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domingo, 18 de agosto de 2013

Plano de Haddad não ataca problemas, diz professora

folha de são paulo
Pedagoga da Unicamp defende investimento em salário e infraestrutura
Envio de boletim aos pais e centros para a formação de docentes são elogiados pela pesquisadora
FÁBIO TAKAHASHIRICARDO SENRADE SÃO PAULOO pacote para a educação paulistana anunciado na última semana pelo prefeito Fernando Haddad (PT) tem pontos positivos, mas não ataca os problemas principais, avalia a pesquisadora Maria Marcia Malavazi, da Unicamp.
Coordenadora do curso de pedagogia da instituição, Malavazi elogiou o envio de boletim com as notas dos alunos aos pais e a ideia de transformar os CEUs (centros de educação unificados) em unidades para a formação de professores.
Para a pesquisadora, porém, o que mudaria efetivamente a qualidade do ensino público seria o investimento maior em salário do docente --o piso municipal hoje é de R$ 2.152 para 40 horas semanais. Ela também defende investimentos na infraestrutura das escolas.
Entre as medidas anunciadas por Haddad estão o aumento da possibilidade de reprovação dos alunos (em cinco das nove séries), a obrigatoriedade da lição de casa e a realização de provas bimestrais.
Atualmente, os dois últimos pontos são definidos pelas escolas.
A gestão municipal diz querer organizar melhor a rotina dos colégios e exigir mais estudos dos alunos. Em contrapartida, promete melhorar a recuperação dos estudantes (com mais professores) e a formação dos docentes (com mais cursos).
O plano dividiu os analistas. A ONG Todos pela Educação, por exemplo, entende que a proposta é positiva, por tentar implementar "o básico" para um bom ensino.
A seguir, a opinião da pesquisadora da Unicamp.
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Folha - Qual a avaliação da sra. sobre o plano da prefeitura?
Maria Marcia Malavazi - Não ataca o que é importante. A discussão não deveria ser se vai avaliar ou reprovar mais os alunos. A discussão deveria ser: Quando as escolas terão efetivamente condições de ensinar?
A aprovação automática não deu certo. Mas a reprovação também não dará. Um salto de qualidade só viria com melhores condições salariais e de trabalho para os professores, o que poderia atrair profissionais excelentes.
Além de escolas mais bem equipadas, com computadores, laboratórios. E formação melhor dos professores.
A sra. vê pontos positivos no plano da prefeitura?
Gosto da ideia de enviar o boletim com notas aos pais. Não muito pelo ato em si, mas porque isso pode desencadear uma participação maior da família na vida escolar.
Também achei interessante a ideia de transformar os CEUs em centros de formação de professores, eles precisam estar em constante atualização. Só precisa ver a qualidade desses cursos.
Mas são medidas paliativas. A ideia aí é dizer que a culpa pela situação do aluno é do professor, não da estrutura oferecida. Isso acontece na prefeitura e no Estado, não tem muita diferença.
A sra. citou a necessidade de melhorar a formação dos professores, mas gestores e analistas criticam também cursos considerados de ponta, como da Unicamp, por serem muito teóricos e pouco práticos.
A teoria ilumina a prática. O professor tem de saber ensinar em diversas comunidades, sem receita pronta. Os gestores reclamam desses cursos porque eles ensinam o professor a pensar. E, assim, eles não aceitam qualquer medida de um gestor.

    quinta-feira, 15 de agosto de 2013

    Plano de educação de Haddad aumenta rigor sobre alunos - Ricardo Gallo

    folha de são paulo
    Prefeito pretende elevar número de séries em que estudante pode ser reprovado
    Projeto para 2014 prevê também lição de casa obrigatória e boletim bimestral divulgado para pais na internet
    DE SÃO PAULOO prefeito Fernando Haddad (PT) anunciará hoje um plano de reestruturação na educação municipal que prevê aumentar, a partir do ano que vem, as exigências para os alunos do ensino fundamental em São Paulo.
    Entre as medidas está a possibilidade de reprovação em cinco das nove séries, como antecipou a Folha em julho. Hoje, o estudante só pode ser retido em duas séries.
    A proposta, que ficará em consulta pública de hoje a 15 de setembro, fixa ainda obrigatoriedade de provas bimestrais e de lição de casa aos alunos, algo para o qual não há regra atualmente.
    As notas irão de zero a dez, em vez dos atuais conceitos (plenamente satisfatório, satisfatório e não satisfatório).
    Para o secretário de Educação, Cesar Callegari, "não se trata de mais rigidez aos alunos, mas de mais organização". Segundo ele, as escolas saberão com mais rapidez as dificuldades dos alunos e poderão atacar o problema.
    Sem ter tido acesso à proposta, o presidente do Sinesp (sindicato dos diretores da rede municipal), João Alberto Rodrigues de Souza, faz ressalvas às notas de zero a dez em lugar de conceitos e à reprovação em cinco séries.
    "É preciso ter cuidado com a forma como os professores receberão esses instrumentos nas mãos. Há histórico de professores que usam nota como forma de repressão, como se fosse uma arma para controlar o aluno", diz.
    BOLETIM
    O plano estabelece boletim bimestral para acompanhamento do desempenho de alunos, que os pais poderão consultar pela internet.
    No aspecto disciplinar, também há alterações. Hoje cabe a cada escola definir quais sanções serão aplicadas em caso de indisciplina.
    Pela proposta, haverá uma espécie de código de conduta, com regras para advertência ou suspensão.
    PREMISSA
    A proposta de alteração nas reprovações se baseou em uma premissa: pelo modelo atual, em que o aluno do primeiro ciclo só pode ser retido ao final do quinto ano, ele pode ficar muito tempo na escola sem aprender.
    Dados da Prova Brasil de 2011 mostram que 38% dos alunos do 5º ano na cidade de São Paulo não estavam plenamente alfabetizados.
    A meta é assegurar que todas as crianças saiam do terceiro ciclo alfabetizadas.
    Souza, do sindicato dos diretores, acha boa a preocupação com alunos que não estão aprendendo e diz que as escolas ganharão autonomia.
    A reprovação, segundo Haddad, só ocorrerá em último caso, de modo "residual". Isso porque, disse ele, haverá mais chances de recuperação durante o ano letivo.
    Uma delas é a recuperação nas férias. Outra é a dependência --em que o aluno "carrega" no ano seguinte disciplinas nas quais não foi aprovado na série anterior.
    Comum no ensino superior, a dependência valerá para os alunos do sétimo e do oitavo anos. Não está definido ainda qual o máximo de disciplinas a ser permitido.
    OFERTA
    O plano municipal também contempla ampliar a rede.
    Está prevista, por exemplo, a construção de 367 unidades educacionais, das quais 20 CEUs (centros de educação unificados).
    Para os CEUs, a gestão Haddad erguerá unidades ao lado de clubes-escola, para aproveitar a estrutura. O secretário da Educação disse que o modelo pedagógico no novo e no antigo CEU será idêntico.
      ANÁLISE - EDUCAÇÃO
      Proposta do prefeito agrada docente que quer mais poderes
      Educadores apontam que alunos perderam a disciplina porque sabem que a reprovação é quase impossível
      OS AGRADOS CONTEMPLARÃO CATEGORIA QUE FEZ UMA GREVE DE 23 DIAS EM MAIO PASSADO, CINCO MESES APÓS FERNANDO HADDAD ASSUMIR A PREFEITURA DE SÃO PAULO
      FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULO
      Parte das propostas apresentadas pelo prefeito Fernando Haddad (PT) vai ao encontro do que reivindicam os professores das escolas públicas: mais poderes dentro das salas de aula.
      Um forte discurso entre educadores é que os alunos perderam a disciplina porque sabem que a reprovação é quase impossível após a adoção da progressão continuada, em 1992, na gestão Luiza Erundina (então no PT).
      A proposta de Haddad atende aos professores ao aumentar a possibilidade de retenção das atuais duas para cinco séries do fundamental.
      O prefeito diz que seu plano visa avaliar melhor e dar mais apoio pedagógico ao aluno, o que evitará que ele não saiba o conteúdo (e, consequentemente, reprove).
      De qualquer forma, a ferramenta da retenção estará à disposição dos professores, para desespero de educadores que veem a reprovação como uma das principais causas da evasão escolar.
      Ainda no capítulo disciplinar, o plano abre possibilidade para que se institucionalize na rede a advertência e a suspensão de alunos, outra reivindicação de docentes. A adoção de sanções hoje depende de cada escola.
      Os agrados contemplarão categoria que fez uma greve de 23 dias em maio passado --cinco meses após Haddad assumir a Prefeitura de São Paulo--, reivindicando aumento salarial.
      Reajuste esse que não deverá fugir muito do que já foi acertado durante o governo Gilberto Kassab (PSD), considerando a situação financeira que Haddad diz estar enfrentando no município.
      Nesse panorama de aperto orçamentário, com medidas de custo quase zero, Haddad agrada boa parcela de seus professores --que tanto podem se engajar no plano de melhorar o ensino como dar ao petista considerável base para futuras eleições.
      Resta saber qual será o impacto das medidas sobre os estudantes, principais interessados na melhoria do sistema educacional

      terça-feira, 13 de agosto de 2013

      Fora da lei, 11 capitais negam tempo livre a professores

      folha de são paulo
      (FÁBIO TAKAHASHI, NATÁLIA CANCIAN, RAFAEL TATEMOTO E RAYANNE AZEVEDO)

      Municípios ignoram exigência de horário para docente planejar aula
      Prefeituras alegam falta de verbas; apenas Macapá ainda não paga o valor mínimo de R$ 1.567 de salário-base
      DE SÃO PAULO
      Cinco anos após ser aprovada no Congresso, a lei que fixa condições mínimas aos professores de escolas básicas públicas não é cumprida em 12 das 27 capitais. Uma delas não paga o piso salarial e as outras 11 não concedem jornada extraclasse mínima.
      A regra determina piso salarial de R$ 1.567 no ensino fundamental e médio (jornada de 40 horas semanais).
      Também exige que o docente fique 1/3 do período fora das aulas, para preparação de atividades, por exemplo.
      Levantamento da Folha com secretarias municipais de Educação aponta que em 11 capitais o período extraclasse é inferior ao exigido (Belém, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis, Maceió, Manaus, Natal, Recife, Salvador, São Paulo e Vitória). Em relação ao valor do salário, Macapá paga R$ 1.345 --menos que o piso, portanto.
      A lei visa melhorar condições de trabalho dos docentes em atividade e atrair mais jovens para o magistério.
      A maior dificuldade para se cumprir a regra da jornada extraclasse é que ela requer contratação de docentes, pois os professores já em atividade teriam que dar menos aulas.
      Segundo a Undime, que representa secretários municipais de Educação, gestores buscam cumprir a regra, mas alegam falta de verbas.
      "Todo mundo vai ter de ceder nesse processo", disse a presidente da Undime, Cleuza Repulho, referindo-se a prefeituras e sindicatos.
      SANÇÃO
      A lei não prevê sanção automática ao gestor que descumpra a regra. Ao sancionar a norma, o então presidente Lula afirmou que só cabe punição se comprovada a desonestidade do administrador.
      Pesquisador da USP em direito administrativo, Gustavo Justino de Oliveira entende que a própria legislação sobre improbidade prevê punição a quem desrespeita lei como a do piso do magistério. Um passo necessário é o pedido do Ministério Público.
      Já Carlos Ari Sundfeld, pesquisador da PUC e da FGV, vê como exagerada uma ação de improbidade em casos que não se caracterizem má fé. Diz, porém, que há respaldo legal para que docentes peçam cumprimento da lei.
      Resolução do Conselho Nacional de Educação estabeleceu 2015 como prazo final de transição. A regra, porém, não tem força de lei.
      Há divergências sobre o alcance da lei do piso. "Atividade intelectual, principalmente como a docência, exige reflexão e preparação", disse o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.
      Já Ilona Becskeházy, consultora em educação, considera ser mais importante a definição de currículo claro para as escolas, melhoria nos materiais e infraestrutura.
      OUTRO LADO
      Redes municipais dizem que vão se adequar à norma
      DE SÃO PAULOAs capitais que descumprem a lei do magistério dizem buscar a adequação, mas esbarram na falta de recursos.
      Única capital que não paga o valor salarial mínimo, a Prefeitura de Macapá diz que o pagamento é compensado com gratificações, que podem aumentar "em até quatro vezes" o salário docente.
      A lei do magistério, porém, fixa piso para o salário-base. "Há uma série de penduricalhos [gratificações]. Se formos pagar o piso-base, quebra a prefeitura", afirmou a secretária de Educação, Antônia Costa Andrade.
      A rede paulistana diz que apenas parte dos professores não tem o 1/3 da jornada fora da aula (os com contrato de 30 horas semanais). Mesmo eles, afirma a prefeitura, podem migrar para jornadas que já cumprem o que prevê a lei.
      Florianópolis e Belém dizem que, como não conseguem deixar todos os professores 1/3 da jornada fora da sala de aula, pagam gratificações para compensar.
      A capital catarinense afirma que os professores dos anos finais do fundamental já estão enquadrados na lei. E que os demais estarão adequados até 2015.
      Campo Grande, Maceió, Natal, Recife e Salvador dizem que também estão em processo de adequação.
      A Prefeitura de Cuiabá afirma que seu percentual de jornada extraclasse ao menos cumpre lei municipal (20%).
      As redes de Manaus e Vitória não explicaram por que descumprem a regra.
      O Ministério da Educação afirma reconhecer a dificuldade de implementação da lei, mas diz que não tem o poder de fiscalizar as prefeituras, que têm autonomia.

      Jornada afeta professor e aluno, diz docente
      DE SALVADOR
      A baiana Ivone Anunciação Souza, 43, não se conforma. Ela trabalha na rede municipal de Salvador, que descumpre a lei dos professores e não lhe dá um terço de sua jornada para preparar aulas ou corrigir provas.
      Ivone, que ensina em dois turnos (à noite, para jovens e adultos), diz que isso compromete a qualidade do curso e de sua vida.
      "Nós também temos relações interpessoais e nosso futuro. Isso tudo fica prejudicado quando se tem uma pilha de provas para corrigir ou três empregos", diz.
      Em 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) julgou que a reserva do chamado terço extraclasse é constitucional.
      "Assim como vocês, repórteres, precisam de tempo para apurar uma história e depois escrevê-la, o professor precisa para fazer seu planejamento pedagógico", diz.
      O professor Arlindo César, 24, concorda.
      "Por enquanto não tenho filhos e estou sem namorar. Como conseguirei ter uma vida normal no ritmo que levo?", questiona.
      ANÁLISE
      Da intenção à realidade, ainda há uma grande distância
      MARCELO LEITEDE SÃO PAULOCom a adoção de um piso salarial nacional para professores de educação básica, há cinco anos, a sociedade brasileira emitiu sinal inequívoco de que deseja pôr termo à progressiva proletarização dessa profissão decisiva para o desenvolvimento do país e de seus cidadãos. Da intenção à realidade, todavia, vai uma grande distância.
      A boa notícia do levantamento realizado pela Folha está na razoável obediência à norma salarial pelas redes municipais de ensino nas capitais. Só em Macapá se observa descumprimento.
      O valor do piso também é respeitado pela maioria das secretarias estaduais de Educação, indicam levantamentos anteriores. Falta porém, uma pesquisa sobre as outras 5.544 cidades do país, que indicará se esse padrão mínimo de remuneração determinado pela lei "pegou" ou não.
      Não seria arriscado dizer, tomando só as capitais e as redes estaduais de ensino, que a maioria dos alunos de educação básica no Brasil já conta com professores que recebem o piso. Embora acarrete um ônus e tanto para prefeitos e governadores, seria leviano concluir que está tudo bem. Longe disso.
      Em primeiro lugar, o piso de R$ 1.567 não pode ser considerado alto. Equivale a 2,3 salários mínimos, é verdade, mas fica abaixo do salário médio nacional de R$ 1.793 (dado de 2011) divulgado em maio passado pelo IBGE, com base no Cadastro Central de Empresas (Cempre).
      Se comparado com a média dos que têm diploma de nível superior (R$ 4.135), como se exige da quase totalidade de docentes de educação básica, o piso dá uma medida mais objetiva do prestígio social conferido à categoria: o trabalho do professor vale não muito mais do que um terço (38%) do que ganham outros profissionais com a mesma titulação.
      QUALIDADE
      De um ponto de vista qualitativo, então, a realidade é ainda mais preocupante.
      O levantamento constatou também que só 16 das sedes de unidades da Federação cumprem outro dispositivo menos lembrado da lei 11.738: a obrigação de reservar um terço da jornada de 40 horas semanais para trabalho fora da sala de aula.
      Para dar uma educação melhor, o professor precisa de tempo para preparar aulas, fazer cursos e atualizar-se sobre novos conhecimentos, livros didáticos e técnicas de ensino na sua área.
      Se ficar oito horas por dia em classe, a tendência é que repita sempre a mesma aula. Ou, pior, que siga sem refletir as receitas prontas, sem adaptá-las aos alunos de carne e osso que tem diante de si.
      O piso salarial representa um avanço importante para a educação brasileira. Mas o país ainda está muito aquém do teto do que é possível e necessário realizar para que se eleve acima do pântano de mediocridade em que afunda.

        segunda-feira, 29 de julho de 2013

        Aluno de SP poderá repetir em 5 das 9 séries - Fabio Takahashi

        folha de são paulo
        O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), decidiu fazer uma reorganização nos ciclos e nos currículos da rede municipal de ensino.
        A proposta em estudo prevê que possa haver reprovação em até cinco séries do ensino fundamental, ante as atuais duas. E, em alguns casos, poderá haver a dependência de matérias.
        O documento com a proposta, obtido pela Folha, foi enviado pela Secretaria Municipal de Educação há cerca de dez dias a dirigentes da rede para discussão.
        Ainda pode haver mudanças até a apresentação oficial, em cerca de 15 dias.
        Hoje, os alunos só podem ser retidos ao final do 5º e do 9º anos, séries que finalizam os ciclos atuais. O mesmo acontece na rede estadual.
        A proposta é que os ciclos passem a terminar na 3ª, na 6ª e na 9ª séries (com possibilidade de reprovação) e que possa haver retenção também na 7ª e na 8ª.
        Editoria de arte/Folhapress
        Desde o início da gestão, o secretário da Educação, Cesar Callegari, tem sinalizado a possibilidade de adotar a reprovação no 3º ano, destacando que seria apenas em casos graves, em que o aluno precise rever o conteúdo ao final do ciclo de alfabetização.
        Como hoje a primeira retenção só pode ocorrer no 5º ano, a avaliação do secretário é que se demora muito para recuperar um aluno que não foi alfabetizado. Não havia sido apresentada, até então, a possibilidade de reprovação no 7º e no 8º anos, que estão no meio de ciclo.
        A possibilidade de reprovação é vista por parte dos professores como uma forma de inibir a indisciplina nas salas e de evitar que alunos avancem sem saber o conteúdo.
        Já educadores apontam que um repetente tende a ter desempenho pior para todo o restante da vida escolar, com mais chances até de evadir -e que alguns estudantes precisam de mais tempo para aprender o mesmo conteúdo.
        A melhoria da qualidade do ensino fundamental é um dos principais desafios do prefeito Haddad. Hoje, a rede municipal de ensino da cidade de São Paulo São Paulo tem cerca de 1 milhão de alunos.
        Nos últimos anos, o município não atingiu as metas federais, que consideram desempenho dos alunos em português e matemática e a taxa de aprovação. Haddad, ex-ministro da Educação, tem participado pessoalmente das discussões sobre as mudanças na área.
        SEM DETALHAMENTO
        Chamado de minuta para consulta pública, o documento não aborda o risco de aumento de reprovação.
        Afirma apenas que, para as três séries finais do ensino fundamental, há a possibilidade de o aluno ficar de dependência -ou seja, se reprovar em português, por exemplo, o aluno refaz apenas essa disciplina, mas passa de série. Ainda não há um detalhamento sobre como fica a situação do estudante que ficar de dependência em uma matéria no último ano ou daquele que mudar de rede.
        Na proposta, também ainda não estão definidas quantas matérias seriam necessárias para reprovar totalmente o estudante.
        Procurada pela reportagem, a gestão de Fernando Haddad afirmou que não comentaria as ideias do documento por ele poder ainda passar por alterações.
        Outra proposta da gestão é que haja ao menos duas avaliações por semestre aos estudantes (hoje as escolas definem quantas aplicarão), e as notas devem ser enviadas às famílias, para que elas sejam mais envolvidas no cotidiano escolar.
        A minuta enviada aos dirigentes de ensino prevê ainda a possibilidade de uma mesma unidade de ensino infantil abrigar crianças de 0 a 5 anos. Hoje, elas ficam divididas em dois tipos de escolas, de 0 a 3 anos e de 4 a 5 anos. O texto não explica o porquê da alteração
        Mudança poderá alterar metas de alfabetização
        Objetivo da prefeitura é alfabetizar aluno até os oito anos, enquanto proposta do Estado é de sete anos
        Alteração no currículo da rede municipal de ensino segue o mesmo modelo defendido pelo governo federal
        FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULO
        Se aprovada a proposta de mudança estudada pela Prefeitura de São Paulo, as redes municipal e estadual paulista terão metas diferentes de alfabetização de alunos.
        A prefeitura paulistana aponta como objetivo alfabetizar seus alunos até os oito anos de idade, seguindo o proposto pelo governo federal (modelo desenhado pelo atual secretário municipal de Educação, Cesar Callegari, quando ele trabalhou no Ministério da Educação).
        Já o governo estadual anunciou neste mês que traçou como meta a alfabetização até os sete anos.
        Cada uma das opções propostas possui elogios e críticas de especialistas ouvidos pela reportagem.
        A alfabetização aos oito anos é vista como ideal para as crianças que não passaram pelo ensino infantil, pois poderia ser muito forçado exigir que um jovem de seis ou sete anos já tenha tal capacidade após dois anos, no máximo, de contato com a escola.
        Já os defensores do segundo modelo apontam que as crianças da rede pública de ensino não podem ficar em desvantagem em relação às das escolas privadas, que, em geral, buscam alfabetizar até os seis ou sete anos de idade.

        domingo, 21 de julho de 2013

        USP reconhece que terá de alterar bônus no seu vestibular - Sabine Righetti e Fabio Takahashi

        folha de são paulo
        Universidade persegue meta posta pelo governo de ter 50% dos calouros provenientes de escolas públicas
        Mudança em bonificação racial e para alunos de escolas públicas foi aprovada pelo Conselho Universitário neste mês
        SABINE RIGHETTIFÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOSem apresentar estudos que mostrem a base para a mudança em sua política de bônus no vestibular a alunos de escolas públicas, a USP reconhece que outras alterações serão necessárias.
        Situação parecida vive a Unicamp, que também alterou recentemente sua política de benefício a estudantes das escolas públicas.
        As instituições perseguem a meta posta pelo governo estadual de ter 50% dos calouros provenientes da rede pública, em cada curso. Na USP, a média hoje é de 28%, mas chega a 17% em medicina.
        A universidade aprovou no início deste mês bônus de 5% para vestibulandos pretos, pardos e indígenas. Para os demais alunos de escolas públicas, o benefício subiu de 15% para 20%.
        SEM EXPLICAÇÃO
        Proposta pela pró-reitoria de graduação, a mudança foi aprovada pelo Conselho Universitário. Membros do órgão reclamaram que não foram apresentados estudos que mostrassem seu impacto.
        Assim, não foi explicado, por exemplo, qual será a mudança no perfil dos ingressantes nem se a medida será suficiente para chegar à meta. "A pauta do dia tinha 200 páginas. Para a parte da inclusão era apenas uma", disse Leandro Salvatico, representante dos pós-graduandos.
        Folha pediu nas três últimas semanas os estudos que deram embasamento à alteração. Sem sucesso.
        A universidade informou apenas que há "várias" simulações, mas não as mostrou. Afirmou ainda que a ideia é "ajustar" os bônus nos próximos anos e incentivar que mais alunos de escolas públicas prestem o vestibular.
        O próprio reitor, João Grandino Rodas, disse logo após a votação que uma possibilidade era aumentar os bônus nos cursos mais elitizados, como medicina e engenharia.
        PRESSÃO
        A alteração aprovada pela USP foi feita após o governador Geraldo Alckmin (PSDB) pressionar as universidades a se tornarem menos elitistas.
        Nas federais, já neste ano, começou a implementação das cotas, tanto para escolas públicas quanto para negros.
        Alckmin e os reitores chegaram a apresentar um modelo de metas no final do ano passado, que previa que, até 2016, metade dos calouros sairiam das escolas públicas, sendo 35% deles pretos, pardos ou indígenas.
        Pressionadas, mas com autonomia, as universidades buscaram alternativas à proposta. A USP determinou que as metas podem ser atingidas até 2018; a Unicamp, até 2017. Não haverá punição caso os objetivos não sejam atingidos.
        Além disso, as duas instituições recusaram uma das ações propostas pelo governo: a criação do "college" --um curso intermediário semipresencial, de dois anos, em que os alunos que terminassem o ensino médio poderiam estudar nas universidades.
        "Foi mais uma maneira da USP de burlar a sociedade", afirma Frei David, presidente da ONG Educafro.
        "A USP está acirrando os ânimos da comunidade negra. Não aceitaremos sermos enganados mais uma vez."
        No vestibular deste ano, não houve nenhum negro aprovado no curso de medicina, por exemplo.
        OUTRAS INSTITUIÇÕES
        A direção da Unicamp também não apresentou ao Conselho Universitário ou à reportagem os estudos que embasaram o aumento em seus bônus no vestibular.
        Das três universidades estaduais paulistas, apenas a Unesp decidiu manter 2016 como prazo para se atingir as metas de inclusão.
        Foi a primeira das três instituições a tomar uma decisão, em abril passado.
        Mas a instituição não fez alterações na sua seleção e não deixa claro como aumentará a participação de quem estudou em escolas públicas entre os matriculados.
        Principal era aprovar metas, diz governo
        Apesar de sua proposta ter sido alterada, gestão Alckmin afirma estar satisfeita com decisões das universidades
        Uma das dificuldades para chegar aos objetivos é a baixa procura das escolas públicas ao vestibular
        DE SÃO PAULOApesar de USP e Unicamp terem aumentado o prazo para se chegar às metas de inclusão propostas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), a gestão estadual paulista diz estar satisfeita com as decisões.
        "A aprovação das metas pelas universidades é a espinha dorsal da proposta", diz Carlos Vogt, assessor especial do governo para assuntos de ensino superior.
        De acordo com ele, cada universidade fará o que for preciso para atingir as metas.
        "As universidades estão avaliando suas próprias estratégias", afirma.
        Em privado, professores que participaram da elaboração da proposta inicial do governo --que teve o apoio dos reitores-- afirmam que chegaram a temer que as metas nem fossem aprovadas pelos Conselhos Universitários.
        Um dos problemas, dizem, foi a proposta da criação do "college", que enfrentou forte resistência nas faculdades.
        A ideia era que o aluno de escola pública se preparasse melhor no curso intermediário, de dois anos, antes de ingressar nas universidades.
        Mas houve críticas em relação ao modelo semipresencial e à demora que haveria até o aluno entrar na USP, na Unesp ou na Unicamp.
        Assim, o governo passou a defender que o importante eram as metas. As ações ficariam a cargo de cada escola.
        ATRATIVIDADE
        Um dos problemas para que as metas de aprovados egressos do ensino médio público sejam atingidas é a baixa procura desse público pelos vestibulares.
        Apesar de a rede pública representar 85% do total de matrículas no Estado, a participação desses alunos entre os inscritos na Fuvest é de apenas 35%. Na Unicamp, a taxa chega a 28%.
        Professores da USP envolvidos nas discussões apontam que corre-se o risco de se aprovar estudantes com muito deficit de conteúdos se a universidade "forçar" que 50% dos calouros sejam de escolas públicas.
        Além disso, é preciso garantir que os alunos permaneçam nas instituições.
        "Sabemos que os alunos que vieram de escolas públicas terão dificuldades, inclusive financeiras, para se manter", afirma Vera Lucia Felicetti, doutora em educação e especialista em inclusão social na educação superior.
        "As universidades também precisam se preparar para isso", complementa.
        DESIGUALDADE INTERNA
        A participação de egressos de escolas públicas varia de curso para curso.
        Na Unesp, por exemplo, 40% dos matriculados vieram do ensino oficial. Mas, em medicina, a taxa cai para 2%.
        A universidade afirmou, via assessoria de imprensa, que aposta em cursinhos pré-vestibulares gratuitos para que as metas sejam atingidas.
        Assim, quem não teve um bom ensino médio --que, em geral, é particular-- poderia compensar o deficit no cursinho da própria Unesp.
        A partir deste ano, a USP também seguirá estratégia dos cursinhos. Serão oferecidas mil vagas, destinadas a alunos que tiveram bom desempenho no vestibular. Eles também ganharão auxílio financeiro.
        ANÁLISE
        Universidades exerceram sua autonomia e mudaram plano
        LEANDRO TESSLERESPECIAL PARA A FOLHAO Pimesp (programa para inclusão social nas universidades paulistas, apresentado em dezembro) propõe atingir o mesmo objetivo da lei de cotas das instituições federais de ensino superior por meio de uma formação inicial em um colégio semipresencial e posterior transferência.
        Na proposta, essas metas deveriam ser atingidas até 2016. Como as universidades estaduais paulistas gozam de autonomia, o projeto precisava ser aprovado nos Conselhos Universitários.
        USP, Unicamp e Unesp recusaram a transferência automática dos alunos do curso semipresencial e também o prazo proposto para se chegar às metas (só a Unesp manteve o prazo).
        A Unicamp decidiu dobrar o bônus que já concedia no vestibular aos oriundos de escola pública. A USP também aumentou o seu bônus.
        As medidas permitem prever que a meta do Pimesp será atingida em qualquer prazo? Não. Ou pelo menos não foram fornecidos aos conselheiros dados que demonstrem isso claramente. As decisões foram tomadas em um prazo bastante curto.
        É possível chegar a 50% das vagas para oriundos da escola pública admitindo os melhores talentos?
        Sim, mas somente se o percentual de candidatos de escola pública for de 50%. Não, se ele se mantiver em 30%.
        É difícil entender por que a lei de cotas e o Pimesp propõem só 50% enquanto 88% dos concluintes do ensino médio saem da rede pública.
        Não há cota capaz de compensar uma formação deficiente. O ideal seria romper a separação que se configura com as crianças das classes A e B estudando em escolas particulares quase totalmente brancas e as demais em escolas públicas, que em média formam mal os estudantes.
        Inclusão social requer uma mudança na sociedade. O convívio entre brancos e pretos, pobres e ricos deve ocorrer desde o início da formação, não só durante o ensino superior.

          sexta-feira, 28 de junho de 2013

          Conselho da USP aprova bônus racial para o vestibular

          folha de são paulo
          Proposta também aumenta bonificação para egressos de escola pública; ideia é atingir metas de inclusão do governo
          Documento ainda vai passar pelo Conselho Universitário da USP; Unesp e Unicamp já aprovaram suas metas
          SABINE RIGHETTIFÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOO Conselho de Graduação da USP aprovou ontem a criação de bônus de 5% no vestibular para candidatos de escolas públicas que se declararem pretos, pardos ou indígenas. Hoje, não há benefício específico para esse grupo.
          Haverá ainda aumento do bônus para os demais candidatos da rede pública. A pontuação máxima pode ir dos atuais 15% para 20%.
          Ou seja, um aluno autodeclarado preto, pardo ou indígena que cursou o ensino básico na rede pública poderá ter um acréscimo de até 25% na sua nota no vestibular. Hoje, ele só pode chegar aos 15%.
          A instituição aposta no aumento dos bônus no vestibular para atingir as metas do projeto apresentado em dezembro pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP).
          O governo quer que 50% dos calouros de cada curso das universidades estaduais paulistas --USP, Unicamp e Unesp-- sejam egressos de escolas públicas, sendo pelo menos 35% deles pretos, pardos e indígenas. O plano é atingir essas metas em 2016.
          Hoje, 28% dos aprovados na USP estudaram na rede pública. A universidade pretende alcançar as metas em 2018.
          O documento ainda passará pelo Conselho Universitário no próximo dia 2. Se aprovado, valerá já para o próximo vestibular.
          CURSINHO
          A USP aprovou ainda um reforço escolar --curso pré-vestibular-- para alunos da rede pública. Serão mil vagas, 35% delas em cota racial.
          O documento aprovado na USP, ao qual a Folha teve acesso com antecedência, é uma síntese das sugestões feitas pelas suas 42 unidades.
          A USP foi a última universidade estadual paulista a aprovar as metas do governo.
          A aprovação da Unesp foi em abril. Em junho, a Unicamp dobrou os bônus no vestibular para estudantes do ensino médio público e aos pretos, pardos e indígenas.

            quarta-feira, 5 de junho de 2013

            USP propõe bônus a aluno de escola pública que se definir preto ou pardo

            folha de são paulo
            Pela proposta a ser votada neste mês, grupo terá acréscimo de 5% na nota do vestibular
            Projeto prevê ainda ampliar bônus para demais estudantes da rede pública dos atuais 15% para até 20%
            FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOA USP votará neste mês proposta que prevê a criação de bônus de 5% no vestibular para candidatos de escolas públicas que se declararem pretos, pardos ou indígenas.
            Hoje, não há benefício específico para esse grupo.
            Está previsto ainda aumento do bônus para demais alunos da rede pública, que pode ir dos atuais 15% a até 20%.
            Ou seja, um aluno pardo que cursou o ensino básico na rede pública poderá ter um acréscimo de até 25% na sua nota no vestibular. Hoje ele só pode chegar aos 15%.
            O modelo é uma resposta à proposta apresentada em dezembro pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e pelos reitores de USP, Unesp e Unicamp. Consultadas, as unidades da USP rejeitaram diversos pontos.
            Um dos pilares do projeto inicial era a criação do "college", um curso superior semipresencial, de dois anos, para alunos da escola pública.
            Os que fossem aprovados entrariam nas universidades sem passar por vestibular.
            Essa ideia não consta no novo documento desenhado pela universidade.
            A instituição decidiu apostar no aumento dos bônus para atingir as metas do projeto inicial (que estão mantidas): 50% de calouros de escolas públicas, em cada curso, sendo 35% deles pretos, pardos e indígenas.
            Hoje, 28% dos aprovados na USP são da rede oficial.
            O prazo para chegar aos patamares, porém, foi alterado, de 2016 para 2018.
            DIVERGÊNCIAS
            A nova proposta da USP, à qual a Folha teve acesso, é uma síntese das sugestões feitas pelas suas 42 unidades. Ela foi sistematizada pela pró-reitoria de graduação e será votada no seu conselho.
            Segundo a reportagem apurou com membros do órgão, a maioria dos itens da proposta deve ser aprovada com facilidade.
            Apenas o trecho sobre pretos, pardos e índios deve sofrer resistências.
            Nas discussões internas, o projeto inicial do governo e dos reitores sofreu críticas diversas e até opostas.
            A direção da Faculdade de Medicina, por exemplo, entendeu que ele mudaria muito o perfil do alunato, o que poderia reduzir a qualidade da USP.
            Já a FFLCH (área de humanas) disse haver espaço para uma opção mais ousada, com adoção de cotas --reserva de vagas a alunos de escolas públicas, pretos, pardos e índios.
            Já o "college" foi criticado pela maioria das faculdades, que entenderam que seria pouco atrativo deixar alunos dois anos em curso "à parte".
            A nova proposta da USP tenta acomodar as divergências internas.
            Em carta às faculdades, a pró-reitora de graduação, Telma Zorn, afirma que o prazo mais longo para atingir as metas foi colocado para que o processo seja feito "de modo responsável".
            A reitoria disse que não se manifestará agora publicamente porque a proposta pode mudar. O projeto prevê ainda um cursinho para mil alunos, ministrado pela USP.

              sexta-feira, 24 de maio de 2013

              Greve de professores em SP afeta 28% das escolas municipais

              folha de são paulo

              Paralisação afeta ao menos 28% das escolas municipais
              Adesão de quase 1/3 é reconhecida pela prefeitura, mas greve pode ser maior
              Pesquisa da Folha em 200 unidades mostra que metade aderiu ao movimento, que teve início há 22 dias
              FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOANA KREPPRICARDO BUNDUKYCOLABORAÇÃO PARA A FOLHALevantamento em 200 escolas municipais de São Paulo indica que metade das unidades aderiu à greve dos professores, iniciada há 22 dias.
              A amostra consultada pela Folha ontem e anteontem, por telefone, representa 15% do total de creches, pré-escolas e colégios da rede --52% afirmaram que havia alguma paralisação; 10% delas, que a unidade parou totalmente.
              A própria prefeitura admite que há alguma paralisação em 28% das escolas.
              Mas ela diz que a adesão em número de educadores é pequena. O principal sindicato da categoria fala em 55% das unidades em greve.
              Os levantamentos apontam que a mobilização dos professores teve reflexos diretos que afetam a rede.
              O realizado pela Folha inclui escolas de cada uma das 13 diretorias de ensino nas diversas regiões da cidade.
              Hoje haverá assembleia dos professores no centro para definir se a greve continua. A gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) diz que ela está enfraquecendo --para o sindicato, está aumentando.
              Esse é o primeiro embate de Haddad com o funcionalismo municipal e uma das primeiras crises enfrentadas pelo governo desde janeiro.
              Uma das principais reivindicações dos professores é um aumento salarial imediato de 17%, referente às perdas inflacionárias desde 2011 --além do que já havia sido acordado pela gestão anterior, de Gilberto Kassab (PSD).
              O governo Haddad afirma que concedeu 10% neste mês e que dará mais 13% no ano que vem, cumprindo o que havia sido aprovado em 2010.
              "Eles estão apenas cumprindo a lei", disse o presidente do Sinpeem (maior sindicato da categoria), Claudio Fonseca. Além de não ser um reajuste novo, o sindicato reclama que os percentuais foram corroídos pela inflação.
              "Prometer é fácil. Nós estamos cumprindo o prometido", afirmou o secretário de Educação, Cesar Callegari.
              Ele classificou a greve dos educadores como "precipitada e injusta", pois começou antes do início das negociações com sua pasta.
              A prefeitura afirma que tem conseguido mostrar aos professores nos últimos dias as melhorias que vão ter.
              Segundo o município, na última sexta, 20 mil dos 68 mil professores faltaram (diariamente, a média é de 7,5 mil). Ontem, foram 10 mil.
              Essa redução, na visão da gestão Haddad, indica que a greve está perto do fim.
              Já Fonseca diz que a insatisfação aumentou depois que a prefeitura divulgou que descontaria os dias parados.

                Aulas perdidas durante a greve devem ser repostas nas férias
                Calendário só será definido após fim de paralisação, mas prefeitura já avalia reposição em julho
                Líderes de sindicatos dizem que atos contam com militância petista, insatisfeita com pasta comandada por PSB
                DE SÃO PAULOProfessores e alunos de escolas municipais paralisadas desde o início do movimento deverão ter de repor aulas perdidas nas férias de julho.
                Essa é a avaliação interna na prefeitura, antes mesmo da definição da duração total da greve. Os colégios que entraram no protesto logo no início já perderam 16 dias letivos (a lei exige que sejam dados 200 dias ao ano).
                O calendário final da reposição só será definido após o término da paralisação.
                Há discordância entre prefeitura e sindicatos em relação ao pagamento dos dias parados aos servidores.
                A gestão Fernando Haddad (PT) determinou que as faltas sejam descontadas.
                Para a prefeitura, a forma de pagamento desse período só deve ser definida após o fim da paralisação. Já os sindicatos defendem que o governo deve recuar do corte.
                "Se não há apontamento de faltas, é uma greve de mentira, escamoteada, que só prejudica as crianças", afirmou o secretário da Educação, Cesar Callegari.
                "Cortar o ponto é não reconhecer o direito de greve. Só faria sentido se a greve fosse julgada ilegal, o que não ocorreu", afirmou o presidente do Sinpeem (sindicato docente), Claudio Fonseca --ex-vereador pelo PPS, da base do governo Gilberto Kassab (PSD).
                Eles discordam do cronograma da greve. Callegari reclama que ela foi deflagrada um dia antes do início da negociação. Já Fonseca afirma que, em relação às tratativas salariais, a prefeitura já havia esgotado suas propostas.
                FOGO AMIGO
                Líderes de dois dos cinco sindicatos ligados à educação municipal afirmaram à Folhaque alguns protestos contra a prefeitura partem da própria militância do PT, que esperava ter um petista como secretário de Educação. Callegari é do PSB.
                O próprio secretário já reconheceu a interlocutores que, de fato, parte da base grevista pode ser composta de petistas descontentes.
                Ao escolher Callegari, o prefeito afirmou que o nome vinha de sua "cota pessoal", como uma decisão técnica.

                Crianças não vão à escola há duas semanas
                ANA KREPPCOLABORAÇÃO PARA A FOLHAPor causa da greve de professores, cerca de 40 crianças estão sem aulas há pelo menos duas semanas no Jardim Arpoador, zona oeste de São Paulo.
                Segundo moradores, algumas mães perderam o emprego porque tiveram de faltar ao trabalho para cuidar dos filhos.
                Líder comunitária do bairro, Janaína Aparecida, 37, tem cinco filhos matriculados na escola municipal Professora Daisy Amadio Fujiwara. Todos estão sem professores desde o dia 3.
                "Tá todo mundo aqui com o filho em casa, sem poder sair pra resolver alguma coisa porque precisa olhar os filhos. Se precisar sair, tem de pedir para a vizinha cuidar. E se a pessoa trabalha, vai fazer o quê?"
                Valkíria Aparecida Arice, 58, mora com a filha e o neto no Jardim Arpoador. O menino de cinco anos estuda na escola municipal Professora Carolina Ribeiro e foi dispensado das aulas há duas semanas.
                "Como minha filha trabalha e eu também, não tinha com quem deixá-lo. Então ela precisou faltar no serviço. No terceiro dia, foi mandada embora."
                Após uma semana desempregada, a filha começa hoje em um novo emprego. "Meu neto vai ficar com uma tia, mas, se a greve continuar, não sei o que faremos. Minha filha não pode ficar desempregada."
                As famílias da comunidade esperam que a greve seja encerrada hoje na assembleia. "Foi essa possibilidade que me deram na escola", diz Janaína.
                Ali perto, as famílias que têm filhos matriculados na escola municipal Professor Benedicto Castrucci passam pelo mesmo problema.
                De acordo com Aparecida Mendes dos Santos, 58, avó de duas meninas, de sete e quatro anos, cuida das meninas em casa há 15 dias.
                "Ter as duas em casa ao mesmo tempo é terrível, porque elas não param de brigar."

                  quinta-feira, 2 de maio de 2013

                  Professor terá de melhorar aluno para ganhar diploma

                  folha de são paulo

                  Docente que fizer pós só terá certificado se provar que estudante evoluiu
                  Qualificação em universidades garantirá aumento salarial ao magistério no ensino médio da rede pública
                  FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOO Ministério da Educação lançará nas próximas semanas programa para tentar melhorar o desempenho de alunos e professores em matemática, física, química e biologia, tanto no ensino médio quanto no superior.
                  As quatro matérias são as que mais possuem problemas de qualidade, de acordo com o próprio governo federal.
                  Uma das ações será a oferta de pós-graduação em universidades federais e privadas a professores que lecionam as disciplinas nas escolas públicas de ensino médio.
                  O certificado garantirá aumento salarial ao docente (progressão na carreira), mas só será concedido se houver a comprovação de que seus estudantes melhoraram --exigência inédita em programas federais de educação.
                  "Hoje, gasta-se muito com formação dos professores, mas a melhoria não chega aos alunos", disse Mozart Neves, que coordenará o programa do Ministério da Educação.
                  A forma de avaliar a evolução dos estudantes não está definida. O docente reprovado poderá refazer o curso.
                  O número de professores participantes do programa dependerá da adesão dos Estados, que são os responsáveis pelos docentes.
                  O país tem cerca de 250 mil docentes de ensino médio em matemática, física, química e biologia, segundo os últimos dados do governo. Mas boa parte não tem formação na área --em física, são 90%.
                  OUTRAS FRENTES
                  "Temos um número insuficiente de professores nessas áreas. E a procura pelas licenciaturas é insuficiente", disse o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Para tentar reverter o quadro, o programa terá outras duas frentes.
                  Em uma delas, o governo tentará incentivar alunos do ensino médio a escolherem o magistério nessas áreas.
                  Para isso, estudantes com interesse nessas matérias passarão a ter aulas de reforço e ganharão ajuda mensal de R$ 150 (paga pela União).
                  Eles participarão também de atividades nas universidades em grupos que reunirão docentes universitários, alunos de licenciaturas e professores das escolas básicas. A meta é recrutar 100 mil estudantes do ensino médio.
                  Em outra frente, os estudantes que já estão nas licenciaturas poderão fazer aulas de reforço nos conteúdos básicos, numa tentativa de diminuir a evasão nos cursos.
                  Ex-diretor da Unesco no Brasil (braço da ONU para educação), Jorge Werthein diz que o programa é interessante. Ele faz, porém, ressalva sobre a vinculação do certificado de pós-graduação ao professor à melhoria dos alunos.
                  "Ainda não se encontrou uma boa forma de avaliar o trabalho do professor. Pode haver injustiças."

                    ANÁLISE
                    Evasão no ensino de ciências exige programas específicos
                    NELIO BIZZOESPECIAL PARA A FOLHAO desempenho dos estudantes brasileiros nas áreas científicas seguramente não é bom, ainda que não haja elementos concretos de sua evolução na última década.
                    Isso se deve à decisão de excluir essa área das provas do Saeb (avaliação federal) há 13 anos, quando o país aderiu ao Pisa, um programa internacional de avaliação.
                    Se por um lado não há dados concretos, a acentuada falta de professores em disciplinas científicas e a alta evasão nos cursos de licenciatura, ao lado dos dados do Pisa, são evidências claras de que a situação se agrava.
                    Pesquisas recentes de abrangência nacional realizadas por nosso núcleo na USP indicam que os jovens do ensino médio das regiões mais desenvolvidas economicamente tendem a evitar as carreiras científicas, paradoxo que ocorre também em outros países.
                    Isso sugere que o apagão de mão de obra qualificada tende a se acentuar nas próximas décadas, o que traria efeitos perversos no desenvolvimento do país.
                    Programa específico para a área é mais do que necessário, antes que seja tarde.
                    MERCADO
                    A estratégia de abrir diversas frentes de atuação, no ensino médio, na universidade e na formação dos professores em exercício, é boa, mas não pode deixar de enfrentar a tendência que temos constatado no ensino médio, mencionada acima, que desvia os jovens das carreiras relacionadas a ciência e tecnologia.
                    A criação de mestrados profissionalizantes para professores é necessária, e já está em curso, mas pode agravar a normatização da certificação profissional do magistério no país.
                    Por exemplo, se professores de matemática das redes de ensino obtiverem um diploma de mestrado profissional em ensino de física, a evasão dessa licenciatura pode se agravar, pois tornará ainda menor o mercado de trabalho dos professores apenas com a licenciatura em física.
                    Além disso, a vinculação da certificação dos professores ao desempenho de seus alunos pode desestimular a adesão em todas as áreas.

                      quinta-feira, 18 de abril de 2013

                      MEC devolverá autonomia a universidades


                      Governo afirma que instituições devem ter prerrogativa de exigir pós-graduação de candidatos a professor
                      Executivo, porém, ainda não sabe qual instrumento legal vai usar para fazer nova mudança na carreira
                      DE SÃO PAULOO MEC (Ministério da Educação) informou ontem que o Executivo chegou a um entendimento de que é necessário alterar a lei para permitir que as instituições possam exigir nos concursos os títulos de mestre ou de doutor.
                      Segundo a pasta, a lei hoje vigente para os professores seguiu a lógica das demais carreiras do serviço público federal, em que um novo servidor deve começar no primeiro nível da carreira.
                      Assim, foi desconsiderado que os docentes das universidades têm titulações muito diferentes --e que a seleção deve refletir essa situação.
                      "Lei para carreiras são complexas e devem ser sempre aperfeiçoadas. Por isso, faremos a alteração para que a lógica volte a ser como era", disse o secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação, Paulo Speller.
                      Para atender as universidades, o governo vai alterar o patamar em que o novo professor entra na instituição.
                      A lei vigente prevê que ele deve sempre ingressar no nível mais baixo, o de auxiliar de ensino, tradicionalmente ocupado por docentes que possuem só graduação.
                      A alteração a ser feita permitirá que a universidade escolha o posto hierárquico que o candidato poderá ingressar.
                      Assim, se ela quiser que entrem mestres, o concurso será para o segundo patamar (assistente). Se quiser doutores, a seleção será para o terceiro (adjunto).
                      O formato com que a mudança será implementada ainda não está definido, segundo Speller. Caberá ao Ministério do Planejamento definir se haverá medida provisória (alteração imediata) ou um projeto de lei (que exige tramitação no Congresso).
                      Os concursos em andamento, afirma Speller, serão automaticamente alterados para o novo formato.
                      "Se tivéssemos sido ouvidos, esse ponto não passaria dessa forma", afirmou o secretário executivo da Andifes (entidade representante dos reitores), Gustavo Balduino.
                      Segundo ele, a associação quis participar do debate da lei do magistério superior, mas não foi atendida.
                      O representante do MEC afirma que houve ampla discussão sobre o tema, mas que não recebeu manifestação oficial da Andifes.
                      A SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) afirmou que sugeriu que a questão do concurso fosse alterada pelo Legislativo, mas não foi ouvida.
                      O Congresso aprovou a lei quase sem alterações. A presidente Dilma Rousseff a sancionou em dezembro. A lei previa que a mudança nos concursos entraria em vigor em março.


                      MEMÓRIA
                      Nova regra foi definida durante greve
                      A nova carreira do magistério foi desenhada no ano passado, durante a greve de professores da rede federal, que durou quatro meses. A paralisação foi encerrada após o Executivo enviar ao Congresso a proposta, que previa, além da mudança nos concursos, reajustes entre 25% e 40% em três anos.

                      Lei tira exigência de pós-graduação para novos professores de federai
                      Nova regra diz que universidades não podem mais pedir mestrado ou doutorado de candidatos
                      Em vigor, norma já provoca mudanças em processos de seleção; governo afirma que vai fazer nova alteração
                      FÁBIO TAKAHASHIna FOLHA DE SÃO PAULO
                      Uma lei de iniciativa do governo federal que entrou em vigor no mês passado determinou que as universidades federais não podem mais exigir nos concursos para professor os títulos de mestre ou doutor dos candidatos.
                      Na prática, quem só tiver diploma de graduação pode agora disputar todas as vagas abertas nas universidades. Até então, esses candidatos eram aceitos como exceção.
                      Após ser procurado pela Folha, o governo afirmou ontem que pretende alterar novamente a regra, para que as instituições possam voltar a exigir diploma de pós-graduação, como condição primordial para a inscrição.
                      O governo ainda não sabe, porém, se mandará um projeto de lei ao Congresso ou se editará medida provisória.
                      Dirigentes de universidades disseram à Folha que o Executivo não tinha a intenção de proibir a exigência de mestrado ou doutorado.
                      Houve um erro no projeto, segundo eles, só percebido quando as universidades consultaram suas áreas jurídicas para abrir os concursos.
                      A mudança, porém, já trouxe resultados práticos.
                      A Federal de Santa Catarina, por exemplo, está selecionando 200 professores com diploma de graduação (inicialmente, exigia doutorado).
                      Na Federal de Pernambuco, os departamentos de física e de química decidiram suspender os processos por discordar da nova regra.
                      Desde a década de 1990, a praxe nos concursos é exigir que os candidatos tenham doutorado ou mestrado, como forma de buscar melhor qualidade no ensino e na pesquisa. Hoje, 90% dos docentes das federais têm uma pós.
                      O Ministério da Educação passou a ser pressionado pelas universidades após a consultoria jurídica da pasta publicar parecer confirmando que a lei em vigor agora proíbe que as instituições barrem candidatos sem pós.
                      "Manifestamos publicamente nossa insatisfação, por acreditar que, sem titulação pós-graduada, a competência acadêmica e a formação de recursos humanos ficarão seriamente comprometidas", disse, em nota, o departamento de física da Universidade Federal de Pernambuco, um dos mais produtivos do país.
                      O Conselho Universitário da Unifesp (Federal de São Paulo) emitiu na semana passada nota de repúdio à lei, por entender que ela fere a sua autonomia de escolher o perfil dos novos docentes.

                        segunda-feira, 1 de abril de 2013

                        Talvez tenhamos de adotar um pacto pelo ensino da matemática

                        folha de são paulo

                        ANÁLISE
                        KATIA STOCCO SMOLEESPECIAL PARA A FOLHAAntes dos sistemas de avaliação, já se sabia que as dificuldades com a matemática eram uma das causas mais evidentes do fracasso escolar (reprovação ou abandono).
                        Há uma etapa em que o problema é grave, mas estamos olhando pouco para ela: os anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano).
                        É aí que a matemática começa a ganhar complexidade, que as turmas passam a ter mais alunos e que os professores ficam com menos tempo para os estudantes.
                        Essa dificuldade vai ser levada para o restante da vida acadêmica do aluno.
                        Pesquisa do Observatório Ibero-Americano de Ciência, Tecnologia e Sociedade (2008 a 2010) com jovens de 15 a 19 anos da América Latina (São Paulo incluída) e Espanha, revela que só 2,7% pensa em seguir carreira em ciências da natureza e em matemática.
                        O desinteresse vem da dificuldade para aprender, dos assuntos desinteressantes, da impressão de poucas oportunidades profissionais, da forma como o conteúdo é ensinado e da limitação dos recursos utilizados nas aulas.
                        Para melhorar esse ambiente de aprendizagem, falta uma orientação clara do que ensinar em cada etapa escolar, além de deixar de dar continuidade a programas a cada mudança de gestão.
                        Temos hoje o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Talvez tenhamos de adotar um pacto pela aprendizagem da matemática.

                          Estudante de matemática piora entre o 5º e o 9º ano
                          Estudo indica que percentual de alunos no nível adequado cai de 22% para 12%
                          Para especialistas, carência e má formação de professores estão entre os principais problemas enfrentados
                          FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOO percentual de estudantes com rendimento adequado em matemática na rede pública do país cai ao longo dos anos do ensino fundamental, mostra estudo que comparou a evolução de alunos entre 2007 e 2011.
                          A constatação é de levantamento inédito da ONG Todos pela Educação, que detalha a evolução do rendimento dos alunos de escolas públicas do país na Prova Brasil, exame do governo federal.
                          O percentual de estudantes com rendimento adequado na disciplina de uma turma caiu de 22% no quinto ano, em 2007, para 12%, quando ela chegou ao último, em 2011.
                          Ou seja, 88% deles não sabiam calcular porcentagens ou a área de uma figura plana ou mesmo ler informações em um gráfico de colunas. E levam essa defasagem para os ensinos médio e superior.
                          Em língua portuguesa, o recuo entre as séries não foi tão intenso (26% para 23%).
                          Uma das explicações mais citadas por especialistas é a falta de professores na área. É na etapa final do fundamental que os alunos passam a ter aulas com docentes especialistas nas matérias.
                          "Um jovem com habilidade em matemática pode ter salários mais altos se for para engenharia, para bancos. Poucos querem lecionar", disse o professor Rogério Osvaldo Chaparin, do Centro de Aperfeiçoamento do Ensino da Matemática, da USP.
                          No último levantamento federal, matemática apareceu como a área de maior deficit de professores (65 mil).
                          Igor Willian, 17, ficou quase 2010 inteiro sem docente da disciplina, na zona leste da capital. "Até hoje tenho dificuldade com matemática, física e química, porque fiquei aquele ano no pátio."
                          Ele recorreu ao Henfil, cursinho popular, para diminuir a defasagem. "Gostaria de fazer engenharia civil, mas tenho medo dos cálculos."
                          Para a gerente da área técnica do Todos pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, há dificuldades adicionais nos anos finais do fundamental.
                          Uma delas é que os alunos são divididos entre municípios e Estados. "O final do fundamental fica num limbo, quase sem políticas para melhoria. E em matemática o problema fica mais evidente, porque há uma sequência difícil de recuperar depois", diz.

                            MEC minimiza queda e afirma que as 'perspectivas são positivas'
                            Pasta diz que se apoia em outra medição, que aponta perdas menores do que as apresentadas
                            Para especialistas e entidades, problema passa por falta de professores e falha na didática de ensino
                            DE SÃO PAULO
                            O Ministério da Educação afirma que a qualidade do ensino está melhorando e que a queda entre séries não é tão intensa quanto a que foi apresentada pela Todos pela Educação.
                            O presidente do Inep (instituto de pesquisas do MEC), Luiz Cláudio da Costa, diz "respeitar" o trabalho da ONG, mas afirma que a União se apoia em outra medição.
                            Ele citou o Ideb, índice federal de 0 a 10 que mescla o desempenho em português e em matemática na Prova Brasil com as taxas de aprovação dos alunos.
                            No índice, os anos finais do ensino fundamental público foram de 3,5 para 3,9 entre 2007 e 2009 (atingindo as metas que foram estabelecidas pela pasta).
                            "Nossa medição olha a média, não só os melhores alunos", diz Costa. "Claro que há alguma perda com o passar das séries, que vão ficando mais complexas, mas as perspectivas são positivas."
                            PROFESSORES
                            Cleuza Repulho, presidente da Undime (entidade dos secretários municipais de Educação), diz que o maior problema é a falta de docentes. Para ela, as redes precisam ter carreira e salários mais atraentes e são necessárias mais verbas para o setor.
                            Heleno Araújo, dirigente da CNTE (que representa docentes da rede pública), diz que um problema dos anos finais do fundamental é que começam as diversas disciplinas. "O que é ensinado tende a perder a unidade", afirma.
                            Para Angela Dannemann, diretora-executiva da Fundação Victor Civita, que investigou boas práticas no ensino de matemática, os cursos de formação dos professores têm falhas. "Falta a didática do ensino da matemática."
                            A docente da PUC-PR Neuza Bertoni Pinto cita a dificuldade para mostrar a relação da matemática com o mundo real. "O aluno deve ser seduzido para a aprendizagem."
                            Já uma aluna de 14 anos reclama das faltas dos professores. Até este mês, estava no 8º ano da escola municipal Paulo Carneiro Thomaz Alves, uma das piores públicas de São Paulo. "Ano passado ficamos no pátio quase todas as aulas de matemática."
                            A Secretaria de Educação afirma que o quadro está completo, mas que está preocupada "com o elevado número de ausências dos professores".


                            FOCO
                            Baixa rotatividade de professores e alunos alavanca escola campeã em SP
                            JOÃO ALBERTO PEDRINIDE RIBEIRÃO PRETOBaixa rotatividade de docentes, participação dos pais e permanência dos alunos na unidade por todo o ensino fundamental (1º ao 9º anos) são a base do sucesso da escola municipal José Negri, em Sertãozinho, que obteve a maior nota de matemática do Estado na Prova Brasil - 2011.
                            Segundo a diretora, Inês Angélica Servidoni Cabril, duas das três professoras de matemática atuam há mais de uma década na unidade.
                            A permanência de alunos na escola por muitos anos ajuda, diz a professora de matemática Luciane Pereira.
                            "Já conhecemos deficiências de cada aluno desde cedo e, por isso, podemos atacar os problemas pontuais, individualmente. Os professores acabam trocando informações. Um ajuda o outro."
                            Luciana Cancian, também professora de matemática, disse que os alunos registram bons desempenhos em competições pelo país. Na última Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, dos 21 que participaram, 20 ganharam prêmios.
                            Rafaela Milene do Carmo, 12, do 8º ano, diz que a escola estimula o compartilhamento de informações entre os alunos. "Tenho uma amiga que diz que sou a melhor professora dela", conta.
                            "Ajudamos uns aos outros. E isso contribui com quem não está conseguindo aprender", diz Pablo Henrique Ninin, 13, também do 8º ano.
                            A diretora ressalta ainda a cobrança por resultados, o planejamento e a disciplina. "Qualquer problema envolvendo um aluno já acionamos imediatamente os pais."

                              terça-feira, 12 de março de 2013

                              Professor mata a mulher e ganha pensão por morte em São Paulo


                              folha de são paulo

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                              FÁBIO TAKAHASHI
                              DE SÃO PAULO

                              Com riqueza de detalhes, o professor de matemática Claudemir Nogueira mostrou à polícia em 2010 como enforcou a mulher com um fio, dentro de casa, em bairro de classe média na zona sul de São Paulo, um ano antes.
                              À Justiça, manteve o relato. Também admitiu o crime a peritos do governo estadual.
                              Apesar das confissões a diferentes braços do poder público, Nogueira, 48, recebe mensalmente pensão do INSS pela morte da mulher, que ele assassinou. Só em 2010, foram R$ 19 mil, segundo documentos obtidos pela Folha.
                              Nogueira também continua recebendo os vencimentos por ser professor da rede estadual, no valor de R$ 2.509 ao mês. Atualmente, ele trabalha em atividades burocráticas da pasta, após ter sido afastado das salas de aula.
                              "Você consegue imaginar a nossa revolta?", afirmou Samiha Tauil, tia da vítima, a fisioterapeuta do Sesi Mônica El Khouri, que tinha 37 anos quando foi assassinada.
                              "Ele matou a Mônica, confessou em várias instâncias e está nessa situação confortável, com pensão e salário do Estado", disse Samiha.
                              Segundo a Promotoria, Nogueira matou a mulher porque havia sacado todo o dinheiro dela. Já o professor disse à Justiça que ele perdeu o controle após discussão.
                              Até o momento, Nogueira não ficou nenhum dia preso, pois não possui antecedentes e não oferece mais risco às investigações, avalia a Justiça.
                              Ele ainda não foi julgado porque a defesa entrou com pedido para tentar tirar o caso do Tribunal do Júri.
                              Uma das lutas da família da vítima hoje é cancelar a pensão dada a Nogueira e transferi-la para a mãe de Mônica.
                              Editoria de Arte/Folhapress
                              O Ministério da Previdência Social, responsável pelo INSS, e o próprio instituto foram avisados pelos familiares da fisioterapeuta ao menos quatro vezes sobre a situação.
                              O primeiro protocolo foi feito há mais de dois anos --sem resposta até hoje.
                              À reportagem, o INSS não explicou o porquê de a pensão estar mantida. O Estado disse que o docente responde processo disciplinar, "com amplo direito de defesa".
                              Nogueira admitiu o crime também a três médicos peritos do governo estadual.
                              As declarações foram dadas quando ele pediu licenças, dizendo estar abalado com o crime. Os afastamentos foram aceitos, mas a informação não foi repassada a outras instâncias à época.
                              A defesa de Nogueira não quis se manifestar à reportagem sobre a situação dele.
                              Para Marcus Orione, pesquisador da USP em direito previdenciário, o fato de o réu não ter sido condenado o beneficia, ainda que ele tenha confessado o crime.
                              "Um problema aí é a lentidão da Justiça. Se ele já tivesse sido condenado, por crime de 2009, provavelmente já teria perdido os benefícios."