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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Comissão pretende confrontar coronel Ustra com vítima de tortura

folha de são paulo
Acusado de crimes de lesa-humanidade, Brilhante Ustra comandou DOI-Codi de São Paulo no auge da repressão
No 1º depoimento, em maio, oficial defendeu ditadura militar, negou crimes e afirmou que apenas cumpria ordens
LUCAS FERRAZDE SÃO PAULOA Comissão Nacional da Verdade quer um novo depoimento do coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, 81, símbolo da tortura na ditadura militar (1964-1985).
O anúncio foi feito ontem por uma das integrantes do grupo, Rosa Cardoso, que participou em São Paulo de audiência conjunta com a Comissão Estadual da Verdade.
Oficial que comandou o DOI-Codi de São Paulo de 1970 a 1974, auge da repressão, Ustra é acusado de vários crimes de lesa-humanidade. Ontem, Rosa o chamou de "macabro herói tropical".
O coronel é o primeiro --e até agora único-- militar declarado torturador pela Justiça brasileira.
Ele prestou depoimento à Comissão da Verdade, em Brasília, em maio deste ano. Defendeu a ditadura, negou os crimes e afirmou que somente cumpria ordens.
A audiência foi criticada sobretudo pela passividade dos integrantes da comissão.
O resultado foi insatisfatório, reconheceu Rosa Cardoso. "Não tínhamos experiência, e à época ficou decidido não confrontá-lo com testemunhas para não se transformar numa sessão longa. Agora devemos fazer isso", afirmou, citando como exemplo as audiências que ocorreram no Rio na semana passada.
Além de acareações, o grupo quer usar novos documentos do período para inquirir o coronel sobre sessões de torturas e mortes no DOI-Codi --no período que Ustra chefiou o centro, a comissão contou 502 casos de maus-tratos e mais de 40 mortes.
Ontem, familiares de desaparecidos apresentaram informações sobre episódios --todos eles já conhecidos-- que teriam tido a participação direta de Ustra.
A ex-presa política Amélia Teles disse ter sido torturada pelo coronel, ao lado do companheiro e da irmã grávida. Também foram entregues papéis sobre o assassinato de Luiz Eduardo Merlino, em 1971, morte que embasou uma das condenações do coronel na Justiça.
Indagada sobre o motivo de a comissão voltar a Ustra, e não buscar generais ou outros oficiais da cúpula militar também suspeitos de crimes, Rosa Cardoso afirmou que é preciso focar os "símbolos da ditadura".
"Pegar os símbolos é importante para que a sociedade saiba o que aconteceu, podemos ter uma repercussão três vezes maior", disse.
Ustra nega os crimes. A mulher dele, Joseíta Ustra, afirmou à reportagem que não teria como localizar ontem o advogado Paulo Esteves, que fala pelo cliente.
DESFALCADA
Esta será a última semana de Rosa Cardoso como coordenadora da comissão. Ela disse que soube pelos jornais que José Carlos Dias foi designado para ocupar o posto.
Ela nega crise no grupo. Afirmou apenas que há "visões políticas diferenciadas".
Há dois meses a comissão atua com dois integrantes a menos. Gilson Dipp saiu por questões médicas. Cláudio Fonteles, a última baixa, por discordância política.
A presidente Dilma prometeu para breve, mas ainda não anunciou os substitutos.
    RAIO-X CARLOS ALBERTO BRILHANTE USTRA
    Idade: 81 anos
    Ocupação: coronel reformado do Exército
    ATUAÇÃO
    Chefiou, de 1970 a 1974, o DOI-Codi de São Paulo, um dos principais centros de repressão do Exército durante a ditadura
    ACUSAÇÕES
    Ter comandado torturas em presos políticos e torturado pessoalmente algumas vítimas
    502 PESSOAS
    Foram torturadas no DOI-Codi no período em que o órgão esteve sob o comando de Ustra, segundo levantamento do projeto "Brasil Nunca Mais"
    ENFRENTA NA JUSTIÇA
    2 ações cíveis e
    3 denúncias criminais
    CONDENAÇÕES
    - Em 2008, ele se tornou o primeiro militar a ser declarado pela Justiça como torturador do regime, em ação movida pela família Teles; Ustra recorre
    - Em 2012, foi o primeiro agente da ditadura condenado a pagar indenização a parentes de uma vítima da repressão, no caso do jornalista Luiz Eduardo Merlino; Ustra recorre
    O QUE ELE DIZ
    Nega ter comandado ou praticado tortura

      segunda-feira, 12 de agosto de 2013

      Entrevista da 2ª Julio Calzada - Lucas Ferraz

      folha de são paulo
      Legalizar a maconha é um processo de risco
      Designado para coordenar projeto que libera plantio e venda da droga no Uruguai, sociólogo defende o controle estatal
      LUCAS FERRAZDE SÃO PAULO
      O sociólogo Julio Calzada, 57, vai comandar o processo de legalização da maconha no Uruguai. Secretário-geral da Junta Nacional de Drogas, ele foi designado pelo presidente José Mujica para coordenar a (nova) política nacional sobre o tema.
      "O país iniciará um processo de risco", disse à Folha. "Não há antecedentes, nenhum país fez o que estamos fazendo. Há que minimizar os riscos, mas temos pouca margem para equívocos."
      No próximo mês, o Senado deve concluir votação do projeto de lei que libera o plantio e a venda de maconha no Uruguai --tudo controlado pelo Estado. Espera-se aprovação mais folgada que na Câmara, há 12 dias.
      Se aprovado, o Uruguai será o primeiro país do mundo a legalizar a maconha --nos EUA, até agora dois Estados aprovaram o uso "recreativo" e, na Holanda, cuja lei é conhecida pela tolerância, permite-se fumar pequenas quantidades em cafés, mas nunca em locais públicos.
      Segundo o projeto, haverá cadastro para usuários --com mais de 18 anos e residentes no país, sem levar em conta a nacionalidade--, que poderão comprar até 40 gramas da droga por mês.
      O consumo já é permitido --a Constituição uruguaia reconhece os direitos individuais em relação ao corpo e à própria vida.
      Entra aí a incongruência da atual situação, que será sanada com a aprovação da lei: para praticar um ato legal, o cidadão precisa recorrer a meios ilícitos.
      Formado em sociologia pela Universidade da República, de Montevidéu, Julio Calzada afirma que o modelo a ser adotado no Uruguai não serve para outros países. E nem é perfeito --o secretário admite que o projeto "limita" direitos aos cadastrados.
      "Há uma limitação de direitos, mas assumimos isso para mudar a política de drogas, que é fracassada. Não há alternativa a não ser o controle do Estado de todo o processo, do plantio à distribuição".
      A seguir, trechos da entrevista concedida por telefone, na semana passada, em Bella Unión, no lado uruguaio da tríplice fronteira com Brasil e Argentina.
      Folha - O Senado deve aprovar a lei no próximo mês. Como será a legalização?
      Julio Calzada - Levará tempo, acho que no final deste ano ou talvez no início do próximo. Ainda estamos decidindo assuntos referentes ao cultivo e à distribuição. Não sabemos quantas associações vão cultivar a droga e quantos locais de venda o Estado terá.
      Fizemos pesquisas para entender como funciona o tráfico no país, os preços cobrados etc. Estipulamos um valor com base no mercado negro. O valor médio do grama é de US$ 1, US$ 1,50 (entre R$ 2,30 e R$ 3,40). Vamos trabalhar com um valor nessa faixa. Decidimos também um montante anual que será produzido e permitido pelo Estado, 22 toneladas de maconha por ano, que é a quantidade que se consome atualmente no país.
      O que explica o fato de o país ser o primeiro a regulamentar o cultivo e o acesso à droga?
      O convencimento do presidente da República de que os mecanismos de controle existentes há 50 anos não davam os resultados que esperávamos. Em primeiro lugar está o aspecto da saúde pública. É preciso dar resposta aos usuários. Uma resposta que seja adequada. Os usuários são estigmatizados ou considerados cidadãos de segunda classe. Este é o ponto central.
      Um segundo aspecto, não menos importante, é a incongruência de nosso país. Aqui o consumo é legal. Nossa Constituição diz que atos pessoais, privados, desde que não afetem terceiros, não podem ser proibidos pelo Estado ou pelo Poder Judiciário.
      Qual a maior dificuldade para legalizar a maconha?
      É um processo que carece de precedentes. Há alguns poucos casos, como a Holanda e alguns Estados dos EUA. Há um conjunto de coisas que precisamos adequar à realidade. A dificuldade é que não há antecedentes, nenhum país fez o que estamos fazendo. Há que minimizar os riscos, temos pouca margem para equívocos.
      A maioria da população uruguaia é contrária. Esse cenário não cria um problema para a regulamentação da lei?
      O que estamos fazendo é trabalhar com muita dedicação e profissionalismo. Mudar o paradigma é muito difícil. Mas temos estudado a experiência de alguns países com a produção de ópio, como Índia e Turquia, por exemplo. É uma experiência prévia. É preciso haver sobretudo controle, para não haver desvios.
      Há um convencimento de que a melhor forma de se lutar contra o tráfico é no plano econômico. O que essa lei busca é tirar o usuário do comércio ilegal. A única forma de matar o tráfico é tirar sua sustentação econômica. Essas organizações se utilizam da estrutura das drogas para cometer outros crimes, como tráfico de armas ou de pessoas. A atual política gera mais danos que benefícios.
      Há preocupação com potenciais efeitos da legalização nos vizinhos Brasil e Argentina?
      Estamos atentos aos controles necessários para evitar qualquer problema. Os usuários precisam se registrar, e para isso é necessário comprovar residência no país. Só assim as pessoas poderão comprar a maconha produzida aqui. Ou terão permissão para plantar em casa.
      O objetivo é controlar o que seja produzido legalmente e evitar que essa produção seja desviada para o mercado negro e para países vizinhos.
      Só a lei será suficiente para impedir a entrada da droga legal no mercado negro?
      Sim, haverá um sistema de licenças que permite ao Estado interferir em todo o processo. Os produtores tampouco poderão competir entre si. O mercado será fechado e completamente controlado pelo Estado.
      Um cidadão recebe autorização para plantar maconha. O Estado irá na sua casa para fiscalizá-lo?
      Sim, essa pessoa terá que se registrar e nos informar qual tipo de planta irá utilizar. Tudo isso será controlado, sobretudo a quantidade. Se ficar comprovado que há mais do que o especificado, a pessoa poderá responder por tráfico de drogas.
      Muitos usuários dizem que o projeto fere liberdades individuais e civis, já que eles precisam se cadastrar para plantar ou comprar do Estado. O que o sr. pensa dessa afirmação?
      Este é um aspecto muito discutido pelas organizações sociais. Estamos num momento de debate e mudanças na política de drogas em todo o mundo. Essa é uma maneira de controle no marco dessa nova política.
      Mas, para o sr., não há desrespeito às liberdades individuais e civis?
      Há, sim, uma limitação de direitos, mas assumimos isso para mudar a nossa política de drogas, que é fracassada. Não há outra alternativa a não ser o controle do Estado em todo o processo, do plantio à distribuição. A medida tem dois aspectos. O primeiro é evitar o desvio da droga. Depois, também é uma medida sanitária, para controlar a quantidade de droga consumida no país.
      O sr. acredita que o modelo uruguaio poderá ser aplicado em outros países latino-americanos?
      É um projeto pensado exclusivamente para o Uruguai. Não somos um modelo a ser seguido. Estamos dando uma resposta aos nossos problemas, à realidade do Uruguai. A medida está de acordo com a presença do Estado na vida do país. Vamos controlar o comércio e oferecer um programa de assistência médica e também preventivo.
      Queremos que neste século haja uma política progressiva em relação às drogas. O Uruguai, por ser o primeiro país a fazer isso, certamente vai contribuir ao debate como um exemplo. Brasil e Argentina têm uma política de drogas completamente distinta da nossa. Mas, neste caso, cada país precisa modificar essa política de acordo com a realidade local.

      RAIO-X JULIO CALZADA
      IDADE
      57 anos
      ORIGEM
      Nascido em Dolores, Uruguai
      FORMAÇÃO
      Graduado em sociologia pela Universidade da República, de Montevidéu
      ATUAÇÃO
      Secretário-geral da Junta Nacional de Drogas do governo de José Mujica desde abril de 2011

        domingo, 9 de junho de 2013

        Libertinagem e alucinação em Harvard [Timothy Leary] - Lucas Ferraz

        folha de são paulo
        LUCAS FERRAZ
        EM BOSTON

        Cinquenta anos depois de ser expulso e banido de Harvard por realizar experimentos com LSD em alunos do curso de psicologia, o professor e neurocientista Timothy Leary (1920-96) volta à universidade pelas portas do inferno.
        Ícone da contracultura e guru da substância que fez a cabeça dos jovens nos anos 1960, Leary é um dos destaques daquela que é anunciada como a maior coleção particular do mundo sobre sexo e drogas, que acaba de ser incorporada ao sistema de 73 bibliotecas de Harvard.
        O acervo, que ao longo dos anos absorveu coleções da Europa e dos EUA, pertencia ao bilionário colombiano Julio Mario Santo Domingo Jr. (1958-2009). Após sua morte, a família assinou um contrato de cessão da biblioteca, antes sediada na região de Thônex, na Suíça, e batizada como biblioteca Ludlow-Santo Domingo.

        Santo Domingo Collection

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        Divulgação
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        Imagem da coleção Santo Domingo da biblioteca de Harvard
        Harvard recebeu as 700 caixas no final do ano passado e começou a fazer a catalogação e a digitalização dos mais de 50 mil itens, entre livros raros, filmes e vídeos, manuscritos, cartazes, fotos, panfletos e experiências de famosos e anônimos no universo do sexo e das drogas, da agora rebatizada Santo Domingo Collection.
        Folha foi o primeiro jornal do mundo a visitar o arquivo, no início do ano, no complexo de bibliotecas do campus central de Harvard, em Cambridge, no Estado de Massachusetts.
        "Harvard cresceu ao redor de sua biblioteca. Somos a maior universidade do mundo porque também temos o maior acervo universitário do planeta, que agora está ainda mais completo com essa coleção tão peculiar", comentou, feliz, o historiador Robert Darnton, diretor do complexo de bibliotecas da instituição.
        Espalhada por unidades da universidade em Cambridge e Boston por afinidade temática, a coleção não só constitui um manancial enorme de pesquisa em áreas como literatura, medicina, botânica, artes, cultura pop, fotografia e cinema como dá a Harvard algo que ainda lhe faltava: um inferno.
        É assim que se conhece, nas grandes bibliotecas do mundo, "o depósito jamais aberto ao público; o Inferno, coletânea de todas as sem-vergonhices luxuriosas da pluma e do lápis", conforme define o dicionário Larousse de 1877.
        O inferno da Biblioteca Nacional da França ficou interditado até a década de 1910, quando o poeta Guillaume Apolinnaire, com dois amigos, se embrenhou ali e pôs a nu os autores proibidos ao editar um catálogo e uma coleção. Começava a se abrir o longo caminho até a reabilitação de autores como o marquês de Sade [1740-1814].
        Especializado na história da França do século 18, Darnton lembra que passou anos estudando nos "infernos" das bibliotecas francesas, interessado em temas tabu, como sadismo e a relação com as drogas.
        "Muitas vezes os fenômenos marginais estavam fora das grandes bibliotecas, e consideramos que elas devem ter todo tipo de material relacionado à experiência humana", ressalta. "O mundo do sexo e das drogas foi muito importante em uma parte dos anos 60 e 70, sobretudo. É um fenômeno cultural internacional."
        Só sobre o autor de "Os 120 Dias de Sodoma" a Santo Domingo conta mais de 500 volumes, sendo 125 do próprio Sade, como o raro exemplar de 1791 de "Justine ou les Malheurs de La Vertu". A erótica francesa concentra boa parte dos livros raros e antigos: cerca de 1.200 vieram da coleção do suíço Gérard Nordman, que Santo Domingo arrematou em 2006. Vem de lá, por exemplo, o manuscrito do clássico sadomasoquista "História de O" (1954), de Pauline Réage.
        Livros autografados e manuscritos de poetas malditos como Charles Baudelaire e Paul Verlaine também estão disponíveis para consulta. Conforme faz a catalogação, a equipe de uma das bibliotecas posta textos e imagens com as novidades encontradas nas caixas no blog da biblioteca (blogs.law.harvard.edu/houghtonmodern).
        Entre os muitos livretos que circulavam de mão em mão, clandestinamente, no final do século 18, um dos mais interessantes é "Enculées" (as enrabadas), livro organizado entre 1892 e 1898 pelo escritor francês Pierre Louÿs (1870-1925). Louÿs tomou o depoimento de prostitutas que trabalhavam na Paris do final do século 19, com fartas descrições e fotos explícitas.
        Há ainda documentos importantes do século 18, como opúsculos clandestinos da França iluminista; um tratado ricamente ilustrado sobre história e usos antigos e modernos do cinto de castidade; um curioso relatório investigativo de uma comissão do Congresso dos EUA sobre obscenidade e pornografia, produzido sob o governo Lyndon Johnson (1963-69) e reeditado com ilustrações da época.
        DROGAS
        Se a coleção Nordman foi a matriz de boa parte da erótica francesa de Santo Domingo, o outro pilar da coleção, as drogas, tem raízes ali mesmo em Harvard, na pesquisa pioneira sobre os efeitos do LSD que Timothy Leary e Richard Alpert fizeram em si mesmos e em seus alunos na universidade, no início da década de 1950.
        Os testes de Leary inspiraram três amigos a formar, na Califórnia, em 1970, a biblioteca Fitz Hugh Ludlow Memorial, que por décadas foi a maior do mundo em se tratando de psicotrópicos.
        Em 2003, ela foi comprada por Julio Mario Santo Domingo e transferida para a Suíça. O nome é uma homenagem a Fitz Hugh Ludlow (1836-70), autor do primeiro livro da literatura americana que tematiza as drogas, "The Hasheesh Eater" (o comedor de haxixe), de 1857. (Os comedores de haxixe, aliás, poderão apreciar as duas prateleiras sobre culinária, com receitas de bolos, cookies e outros pitéus amaconhados.)
        Um dos criadores da Ludlow, Michael Horowitz, foi grande amigo de Leary e é um dos principais divulgadores de seu legado. Ele planeja produzir um filme sobre Leary, em parceria com o ator Leonardo DiCaprio. Segundo Lisa Rein, parceira de Horowitz num site que disponibiliza material sobre Leary, todos se espantaram com a inexistência de material em Harvard sobre o guru do LSD.
        Igual reação teve Leslie Morris, curadora de manuscritos e da seção de livros modernos da Hougthon Library, que recebeu boa parte da coleção sobre sexo e drogas. "Essas experiências são um aspecto interessante de Harvard naquela época, e não havia quase nenhuma documentação", disse ela à Folha.
        Leslie Morris foi a primeira pessoa do staff de Harvard a conhecer a Santo Domingo Collection. Ela mescla um sorriso severo com arroubos de simpatia ao falar sobre o universo pervertido da coleção. Há 20 anos em Harvard, ela é a funcionária da instituição que melhor conhece o acervo. Em 2011, durante as negociações da cessão do arquivo entre a família do colombiano e a universidade, Morris foi à Suíça para analisar o acervo. Ela diz ter se impressionado com o que viu. "Acreditamos ser a maior coleção particular sobre o tema no mundo", comenta. "É uma coleção rara."
        POP
        Nem só de antiguidades, no entanto, se faz a Santo Domingo. A coleção mostra que seu criador levava a contracultura a sério: uma profusão de documentos retrata momentos cruciais da revolução pop, sexual e política dos anos 60. O arquivo deixado pelo bilionário colombiano na Suíça tinha ainda uma seção dedicada ao rock'n' roll, mas ela não foi para Harvard: os documentos foram encaminhados ao Museu do Rock, em Cleveland, no Estado de Ohio.
        Interessado nas experiências de sexo, drogas e magia negra, Julio Mario Santo Domingo Jr. foi um colecionador voraz --além da biblioteca, reuniu a maior coleção mundial de cachimbos de ópio. Ele morreu em Nova York, em 2009, de câncer no pulmão.
        O colecionador nasceu em uma das famílias mais ricas da América Latina: seu pai era dono de bancos, cervejarias, do grupo de comunicação Caracol, o maior da Colômbia, e da empresa aérea Avianca, entre outros negócios.
        Ainda na adolescência Julio Jr. começou a colecionar livros --sobretudo os malditos franceses do final do século 19 e começos do 20.
        Segundo Leslie Morris, a socialite brasileira Vera Rechulski, com quem Julio teve dois filhos, conhece como ninguém a coleção. Mas a brasileira, que divide seu tempo entre o Rio e Paris, não quis conversar com a Folha sobre o acervo.
        Nos papéis sobre drogas, chama atenção a coleção de micropontos de LSD, quase todos de autoria do designer americano Mark Cloud, o maior nome do gênero. Nos micropontos, o alucinógeno é impresso em pequenos pedaços de papel com desenhos psicodélicos ou figuras que vão do próprio Timothy Leary ao Chapeleiro Maluco de "Alice no País das Maravilhas".
        Há ainda documentos históricos, como a carta de 11 de agosto de 1788 em que o vice-rei do Império Espanhol nas Américas, Manuel Antonio Flórez Maldonado (1722-99), aponta o crescimento do uso de maconha na região de Monterrey, no México.
        O setor sobre ervas alucinógenas e afins vai dos raros volumes impressos ainda no século 16 a curiosidades como o exemplar do romance "Cocaína", de Dino Segre, que traz o ex-libris (selo da biblioteca pessoal) de Adolf Hitler.
        A cultura e as guerras em torno do ópio trazem preciosidades como o livro publicado na Inglaterra em 1870 sobre as diferenças entre o consumo naquele país e na China. A obra "The Chinese Opium Smoker" tem o sugestivo subtítulo de "12 ilustrações que mostram a ruína que o comércio de ópio com a China está trazendo para o país".
        As ilustrações mostram chineses usando a droga em poses recreativas. O livro compara o fumante de ópio chinês e o bebedor inglês, fala das responsabilidades da Inglaterra no comércio internacional e alerta em tom catastrófico sobre os perigos da substância:
        "Triste é a perspectiva, o marido [viciado] já está condenado à pobreza, à vergonha e à morte prematura, sua esposa, à ruína, seu filho, à mendicidade. Sua mãe vai morrer de um ataque cardíaco".
        Uma busca por "Brazil" nos itens da coleção mostra que o acervo estava relativamente atualizado: lá estão "O que Aprendi com Bruna Surfistinha", de Raquel Pacheco, "O Diário de Marise: A Vida Real de uma Garota de Programa", de Vanessa de Oliveira, além de livros sobre narcotráfico e usos de ayahuasca nas cidades brasileiras.
        Entre as raridades em língua portuguesa, destaca-se a primeira edição de "Elogio à Punheta", livro erótico português editado em Paris no final do século 19.
        A obra é dividida em três historietas --além da que dá nome ao livro, há ainda "Queixumes de um Guarda-Portão" e "O Frade Vicioso, ou A Freira Puta" --dignas, ainda hoje, de fazer corar um bom cristão.
        Tem a punheta virtude
        Da louvável gratidão;
        É companheira do homem
        Até mesmo na prisão
        A punheta é no mundo
        A imagem do prazer,
        Quem à vista da punheta
        Cabe n'asneira de foder?!...
        Em "O Frade Vicioso, ou A Freira Puta", os autores fazem troça de frades e freiras enclausurados.
        Havia em certo convento,
        Um fradalhão de saber,
        Que andava sempre arreitado
        Com a fome de foder. (...)
        Sendo chamado a um convento
        Para as freiras confessar,
        Fez logo a uma por uma
        Todas no membro a pegar!
        Ficaram tão encantadas
        Da santa galanteria,
        Que quiseram confessar-se
        Sempre uma vez cada dia!
        Eram trinta, fora a madre,
        Que ele tinha a confessar;
        Portanto, trinta punhetas
        É que havia de trincar!

        domingo, 5 de maio de 2013

        A biblioteca de Francis repousa intacta em NY - Lucas Ferraz

        folha de são paulo

        JORNALISMO
        Na cova da fera
        LUCAS FERRAZ
        RESUMO
        A partir de seu escritório em Nova York, Paulo Francis agitava a cultura brasileira com opiniões controversas, novidades intelectuais e diatribes disparadas para todos os lados. Preservada por sua viúva, a biblioteca nova-iorquina do jornalista aguarda destino no Brasil e oferece uma visão de sua irrequieta cabeça.
        -
        No 21º andar de um prédio na esquina da rua 47 com a segunda avenida, em Manhattan, há uma biblioteca formada sobretudo por títulos de política e história americanas que, há 16 anos, repousa à espera de um destino no Brasil. Desde a morte do jornalista e escritor Paulo Francis, em 4 de fevereiro de 1997, quase 5.000 livros seguem praticamente intocados em seu escritório. A viúva, a jornalista Sonia Nolasco ainda mora no apartamento, mas se limitou a guardar alguns de seus próprios livros nas estantes e retirou outros, que distribuiu entre amigos dele.
        Após uma tentativa fracassada, Sonia agora quer selar o envio do material para o país. Seu desejo, disse à Folha, é que o destinatário seja o Instituto Moreira Salles (IMS), instituição privada que se especializou na compra e na conservação de acervos literários e é o destino dos sonhos de nove entre dez famílias de escritores brasileiros. Embora se fale em "doações", as negociações para cuidar de tais papeladas quase sempre envolvem somas consideráveis.
        Francis viveu mais da metade de seus 66 anos em Nova York --sua segunda cidade, depois do Rio, onde nasceu em 1930. Na primeira vez, nos anos 1950, ainda era o adolescente Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn, que acompanhava o pai, funcionário da Esso em Nova York. Na segunda, em 1971, já era Paulo Francis, o editor da "Senhor", do "Pasquim" e da área cultural do "Correio da Manhã", entre outros feitos. É a essa época que remonta a formação da biblioteca da rua 47.
        DOAÇÃO
        Houve uma tentativa de levar os livros para o Brasil logo após a sua morte, por infarto fulminante. O acervo seria doado ao empresário Ronald Levinsohn, amigo de Francis e então dono da UniverCidade (Centro Universitário da Cidade), no Rio. Sonia e o próprio Francis prometeram a Levinsohn a doação da biblioteca, sobretudo dos livros políticos.
        Algo como uma antiga dívida de gratidão unia o jornalista ao empresário. Em 1983, Levinsohn esteve envolvido num escândalo financeiro conhecido como Delfin, no qual a então maior caderneta de poupança do país sofreu intervenção do Banco Central. À época, Francis o defendeu publicamente --somente 23 anos depois a Justiça inocentaria o empresário.
        Com a morte de Francis, porém, a relação entre Sonia e Levinsohn desandou. A doação melou.
        "Imagino que deve ter muita coisa legal na biblioteca", comentou o empresário, em dezembro passado. Ele estava em sua casa carioca, no Cosme Velho, recém-chegado de Nova York, onde tem um suntuoso apartamento em Park Avenue. "Nova York nunca mais foi a mesma sem o Francis", disse, ao ser informado pelo repórter sobre o teor da conversa. Levinsohn lamentou não ter conseguido levar a biblioteca para o Brasil. Diz, contudo, que "tem amigos que podem alocar os livros em algum lugar, talvez a PUC-Rio".
        Por enquanto, a cidade de Francis só recebeu, na década de 1990, sua coleção de 379 laser discs, espécie de antecessor do DVD que não vingou. O acervo está disponível para consultas na sede carioca do IMS e inclui filmes, concertos, óperas, balés e musicais. Quanto à biblioteca, o instituto informou à Folha que a viúva do jornalista ainda não os procurou oficialmente. E que, antes de tomar qualquer decisão, será necessário avaliar o acervo.
        A biblioteca de Francis revela a peculiar educação sentimental de um comentarista de TV que nasceu e se criou sob a lógica da Guerra Fria. Expõe também laços afetivos e certas engrenagens da mente de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros do século 20.
        O escritório permanece tal e qual estava quando ele morreu: ainda estão lá os quadros e desenhos de amigos da turma do "Pasquim", como Millôr Fernandes. Ainda está lá, na parede em frente à escrivaninha, a foto de um ídolo de juventude, o revolucionário russo Leon Trotsky. Da janela à sua direita, Francis via a fileira de arranha-céus ao longo da segunda avenida, em direção ao sul.
        As estantes são uma amostra da pauta de seu "Diário da Corte", a influente coluna que ele publicava na Folha entre 1975 e 1990: teatro e ópera, romances, poesia, policiais e, sobretudo, ensaios, jornalismo e livros de história e política do século 20. São inúmeras as obras de autores que transitavam entre o ensaísmo e a grande reportagem, e que praticavam uma crítica de cultura tão erudita quanto ferina. Sem Francis, provavelmente seriam menos conhecidos no Brasil nomes como Gore Vidal, Joseph Mitchell e Tom Wolfe. As estantes ainda abrigam os clássicos que ele adorava citar, como Bernard Shaw, Edmund Wilson, Thomas Mann, Aldous Huxley e James Joyce.
        Vai se decepcionar quem esperar encontrar ali um manancial para pesquisar a cultura brasileira dos anos 1950 e 60, quando Francis fazia e acontecia no Rio. As poucas obras em português são de amigos (Millôr, sempre ele, Ivan Lessa, Roberto Campos), um ou outro clássico da literatura brasileira e alguma coisa sobre os tempos de militante político, perseguido pela ditadura militar (1964-85).
        Nenhum volume ali vem de sua fase carioca. "Suspeito que ele deixou no Rio uma grande coleção de literatura e teatro, porque a mudança para Nova York foi muito repentina", especula Ruy Castro, amigo de Francis e pertencente à primeira nova geração de jornalistas formada sob influência direta de Francis. Sonia Nolasco, que foi casada com Francis por mais de duas décadas, diz que nunca teve notícias dos livros daquela época.
        A grande quantidade de volumes denuncia o fraco que Francis tinha por obras sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-45) e sobre todos os presidentes americanos entre os anos 30 e 90, em especial Roosevelt, Kennedy, Lyndon Johnson, Nixon, Carter e Reagan.
        Em 1986, ele afirmou, em sua coluna na Folha, que lia no mínimo três livros por semana. "Leio muito rápido. Mas por prazer, serei franco, leio exclusivamente thrillers." O jornalista Lucas Mendes, seu amigo em Nova York e companheiro de bancada no "Manhattan Connection", hoje da GloboNews, lembra que Francis tinha cada vez menos interesse por autores novos. "Ele relia os favoritos e poucas publicações, a maioria inglesas e conservadoras", conta.
        Em "O Afeto que se Encerra" (Civilização Brasileira, 1980), de memórias, um de seus livros mais bem-sucedidos, Francis conta: "Toda minha formação é europeia, de Dostoiévski a Stendhal, a Sartre (romancista). Ivan [Lessa] me levou aos americanos, me esculachando o conservadorismo, de Hemingway a Fitzgerald, a Norman Mailer, a Capote, a Faulkner etc.".
        Além da infância, suas memórias narram sua carreira jornalística, sua tentativa de viver de literatura e a convivência com os amigos. Ivan Lessa é apresentado como "irmão mais novo", "como Jorge Zahar, Ênio Silveira, Millôr Fernandes e Cláudio Abramo são os mais velhos".
        Assim como Ruy Castro, o jornalista e escritor carioca Sérgio Augusto conheceu Francis nos anos 1960: foi seu colega na redação do "Pasquim". Na biblioteca do amigo em Nova York, conta ele, "encontrei quase os mesmos autores que tinha e guardo na minha. Apesar da diferença de idade [12 anos], pertencíamos praticamente à mesma geração".
        Em 1998, estimulado por Sonia Nolasco, Sérgio Augusto levou, como recorda, "uma meia dúzia de livros" da biblioteca da rua 47. "Descobri um bocado de ensaístas e historiadores por intermédio do Francis", completa. Entre eles estão Gabriel Kolko, Eric Bentley e Geoffrey Barraclough, este último, segundo Sérgio Augusto, publicado no Brasil por Jorge Zahar por indicação de Paulo Francis.
        Francis não era um deles, mas sua biblioteca faria a festa de ratos de sebo com suas coleções de revistas dos anos 70, como os exemplares da "Partisan Review", mitológica publicação de esquerda sobre política e literatura que circulou entre 1934 e 2003.
        "Ele não era um Mindlin", define Ruy Castro, citando o maior bibliófilo brasileiro, cuja biblioteca, doada à USP, acaba de ser aberta à pesquisa. "Francis não tinha um comportamento reverente ao livro. A relação dele com o livro era muito pragmática. Ele pegava, lia, marcava o que queria, podia pular páginas e capítulos. Ele deixava o livro para trás sem problema."
        Ruy conta que, quando o visitava em Nova York, o programa de sempre era flanar pelas livrarias, principalmente a tradicional Brentano's, fundada em 1853 e que fechou as portas em 2011.
        ROMANCE
        Em "Radical Chique e o Novo Jornalismo", Tom Wolfe narra a obsessão de sua geração de jornalistas com "o Romance", que ele escreve assim, com ironia maiúscula: "O Romance parecia um dos últimos desses grandes golpes de sorte, como encontrar ouro ou achar petróleo, com que um americano podia, do dia para a noite, sum relance, transformar inteiramente seu destino."
        "Não havia lugar para jornalistas", recorda Wolfe mais adiante, ao descrever um ponto de encontro de escritores em Nova York. "A menos que ali estivesse no papel de futuro romancista ou simples cortesão dos grandes".
        De certa forma, à sua maneira, a geração de Francis também viveu essa fantasia com "o Romance". Tendo se notabilizado pela opinião desabrida e idiossincrática, ele morreu sem se consagrar na ficção, como almejava. Seus romances --a trilogia formada por "Cabeça de Papel" (1977), "Cabeça de Negro" (1979) e o póstumo "Carne Viva" (2008)-- nunca receberam a mesma atenção de sua produção jornalística.
        Os dois primeiros têm como pano de fundo a ditadura brasileira, a revolução e a oligarquia carioca. Os dois protagonistas, que dialogam freneticamente sobre esses temas, são seus alter egos. Em "O Afeto que se Encerra", Francis diz que "Cabeça de Papel" foi a melhor coisa que já escreveu e relembra o conselho de amigos que leram o livro antes da publicação, como Ênio Silveira e Ivan Lessa, e previram o fracasso.
        Ainda assim, ele se abalou com a má repercussão. Teve depressão e, como contou em suas memórias, chegou a pensar em suicídio. A frustração ainda reverbera em Sonia Nolasco, que rechaça a ideia de publicar mais inéditos: "Só tive aborrecimento com o que saiu depois que ele morreu. Gente dizendo que ele tinha virado de direita ou que ele não sabia escrever ficção. Porque não diziam isso na frente dele, quando estava vivo?"
        O tempo, porém, tem mostrado que o juízo negativo não se deve a questões pessoais ou à costumeira ira de seus contemporâneos com suas controvertidas opiniões.
        "Como jornalista ele é muito mais brilhante do que como romancista, e ele mesmo reconhecia isso", diz Cristiane Costa, que no livro "Pena de Aluguel" (Companhia das Letras) destrinchou a vida anfíbia de escritores-jornalistas no Brasil entre 1904 e 2004. Entre eles, é claro, está Paulo Francis.
        "A literatura do Francis tinha problemas estruturais graves, qualquer leitor, mesmo os mais apaixonados, percebe", diz Cristiane. "As tramas são confusas, a arquitetura narrativa é desleixada. Talvez Francis não tivesse paciência para a carpintaria literária."
        Ruy Castro conta que ele realmente ficava chateado quando alguém falava mal de sua obra ficcional. "Eu e ele, assim como o nosso mestre maior, Bernard Shaw, não somos para a ficção", diz Ruy, que já se aventurou em dois romances. "A literatura dele era de ideias, não de ação, o que é sempre mais difícil." Já Sérgio Augusto o compara a Gore Vidal e Susan Sontag, estrelas da crítica cultural americana: "Bem melhores no ensaio do que na ficção".
        O acervo da rua 47 inclui, além da biblioteca, os manuscritos inéditos de dois projetos: um livro inacabado, "O Homem que Inventou o Brasil", ficção em inglês sobre Getúlio Vargas e o Brasil dos anos 1950, e uma peça de teatro, uma das paixões do jornalista que, jovem, chegou a atuar. Pelo desejo da viúva, o destino desse material também deverá ser o Rio de Janeiro: a Biblioteca Nacional.
        A ideia do livro sobre Getúlio, que seria destinado ao mercado americano, lhe foi sugerida pelo amigo Paulo Bertazzi. Muitos amigos dele não conheciam o projeto. Na década de 1990, um esperançoso Francis enviou trechos a editores americanos. Não houve resposta. E o livro ficou sem ponto final.
        Certa vez, numa coluna, ele comentou sua produção literária: "Dei meu recado. Talvez, com o tempo, receba a resposta. É a consolação do escritor que se sente rejeitado".

          sexta-feira, 12 de abril de 2013

          Revista policial em negros e latinos gera protestos em NY

          folha de são paulo

          Grupos de direitos civis dizem que 'baculejo' é aplicado de forma racista; 85% têm minorias como alvos
          LUCAS FERRAZEM NOVA YORKO americano Sharbeek Terry, 39, diz não se lembrar mais de quantas vezes foi revistado pela polícia de Nova York.
          "Calculo umas sete vezes", disse. Na última delas, conta, foi parar na delegacia. "Me algemaram, me sacudiram e bateram nas minhas pernas. Fui detido com um outro homem, que ficou preso", afirmou à Folha.
          Terry, negro, é uma das 533 mil vítimas no ano passado do chamado "stop and frisk", as revistas indiscriminadas feitas pela polícia de Nova York.
          A prática do "baculejo" tem gerado controvérsia pela contabilidade dos alvos: 85% são negros e latinos, segundo a polícia. As estatísticas mostram que 90% dos revistados são inocentes.
          Grupos de defesa dos direitos civis e humanos dizem que a prática é aplicada de forma preconceituosa e racista, desrespeitando os princípios expostos na Constituição dos EUA --que prevê a revista somente se houver suspeitas concretas.
          A Prefeitura de Nova York defende a estratégia, que considera eficaz no enfrentamento ao crime.
          As revistas começaram a ser adotadas nos anos 1970, quando a maior cidade do país vivia forte onda de violência, com as ruas tomadas por gangues e drogas.
          A ação da polícia endureceu nos anos 1990, com a aplicação da política conhecida como "tolerância zero", que foi essencial para reduzir a criminalidade.
          Desde a década passada, após o atentado terrorista do 11 de Setembro, as revistas se intensificaram.
          Conforme números do NYPD (sigla em inglês para Departamento de Polícia de Nova York), a prática saltou de uma média de 100 mil em 2002 para 700 mil em 2011.
          Folha visitou a região do Brooklyn de East New York. Lá, um dos bairros, Cypress Hill, tem o maior número de batidas na cidade.
          Área pobre com pouco comércio e escolas, tem predominância de negros americanos e imigrantes latinos.
          "É muito comum ver esse tipo de coisa aqui", conta o vendedor de churros Antonio Castro, 39.
          Equatoriano que vive nos EUA há 15 anos, ele não sabe falar inglês. "Parece racismo da polícia, mas pelo menos a situação melhorou. Há cinco ou seis anos, a violência era muito pior."
          O jovem Danny Webb, 25, tem o perfil do americano que costuma ser parado nas batidas: negro, boné, roupas largas e medalhões.
          Nascido em Cypress Hill e atualmente trabalhando na construção civil, ele afirma que nunca foi revistado, mas se diz revoltado com o que costuma ver. "É um desrespeito muito grande, aqui não se respeita nenhum direito."
          Muitos casos envolvendo vítimas do "stop and frisk" chegaram aos tribunais americanos. Diferentemente do Brasil, Estados e municípios americanos têm mais autonomia para criar legislações próprias. Mas desde 1968 a Suprema Corte americana vem reiterando que a polícia só pode realizar revistas em pessoas se há uma suspeita evidente, baseada em fatos, e não em um palpite.
          "Sim, os meus direitos foram violados. Mas e aí, o que vou fazer?", questionou Terry, que vive de bicos em Cypress Hill.
          Até em áreas de Manhattan onde são minoria, negros e latinos ocupam as primeiras posições nas estatísticas.
          Em bairros como Soho e Village, onde eles são apenas 8% da população, 77% dos "baculejos" são contra pessoas que se enquadram em algum dos dois grupos.
          Procurado pela Folha, o Departamento de Polícia de Nova York não quis comentar o "stop and frisk".
          Leia sobre aplicativo que orienta cidadãos
          folha.com/no1261200

            sábado, 2 de março de 2013

            "Todos os Poemas" expõe faceta pouco conhecida do escritor Paul Auster

            folha de são paulo

            CRÍTICA POESIA
            Edição brasileira soube verter complexidade rítmica do autor
            RODRIGO GARCIA LOPESESPECIAL PARA A FOLHAAo abrir "Todos os Poemas", o leitor se depara com textos concisos, densos, enigmáticos. Nada da influência beat, por exemplo, nem dos confessionais, então em voga nos EUA.
            O "lirismo abstrato" de Paul Auster é informado pela poesia de Emily Dickinson (1830-1886) e Paul Celan (1920-1970), entre outros.
            O mérito da edição brasileira é a competente tradução, tendo Caetano Galindo sabido dar conta de traduzir a complexidade rítmica, imagética e sintática da poesia do americano. Não é tarefa fácil.
            Auster escreve como um bom músico da linguagem, uma música sutil que investiga os dados imediatos da percepção. São poemas que tentam captar a tensão entre palavra e silêncio, mente e corpo, consciência e real.
            À medida que seu estilo evolui e vai ficando mais solto, pintam surtos de narratividade, como em "Obituário no Tempo Presente" e "Busca de uma Definição". Muitos problematizam o próprio ato de fazer sentido do mundo.
            Aos poucos, seu projeto poético austero parece entrar em crise, sucumbir à tentação da narrativa. A fé na linguagem poética como ferramenta ideal para captar a percepção passa a diminuir nos últimos livros.
            Sua renúncia à poesia tem muito a ver com o caso da modernista Laura Riding (1901-1991), uma de suas influências. Ele mesmo explica: "Ela não renunciou à poesia devido a alguma insuficiência objetiva na própria poesia, mas porque a poesia como ela a concebia não era mais capaz de exprimir o que ela queria dizer. Ela agora sente que 'atingiu o limite da poesia'".
            O texto-limite é "Espaços em Branco", ponte entre a poesia e a ficção. Auster tinha uma visão da poesia como sendo essencialmente monológica, ao contrário da narrativa, dialógica, habitada por múltiplas vozes e fantasmas, como se vê em sua prosa.
            Quem sabe ele tenha descoberto, como ressalta Galindo, que "talvez seja apenas implodindo sua própria voz que um autor se transforme no coligidor de vozes que é o romancista". Melhor para nós, que ficamos com o Auster narrador sem perder o poeta.
            RODRIGO GARCIA LOPES é poeta, tradutor e compositor; está lançando o álbum "Canções do Estúdio Realidade"
            TODOS OS POEMAS
            AUTOR Paul Auster
            EDITORA Companhia das Letras
            TRADUÇÃO Caetano W. Galindo
            QUANTO R$ 49,50 (352 págs.)
            AVALIAÇÃO ótimo

              LUCAS FERRAZ
              EM NOVA YORK


              O ano de 1979 marcou uma virada na vida do escritor americano Paul Auster, 66. Com o primeiro casamento em crise e quebrado financeiramente, ele encerrava a década em que se dedicou à poesia em crise existencial e literária.
              Sem conseguir escrever desde o ano anterior, ele se arriscava novamente na prosa com o texto experimental "Espaços em Branco", que coincidentemente concluiu na mesma noite em que seu pai morreu.
              Para Auster, foi seu renascimento como escritor e ponto de partida para tornar-se um dos mais importantes nomes da literatura contemporânea dos EUA.
              Thomas Samson/AFP
              O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris
              O escritor americano Paul Auster, que tem suas poesias reunidas em livro, em Paris
              Toda sua produção literária até esse período, que marca os anos de formação do autor, acaba de chegar às livrarias.
              "Todos os Poemas" (Companhia das Letras) expõe uma faceta pouco conhecida de Auster até mesmo por seu público nos EUA: a reunião de sua obra poética, escrita na década de 1970 - as exceções são "Espaços em Branco" e as reflexões "Anotações de um caderno de rascunhos", de 1967, compostas quando ele tinha 20 anos.
              "Foi a fundação de tudo o que fiz nos 30 anos seguintes", disse o escritor em entrevista à Folha.
              Fragmentos dos romances que tentou escrever nessa época foram usados anos depois na novela "Cidade de Vidro", que compõe um de seus mais famosos livros, "A Trilogia de Nova York".
              "Nunca estava satisfeito com o que escrevia. Quando tinha 22 ou 23 anos, decidi que não poderia mais escrever ficção. Então me dediquei apenas à poesia".
              Parte dos poemas foram escritos no período em que viveu na França, entre 71 e 74. Na segunda metade daquela década, algumas de suas coletâneas foram publicadas em revistas de poesia, mas sem transformá-lo em um nome conhecido.
              Há em seus poemas elementos que, mais tarde, ele desenvolveria em sua obra ficcional, como o existencialismo.
              O último poema ele escreveu em 1979. "Descobri que estava me repetindo, a poesia me abandonou", conta. "Talvez algum dia eu ressuscite e escreva [poesia] novamente".
              Sobre os diferentes gêneros em que transitou, ele faz uma comparação: "Poesia é como tirar fotografia, enquanto escrever ficção é como dirigir um filme, com imagens e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo".
              Auster não tem dúvida de que "Espaços em Branco" foi um trabalho seminal para sua transição entre poesia e prosa.
              Inspirado em um espetáculo de dança, ele tentou traduzir a experiência da performance coreográfica. O autor trabalhou no texto por duas semanas. O ponto final foi dado na madrugada do dia 15 de janeiro de 1979, mesma noite em que perdeu o pai.
              "Foi algo cruel e estranho, que ainda me machuca. Justo no momento em que voltei à vida, meu pai morre. Foi terrível", recordou Auster.
              Após a morte do pai, o escritor começou a trabalhar no que seria seu primeiro romance, "A Invenção da Solidão", em que mescla recordações pessoais, tendo como base a figura paterna, com imagens literárias e artísticas.
              A seguir, trechos da entrevista que ele concedeu à Folha, em Nova York, na última quinta.
              *
              Folha - Seus primeiros anos como poeta o influenciaram depois sua prosa?
              Paul Auster - Na minha adolescência e quando eu tinha 20 e poucos anos, eu estava fazendo os dois, ficção e poesia. Eu comecei duas ou três novelas antes de fazer 20 anos, eram centenas de páginas. Mas eu nunca estava satisfeito com o resultado. Depois, fragmentos desses livros tornaram parte da novela "Cidade de Vidro" [uma das três histórias narradas no livro "A Trilogia de Nova York"]. Eu comecei a trabalhar em esse projeto cedo, mas eu ainda não estava pronto como escritor.
              Em um acerto ponto, quando eu tinha 22 ou 23 anos, eu disse, "não escrevo mais ficção, não posso fazer isso". Eu apenas podia escrever poesia, e foi o que fiz durante todo os anos 70. Eventualmente eu escrevia ensaios, mas não ficção.
              Então, veio um momento de crise, quando eu não estava conseguindo escrever nada. Isso durou um ano. Quando eu recomecei de novo, era prosa. Eu comecei 10 anos depois a escrever ficção, como eu fazia no início. Naquele momento, eu tinha muito mais material e enfoque para fazer o que queria.
              Durante um momento de sua vida o sr. queria ser poeta. Por que não conseguiu mais escrever poesia?
              Eu descobri que estava me repetindo. E talvez a maneira que eu abordava a poesia era muito limitada. Estava muito limitado com o vocabulário e as referências.
              Não foi apenas eu que decidi parar, mas também porque a poesia me abandonou. A única coisa que tinha a fazer era voltar à minha prosa.
              Esse livro reúne dez anos de trabalho, e suponho que aí está a fundação de tudo o que fiz depois.
              Você viveu na França durante um período de sua vida de poeta. Qual a influência daqueles anos em sua poesia?
              Eu realmente não sei. Eu traduzi poetas franceses, trabalho que eu realmente gostava de fazer. Não penso que a França influenciou muito em meu trabalho. Por muitas razões, minhas influências vieram de outros lugares. Primeiro de todos, EUA, mas também Inglaterra, Irlanda, Alemanha, Itália, mas não muitos franceses.
              Eu amo a França e meu francês é bom. Eu me mudei para lá no início de 1971, fiquei três anos e meio. Quando eu decidi ir para a França, eu queria mais era estar fora dos EUA. Decidi ir porque gostava do país e falava a língua.
              Lembre-se, eram tempos da guerra do Vietnã, uma época de muito tumulto nos EUA. Senti que precisava estar fora por um tempo, para respirar outros ares e poder me tornar escritor.
              "Espaços em Branco" é um texto experimental, escrito num momento em que o sr. não se dedicava mais aos poemas. Qual a importância desse trabalho para sua transição entre poesia e prosa?
              Foi o primeiro trabalho de prosa que escrevi depois de passar um ano incapacitado, sem conseguir escrever nada. E claro, foi a primeira coisa que escrevi depois de parar com a poesia.
              À época eu fui a um ensaio de dança em Nova York e aquilo me marcou muito, eu tentei repassar aquela experiência para o papel. Eu escrevi "Espaços em Branco" em duas semanas.
              E o sr. concluiu o texto na noite que o seu pai morreu...
              Exatamente. Eu terminei o texto na noite em que meu pai morreu. Foi algo muito cruel e estranho, que ainda me machuca. Justo no momento em que voltei à vida, meu pai morre. Foi uma coisa estranha, muito terrível. E depois de sua morte, eu comecei a trabalhar no que se transformou no meu primeiro livro ["A Invenção da Solidão"].
              Qual é a diferença entre escrever poesia e prosa?
              Fazer poesia é como tirar fotografias com uma câmera, enquanto escrever novelas é como dirigir um filme, há muito mais imagens e coisas acontecendo ao mesmo tempo. Uma fotografia pode ser mais colorida que uma imagem de um filme, por exemplo, mas é diferente. A intensidade é diferente e também a maneira de desenvolver as histórias.
              Que tipo de sentimento o sr. tem quando revê sua obra poética?
              É um trabalho de um jovem muito apaixonado, que estava vivendo inteiramente em um mundo que ele criou para si. Essa poesia explora a subjetividade, os limites da linguagem, o que significa ser humano... Foi um momento intensamente importante em minha vida. Eu realmente acredito que foi a fundação de tudo que fiz nos 30 anos seguintes.
              O sr. escreveu seu último poema em 1979. Você morreu como poeta?
              Eu não sei, talvez algum dia eu ressuscite e escreva poesia novamente. Não sei o que vai acontecer no futuro. Mas há um longo tempo eu estou morto como poeta, com exceção de algumas coisas em aniversários ou festas de família, por exemplo, quando eventualmente posso escrever algum poema, mas nada sério.
              Eu fiz algumas letras de música...
              O sr. compôs para sua filha, Sophie Auster, que é cantora. Essas composições não podem ser consideradas uma nova incursão à poesia?
              Eu fiz algumas, para ela, uma grande cantora, e para uma banda do Brooklyn chamada One Ring Zero. Uma delas era uma canção contra George W. Bush. E fiz uma música para um filme que dirigi.
              Letras para canções são diferentes de poesia, mas é claro que você usa formas poéticas. Você precisa ser mais simples do que em um poema.

              domingo, 17 de fevereiro de 2013

              Entrevista Robert Darnton

              folha de são paulo

              Dos enciclopedistas aos bibliotecários
              O acervo digital dos EUA vem aí
              LUCAS FERRAZRESUMO
              Diretor do complexo de bibliotecas da Universidade Harvard comenta o lançamento da Biblioteca Pública Digital dos EUA, em abril, que vai pôr em rede o acervo em domínio público de dezenas de bibliotecas acadêmicas. Criado como antítese do Google Books, o projeto da DPLA é financiado por recursos privados.
              -
              O iluminismo é o principal tema de estudo do historiador americano Robert Darnton, 73, autor de vários títulos sobre como a difusão do conhecimento alimentou revoluções no século 18. É de certa forma inspirado nos ideais dos enciclopedistas que Darnton comanda ele também uma revolução.
              Como diretor do imenso complexo de bibliotecas da Universidade Harvard, ele encabeça a criação da DPLA (Digital Public Library of America, sigla para biblioteca pública digital americana), que a partir de abril vai reunir e compartilhar gratuitamente na internet o acervo e obras de milhares de bibliotecas e universidades do país.
              A DPLA é a resposta de Darnton e da academia à violação de direitos autorais representada pelo Google Books, que lucra com os livros repassados para a rede.
              "Vamos fazer diferente", diz Darnton, que vê a biblioteca digital como o seu projeto mais ambicioso, algo a ser feito "por séculos".
              O debate em torno do livro na era das tecnologias digitais foi tema de "A Questão dos Livros", coletânea de textos que lançou no Brasil em 2010, pela Companhia das Letras. Pela mesma editora, lançou no ano passado "O Diabo na Água Benta", no qual aborda outro assunto importante em sua produção intelectual, o jornalismo -em especial, a imprensa clandestina que veiculava insultos e difamações mas também denúncias políticas de um e outro lado do canal da Mancha no século 18.
              Irmão e filho de jornalistas, diz manter o encanto pelo ofício, que chegou a exercer nos anos 1960: foi repórter de polícia do "The New York Times" e teve como colega de editoria um dos maiores jornalistas americanos vivos, Gay Talese -de quem diz não ser muito fã.
              Em seu escritório na Wadsworth House, no campus de Harvard, onde recebeu a Folhapara esta entrevista, Darnton comentou algumas obras que retratam a história do jornalismo nos Estados Unidos. Seu pai, Byron Darnton, é citado em várias delas. Ao cobrir para o "New York Times" a Segunda Guerra Mundial (1939-45) no Pacífico, Byron foi atingido num bombardeio e tornou-se um dos primeiros jornalistas americanos mortos no conflito.
              Folha - Como estão os preparativos para o lançamento da DPLA, que o sr. anunciou para abril?
              Robert Darnton - Não queremos gerar falsas expectativas: de início não teremos todo o material digitalizado. Levará tempo. Teremos 2 milhões de livros liberados pelo domínio público. Vamos começar modestamente. Espero que cresça mais e mais. É um trabalho que deve ser feito por séculos.
              O início envolve a digitalização de coleções especiais, principalmente as de Harvard. Temos uma enorme quantidade delas nas 73 bibliotecas da universidade, são mais de 18 milhões de volumes. Estamos escaneando livros, manuscritos e fotografias de diferentes assuntos.
              Há acervos sobre mulheres, imigrações e obras sobre doenças epidêmicas, por exemplo; e há coleções históricas importantes, sobre a era medieval e sobre fotografia, com imagens da Lua e da escravidão, como fotos de escravos que nasceram na África e foram levados para os EUA.
              Qual o maior problema que estão encontrando?
              Montamos um escritório para discutir a questão legal e convidamos pessoas de diferentes instituições, de várias partes do país, que costumam enfrentar o mesmo tipo de problema: o óbvio, dinheiro, além de dúvidas relativas à tecnologia, à organização, ao conteúdo digitalizado e ao público que vai utilizar tudo isso. Mas a questão legal é a mais importante. Não podemos violar os direitos autorais.
              A ideia é que a DPLA seja a antítese do Google Books?
              Exatamente. O Google tenta fazer a mesma coisa, mas sob a lógica do lucro. O Google veio a Harvard para discutir a cópia de livros, quando eles começaram a digitalização. Eles também foram à NYPL (sigla em inglês da Biblioteca Pública de Nova York) e às universidades Stanford, do Michigan e da Califórnia.
              Harvard disse que eles poderiam digitalizar alguns livros -aqueles em domínio público, não os protegidos por lei. Mas as demais universidades deram permissão para que copiassem o que quisessem, e eles começaram a fazer isso.
              A Liga dos Autores e a Associação Americana de Editoras foram à Justiça contra a empresa. Após três anos de negociação secreta, fecharam um acordo com o Google, mas a Justiça de Nova York vetou, por entender que infringia a lei de direitos autorais.
              Vamos fazer diferente, não vamos ganhar dinheiro, queremos apenas servir o público com livros abertos na internet.
              Quantas bibliotecas e universidades americanas terão acervos digitalizados na DPLA?
              Não tenho ainda um número certo, mas são milhares. Todas as bibliotecas abertas para pesquisa no país estarão envolvidas. Mas levará tempo: no início, serão todas as que já têm material digitalizado. Obviamente, todas que tiverem coleções anteriores a 1923 poderão participar.
              A DPLA poderá usar livros publicados após 1923, se autores e editoras concordarem com a abertura das obras na internet, gratuitamente?
              Sim, temos um programa para tentar convencê-los a ceder obras para a base da DPLA. Muitos livros deixam de ser lidos após alguns meses no mercado; eles morrem. Autores, claro, querem leitores. A maioria das obras não tem valor financeiro cinco ou seis anos depois da publicação, e os proprietários dos direitos podem ficar felizes ao ver seus livros disponíveis.
              O fato de que as universidades e instituições envolvidas no projeto da DPLA tenham visões diferentes sobre o futuro do livro e sobre como usar a internet não é um problema?
              É um problema potencial. Mas há coisas sendo feitas. Há uma coalizão de fundações, que vão nos prover dinheiro, e há as bibliotecas e universidades, que vão disponibilizar os acervos.
              Estamos concebendo uma estrutura tecnológica que permita harmonizar todas as coleções digitais em um mesmo sistema. Superada essa questão, será o momento de reunir livros e coleções, por exemplo, do Alabama e da Dakota do Norte numa mesma base. É muito trabalho.
              O site já está funcionando experimentalmente, mas ainda não há nada aberto ao público. No dia 18 de abril vamos lançá-lo com uma cerimônia na Biblioteca Pública de Boston.
              O governo norte-americano não apoia a DPLA?
              Não, é um projeto completamente independente do governo, gerido por fundações privadas. Não há envolvimento público.
              A principal política, mesmo nas universidades privadas como Harvard, é abrir as bibliotecas para compartilhar conhecimento intelectual ao redor dos Estados Unidos e do mundo.
              É difícil para as pessoas da Europa ou da América Latina compreenderem, porque muita gente fora dos EUA, para tocar esse tipo de projeto, depende do governo. Mas este é um país em que não devemos ter fé no governo ou no Congresso para prover um bom serviço gratuito ao público.

                domingo, 20 de janeiro de 2013

                Bolsa no exterior cresce, mas só 12% estão em escola 'top'

                FOLHA DE SÃO PAULO

                Índice considera universitários financiados em Portugal, Espanha, França e nos EUA
                Desde a criação, em 2011, programa federal Ciência sem Fronteiras triplicou o número de estudantes no exterior
                FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOUm dos principais programas do governo Dilma, o Ciência Sem Fronteiras já triplicou o número de universitários que estudam no exterior, financiados pela União. A maior parte dos beneficiados, porém, não está nas melhores faculdades do mundo.
                Com base nos dados oficiais do programa, a Folha identificou para quais instituições os alunos de graduação ganharam bolsa, considerando os quatro países que mais receberam alunos (EUA, Portugal, Espanha e França).
                Dos cerca de 8.000 graduandos, só 12% foram para universidades que integram uma lista considerada como de excelência pela própria Capes (um dos órgãos do Ministério da Educação que coordena o projeto).
                Nos materiais informativos e publicitários, o governo afirma que financia os alunos para estudar nas "melhores universidades do mundo".
                Analistas ouvidos pela reportagem afirmam ser positiva a iniciativa de enviar alunos para o exterior, pois, com a experiência, eles podem melhorar o sistema brasileiro (na graduação, eles ficam fora até um ano e meio).
                Um dos problemas, dizem, é usar recursos públicos para custear bolsas em escolas que estão até abaixo de brasileiras como USP e Unicamp.
                Lançado em 2011, o programa deverá gastar R$ 3,2 bilhões até 2014, para custear 101 mil bolsas. O valor é equivalente a 70% do Orçamento da USP para este ano.
                RANKINGS
                Em seu site, a Capes afirma que "prioritariamente" os alunos devem ir para uma das cerca de 300 universidades de excelência -basicamente, elas estão entre as 200 melhores do mundo em dois dos principais rankings internacionais ou tiveram ao menos uma área com boa posição.
                As listas consideradas são dos rankings britânicos THE (Times Higher Education) e QS (Symonds Quacquarelli).
                Ao comentar os dados tabulados pela Folha, o órgão federal afirmou, porém, que os alunos estão "nas melhores instituições disponíveis".
                No projeto, o aluno não escolhe em qual universidade estudará. Ele aponta a área e o país. A vaga é obtida pelas instituições parceiras da Capes em cada país, segundo os postos oferecidos pelas instituições que aderiram à ação.
                As seis escolas que mais receberam alunos, todas portuguesas, não estão na lista considerada como de excelência.
                A campeã foi a Universidade de Coimbra (709 alunos), que não está entre as 400 melhores no THE (onde a USP é 158ª) e está em 385ª no QS. Depois vem a Universidade do Porto e a Técnica de Lisboa.
                Entre as instituições bem avaliadas, a que mais recebeu alunos foi a Universidade de Barcelona (93 estudantes), posição 187ª no QS. Há ainda alunos nas líderes dos rankings mundiais, como MIT (4 bolsistas) e Harvard (6).

                  Bolsista está na melhor disponível, diz governo
                  Universidades estrangeiras precisam comprovar que 'curso é de excelência'
                  Especialista considera preocupante número de alunos financiados hoje pelo governo em instituições de Portugal
                  DE SÃO PAULOOs bolsistas do Ciência sem Fronteiras estão nas melhores instituições "disponíveis", afirmou a Capes (um dos órgãos federais responsáveis pelo programa).
                  "Prioritariamente", declara o órgão do Ministério da Educação, os alunos vão para as escolas mais bem conceituadas em cada área.
                  Se a universidade não aparecer em boas posições nos rankings, ainda assim ela pode receber alunos, afirma a Capes -desde que as instituições parceiras comprovem com especialistas que tal curso é de excelência.
                  Um dos exemplos citados é a Universidade do Porto, a segunda que mais recebeu graduandos, que não consta entre as 400 melhores no ranking THE e é 401ª no QS.
                  A universidade, diz a Capes, possui "uma das melhores escolas de engenharia civil na Europa". Os cinco graduandos brasileiros em engenharia na instituição, porém, estão em outras modalidades (elétrica, mecânica e tecnologia da informação), segundo o site oficial do programa.
                  "Universidades de primeira linha não delegam a seleção de seus estudantes a outras instituições", afirmam em artigo os pesquisadores Claudio de Moura Castro (Positivo), Hélio Barros (ex-secretário de Ensino Superior do MEC), James Ito-Adler (Cambridge) e Simon Schwartzman (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade).
                  "Instituições de menos prestígio e mais premidas [necessitadas] por dinheiro podem fazê-­lo, mas isso pode significar degradação na qualidade da experiência de estudos no exterior", dizem.
                  "Passar um ano fora, no meio de um curso de graduação, pode ser divertido para o estudante, mas pode não significar muito em termos de sua formação", afirmou Schwartzman à Folha.
                  Já o coordenador do grupo de pesquisa da Unicamp sobre ensino superior, Renato Pedrosa, diz ser preocupante o número de alunos financiados em universidades portuguesas -país que recebeu 2,3 mil graduandos, ante 2,9 mil alunos nos EUA.
                  "Parece um escolha pobre, em particular, pois os estudantes nem terão tido a experiência de aprofundar os conhecimentos numa língua diferente do português, nem terão contato com o que se faz de realmente melhor academicamente na grande maioria das áreas", afirma.
                  Folha questionou o governo desde segunda-feira sobre a localização de todos os bolsistas (incluindo os de pós), mas não obteve resposta. (FÁBIO TAKAHASHI)

                    Iniciativa privada banca projetos para qualificar mão de obra
                    FERNANDO TADEU MORAESCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA
                    É possível investir em educação de qualidade com amparo da filantropia nacional. Iniciativas do gênero começam a aparecer no Brasil e prometem ganhar fôlego nos próximos anos.
                    Cláudio Haddad, dono do instituto de administração e economia Insper, crê que a realidade brasileira de doações para educação está melhorando. Para 2015, ele planeja abrir cursos de engenharia mecânica, sistemas/informação e mecatrônica.
                    O foco será em tecnologia e buscará formar líderes empreendedores. Segundo Haddad, a implantação dos cursos deverá ser toda bancada por doações privadas.
                    A meta inicial de levantar R$ 80 milhões já foi superada. Entraram como doadores quatro grupos industriais (Ultra, Votorantim, Camargo Corrêa e Gerdau), três bancos (Itaú, Bradesco e BTG Pactual) e duas fundações (Lemann e Brava), além de doadores individuais.
                    "Mais importante que o dinheiro é o envolvimento de grandes empresários e empresas no projeto", diz ele. "Acredito que a academia ganha tendo contato com as empresas e vice-versa."
                    FUNDO DE PESQUISA
                    Em 2011, a Escola Politécnica da USP criou o primeiro "endowment" de uma instituição pública brasileira.
                    Bastante comum em instituições universitárias americanas, o "endowment" é um fundo cujos rendimentos serão usados para financiar pesquisas, obras de infraestrutura e investimentos.
                    "O surgimento desse fundo se deve ao fato de que nossos projetos mais ambiciosos esbarram na limitação de recursos", diz o diretor da Poli, José Roberto Cardoso.
                    Segundo ele, a opção pelo "endowment" é devido ao fato de que uma doação direta à USP entra no orçamento geral da universidade.
                    "O doador, em geral, quer que o seu dinheiro seja usado para um fim específico. O 'endowment' permite que isso ocorra", explica.
                    Cardoso diz que esse tipo de iniciativa ainda é incipiente e se destina para os futuros alunos. A faculdade possui dois fundos, o "endowment da Poli" e o "Amigos da Poli", que possuem, respectivamente, R$ 600 mil e R$ 5 milhões de capital.
                    O Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada) é outro exemplo de bom relacionamento com o dinheiro privado. Em 2011, recebeu pouco mais de R$ 1 milhão em doações privadas.
                    Entre os doadores estão figuras como o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, os irmãos João e Pedro Moreira Sales e o matemático James Simons, que abandonou a academia pelo mercado financeiro e tornou-se bilionário e filantropo.

                    Estudantes aprovam assistência do governo
                    EUA, país com mais bolsistas do Brasil, atenderam a 3.600 alunos
                    Brasileiros estão em universidades pequenas, médias e grandes, sobretudo na região leste americana
                    LUCAS FERRAZCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM NOVA YORKNos Estados Unidos, país com o maior número de bolsistas do programa brasileiro Ciência sem Fronteiras, os estudantes aprovam a assistência dada tanto por membros do governo quanto pelo corpo diplomático.
                    Para eles, a integração nas universidades americanas também está sendo fácil.
                    Com mais de 3.600 bolsas implementadas desde o primeiro semestre de 2012, os brasileiros estão espalhados sobretudo no leste do país.
                    Eles frequentam universidades pequenas, médias e grandes. Mesmo assim, ainda é difícil conseguir entrar em escolas de ponta.
                    Alguns, como o estudante de engenharia de produção Bruno Dorigo, afirmam que os responsáveis pelo programa ainda precisam consolidar melhor as informações que são passadas para a comunidade de alunos que está interessada no tema.
                    Os primeiros editais foram confusos, diz o futuro engenheiro. Aluno da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Dorigo, 22, está nos EUA desde agosto. Ele se inscreveu no primeiro edital, no final de 2011.
                    O estudante está fazendo uma graduação-sanduíche no Stevens Institute of Technology, em Hoboken, Nova Jersey, onde permanece durante o atual semestre.
                    "Até agora não tenho muito do que reclamar da assistência", disse. Pelo Ciência sem Fronteiras, ele recebe um auxílio mensal de US$ 300 (cerca de R$ 600). Da universidade americana, ganha alojamento e alimentação.
                    "Todos se esforçam para que a coisa dê certo, eles entregam quase tudo de bandeja", afirma Rafaella Buzzi, 21, estudante de cinema da Temple University, na Filadélfia.
                    Ela se refere ao corpo diplomático brasileiro, que montou nos países mais procurados no programa uma estrutura exclusiva para atender aos bolsistas, às universidades e também às instituições que intermedeiam o contato entre o governo brasileiro e as escolas americanas.
                    No caso dos EUA, a ligação entre os dois lados está sob responsabilidade do IIE (sigla em inglês do Instituto Internacional de Educação).
                    GRATA SURPRESA
                    Aluna da PUC-Rio, Rafaella conta que planejava estudar no exterior antes mesmo de se inscrever no programa. "Cinema no Brasil é fraco e o estudo ainda é muito básico."
                    No final, ela pôde escolher para onde iria, porque também acabou sendo selecionada pela UCLA (Universidade da Califórnia), que tem um convênio com a faculdade que ela estuda no Rio.
                    "Claro que preferi estudar no exterior com os benefícios do governo", disse.
                    Todos os estudantes brasileiros ouvidos pela reportagem afirmaram que a temporada de estudos nos EUA está superando as expectativas.
                    Rafaella Buzzi ressalta que sobra bolsas de estudos no Brasil para quem estiver interessado em ter uma experiência acadêmica no exterior.
                    "Não há nada difícil ou impossível, o processo só requer muita atenção", diz Rafaella.

                      domingo, 13 de janeiro de 2013

                      De Ramos a Brown [Perfil Roquinaldo Ferreira]

                      folha de são paulo

                      PERFIL
                      O professor da Ivy League que é filho de uma empregada doméstica e de um cabo da Marinha
                      LUCAS FERRAZ
                      RESUMO Especialista em história atlântica, que busca compreender a dinâmica comum a África, Portugal e Brasil, Roquinaldo Ferreira acaba de se tornar professor da Universidade Brown. De origem pobre e formado na escola pública, projeta-se na Ivy League, conjunto de oito instituições da elite acadêmica dos EUA.
                      Se você comentar com Roquinaldo Ferreira o ineditismo de sua trajetória para os padrões brasileiros, ele vai concordar, embora relutante. Se você constatar então que ele é o primeiro brasileiro negro do andar de baixo a chegar tão longe na elite da academia americana, o professor ficará resignado, fará ponderações e, em seguida, explicará a modéstia: "Não quero dramatizar a minha vida".
                      Filho de um cabo da Marinha e de uma empregada doméstica, o mais velho de três irmãos criados em Ramos, bairro pobre da zona norte do Rio de Janeiro, Roquinaldo Ferreira, 45, é um dos mais destacados africanistas de sua geração. Colheu seus louros acadêmicos e intelectuais nos EUA, na África e na Europa.
                      No Brasil, onde seu nome não é tão difundido, ele sempre estudou em escolas públicas. Serviu-se de bolsas do governo para se graduar, fazer mestrado e doutorado, quando obteve o título de PhD em história, com ênfase na África Central, pela Universidade da Califórnia.
                      Sem conseguir se estabelecer no país natal, Roquinaldo construiu uma bem-sucedida carreira no exterior. Professor da Universidade da Virgínia, nos EUA, é também professor-visitante da Universidade de Genebra.
                      Neste semestre, ele assume a Vasco da Gama Chair, espécie de cátedra nos departamentos de história e de estudos luso-brasileiros da Universidade Brown, uma das oito universidades da Ivy League, sigla conhecida pela excelência e pelo elitismo social (também integram o grupo Harvard, Yale, Princeton, Columbia, Dartmouth College, Cornell e Universidade da Pennsylvania).
                      Foram mais de 15 meses de processo seletivo -que incluiu avaliação de seus ensaios e artigos, de sua atitude em sala de aula e até de seu comportamento social. Ele ficará responsável por quatro disciplinas: história de Portugal moderno, história do Império Português e a relação com Brasil e África, o tráfico de escravos entre Brasil e África e Brasil Colonial.
                      Apesar das reticências de Roquinaldo, é fato: nunca antes um acadêmico brasileiro que não tivesse suas origens na elite havia galgado degrau tão alto na Ivy League.
                      TRADIÇÃO "Ele vem de uma tradição ampla. Ao contrário dos americanos que estudam a África, ele incorpora a história do império português e do Brasil no contexto africano, o que é muito diferente", comenta o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor de História do Brasil na Universidade Sorbonne, na França. Alencastro assinou uma das 12 cartas de recomendação que a Universidade Brown recebeu de diferentes partes sobre o brasileiro.
                      Em toda a sua trajetória intelectual, Roquinaldo sempre focou a questão da "transnacionalidade". Esse é o cerne de sua atuação como africanista e, de certa forma, o que o ajudou a se destacar no meio acadêmico mundial.
                      O brasileiro é um defensor do que chama de "história atlântica", narrativa conjunta das colônias portuguesas, o que une o Brasil e a África Negra. Ele mostra como a colonização portuguesa desaguou num sistema único de exploração colonial no Atlântico Sul, criando laços e relações em todos os tipos de atividades nos territórios americanos e africanos.
                      No final da década de 1990, Roquinaldo iniciou um trabalho sobre a escravidão em Angola realizando pesquisas nos arquivos do país. A empreitada continuou na década seguinte e foi complementada no Brasil e em Portugal.
                      O mote da integração cultural está presente em seu primeiro livro, "Cross-Cultural Exchange in the Atlantic World: Angola and Brazil during the Era of the Slave Trade" (intercâmbio cultural no mundo atlântico: Angola e Brasil durante a era do comércio de escravos), publicado no ano passado nos EUA -ainda não há edição brasileira.
                      SIMPÓSIO Estive com Roquinaldo em meados de outubro em Providence, capital de Rhode Island, o menor dos 50 Estados americanos. Com pouco mais de 100 mil habitantes, a cidade de casas vitorianas e imponentes prédios históricos onde se situa a Universidade Brown é uma das mais antigas do país, fundada ainda durante a instalação das 13 colônias. O local foi um dos mais importantes centros industriais no século 19. Roquinaldo esteve na cidade para participar de um simpósio sobre estudos portugueses no contexto global -ao lado de colegas lusitanos, americanos e brasileiros.
                      "Tudo o que faço tem essa perspectiva transnacional, e isso quebra a receita tradicional do império português", afirmou ele. "Essas relações transnacionais são algo que se faz pouco na academia."
                      O historiador acredita que sua ida para Brown reflete também a força geopolítica do Brasil, cujo interesse tem aumentado nas universidades americanas -seja como objeto de estudo ou pelo número de alunos e professores.
                      Para Brown, o significado da presença de Roquinaldo não será menor: a universidade, fundada por irmãos que estiveram envolvidos no comércio de escravos na costa leste americana no século 18, terá pela primeira vez em seus quadros um brasileiro negro, nascido em Salvador (o país e sua primeira capital concentram a maior população negra fora da África), lecionando e interpretando o tráfico de escravos entre terras atlânticas.
                      EXPOSIÇÃO Tímido, esbelto, com não mais de 1,70 m, cabelo raspado a máquina e óculos de grau, o professor Roquinaldo Ferreira se incomodou ao passar três dias na companhia de um jornalista. Ele não gosta de exposição e não quer, como disse, se transformar em um intelectual com voz pública. Neste ano, ele deve continuar em uma espécie de "arranjo transatlântico", como define sua relação com a família. Ele divide seu tempo entre os EUA (onde passa, com idas e vindas, sete meses por ano) e a cidade francesa de Ferney-Voltaire, a 30 minutos de carro do centro de Genebra, onde a mulher -uma americana que trabalha na ONU- vive com o filho de sete anos do casal.
                      Vai ao Brasil ao menos uma vez por ano. Entre 2004 e 2005, quando ele e a mulher moraram no Rio, o historiador queria dar aulas em alguma grande universidade brasileira. Foi reprovado no teste que fez para a Unicamp, não conseguiu outra vaga e a tentativa de retornar ao país se frustrou.
                      A família de Roquinaldo Ferreira se estabeleceu no Rio no final dos anos 60. O interesse pela leitura chegou a ele na Escola Municipal Berlim, que ainda funciona no mesmo endereço, no bairro de Ramos. Para compensar a falta de biblioteca, a professora levava livros de outros colégios. Na sexta série, caiu em suas mãos um exemplar de "Cem Anos de Solidão", clássico do colombiano Gabriel García Márquez. "Ali tudo mudou. Aquelas imagens me levaram para um outro mundo", recorda.
                      O realismo mágico e o gosto pela leitura o levaram à história. À universidade ele só pôde ingressar após obter uma bolsa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência do Ministério de Ciência e Tecnologia). Naquela altura sem o pai, que tinha morrido, estudar era um luxo para a família.
                      "Minha ascensão tem muito a ver com a oportunidade com as bolsas", conta.
                      Durante o mestrado na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a mesma onde havia se graduado, começou a atuar como pesquisador do Centro de Estudos Afro-Asiáticos, da Universidade Cândido Mendes, no Rio, experiência que considera fundamental para sua trajetória. "Me deu sofisticação cultural."
                      A pavimentação da carreira de africanista seguiu na Universidade da Califórnia, onde recebeu o título de doutor -novamente com bolsas do CNPq.
                      "O ensino superior no Brasil não é meritocrático, mas pode ser um instrumento de mobilidade social", conclui.
                      DE COSTA A COSTA Da Costa Oeste à Leste, passando pelo sul e o Meio-Oeste, não importa se em pequenas, médias ou grandes universidades, há cada vez mais brasileiros estudando nos EUA, assim como no exterior de forma geral.
                      O número de estudantes brasileiros utilizando bolsas do governo federal em países estrangeiros, como fez Roquinaldo, era no ano passado 566% maior do que em 1998, segundo números da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao Ministério da Educação) e do CNPq. A maioria está nos EUA e França. O aumento do interesse das universidades americanas pelo Brasil se reflete também nas sucursais no Brasil: Harvard já tem seu escritório em São Paulo, e Columbia está abrindo o seu no Rio.
                      Além de temáticas cada vez mais distintas, há sobretudo mais dinheiro para os estudos brasileiros nos EUA. O empresário e filantropo brasileiro Jorge Paulo Lemann doou quantidades polpudas para diferentes instituições universitárias do país. A Fundação Lemann não divulga os valores, mas acadêmicos e diretores das universidades estimam as doações em mais de US$ 50 milhões.
                      Brown -que ficou de fora das doações de Lemann- é detentora de um dos centros pioneiros de estudos lusófonos entre as universidades da Ivy League, graças à influência da grande comunidade de portugueses e cabo-verdianos em Rhode Island.
                      O Brasil entrou no radar por causa do professor Thomas Skidmore, decano e mais famoso dos brasilianistas, que lecionou na universidade por mais de duas décadas. Seu sucessor é outro brasilianista americano, James Green, autor de "Apesar de Vocês" (Companhia das Letras) e conhecido da esquerda brasileira por ter militado no Brasil e nos EUA contra a ditadura.
                      PASSADO Em seu novo cargo na Universidade Brown, Roquinaldo Ferreira deseja estreitar os laços com o Brasil e a atual produção acadêmica relacionada com a África. Para ele, a academia brasileira ainda não conseguiu explicar o nosso passado escravista. "As pessoas falam sobre escravos, mas é como se eles tivessem caído do céu. Como as pessoas se tornavam escravas?", indaga.
                      Estávamos sentados em uma cafeteria Starbucks próxima ao campi de Brown. Roquinaldo esperava uma corretora para conhecer alguns imóveis na cidade. Perguntei o que ele via desse passado escravista na atual sociedade brasileira.
                      "A desigualdade. A escravidão é pautada pela desigualdade. Esse é o principal reflexo, e não só no Brasil, mas em todos as sociedades escravistas das Américas. É transnacional", resume.
                      Roquinaldo sempre estudou em escolas públicas. Serviu-se de bolsas do governo para se graduar, fazer mestrado e doutorado, quando obteve o título de PhD na Califórnia
                      Roquinaldo sempre focou a questão da "transnacionalidade". Esse é o cerne de sua atuação como africanista e, de certa forma, o que o ajudou a se destacar
                      Para ele, a academia brasileira ainda não conseguiu explicar o nosso passado escravista. "As pessoas falam sobre escravos, mas é como se eles tivessem caído do céu"