concedida à jornalista argentina Mónica Maristain e publicada pela "Playboy" mexicana no mesmo julho de 2003 em que morreria, Roberto Bolaño brincou com a ideia da posteridade: questionado acerca do que a palavra "póstumo" lhe despertava, afirmou que soava a "nome de gladiador romano". "Um gladiador invicto."
            Adiantando-se à efeméride dos dez anos da morte do escritor, Maristain publicou no final de 2012, no México, "El Hijo de Míster Playa - Una Semblanza de Roberto Bolaño" (O filho de Mister Playa - Um perfil de Roberto Bolaño). Foi a primeira biografia dedicada ao chileno; uma leva está a caminho.
            Diz-se que a herdeira dos direitos de Bolaño, sua viúva, Carolina López, prepara a sua por sugestão do agente literário Andrew Wylie; Ignacio Echevarría, "testamenteiro" do escritor (responsável pela edição de "2666"), redige perfil encomendado pela editora da universidade chilena Diego Portales, que publicou as entrevistas selecionadas por Andrés Braithwaite em "Bolaño por Sí Mismo".
            Esses documentos têm sido antecedidos por livros concebidos em vida pelo autor -tais como "El Gaucho Insufrible" ou os poemas reunidos em "La Universidad Desconocida"- e por fundos de gaveta -como "O Terceiro Reich" e "As Agruras do Verdadeiro Tira".
            Entre uma e outra obra, a posteridade de Bolaño vem se assemelhando perigosamente à segunda parte de seu romance "Os Detetives Selvagens", na qual personagens depõem sobre as múltiplas facetas de Arturo Belano -alter ego do autor- e Ulises Lima, sem nunca completar um retrato.
            Nesse aspecto, a biografia inaugural é assombrada pela ausência de Carolina López, que se recusou a contribuir com Mónica Maristain. Questionada sobre se esse silêncio diminuía a importância de suas 362 páginas, a autora respondeu com três letras: "Não".
            O relato afetuoso e parcial da jornalista expõe a separação de Bolaño e Carolina e revela a namorada catalã do escritor, Carmen Pérez de Vega, que o acompanhou na última noite. O depoimento de Carmen (vazio certeiro do perfil a ser publicado pela viúva) é o trunfo de "El Hijo de Míster Playa".
            Construído sobre longas entrevistas, o livro retrata as horas derradeiras de Bolaño sem pudor, o que causou desagrados: "De cara, gerou a indiferença da viúva, empenhada em apagar de sua vida sua última mulher", diz Maristain. Mas não só: "Também tive problemas com Carmen, que esperava que atenuasse as partes mais duras". Essas partes, se são duríssimas, comovem pela valentia de Bolaño, que, em meio à crise hepática, só queria imprimir o original de "El Gaucho Insufrible" para levá-lo à editora. E assim o fez.
            Bolaño subsiste como polemista ácido, amante sedutor, amigo cômico e escritor apaixonado pela leitura. Se Mónica Maristain pudesse lhe fazer mais uma pergunta, qual seria? "Perguntaria se gosta da literatura de Jonathan Franzen". Impossível saber, mas feliz do americano -exímio observador de pássaros- que pode apreciar a ave rara que é Roberto Bolaño.

              sábado, 9 de fevereiro de 2013

              Colombiano cria competente narrativa sobre o narcotráfico


              folha de são paulo
              CRÍTICA ROMANCE
              Juan Gabriel Vásquez enfoca geração marcada pelo medo e pelo crime em Bogotá
              JOCA REINERS TERRONESPECIAL PARA A FOLHAQuase nada resiste à força da gravidade em "O Ruído das Coisas ao Cair", e isso não inclui só objetos; dentre aquilo que cai certamente não está a crença do leitor, que permanece intacta até o final.
              Competente narrativa encenada nas circunstâncias do surgimento do narcotráfico no início dos anos 19 70, a leitura do romance do colombiano Juan Gabriel Vásquez soa sugestiva ao cidadão brasileiro dos dias atuais, pois explora efeitos de um assassinato ocorrido em frente a um bar do centro de Bogotá, no início de 1996.
              Antonio Yammara, o narrador, era então um jovem professor que passava momentos de folga num salão de bilhar perto da universidade.
              Ali, aproxima-se do ex-presidiário Ricardo Laverde, pelo qual desenvolve curiosidade antropológica: enigmático acerca de seu passado e presente, Laverde termina por se tornar um tipo de amigo.
              No entanto, numa tarde em que algumas barreiras impostas pela discrição costumeira de Laverde começavam a cair, disparos dados por um motoqueiro o matam.
              Anos depois, ainda traumatizado com o evento, imerso numa crise pessoal, o professor resolve investigar as causas da morte de Laverde.
              É aí que tem início a história: seguindo passos de Elaine, ex-mulher de Laverde, ela também morta num acidente aéreo, Antonio chega a Maya Fritss, filha do casal.
              Ambos se encontram para juntos completarem um quebra-cabeça que é a história deles próprios, a dos nascidos na Colômbia nos anos 1970 e crescidos simultaneamente à lenda e à fortuna do traficante Pablo Escobar.
              A originalidade do livro se deve à perspectiva íntima de Elaine Fritss, adotada para desvelar um enredo conhecido do público através de tantos filmes. Norte-americana, voluntária dos Corpos da Paz, ela se casa com Laverde, cujo sonho é ser piloto comercial.
              Têm uma filha, e dentro dessa conformação pequeno-burguesa e ideológica de "auxílio a países em desenvolvimento" nasce a oportunidade, aos poucos compreendida por Elaine em sua ingenuidade, de traficar cocaína.
              Ameaçado pelo tom altissonante em certas passagens, "O Ruído das Coisas ao Cair" não vacila diante da emoção e obriga o leitor a permanecer de olhos bem postos na obra futura de Vásquez.
              JOCA REINERS TERRON é autor de "Do Fundo do Poço se Vê a Lua" (Companhia das Letras), entre outros.

                FICÇÃO
                ROMANCE
                Rebecca - A Mulher Inesquecível
                Daphne Du Maurier
                EDITORA Amarilys
                TRADUÇÃO Mariluce Pessoa
                QUANTO R$ 49 (448 págs.)
                A jovem narradora imagina que vai viver um conto de fadas ao se casar com Max de Winter, misterioso viúvo. Ao se mudar
                para a propriedade do marido, porém, ela será atormentada por mistérios que cercam a vida da primeira mulher de Max,
                Rebecca. O livro inspirou filme de Alfred Hitchcock de 1940.
                ROMANCE
                O Fio
                Victoria Hislop
                EDITORA Intrínseca
                TRADUÇÃO Adalgisa Campos da Silva
                QUANTO R$ 29,90 (368 págs.)
                A britânica Victoria Hislop compõe uma saga que tem como pano de fundo quase cem anos da história da Grécia. Em Tessalônica, segunda maior cidade do país, nasce em 1917 Dimitri Komninos. Anos depois seu destino irá cruzar com o da jovem Katerina, que chega à Grécia fugindo do Exército turco.

                  NÃO FICÇÃO
                  MÚSICA
                  Pequena História da Música Popular Segundo seus Gêneros
                  José Ramos Tinhorão
                  EDITORA Editora 34
                  QUANTO R$ 49 (352 págs.)
                  Traz a origem de diversos gêneros da música popular desde o século 18, com a modinha e o lundu, até a lambada. Reúne histórias como as primeiras gravações do samba de breque, com Moreira da Silva, nos anos 1930. José Ramos Tinhorão, o autor do trabalho, é jornalista, pesquisador e crítico musical, autor de obras de referência no assunto.
                  MÚSICA
                  Arnaldo Canibal Antunes
                  Alessandra Santos
                  EDITORA nVersos
                  QUANTO R$ 79,90 (296 págs.)
                  O trabalho relaciona a obra de Arnaldo Antunes, na música, na poesia e nas artes visuais, com o movimento modernista brasileiro. Partindo das ideias de Oswald de Andrade, a autora defende que Arnaldo é o artista mais "antropófago" do Brasil nos dias de hoje. Alessandra Santos é professora de letras na Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e tradutora.

                    segunda-feira, 19 de novembro de 2012

                    Antologia reafirma veia inflamável de Bukowski - Joca Reiners Terron


                    Antologia reafirma veia inflamável de Bukowski
                    Tradução divulga no país principal forma de expressão do americano
                    JOCA REINERS TERRONESPECIAL PARA A FOLHACharles Bukowski (1920-1994) ficou mais conhecido no Brasil pela ficção, mas aos poucos sua relevante face de poeta vai sendo restabelecida, graças também às traduções de Fernando Koproski.
                    "Amor é Tudo que Nós Dissemos que Não Era" é a segunda antologia organizada por ele, tão abrangente quanto a primeira, "Essa Loucura Roubada que Não Desejo a Ninguém a Não Ser a Mim Mesmo Amém", de 2005.
                    O "velho Buk" é dos escritores cuja lenda sobrepuja a obra. Mas, quando se passa aos textos, não há ceticismo: a poesia tem duende.
                    A matéria-prima é o dia a dia, minúcias do trabalho duro que rouba horas de vida e a literatura que a salva do automatismo da existência.
                    Dividido em seções que abordam o amor, a cidade de Los Angeles e o que se poderia chamar de relacionamentos -mulheres, escritores, leituras, bebida, o corpo e o mundo-, o livro mostra a franqueza punk das observações do poeta: a bunda da garota paquerada de relance na escada rolante é motivo para desvelar ao namorado dela a sorte que lhe espera, "daquele balde aquecido de/ intestino,/ bexiga,/ rins,/ pulmões,/ sal,/ enxofre,/ gás carbônico/ e/ catarro". Quanta sorte.
                    Bukowski começou a escrever poesia aos 35 anos. As dezenas de antologias que publicou colocam-na como veio principal de sua expressão, acercando-o de Raymond Carver, outro que usou o bar para observar o comportamento alheio.
                    Como se sabe, grande parte do álcool é glicose e, no caso de Bukowski, é altamente inflamável no que tange ao amor romântico e a quem por ele é tangido. E poesia é aquilo que nem sempre costuma acontecer; porém, no caso dele, pega fogo o tempo todo.
                    JOCA REINERS TERRON é autor de "Do Fundo do Poço se Vê a Lua" (Companhia das Letras), entre outros.

                      sábado, 17 de novembro de 2012

                      Murakami reinventa ethos do folhetim clássico - Joca Reiners Terron


                      Em "1Q84", autor japonês, eterno cotado ao Nobel de Literatura, cria heroína sexy que vinga mulheres espancadas
                      JOCA REINERS TERRONESPECIAL PARA A FOLHA
                      UM ASPECTO DE ORDEM ESTRUTURAL É ONIPRESENTE EM "1Q84": A REPETIÇÃO NOVELÍSTICA. É IMPOSSÍVEL SE PERDER NA EXTENSA TRAMA
                      Mais de um crítico relaciona Haruki Murakami ao realismo mágico latino-americano. Diferentemente de García Márquez e companhia, de estilista da linguagem o japonês não tem nada, e sua fatura demonstra a personalidade de uma bula de remédio.
                      Contudo, diacho, é impossível parar de ler "1Q84".
                      Diversas qualidades desse catatau de mais de mil páginas em três volumes, incluindo o irrefreável anseio vira-páginas, permitem compará-lo a outro produto típico destas bandas do sul do mundo: a telenovela brasileira.
                      Blasfêmia?
                      Que nada. Ainda concernente ao estilo, um aspecto de ordem estrutural é onipresente em "1Q84": a repetição novelística.
                      O autor repete e repete informações que o leitor está careca de saber, como afirmando a cada reiteração: "Prestou atenção nisso? É importante".
                      Assim, torna-se impossível se perder em meio à extensa trama. E há a exuberância inverossímil dos protagonistas: a sexy Aomame é a assassina de espancadores de mulheres (parecida demais com a personagem Lisbeth Salander do jornalista e escritor sueco Stieg Larsson), ex-testemunha de Jeová e mestre em artes marciais. Tengo é um escritor inédito contratado pelo editor Komatsu para reescrever "Crisálida de Ar", romance da adolescente disléxica Fukaeri.
                      Com hábil condução, Murakami imbrica essas duas histórias aos poucos.
                      Ano após ano, às vésperas do Nobel, Murakami vai ao topo das listas de apostas.
                      Investir em sua vitória, porém, não seria diferente de jogar fichas em Larsson (se vivo fosse) ou Henning Mankell, com uma diferença: os suecos militaram politicamente, ao contrário do japonês, e isso costuma somar pontos para o prêmio.
                      Então o que os aproxima? Todos praticam ficção de entretenimento, vala larga e profunda onde cabe quase tudo, inclusive qualidade, com larga influência americana.
                      E o que diferencia o tão cotado autor de "1Q84"?
                      Comparado com Kafka, Salinger etc., Murakami tem mais a ver com si próprio, ou melhor, seus livros mais recentes soam como pálido arremedo de anteriores, como "País das Maravilhas Duro de Roer e o Fim do Mundo", inédito no Brasil.
                      Nesses romances, ele criou sua mistura caudalosa de ficção científica com "hard-boiled" e romance açucarado de banca de jornal.
                      Com eficiente método narrativo baseado em repetição, enigmas, sexo, humor esquisito, Murakami reinventa o ethos do folhetim clássico: heróis a combaterem o poder oculto e as seitas secretas que governam o mundo. Porém, ao contrário de "Os Três Mosqueteiros", de Dumas, a "realidade" de Murakami só pode ser escrita entre aspas.