domingo, 17 de fevereiro de 2013

O som e o sentido No quintal de Kleber Mendonça Filho

folha de são paulo

REPORTAGEM
O som e o sentido
No quintal de Kleber Mendonça Filho
FERNANDA MENA
RESUMO
Aclamado pela crítica e por festivais internacionais, "O Som ao Redor" se impõe como um raro acontecimento cultural no cinema brasileiro. O diretor levou a Folha à rua em que rodou o longa e expôs matrizes de seu trabalho, enraizado na crítica, no cineclubismo e na obra de Gilberto Freyre, com quem sua mãe trabalhou.
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Em uma rua tranquila em Setúbal, região de classe média a poucos quarteirões da praia de Boa Viagem, no Recife, o som ao redor é o das crianças no pátio do colégio da esquina, o das vassouras de piaçava que investem contra o passeio de pedra e o meio-fio e o das visitas que dispensam a campainha para gritar da calçada por quem procuram. Tudo, porém, abafado pelo ruído constante da construção de torres residenciais avançando contra o casario local.
Rosto colado num muro, olho direito espiando por uma fresta, Kleber Mendonça Filho, 44, vasculha a cena ocultada por tijolos e cimento. O enquadramento não ajuda. Ele pega o celular no bolso da bermuda, estica o corpo, na ponta dos pés calçados em chinelos de dedo, e ergue os braços sobre o muro, equilibrando o aparelho nas mãos. "Cuidado, Kleber! Pode ter um cachorro aí", aflige-se sua mulher, a francesa Emilie Lesclaux, arranhando ainda mais os erres do sotaque.
Tira uma foto e levanta os óculos para avaliar a imagem. "É...", suspira, "já demoliram toda a parte próxima à piscina".
O imóvel do outro lado do muro foi quartel-general e um dos cenários do primeiro longa-metragem de ficção de Mendonça, "O Som ao Redor", o filme brasileiro mais bem recebido e comentado dos últimos tempos.
O terreno da casa em que, no filme, viveu a personagem Sofia (Irma Brown), namorada do protagonista João (Gustavo Jahn), deve dar lugar, fora das telas, a mais um "prédio de alta qualidade, entre aspas", como gosta de dizer o diretor, frisando o que diz com um gesto dos dedos indicadores e médios ao lado do rosto.
É das relações entre muros dessa paisagem urbana em rápida transformação que trata "O Som ao Redor": a classe média enjaulada em edifícios sitiados, as brincadeiras de criança limitadas pelo portão do prédio e pelos cuidados das babás, o vaivém das empregadas domésticas nos apartamentos, a vigília dos guardas-noturnos.
"Não sou contra filme de favela ou do sertão, mas a novidade de 'O Som ao Redor' é o fato de ter seccionado com tamanha precisão um pedaço da sociedade brasileira pelo qual o cinema em geral não se interessa: a classe média de condomínio", diz Cacá Diegues. "Não há referência a nada. É como se o cinema estivesse sendo inventado ali", entusiasma-se o cineasta, ele mesmo um autor de filmes de favela ("Orfeu", 1999) e de sertão ("Tieta do Agreste", 1996).
Para Mendonça, nada mais natural do que retratar o território que lhe é familiar. "As pessoas se espantam com o fato de o filme tratar da classe média. Isso é muito estranho, já que 90% dos cineastas brasileiros são de classe média", arrisca o diretor. "O cinema brasileiro olha para lugares que não me interessam. Queria fazer o tipo de filme que não tenho visto no Brasil, o que diz muito sobre o que acho da cena atual."
Trata-se de uma fatia da sociedade brasileira mais comumente retratada em comédias de apelo popular: blockbusters como "De Pernas para Ar", "Até Que a Sorte nos Separe" e "E Aí, Comeu?". "São filmes feitos com muita grana e lançados com muita grana. Gastam R$ 6 milhões mas parecem ter custado R$ 800 mil porque têm dois apartamentos, quatro atores da Globo, um cachorro e um gato", desdenha o diretor. "Minha tese é a seguinte: se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana."
Após seis semanas em cartaz, "O Som ao Redor", que custou R$ 1,8 milhão -R$ 550 mil provenientes do fundo para o audiovisual do Estado do Pernambuco-, deve chegar aos 70 mil espectadores neste domingo. O filme estreou no circuito brasileiro em 13 salas, em 4 de janeiro; num movimento inverso ao trivial, chegou a ocupar 18, na semana seguinte ao lançamento. Hoje se mantém em 11.
"Filme com menos de 100 mil espectadores não existe para o mercado", observa Carlos Augusto Calil, ex-diretor da Embrafilme, ex-secretário municipal de cultura de São Paulo e professor de cinema da USP. "Mas nosso horizonte cinematográfico é muito pobre e, nesse contexto, 'O Som ao Redor' se destaca pela inteligência dramatúrgica. Cria um painel e uma sensação parecidos com o filme
'O Pântano', da argentina Lucrécia Martel. É o tipo de filme que precisa ficar mais tempo em cartaz, mesmo que seja em uma sala só, porque o boca a boca sobre ele é muito bom."
GRADES
Filmado em seis semanas e meia, em 2010, o longa de Kleber Mendonça Filho apresenta 80 locações -a maioria delas localizada nos arredores do apartamento em que ele vive há 25 anos, cuja janela gradeada dá hoje para os 17 andares de um prédio de alta qualidade, entre aspas, sendo erguidos a poucos metros dali.
Diante da nova e inóspita urbanização do Recife, "O Som ao Redor" evita as paisagens abertas, as praias, e faz crônicas da vida íntima em que os espaços públicos, em suas raras aparições, surgem privatizados.
A rua que serve de cenário para o filme tem dono: é de Francisco (W.J.Solha), o patriarca local, proprietário de um engenho decadente no interior do Estado e de boa parte dos apartamentos do quarteirão. Ele é avô do protagonista João e de Dinho (Yuri Holanda), ovelha negra da família.
Com a chegada ao local de um grupo de seguranças particulares, liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos), o patrimônio permanece nas mãos do coronel, mas o controle passa a ser deles: nenhum carro ou pessoa passa por ali despercebido.
"O condomínio fechado é mostrado como a versão contemporânea do feudalismo, em que empregadas e porteiros são objetificados", avalia Ismail Xavier, crítico de cinema e professor da USP. "Tudo parece normal e, ao mesmo tempo, a ponto de romper. Há sinais de instabilidade, e a tensão é trabalhada de maneira muito sutil, potencializada por uma estranheza familiar com tintura de insegurança", decreta. "Com isso, Kleber demonstra um grande domínio dos meios de expressão, do tempo e do espaço."
É no mesmo celular em que registrou a ruína de um dos sets do longa que Mendonça checa, a todo momento, mensagens, na maioria elogiosas, sobre o filme. No Facebook, são postados os textos sobre filme publicados na mídia -como aquele que Caetano Veloso, em sua coluna no jornal "O Globo", escreveu que "O Som ao Redor" é "um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo".
Quando foi lançado, há um ano, no Festival de Cinema de Roterdã, o filme havia sido inscrito em outros dois eventos do tipo. Ao final da première, Kleber Mendonça Filho deixou a sala de projeção com convites para outros cinco festivais: Nova York, Sidney, Edimburgo, Munique e Seul. Hoje, o longa coleciona participações em mais de 50 mostras de cinema no Brasil e no exterior e 14 prêmios nacionais e estrangeiros, entre eles os de melhor filme na Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, além do prêmio da crítica no festival holandês de sua estreia. Diante da consagração do filme, diz o diretor, "é difícil encontrar o equilíbrio entre o blasé e o fogueteiro".
Com estreia prevista para março na Inglaterra, no Canadá e na Polônia, "O Som ao Redor" será lançado no iTunes em um mês e também deve ser exibido nos canais HBO na América Latina.
O MoMA, o museu de arte moderna de Nova York, onde o longa foi exibido durante o festival New Directors New Films, quer adquirir uma cópia do filme para sua coleção permanente.
"'O Som ao Redor' é particularmente interessante porque, ao mesmo tempo em que é muito brasileiro, cria um ambiente em que o espectador estrangeiro se sente seguro para adentrar uma estrutura social que não é a sua e observá-la através dos olhos do diretor", explica Jytte Jensen, curadora de filmes do MoMA. "Queremos ter o filme na nossa coleção porque ele anuncia a chegada de um diretor de com uma voz extremamente pessoal e original e com uma visão muito cinematográfica, que sabe pensar as imagens."
CRÍTICO
"Kleber fez um filme muito bom, mas o fato de ele ter sido crítico de cinema durante muitos anos ajuda: os colegas acabam sendo mais generosos", suspeita Claudio Assis, diretor pernambucano, amigo do cineasta e autor de filmes como "Baixio das Bestas" (2006) e "A Febre do Rato" (2011). "Não tem jeito, todo crítico é um cineasta frustrado", provoca.
O clichê já foi alvo da ironia de Mendonça. Em um dado momento dos 11 anos em que se dedicou à reportagem e à crítica de cinema -em especial para o pernambucano "Jornal do Commercio", mas também em colaborações eventuais para a Folha-, ele mandou estampar uma camiseta com a frase: "Todo cineasta é um crítico frustrado".
"Você não tem ideia do efeito que esta camiseta tem sobre os diretores. Pega no coração deles", diverte-se.
Cineasta e crítico, programador e cinéfilo, Kleber Mendonça Filho começou, ainda na faculdade de jornalismo, a fazer vídeos -espécie de "primo pobre do cinema". "Meus curtas passavam de tarde nos festivais, em salinhas em queninguém entrava", lembra.
Com o advento tecnológico que transformou o vídeo em cinema digital, Mendonça abandonou os horários esdrúxulos das ilhas de edição do Recife, aqueles desprezados pela publicidade, para trabalhar em casa. Foi o primeiro grande salto em sua produção.
O segundo veio com a consolidação de uma política cultural do Estado do Pernambuco: um fundo, hoje com R$ 11,5 milhões destinados apenas à produção audiovisual, que premia, por meio de editais, cada etapa da produção cinematográfica local. "O fundo tem recursos específicos para o audiovisual, o que permite um nível de produtividade razoável. O filme de Kleber e tantos outros feitos agora são devedores desse sistema", explica Paulo Cunha, cineasta do ciclo pernambucano do Super8, professor de cinema brasileiro da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) e uma das poucas vozes cautelosas quanto à consagração do longa.
"O filme tem questões -que não são defeitos propriamente. Merecia 20 minutos a menos, por exemplo, e ganharia com isso. A tentativa de justificá-lo sociologicamente, de torná-lo erudito, não agrega nada a sua narrativa. Também não estamos diante da reinvenção da linguagem cinematográfica. O filme é e será bem-sucedido, mas não precisa desse movimento incensatório", diz.
Em seu blog no site da revista "Piauí", Eduardo Escorel, cineasta e montador, também abandonou o coro elogioso, que chamou de "surto de ufanismo patrioteiro". E, entre elogios à coragem do cineasta em retratar com realismo moradores comuns do Recife, apontou como falhas a "apatia do elenco" e o "tom monocórdico" que "empobrece os personagens".
CURTAS
"O Som ao Redor" revisita toda a filmografia de curtas do diretor: de "A Menina do Algodão" (2002), pega emprestado o clima sombrio; de "Vinil Verde" (2004), o pesadelo de uma das crianças do filme. De "Eletrodoméstica" (2006), rouba duas cenas inteiras em que Beatriz (Maeve Jinkings) usa o aspirador de pó para dissipar a fumaça do cigarro de maconha e a máquina de lavar em modo centrifugação para se masturbar. Do falso documentário "Recife Frio" (2009), captura dois personagens e volta a chamar a atenção para o quarto da empregada dos apartamentos de alta qualidade, entre aspas -no curta, que relata a situação absurda em que a capital pernambucana sofre com temperaturas abaixo de zero, o local, pequeno e sem ventilação, passa a ser o cômodo mais aconchegante e disputado do apartamento.
Para a curadora do MoMA, mais do que fonte de autocitações, os curtas do cineasta são "a chave para entender como ele foi capaz de tamanha façanha em seu primeiro longa-metragem".
""O Som ao Redor' é um filme que vem sendo feito há muito tempo. Todos os meus curtas fazem parte deste processo. Hitchcock repetia cenas em filmes diferentes. Truffaut revisitou elementos ao longo da carreira", diz o cineasta, relativizando o procedimento. "Tem gente que entende, tem gente que se incomoda com isso."
ENJAULADO
Se toda a carreira anterior de Kleber Mendonça Filho no cinema conduz a seu primeiro longa, é talvez no seu primeiro curta, intitulado "Enjaulado" (1997), que se encontre mais claramente a gênese de "O Som ao Redor". Espécie de rascunho do mal-estar social do longa, o curta retrata a paranoia da segurança nas grandes cidades a partir dos devaneios de perseguição de um rapaz trancado num apartamento repleto de grades nas portas e janelas.
Mas "O Som ao Redor" avança no diagnóstico que faz dessa questão urbana, buscando suas raízes na nossa cultura escravocrata. A ligação entre a aflição presente e a herança passada se anuncia já no prelúdio à ação do filme, uma sequência de fotografias em preto e branco de engenhos de açúcar no interior do Pernambuco. "Essa foi a fagulha do filme. Comecei a perguntar para os meus amigos: o que você acha de um filme em que o engenho seja uma rua moderna do Recife?", lembra ele.
A estrutura social do Brasil no período escravista é um tema familiar ao diretor. Filho da historiadora Joselice Jucá, estudiosa do abolicionista mulato André Rebouças (1838-1898), Mendonça cresceu entre conversas sobre as reformas sociais pensadas e nunca implementadas no Brasil pós-abolicionista. Entre as memórias de sua infância estão ainda visitas à sala de Gilberto Freyre (1900-1987), vizinha da de sua mãe, no antigo Instituto (hoje Fundação) Joaquim Nabuco, no Recife.
Só muitos anos depois, quando viveu em Essex, na Inglaterra, durante o doutorado da mãe, é que tomou conhecimento da obra seminal para a sociologia brasileira produzida por aquele senhor da sala ao lado. "Minha mãe me obrigou a ler 'Casa Grande e Senzala', livro que reli antes de fazer 'O Som ao Redor'", conta ele. Fica claro, portanto, o cineasta dedicar o filme a sua mãe.
"Ela morreu em 1995 e deixou um livro não publicado sobre a reforma agrária proposta por Rebouças, que nunca aconteceu. Ela me ensinou que, no Brasil, os negros se tornaram cidadãos do dia para a noite, sem que nada fosse feito para recebê-los. As consequências disso estão aí até hoje", conclui. "Um sonho que tenho é o de adaptar seu livro para o cinema. Mas, de certa forma, já o adaptei em 'O Som ao Redor'."
Ao legado intelectual da mãe se somou o olhar estrangeiro de sua mulher, Emilie Lesclaux, que chamou a atenção do cineasta para as estranhas relações entre patrões e empregados no ambiente doméstico brasileiro. "Para mim era tudo muito esquisito: havia uma senhora que cuidava da casa de Kleber, mas a relação deles não era nada profissional. Era uma presença totalmente misturada na casa: afeto com trabalho", explica Emilie, que assina a produção do filme.
Antes de se mudar para a casa de Mendonça, a francesa havia vivido no apartamento de um casal de pernambucanos que havia trazido do interior uma garota para as tarefas domésticas. "Uma escravinha", define o cineasta.
Numa possível transferência e atualização dos papéis de brancos e negros da sociedade do açúcar, Francisco é um senhor de engenho, Clodoaldo e seus vigias companheiros são capitães-do-mato, Beatriz é uma escrava recém-alforriada e João, um abolicionista. "João tem uma visão mais aberta da sociedade, mas não consegue ir até o final da luta, o que é algo bem brasileiro", pondera o cineasta.
Para Ismail Xavier, além de Gilberto Freyre, o filme evoca o Brasil de Sergio Buarque de Hollanda: "Tudo se resolve no plano das relações pessoais, de poder, mando e serventia, fora da noção abstrata de cidadania e fora da ordem institucional democrática. É a sobrevivência de certas tradições que a modernização não dissolve".
CINEMA DE ARTE
Entre a crítica e a direção, o pernambucano trilhou ainda uma terceira carreira no cinema: a de programador. Há 15 anos, ele responde pela seleção dos filmes exibidos na principal sala de cinema de arte do Recife, a da Fundação Joaquim Nabuco, no bairro do Derby. Foi ali, em 1989, que o cineasta estagiou com o então programador Marcelo Gomes ("Era uma Vez, Verônica", "Cinema, Aspirinas e Urubus") e que assistiu a muitos dos filmes mais importantes de sua formação, como "A Lira do Delírio" (1978), de Walter Lima Jr.
Hoje, é ele o responsável pela formação de uma nova linhagem de cinéfilos na quarta maior metrópole do país, muitos dos quais se tornaram também cineastas, que gravam com tecnologia digital e editam filmes em laptops.
Mendonça encabeça uma geração de diretores pernambucanos que se apartou da estética regionalista do maracatu, do sertão e da pobreza para privilegiar as tensões urbanas e sociais da metrópole de seu tempo, tendo o passado como manual de instruções.
É assim nas produções mais recentes de Marcelo Lordello ("Eles Voltam"), Gabriel Mascaro ("Doméstica") e Daniel Aragão ("Boa Sorte, Meu Amor").
"Assim como a geração anterior, de Claudio Assis, há um sistema de 'brodagem' que é muito característico da cena do Recife", explica Paulo Cunha. O termo usado pelo professor da UFPE abarca não só a amizade que une o grupo fora dos sets mas também as frequentes parcerias de produção entre os cineastas locais. "Eles se frequentam, fazem projetos comuns e compartilham influências."
"Esses diretores fazem filmes de significação nacional pela via da urbanidade. E são os únicos da cinematografia atual brasileira que enfrentam problemas sociais, de luta de classes. Isso é absolutamente marcante no que chamo de cinema recifense, e não mais pernambucano", explica o crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet.
COTIDIANO
A câmera de "O Som ao Redor" explora a intimidade dos personagens e coloca o espectador nos olhos de um intruso oculto que contempla crônicas do cotidiano -exemplo de uma estética assumidamente realista que Kleber Mendonça Filho apelidou de "lógica da vida". Com isso, obteve uma obra de alcance universal. "Alguns dos eventos que ocorrem entre quatro paredes poderiam ser episódios de uma novela global da banalidade doméstica em Cingapura, San Francisco, Cidade do Cabo ou Dubai", escreveu o crítico A.O. Scott no jornal "The New York Times", que elegeu o filme como um dos dez melhores do ano passado.
Com a trama segmentada em vários núcleos, repartidos em diferentes espaços confinados, apenas o som tem livre circulação. Elementos sonoros contribuem não só para a composição do ambiente e para sublinhar situações -ocupando o espaço convencionalmente dado à música, usada no filme com parcimônia. Aqui, o som ao redor, é,principalmente, um detonador de ações no roteiro. Como o cachorro da casa vizinha à de Beatriz, a personagem de Maeve Jinkings, que passa madrugadas em claro na copa do apartamento em que, fora das telas, moram Kleber e Emilie. O local ainda guarda cicatrizes dos dias em que "O Som ao Redor" foi rodado: nas paredes decoradas com pôsteres de "Barry Lyndon", de Stanley Kubrick, e de "É Tudo Verdade", de Orson Welles, remendos apontam para onde, durante a filmagem, foram fixadas estruturas de iluminação do set.
Mais do que servir de cenário, porém, o lar do casal resume e evidencia o embate entre as ideias do autor e o painel urbano e social retratado no filme.
Para passar do corredor do prédio ao apartamento em si, é necessário destrancar dois portões, duas grades de ferro e uma porta. Ao abrir a última fechadura, que dá acesso à sala, de onde se ouvem as vassouras de piaçava na calçada e a construção do prédio na esquina, Kleber Mendonça fecha a porta, mas esquece o molho de chaves do lado de fora.

    Entrevista Tyler Hamilton

    folha de são paulo

    Era preciso se dopar para chegar entre os primeiros
    Autor de livro sobre Lance Armstrong, ex-ciclista que ajudou a derrubar colega diz que elite usava substâncias proibidas
    PAULO ROBERTO CONDEDE SÃO PAULOO americano Tyler Hamilton, 41, não é santo. Astro do ciclismo mundial nos anos 90 e 2000, foi flagrado em exames antidoping duas vezes e teve de devolver uma medalha de ouro olímpica que ganhou em Atenas-2004.
    Se não destaca-se pelo passado ilibado, Hamilton se apresentou nos últimos anos como defensor do esporte limpo. Para alguns virou traidor. Para outros, exemplo.
    Herói ou vilão, Hamilton foi amigo, escudeiro e confidente de Lance Armstrong, o ícone que ajudou a construir e a destruir. Ambos correram na equipe norte-americana de ciclismo US Postal entre 1998 e 2002, quando o texano venceu três de seus sete títulos da Volta da França.
    Dividiram seringas, hormônios, codinomes e segredos, todos revelados no livro "A Corrida Secreta de Lance Armstrong", que será lançado em português em março.
    Participaram, nas palavras da Usada (Agência Americana Antidoping), do "mais sofisticado, profissional e bem-sucedido programa de doping já visto no esporte".
    Dois anos atrás, Hamilton pôs-se a falar tudo sobre sua vida de dopado. Envolveu, é claro, Armstrong.
    Uma entrevista sua serviu de base para a investigação da agência norte-americana que resultou na cassação dos títulos do ciclista texano de 1998 a 2005 e em seu banimento do esporte.
    Hamilton e outros ex-ciclistas da US Postal deram depoimentos no inquérito.
    Pivô de revelações que derrubaram Armstrong, Hamilton hoje vive em Boulder, no Estado do Colorado.
    Em entrevista por telefone à Folha, disse que o ex-amigo mentiu à apresentadora de TV Oprah Winfrey, quando confessou o uso de doping que havia negado durante anos.
    Hamilton afirmou também que casos de doping foram acobertados pela União Ciclística Internacional.
    Folha - Por que só decidiu escrever um livro muito tempo após ser pego no doping?
    Tyler Hamilton - Eu ainda vivia a mentira e me acostumei a pensar que aquilo que fazia era certo. Depois, pude refletir e ver que tudo o que vivi era uma farsa. Foi difícil me abrir no começo e falar com minha família. Dá para imaginar o quanto sofri?
    Pensou em algo mais extremo, como reclusão ou até suicídio?
    Pensei. Não vou negar que esse pensamento passou pela minha cabeça. Mas, graças a Deus, eram só pensamentos. Família, filhos e amigos ajudaram a me reerguer.
    Depois que publicou "A Corrida Secreta" e depôs para a Usada, sofreu ameaças?
    Recebi ameaças até recentemente. Principalmente ameaças por e-mail, nunca pessoalmente. São coisas que acontecem com quem se indispõe com pessoas de poder. Não gosto de falar a respeito, mas recorri até ao FBI para ter proteção. Fiquei preocupado com minha família.
    Você mantém algum relacionamento com Armstrong?
    Não tenho o menor tipo de relação com ele. E acho que está muito bem assim.
    Ele não testemunhou e preferiu dar entrevista. Por que acha que adota essa tática?
    Não sei. Mas, se ele não for à corte, tudo o que disse na entrevista não passa de uma farsa. Para mim, é obrigação ele se voluntariar e ir depor.
    Assistiu à entrevista dele com Oprah Winfrey?
    Sim. Armstrong não contou tudo o que sabia. Na verdade, só falou de si. Evitou envolver pessoas ou entidades. Há muito mais a ser dito.
    Em sua opinião, ele mentiu ou apenas omitiu fatos?
    Mentiu em vários momentos na entrevista. Lance fugiu de questões difíceis.
    Se Armstrong insistir em não ir à Justiça confessar, qual deveria ser a punição?
    Não cabe a mim decidir isso. Mas, se ele for sincero em querer fazer a coisa certa, terá de confessar às agências antidoping tudo o que sabe.
    Qual é seu sentimento em relação a ele atualmente?
    Estou em ótima fase em minha vida. Não tenho raiva dele. Relaxei. E entendo o que Lance sofreu porque vivenciei tudo isso dois anos atrás.
    Armstrong chorou durante a entrevista a Oprah. Para você, foi uma reação genuína?
    Acredito que foi verdadeiro. Deve ter sido muito difícil para ele contar para os filhos.
    Afirma-se que ele deu a entrevista e confessou para ter sua punição reduzida e poder voltar ao triatlo. Concorda?
    Não sei a razão de ele ter ido a público. O importante é que ele confessou. Ele confessou um doping, algo que eu jamais imaginava ser possível. Foi um grande passo.
    Você mantém contato com ex-companheiros da US Postal?
    Floyd Landis e eu conversamos de vez em quando. Mas eu não falo com outros.
    Em depoimento à Usada, você disse que Armstrong foi flagrado dopado na Volta da Suíça, em 2001. Ele negou na entrevista. Era mentira, então?
    Mentiu. Ele me contou pessoalmente que havia sido pego. Queria que ele nunca tivesse me falado aquilo, em meu rosto, mas disse. Armstrong foi pego naquele teste antidoping na Suíça.
    Em sua denúncia sobre a Volta da Suíça, a UCI estaria envolvida e acobertou o doping.
    Qualquer um sabe que a UCI foi corrupta no passado. É uma entidade que ainda não consegue responder as perguntas difíceis. A direção dela tem de mudar. Quanto mais rapidamente a estrutura for mudada, melhor. Precisa de um novo líder. Pat McQuaid [atual presidente] e Hein Verbruggen [o antecessor] não são boas lideranças, para dizer o mínimo.
    A UCI acobertou outros casos?
    Só posso falar do tempo em que corri. Mas a UCI com certeza escondia resultados positivos de testes antidoping. Vários casos de que tenho ciência foram acobertados.
    É possível que um ciclista termine a Volta da França, por exemplo, sem doping?
    Disputei a Volta da França de 1997 a 2004, e todos os ciclistas do pelotão principal se dopavam. Serei mais claro: Seria possível sobreviver ao Tour sem doping? Sim, seria, mas com certeza terminaria no fim do pelotão. Para competir realmente e brigar pelo título ou ficar entre os dez primeiros, era preciso se dopar.
    "A CORRIDA SECRETA DE LANCE ARMSTRONG"
    AUTORES Daniel Coyle e Tyler Hamilton
    EDITORA Seoman
    PREÇO SUGERIDO R$ 36
    Lance Armstrong
    Ícone do ciclismo, jamais assumiu se dopar. Investigação o acusou de liderar esquema de doping. Perdeu todos os títulos entre 1998 e 2005 e vários patrocínios. Confessou o uso de substâncias proibidas em entrevista, mas não testemunho sobre juramento à Usada
    Oprah Winfrey
    A apresentadora recebeu Lance e fez uma extensa entrevista, transmitida em janeiro. No programa, Lance chegou a chorar, mas fugiu de perguntas como os supostos dopings acobertados
    Usada
    Agência antidoping dos EUA, promoveu uma caçada a Lance. Reuniu depoimentos e provas acusando o texano de se dopar
    UCI
    A União Ciclística Internacional é acusada de ter acobertado casos de doping de Lance no passado
    Volta da França
    Maior competição do ciclismo mundial. Lance a venceu sete vezes, mas perdeu todos os seus títulos. O atual campeão da prova é o britânico Bradley Wiggins
    George Hincapie
    Principal amigo e escudeiro de Lance na US Postal, foi o último a prestar depoimento à Usada. Quando o fez, em setembro, a agência deu o caso por encerrado e publicou dossiê, posteriormente acatado pela UCI


      RAIO-X - TYLER HAMILTON
      NASCIMENTO
      1º.mar.71, em Marblehead, Massachusetts (EUA)
      CARREIRA
      Virou profissional em 1995. Correu por US Postal (1995-2001), CSC (2002-2003), Phonak (2004), Tinkoff (2007) e Rock Racing (2008). Aposentou-se em 2009
      CONQUISTAS
      Ouro na prova contrarrelógio nos Jogos de Atenas-2004 (devolveu medalha ao Comitê Olímpico Internacional em 2012). Venceu etapas da Volta da França, da Volta da Espanha e do Giro da Itália
      DOPING
      Foi flagrado duas vezes: em 2004, na Olimpíada de Atenas e na Volta da Espanha (pegou dois anos de suspensão); em 2009, foi apanhado com esteroide e optou por deixar o ciclismo

        Morador de favela está 'superligado' à internet, diz pesquisa

        folha de são paulo


        Daniel Marenco/Folhapress
        Vinícius de Lima, 19, usa o laptop da irmã na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro
        Vinícius de Lima, 19, usa o laptop da irmã na favela da Rocinha, no Rio; usuários priorizam as redes sociais
        No Rio, 90% dos jovens de cinco áreas de baixa renda acessam a rede
        Usuários priorizam redes sociais como o Facebook, mostra levantamento feito com 2.000 entrevistas
        FABIO BRISOLLADO RIONove entre dez moradores de favelas cariocas, com menos de 30 anos, acessam a internet. A maioria utiliza o computador de sua própria casa. Quando conectados, os usuários priorizam redes sociais, como o Facebook.
        As constatações citadas integram uma pesquisa com residentes, entre 15 a 29 anos, de cinco áreas de baixa renda: Rocinha (zona sul), Cidade de Deus (zona oeste), Manguinhos e os complexos do Alemão e da Penha (zona norte).
        O levantamento, baseado em 2.000 entrevistas, foi produzido entre os dias 17 e 22 de dezembro de 2012 para o projeto Solos Culturais, uma parceria da Secretaria Estadual de Cultura com a ONG Observatório das Favelas.
        Segundo os pesquisadores, a adesão à internet dessa parcela da população sinaliza mudanças.
        "O cidadão invisível na rua aos olhos da sociedade consegue ser reconhecido em redes sociais como o Facebook. O excluído está alçando virtualmente sua visibilidade. Isso é uma revolução no imaginário da cidade", avalia Jorge Luiz Barbosa, professor do Departamento de Geografia da UFF (Universidade Federal Fluminense) e diretor do Observatório das Favelas.
        Ele acredita que a internet pode estabelecer laços até então pouco explorados.
        "O garoto da favela posta um vídeo com passos de funk no YouTube que acaba sendo visto pelo menino do condomínio de luxo. Esses cruzamentos culturais permitem a esperança em uma sociedade mais generosa com suas diferenças", diz Barbosa.
        MEMÓRIA ARMAZENADA
        Além de marcar presença em redes sociais, os internautas entrevistados afirmam que costumam armazenar sons, fotos e vídeos.
        Essa coleção pessoal criada por cada usuário é citada também como algo inédito.
        "Antes, uma pessoa de classe baixa não tinha condições de comprar uma máquina fotográfica. Hoje, qualquer celular tira foto, o que possibilita a construção de uma memória que por muitas gerações não existiu", avalia o diretor do Observatório das Favelas.
        O levantamento mostrou ainda que o complexo do Alemão registrou o maior número de usuários habituados a baixar músicas: 85,2% dos internautas da região.
        "Essas pessoas passaram a ter acesso a bens culturais simbólicos, como é o caso da música. Por isso, elas começam a construir seu próprio acervo de informação", diz Gilberto Vieira, produtor executivo do projeto.
        O conjunto de favelas da Penha atingiu o índice mais alto de usuários do Facebook, com a participação de 93,42% do total de entrevistados com acesso à rede.
        O uso da internet como ferramenta para os estudos também chamou a atenção.
        No complexo da Penha, em cada grupo de dez internautas, sete afirmaram recorrer às ferramentas de buscas virtuais para realizar trabalhos escolares.
        A pesquisa realizada nas favelas cariocas vai resultar no livro "Solos Culturais", que deve ser lançado até o final deste mês.


          Acessos em casa disparam, e LAN houses 'naufragam'
          Morador vende pacote 'paralelo' de internet
          DO RIOSegundo a pesquisa do projeto Solos Culturais, o uso de computadores em residências nas favelas já supera os acessos feitos em LAN houses -tradicional ponto de encontro dos internautas em áreas de baixa renda.
          O comerciante Alexandre Ferreira, 43, já havia percebido a mudança na prática.
          "Eu fundei uma das primeiras LAN houses da Rocinha, mas acabei fechando porque o movimento caiu muito", diz Ferreira, que encerrou as atividades em 2010.
          Com a crise, ele vislumbrou um novo negócio.
          "Percebi que todo mundo estava comprando computador e comecei a vender o acesso à internet. No início, de uma maneira talvez até ilegal", reconhece o comerciante, que procurou formalizar sua empresa após a ocupação da favela pelas forças policiais, em novembro de 2011.
          "Agora, eu compro o link de uma operadora e distribuo pela Rocinha. Tudo legalizado", afirma ele.
          A empresa de Ferreira alcançou mais de 1.500 clientes em pouco mais de um ano de funcionamento. Até ele se surpreende: "Tem casa que não tem geladeira, mas tem computador", conta.
          Vinícius Santiago de Lima, 19, mora em uma casa de dois pavimentos em um dos becos próximos ao valão, canal existente na parte baixa da favela da Rocinha que propaga mau cheiro ao longo de seu percurso.
          O rapaz tem 863 amigos no Facebook. Sua página reúne 373 fotos pessoais.
          Ele cita uma das imagens postadas (onde aparece de terno), que motivou 55 comentários e 18 curtidas (saudação popular entre usuários do Facebook). Uma repercussão recorde de seu perfil virtual, segundo o jovem.
          Lima usa o laptop da irmã mais velha, que comprou o equipamento no ano passado. "Já cheguei a passar o dia inteiro, mais de 12 horas seguidas, no Facebook. Fico conversando com as pessoas durante a maior parte do tempo", explica ele, que também costuma baixar músicas.
          Já armazenou em um pen drive "uns 500 pagodes e uns 300 raps", empolga-se.

            Clovis Rossi

            folha de são paulo

            A igreja, o papa e a democracia
            A fé pode sobreviver por outros dois milênios e até mais, mas, sem se abrir, o papado perde força
            ROMA - Suzana Singer, a competentíssima jornalista e ombudsman desta Folha, cobrou, na quinta-feira, em sua crítica interna: "Falta tentar mensurar o tamanho do poder do papa. Qual a sua real influência fora do mundo clerical?".
            Coincidência, Suzana, mas eu vinha pensando nisso desde a segunda-feira em que aFolha me cortou as férias para cobrir a renúncia de Bento 16. Só sinto que minha soberba ainda não tenha chegado ao ponto de achar que posso responder.
            Uma única resposta me parece óbvia: só uma instituição muitíssimo poderosa poderia resistir impávida a dois milênios de história, crises, confusões, guerras, paz e tudo o mais, segurando, hoje, 1,2 bilhão de fiéis. A mensagem, a Palavra, é, pois, tremendamente poderosa, ainda mais se se considerar que Cristo é também o eixo de sustentação de milhões mais que preferem outras denominações, e não a católica.
            Mesmo as novas igrejas evangélicas, que estão roubando público do velho catolicismo, o fazem vendendo a sua interpretação da palavra de Deus -e o verbo vender vai mesmo sem aspas, que você me entende. Outra coisa, no entanto, é dimensionar "o tamanho do poder do papa". Eu não sei. Talvez nem seja mensurável.
            Minha sensação, no entanto, é a de que os papas vêm perdendo apelo contínua e crescentemente. OK, sensações são traiçoeiras, mas já escrevi bastante tempo atrás, em outro espaço desta Folha, que viagens de João Paulo 2º ao Brasil, por exemplo, podem ser um enorme sucesso de público, atos de "pop star", mas seus efeitos desaparecem assim que o papa sobe as escadas do avião para ir-se embora.
            Se ele convertesse os não crentes, o número de fiéis subiria no Brasil, em vez de cair, antes e depois das várias visitas do anterior e do atual papa. Por quê? É tema para sociólogos e antropólogos, não para meros repórteres.
            A minha sensação -e, repito, sensações são traiçoeiras- é a de que algo tem a ver com democracia, com a arquicitada frase "Roma locuta est, causa finita est", ou seja, com o espírito predominante na hierarquia católica segundo o qual, se Roma falou, não cabe mais discutir questões doutrinárias.
            O avanço da ideia das liberdades públicas tornou obsoleto esse "diktat" imperial, erroneamente atribuído a santo Agostinho. O próprio Bento 16 produziu uma frase, na audiência com os párocos de Roma, na quinta-feira, que renega essa verticalidade tão absoluta: "Nós, cristãos, somos todos o corpo vivo de Cristo".
            Corpos vivos querem participar, querem ter voz em tudo o que diz respeito às suas vidas e às de suas comunidades. De alguma forma, o Concílio Vaticano 2º, que está completando 50 anos, abriu a igreja para esse caminho, mas ele foi fechado nas décadas seguintes, especialmente com João Paulo 2º e Bento 16.
            Resta saber se o Colégio de Cardeais preferirá a inércia de acreditar que o que durou dois milênios durará para sempre do jeito que está ou reabrirá o caminho para que os fiéis deixem de ser súditos e se sintam de fato parte do "corpo vivo de Cristo".